Kallas: “A Rússia não é uma superpotência.”

(In canal do Telegram ISLANDER, 16/02/2026, Trad. Estátua)


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Realidade: Moscovo supera a NATO 4 para 1 na produção de munições, sangra a Ucrânia numa proporção de 37 para 1, possui mísseis hipersónicos que a Europa não consegue deter e é a quarta maior economia em termos de paridades de poder de compra. A Europa fechou as suas fábricas e chamou isso estratégia.

Kaja Kallas estava presente na 62ª Conferência de Segurança de Munique, no Hotel Bayerischer Hof, onde o Império Atlântico se reunira – não para projetar poder, mas para realizar a sua própria autópsia enquanto o paciente ainda respirava — e apresentou o que ela imaginava ser o argumento final de um promotor contra a fraqueza russa.

Kallas. Kaja Kallas. A mulher que, em março de 2022, anunciou que a economia da Rússia entraria em colapso em poucos meses devido às sanções. Que previu que a Ucrânia estaria na NATO até 2024. Que declarou a Rússia “estrategicamente derrotada” no verão de 2023. Esta é a mulher que nomeou os sócios do marido para cargos-chave no governo da Estónia — um escândalo que teria acabado com qualquer carreira política normal, mas que, em vez disso, a catapultou para Bruxelas, onde investigações de corrupção não acontecem (alguns diriam que são um pré-requisito) e a responsabilização não existe. Uma ascensão meteórica de Tallinn a Bruxelas, da incompetência à imunidade, de previsões caricatas a, apropriadamente, tornar-se a voz da política externa da UE.

A chefe da política externa da UE, cargo que ocupa não por competência, mas porque está invariavelmente, previsivelmente e catastroficamente errada exatamente da maneira que Bruxelas exige.

E lá estava ela, dizendo aos eurocratas reunidos que a Rússia “não é uma superpotência”. A economia está “em frangalhos”. Após quatro anos de guerra em grande escala, Moscovo “mal avançou além das linhas de 2014”, ao custo de 1,2 milhão de baixas.

Do lado de fora, 120 mil manifestantes tomaram as ruas de Munique — a maior mobilização nos 63 anos de história da conferência. Eles entendiam algo que Kallas, lá dentro, não entendia: esta guerra está a levar a Europa à falência enquanto enriquece os financiadores de Kaja.

Lá dentro, Friedrich Merz — o chanceler alemão da BlackRock que herdou um cenário catastrófico onde antes existia uma economia próspera — abriu a sessão com palavras que deveriam ter levado todos os presentes a reavaliar completamente a sua visão de mundo: “Essa ordem, por mais falha que tenha sido mesmo no seu auge, não existe mais.

A ordem internacional baseada em regras. Morta. Merz confirmou. Não foi Putin. Não foi Xi. O suposto campeão do centro-direita da indústria alemã, o suposto defensor do antigo modelo económico, forçado a proferir a última sentença sobre o próprio sistema que construiu a sua carreira. O chanceler alemão, de pé no pódio em Munique, declarando o fim do acordo pós-1945, enquanto Marco Rubio, sentado na plateia, anotava.

Mas Kallas insistiu. Porque Kallas insiste sempre. Ela tinha os seus argumentos inspirados no universo Marvel, cuidadosamente preparados por funcionários que também não entendem como o mundo funciona. Ela tinha a sua narrativa. E tinha um número sobre o qual ela precisava desesperadamente, urgentemente, catastroficamente que a sala NÃO pensasse. Vamos falar sobre esse número.

A aritmética escrita em caixões de zinco

29 de janeiro de 2026: A Rússia transferiu 1.000 corpos ucranianos através da fronteira entre a Bielorrússia e a Ucrânia. A Ucrânia devolveu 38 corpos russos. Leia isso de novo. Mil para trinta e oito. Em 2025, o balanço completo foi o seguinte: a Rússia transferiu 14.480 corpos de volta para a Ucrânia e recebeu 391. Isso representa uma proporção de 37 para 1. Trinta e sete ucranianos mortos por cada russo morto. De 2025 até ao início de 2026, algumas trocas chegaram a atingir a proporção de 40 para 1.

Esses dados não são estimativas. Não são informações de canais do Telegram nem declarações do Ministério da Defesa russo. Esta, é a única métrica em toda esta guerra, em que ambos os lados têm um incentivo enorme para relatar honestamente. Quando a Rússia entrega 1.003 corpos e recebe 26 em troca, as proporções de baixas deixam de ser propaganda e passam a ser evidências que seriam aceitas em qualquer tribunal do mundo.

Esta é a matemática do sangrento desgaste industrial, escrita não em apresentações de PowerPoint, mas no peso dos cadáveres transportados através de fronteiras internacionais sob o testemunho da Cruz Vermelha.

E eis a amarga ironia cósmica. Nesta mesma conferência, Zelensky declarou: “O exército ucraniano é o exército mais forte da Europa.” Nenhum líder europeu se opôs. Nem Kallas. Nem Merz. Nem Macron. Nem Epstein (os representantes de Keir) comprometeram Keir Starmer. Todos concordaram com a cabeça.

O exército mais forte da Europa. A ser sistematicamente destruído numa proporção de 37 para 1. Por uma nação cuja economia, segundo Kallas, está “em frangalhos“. A força militar mais poderosa que a Europa pode mobilizar — armada com armamento da NATO, alimentada por informações de inteligência da NATO, treinada por conselheiros da NATO, guiada por reconhecimento via satélite da NATO e executando a doutrina da NATO elaborada em Fort Leavenworth e Sandhurst — está sendo aniquilada metodicamente em proporções que, fariam a catástrofe da Wehrmacht em Kursk, parecer um confronto.

Essas proporções explicam o porquê da Ucrânia estar a recrutar à força homens na casa dos sessenta anos nas ruas de Kiev. O porquê de Zelensky reduzir a idade de alistamento para 25 anos e depois discutir a hipótese de a reduzir ainda mais. O porquê de as cidades ucranianas estarem vazias de homens em idade militar, pois fugiram para o ocidente ou esconderam-se. A matemática de 37 para 1 não apenas enfraquece um exército. Ela enfraquece uma nação.

O que a Rússia realmente realizou

Deixem-me explicar uma coisa à Kallas e todos os outros idiotas com credenciais naquela sala de conferências em Munique: A Rússia não está apenas desmilitarizando a Ucrânia. A Rússia está desmilitarizando a própria NATO.

Todas as baterias Patriot destruídas. Todos os sistemas HIMARS neutralizados (com as suas respetivas tripulações americanas). Todos os tanques M1 Abrams queimados. Todas as torretas dos Leopard 2 arrancadas a quarenta metros do chassi. Todos os tanques Storm Shadow abatidos. Todos os ATACMS intercetados. Todos os tanques britânicos Challenger reduzidos a sucata. Todos os tanques franceses Caesar reduzidos a pó.

Essas perdas não são perdas ucranianas: são perdas da NATO. Os sistemas que a Ucrânia utiliza são sistemas da NATO. A inteligência provém de satélites da NATO, com aeronaves AWACS da NATO sobrevoando o espaço aéreo polaco. Os pacotes de alvos para ataques em território russo são originados em células de fusão da NATO em Ramstein e Lakenheath. Quem são os “conselheiros” que operam sofisticados sistemas ocidentais que exigem autorizações de segurança? É pessoal da NATO, usando distintivos ucranianos para as câmaras, morrendo com uniformes ucranianos para alimentar a narrativa, voltando para casa em caixões marcados com “acidente de treino“.

Isto nunca foi um conflito bilateral. Isto é a NATO — 32 nações representando mais de 50% do PIB global nominal (falaremos mais sobre o valor nominal mais à frente), enfrentando a Rússia num conflito de desgaste industrial. E a NATO está a perder de forma humilhante.

E eis o que isso significa, em termos doutrinários, que deveriam aterrorizar os planificadores da NATO: todos os cenários de guerra, todos os planos operacionais, todas as contingências — todos pressupõem o reabastecimento de munições. Essa premissa, agora, é comprovadamente falsa. O Artigo 5 da NATO tem um corolário tácito: a aliança é tão forte quanto o seja a base industrial do seu membro mais fraco. A base industrial de todos os membros é agora muito mais fraca do que a da Rússia. O Artigo 5 é uma garantia de segurança que não vale o papel em que está escrito.

Em outubro de 2023, o almirante da NATO, Rob Bauer, alertou que o Ocidente havia chegado ao “fundo do poço” em termos de munições. Isso foi há mais de dois anos. Agora, a situação é ainda pior. O tempo de espera por munições de grosso calibre aumentou de 12 para 28 meses. Antes de deixar o cargo, Stoltenberg admitiu: “Os gastos da Ucrânia com munições são muitas vezes maiores do que nossa taxa de produção atual.”

Os Estados Unidos, o país que construiu um navio Liberty por dia durante a Segunda Guerra Mundial, suspenderam as entregas de mísseis Patriot, Stinger, projéteis de 155 mm, Hellfire e GMLRS à Ucrânia em julho de 2025. Não porque Washington tenha abandonado Kiev (embora deseje desesperadamente estancar a sangria), mas sim porque, auditorias do Pentágono, revelaram que os stocks americanos ameaçavam a própria capacidade de combate dos Estados Unidos contra a China.

O arsenal da “democracia” está a esgotar-se

Uma pesquiza da Nammo estimou que seriam necessários 40 anos para repor os stocks esgotados da NATO, considerando as taxas de produção de 2024. Quarenta anos para substituir o que a Rússia consumiu em menos de quatro.

Enquanto isso, segundo a Inteligência Estrangeira da Estónia, a Rússia produziu 7 milhões de projéteis de artilharia — o número real é ainda maior, incluindo morteiros e foguetes, somente em 2025. Um aumento de dezassete vezes em relação aos 400 mil de 2021. Enquanto a Europa construía ciclovias, a Rússia construía fábricas de projéteis.

E a produção combinada da NATO em 2025? Aproximadamente 1,7 milhões de projéteis nos Estados Unidos e em toda a Europa. A Rússia produz, em menos de três meses, o que a NATO produz em doze, enquanto ocupa apenas um teatro de guerra – para não mencionar as perdas sofridas durante a guerra dos 12 dias com o Irão ou as perdas que remontam a 2019 com os Houthis.

O colapso industrial a que chamávamos estratégia

O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, tem discursado em pódios por toda a Europa, repetindo um alerta com crescente desespero: “A Rússia produz em três meses o que toda a NATO produz num ano.” A NATO, cujo PIB combinado é supostamente 25 vezes maior que o da Rússia, produz em doze meses o que a Rússia produz em noventa dias. A produção de munições da Rússia supera a de toda a aliança ocidental em quatro a sete vezes.

Os EUA pretendem produzir 100.000 projéteis por mês até o final de 2026. A Rússia já produz aproximadamente 600.000 por mês. A Rheinmetall, da Alemanha, planeia atingir 700.000 projéteis por ano até 2026. A Rússia produz essa quantidade em cinco semanas.

Mas isto, garante Kallas aos verdadeiros crentes em Munique — nenhum dos quais jamais operou um torno ou compreendeu que o poder emana da produção de coisas —, é o resultado de uma nação “em frangalhos“.

A Alemanha perdeu 245.000 empregos na indústria transformadora desde 2019. A sangria acelerou-se até 2025: mais de 10.000 empregos na indústria transformadora perdidos mensalmente. Tais empregos não vão voltar. As aptidões estão a desaparecer. O conhecimento está a morrer (a ironia de construir uma economia do conhecimento) com a última geração que sabia como produzir coisas.

Percorra o Vale do Ruhr e veja o que encontramos. Siderúrgicas fechadas transformadas em “espaços culturais” onde as pessoas tomam café sobrefaturado. Altos-fornos inativos convertidos em museus, como se a indústria fosse arqueologia. As grandes forjas da Thyssen e da Krupp, silenciosas. Os laminadores, frios. “Polos de inovação” onde nada é produzido, exceto apresentações de inteligência artificial sobre economia circular e disrupção sustentável.

Ninguém forçou essas situações. Os sumos-sacerdotes sentaram-se em salas de reuniões e ministérios do governo e escolheram isso, deliberadamente, com pleno conhecimento de causa. A produção industrial da Alemanha caiu durante sete trimestres consecutivos até ao início de 2026. A produção manufatureira vem a diminuir desde 2017 — antes da guerra, antes do COVID. Foram escolhas políticas. Foi ideologia.

A Volkswagen anunciou o encerramento de fábricas na Alemanha, pela primeira vez em 87 anos. Nem durante a Segunda Guerra Mundial. Nem durante a divisão e a reunificação. Até 2008. Nunca fechou. Até agora. Mais de 35 mil postos de trabalho foram cortados.

A Câmara de Comércio Alemã relata que 82% das empresas alemãs enfrentam uma grave escassez de mão-de-obra qualificada. Não se constroem estruturas sem pessoas que saibam como construí-las. A participação da indústria na economia alemã baixou de 40% em 1990 para 27% atualmente — e continua a cair.

A ThyssenKrupp Steel Europe anunciou a redução de seu quadro de funcionários de 27.000 para 16.000. Bosch, Schaeffler, Siemens, BASF: um obituário industrial para um continente que se convenceu de que poderia substituir a manufatura pela consultoria.

A Europa perdeu 800 mil empregos na indústria transformadora desde o início da pandemia. A Rússia criou 520 mil empregos no setor da defesa desde fevereiro de 2022. No início de 2026, o setor da defesa russo empregará 4,5 milhões de pessoas na fabricação de tanques, mísseis, projéteis, drones, sistemas de guerra eletrónica, artilharia e veículos blindados. Essa, não é a diferença entre uma superpotência e uma nação “em frangalhos“. Essa, é a diferença entre uma civilização que mantém a capacidade de produzir, e uma que se financeirizou ao ponto de se tornar irrelevante na era pós-industrial.

Nós (coletivamente, nós) convencemo-nos de que uma economia de serviços poderia substituir a produção. Que a civilização poderia funcionar com base em honorários de consultoria e derivados. Que a manufatura era “economia antiga” e poderia ser terceirizada, enquanto a Europa iluminada se concentrava na “economia do conhecimento“. A ironia, é que o conhecimento está a ir-se embora e não voltará.

Você não consegue destruir tanques com a economia do conhecimento. Você não consegue deter mísseis hipersónicos com liderança intelectual. Você não consegue vencer guerras industriais com palestras TED sobre disrupção.

O suicídio energético e a mentira

Mas, para perceber a profundidade abissal da autoilusão europeia — o momento em que o suicídio estratégico se disfarçou de vitória moral — basta olhar para o Nord Stream.

Kallas vangloria-se de que a Rússia foi “desconectada dos mercados energéticos europeus“. E ela apresenta isso como um triunfo estratégico.

26 de setembro de 2022: explosões subaquáticas destruíram três dos quatro gasodutos Nord Stream. Cada detonação continha entre 300 e 400 quilos de C-4. Uma ação que exigia planeamento ao nível de um Estado, e algo que somente os EUA sob Biden possuíam: recursos navais, expertise em mergulho técnico e capacidade de demolição militar.

A resposta da Europa: a transição para o GNL americano, a um preço três vezes maior e sem garantia de fornecimento. Os custos de energia para os fabricantes alemães saltaram de € 60-80 por megawatt-hora para € 180-240. A indústria alemã entrou numa espiral descendente da qual não se recuperou e não se recuperará. O governo alemão também fechou as centrais nucleares que ainda restavam. Virtude ambiental, foi assim que lhe chamaram. Energiewende. Na prática: autoimolação económica, já que o gás russo é substituído por GNL americano a um custo três vezes maior.

Eis o que isso implica para o trabalhador alemão, o operário francês, o siderúrgico italiano: os seus empregos exportados para os Estados Unidos sob a forma de lucros com a energia. Biliões transferidos dos bolsos dos trabalhadores europeus para as empresas americanas de GNL. As pessoas que tomaram essas decisões — Kallas, Von der Leyen, o comissariado de Bruxelas —, nunca deixarão de receber um salário. O operário de fábrica em Essen? Está desempregado. O soldador em Lyon? Demitido. O eletricista em Madrid? Anda à procura de um emprego que não existirá mais.

Isto é uma guerra de classes disfarçada de política climática. É uma transferência de riqueza dos europeus para o capital americano, aplaudida pelas elites europeias que acreditam que nunca sofrerão as consequências. A Rússia redirecionou as exportações de gás para a China e a Índia — economias que de facto produzem e crescem. Economias que representam o futuro real do consumo global.

Quem sabotou o Nord Stream? A Suécia e a Dinamarca já haviam investigado, sabendo que se tratava de terrorismo perpetrado por um suposto aliado, mas arquivaram os casos em 2024 sem atribuir responsabilidades — uma decisão admitida em privado como uma tentativa de “enterrar o caso“. A Alemanha prendeu um ucraniano simbolicamente, alegando, sem qualquer constrangimento, que uma pequena equipa usou um iate alugado para colocar centenas de quilos de explosivos militares a 80 metros de profundidade. É de se acreditar nisso? Um iate alugado realizando uma das operações de sabotagem de infraestruturas mais sofisticadas da história?!

Seymour Hersh, que desmontou os atentados de My Lai e Abu Ghraib, apresentou os argumentos a favor do envolvimento do governo de Biden. Mergulhadores da marinha, apoio norueguês, autorização direta da Casa Branca. Biden declarou publicamente em fevereiro de 2022: “Se a Rússia invadir, não haverá mais Nord Stream 2. Nós acabaremos com ele.” Eentão, tudo acabou.

A liderança europeia optou por acreditar que desconectar-se do gás russo barato e substituí-lo pelo caro GNL americano constituía autonomia estratégica. Isso foi alcançado tornando-se dependente dos navios-tanque de GNL americanos.

O resultado? A base industrial da Alemanha está em colapso terminal. O PIB contraiu 0,2% em 2024, ampliando a contração de 0,3% já registrada em 2023. Metade dos setores industriais alemães prevê cortes de empregos em 2026. Kallas chama isso “estratégia”. O termo correto é sabotagem.

A lacuna de mísseis que a Europa se recusa a discutir

A Rússia implantou três sistemas hipersónicos operacionais. Não estão “em desenvolvimento”. Estão operacionais. Já.

O míssil balístico Kinzhal, lançado do ar, operacional desde 2018, com velocidade superior a Mach 10. Míssil de cruzeiro naval Zircon, em produção em série desde 2024, com propulsão scramjet, velocidade sustentada entre Mach 8 e 9. Míssil balístico de alcance intermédio Oreshnik, com capacidade MIRV demonstrada em combate em novembro de 2024 contra Dnipro, alcance superior a 5.500 quilómetros, atingindo Paris ou Berlim em menos de 20 minutos. O míssil Oreshnik atinge alvos mais rapidamente do que os sistemas de alerta antecipado da NATO conseguem completar a cadeia de destruição. Com um único míssil, múltiplos veículos de reentrada podem ser alvejados independentemente, atingindo múltiplos alvos simultaneamente. Configuração nuclear: ogivas de 100 a 300 quilotons.

Os Patriotas ucranianos afirmam ter intercetado o míssil Kinzhal, mas apenas quando este desacelera para Mach 4-5 durante a aproximação final. O Oreshnik mantém a velocidade hipersónica (Mach 10 na fase terminal) até ao impacto. Sem desaceleração. Sem janela de oportunidade. Não há intercetação possível.

A Europa não tem defesa contra isso. Nenhuma. Menos que zero. A Alemanha ativou a sua primeira bateria Arrow 3 no final de 2025. O Fundo Europeu de Defesa alocou € 168 milhões para contramedidas hipersónicas para 2026, valor que mal cobre estudos de viabilidade, quando as necessidades reais chegam a dezenas de biliões.

A Rússia também possui ainda:

  1. O veículo hipersónico planador Avangard, operacional desde 2019, com velocidades superiores a Mach 20;
  2. O míssil balístico intercontinental pesado Sarmat, com carga útil de dez toneladas e alcance de 18.000 quilómetros;
  3. O míssil de cruzeiro Burevestnik, movido a energia nuclear e com alcance ilimitado, testado com sucesso em outubro de 2025, sob o olhar impotente dos navios de reconhecimento da NATO em águas internacionais — a mensagem de Putin foi explícita: “Deixemos que observem”. Eles observaram. Anotaram tudo. Elaboraram relatórios que foram classificados e ignorados;
  4. O veículo submarino Poseidon, movido a energia nuclear, que opera a profundidades até 1.000 metros, onde nenhum torpedo ocidental consegue chegar, carregando cargas úteis capazes de tornar cidades costeiras inabitáveis ​​durante décadas.

A diferença tecnológica não está a diminuir. Pelo contrário, está aumentando. Mas a Rússia “não é uma superpotência”, afirma Kallas.

Os números da PPC que a Europa se recusa a reconhecer

O PIB da Rússia, medido em paridades de poder de compra (PPC), deverá atingir US$ 6,92 triliões em 2024. É a quarta maior economia do mundo, atrás apenas da China, dos EUA e da Índia. A Rússia ultrapassou o Japão — a diferença dobrou para US$ 514 bilhões num ano. A economia russa é agora a maior da Europa em PPC, a crescer enquanto a da Alemanha se contrai.

O FMI confirma: a Rússia representa 3,55% do PIB global em termos de paridades de poder de compra (PPC). Japão: 3,38%. O Banco Mundial reclassificou a Rússia como país de alto rendimento em 2024.

As Paridades de Poder de Compra (PPC) medem o que uma economia realmente consegue produzir internamente. Ao administrar uma economia de guerra, produzindo 7 milhões de projéteis por ano e construindo mísseis hipersónicos, o que importa não é o PIB nominal medido à taxa de câmbio do dólar. O que importa é: quanto aço se consegue forjar? Quantos explosivos se conseguem fabricar? Quantos rolamentos de esfera, quantas placas de circuito impresso, quantos motores a diesel e quantos canos de artilharia, a economia consegue gerar?

O PIB em paridades de poder de compra (PPC) da Rússia é 2,81 vezes o seu PIB nominal. Uma economia baseada na produção. Na fabricação de bens. A Europa construiu sua economia com base em consultoria, conformidade orwelliana, crédito e derivativos financeirizados. Kallas olha para as taxas de câmbio e vê fragilidade. Ela deveria olhar para o volume de produção e prever a extinção da Europa, a menos que haja uma mudança revolucionária de rumo.

Conclusão: Kallas não consegue falar

“As exigências maximalistas da Rússia”, alerta Kallas, “não podem ser atendidas com uma resposta minimalista”.

Ela propõe reduções mútuas de forças. Paridade. Equilíbrio. Controle de armamentos. Uma linguagem de conferência para a impotência.

Isto não é negociação. É fantasia. A Rússia não tem intenção alguma de limitar o seu poderio militar. Por que haveria de ter? A Rússia produz entre quatro a sete vezes mais que a NATO. Possui armamentos que a NATO não consegue intercetar. Emprega 4,5 milhões de pessoas na indústria de defesa, gerando uma produção que supera em muito qualquer coisa que a Europa consiga produzir.

A Europa não consegue armar-se. Não consegue defender-se. Não consegue produzir os projéteis que a sua própria doutrina exige. A maior ameaça não é que a Rússia ganhe mais à mesa das negociações do que nos campos de batalha, como Kaja imagina, no seu universo alternativo da Marvel. A ameaça é que os líderes europeus ainda não entendem o que a Rússia conquistou:

  1. Exposição completa da fragilidade industrial da NATO.
  2. Revelação de que a Europa não pode travar uma guerra industrial sem o apoio americano e que os Estados Unidos estão perdendo o interesse.
  3. Demonstração, expressa em proporções de 37 para 1, em números de produção de 7 milhões para 1,7 milhões, da incapacidade da Europa atingir as metas de produção da NATO, em mísseis hipersónicos que a Europa não consegue deter, de que as verdadeiras guerras que remodelam fronteiras e destroem nações são vencidas por meio da produção industrial e das parcerias público-privadas.

Não se trata de PIB nominal baseado em derivados e serviços. Mas sim de capacidade industrial. Produção. Fabricação de bens.

Eis o que o Sul Global observa à margem: a expansão dos BRICS avança a passos largos. Nove membros plenos agora — Rússia, China, Índia, Brasil, África do Sul, Irão, Egito, Etiópia e Emirados Árabes Unidos — com mais de quarenta nações manifestando interesse. A Arábia Saudita participa sem ser membro formal. Estão construindo sistemas de pagamentos alternativos que contornam o SWIFT. Rotas comerciais alternativas que contornam o Canal de Suez. Bancos de desenvolvimento alternativos que contornam o FMI.

Estão assistindo a uma Europa a dar, durante décadas, lições ao mundo sobre valores, direitos humanos e ordem baseada em regras, que agora se revela incapaz de defender-se, incapaz de fabricar munições, incapaz de manter a energia elétrica sem a permissão americana e sem GNL.

A mesma Europa que colonizou metade do planeta, que sancionou e repreendeu todas as nações em desenvolvimento, que insistiu que não havia alternativa aos modelos económicos liberais ocidentais, revela-se agora como um protetorado vazio, dependente de potências que outrora dominou.

Pequim observa também e tira conclusões. Nova Déli observa e acelera a produção nacional. Brasília observa e aprofunda os laços do BRICS. Jacarta, Riade, Ancara, Pretória — todos observam, todos chegam à mesma conclusão sobre onde reside o futuro. Não é num continente que fechou as suas centrais nucleares, transferiu as suas fábricas para o exterior e acreditou que o setor financeiro poderia substituir a indústria.

A Rússia não é uma superpotência, afirma Kaja Kallas, a mulher que previu o iminente colapso dessa superpotência há três anos. Então, que diabo será a União Europeia? Um parque temático pós-industrial, administrado por incompetentes, com credenciais, que acreditavam que poderíamos substituir siderúrgicas por consultores? Que pensavam que poderiam fechar centrais nucleares e travar guerras terrestres movidas a turbinas eólicas? Que olharam para a economia russa de US$ 6,92 triliões em PPC, produzindo de 7 a 10 milhões de projéteis por ano, e a designaram como “pedaços”, enquanto a base industrial da Europa entrava em colapso?

Zelensky declarou que o exército ucraniano era “o exército mais forte da Europa”. Nenhum líder contestou. Pelo contrário, aplaudiram. O exército mais forte da Europa. Sendo dizimado numa proporção de 37 para 1. Por uma nação que Kallas insiste não ser uma superpotência.

Se ESTA Rússia… superando a NATO em produção em cinco a sete vezes, implantando armas hipersónicas que a Europa não consegue deter, mantendo a quarta maior economia do mundo enquanto derrota o exército mais forte da Europa numa proporção de 40 para 1, esgotando os stocks da NATO ao ponto de ficarem praticamente inacessíveis por dois anos… se ESTA Rússia não é uma superpotência, então a Europa está longe de ser uma tragicomédia.

A Europa é um protetorado desindustrializado que passou trinta anos a acreditar na sua própria propaganda sobre o fim da história, descobrindo tarde demais que a história nunca acabou, apenas continuou nos países que mantiveram os altos-fornos em funcionamento enquanto a Europa realizava conferências sobre sustentabilidade.

Kallas fala em responsabilizar a Rússia. Fazer a Rússia pagar. Limitar o poderio militar da Rússia. Mas a responsabilidade é uma via de dois sentidos. A conta da desindustrialização autoinfligida da Europa, do suicídio energético, da cegueira deliberada para as realidades da guerra industrial, de trinta anos a acreditar que as finanças poderiam substituir as forjas — essa conta chega na procissão de fábricas fechadas, nas filas dos desempregados, nos arsenais esgotados e nos índices de cadáveres que Bruxelas se recusa a reconhecer.

A Rússia não é uma superpotência? Então que Deus ajude a Europa quando alguém explicar a Kallas o que isso significa para eles. Que Deus nos ajude!

Conferência europeia e cidadã para a paz na Ucrânia, Rússia e Europa – Intervenção de encerramento

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 23/11/2025)


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Caros Amigos

Verificamos que, hoje em dia e finalmente, se começa a formar uma sólida opinião que as ações da UE e do Reino Unido (além das que, por vezes, emanam dos EUA), destinadas a fomentar tensões com a Rússia, constituem afinal um enorme erro.

No entanto, também podemos constatar que uma das características do nosso tempo é que, quem tenta começar a discutir sobre as realidades da situação entre a Rússia e o dito Ocidente alargado, é imediatamente apelidado de traidor. De facto e em concreto, no dito Ocidente perdeu-se a capacidade de reconhecer as realidades.

Não se trata de uma questão de alguém ser pró-Rússia ou pró-Ucrânia ou pró-guerra, mas sim de ser pró-verdade e sensatez porque, na ausência de entendimento, na ausência de alguma solução diplomática, ou pelo menos da vontade política de encontrar uma, haverá apenas mais morte e destruição.

Quando se continua a inexoravelmente fomentar uma guerra permanente, a eventualmente escalá-la até um limite que pode acabar por nos destruir a todos, ou simplesmente a promover um conflito congelado que irá continuar a consumir vidas humanas e as parcas riquezas da Europa numa conflagração eterna. Isso constitui sim uma verdadeira loucura. E se puder ser parada, assim deverá ser. É um imperativo moral. É um dever de nós todos.

Os políticos ocidentais não percebem que as aspirações pela paz são um dever não para consigo mesmos, mas para com as suas nações e para com o seu futuro, para com os seus filhos e para com o mundo que se irá formar em resultado das suas decisões.

O dito Ocidente precisa de reconhecer que as nações não são todas iguais, têm o seu próprio interesse nacional e, de facto, há uma esfera nacional de influência ou existem responsabilidades estratégicas que implicam a necessidade de defender as suas áreas de interesse, nomeadamente nas regiões que lhes são adjacentes. O não reconhecimento do interesse nacional de outras nações pode provocar um enorme custo em vidas humanas e uma desestabilização económica generalizada, que acaba por levar aos problemas com que hoje nos confrontamos.

Assim, e como iniciativa de todos os cidadãos lúcidos do dito Ocidente e dos seus líderes que, eventualmente, readquiram alguma lucidez, deverá ser, de imediato e sem condições prévias, promovida a concretização de um Acordo de Paz compreensivo que contenha, no mínimo, as seguintes propostas dos promotores desta conferência e que passo a descrever:

● Constituição de uma  “Comissão de Verdade e Reconciliação”, à semelhança do que foi feito na África do Sul do pós-apartheid e em Timor-Leste depois da independência.

● Os julgamentos por crimes de guerra deverão ser organizados pelos respectivos Estados.

● A neutralidade militar permanente da Ucrânia será consagrada na sua Constituição, bem como a renúncia da Ucrânia ao ingresso na OTAN.

● Garantias legais de que a Ucrânia não permitirá o fabrico, o recebimento, o trânsito ou o destacamento de armas nucleares e outras armas de destruição em massa no seu território.

● Garantias legais de que a Ucrânia e a Rússia não permitirão o estabelecimento de bases militares ou a presença de contingentes militares estrangeiros nos seus respectivos territórios.

● Reconhecimento do direito à autodeterminação nas suas diversas formas (autonomia regional, federalismo, secessão, integração voluntária em outro país) para a população da Crimeia e as populações das regiões leste e sul da Ucrânia que se sintam mais russas do que ucranianas e que expressarem livremente a sua vontade por meio de referendos.

● Garantias legais para a proteção da língua russa como língua cooficial da Ucrânia e dos direitos culturais (incluindo a liberdade religiosa) dos ucranianos de língua russa, bem como dos direitos culturais dos ucranianos que falam línguas minoritárias (por exemplo, húngaro e romeno).

● Fim de todas as sanções ⎼ proibição de transmissão de veículos de comunicação na UE; proibições de visto e viagens na UE, área Schengen, Reino Unido e Irlanda; congelamento de bens; restrições económicas de importação e exportação.

Para terminar, reafirma-se a necessidade de levar a cabo uma verdadeira e concreta reavaliação das realidades para que possamos sair desta presente crise.

Assim, o comité organizador desta Conferência, informalmente conhecido como “Os Quatro Mosqueteiros”, assumirá  a responsabilidade de redigir uma Declaração formal. Para maior clareza e facilidade de consulta, esse documento será oficialmente intitulado Declaração da Conferência Europeia e Cidadã para a Paz na Ucrânia, Rússia e Europa.

Essa Declaração descreverá de forma abrangente as medidas inicialmente especificadas no documento fundador da Conferência. Será dada ênfase às ações, que destaquei e que foram identificadas como sendo as de maior prioridade e urgência. A Declaração será enriquecida pelas diversas contribuições feitas pelos participantes antes, durante e depois da conferência, garantindo que as perspetivas e sugestões compartilhadas sejam devidamente incorporadas.

Pensamos que o trabalho desta Conferência deverá continuar para além desta sessão. Se o desenrolar dos acontecimentos inerentes ao conflito não trouxer o ambicionado Acordo de Paz que, de certo modo, se começa a vislumbrar, assumimos desde já o compromisso de convocar uma segunda Conferência em Lisboa, no mesmo local. Essa mesma Conferência será organizada de acordo com a Declaração que vamos agora emitir, a qual será divulgada por toda a Europa com a assistência de todos os seus signatários. O objetivo dessa eventual segunda Conferência será analisar e avaliar os progressos atingidos em direção à paz durante o período decorrido, tentando assim manter o impulso e fomentando um diálogo contínuo.

Vamos acreditar que a lucidez voltará, que a sanidade vencerá e que a real vontade de concretizar um projeto de paz duradoura irá aparecer, antes que a escalada de incongruências, contradições e medidas belicistas, fomentada por desmedidas ambições políticas, acabe por nos arrastar a todos para o abismo.

Sábado, 22 de Novembro de 2025, em Lisboa.

Os exemplos que vêm de cima

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 05/09/2025)

Indiferentes ao que se passa do outro lado do mundo, incapazes de entenderem que nada será igual ou previsível enquanto Trump estiver na Casa Branca, os dirigentes europeus prosseguiram nos seus monólogos de Guerra Fria e verdades tidas como inquestionáveis.


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Durante uma dúzia de anos, pelo menos, dez bancos a actuar em Portugal — ou seja, todo o sistema bancário nacio­nal, incluindo o banco público — trocaram entre si, e numa base habitual, informação classificada sobre spreads, taxas de juro e política de empréstimos a particulares e empresas. Aquilo que imaginaría­mos ser um segredo concorrencial fechado a sete chaves era afinal uma descarada concertação entre supostos concorrentes, tendo como objectivo final o prejuízo dos seus clientes, impossibilitados de poderem escolher livremente o banco que melhores condições lhes desse. Esta história deveria encher de vergonha todos os banqueiros que temos e que tanto gostam de nos olhar do alto: eis aqui um sector determinante para a economia de um país, que, quando atravessa dificuldades, já várias vezes teve de ser socorrido com o dinheiro dos contribuintes, mas que, quando prospera, não dispensa a batota e a supressão ilegal do risco. Apurados os factos, o “cartel da banca”, como justamente ficou conhecido, foi condenado em quase simbólicos 225 milhões de multa pelo Tribunal do Comércio de Santarém, decisão revertida pelo Tribunal da Relação de Lisboa e depois confirmada pelo Constitucional, com fundamento no habitual manto diáfano da prescrição, que entre nós se confunde com absolvição, assim como acusação se confunde com condenação.

O mesmo destino justiceiro parece estar reservado ao “cartel da distribuição”, também condenado em 1ª instância a 700 milhões de multa, por idênticas e nobres actividades de concertação contra os consumidores. E depois pregam as virtudes da iniciativa privada, da livre concorrência e da necessidade de deixar o Estado de fora da economia! Mas quando dois dos sectores mais destacados e louvados da economia privada perderam a vergonha de fazer o contrário do que apregoam, o que há a esperar dos outros, do país?

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2 Em Tianjin, Xi Jinping reuniu o Grupo de Xangai — China, Rússia, Índia, Turquia e mais 16 nações, quase metade da população mundial, para, dizem, esboçar o princípio de uma ordem alternativa, ou de uma qualquer ordem — no comércio, no direito internacional, nas relações entre Estados — face à desordem instalada no mundo pelo fora da lei Donald Trump. Porém, indiferentes ao que se passa do outro lado do mundo, incapazes de entenderem que nada será igual ou previsível enquanto Trump estiver na Casa Branca, os dirigentes europeus prosseguiram nos seus monólogos de Guerra Fria e verdades tidas como inquestionáveis. Se o avião em que viajava Von der Leyen, no seu périplo de inspecção pela linha da frente da anunciada guerra com a Rússia, perdeu o GPS, como tem sucedido com outros na zona do Mar Negro, a Comissão Europeia fala imedia­tamente em “ataque russo” e a sua presidente, miraculosamente salva, ganha o estatuto de heroína de guerra. O ataque aéreo russo — esse sim, verdadeiro — que atingiu lateralmente o edifício da UE em Kiev e que, em toda a cidade, causou 17 mortes, foi classificado por Kaja Kallas, a chefe da diplomacia europeia como “um crime de guerra”. Mas Kallas, representando um minúsculo país de 1,3 milhões de habitantes, a Estónia, e escolhida para o cargo por ter uma biografia pessoal e familiar de ódio à Rússia, jamais viu motivos para se indignar com aquilo que hoje é reconhecido oficialmente como o genocídio em curso em Gaza. Segundo ela, “a Europa quer a paz, a América quer a paz, a Ucrânia quer a paz; a única que não quer a paz é a Rússia”. Não sei onde é que ela terá descoberto que a Ucrânia quer a paz, pois ainda não ouvi Zelensky declarar-se pronto a qualquer concessão, antes pelo contrário — e dizer que se quer a paz traduzida na retirada total dos russos e nenhuma concessão do outro lado não é uma demonstração séria de vontade de paz. Já quanto à Europa, nunca lhe vi a menor preocupação, o menor gesto ou tentativa de ajudar a um acordo de paz, apenas e só a mesma política inalterável: mais armas para a Ucrânia compradas aos americanos, mais sanções para a Rússia, mais despesas dos europeus para a guerra iminente.

Os exemplos que vêm de cima
Ilustração Hugo Pinto

Entretanto, o mais próximo inimigo da Europa, Donald Trump, goza nos corredores de Bruxelas de uma condescendência, expressa num discurso unanimista do qual só destoam três ou quatro países. Até o nosso António Costa, outrora um socialista do sul da Europa e aparentemente capaz de pensar pela própria cabeça, não tardou nada a alinhar pelo discurso imperativo da maioria e da sua chefe. Se fosse repetida a cena de Istambul, desta vez não seria Costa que deixaria Von der Leyen de pé, mas esta a ele. E, quando tão a despropósito se fala de Munique a pretexto de não poder ceder nada a Putin, o mais parecido que eu vi com Munique foi a cena do clube de golfe de Trump, na Escócia, quando Von der Leyen ajoelhou e capitulou em toda a linha aos pés de Trump para, disseram-nos, “terminar com a imprevisibilidade” da guerra das tarifas. António Costa tinha dito, depois da cimeira da NATO, que obrigou os europeus a comprometerem-se com gastos em segurança e defesa equivalentes a 5% do PIB e na compra maciça de armas aos Estados Unidos, que eles seriam compensados depois quando se regulassem as tarifas entre ambos os lados. Sucedeu pior do que o oposto, o que não impediu António Costa agora de vir dizer que o “acordo” feito sob chantagem foi a “decisão mais inteligente e responsável” por parte da Europa.

Mas tudo isto faz sentido, à luz do que tem sido o desempenho da liderança europeia. Bruxelas assiste, absolutamente alheia e temerosa de desagradar a Trump, às tentativas — por parte de países asiáticos liderados pela China, mas também de desalinhados como o Brasil, o Canadá, a África do Sul — de criar uma alternativa capaz de enfrentar um Presidente americano que acha que pode dar ordens a qualquer nação estrangeira. Aliás, nas vésperas da humilhação escocesa, Von der Leyen e António Costa foram em via­gem oficial a Pequim. Procurar um esboço de parceira estratégica, pelo menos no comércio bilateral? Tentar sintonizar as respectivas economias para enfrentar os novos desafios, comprometerem-se mutuamente na continuidade do combate às alterações climáticas, à revelia de Trump? Não, nada disso, foram falar de alto a Xi, como não se atrevem a falar nem a Trump nem a Netanyahu, e como se representassem alguma coisa mais do que os serventuários voluntários desse “aliado fundamental”, como diz António Costa, referindo-se ao amigo americano.

3 A deputada do Chega Rita Matias (já habitual nestas coisas) acolheu, divulgou e ampliou um post de um militante do partido que sustentava que, enquanto que os imigrantes chegados a Portugal só por esse facto beneficiam logo de apoios do Estado, os bombeiros voluntários combatem os fogos sem nada receber em troca. Ambas as coisas são falsas: os imigrantes não beneficiam de quaisquer apoios por o serem e os bombeiros voluntários, apesar do nome, recebem 75 euros por dia de combate ao fogo (mesmo para “voluntários” é bem pouco, mas há países, porventura mais inteligentes, onde os bombeiros, voluntários ou profissionais, não recebem por cada dia a combater fogos, mas o contrário: por cada dia em que não houve fogos, sinal de que antes investiram na prevenção e na vigilância). Irá a senhora deputada repor a verdade ou dá mais jeito deixar correr a mentira?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia