Perspetivas para a Ucrânia em 2023

(Por Scott Ritter, in A Viagem dos Argonautas, 17/01/2023)

12 de Fevereiro de 2015: Presidente russo Vladimir Putin, Presidente francês François Hollande, Chanceler alemã Angela Merkel, Presidente ucraniano Petro Poroshenko nas conversações no formato da Normandia em Minsk, Bielorrússia.

Dada a hipócrita história dos Acordos de Minsk, é improvável que a Rússia possa ser diplomaticamente dissuadida da sua ofensiva militar. Como tal, 2023 parece estar a moldar-se como um ano de confrontos violentos contínuos.


Artigo completo aqui:

A Viagem dos ArgonautasA Guerra na Ucrânia — Perspetivas para a Ucrânia em 2023. Por Scott Ritter


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Feliz Ano Novo

Para todos os que me lêem e seguem aqui ficam também os meus votos de Bom Ano Novo. Se não for pedir muito às divindades, melhor um pouco do que 2022. Pelo menos, tenhamos essa luz e essa esperança.

Deixo-vos abaixo um notável texto de Agustina Bessa Luís, sobre o Ano Novo, escrito há alguns anos mas que, hoje, com a guerra na Europa à nossa porta, tem uma redobrada acuidade.

(Estátua de Sal, 26/12/2022)


Eu desejaria que o Novo Ano trouxesse no ventre morte, peste e guerra. Morte à senilidade idealista e à retórica embalsamada; peste para um certo código cultural que age sobre os grupos e os transforma em colectividades emocionais; guerra à recuperação da personalidade duma cultura extinta que nada tem a ver com a cultura em si mesma.

Eu desejaria que o Novo Ano trouxesse nos braços a vida, a energia e a paz. Vida o suficientemente despersonalizada no caudal urbano para que os desvios individuais não sejam convite ao eterno controlo e expressão das pessoas; energia para desmascarar o sectarismo da sociedade secularizada em que o estado afectivo é mais forte do que a acção; paz para os homens de boa e de má vontade.

( Agustina Bessa-Luís, in ‘Caderno de Significados’, Guimarães Editora, 2013)


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Uma notícia falsa pode destruir o mundo?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 23/11/2022)

Quando a informação das duas mortes causadas pela queda de um míssil na Polónia chegou à reunião da semana passada do G20, em Bali, o que o mundo sabia estava condicionado por um despacho da Agência Associated Press, que, violando regras básicas do jornalismo, citava uma única fonte (deviam ser pelo menos duas, de origens distintas), anónima (num caso desta gravidade, e em clima de propaganda de guerra, aceitar o anonimato é um erro grave), identificada como “sénior” da inteligência norte-americana (seja lá o que isso for) e sem contraditório. Segundo a AP, essa fonte dava como certo que se tratava de um ataque russo.

No entretanto, outras agências, “falcões” da guerra, militares, analistas, comentadores em todos os meios de comunicação social, mesmo ressalvando a incerteza das informações disponíveis, começavam a falar detalhadamente da possibilidade do ataque à Polónia, país da NATO, motivar o envolvimento direto de forças da aliança militar ocidental numa guerra contra a Rússia.

Nas televisões, em todos os canais de notícias, vi passar durante umas duas ou três horas, em carrossel incessante, variantes desta informação, taxativa: “Mísseis russos atingem a Polónia”

O espírito dessas comunicações preparava já a opinião pública para a possibilidade da deflagração de uma III Guerra Mundial e até para a guerra nuclear.

Recordo que, oficialmente, a Rússia tem 1600 ogivas nucleares ativas, os Estados Unidos o mesmo número e Inglaterra e França acrescentam 410 ogivas ao lado da NATO. Deve dar para destruir a Humanidade várias vezes em qualquer coisa como 10 minutos, caso esses países disparassem mísseis com essa carga uns contra os outros.

Em Bali, onde inicialmente a maior parte dos chefes de Estado e de governo presentes só tinham a informação que estava a ser dada pelos jornalistas, Ursula von der Leyen sugeriu que os dirigentes dos países do G7 (os mais industrializados do mundo) e os que fossem membros da NATO reunissem para decidir o que fazer: Estados Unidos da América, Reino Unido, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão e os dois representantes da União Europeia convidaram a Espanha e a Holanda, da NATO, a participar na discussão.

Ficou, portanto, o destino de toda a Humanidade a ser debatido por este grupo ocidental (mais o Japão, que alinha sempre com os Estados Unidos), com base num critério formalmente arbitrário: porquê G7+NATO, porquê essa mistura informal de estruturas com naturezas e missões tão diferentes? Porque é que, segundo as notícias, a Turquia, que é da NATO e do G20, não foi convocada para esta reunião?…

Ostensivamente, este grupo decidiu ignorar os chefes de Estado e de governo do restante G20 (as maiores economias do planeta), incluindo líderes de grandes democracias: África do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, México, China, Índia, Indonésia e Turquia (para não falar da Rússia) ficaram de fora de uma discussão que, basicamente, tinha este tema: “Vamos, ou não, para a guerra com a Rússia?…”

Como é que se deixam os representantes de quase metade da população mundial, com quem se estava antes a debater o futuro do planeta, “pendurados” na sala ao lado de um debate que podia decidir o destino de toda a gente?!

Quando o presidente norte-americano Joe Biden, já com conhecimento trabalhado pelos seus serviços de informação, anunciou que, afinal, o míssil que caiu na Polónia provinha, quase de certeza, das forças ucranianas, a correção nos media lá se fez.

A agência norte-americana Associated Press, autora, portanto, de “fake news” de difusão mundial, acabaria por publicar, bastante tempo depois, uma correção à notícia inicial. Claro que, se um dia uma notícia falsa deste tipo provocar a guerra nuclear, não vai haver tempo para um desmentido…

A ostensiva indiferença com que este norte ocidental, mais Japão, tratou os países do sul e oriente, numa questão de relevância mundial, teve uma réplica insólita em Bali: inusitadamente, contra a tradição chinesa e oriental, Xi Jiping fez um número para as câmaras televisivas. Ele ralhou com o presidente canadiano por este ter passado para a imprensa o conteúdo de umas negociações secretas entre Canadá e China. “Não é assim que se conduzem conversações”, disse o líder chinês ao embaraçado primeiro-ministro canadiano.

Não sei se antes da reunião G7+NATO (sem Turquia) separada do resto do G20, Xi Jiping seria capaz de fazer esta cena, mas deteto nela a irritação dos dirigentes do sul oriental face à cada vez mais evidente infantil irresponsabilidade dos dirigentes do norte ocidental.

O mundo está a dividir-se, sim, mas não é entre países democráticos e países autoritários.

Jornalista

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