Bom Natal

(Estátua de Sal, 24/12/2019)

Natal. Seja lá o que isso for. Não é por fazermos votos de bom Natal que passaremos a ter um Mundo melhor. Nem que a vida passe a ser melhor para milhões de deserdados e sofredores da iniquidade e de um sistema económico que prospera cada vez mais para poucos em detrimento da grande maioria.

Mas as comunidades também vivem de rituais e da partilha de comportamentos. As tradições são isso mesmo. Uma herança da memória de outros tempos, por vezes atavismos fora de época.
E essa partilha pode gerar uma resultante social, positiva ou não, construtiva ou não. Dinâmica para a esperança ou dinâmica para coisa nenhuma.

Natal. Seja lá o que isso for, é pelo menos uma pausa na rotina de muitos de nós. Algumas liturgias tomam conta do quotidiano. As prendas, as crianças, as ceias, os encontros e reencontros familiares, os presépios e outros símbolos para os crentes e até para os menos crentes.

E por isso mesmo, quer queiramos quer não, o Natal é sempre uma singularidade, no percurso do calendário anual. Quer para os que o vivem em esperança, em fervor e em otimismo, quer para os que amargamente sofrem o desânimo de nada ter para vivenciar, e para os quais o Natal é apenas mais um dia no caminho de um calvário repetido e constante. Lembremo-nos desses, reflitamos porque são as coisas assim e questionemos porque terão que ser assim.

E para que se mantenha a tradição, para todos os meus amigos e para todos os que me lêem. aqui ficam os meus votos de Bom Natal. Seja lá o que isso for. Seja lá o que cada um queira que seja.


Rocket man and crazy live together in perfect harmony

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 15/06/2018)

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Donald Trump e Kim Jong-un encontraram-se em Singapura numa cimeira que, para muitos, é o encontro mais importante do século XXI. Eu continuo a preferir o França-Portugal de 2016, mas não vamos por aí.

Foi no luxuoso Capella Hotel, na turística ilha de Sentosa, em Singapura, que os dois líderes, que a maioria das pessoas acha que não jogam com o baralho todo, se reuniram para dialogar, em vez de se encontrarem para uma luta de wrestling, que era o que faria sentido e que todos esperávamos. Era isso ou medir pilas.

Mas a verdade é que fomos surpreendidos: nem Trump fez uma tentativa de apalpar os pequenos seios de Kim, nem o líder norte-coreano tentou envenenar Trump com uma luva transparente contaminada com ébola aquando do aperto de mão. Os dois dos maiores vilões do planeta ficaram muito aquém das expectativas… Talvez eu ande a ver demasiados filmes da Marvel, mas podia ter havido um momento de tentativa de estrangulamento, logo amansado. Um agarrar das partes baixas com um “assobia, assobia!”, executado com rapidez por Trump quando Kim estivesse distraído. Nada.

Acho que houve mais “clima” entre Kim e Trump do que no casamento real do Harry e da Meghan. Provavelmente, o presidente dos EUA olhou para Kim, para a barriga, o penteado, a arrogância, a falta de noção de ridículo, e pensou: “este rapaz podia ser meu neto se eu tivesse ido à guerra do Vietname.”

Vi em directo o encontro e o que mais me impressionou foi o ruído das máquinas fotográficas, pareciam metralhadoras. E o Kim e o Trump nem pestanejaram, como se estivessem habituados a fuzilamentos ou a massacres em escolas. É preciso ter estofo. Se eu passasse por aquela rajada de fotografias, acordava “banhado em suor e com a sensação física, até de dor, de que estava a levar chapadas”.

Também fiquei bastante impressionado com aqueles guarda-costas de fato negro e gravata a correr junto à limusina do presidente da Coreia do Norte. Já me aconteceu aquilo com cachorros. Só falta ladrarem aos pneus.

É impressionante a sincronia daquela gente. Por exemplo, as coreografias da claque da Coreia do Norte, nos Jogos Olímpicos de Inverno, tornaram-se num fenómeno mundial. Já percebi que os norte-coreanos são gente que faz tudo em grupo e com uma sincronia incrível. Deve ser impressionante uma orgia norte-coreana. Deve ser uma espécie de linha de montagem da Mercedes.


 TOP 5

KIM E KONG

1. Lançar balões pelo smartphone. A realidade aumentada chegou aos Santos Populares – Por favor, façam isso com os martelos de São João, que aquilo não se aguenta.

2. Em mais de 5700 pedidos de vistos gold, só nove foram para criar emprego – isso é porque não têm em conta o trabalho que deu a corruptos.

3. Fila na Feira do Livro para tirar uma selfie com Marcelo – antes isso do que para autógrafos com o Chagas Freitas.

4. Ricciardi diz que Sporting está em risco de insolvência – e se há alguém habituado a estar envolvido em insolvências é o Ricciardi.

5. Alfama venceu novamente as Marchas Populares de Lisboa – mas a marcha foi traduzida para francês para os moradores de Alfama entenderem.

Trump ganha sempre

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 12/06/2018)

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Talvez o momento mais revelador da conferência de imprensa de Trump em Singapura, hoje de manhã, tenha sido quando falou na “perspetiva do negócio imobiliário” quanto à vontade de construir “condomínios nas lindas praias da Coreia do Norte”, “maravilhosa localização” entre os turistas da China e os da Coreia do Sul, cheios de dinheiro para irem ao exótico. Eu vi essas praias quando a TV coreana passava as imagens do lançamento dos mísseis, explicou o Presidente norte-americano. Isto é puro Trump: um empresário e não um estadista, que luta contra os concorrentes e promove negócios, mas só considera de modo instrumental a ordem política que resulta da sua ação. Ora, há muitos que o desprezam por isso, ele não faz parte da aristocracia da política, tem maus modos, é petulante, gaba-se do “meu instinto, o meu talento” para ler a alma de Kim Jong-un, é volúvel e incapaz – pois ganha precisamente por isso.

Trump arrisca muito no plano interno, embora esteja a despejar dinheiro para os ricos (um generoso sistema fiscal) e para os pobres (nota-se menos, mas ampliou alguns programas sociais com impacto), só porque juntou uma coligação de aventesmas e esses são os seus candidatos no outono deste ano. Mas arrisca pouco no plano internacional. Aí ganhou tudo até agora: rompeu o acordo com o Irão e Merkel prometeu resistir, mas as empresas europeias já fugiram, a começar pelas que tinham os maiores contratos, a Total e a Airbus; entrou em choque no G7 com todos os outros e Macron, que tinha apostado tudo nos abraços da Casa Branca, veio ufano espanejar um G6 sem os EUA, o que é pura fantasia; mudou a sua embaixada para Jerusalém e deu luz verde a Netanyahu para disparar, e assim ficamos.

E no que arrisca menos é na guerra comercial. Uma economia que tem o poder do dólar e que enfrenta quem tem grandes excedentes comerciais fica sempre a ganhar neste tipo de braço de ferro. Assim foi no passado com Nixon e com Reagan e assim será agora. A Alemanha, a UE e a China sofrerão os custos desta guerra e a economia norte-americana no seu todo só tem a ganhar (mesmo que algumas empresas de jeans e agroalimentar percam). Para mais, Trump tem o controlo do sistema internacional de pagamentos interbancários, pelo que pode usar sanções efetivas contra qualquer empresa, e tem o dólar: os EUA vão emitir dívida pública no valor de 2,4 biliões (triliões, na notação norte-americana) no próximo ano e meio, para financiar o seu gigantesco défice, e os chineses e europeus vão adquirir esses títulos de dívida. Ou seja, vão comprar dólares com os seus excedentes comerciais, para os emprestarem aos EUA, e ficam vulneráveis nos dois lados da operação. Se precisar de reduzir e restruturar a sua dívida, Trump pode forçar uma desvalorização do dólar; querendo reduzir o défice comercial, ameaça os seus concorrentes e consegue pressioná-los nas exportações e no financiamento. Vai sempre recuando na competição com a China, mas não é no imediato que esta potência ultrapassará os EUA, e, quando vier o tempo, já haverá outro inquilino na Casa Branca.

O acordo com Kim Jong-un pode ser mais uma exibição do que uma solução concretizada. Mas o que é evidente é que, em Singapura, Trump está a dizer aos governos europeus e aos seus concorrentes asiáticos que hoje é ele quem manda.