Maneiras de reconhecer um populista português moderno

(José Pacheco Pereira, in Público, 06/07/2019)

Pacheco Pereira

  1. Os populistas modernos são, na sua maioria, de direita. Ou melhor, a sua acção comunica mais facilmente com partidos, organizações, homens de direita. Na Europa, nos dias de hoje, os movimentos e governantes populistas, seja no Brexit, seja na Alemanha, Polónia, Hungria, Itália e França, estão todos à direita do espectro político. Podem ficar muito incomodados com esta afirmação, mas é assim. Não foi sempre assim, nem será sempre assim, mas hoje é assim.
  2. O paralelo entre o populismo de direita e um inventado “populismo de esquerda” é uma das características do populismo moderno, que precisa de companhia para mostrar que vai mais longe do que a direita. É vulgar ver em artigos de opinião essa comparação, mas é descuidada e falsa. As posições do PCP, do BE podem ser demagógicas, insustentáveis, irrealistas, mas não são populistas. Querer acabar com a propriedade privada, querer aumentos de salários, querer mais regalias para os sindicatos, atacar patrões e grandes empresas, defender causas “fracturantes”, são posições político-ideológicas muito distintas do populismo. No entanto, se tomadas em abstracto, estas podem emigrar para o discurso de direita. Alguns dos grandes populistas americanos como o Padre Coughlin e Huey Long na Luisiana fizeram alguns dos mais radicais discursos anticapitalistas.
  3. A demagogia é uma componente importante do discurso populista, mas demagogia e populismo não são a mesma coisa. A demagogia está presente em todo o espectro político da direita à esquerda e, por si só, não caracteriza o discurso populista. Este caracteriza-se principalmente pela dicotomia “nós” (o povo) e “eles” (os políticos, os poderosos).
  4. Em Portugal, o populismo entrou pela primeira vez numa campanha eleitoral nas últimas eleições europeias. Os cartazes do Chega/Basta,  que se encontram ainda colocados, são os primeiros a chegar ao espaço público com palavras de ordem claramente populistas. Foi só começo.
  5. O terreno português do populismo é dominantemente o das redes sociais e do tipo de interacção que elas propiciam. Mas já passou daí para certos programas televisivos e para certo tipo de articulistas justicialistas, que vivem da “denúncia” e da indignação moral, e, basta fazer uma lista dos casos, para ver como são selectivos e dúplices na indignação. Em todos os casos têm audiências. O populismo ainda não passou nem para o voto, nem para a rua, embora seja uma questão de tempo.
  6. O tema central do populismo é a corrupção, a real, a imaginária e a inventada. A corrupção é o estado natural da política e dos políticos, de “eles”. Ao não se distinguir entre a corrupção real e a inventada, o discurso torna-se genérico e sistémico. Ao atacarem o “regime” e o “sistema” perceba-se que consideram a democracia o terreno ideal para a corrupção. Não é. É a ditadura, mas não vale a pena lembrar-lhes isso.
  7. No populismo português o tema da corrupção é ainda mais dominante. Os partidos e movimentos na direita que quiseram utilizar outros temas do populismo contemporâneo, como seja a emigração, a islamofobia, ou temas conexos, falharam.
  8. O populismo concentra os seus ataques nos procedimentos da democracia, vistos como uma forma de empecilhos para combater o “crime” e a “corrupção”. Isso inclui os direitos de defesa, as garantias processuais e, em particular, o ónus da prova, a obrigação de ser de quem acusa, que tem que provar.
  9. Os seus heróis são magistrados e juízes. Não todos, mas alguns. E alguns comentadores, alguns blogues, alguns jornais, alguns programas de televisão.
  10. O populista é um activista do ad hominem. Quando fala e quando escreve enuncia nas suas falas e nos seus títulos nomes de pessoas. Depois passa dos nomes, para a família, para os amigos, para os companheiros de partido e por fim para “eles”. Os critérios da culpa são por contiguidade, familiar em primeiro lugar, relacional, e partidária. A culpa é nomeada pessoalmente e depois torna-se colectiva. É de X, nome no título para vender, e porque é de X, é de “eles”.
  11. Os populistas votam mais facilmente em determinado tipo de corruptos conhecidos ou até condenados, cuja política lhes parece próxima, do que “neles”. Várias eleições em Portugal mostram que a aparente indignação contra a corrupção, é muito pouco genuína, e tem componentes políticas que implicam a duplicidade.
  12. Os populistas estão sempre zangados, vivem num estado de excitação patológica, porque eles são sérios e o resto do mundo é desonesto, ladrão e corrupto. Quanto mais afastados do poder –​ por exemplo, quando a conjuntura política favorece os “corruptos”, no seu entender –​, maior é a zanga. Existe uma forte sensação de impotência na zanga.
  13. Quando os populistas, os políticos de que eles gostam, os partidos de que eles gostam, estão mais próximos do poder, a zanga transforma-se em arrogância e autoritarismo.
  14. Os alvos dos populistas são aquilo que eles designam como elite. Os políticos, os funcionários públicos, os professores, os médicos, os enfermeiros, os motoristas, os sindicalistas, os que fazem greve. É uma lista absurda, mas é a dos “privilegiados”. Embora na elite se incluam os banqueiros caídos em desgraça, quase nunca são referidos os principais grupos económicos, as famílias ricas e poderosas, os escritórios de advogados, os consultores financeiros, os dirigentes desportivos e os jogadores de futebol. No quadro de valores de um populista, fugir ao fisco por parte de um político, merece prisão perpétua, mas é uma mera infracção num jogador de futebol.
  15. Os populistas vivem do apodrecimento do sistema político democrático, da oligarquização dos partidos políticos, da indiferença ou do compadrio dos estabelecidos com a corrupção, da corrupção realmente existente, mas as suas soluções são piores do que os problemas. E são, na sua maioria, anti-democráticas e autoritárias. Há um micro-Bolsonaro dentro deles, mesmo quando juram não quererem nada com ele.
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As escolhas

(Miguel Sousa Tavares, in Ex+resso, 06/07/2019)

Miguel Sousa Tavares


1 A imagem dos deputados europeus do Partido do Brexit de costas voltadas para os seus colegas na primeira sessão do novo Parlamento eleito, em Estrasburgo, atingiram o efeito pretendido: ofender e manifestar o seu desprezo pelos seus colegas, pelo Parlamento, pela União Europeia e por todos os quase trezentos milhões de cidadãos europeus que votaram nas eleições europeias de Maio. Pela parte que me toca, senti-me ofendido, mas devolvo o insulto: aqueles imbecis, que seguem um idiota vulgar como Nigel Farage e se preparam para eleger um PM ao nível do demagogo de feira Boris Johnson, não fazem falta nenhuma à Europa: que se vão e sejam muito felizes entrincheirados na ilha. Só não percebo que não tenham tido o mínimo de dignidade de renunciarem ao cargo de deputados e respectivas regalias, deixando os lugares vazios em Estrasburgo.

Eles não fazem falta, mas a Inglaterra faz. Faz falta como terceiro pilar entre a França e a Alemanha, faz falta para acrescentar dimensão atlântica à geografia europeia, para, com outra gente que não a do ‘Brexit’, ensinar maneiras e democracia aos mal-educados e recém-chegados. Faz falta, assim como a Europa vai fazer falta à Inglaterra, sobretudo aos jovens e aos que não pertencem ao clube dos privilegiados que se imaginam guardiões de um império que já não existe ou ao novo lumpen-proletariado que forma as suas opiniões nas redes sociais e depois vota nos Johnsons, Farages, Salvinis, Bolsonaros ou no maior ídolo desses pobres de espírito, Donald Trump — o tal que escreveu no Twitter que se tinha encontrado com o príncipe de Whales (das Baleias), em vez do príncipe de Wales (de Gales).

Mas esta semana, olhando para o que foi a tremenda batalha no Conselho Europeu entre os defensores dos princípios básicos e fundadoras da UE — o Estado de direito e a democracia — e os seus opositores, representando quase metade dos 28, é provável que um inglês dos que lamentam a saída da UE tenha pensado que, afinal, talvez o clube europeu já não seja assim tão recomendável. E, todavia, há uma quantidade de outros domínios — como a ciência, a investigação, a energia, o clima, a fiscalidade, a banca, o euro, o combate contra as multinacionais — em que apenas a coesão europeia poderá salvar do esmagamento todos e cada um dos seus membros. Pelo que é impensável, é insustentável, que tudo isso possa ficar paralisado porque um grupo de países baptizado de Visegrado, aliado a uns quantos países de Leste apressadamente integrados na UE e alguns saudosos de regimes autoritaristas de direita, como a desgraçada Itália actual do tenebroso Salvini — todos eles, aliás, convergindo num ódio declarado à UE — possam estar lá dentro a desempenhar o papel de cavalo de Tróia, partindo da rejeição daquilo que é essencial no Tratado de Roma.

O consenso provisório e remendado a que se chegou terça-feira em Bruxelas, sendo o mínimo aceitável e possível nas circunstâncias actuais, prenuncia porém tempos futuros de constante desgaste e paralisia, não a combater os desafios e ameaças externas, mas os inimigos internos. Isto não é uma União, é um casamento podre e sem conserto.

A chamada Europa a duas velocidades é pouco e é provavelmente impraticável. É chegada a altura de ir mais além e iniciar a discussão sobre o que deve ser posto em cima da mesa: a refundação da UE. Partir os 28 a meio, entre os que querem a Europa e não discutem os seus fundamentos e os que estão lá dentro para a minar e para ajustarem contas com os seus próprios fantasmas do passado.


2 Decorria sem novidades e sem grande interesse a entrevista do ministro da Agricultura ao “Público”, quando lhe falaram do olival intensivo e super-intensivo em Alqueva. Aí, Capoulas Santos saltou, como se lhe tivessem atacado um parente de família. E o que disse deixou-me atordoado: pelo que disse e por vir dele, de quem não esperava tanto assanhamento, embora já soubesse que também é um defensor não confesso do eucaliptal intensivo. Começa por dizer o ministro que o olival é milenar em Portugal e a ninguém ocorre que faça mal à saúde. Começou mal: uma coisa é o olival milenar e tradicional; outra, completamente diferente, quer no tipo de árvores quer no tipo de exploração, é o olival intensivo. E ninguém disse que um olival faça mal à saúde, o que faz mal à saúde das populações locais é o fumo das chaminés que extraem o bagaço da azeitona e que vem acompanhado de compostos químicos nocivos à saúde. Gostaria de ver o ministro ir lá dizer às populações, cujas queixas não têm parado, que a sua qualidade do ar é irrepreensível.

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Como é evidente, eu não tenho a pretensão de saber sobre o assunto, apenas me tenho tentado manter informado, lendo tudo o que se escreve sobre isto. E há muitas opiniões contraditórias, sendo que, como é natural, todos ou quase todos os defensores do olival intensivo ou são aqueles que estão em posição de o autorizar, ou estão ao serviço das empresas que o exploram, ou são os próprios interessados: é um negócio de muitos milhões e compreende-se que o defendam. Mas há uma coisa que mesmo os defensores não conseguem negar: está mais do que estudado e mais do que demonstrado que qualquer monocultura, em especial se em exploração intensiva, é uma ameaça a todo o eco-sistema de uma região e à sua regeneração posterior — como ali já vai sendo testemunhado. É, aliás, por não o poder ignorar, e constatando que o olival já atingiu metade da área do perímetro de rega de Alqueva, que Capoulas Santos anunciou há dias a suspensão de apoios à sua extensão. (Mas, sabendo o que a casa gasta, aposto que a suspensão será bem provisória). De resto, que toda a paisagem envolvente esteja a mudar, já não lhe faz impressão nenhuma, apesar de ser alentejano e agricultor. “É natural — diz ele — antes era sequeiro e agora é regadio e isso muda a paisagem”. Mas, não, não é assim tão natural e é preciso ir lá ver, sobretudo para aqueles que acham que quem contesta aquilo são os que gostariam de ver para sempre o Alentejo salpicado apenas por um chaparro aqui ou ali. Vão lá, vejam e imaginem também a Serra de Sintra, ou a da Arrábida, ou o Gerês, transformadas num olival intensivo.

Mas para Capoulas Santos tudo faz parte de uma “campanha” e o que o preocupa é que ela colha frutos junto dos “eleitores” (reparem que não é a opinião pública ou a opinião de alguns que o preocupa, mas a dos eleitores, a dos votos). Compreende-se esta obsessão com o lado rentável da politica, vindo de quem afirma que “o maior desgosto da vida”, que o fez “pensar abandonar a politica”, foi um dia ter sido convidado para secretário de Estado da Agricultura às 16 horas e desconvidado às 23. E de quem iria ele ser secretário de Estado? De Álvaro Barreto, o ministro da Agricultura que vendeu a dita a Bruxelas pelo preço de 120 milhões de contos de então, achando que o futuro do mundo rural estava nos campos de golfe e florestas de eucaliptos.

Pensando bem, sou capaz de concordar com Capoulas Santos: tudo isto faz parte de uma campanha. E bem antiga, por sinal. A campanha a favor do olival intensivo, a que ele acaba de se arregimentar, é apenas o culminar de uma longa tradição — em particular, sempre presente entre os ministros do Ambiente e da Agricultura socialistas: a de ignorarem a relação íntima entre Agricultura e Ambiente, entre paisagem e património natural, e desprezarem as consequências futuras de facturar agora à tripa-forra e pensar depois nas consequências. Portugal é uma triste paisagem povoada de irremediáveis asneiras levadas a cabo pelo voluntarismo de uns quantos, sempre sob o argumento do progresso e do desenvolvimento. Raramente se estudou, se pensou, se planeou primeiro. Avança-se e logo se vê. E quem ousa levantar dúvidas e objecções só pode fazer parte de alguma obscura campanha.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

O império contra-ataca

(José Gabriel, 02/07/2019)

Sempre que os EUA espirram, a Europa – entenda-se Europa ocidental – tem uma pneumonia. Sempre os norte-americanos se resolvem a uma das suas intervenções, as vítimas não são só os seus alvos directos; sobra sempre para nós. E os yankees têm sempre pronta aquela retórica de ir – ou vir – libertar alguma coisa, de defender os (seus) justos interesses, de liderar o mundo livre e tudo o mais.

O nosso drama é que a Europa, cada vez mais reduzida à irrelevância, não é, geralmente, só vítima: é cúmplice. Se nem sempre em unanimidade, pelo menos com a maioria de cerviz caída. Na verdade, quando vemos os EUA ameaçar algum país ou países com sanções – ou, pior, com libertações -, já sabemos que, sem grande subtileza, estão a impor sanções, mesmo que não declaradas, contra a Europa.

Esta, pelo seu lado, ainda nos vende, pela voz da maioria dos seus governantes, a velha treta de os norte-americanos estão constantemente a salvar a Europa. Na verdade, “salvam-na” quando ela não está a cumprir com eficiência aquilo que os seus patronos lhe ordenaram. E como isto é um processo contínuo, apenas com variações de frequência, aí está mais uma ofensiva que, a propósito das sanções ao Irão, atinge os europeus em cheio.

Não que os EUA, sendo uma economia forte, seja invulnerável; mas o que lhe falta em poder económico sobra-lhe em poder militar. O crápula Netanyahu, essa musa inspiradora do executivo de Trump, já deu hoje ordens aos maiores países europeus para que rompam o que resta do acordo com o Irão e agravem as sanções, que os americanos já o fizeram. Em resumo: os países da Europa, apesar dos acordos estabelecidos, não podem ter relações económicas com esse país, não lhe podem comprar um litro de petróleo – mesmo que daí advenha uma catástrofe humanitária – sem que sofram, eles próprios, sanções. É assim que funciona.

Já estou a ouvir os dos costume: “então apoias o regime iraniano?!” – porque estes países, nestas alturas, passam a designar-se como “regimes”. Os mesmos que perguntavam se gostava do governo de Sadam, de Gaddafi, al-Assad, Milošević e outros que governavam países objecto da gula imperialista dos Estados Unidos e seus aliados – ou servos – com os resultados que estão à vista. Como se perceber e combater os golpes do império implicasse, de algum modo, uma identificação politica com as vítimas. Não, não é assim. Mas também não nos peçam que nos identifiquemos com o agressor.

Todos nos lembramos: na obscena invasão do Iraque – apoiada pelo que de mais rasca tinham os governos europeus – o primeiro míssil foi contra o recém-nascido Euro. Vêm aí outros, mas as explosões não se ouvem. Sentem-se, olá se sentem.