O abandono escolar na Europa (2000-2018) – 2ª parte

(Vítor Lima, 29/08/2019)

O abandono escolar no período 2000/2018 reduziu-se claramente, na Europa, passando de 17% para 10.6% da população jovem, mantendo-se um abandono mais pronunciado no sexo masculino. Em Portugal a quebra foi muito pronunciada passando do segundo pior indicador em 2000, para valores pouco acima da média da UE em 2018.


Sumário
1 – Abandono escolar – 2000 e 2018

2 – Abandono escolar por sexo

3 – Comparação (2000 e 2018)  nas taxas de abandono escolar para homens e mulheres .


O Eurostat oferece dados sobre o abandono escolar, de jovens com 18/24 anos que, no máximo, atingiram como habilitação, os estudos secundários inferiores, à data da recolha dos dados – os anos de 2000 a 2018. É possível proceder a comparações entre os 28 países da UE e ainda para outros países europeus – Islândia, Macedónia do Norte, Montenegro, Noruega e Suíça.
À semelhança do critério utilizado na primeira parte deste trabalho utilizámos os dados para o primeiro e o último dos anos disponíveis.
1 – Abandono escolar – 2000 e 2018
 Taxas de abandono escolar na Europa – 2000/2018 [1]

Da análise mais detalhada do gráfico acima sobressaem estas conclusões:
·     Excepto nos casos da Eslováquia, da Rep. Checa e da Suécia – que têm indicadores bastante baixos – observa-se uma redução generalizada dos níveis de abandono escolar; as quedas mais significativas registam-se em Malta e Portugal, com -36.7 e -31.9%, respetivamente, durante o período;
·   Em 2000, os maiores índices situavam-se em Malta (54.2%) e Portugal (43.7%), seguidos a alguma distância por Islândia, Itália e Espanha. Em 2018 e apesar de reduções significativas, os países com maior taxa de abandono eram; Islândia (21.5%), Espanha (17.9%), Malta (17.5%) e Roménia (16.4%);
·     Por seu turno, os casos de menor relevância do abandono, em 2000 observam-se na Rep. Checa (5.7%), Eslovénia (6.4%) e Eslováquia (6.7%); em 2018, a Croácia apresentava a mais baixa taxa de abandono (3.3%), à frente da Eslovénia (4.2%) e da Suíça (4.4%);
No período em análise, transparece no gráfico acima uma distribuição mais homogénea dos indicadores em 2018, deixando de se verificar os enormes valores registados em 2000, mormente relativos a Malta e Portugal. Neste último ano, como observámos, os indicadores distribuíam-se num espaço entre 54.2% da população com 18/24 anos em Malta e, 5.% na República Checa, numa relação de 11:1. Em 2018, essa relação era muito mais estreita, entre 21.5% na Islândia e 3.3% na Croácia, revelando-se assim uma maior homogeneidade no âmbito do espaço europeu, com essa redução a conduzir um menor número de pessoas, tendencialmente condenadas a uma vida difícil, destinadas a preencher as ocupações mais penosas, mais precárias, mais mal pagas, com mais largos períodos de desemprego. 
A precariedade – no trabalho e na vida – inerente ao modelo neoliberal de predominância financeira, atinge a vida laboral e pessoal de todos os que não são patrões, mandarins de alto teor de toxicidade ou membros dos estratos corporativos do núcleo mais profundo e antigo do Estado – os aparelhos militares, judiciais e policiais. 
A elevação da escolaridade nos segmentos sociais onde aquela é mais baixa constitui uma melhoria civilizacional para os seus beneficiários diretos, bem como para as sociedades no seu conjunto – algo que, de per si, não sensibilizará particularmente o alto patronato ou a parcela da classe política ocupante dos aparelhos estatais. 
Tendo em conta o perfil muito concentrado das altas estruturas políticas e económicas do capitalismo, pensamos que a redução do abandono escolar é uma forma de aumentar o leque das aptidões disponíveis de serem recrutadas no “mercado de trabalho”, massificando-o e tornando mais aguda e generalizada a concorrência entre os assalariados, aproximando mais instruídos e menos instruídos numa vasta panóplia de gente disponível para a venda da sua força de trabalho, no âmbito de um leque de remunerações em estreitamento, por um preço que não contempla, nem regateios, nem negociações.
Nesse contexto, essa melhoria de escolaridade será um elemento para a disponibilidade de uma amálgama social mais alargada e instruída, com um padrão mais elevado e generalizado de precarização, extensivo aos segmentos populacionais mais instruídos, como aos menos habilitados, facilitando um maior nível médio de precariedade global, sem prejuízo da continuação da coexistência entre vários níveis de instrução, com remunerações distintas mas geridas de modo similar, pelo Estado e pelo patronato.
Como é sabido, os sindicatos, a nível europeu, assemelham-se mais a estruturas de garantia de (boa) vida para grupos de burocratas, participantes em negociações formais com os patrões e o mediador Estado, para mostrarem os seus (fracos) serviços a favor da multidão, iludindo a grande diferença de poder negocial para gerar na plebe a ideia de que as instituições democráticas… funcionam; porém, se funcionam de modo desigual, isso retira ab initio qualquer democraticidade ao processo. Recorde-se como a poderosa central sindical única alemã – DGB – ligada ao SPD, aceitou os acordos Hartz, elaborados para reduzir o peso dos salários em benefício da competitividade da indústria.
Na Europa, esse padrão é diversificado, no âmbito de cada formação nacional; é concorrencial, estendendo-se a mobilidade a migrantes europeus mas, também extensível a africanos, asiáticos e sul-americanos, em proporções distintas para cada país europeu; e que tanto podem abranger quadros técnicos como as funções menos valorizadas nas sociedades ocidentais – limpezas ou indústria hoteleira, por exemplo. 
Em Portugal, os regulares processos de concursos para professores, a banalização do penoso trabalho em call-centers e afins, o alargamento de períodos experimentais em qualquer lugar de início de funções laborais, a facilitação do despedimento, o cada vez mais reduzido acréscimo no preço das horas suplementares de trabalho, o recurso ao outsourcing, às empresas de trabalho temporário, tudo isso se insere nessa precariedade generalizada que, do trabalho se estende à própria vida pessoal. Um processo, historicamente, conduzido pelo partido-estado PS-PSD que tem enformado o regime pós-fascista português.
Todo esse processo de precarização e empobrecimento é acompanhado pela construção de uma pulsão consumista, paralela ao abandono gradual (quantitativo ou qualitativo) pelos Estados, de áreas tão essenciais como a saúde, a educação, a habitação, a segurança social, mormente face ao envelhecimento da sociedade, com o empurrar da idade da reforma no sentido de uma aproximação gradual da longevidade média… enquanto a carga fiscal aumenta. E, também paralela a uma cativação dos rendimentos futuros por parte do sistema financeiro, com a constituição vulgarizada e leviana de dívida pessoal e familiar, que tanto se destina a suprir necessidades que o Estado abandonou (habitação, redes de transporte…) como outras induzidas pela própria volúpia consumista (automóveis, viagens…). 

2 – Abandono escolar por sexo
Observem-se, de seguida, as taxas de abandono escolar para os dois sexos, em 2000

·       Para além dos numerosos casos em que a taxa de abandono escolar para mulheres e homens é bastante aproximada, notam-se apenas seis situações em que a parcela de mulheres supera a dos homens – Macedónia do Norte (6 pontos percentuais), Malta (3 pp) e com uma pequena expressão, Luxemburgo, Áustria, Alemanha e Rep. Checa;
·       As mais notórias situações de predomínio masculino no abandono escolar registam-se em Portugal (14.4 pontos percentuais), Espanha (11.8 pp), Chipre (11.1 pp) e ainda Grécia, Lituânia, Irlanda e Itália, um grupo onde se denota um forte predomínio da orla Mediterrânica no âmbito destas situações.
A observação dos dados relativos a 2018, no âmbito da comparação da situação para ambos os sexos continua a evidenciar maior abandono escolar entre os homens, ainda que com uma distância ligeiramente menor do que em 2000.

 O abandono escolar entre as mulheres era, em 2000 de 14.9% e passou, dezóito anos depois para 8.9% enquanto para os homens evoluiu de 19% para 12.2%. Tudo isto, num plano de forte encurtamento das situações extremas; em 2000, como vimos atrás Malta e Portugal destacavam-se com indicadores acima dos 40% se não se distinguirem os sexos e, em 2018, o valor absoluto mais elevado fica em 27.6%, relativo aos homens, na Islândia;
·      Reduzem-se em 2018 (quatro contra seis em 2000) os casos de maior abandono no sexo feminino comparativamente ao verificado para os homens, situando-se a maior diferenciação na Macedónia do Norte (2.9 ponto percentuais contra 6 pp em 2000), sendo marginal esse maior abandono feminino no Montenegro, na Eslováquia e na Bulgária.
·        Os países onde, em 2018, se observam maiores distâncias no abandono escolar, entre mulheres e homens – com a situação mais gravosa para os últimos – são a Islândia (13.1 pontos percentuais), seguindo-se a Estónia (9.7 pp) e a Espanha (7.7 pp). com a Letónia e Portugal (6 pp) nos lugares imediatos.
3 – Comparação (2000 e 2018)  nas taxas de abandono escolar para homens e mulheres 
No gráfico mais abaixo, denota-se que:
·      Apenas três países aumentam as taxas de abandono escolar, simultaneamente, para homens e mulheres – Eslováquia, Suécia e Rep. Checa;
·         A Finlândia é o único caso onde se verifica um aumento do abandono para as mulheres e uma redução para os homens;
·     Para o conjunto dos países da UE há uma redução do abandono escolar (6.8 pp) ligeiramente maior para os homens do que a verificada para as mulheres (6.0 pp). Mais detalhadamente, nos países onde há uma redução do abandono, simultaneamente entre homens e mulheres, observam-se 12 situações em que a redução do abandono entre as mulheres é superior ao verificado para os homens e, 17 casos em que sucede o contrário;
·      Entre as mulheres as maiores reduções no abandono escolar observam-se em Malta (40.6 pp), Portugal (27.8 pp) e Macedónia do Norte (17.4 pp); e as mais insignificantes registaram-se na Sérvia (0.5 pp) e Hungria (1.1 pp), para além dos casos da aumento, como já referido;
·        Para os homens, as maiores reduções do peso do abandono escolar na população com 18-24 anos registam-se em Portugal (36.2 pp), Malta (33.1 pp) e Grécia (17.2 pp).
Variação nas taxas de abandono para homens e mulheres  (2000 e 2018) 

(continua)


Fonte aqui

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Maneiras de reconhecer um populista português moderno

(José Pacheco Pereira, in Público, 06/07/2019)

Pacheco Pereira

  1. Os populistas modernos são, na sua maioria, de direita. Ou melhor, a sua acção comunica mais facilmente com partidos, organizações, homens de direita. Na Europa, nos dias de hoje, os movimentos e governantes populistas, seja no Brexit, seja na Alemanha, Polónia, Hungria, Itália e França, estão todos à direita do espectro político. Podem ficar muito incomodados com esta afirmação, mas é assim. Não foi sempre assim, nem será sempre assim, mas hoje é assim.
  2. O paralelo entre o populismo de direita e um inventado “populismo de esquerda” é uma das características do populismo moderno, que precisa de companhia para mostrar que vai mais longe do que a direita. É vulgar ver em artigos de opinião essa comparação, mas é descuidada e falsa. As posições do PCP, do BE podem ser demagógicas, insustentáveis, irrealistas, mas não são populistas. Querer acabar com a propriedade privada, querer aumentos de salários, querer mais regalias para os sindicatos, atacar patrões e grandes empresas, defender causas “fracturantes”, são posições político-ideológicas muito distintas do populismo. No entanto, se tomadas em abstracto, estas podem emigrar para o discurso de direita. Alguns dos grandes populistas americanos como o Padre Coughlin e Huey Long na Luisiana fizeram alguns dos mais radicais discursos anticapitalistas.
  3. A demagogia é uma componente importante do discurso populista, mas demagogia e populismo não são a mesma coisa. A demagogia está presente em todo o espectro político da direita à esquerda e, por si só, não caracteriza o discurso populista. Este caracteriza-se principalmente pela dicotomia “nós” (o povo) e “eles” (os políticos, os poderosos).
  4. Em Portugal, o populismo entrou pela primeira vez numa campanha eleitoral nas últimas eleições europeias. Os cartazes do Chega/Basta,  que se encontram ainda colocados, são os primeiros a chegar ao espaço público com palavras de ordem claramente populistas. Foi só começo.
  5. O terreno português do populismo é dominantemente o das redes sociais e do tipo de interacção que elas propiciam. Mas já passou daí para certos programas televisivos e para certo tipo de articulistas justicialistas, que vivem da “denúncia” e da indignação moral, e, basta fazer uma lista dos casos, para ver como são selectivos e dúplices na indignação. Em todos os casos têm audiências. O populismo ainda não passou nem para o voto, nem para a rua, embora seja uma questão de tempo.
  6. O tema central do populismo é a corrupção, a real, a imaginária e a inventada. A corrupção é o estado natural da política e dos políticos, de “eles”. Ao não se distinguir entre a corrupção real e a inventada, o discurso torna-se genérico e sistémico. Ao atacarem o “regime” e o “sistema” perceba-se que consideram a democracia o terreno ideal para a corrupção. Não é. É a ditadura, mas não vale a pena lembrar-lhes isso.
  7. No populismo português o tema da corrupção é ainda mais dominante. Os partidos e movimentos na direita que quiseram utilizar outros temas do populismo contemporâneo, como seja a emigração, a islamofobia, ou temas conexos, falharam.
  8. O populismo concentra os seus ataques nos procedimentos da democracia, vistos como uma forma de empecilhos para combater o “crime” e a “corrupção”. Isso inclui os direitos de defesa, as garantias processuais e, em particular, o ónus da prova, a obrigação de ser de quem acusa, que tem que provar.
  9. Os seus heróis são magistrados e juízes. Não todos, mas alguns. E alguns comentadores, alguns blogues, alguns jornais, alguns programas de televisão.
  10. O populista é um activista do ad hominem. Quando fala e quando escreve enuncia nas suas falas e nos seus títulos nomes de pessoas. Depois passa dos nomes, para a família, para os amigos, para os companheiros de partido e por fim para “eles”. Os critérios da culpa são por contiguidade, familiar em primeiro lugar, relacional, e partidária. A culpa é nomeada pessoalmente e depois torna-se colectiva. É de X, nome no título para vender, e porque é de X, é de “eles”.
  11. Os populistas votam mais facilmente em determinado tipo de corruptos conhecidos ou até condenados, cuja política lhes parece próxima, do que “neles”. Várias eleições em Portugal mostram que a aparente indignação contra a corrupção, é muito pouco genuína, e tem componentes políticas que implicam a duplicidade.
  12. Os populistas estão sempre zangados, vivem num estado de excitação patológica, porque eles são sérios e o resto do mundo é desonesto, ladrão e corrupto. Quanto mais afastados do poder –​ por exemplo, quando a conjuntura política favorece os “corruptos”, no seu entender –​, maior é a zanga. Existe uma forte sensação de impotência na zanga.
  13. Quando os populistas, os políticos de que eles gostam, os partidos de que eles gostam, estão mais próximos do poder, a zanga transforma-se em arrogância e autoritarismo.
  14. Os alvos dos populistas são aquilo que eles designam como elite. Os políticos, os funcionários públicos, os professores, os médicos, os enfermeiros, os motoristas, os sindicalistas, os que fazem greve. É uma lista absurda, mas é a dos “privilegiados”. Embora na elite se incluam os banqueiros caídos em desgraça, quase nunca são referidos os principais grupos económicos, as famílias ricas e poderosas, os escritórios de advogados, os consultores financeiros, os dirigentes desportivos e os jogadores de futebol. No quadro de valores de um populista, fugir ao fisco por parte de um político, merece prisão perpétua, mas é uma mera infracção num jogador de futebol.
  15. Os populistas vivem do apodrecimento do sistema político democrático, da oligarquização dos partidos políticos, da indiferença ou do compadrio dos estabelecidos com a corrupção, da corrupção realmente existente, mas as suas soluções são piores do que os problemas. E são, na sua maioria, anti-democráticas e autoritárias. Há um micro-Bolsonaro dentro deles, mesmo quando juram não quererem nada com ele.

As escolhas

(Miguel Sousa Tavares, in Ex+resso, 06/07/2019)

Miguel Sousa Tavares


1 A imagem dos deputados europeus do Partido do Brexit de costas voltadas para os seus colegas na primeira sessão do novo Parlamento eleito, em Estrasburgo, atingiram o efeito pretendido: ofender e manifestar o seu desprezo pelos seus colegas, pelo Parlamento, pela União Europeia e por todos os quase trezentos milhões de cidadãos europeus que votaram nas eleições europeias de Maio. Pela parte que me toca, senti-me ofendido, mas devolvo o insulto: aqueles imbecis, que seguem um idiota vulgar como Nigel Farage e se preparam para eleger um PM ao nível do demagogo de feira Boris Johnson, não fazem falta nenhuma à Europa: que se vão e sejam muito felizes entrincheirados na ilha. Só não percebo que não tenham tido o mínimo de dignidade de renunciarem ao cargo de deputados e respectivas regalias, deixando os lugares vazios em Estrasburgo.

Eles não fazem falta, mas a Inglaterra faz. Faz falta como terceiro pilar entre a França e a Alemanha, faz falta para acrescentar dimensão atlântica à geografia europeia, para, com outra gente que não a do ‘Brexit’, ensinar maneiras e democracia aos mal-educados e recém-chegados. Faz falta, assim como a Europa vai fazer falta à Inglaterra, sobretudo aos jovens e aos que não pertencem ao clube dos privilegiados que se imaginam guardiões de um império que já não existe ou ao novo lumpen-proletariado que forma as suas opiniões nas redes sociais e depois vota nos Johnsons, Farages, Salvinis, Bolsonaros ou no maior ídolo desses pobres de espírito, Donald Trump — o tal que escreveu no Twitter que se tinha encontrado com o príncipe de Whales (das Baleias), em vez do príncipe de Wales (de Gales).

Mas esta semana, olhando para o que foi a tremenda batalha no Conselho Europeu entre os defensores dos princípios básicos e fundadoras da UE — o Estado de direito e a democracia — e os seus opositores, representando quase metade dos 28, é provável que um inglês dos que lamentam a saída da UE tenha pensado que, afinal, talvez o clube europeu já não seja assim tão recomendável. E, todavia, há uma quantidade de outros domínios — como a ciência, a investigação, a energia, o clima, a fiscalidade, a banca, o euro, o combate contra as multinacionais — em que apenas a coesão europeia poderá salvar do esmagamento todos e cada um dos seus membros. Pelo que é impensável, é insustentável, que tudo isso possa ficar paralisado porque um grupo de países baptizado de Visegrado, aliado a uns quantos países de Leste apressadamente integrados na UE e alguns saudosos de regimes autoritaristas de direita, como a desgraçada Itália actual do tenebroso Salvini — todos eles, aliás, convergindo num ódio declarado à UE — possam estar lá dentro a desempenhar o papel de cavalo de Tróia, partindo da rejeição daquilo que é essencial no Tratado de Roma.

O consenso provisório e remendado a que se chegou terça-feira em Bruxelas, sendo o mínimo aceitável e possível nas circunstâncias actuais, prenuncia porém tempos futuros de constante desgaste e paralisia, não a combater os desafios e ameaças externas, mas os inimigos internos. Isto não é uma União, é um casamento podre e sem conserto.

A chamada Europa a duas velocidades é pouco e é provavelmente impraticável. É chegada a altura de ir mais além e iniciar a discussão sobre o que deve ser posto em cima da mesa: a refundação da UE. Partir os 28 a meio, entre os que querem a Europa e não discutem os seus fundamentos e os que estão lá dentro para a minar e para ajustarem contas com os seus próprios fantasmas do passado.


2 Decorria sem novidades e sem grande interesse a entrevista do ministro da Agricultura ao “Público”, quando lhe falaram do olival intensivo e super-intensivo em Alqueva. Aí, Capoulas Santos saltou, como se lhe tivessem atacado um parente de família. E o que disse deixou-me atordoado: pelo que disse e por vir dele, de quem não esperava tanto assanhamento, embora já soubesse que também é um defensor não confesso do eucaliptal intensivo. Começa por dizer o ministro que o olival é milenar em Portugal e a ninguém ocorre que faça mal à saúde. Começou mal: uma coisa é o olival milenar e tradicional; outra, completamente diferente, quer no tipo de árvores quer no tipo de exploração, é o olival intensivo. E ninguém disse que um olival faça mal à saúde, o que faz mal à saúde das populações locais é o fumo das chaminés que extraem o bagaço da azeitona e que vem acompanhado de compostos químicos nocivos à saúde. Gostaria de ver o ministro ir lá dizer às populações, cujas queixas não têm parado, que a sua qualidade do ar é irrepreensível.

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Como é evidente, eu não tenho a pretensão de saber sobre o assunto, apenas me tenho tentado manter informado, lendo tudo o que se escreve sobre isto. E há muitas opiniões contraditórias, sendo que, como é natural, todos ou quase todos os defensores do olival intensivo ou são aqueles que estão em posição de o autorizar, ou estão ao serviço das empresas que o exploram, ou são os próprios interessados: é um negócio de muitos milhões e compreende-se que o defendam. Mas há uma coisa que mesmo os defensores não conseguem negar: está mais do que estudado e mais do que demonstrado que qualquer monocultura, em especial se em exploração intensiva, é uma ameaça a todo o eco-sistema de uma região e à sua regeneração posterior — como ali já vai sendo testemunhado. É, aliás, por não o poder ignorar, e constatando que o olival já atingiu metade da área do perímetro de rega de Alqueva, que Capoulas Santos anunciou há dias a suspensão de apoios à sua extensão. (Mas, sabendo o que a casa gasta, aposto que a suspensão será bem provisória). De resto, que toda a paisagem envolvente esteja a mudar, já não lhe faz impressão nenhuma, apesar de ser alentejano e agricultor. “É natural — diz ele — antes era sequeiro e agora é regadio e isso muda a paisagem”. Mas, não, não é assim tão natural e é preciso ir lá ver, sobretudo para aqueles que acham que quem contesta aquilo são os que gostariam de ver para sempre o Alentejo salpicado apenas por um chaparro aqui ou ali. Vão lá, vejam e imaginem também a Serra de Sintra, ou a da Arrábida, ou o Gerês, transformadas num olival intensivo.

Mas para Capoulas Santos tudo faz parte de uma “campanha” e o que o preocupa é que ela colha frutos junto dos “eleitores” (reparem que não é a opinião pública ou a opinião de alguns que o preocupa, mas a dos eleitores, a dos votos). Compreende-se esta obsessão com o lado rentável da politica, vindo de quem afirma que “o maior desgosto da vida”, que o fez “pensar abandonar a politica”, foi um dia ter sido convidado para secretário de Estado da Agricultura às 16 horas e desconvidado às 23. E de quem iria ele ser secretário de Estado? De Álvaro Barreto, o ministro da Agricultura que vendeu a dita a Bruxelas pelo preço de 120 milhões de contos de então, achando que o futuro do mundo rural estava nos campos de golfe e florestas de eucaliptos.

Pensando bem, sou capaz de concordar com Capoulas Santos: tudo isto faz parte de uma campanha. E bem antiga, por sinal. A campanha a favor do olival intensivo, a que ele acaba de se arregimentar, é apenas o culminar de uma longa tradição — em particular, sempre presente entre os ministros do Ambiente e da Agricultura socialistas: a de ignorarem a relação íntima entre Agricultura e Ambiente, entre paisagem e património natural, e desprezarem as consequências futuras de facturar agora à tripa-forra e pensar depois nas consequências. Portugal é uma triste paisagem povoada de irremediáveis asneiras levadas a cabo pelo voluntarismo de uns quantos, sempre sob o argumento do progresso e do desenvolvimento. Raramente se estudou, se pensou, se planeou primeiro. Avança-se e logo se vê. E quem ousa levantar dúvidas e objecções só pode fazer parte de alguma obscura campanha.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia