Um mundo sem fascismo e sem escalada permanente

(João Gomes, in Facebook, 09/05/2026)


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As palavras de Putin durante as comemorações do 9 de Maio, evocando a Rússia como “barreira impenetrável” contra o nazismo, a russofobia e o antissemitismo, devem ser analisadas à luz da História e do atual contexto geopolítico, e não apenas através da leitura simplificada e emocional que domina parte do debate ocidental. Independentemente das divergências políticas ou diplomáticas, permanece um facto histórico incontornável: foi a União Soviética – e sobretudo o povo russo e os povos eslavos – quem suportou o maior peso humano e militar na derrota do Terceiro Reich.

Mais de vinte milhões de mortos, cidades destruídas e gerações inteiras sacrificadas moldaram profundamente a identidade russa contemporânea. Essa memória coletiva continua viva e explica por que razão a chamada Grande Guerra Patriótica ocupa um lugar central na visão estratégica e emocional da Rússia atual. Para Moscovo, a segurança nacional nunca é apenas uma questão militar; é também uma questão existencial e histórica.

Após o colapso da URSS, a Rússia procurou uma aproximação económica e política à Europa, apostando no comércio, na energia e na integração gradual com o espaço europeu. Contudo, ao longo das últimas décadas, consolidou-se em Moscovo a perceção de que o avanço da NATO para leste e a crescente pressão estratégica ocidental representavam um processo de cerco e contenção. É neste enquadramento que se justifica o atual conflito na Ucrânia, considerando-o uma resposta defensiva a ameaças que entende como fundamentais para a sua própria sobrevivência estratégica.

Pode-se discordar profundamente dessa interpretação, mas ignorar completamente a perceção russa apenas prolonga o impasse e afasta qualquer possibilidade séria de estabilidade europeia.

Também por isso, o simbolismo das comemorações deste 9 de Maio merece atenção. Ao contrário do que muitos esperavam num contexto de guerra aberta e forte confrontação diplomática, Moscovo optou por uma cerimónia mais contida e menos triunfalista do que em anos anteriores. A redução da escala militar e do tom de exaltação pode ser interpretada como um sinal político deliberado: apesar das mais de vinte rondas de sanções económicas, do isolamento promovido por parte do Ocidente e da continuação do conflito, a Rússia procura demonstrar que ainda existe espaço para reduzir tensões e evitar uma escalada irreversível.

Esse gesto não resolve o conflito, nem elimina responsabilidades de qualquer lado, mas revela que os sinais diplomáticos continuam a existir – ainda que discretos e frágeis. A questão central é saber se a Europa estará disposta a reconhecê-los e a agir com autonomia estratégica suficiente para privilegiar a estabilidade continental acima da lógica permanente de confrontação.

Ao mesmo tempo, permanece legítimo discutir a crescente normalização, em partes da Ucrânia, de figuras historicamente ligadas ao colaboracionismo nazi, como Stepan Bandera. Trata-se de um tema frequentemente instrumentalizado por ambos os lados, mas cuja existência não pode simplesmente ser apagada do debate público por conveniência política. Ignorar fenómenos extremistas quando servem interesses geopolíticos momentâneos é um erro histórico que a Europa já pagou caro no passado.

Este Dia da Vitória deveria servir, acima de tudo, para recordar que a paz europeia nunca foi construída apenas pela força militar, mas também pela capacidade de reconhecer limites, evitar humilhações estratégicas e compreender os receios históricos dos diferentes povos. Quando a memória da Segunda Guerra Mundial é usada apenas seletivamente, perde-se precisamente a lição mais importante desse conflito: nenhuma estabilidade duradoura nasce da escalada permanente, da demonização absoluta ou da incapacidade de diálogo.

Num tempo marcado por divisões profundas, sanções sucessivas e discursos cada vez mais agressivos, talvez o verdadeiro sinal de maturidade política esteja não em ampliar o confronto, mas em perceber quando o adversário, mesmo sem recuar totalmente, começa a abrir espaço para que a tensão diminua. E compete à Europa perceber esses sinais antes que o continente volte a pagar um preço demasiado alto pela incapacidade de construir equilíbrio e paz.

2 de maio de 1945 – assim a Europa respirou de alívio

(João Gomes, in Facebook, 02/05/2026, Revisão da Estátua.)


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2 de maio de 1945. As forças soviéticas entram em Berlim. O regime nazi colapsa. A guerra na Europa aproxima-se do fim, após um dos conflitos mais devastadores da história humana.

Oitenta e um anos depois, a memória desse desfecho parece sujeita a uma forma inquietante de seleção. Na narrativa europeia contemporânea, o papel decisivo da União Soviética – e, por extensão histórica, da Rússia – na derrota do nazismo é frequentemente atenuado, relativizado ou, em certos casos, discretamente deslocado para a margem.

Não se trata de ignorar as contradições profundas do regime soviético. Trata-se, sim, de reconhecer que a história da Segunda Guerra Mundial não pode ser recortada segundo conveniências políticas do presente. Mais de 20 milhões de soviéticos morreram no conflito. Esse dado não é um detalhe estatístico: é uma dimensão central da destruição europeia e da vitória sobre o nazismo. Silenciar ou minimizar esse sacrifício não é apenas uma distorção histórica; é uma fragilização da própria inteligência diplomática europeia.

Quando a memória do esforço comum é fragmentada, o resultado não é neutralidade – é desequilíbrio. E esse desequilíbrio alimenta ressentimentos, reforça leituras ideológicas simplificadas e aprofunda ciclos de desconfiança que a Europa, repetidamente, parece incapaz de encerrar.

Na construção de novos alinhamentos geopolíticos, a Europa arrisca perder aquilo que deveria ser o seu fundamento mais sólido: uma relação honesta com a sua própria história, na sua totalidade e complexidade. Sem essa base, a diplomacia torna-se linguagem incompleta – e a paz, um exercício frágil de esquecimento seletivo.

Não se trata de alinhamentos automáticos com qualquer potência. Trata-se de algo mais exigente: a capacidade de sustentar uma memória histórica comum, mesmo quando ela é desconfortável. A paz duradoura não nasce da depuração do passado, mas da sua integração consciente no presente.

Como escreveu Yevgeny Yevtushenko: “O que é esquecido, repete-se. Mas o que é lembrado com raiva, também.”

Carta de um cidadão europeu envergonhado a Mojtaba Khamenei, Líder Espiritual do Irão

(Alcídio Torres, in Telegram, canal Resistir, 28/04/2026, Revisão. da Estátua)

Fighter jets diving over a city skyline during sunset with glowing lights and a colorful sky
Imagem gerada por IA

Senhor Mojtaba Khamenei

Sou um cidadão europeu sem filiação religiosa, e venho pedir-lhe desculpa em nome de um continente que se calou enquanto o seu pai era assassinado.

No dia 28 de Fevereiro de 2026, os EUA bombardearam o Irão. O seu pai foi assassinado. Centenas de crianças, mulheres e inocentes morreram. A Europa (a minha Europa) não condenou. Não protestou. Não se moveu.

Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Polónia, República Checa, Hungria, Bélgica, Países Baixos, Portugal, TODOS em silêncio. O meu país, Portugal, permitiu o uso da Base das Lajes para abastecer os caças que bombardearam o seu povo. Não pago impostos para isto.

A Europa gosta de se chamar “continente dos direitos humanos”. Nesse dia, os direitos humanos iranianos não constavam da agenda.

Não confunda o silêncio de Bruxelas com a vontade de quem vive em Lisboa, Madrid, Berlim ou Paris.

Há uma coisa que me envergonha ainda mais. Os mesmos países que agora se calam sobre o Irão são os maiores fornecedores de armas a Israel. Enquanto Gaza era arrasada, eles enchiam os navios. Enquanto o seu pai era assassinado, eles negociavam novos contratos.

O senhor e o seu pai apoiaram a Palestina. Condenaram o genocídio em Gaza. Nunca esperei ouvir isso de um líder europeu. Mas ouvi do senhor. E isso, confesso, desarmou-me.

Sei distinguir hipocrisia de coerência. E a Europa, hoje, é hipocrisia armada até aos dentes.

O senhor Mojtaba, as suas forças armadas e o seu povo fizeram mais em 40 dias contra o imperialismo do que milhares de discursos vazios em Bruxelas.

A verdade é que eles pensavam que o Irão era apenas mais uma civilização para eliminar do mapa. Não esperavam que, de debaixo dos túneis, dos rochedos e das montanhas, saíssem mísseis hipersónicos capazes de pôr o maior exército do mundo em sentido.

Vocês derrubaram um F-15. Cegaram radares. Fecharam o Estreito de Ormuz, obrigaram a um “cessar fogo” no Líbano. Mostraram que um país médio pode sangrar um superpoder.

Estamos no intervalo de uma guerra e os vossos inimigos continuam a bloquear o estreito e, em simultâneo, a quererem sentar-se à mesa das negociações.

É inacreditável tanto amadorismo, tanta arrogância e tanto desrespeito por uma civilização milenar.

Muitos europeus têm vergonha das suas elites. Mas a luta do povo iraniano dá-nos força para continuar a nossa própria luta. Por uma Europa ao serviço da paz e da justiça, não das guerras imperialistas e do silêncio cúmplice.

O senhor e o seu povo enfrentaram o Império de frente. Nós, europeus comuns, enfrentamos a indiferença e a hipocrisia dos nossos líderes. Mas ao ver-vos combater de frente contra inimigos poderosos, sabemos que é possível resistir.

Atenciosamente, Alcídio Torres, alcidiotorres@gmail.com – um cidadão europeu cansado de pagar, em silêncio, guerras que não escolheu, e envergonhado pelo comportamento das suas elites políticas.

Fonte aqui


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