A guerra contra os Eslavos na Ucrânia chega ao fim

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 27/10/2026)

Steve Witkoff com Vladimir Putin, em 21 de Outubro de 2026

Aproxima-se o momento em que terá que se aceitar a derrota ocidental na Ucrânia. O Presidente Trump está decidido a substituir Volodymyr Zelensky, que fez aliança com organizações criminosas que lutam contra os Estados Unidos. O Exército russo continua a avançar. Musk, que proíbe o uso da rede Starlink para atacar e matar civis, acaba de abrandar o seu ritmo na Ucrânia. A Rússia está a ponto de atingir o seu objectivo militar. Resta saber: o que vão fazer os Europeus para mascarar o seu fracasso?


A Rússia levou muito tempo cumprir o papel que a Resolução 2202 do Conselho de Segurança  [1] lhe havia fixado e a desencadear a sua “operação militar especial” na Ucrânia.

É verdade que os seus parceiros alemães e franceses, igualmente designados como potências garantes dos Acordos de Minsk nada fizeram a propósito.

O Presidente Vladimir Putin até repreendera o oligarca Konstantin Malofeïev que, em nome da Santa Rússia, havia recrutado cossacos para vir em ajuda dos habitantes de Donbass, massacrados pelos «nacionalistas integralistas» com o assentimento do Presidente Petro Poroschenko. É verdade que Malofeïev, proprietário do grupo de comunicação Tsargrad, e de uma parte do das telecomunicações Rostelecom, é um monárquico e que agia em favor de um Grão-Duque. O Presidente lembrou-lhe que, hoje em dia, o facto de dispor de grandes meios não permite que se substitua o Estado.

Vladimir Putin só interveio quando os «nacionalistas integralistas» planearam uma operação militar de envergadura, não só no Donbass, mas também contra a Crimeia, que tinha aderido à Federação da Rússia [2]. Acabou por fazê-lo a correr, reconhecendo as repúblicas do Donbass como Estados soberanos, em 21 de Fevereiro de 2022, antes mesmo do Kremlin ter conseguido arranjar as bandeiras das Repúblicas Populares de Donetsk e de Lugansk para o acto.

O objetivo militar que então ele se havia fixado era o de libertar todas estas regiões; uma meta que deverá alcançar nas próximas semanas. Apenas porque os ocidentais forneceram armas aos ucranianos e a guerra escalou é que Vladimir Putin considerou libertar também a Novorossia; novo objetivo que deverá também alcançar nos próximos meses.

Seja como for, Donald Trump sucedeu a Joe Biden. Ao contrário deste, não tinha nenhum interesse privado neste conflito. Portanto, ele tentou pôr-lhe fim, advertindo publicamente Volodymyr Zelensky na Casa Branca, em 28 de Fevereiro de 2025. Mas este, sendo amplamente apoiado pela imprensa internacional, conseguiu fazer esquecer durante nove meses que já não passava de um impostor, ou seja, desde o fim do seu mandato, em Maio de 2024, e tratou de virar as opiniões públicas ocidentais a seu favor.

Donald Trump propôs várias rondas de negociações, nenhuma das quais teve sucesso. Zelensky foi apanhado com as mãos na massa, mas descartou-se sucessivamente sobre o director da sua administração, Andriy Yermak, depois sobre a sua substituta, Mariia Vitushok. Conseguiu encobrir os escândalos de corrupção da sua equipa, principalmente o caso Midas, e até mesmo o papel do seu sócio comercial, Timur Minditch, no escândalo de Jeffrey Epstein.

No entanto, graças a uma total impunidade, Volodymyr Zelensky acabou a formar aliança com os cartéis da droga mexicanos, que o Presidente Trump havia designado como «organizações terroristas estrangeiras» e aos quais dedicava uma guerra sem quartel  [3].

Em poucas semanas, na América Latina, narcotraficantes atacaram as forças da polícia e os agentes da Drug Enforcement Agency-DEA (Agência de Combate às Drogas) . Eles conseguiram monitorizar as transferências de droga através da fronteira méxico-americana e assassinaram funcionários ​​norte-americanos. Entretanto, as suas drogas estão disponíveis gratuitamente na UE, onde penetram sem risco através da fronteira ucraniana.

Assim sendo, o Presidente Trump decidiu sinalizar o fim da paródia. Ele enviou o seu representante especial, Steve Witkoff, à Ucrânia, depois à Noruega junto dos europeus, e finalmente à Rússia. O seu acólito, Jared Kushner, seguiu os contactos por teleconferência. O jovem estava a fazer negócios algures e viu-se surpreendido pela publicação de um livro denunciando os seus próprios esquemas [4].

Simultaneamente, Elon Musk, constatando que o Exército ucraniano utilizava o seu acesso Starlink, violando o contrato, para acções contra civis, restringiu o fluxo na Ucrânia. Atacado por esta decisão, ele republicou um post de Vladimir Zelensky gabando-se de utilizar esta rede para atacar a profundidade da Rússia [5].

Dmitri Medvedev, o antigo presidente russo e actual Secretário do Conselho de Segurança do país, divulgou uma lista dos problemas criados a Trump pelo «toxicómano de Kiev» [6]. Assim:

“1. Ele apoiou sempre abertamente, e em todo o lado, o velho Biden.

2. Ele recusou transmitir a Trump reais elementos comprometedores sobre o rival aquando das precedentes eleições.

3. Com uma insistência importuna — tal como uma grande mosca verde caída no pote de mel — e num tom grosseiro, ele exigiu a Trump dinheiro e armamento para levar a cabo a guerra contra a Rússia.

4. Ele manipulou os dirigentes europeus, empurrando-os quotidianamente contra Trump e a sua equipa

5. Em muitas ocasiões, ele ignorou Trump e seus colaboradores quando lhe apresentavam diferentes propostas tendo em vista negociações sobre o conflito.

6. Ele desprezou os Estados Unidos, recusando cessar os ataques contra as refinarias russas, ignorando os argumentos de Trump sobre o impacto destas acções nos preços mundiais dos produtos petrolíferos, bem como sobre a situação nos Estados Unidos na véspera das eleições.

7. Com o seu comportamento irrefletido, ele levou os Estados Unidos e a OTAN ao limiar de um conflito nuclear mundial com a Rússia.

8. Ele desviou, sem vergonha — junto com seus acólitos, tais como o foragido Minditch ou Yermak (agora caído em desgraça) — os fundos dos EUA que o velho Biden lhe entregava generosamente para a guerra ; ele continuou a meter a mão no que restava destas somas mesmo já com a Administração Trump.

9. Ele teceu laços com os cartéis mexicanos — que Trump abomina —; estes últimos enviam os seus homens de mão à Ucrânia para aí aprender a usar drones, pagando ao «toxicómano de Kiev» com dinheiro proveniente da venda de substâncias ilícitas nos Estados Unidos.

10. Em vez de ter em conta a posição de Washington, ele exerceu chantagem sobre os Estados Unidos, brandindo a ameaça de uma derrota na Ucrânia e agitando o espectro de consequências desastrosas para todo o Ocidente.”

Está claro que desta vez não haverá escapatória.

Yuri Ushakov, antigo embaixador russo em Washington e actual Conselheiro de Vladimir Putin, indicou que negociações trilaterais Rússia /Ucrânia /EUA poderiam se realizar no Abu Dhabi depois de 4 de Novembro. Ele lembrou entretanto que a oferta anterior de Moscovo, de 18 a 20 de Setembro, tinha sido recusada pela parte ucraniana  [7].

Dmitry Preskov, porta-voz do Kremlin, comentou a procura da UE por um negociador, mas sem nada fazer a respeito. «Eles discutem ainda e não tomam qualquer decisão». A propósito de uma eventual nomeação de Alexander Stubb, Presidente finlandês, ele declarou : «Se houver um negociador, muito bem. Se for um negociador que sinceramente se esforce para contribuir para uma solução pacífica, será ainda melhor.» O Kremlin não esconde a sua preferência por Gerhard Schröder, antigo Chanceler alemão e actual administrador da Gazprom.

O deputado Leonid Slutsky, presidente do Partido Liberal Democrata (fundado por Vladimir Zhirinowski), declarou : «Kyiv não busca negociações de paz. Zelensky já bloqueou uma grande cimeira trilateral na diáspora ucraniana com raides brutais às assembleias de voto durante as eleições para a Duma. Ele decidiu repetir esta acção antes de preparar a reunião em Abu Dhabi. A parte norte-americana deveria igualmente tirar conclusões e «não congelar», mas sim parar completamente toda a ajuda militar à Ucrânia. Isso é que seria uma contribuição real para o processo de paz». Geralmente, este Partido é utilizado pelo Kremlin para dizer bem alto o que a etiqueta força a não expressar.

O Kremlin rejeita, sem cerimónia, todos aqueles que propõem timidamente um simples cessar-fogo. Fala agora de um verdadeiro tratado de paz, no pleno sentido do termo, com a desnazificação do país.

O conjunto das potências membros da «Coligação dos Dispostos» enfrenta hoje as consequências de tudo isto.

• Como se vai reconhecer que, sim, havia «nacionalistas integralistas», «banderistas», no seio do governo ucraniano?

• Como se vai reconhecer que eles não se consideravam Eslavos, mas antes pretendiam erradicar todos os Eslavos, Ucranianos e Russos, até ao último descendente?

• Como se vai aceitar que foi esta gente que foi apoiada sem reservas às custas de grandes aumentos de impostos na União Europeia e no Canadá?

É provável que depois desta carnificina, que custou a vida a mais de um milhão de pessoas, não seja apenas Volodymyr Zelensky a pôr-se na alheta rapidamente, mas também dirigentes políticos da União Europeia e do Canadá.

No entanto, a Alemanha, a França, a Itália, a Polónia e o Reino Unido assinaram, em 26 de Outubro, uma declaração comum sublinhando o seu compromisso sem falhas ao lado da Ucrânia e anunciando que se comprometiam a reforçar o seu papel no seio da OTAN [8].

NOTAS

1] «Résolution 2202 du Conseil de sécurité», dite S/RES/2202 (2015), adoptée le 17 février 2015.

[2] «Plan d’attaque ukrainien», Révélé par l’Agence Tass, 9 mars 2022.

[3] “A aliança de V. Zelensky com cartéis latino-americanos põe em perigo estratégia antidroga da Casa Branca”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Outubro de 2026.

[4] Princes and Thieves: Jared Kushner and Mohamed bin Zayed’s Secret Plot to Remake the Middle East, Matthew Cole, Atria/One Signal Publishers.

[5] «@elonmusk», Elon Musk, X, October 25, 2026.

[6] Dmitri Medvedev, VK, 24 октября 2026 года.

[7] «Commentary by Presidential Aide Yury Ushakov following Vladimir Putin’s meeting with US President’s Special Envoy Steve Witkoff», Kremlin, October 21, 2026.

[8] «Déclaration conjointes des ministres de la défense du E5», Ministère français de la Défense, 26 octobre 2026.

Fonte aqui

O mundo está à beira de uma guerra nuclear?

(WSWS.org, editorial, 30/09/2026, Trad. Estátua)

Nesta foto divulgada pelo Serviço de Imprensa do Ministério da Defesa da Rússia em 10 de fevereiro de 2022, o navio de assalto anfíbio da Marinha Russa, Kaliningrad, entra no porto de Sebastopol, na Crimeia. [Foto AP/Serviço de Imprensa do Ministério da Defesa da Rússia]

Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

O mundo está à beira de uma guerra nuclear? A questão surge diretamente dos eventos dos últimos dias, à medida que a guerra entre os EUA e a NATO contra a Rússia na Ucrânia se intensifica, transformando-se num confronto aberto entre potências nucleares.

A Rússia declarou esta semana estar pronta para usar armas nucleares caso a NATO bloqueie Kaliningrado, território russo no Mar Báltico, entre a Polônia e a Lituânia. O alerta foi emitido pelas embaixadas russas na Bélgica, Grã-Bretanha e Irlanda, nos dias 28 e 29 de setembro, e também em nota diplomática à NATO. 

Afirmando que a NATO estava preparando um “bloqueio aéreo e naval” de Kaliningrado, a embaixada russa na Irlanda declarou: “Não deve haver dúvidas — a Rússia estaria pronta para usar todo o seu arsenal, incluindo armas nucleares, para defender o seu território caso os países da NATO tentem isolar a região de Kaliningrado do resto do país.” 

A porta-voz da NATO, Allison Hart, respondeu na terça-feira, afirmando: “A NATO é uma aliança defensiva e nenhuma das nossas atividades ou exercícios representa um risco para qualquer parte da Rússia”. Ela denunciou “a ameaça do uso da força, incluindo qualquer retórica nuclear irresponsável”.

Essa afirmação é totalmente falsa, visto que a aliança da NATO está armando e orientando ataques ucranianos em território russo. A NBC News noticiou em outubro de 2025 que o governo Trump forneceria informações de inteligência a Kiev para ajudá-la a “atacar instalações de petróleo e gás dentro da Rússia”. Em 30 de julho, a Comissão Europeia pagou a Kiev € 3,47 biliões, incluindo financiamento para “drones a jato de longo alcance”. Na noite de 19 para 20 de setembro, a Ucrânia lançou o maior ataque da guerra, com drones, contra Moscovo e região circundante. Em 28 de agosto, as forças ucranianas atacaram um bombardeiro estratégico Tu-95, parte das forças nucleares da Rússia, na base aérea de Engels.

Além disso, as “atividades e exercícios” da NATO são direcionados para a própria Kaliningrado. Em meados de agosto, segundo uma fonte militar ocidental citada pela Reuters, dezenas de aeronaves da NATO realizaram uma operação não anunciada ao redor do enclave. A operação demonstrou que eles poderiam cortar as ligações de rádio e radar, bem como as defesas aéreas. Desde janeiro, 14 países europeus consideram os petroleiros ligados à Rússia que mudam de bandeira ou desligam seus transponders como “embarcações apátridas” sujeitas a abordagem, e a Suécia apreendeu uma, em março.

Em 11 de setembro, o Ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radosław Sikorski, disse sobre Kaliningrado: “Quase não há tropas lá”. Ele propôs que a NATO “realizasse exercícios tão agressivos no nosso lado a ponto de deixar [Putin] incerto sobre o que iremos fazer”. Ele acrescentou: “Não devemos pensar no nosso confronto com a Rússia apenas como algo restrito à Ucrânia”. 

As potências europeias estão partindo do pressuposto de que Moscovo está a fazer bluff. Na Cimeira de Defesa e Espaço da Euronews, em Bruxelas, na quarta-feira, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, declarou: “Não levo isso a sério. … Todos sabem que [Putin] jamais poderá vencer a NATO.” 

A lógica é a de uma escalada implacável. As potências europeias condicionaram a sua política a uma vitória ucraniana. “Putin precisa sentir que a guerra está chegando à própria Rússia”, declarou na quarta-feira o Comissário Europeu da Defesa, Andrius Kubilius.

Entretanto, a situação militar da Ucrânia está a deteriorar-se. Em julho, intercetou apenas 29 dos 195 mísseis balísticos russos e entra no inverno sem as defesas aéreas necessárias para proteger a sua rede elétrica. Cada novo revés será respondido com uma escalada ainda maior: o envio de tropas terrestres ou a abertura de novas frentes, incluindo Kaliningrado.

Para Moscovo, os riscos não poderiam ser maiores. Kaliningrado é para o Mar Báltico o que a Crimeia é para o Mar Negro. É a sede da Frota do Báltico e a base dos mísseis Iskander, com capacidade nuclear, da Rússia. Desde que a Finlândia e a Suécia aderiram à NATO, a cidade está cercada pela Aliança por terra e mar.

Em certo sentido, o enclave é mais sensível que a Crimeia. O seu estatuto é reconhecido internacionalmente desde a Conferência de Potsdam de 1945, que o transferiu para a União Soviética. Uma ação contra Kaliningrado seria um ataque a um território que nenhum governo contesta ser russo. A doutrina nuclear da Rússia permite uma resposta nuclear a uma agressão convencional que represente uma “ameaça crítica” à sua integridade territorial.

Nikolai Sokov, ex-diplomata russo e analista nuclear radicado em Viena, disse à Reuters em entrevista publicada na quarta-feira: “Eles (a Rússia) esperam mais ações, incluindo um bloqueio do Mar Báltico — um pouco abaixo do nível de guerra nos cálculos europeus, mas para eles isso será uma guerra aberta. Vejo, assim, um risco de erro de cálculo mútuo.”

Um bloqueio à Rússia pode estar “um pouco abaixo do nível de guerra nos cálculos europeus”, mas, segundo o direito internacional, é um ato de guerra. A definição de agressão adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1974 inclui “o bloqueio dos portos ou costas de um Estado pelas forças armadas de outro Estado”. 

Considerando os riscos, é espantoso que não haja apelos à negociação nem se fale num acordo. O único debate nas capitais europeias gira em torno de até que ponto e com que rapidez intensificar o conflito.

Esta é a imprudência das potências imperialistas assoladas por uma crise social, económica e política cada vez mais profunda, que impulsionam a guerra sem se importarem com as suas consequências. O regime de Putin, que representa uma oligarquia capitalista e é incapaz de fazer qualquer apelo genuíno à classe trabalhadora internacional, responde com ameaças nucleares.

O contraste com 1962 é gritante. Quando os Estados Unidos e a União Soviética chegaram à beira do conflito por causa dos mísseis soviéticos em Cuba, o perigo foi abertamente reconhecido. O presidente John F. Kennedy anunciou a crise na rede nacional de televisão em 22 de outubro, e durante a semana seguinte o mundo acompanhou cada desenvolvimento. Kennedy e o líder soviético Nikita Khrushchev trocaram cartas, e os dois governos, temendo as consequências, negociaram por canais informais até encontrarem uma maneira de recuar. Hoje não há reconhecimento nem negociação. 

Existe um abismo imenso entre a dimensão do perigo e a consciência pública sobre ele. Milhões sentem que algo está profundamente errado, mas não conseguem acreditar que os seus governos arriscariam uma guerra nuclear. Na medida em que o perigo é apresentado na mídia, ele aparece como a ameaça inexplicável dos russos, a “retórica nuclear” de Putin e a “guerra híbrida”. Nunca é apresentado como uma resposta às ações das potências da NATO. 

Até a noite de quarta-feira, o New York Times e a CNN não haviam noticiado o alerta de Moscovo. Os veículos de comunicação que se manifestaram pressionam por uma escalada ainda maior. O Washington Post escreveu na segunda-feira: “Uma mensagem melhor de Trump seria que os EUA permitirão que a Ucrânia aja com mais intensidade se a Rússia não aliviar a pressão.”

Os democratas criticaram o presidente dos EUA, Donald Trump, pela sua postura insuficientemente agressiva contra a Rússia. Em 24 de setembro, 21 senadores democratas declararam que os “apelos por desescalada” na cimeira de Trump com o presidente chinês Xi Jinping “não fazem nada para interromper o fluxo de bens chineses de dupla utilização que mantém a máquina de guerra de Vladimir Putin em funcionamento”. Entre os signatários estavam o líder democrata Chuck Schumer, Elizabeth Warren e Adam Schiff.

A guerra na Ucrânia, provocada por três décadas de expansão da NATO até as fronteiras da Rússia, faz parte de uma luta pela hegemonia global travada em todos os continentes. Mais de quatro anos após o início do conflito, uma nova e catastrófica etapa está sendo preparada às escondidas da população. A classe trabalhadora, que pagará o preço, precisa ser alertada. Os governos que cortam empregos e programas sociais para financiar o rearmamento são os mesmos que estão conduzindo a uma guerra que pode se tornar nuclear.

A luta contra a guerra deve estar ligada à luta de classes que já está em curso. A mesma crise que impulsiona a classe dominante para a guerra está a impulsionar os trabalhadores para a luta contra as demissões, contra a destruição dos programas sociais e contra os ataques aos direitos democráticos.

A classe trabalhadora é a única força social capaz de deter a guerra, mas só poderá fazê-lo se compreender o que está a ser preparado e lutar conscientemente contra ela e contra o sistema capitalista que a produz. A primeira tarefa é romper o silêncio sobre o perigo. Exortamos os nossos leitores a divulgarem esta declaração o mais amplamente possível.

Fonte aqui

Inverno de 2026: A Europa dividida entre o Urso, o Tio Sam e o termómetro

(Por h16, in Reseau International, 01/10/2026, Trad. Estátua)


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

A alegria do aquecimento global (um pouco) e do El Niño (muito): tudo indica que, este ano, com o Pacífico a aquecer como raramente acontece, o início do inverno poderá ser ameno e húmido no Velho Continente.

Eis uma (muito rara) boa notícia para os governos europeus… que, no entanto, deverão evitar qualquer otimismo ingénuo, uma vez que as previsões meteorológicas não excluem um regresso do frio em janeiro e fevereiro, ou seja, exatamente na altura em que as reservas de gás estão no nível mais baixo.

E este ano, partem de um nível baixo: a 25 de setembro, as reservas europeias de gás situavam-se em apenas cerca de 70%, cerca de quinze pontos abaixo da média dos últimos cinco anos, e isto apesar do seu preço no mercado ter mais do que duplicado num ano.

Recorde-se que, em 2022, no meio do pânico, Bruxelas impôs uma meta de 90% de enchimento até 1 de novembro, taxa que foi necessário “flexibilizar”  este ano, com uma tolerância de dez pontos quando as condições de mercado são «desfavoráveis». Mas eis que a nova meta de 80% nem sequer é certo que seja atingida.

Fiquemos tranquilos: a Grande Comissão fez o que os ministérios franceses praticam com mestria há muito tempo sempre que um objetivo não é atingido, ou seja, rebaixá-lo, e concluiu, assim, no início de setembro, que não existe «risco imediato» para o abastecimento.

Está bem, mas para encher os tanques são necessários hidrocarbonetos que o Golfo não parece poder fornecer: a Aramco avisou os europeus de que não receberiam petróleo bruto ao abrigo dos contratos em outubro e a QatarEnergy prolongou até novembro a sua cláusula de força maior relativa ao GNL. E, infelizmente, a União, que importa 80% do seu gás e 95% do seu petróleo, não dispõe de alternativas geográficas.

Na prática, restam, portanto, apenas dois fornecedores de último recurso: um a oeste, outro a leste, e nenhum dos dois disposto a fazer concessões.

No entanto, Washington já tinha avisado em novembro passado, com a publicação da Estratégia de Segurança Nacional: os Estados Unidos estão a voltar a centrar-se no seu hemisfério ocidental, acrescentam um «corolário de Trump» à doutrina de Monroe e a Europa é instada a recuperar a sua «confiança civilizacional». Esta estratégia apela a um rápido fim das hostilidades na Ucrânia e visa uma «estabilidade estratégica» com Moscovo.

Quem viu nisso apenas mais uma manobra ficará desiludido: dez meses depois, a sua aplicação está a avançar passo a passo.

E, aliás, na terça-feira, à margem da Assembleia Geral da ONU, Trump assinou com Copenhaga e Nuuk o acordo sobre a Gronelândia, que está muito longe de ser uma simples atualização do acordo de 1951, como os comentadores de sempre tentam fazer crer.

Assim, os Estados Unidos garantem agora uma presença militar permanente, da qual até mesmo uma Gronelândia independente herdaria (artigo XI), quer queira quer não, um direito de veto sobre qualquer presença militar de países não membros da NATO no território polar, bem como sobre a identidade dos intervenientes autorizados a investir nas suas infraestruturas e recursos estratégicos (fora da NATO e da UE). A Dinamarca renunciou ao seu direito de intervir no próprio princípio da criação de novas bases americanas, conservando apenas o direito de discutir os «detalhes de implementação» e já não pode estabelecer as regras que regem as deslocações das forças armadas americanas na ilha. Em suma, mesmo que em Copenhaga se afirme, com um ar tenso, ter-se conservado a soberania, trata-se sobretudo de uma soberania de fachada.

No mesmo dia, Trump assinou a lei HR5334, que o autoriza a aplicar direitos aduaneiros de até 100% a todos os produtos dos cinco maiores compradores de hidrocarbonetos russos. De acordo com as estimativas que circulam no Congresso, esta lista inclui a França, a Bélgica e a Hungria. É certo que o presidente pode conceder isenções… Ou não.

Paralelamente, a revisão da presença militar norte-americana na Europa prevê a retirada de 25 000 a 40 000 homens, ao mesmo tempo que promete uma base permanente à Polónia. Tal como era previsto, a transferência de responsabilidades está em curso, de forma metódica.

Por fim, para aqueles que contavam com o gás e o gasóleo americanos para passar o inverno, recordemos que, perante Zelensky, Trump se mostrou favorável a uma proibição das exportações de gasóleo americano, ao mesmo tempo que pediu a Kiev que deixasse de atacar as infraestruturas energéticas russas. Pois é, o fornecedor de último recurso não está, portanto, garantido a fornecer, e preferiria que as refinarias russas continuassem a funcionar.

Para pressionar os europeus a sentarem-se à mesa das negociações, dificilmente se poderia ser mais claro.

Por outro lado, Moscovo pouco teve em conta a vontade daqueles que prometiam asfixiar a sua economia em poucos trimestres e, em vez de isolar a Rússia, as sanções acabaram por deslocar as refinarias para a Índia, que absorveu 36% do petróleo bruto russo exportado desde o final de 2022. As suas exportações de petróleo para a União passaram, de 8,7 para 19,2 mil milhões de dólares em dois anos: o gasóleo «indiano» que chega a Roterdão tem o aroma dos Urais. E no que diz respeito ao gás, a União continua a ser o principal cliente do GNL russo, absorvendo quase metade das suas exportações. A França ocupa o segundo lugar entre os importadores europeus de energia russa, atrás da Hungria e do seu gasoduto.

Resumindo, Moscovo produz, a Europa consome.

A influência russa estende-se até ao interior da União: o oleoduto Druzhba transforma Budapeste e Bratislava em pontos de bloqueio permanentes, e a prova disso ocorreu esta semana: as sanções europeias foram renovadas cinco minutos após a meia-noite, à custa da retirada dos oligarcas Alisher Usmanov e Mikhail Fridman da lista de pessoas sancionadas contra a Rússia. Segundo vários diplomatas, a própria França pressionou para que Usmanov fosse retirado da lista, a fim de obter a libertação de cidadãos franceses detidos no Azerbaijão.

Cínica, a Macronia pretende liderar a «coligação de voluntários», mas troca o levantamento de sanções por prisioneiros. Nem sequer se ousa imaginar o que ela concederia caso o inverno fosse demasiado rigoroso.

O prazo está a esgotar-se: a partir de meados de outubro, qualquer nova compra de petróleo bruto russo expõe os grandes clientes de Moscovo à ira dos Estados Unidos. Se Nova Deli reduzir as compras para salvaguardar o seu acesso ao mercado norte-americano, a Europa perde uma boa parte do seu gasóleo «indiano», precisamente no inverno em que a Arábia Saudita a priva de petróleo bruto. Se Nova Deli se mantiver firme, cada carga indiana torna-se um risco bancário. Em ambos os casos, os preços sobem e o vendedor de último recurso chama-se Washington, que terá todo o interesse em explicar que um gasóleo a preços acessíveis é incompatível com uma guerra prolongada no Oriente.

Assim, em quatro anos, os líderes europeus ofereceram a um adversário os meios de pressão que pensavam ter-lhe confiscado, transformaram um protetor num credor e a sua política energética num boletim meteorológico: se o El Niño cumprir as suas promessas até março, Bruxelas falará de «resiliência».

E, caso contrário, negociar-se-á a Ucrânia, com um casaco de penas, com Washington, de um lado, e Moscovo, do outro.

Fonte aqui