O Perigo Nazi é o Fim da Europa

(Dieter Dellinger, 16/09/2018)

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Foto: Nazis manifestam-se em Chemnitz perante o busto de Karl Marx. As voltas que a história pode dar?

O maior perigo para a Europa e, em particular, para a Alemanha e alguns países próximos é a ascensão do neonazismo.

Vários partidos nazis tentaram formar-se ao longo das décadas e não tiveram êxito, mesmo disfarçados de democratas, ou foram proibidos por a Constituição alemão os não permitirem ou não tiveram apoio popular.

Repentinamente formou-se uma há cinco anos o AfD (Alternativa para a Alemanha) que tem tido um êxito muito superior ao de outro partido denominado AfD (Aliança para a Alemanha) que quase despareceu com a fuga do seu pessoal para o “Alternativa”.

Enquanto o AfD atual se disfarçou até há pouco como partido democrático, revelou-se recentemente como verdadeira horda nazi nas manifestações de Chemnitz, curiosamente a antiga cidade de Karl Marx dos tempos da RDA , porque participou com várias organizações nazis como a Pegida, Holigans NS e outras que se manifestaram ruidosamente contra refugiados e estrangeiros muçulmanos na sequência de um crime praticado por dois jovens afegãos que mataram um cidadão filho de pai cubano e mãe alemã. Também é curioso que as grandes manifestações nazis em Chemnitz tiveram lugar na praça que ainda ostenta um enorme busto de Karl Marx, o que não incomoda ninguém.

Chemnitz é o local ideal para fazer renascer a tradicional xenofobia e racismo alemão que não morreu com a rendição em 1945. Isto porque na cidade de 250 mil habitantes foram alojados 70 mil refugiados, os quais temem sair à rua e são perseguidos por todos os cidadãos que se sentem com força e juventude para praticar o seu ódio e vontade de agressão.
Mas o caso de Chemnitz não é um “fait divers” da política nazi do AfD, pois as sondagens dos últimos dias dão-lhe 25% das intenções de voto, logo a seguir aos democratas ditos cristãos da CDU com 30% e antes da esquerda com 18% e do SPD com 11%.

O AfD é o segundo maior partido da maior parte das novas regiões federais alemãs, sempre com valores acima dos 21% e em confronto com a CDU que ronda os 28% em média. Na região de Brandenburg onde está Berlim, os nazis estão com 21% a seguir aos 23% do SPD e em Hessen que foi sempre ocidental, o nazismo AfD chegou já aos 15% com o SPD à frente com 22% e a CDU da Markel com 31%.

Na Baviera, um tradicional feudo da direita CSU ocidental, o AfD nazi pode contar com 15% de votos nas eleições do próximo dia 28 de outubro atrás do SPD com 22% e da CDU com 31%.

Os nazis “Alternativos” têm já 92 deputados no Parlamento Federal e 157 nos parlamentos regionais e em Maio passado contavam com 30.200 militantes, sendo previsível que em próximas eleições venham a duplicar este número. Nem Hitler conseguiu uma progressão tão rápida entre 2019 e 2024 e só em 2033 é que o seu partido foi o mais votado, mas sem maioria absoluta, pelo que teve o apoio do Partido Católico /Zentrum) que sob a influência do Núncio Apostólico em Munique, Monsenhor Pacelli (depois Papa Pio XII), conseguiu fazer-se eleger chanceler para de seguida destruir a democracia.

Assim como o nazismo alemão não chegou em primeiro lugar ao poder na Europa, também os nazis do AfD não são os primeiros, já que a Itália já tem o seu “Mussolini” no poder, o ministro do interior Matteo Salvini com um Primeiro Ministro que não mada nada. O objetivo de Salvini é o Mesmo do Gauland do AfD e do Organ da Hungria já no poder que mandou construir uma barreira em torno da fronteira para que nenhuma pessoa de pele mais escura entre no seu país.

Os nazis alemães do AfD fundaram o seu partido no dia 6 de Fevereiro de 2013 no Centro Paroquial da Igreja Evangélica Alemã da pequena cidade de Oberursel, pelo que têm em comum com o nazismo hitleriano o apoio de igrejas ditas cristãs. No fundo, só os religiosos podem “amar o próximo” e “odiar o mais distante”.

Com Hitler tratou-se de odiar e matar os judeus e agora com o AfD odiar e deixar morrer os muçulmanos e outros nas águas do Mediterrâneo.

Os nazis alternativos portaram-sempre como tal. O partido foi fundado por um tal Lucke que foi o primeiro secretário-geral para ser depois corrido por uma jovem senhora de cabelos curtos, Petry, que parecia demasiado democrática e foi posta de lado por um tipo mais velho e um verdadeiro nazi, um tal Gauland.

Os três pertenciam ao grupo fundador, mas cada êxito eleitoral numa região criava imediatamente o combate entre o pequeno grupo para sacar o chefe para fora e colocar-se outro a liderar. No fundo, o AfD procura uma figura vociferante, mesmo inculta, como Hitler que possa adquirir o poder carismático vocal de Hitler que sabia berrar como ninguém, ultrapassando qualquer animal, mas mal sabia escrever, apenas ler e ditar para as secretárias.

O perigo do nazismo AfD não reside apenas nos votos, pois tiveram mais de 21% nos primeiros votos das eleições para o Parlamento Federal e até a presidência da Comissão para o Orçamento na qual lutam contra o financiamento e apoio a refugiados e emigrantes, mas sim no extraordinário apoio dos militares e polícias alemães. Já conseguiram que nas Forças Armadas e Policiais, a bandeira da União Europeia nunca estivesse no Centro, mas só a bandeira alemã ladeada pela da EU e pela da Região Federal. O líder do sindicato dos polícias pertence ao grupo nazi e até o comandante federal dos 92 mil polícias fala de uma forma positiva acerca dos nazis alemães. Com uma polícia assim, os refugiados e emigrantes não estão em segurança na Alemanha.

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Mais de 15% dos deputados nazis nos parlamentos regionais e federais são militares no ativo com suspensão de serviço ou reformados.

O atual líder diz a todos a história da II. Guerra Mundial é uma mentira contra a Alemanha e se houve guerra mundial foi porque o Império Britânico e o Império Francês declararam guerra à Alemanha dias depois das tropas nazis entrarem na Polónia para conquistar território alemão que o Tratado de Versalhes tornou polaco e fizeram-no de acordo com o regime de Estaline que também atacou a Polónia e conquistou as repúblicas bálticas porque uma grande parte das respetivas populações eram russas. Acrescenta ainda que a Alemanha esperou quase um ano antes de atacar a França para ver se conseguia evitar uma guerra mundial.

Um deputado militar nazi do AfD disse há dias que é preciso acabar com a mentira de que as cidades alemãs não foram bombardeadas pelos ingleses e americanos com gás. Diz ele: foram com o gás ardente do fósforo que entrava nos respiradouros dos bunkers e nas caves das casas para queimar vivos todos os ocupantes e poderão ter sido liquidados 3 milhões de civis e não 300 mil como dizem os ingleses.

Gauland disse até que na História da Alemanha, a II. Guerra foi o equivalente a uma cagadela de pombo e o homem é historiador e especialista na História da Prússia.

Foto: Nazis manifestam-se em Chemnitz perante o busto de Karl Marx. As voltas que a história pode dar?

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A NATO, em expansão e cada vez mais cara, alastra-se pela Europa

(Manlio Dinucci, in Rede Voltaire,  12/07/2018)

NATO and EU leaders sign joint declaration

A Comissão Europeia e o Secretariado-Geral da NATO fizeram preceder a Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da Aliança, pela assinatura de uma Declaração Conjunta. Para essas Administrações tratava-se de impossibilitar o sistema que gerem de maneira a impedir que as (autoridades) eleitas o contestassem.

Agindo como orgãos programados desde a sua criação, as Administrações da NATO e da União Europeia, prosseguem o seu projecto afastadas de qualquer controlo político.As burocracias militares e civis resultantes da ocupação norte-americana da Europa Ocidental, pretendem defender os interesses da elite transnacional sem se preocupar com a vontade dos povos.


Em 11 e 12 de Julho de 2018, desenvolve-se em Bruxelas a CIMEIRA NATO ao nível de Chefes de Estado e de Governo, dos 29 países membros. Confirma ao mais alto nível o fortalecimento da estrutura de comando, principalmente, na função anti-Rússia. Serão estabelecidos:

- um novo Comando Conjunto para o Atlântico, em Norfolk, nos EUA, contra os “submarinos russos que ameaçam as linhas de comunicação marítima entre os Estados Unidos e a Europa”

- um novo Comando Logístico, em Ulm, na Alemanha, como “dissuasor” contra a Rússia, com a tarefa de “mobilizar mais rapidamente as tropas em toda a Europa em qualquer conflito”.

Em 2020, a NATO terá, na Europa, 30 batalhões mecanizados, 30 esquadrilhas aéreas e 30 navios de combate, apetrechados em 30 dias ou menos, contra a Rússia. O Presidente Trump terá, portanto, cartas mais fortes na Cimeira bilateral, que terá a 16 de Julho, em Helsínquia, com o Presidente Putin, da Rússia. Daquilo que o Presidente dos EUA estabelecer na mesa de negociações, dependerá, fundamentalmente, a situação na Europa.

O raio de expansão da NATO vai muito além da Europa e dos próprios membros da Aliança. Ela tem vários parceiros ligados à Aliança por vários programas de cooperação militar. Entre os vinte incluídos na Parceria Euro-Atlântica, figuram a Áustria, a Finlândia e a Suécia. A parceria mediterrânica inclui Israel e a Jordânia, que têm missões oficiais permanentes na sede da NATO, em Bruxelas, e Egipto, Tunísia, Argélia, Marrocos e Mauritânia. A parceria do Golfo inclui o Kuwait, o Qatar e os Emirados, com missões permanentes a Bruxelas, além do Bahrein. A NATO também tem nove “Parceiros globais” na Ásia, na Oceania e na América Latina – Iraque, Afeganistão, Paquistão, Mongólia, Coreia do Sul, Japão, Austrália, Nova Zelândia e Colômbia – alguns dos quais “contribuem, activamente, para as operações militares da NATO”.

A NATO – criada em 1949, seis anos antes do Pacto de Varsóvia, baseada formalmente no princípio defensivo estabelecido pelo Artigo 5 – foi transformada numa aliança que, de acordo com o “novo conceito estratégico”, compromete os países membros a “liderar operações de resposta a situações de crise não previstas no artigo 5.º, fora do território da Aliança”. Segundo o novo conceito geoestratégico, a Organização do Tratado do Atlântico Norte estendeu-se às montanhas afegãs, onde a NATO está em guerra há 15 anos.

O que não mudou, na mutação da NATO, foi a hierarquia dentro da Aliança. É sempre o Presidente dos Estados Unidos que nomeia o Comandante Supremo Aliado na Europa, que é sempre um general dos EUA, enquanto os Aliados se limitam a ratificar a sua escolha. O mesmo aplica-se aos outros comandos chave. A supremacia dos EUA fortaleceu-se com a ampliação da NATO, pois que os países do Leste europeu estão mais vinculados a Washington do que a Bruxelas.

O próprio Tratado de Maastricht, de 1992, estabelece a subordinação da União Europeia à NATO, da qual fazem parte 22 dos 28 países da UE (com a Grã-Bretanha de saída da União). O mesmo estabelece no artigo 42.º, que “a União respeita as obrigações de alguns Estados Membros, que consideram que a sua defesa comum se efectue através da NATO, no âmbito do Tratado do Atlântico Norte”. E o protocolo n. 10 sobre a cooperação estabelecida pelo art. 42 salienta que a NATO “continua a ser a base da defesa” da União Europeia. A Declaração Conjunta sobre a Cooperação NATO/UE, assinada em 10 de Julho em Bruxelas, na véspera da Cimeira, confirma esta subordinação: “A NATO continuará a desempenhar a sua função única e essencial como pedra angular da defesa colectiva para todos os aliados, e os esforços da UE também fortalecerão a NATO” [1]. A PESCO e o Fundo Europeu para a Defesa, sublinhou o Secretário-Geral Stoltenberg, “são complementares e não alternativas à NATO”. A “mobilidade militar” está no centro da cooperação NATO/UE, consagrada na Declaração Conjunta. Igualmente importante é a “cooperação marítima NATO/UE no Mediterrâneo, para combater o tráfico de migrantes e, assim, aliviar o sofrimento humano”.

Sob pressão dos EUA e neste contexto, os aliados europeus e o Canadá aumentaram a sua despesa militar em 87 biliões de dólares, desde 2014. Apesar disso, o Presidente Trump vai bater com os punhos na mesa da Cimeira, acusando os aliados porque, todos juntos, gastam menos do que os Estados Unidos. “Todos os aliados estão a aumentar as despesas militares”, afirma o Secretário Geral da NATO, Stoltenberg.

Os países que destinam à despesa militar, pelo menos 2% do seu PIB, aumentaram para 3%, em 2014, e para 8%, em 2018. Prevê-se que, desde agora até 2024, os aliados europeus e o Canadá aumentarão a sua despesa militar em 266 biliões de dólares, expandindo a despesa militar da NATO para mais de 1 trilião de dólares por ano. A Alemanha, em 2019, ampliará para uma média de 114 milhões de euros por dia e planeia aumentá-la em 80% até 2024. A Itália comprometeu-se a alargá-la dos actuais 70 milhões de euros por dia, para cerca de 100 milhões de euros/dia. Como exige aquele que, no programa do governo, é definido como “o aliado privilegiado da Itália”.


Fonte aqui

Os gnomos de Trump e o Senhor das Moscas

(José Pacheco Pereira, in Público, 14/07/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Não costumo muito ficar envergonhado com a atitude de outros, em particular quando não tenho muitas expectativas sobre o seu comportamento. Mas envergonha-me a cena de submissão que os dirigentes europeus da UE e da NATO têm feito diante de um Trump que os insulta, ataca, ameaça, mente descaradamente, gaba-se, batendo no peito como os gorilas, faz afirmações inaceitáveis, chantageia-os com tomadas de posição de enorme gravidade para a paz e segurança dos seus países, mostra desprezo pelos seus acordos e alianças, interfere na política interna das democracias (nas autocracias e ditaduras nem uma palavra), ou seja, faz tudo o que não deve fazer por nenhuma regra diplomática, de bom senso, de educação, e eles sorriem, baixam a cabeça, apressam-se a correr para o lugar na fotografia, como gnomos que são.

Ao lado do que aconteceu nesta visita europeia de Trump, as declarações do G7 parecem um acto de heroicidade, pelos vistos já esquecido. Ver Theresa May ao lado de Trump a comportar-se como uma ovelhinha, a permitir que ele minta descaradamente sobre o que disse no dia anterior, a acusar os jornalistas do Sun de manipular as suas palavras, quando estes tem a entrevista gravada e passaram as partes controversas logo a seguir para mostrar quem mente, a aceitar os elogios do mesmo homem que lhe provocou no dia anterior consideráveis estragos num poder já de si muito frágil, diz muito da covardia e da hipocrisia da senhora.

Mas o que é mais grave é que, nessa entrevista a dois, Trump recusou-se a responder a uma pergunta da CNN por ser “fake news”, para responder a Fox News “real news”. May estava ao lado, nem piou, nem sequer tomou a iniciativa de dar ela a palavra ao jornalista da CNN, para mostrar a diferença. Nada. Mas a verdade é que os jornalistas presentes continuaram como se nada se passasse. Havia um ambiente de boa disposição, sorrisinhos, anedotas, tudo bons amigos, babados por estar diante do homem mais poderoso do mundo. Uma vergonha esta complacência com Trump e os seus abusos, que mostra como se pode ser o bruto que ele é e passar impune.

O que faz falta é que alguém diante de Trump e em directo lhe responda de forma clara e inequívoca, que se levante e lhe diga algumas verdades, já que não conseguirá dizer muitas, porque será calado e escoltado para fora da sala. Que faça aquilo que os anarquistas chamavam “a propaganda pelo exemplo”, uma das coisas mais poderosas quando se pode fazer diante de milhões de pessoas que estão a ver ou vão ver, como seja dizer esta simples frase: “O senhor Presidente, sua Excelência, Sir, sua Majestade, sua Eminência, Grande Negociador, etc., por que razão o senhor mente tão sistematicamente, por que razão é um mentiroso?” Não lhe perguntem sobre políticas, que ele aí vai dizer o que quer, dependendo de quem está ao lado e, no dia seguinte, muda tudo na solidão do Twitter ou vice-versa. Mas duvido que hoje abundem as pessoas que possam ter estatuto para estar diante dele, sejam governantes, sejam jornalistas, e que tenham essa pequena coragem, nem muito especial, nem muito coragem, de não ter transigência, nem complacência com Trump e o confrontar.

Eu admito que eles possam ter medo de Trump e, pensando bem, não é uma atitude desprovida de sentido, porque o homem é muito perigoso. Mas o que estes gnomos fazem está muito acima do medo, é um exercício que mistura reverência ao poder, subserviência, e pura e simplesmente vaidade por estarem ali ao lado do Presidente dos EUA, a bater nas costas uns dos outros, e pensando: “Que importantes que nós somos.” Eles não gostam de Trump, riem-se dele em privado, denunciam-lhe as grosserias entre amigos, contam as anedotas malévolas sobre as Stormy Daniels da vida dele, sugerem que ele está nas mãos de Putin, mas lá, diante dele, perdem a bazófia toda.

Desde o primeiro dia que penso e escrevo que com Trump só resulta a intransigência total. Nem salamaleques, nem sorrisos, nem sequer vontade de estar perto. As pessoas dignas do Reino Unido estão na rua a protestar, sob a imagem cruel do balão representando um bebé Trump birrento, mau como só uma criança pode ser.

No fundo, estamos na pátria de William Golding, o autor de O Senhor das Moscas, que retrata como um grupo de crianças regressa à selvajaria quando deixados sós numa ilha. Levantem bem alto o balão e passeiem-no bem visível diante de Theresa May e dos seus confrades europeus, crescidos no corpo e na idade e pequeninos em tudo, servos do Senhor das Moscas.