Meditações sobre uma civilização outrora luminosa

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 18/09/2026)


Dentro de uns anos alguém há-de perguntar o que faziam eles enquanto Netanyahu e o seu bando de snipers exterminavam todo um povo perante o seu silêncio e indiferença, ou o que faziam eles quando um novo Calígula disparava ordens, tarifas e ameaças em todas as direcções e eles obedeciam e ajoelhavam, num tributo jamais visto da liberdade à indecência.


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Paulo Rangel é o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE), não sei se o pior da democracia portuguesa, mas seguramente um dos que não deixarão saudades. Tem uma característica que não vai muito bem com a função, que é a de se ocupar mais com a política interna do que com a política externa. Aparentemente, Rangel ainda não se deu conta de que a campanha eleitoral já lá vai, não há eleições no horizonte e o que os portugueses querem é saber do presente e do futuro, não do passado. Ninguém no Governo o ultrapassa na obsessão de se envolver na política partidária na sua forma mais primária, vivendo a atribuir todos os males presentes e futuros do país ao Governo antecedente, como ainda agora sucedeu ao acusar os socialistas do desastre educacional revelado pelo PISA — uma área onde não é suposto o MNE meter o bedelho. Aliás, esta é uma obsessão que não conhece fronteiras, como se viu na sua patética ida a um comício eleitoral do PP espanhol para se lançar numa gritaria histérica contra o voto nos socialistas do vizinho: “España, no te mates!” — um impensável disparate diplomático por parte de quem, sendo MNE, tinha de prever que, como veio a acontecer, poderia vir a ter de negociar com o Governo espanhol, não como cabo eleitoral da direita ibérica, mas como representante da diplomacia de Portugal.

Meditações sobre uma civilização outrora luminosa
Hugo Pinto

Mas a mera existência de um Governo socialista em Espanha percebe-se que é um tormento que não o deixa em paz. Assim, para Paulo Rangel a invasão de Ceuta, em 30 de Julho, foi consequência da regularização extraordinária de 500 mil imigrantes a viverem há vários anos em Espanha, levada a cabo pelo Governo de Pedro Sánchez — a tese logo defendida também por Trump, o PP e o Vox e a extrema-direita europeia, mas que, sendo um assunto da política interna de um país estrangeiro, não pode ser partilhada por quem é MNE de outro país. Aliás, como se sabe, nem é verdade: a invasão de Ceuta foi, sim, consequência de uma interpretação deturpada de uma sentença do Supremo Tribunal Espanhol, que estabeleceu que quem chegasse a nado não podia, simplesmente, ser logo rechaçado — porque uma coisa é obrigar um barco de imigrantes a dar a volta, outra coisa é obrigar imigrantes a nado a fazê-lo. E, aproveitada por uma campanha montada nas redes sociais provavelmente por Israel, por vingança do pioneirismo de Madrid no reconhecimento de um Estado Palestiniano, ou por Trump, como represália pela recusa da cedência das bases espanholas para o ataque ao Irão ou para fazer alinhar Espanha com o compromisso de gastar 5% do PIB em Defesa, como ele exigia — tudo decisões de política externa diametralmente opostas às do nosso Governo e que tanto devem irritar Paulo Rangel pelo contraste entre uma diplomacia de um país independente e a de um país subserviente. A hipocrisia e a imoralidade que isto mostra é chocante: Rangel sabe que, tal como Espanha, precisamos desesperadamente de imigrantes, que vários sectores da economia e do modelo social não funcionariam sem eles e que vários outros sectores reclamam, não menos, mas mais imigrantes, começando logo pelo Turismo e Hotelaria, que nos sustentam. Mas ele acha que estes deserdados do progresso são abusadores, que vêm para aqui por gosto e não por necessidade extrema, e que, portanto, não podem ser legalizados e gozar de direitos básicos iguais aos nossos: o discurso de Trump, de Ventura, do Vox, da AfD alemã e de toda a demais caravana “cristã” da extrema-direita. No tempo em que fomos a África buscar seis milhões de escravos e os levámos acorrentados para o Brasil também não lhes reconhecíamos direitos alguns, mas ao menos não contestávamos ou disfarçávamos a sua necessidade. E — coisa que nem os brasileiros se atrevem a reconhecer — sem eles não existiria Brasil.

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Se gasto tanto latim com, para mim, tão despicienda criatura, em vez de me ocupar com a magna questão nacional do tanque-piscina do ministro Luís Neves, é porque Paulo Rangel é parte — pequenina, mas saltitante de euforia — desse movimento teutónico que está em marcha pelo mundo a que outrora chamávamos livre e que, mais do que uma revolução ideológica ou um programa político, mais do que uma regressão ou um recuo às trevas, é a negação planeada de todos os valores em que assentava a civilização ocidental — e até essa coisa de que tantas vezes se valeram e a que chamam civilização judaico-cristã. Não foi em vão nem estupidamente que Trump, no seu primeiro mandato, enviou Steve Bannon à Europa com a missão de aqui estabelecer as “madraças” da contra-revolução liberal. E não foi em vão que vários membros da actual Administração americana se envolveram directamente em campanhas eleitorais europeias, sempre em apoio das forças extremistas de direita. Porém, não só a herança judaica evoluiu aos olhos de qualquer pessoa de boa-fé para o que é hoje um Governo terrorista sem qualquer resquício de decência humana, como a herança dita cristã é actualmente encabeçada por um homem que é a autêntica encarnação do mal. O judaísmo foi pervertido pelo próprio “povo eleito” de Israel e o suposto cristianismo de que também se reclamam já foi sumariamente denunciado e condenado por este Papa e pelo seu antecessor. A estes dirigentes europeus, como Paulo Rangel, coniventes e cooperantes com os crimes de Israel e com uma Administração americana que subverteu todas as regras do direito internacional e da própria civilização que as codificou ao longo de séculos, não resta, pois, refúgio algum onde se abrigarem. Dentro de uns anos, se ainda houver mundo e se ainda restar consciência no mundo, alguém há-de perguntar o que faziam eles enquanto Netanya­hu e o seu bando de snippers exterminavam todo um povo perante o seu silêncio e indiferença, ou o que faziam eles quando um novo Calígula disparava ordens, tarifas e ameaças em todas as direcções e eles obedeciam e ajoelhavam, num tributo jamais visto da liberdade à indecência.

2 Esta indiferença terminal estende-se por outras áreas, como a atitude perante uma Alemanha que se está a rearmar em força, como numa velada de armas. Uma Alemanha a armar-se como se fosse para a guerra e com os nazis num crescimento que alguns já julgam imparável aparentemente não os levam a escutar nenhumas campainhas de alarme nem a meditar na repetição de uma história trágica.

Assim derrubados todos os fundamentos jurídicos e morais em que assentava o frágil equilíbrio do mundo herdado do pós-guerra, assistimos hoje ao triunfo da lei do mais forte e do salve-se quem puder. E perante isto, uma opinião pública que foi sistemática e planeadamente cultivada na desinformação e na ignorância, vamos dando o passo que falta para consumar o crime: a extinção das democracias, suicidadas por si mesmas e por indiferença, cansaço, desistência. Não adianta, por exemplo, gastarmo-nos a tentar explicações para o triunfo e o avanço da AfD alemã nos estados federados da antiga e sinistra RDA. Não há explicações aceitáveis, nem no imenso esforço financeiro feito pelos alemães ocidentais para puxar pela economia do Leste, nem na diferença de oportunidades de fazer pela vida, que não há, nem no excesso de imigração que lá não existe. E não foram sobretudo os integrantes da faixa etária doente da Ostalgie que deram a vitória à AfD na Saxónia-Anhalt, foram os votantes da faixa etária dos 35 aos 59 anos, que quase só conheceram a vida em democracia e não gostaram. Ali, como em cada vez mais lugares, a extrema-direita avança porque um número cada vez maior de pessoas prefere uma autoridade forte que os mande e governe, enquanto eles se remetem ao “viver habitualmente” preconizado por Salazar, do que essa extraordinária aventura cívica e moral de viver em liberdade.

Chegámos aqui pela cobardia dos dirigentes políticos, pela ignorância satisfeita dos povos cujos cérebros foram cientificamente lavados ao serviço da ganância dos piratas das redes sociais e dos algoritmos e, em grande parte também, pela demissão de uma imprensa atordoada por uma concorrência desleal e uma falta de meios trágica: uma combinação perfeita e letal. Agora, salve-nos quem puder.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Os dias do querido mês de Agosto

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/09/2026)


Já a nossa velha Europa continuava como sempre, entre a cumplicidade com o terrorismo de Estado de Israel e a imbecilidade estratégica na Ucrânia: lá foram todos eles outra vez em excursão a Kiev, não para pensarem no fim da guerra, mas para prometerem mais dinheiro e mais armas para que a guerra não acabe, Deus nos livre! 


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Quando desapareci para férias, estava Agosto a entrar e Bordéus e a Estremadura espanhola a lutarem contra incêndios de uma ferocidade nunca vista. Mas aqui, já íamos com três semanas da operação mediática destinada ao linchamento de Luís Neves. Nos jornais, nas televisões, nas rádios, editores, comentadores, humoristas e jornalistas, todos sem desfalecimento, empurravam-se para ver quem chegaria primeiro ao último estertor do acossado. Acusado de crimes tão graves como, enquanto director nacional da PJ, aceitar os serviços de um empreiteiro que tinha contratos com a mesma PJ e de também aceitar a sua oferta para armazenar um furgão apreendido com componentes químicos que a PJ não tinha onde armazenar, Luís Neves era, sobretudo, acusado de dois pecados imperdoáveis: ter construído um tanque de rega que também podia servir de piscina sem autorização e ter “impermea­bilizado” uns metros quadrados de terreno no fim do mundo para poder chegar a casa sem pisar na lama. O suficiente para lhe cortarem a cabeça, mesmo que, num país onde tanto se suspeita de corrupção, ninguém se detivesse a pensar que aquele homem que servira durante 30 anos numa posição exposta como raras outras a abordagens de corrupção, tudo o que tinha para apresentar como património era uma casinha herdada de família no deserto alentejano, alvo de “sumptuosas” obras de 15 mil euros e um carro com 15 anos.

Entretanto, o mundo avançou Agosto adentro e tragicamente: aos incêndios apocalípticos seguiram-se imagens dos dois maiores rios da Europa, o Reno e o Danúbio, quase transformados em riachos, as verdes paisagens inglesas parecendo o Magrebe, Londres sob 39 graus de canícula e Bruxelas 37, terramotos em vários lados e, por fim, as neves dos Himalaias derretendo-se e tornando-se súbitos rios diluvianos, destruindo e matando tudo à sua frente. Mas aqui, à falta de catástrofes, de incêndios e de crimes tipo-CMTV, continuava tudo na mesma: Luís Neves, Luís Neves, Luís Neves. E o planeta a explodir à volta.

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Agosto aproximava-se do fim quando Trump, desvairado pelo atoleiro do Irão, onde a sua soberba e estupidez o enfiaram, voltava a amea­çar a anexação da Gronelândia e agora também Omã, enquanto prosseguia a sua ofensiva de raiva contra o Canadá, cujo primeiro-ministro tem a rara ousadia de o desafiar. Já a nossa velha Europa continuava como sempre, entre a cumplicidade com o terrorismo de Estado de Israel e a imbecilidade estratégica na Ucrânia: lá foram todos eles outra vez em excursão a Kiev, não para pensarem no fim da guerra, mas para prometerem mais dinheiro e mais armas para que a guerra não acabe, Deus nos livre! Mas aqui, eis que afortunadamente surgia novo dado gravemente incriminatório de Luís Neves: afinal, além do Ford Focus com 15 anos, o homem “tinha” outro carro, um Nissan Micra, que o sogro oferecera à sua mulher e que, sendo eles casados em comunhão de adquiridos, pertencia também ao suspeito — e viva a autonomia conjugal!

Os dias do querido mês de Agosto
Hugo Pinto

E assim, a novela prosseguiu ainda até final do mês e continua Setembro adentro, sem que, por um só momento, fossem levantadas as questões políticas que interessa levantar a um ministro da Administração Interna: continua o caos nos aeroportos? Resposta: não. Aumentou o número de mortes nas estradas? Resposta: não, diminuiu em Agosto. Aumentou a criminalidade violenta? Não. Aumentou a área ardida até agora? Não, diminuiu quatro vezes, comparado com igual período de 2025. Mas isso que interessa, quando toda esta operação — obviamente soprada e alimentada de dentro da PJ, e certamente por razões de desforra pessoal — visa, antes de mais, servir o Chega e vingar a ofensa feita por Luís Neves a André Ventura, quando, com números e estatísticas na mão, desmentiu publicamente as suas alegações de que os imigrantes pobres faziam aumentar a criminalidade?

2 No pelotão de fuzilamento de Luís Neves não poderia faltar João Miguel Tavares, o grande pregador moral do regime. Depois de ter esgotado os factos e os argumentos contra Neves, o nosso comissário para a Promoção da Virtude e Repressão do Vício atirou-se a Luís Montenegro, que, tendo declarado que não tiraria férias este Verão, foi fotografado um dia numa praia, por um desses também zelosos “jornalistas balneares”. Eu conheço este discurso populista e sei bem o que se pretende com ele. O melhor exemplo prático desta espécie de franciscano-fascismo foi-nos dado longamente pelo doutor Oliveira Salazar. Sem mulher nem filhos, “casado com a Pátria”, que lhe sustentava todas as necessidades financeiras até que uma cadeira o derrubou — do poder, mas não das benesses do Estado —, Salazar era um poço de proclamadas virtudes e um deserto de vícios, ou até mesmo de prazeres. Não frequentava restaurantes, nem cinemas, nem livrarias, nem concertos; nunca foi visto num estádio, numa tourada ou sequer numa praia; senhor de um Império que proclamava ir do Minho a Timor, nunca pôs um pé no estrangeiro, excepto numa ida a Sevilha para se encontrar com Franco. Foi o exemplo perfeito do governante que a ditadura exaltava e alguns ainda ensaiam promover. Pelo contrário, o melhor exemplo de um governante em tudo diferente, que a democracia nos deu, foi Mário Soares. Soares amava a vida, a praia, as viagens, os almoços com amigos, os prazeres da vida; gastava dinheiro em livrarias, em galerias de arte, em idas a museus ou concertos de música. Não é apenas o facto de eu preferir gente que aproveita e celebra a vida àqueles que, com inveja e medo de viver, se tornam reclusos de si próprios e castradores da liberdade alheia: é que me sinto mil vezes mais seguro com um primeiro-ministro que se atreve a fugir um dia ao trabalho para ir à praia do que com aqueles que vigiam os dias de praia alheios.

3 Apenas 3% dos alunos mais pobres conseguiram entrar este ano nas universidades. Como disse um reitor, a constatação obrigatória é a de que falhou o elevador social — que a educação pública deveria garantir, depois de milhares de milhões nela investida ao longo dos anos. E falhou onde? No ensino secundário público — aquele onde “os professores a lutar também estão a ensinar”, lembram-se? Eis o resultado de 50 anos de luta da Fenprof, e não só, contra a avaliação séria de desempenho. Ou seja, na protecção dos medíocres, dos absentistas, ou dos grevistas das sextas-feiras. Ou haverá outra leitura possível para este número vergonhoso?

4 Do Expresso: o Colégio de Cirurgia Torácica da Ordem dos Médicos enviou uma carta à ministra da Saúde “recusando as definições e os valores a receber” segundo as novas regras para cirurgia nos hospitais do SNS, estabelecidas após o escândalo no serviço de dermatologia de Santa Maria. Nessa carta, os cirurgiões avisavam a ministra de que já estavam a surgir, em protesto, atrasos nas cirurgias dos doentes com cancro de pulmão — o que, segundo os subscritores, “poderá significar a perda de anos de vida para doentes que poderiam beneficiar de tratamento cirúrgico adequado”. E assim encostada à parede, a ministra cedeu e recuou. Mas vale a pena lembrar que todos os anos a mesma Ordem dos Médicos leva a cabo várias sessões solenes do “Juramento de Hipócrates”, em que os novos médicos juram, entre outras coisas, que “a saúde e bem-estar dos meus doentes serão a minha primeira preocupação”. Pobre Hipócrates, estes são mesmo tempos novos!

5 E a Europa com que tantos sonharam e sonhavam morreu neste mês de Agosto, em Ceuta. O tratamento que tantos líderes europeus deram a Espanha (incluindo países como a Finlândia ou a Dinamarca, que beneficiam do apoio político e militar de Espanha) foi de uma absoluta indecência e, simultaneamente, a consequência da autodestruição do ideal europeu levada a cabo por uma leva de dirigentes sem visão nem vergonha. Aos olhos deles, havia que tirar uma desforra de Pedro Sánchez, um exemplo raro de um líder que pensa pela própria cabeça, que se recusa a aceitar os ultimatos de Trump e da NATO, a alinhar na histeria anti-imigração ou a ser conivente com o branqueamento dos crimes de Israel. E que, ainda para mais e para desespero do PP espanhol, a mais estúpida direita europeia, vive uma situação económica próspera, comparada com a dos países que lhe querem dar lições. Por isso o quiseram matar: mas mataram, sim, a Europa, doravante uma simples associação de pedintes e contabilistas.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Mais uma humilhação para a Europa: Os EUA querem avaliar a lealdade dos seus aliados da NATO

(Por R T France, in Reseau International, 15/08/2026, Trad. Estátua)


Washington apela agora aos seus aliados da NATO para que esclareçam o seu apoio às políticas de Donald Trump, enquanto os Estados Unidos ponderam reduzir a sua presença militar na Europa. O questionário, divulgado pela Bloomberg, centra-se particularmente no acesso a bases militares, nas compras de armas americanas e nas escolhas de defesa dos países europeus.


Washington enviou recentemente um questionário aos países membros da NATO com o objectivo de avaliar o seu apoio às políticas de Donald Trump, no meio da ameaça de redução da presença militar americana na Europa. De acordo com um artigo da Bloomberg que revelou o documento a 14 de agosto, os aliados estão a ser questionados se apoiaram publicamente a política externa dos EUA e que restrições impuseram à utilização de bases militares pelas forças norte-americanas.

O documento vai além das questões de segurança. Washington quer também saber se os seus parceiros compram armas a empresas americanas e se apoiam regras que possam limitar o acesso dessas empresas aos contratos de defesa europeus. Os países estão também a ser questionados sobre a sua posição em relação ao princípio “Made in Europe” no sector do armamento.

Esta iniciativa surge numa altura em que a administração Trump realiza uma revisão semestral da sua presença militar na Europa, cujas conclusões são esperadas para dezembro. Ao mesmo tempo, Washington procura transferir uma fatia crescente das responsabilidades militares e financeiras para os membros europeus da Aliança.

Divergências cada vez mais visíveis no seio da NATO

As questões levantadas por Washington relacionam-se diretamente com várias disputas recentes com alguns dos seus aliados. As referentes ao acesso a bases militares dizem respeito, em particular, às operações americanas no Médio Oriente e no Hemisfério Ocidental.

A Espanha, por exemplo, recusou-se a apoiar os ataques americanos contra o Irão e proibiu a utilização das suas bases para esse fim. O questionário refere-se também, indiretamente, ao Irão e à operação americana contra Nicolás Maduro na Venezuela. Estes episódios ilustram as divergências que podem surgir quando alguns membros da Aliança se recusam a seguir automaticamente as iniciativas de Washington.

Esta abordagem foi também mal recebida por diversos países da NATO. Segundo fontes citadas pela Bloomberg, alguns aliados vêem-na como uma tentativa de os forçar a um alinhamento político e ideológico em troca da manutenção das garantias de segurança americanas. A agência acredita que tal desenvolvimento poderá alterar significativamente o equilíbrio das relações transatlânticas herdado do período pós-guerra.

Washington está a reduzir gradualmente o seu papel militar na Europa

O questionário faz parte de uma revisão mais ampla da presença americana no continente. A 28 de julho, o responsável do Pentágono, Elbridge Colby, confirmou o início desta revisão, sublinhando que a administração Trump pretendia transferir mais responsabilidades militares para os aliados europeus.

A redução das tropas americanas já tinha sido discutida na primavera. Donald Trump anunciou, então, novas reduções na presença militar dos EUA na Europa, além da já planeada retirada de 5.000 soldados da Alemanha. No entanto, a legislação americana proíbe uma redução do número de tropas abaixo dos 76.000 na Europa sem justificação adicional.

O alcance e a distribuição de uma possível retirada, portanto, ainda precisam de ser determinados. O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, descreveu a revisão americana como uma decisão “lógica e positiva”, dado o aumento das despesas militares europeias e canadianas. Um representante da Aliança confirmou ainda à Bloomberg que as discussões com Washington estavam em curso, sem comentar diretamente o questionário.

As decisões esperadas até ao final do ano deverão esclarecer até que ponto os Estados Unidos pretendem reduzir a sua presença militar directa na Europa. Revelarão também em que medida Washington pretende agora condicionar o seu compromisso com os seus aliados ao alinhamento político, às escolhas militares e às aquisições de defesa destes.

Fonte aqui

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