Carlos Branco: “A Europa está mais perto da confrontação com a Rússia do que da solução política”

(Major-General Carlos Branco, entrevista em Diário de Notícias, 28/06/2026)

Nas suas funções na Aliança Atlântica, Carlos Branco manteve contacto com militares russos, incluindo com o atual chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Valery Gerasimov. Em 2012 foi condecorado pelo ministro da Defesa russo.

Para o ex-responsável pela cooperação da NATO com países parceiros, a Ucrânia é vítima do projeto hegemónico dos EUA e a Rússia está apenas a defender os seus interesses vitais.


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Nas últimas semanas, Kiev tem intensificado os ataques com drones e mísseis, mais em profundidade, atingindo refinarias, mas também vias de comunicação, a logística, e incidido na Crimeia. Vai alterar alguma coisa?

Não, não vai. Há duas dinâmicas distintas. Uma é o que está a acontecer no terreno, e de facto a Rússia tem tido vitórias muito importantes e significativas, as mais recentes foram a conquista de Lyman e a de Kostiantynivka [não confirmadas pela Ucrânia], depois com as consequências que isso vai ter do ponto de vista operacional. Também na zona de Kupiansk já se aproximaram do rio Oshkol, e toda a zona oeste do rio já está na posse dos russos, e veremos agora quais vão ser as consequências para Kramatorsk e Sloviansk, uma vez que com o caminho livre, tanto a norte como a sul, podem aproximar-se destas duas cidades por dois eixos. A situação dos drones tem de ser vista de forma diferente. O que acontece na Rússia é muito exagerado pela comunicação social, pelas centrais de informação. Um dia destes estava a preparar uma intervenção na televisão, e eu tinha lido um artigo com o título Turn the Tide, e não me lembrava qual era [a fonte]. Fui ao Google e apareceram três páginas com um artigo com este título. Obviamente, é uma coisa coordenada.

Há um exagero sobre a Ucrânia ter superioridade aérea?

Sem dúvida. Aliás, sempre que a Ucrânia está a passar um pior momento no terreno, há o empolamento de uma situação do ponto de vista das relações públicas. As guerras não se ganham na comunicação social, mas todos nós sabemos a importância que têm para moldar as perceções. O que está aqui em causa é a continuação do apoio americano, que é apresentado como algo que desapareceu. Não é verdade, até porque os próprios drones empregues são os Hornets, que são americanos.

Não é a indústria da Ucrânia que está a produzir os drones?

Isso é conversa. É mais um mito que se cria para justificar muita coisa. Esqueça a indústria ucraniana, a Ucrânia está completamente destroçada, tem cerca de 20 mil desertores por mês, tem uma redução significativa de mais de 100 mil soldados, isto é tudo informação ucraniana, não é propaganda russa. Há muita coisa que não aparece. Por exemplo, a informação sobre a desclassificação de documentos, quando a Tulsi Gabbard saiu do gabinete [direção nacional dos serviços secretos dos EUA], sobre os 120 laboratórios biológicos [que os EUA financiaram em 30 países], 40 deles na Ucrânia, é uma coisa sem importância. Por exemplo, já ouviu notícias sobre o ataque que a Ucrânia fez à Roménia com drones [navais], aquilo por acaso correu bem, mas o alvo era atingir um armazém de fertilizantes no porto de Constança? Isto é possível devido ao apoio continuado da América. Por exemplo, o [Elon] Musk autorizou o Starlink na Rússia. Para quê? Para se fazer o guiamento dos Hornets e dos mísseis. Depois, é a participação europeia. É muito significativa, porque fornece também equipamento, muito dele, por curiosidade, chinês, porque a indústria europeia não tem capacidade para produzir determinado tipo de equipamento. Estes drones, do ponto de vista das relações públicas, dão um efeito espetacular, mas têm um problema: como vão mais longe, têm que ter mais combustível e por isso têm menos carga explosiva. Temos de ser realistas. Segundo um relatório de um think tank finlandês, a Rússia nunca vendeu tanto gás e tanto petróleo como agora. Devido ao bloqueio do estreito de Ormuz e de os EUA terem levantado as sanções.

É um somatório de uma série de factos. Isto que é apresentado como a destruição da economia russa, tudo isso é mentira. O efeito destes ataques é muito marginal. Os russos tinham muita capacidade que não estava utilizada. Eles têm capacidade supletiva para continuar a produzir.

Isto transporta-nos para outra questão, que é o comportamento da Europa. O comportamento da Europa nisto é extremamente perigoso, porque está empenhada numa guerra com a Rússia, e nesta altura nós estamos mais próximos de um conflito com a Rússia, provocado com origem nos europeus, do que propriamente de uma solução pacífica, de uma solução política.

Ainda há dias, o chefe da Força Aérea alemã dizia que temos de dar cabo deles e que vamos atacar Kalininegrado. A minha pergunta é, para quê?

O chefe da Força Aérea alemã disse isso?

Isso é público. [Em entrevista ao Telegraph, o tenente-general Neumann disse que, em caso de ataque russo, a NATO responderia com ataques em Kalininegrado, em São Petersburgo, na península de Kola e no Mar Negro].

Nos seus artigos refere-se à Ucrânia como parte do quintal da Rússia, tal como os EUA consideram o continente americano. Segundo esse ponto de vista, Kalininegrado é uma aberração, uma vez que é uma enorme base militar russa encravada no território europeu?

Não é aberração nenhuma. Até acho que é uma vulnerabilidade para os russos, porque aquilo do ponto de vista estratégico não é sustentável. Quer dizer, numa situação de paz dá-lhes naturalmente vantagem, porque podem recolher informação, mas do ponto de vista militar, numa situação de guerra, aquilo não tem sustentação, é uma aberração do ponto de vista geopolítico.

Estamos a dizer o mesmo por outras palavras.

Sim, exato, mas a grande questão é que aquilo sempre existiu. Desde a II Guerra.

Pois, mas [sobre] a Ucrânia podemos estabelecer uma analogia muito grande com o que aconteceu na Jugoslávia. A Ucrânia eram fronteiras administrativas que se transformam em fronteiras de um Estado sem consultar as suas populações. Alguma vez a população da Crimeia quis fazer parte da Ucrânia?

Foi consultada no referendo que aprovou a independência da Ucrânia da URSS. Eu pergunto-lhe, quem é que foi o último monarca da Ucrânia? Qual foi uma dinastia da Ucrânia? Digam-me, eu desconheço e tenho feito alguma investigação histórica.

Concorda com a análise feita por Vladimir Putin no célebre texto sobre a unidade histórica entre russos e ucranianos, publicado meses antes da invasão?

Não estou muito disponível para discutir a questão da autodeterminação do povo russo na Ucrânia. Para mim agora a discussão não é essa. Essa questão coloca-se também relativamente à minoria húngara, à minoria romena e às outras minorias. Não faz sentido nenhum que a Ucrânia tenha uma constituição central. Deveria ser federal, com diferentes subunidades políticas, como é a Espanha, etc. Na Espanha não é proibido falar catalão, não é proibido falar galego, não é proibido falar basco. Por que é proibido [falar russo] na Ucrânia?

Não é proibido, não é língua oficial.

A questão até nem é ser a língua oficial, a questão é que foi removida da língua falada regionalmente. E mais: as pessoas se são apanhadas pelos polícias dos costumes… O Ocidente, antes de 2022, tinha uma posição sobre determinadas coisas. A partir de 2022 houve censura.

A Europa está a querer um confronto militar com a Rússia?

Quer, quer, aliás, podemos pôr em cima da mesa as declarações oficiais feitas pelo secretário-geral da NATO desse estilo. Por exemplo, a Ucrânia tem utilizado o território da NATO para lançar ataques sobre a Rússia, nomeadamente através dos bálticos, e não houve nenhuma posição pública de condenação.

De que forma, com drones?

Sim. Os drones são lançados na zona oeste, ainda apanham a Polónia, mas há outros que vão depois pela Lituânia, Letónia, Estónia.

Lançados a partir dos países bálticos?

Há as duas modalidades, inicialmente lançados a partir da Ucrânia fazendo esse percurso e posteriormente lançados desses países. Quando se diz à população que temos de ter kits de sobrevivência para 72 horas, estamos a brincar, são tipos insanos. Porque é que se está a criar esta ansiedade nas pessoas sobre uma coisa que não vai acontecer? Isto merece reflexão, porque a Rússia não vai atacar a Europa e lançar esse anátema é estar a enganar as pessoas. E porquê? Porque a Rússia tem grande capacidade para se defender, até porque tem capacidade nuclear, mas não tem capacidade para derrotar militarmente a Europa, não tem capacidade satelitária, de reconhecimento, de vigilância do campo de batalha, essas coisas todas. A Rússia tem uma dificuldade muito grande de monitorizar a tempo inteiro o Mar Negro. Para haver ameaça tem de existir capacidade e intenção. Capacidade seguramente não tem, e isso é objetivo. Relativamente à intenção, também acho que não tem, mas isso já poderá ser objeto de uma avaliação subjetiva.

Muita gente também achava que nunca haveria invasão russa.

Não, não. Isso estava perfeitamente identificado, como eu digo no livro, até o Mário Soares alertou para isso. Qual é a necessidade dos EUA instalarem mísseis na Roménia e na Polónia? Mísseis que poderão atingir Moscovo e São Petersburgo em minutos. E a minha pergunta é, para quê? Por causa do Irão? Se há ameaça do Irão, ponham-nos na Turquia. Portanto, procuro ter sempre a mesma abordagem, ouvir uns, ouvir outros e pôr sempre numa balança. Agora, vermos isto a preto e branco, que há os bons e os maus, isso não existe em relações internacionais. O que existe são interesses. E cada um puxa a brasa à sua sardinha. E nós, se quisermos ser indivíduos isentos, temos que pôr na balança todos os ingredientes. O que está aqui em causa é analisar os factos. Repare, eu não estou a defender Putin. Até porque ideologicamente eu não tenho uma identificação com Putin.

Para si, a revolução que levou à queda de Yanukovich foi um golpe com a ajuda da CIA e levou neonazis ao poder, Zelensky é um político corrupto, impreparado, questiona quem são os autores, ou se sequer existiu o massacre em Bucha, como morreu Navalny, ou seja, as suas opiniões são sempre críticas para com a Ucrânia, mas nunca para a Rússia.

A informação aqui é exatamente ao contrário, é toda ela favorável ao Zelensky e é toda ela desfavorável à Rússia, portanto, essa crítica eu retribuo da mesma moeda. E, tendo em conta esse déficit informativo, faz sentido dizer às pessoas uma série de coisas. Nesta matéria de crítica à Rússia, o que está aqui em causa é a geopolítica, é um projeto hegemónico norte-americano. Depois os ucranianos servem de plastron. Este projeto hegemónico não é uma elucubração minha, está escrito por eles… Começa em 2012, com o discurso da [Hillary] Clinton do “pivot to Asia”, porque percebem que a China está a crescer. E com isto não estou a dizer, ao contrário de muita gente, que a América está em declínio. Um país que tem as grandes tecnológicas mundiais, que tem a liderança na investigação da inteligência artificial, não é um país que está em declínio. O que aconteceu é que o desafiador está a crescer muito mais depressa do que eles. E a Rússia, entretanto, também se pôs de pé. Na década de 90, na Jugoslávia, os russos que conheci não sabiam se iam comer no dia a seguir. Essa Rússia não é a de hoje. Durante [a liderança de] Putin, deu um salto qualitativo brutal. Se quiserem dizer que isto é propaganda russa, digam à vontade. E, de certa forma, a Rússia sentiu necessidade de ter alguma influência e controlo no seu quintal estratégico, de não permitir caçadores furtivos, e neste caso concreto eram os americanos. Quem andou a fazer revoluções coloridas no Usbequistão, no Cáucaso, nomeadamente na Geórgia, quem foi?

Para si não houve vontade popular na revolução de 2014? É tudo manipulado?

Aquilo foi acima de tudo uma operação montada. Podemos abstrair os 5 mil milhões que os EUA disponibilizaram, dito pela própria Victoria Nuland [à época secretária de Estado adjunta para a Europa e Ásia] no Congresso. Quer dizer, quando se vai buscar atiradores georgianos para disparar sobre as pessoas, quando se paga 50 dólares por dia aos manifestantes que vinham de Lviv, tenho muita dificuldade em não ver nisto uma operação orquestrada. Eu que estudo um bocado estas questões das revoluções coloridas, vejo ali todos os condimentos de uma revolução colorida. O primeiro teste foi em Belgrado, e a gente sabe como é que isto funciona, são as ONG, é o National Endowment for Democracy, que alicia jovens. Aliás, este golpe de Estado assumiu contornos escandalosos. Houve uma conversação em que participou o Yanukovich, um representante polaco, um alemão, e um francês [também um russo]. Assinaram um acordo que previa a organização de eleições. E no dia a seguir fazem o golpe de Estado [Yanukovich fugiu para a Rússia e o Parlamento destituiu-o de funções]. Porque não quiseram realizar eleições? Porque a probabilidade de ganhar as eleições era extremamente reduzida.

Como vê os desenvolvimentos da autonomia europeia em relação aos EUA?

É uma oportunidade única para a Europa. Isso já podia ser exercido dentro de um mecanismo ignorado que é o Berlin Plus System. É capacidade dos europeus, a beneficiarem todo o sistema de comando e controlo da NATO, para fazerem as suas operações, em que os Estados Unidos não querem participar. O problema é que as elites europeias sofrem de um processo de algumas décadas de soft power norte-americano, em que acabaram por se tornar servis, por esquecerem os interesses dos seus países e estarem mais preocupadas em servir interesses alheios. Essa questão é extremamente importante, porque a Europa tem capacidade e tem que ter capacidade de dissuasão, indiscutivelmente. Agora, a Europa tem que perceber se quer ter capacidade de dissuasão ou quer ter outra coisa. E pelo que tenho ouvido nos discursos políticos, coisas que entraram na agenda desde, pelo menos, há um ano, o rearmamento europeu não é para ganhar capacidade de dissuasão, é para outra coisa. Isso é extremamente perigoso, e leva-me a reforçar que a Europa está mais próxima da confrontação com a Rússia do que da solução política.

Pobreza material e miséria moral

(Rui Pereira, in Facebook, 22/06/2026)


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Descendo mais um degrau na escadaria da sua mais obscena indecência, o Parlamento Europeu aprovou no final da passada semana uma Resolução em que considera que “após cinco décadas de regime comunista, Cuba está perto de ser um Estado falhado”.

Do alto da pornográfica luxúria dos seus assentos, gabinetes e tapetes vermelhos, com os bolsos ataviados pelos milhares e milhares de euros por mês que lhes são pagos para tarefas mais ou menos indigentes – sem contar com os dinheiros que circulam por trás das portas fechadas dos seus gabinetes-, os parlamentares europeus (dos quais quase duas centenas em 700 estão sob averiguação por suspeitas de condutas ilícitas ou criminais) sublinharam que “a atual emergência humanitária – 89% das famílias cubanas a viver em pobreza extrema – ‘não é produto de qualquer embargo externo, mas sim consequência direta do modelo e das falhas do próprio regime’”.

A Resolução, proposta pela direita no poder na Europa e pela chamada extrema-direita que diz que se lhe opõe, ocupa-se do que clama serem cerca de 1300 presos políticos que afirma estarem submetidos a regimes carcerários de “tortura”. E vai mais longe na ignomínia, propondo que a União se junte ainda mais aos Estados Unidos no cerco criminoso contra a ilha, onde se perpetra um ensaio de extermínio do povo cubano, às mãos do mesmo Trump que critica na sua propaganda quando o assunto é a Ucrânia e o seu regime, o qual atribui às suas tropas de elite as designações dos batalhões colaboracionistas nazis durante a II Guerra Mundial (ver aqui).

.Sobre Israel, os incontáveis relatórios oriundos do próprio interior de Telavive sobre a cruel alucinação da tortura contra crianças, jovens, mulheres e anciãos palestinos – alguns dos quais são militantes do chamado Eixo da Resistência – não impressiona excecionalmente os eurodeputados (Ver aqui).

As recentes revelações do uso de animais especialmente treinados para abusos sexuais sobre os presos palestinianos, (retomando uma prática da polícia política de Pinochet, DINA, ver aqui), não mereceu mais do que um anódino suspiro de resignação dos “democratas” de Estrasburgo e Bruxelas, no intervalo das suas campanhas pró-sionistas.

O facto de um povo de 10 milhões de seres humanos estar a ser vitimado até ao limiar da mais precária sobrevivência (há hoje fome em Cuba, muitas zonas da ilha revolucionária estão 23 horas por dia sem energia elétrica, enquanto o bloqueio energético, financeiro e económico se torna absoluto), é um detalhe para os fariseus das “democracias” europeias. Que, de resto, perante esta situação, exortam a Comissão Europeia a “suspender” também todo “o diálogo político e o acordo de cooperação” da UE com Cuba.

Foi de Cuba que vieram médicos quando deles precisávamos para controlar a COVID-19 nos países em nome dos quais estes eurodeputados são eleitos para sem disfarces se locupletarem com dinheiro dos impostos dos seus povos recebendo lícita e/ou ilicitamente verbas assombrosas, sobre as quais não existem os mais elementares mecanismos de transparência e prestação de contas.

Os eurocratas da ditadura “democrática” teleguiada a partir de Bruxelas e Estrasburgo, de Telavive ou Washington, são incapazes de compreender como, em Cuba, a pobreza material forçada é o oposto da miséria moral de que se faz o arrivismo dos novos-ricos de uma Europa imersa num colapso ético similar ao de há cem anos.

O puxão de orelhas a Costa e os dois líderes sem tropas que querem controlar a guerra

(BPartisans, In Fórum da Escolha, in Facebook, 21/06/2026, Revisão da Estátua)


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Isso exigiu muita coragem. Quando a União Europeia começa a considerar se valeria a pena dialogar com Moscovo após mais de quatro anos de guerra, Emmanuel Macron e Friedrich Merz decidiram que a diplomacia ainda é demasiado perigosa para ser permitida.

Segundo o Politico, os dois líderes criticaram duramente o presidente do Conselho Europeu, António Costa, por ter restabelecido contactos informais com o Kremlin. Numa cimeira em Bruxelas, a discussão foi tão delicada que os telemóveis foram proibidos na sala. Claramente, na Europa, falar com Vladimir Putin tornou-se mais subversivo do que falar com um traficante de cocaína.

A parte mais irónica desta história é que os dois homens que afirmam personificar a determinação europeia estão também entre os líderes politicamente mais vulneráveis ​​dos seus próprios países. Macron governa uma França fragmentada, onde a sua maioria praticamente já não existe. Merz, por sua vez, está a descobrir que ser chanceler é mais complicado do que fazer declarações belicosas diante das câmaras. No entanto, aqui estão eles, a dizer a todo o continente como conduzir uma guerra que não estão a travar e como negociar uma paz que se recusam sequer a considerar.

O problema é simples: um número crescente de líderes europeus acredita que, a dada altura, alguém terá de falar com os russos. Até o Conselho Europeu começou a reabrir canais de comunicação com Moscovo, deixando claro que ainda não se trata de negociações formais.

Mas para a dupla Macron-Merz, a lógica parece ser a seguinte: negociar agora seria um sinal de fraqueza; negociar depois seria uma vitória; e nunca negociar seria provavelmente um sucesso histórico.

O primeiro-ministro belga, Bart De Wever, colocou a questão com um pragmatismo desarmante: se Putin demonstrar vontade de negociar, teremos de decidir quem falará em nome da Europa. Esta é uma linha de pensamento quase revolucionária numa União onde alguns parecem acreditar que uma guerra termina com um comunicado de imprensa e algumas sanções adicionais.

Entretanto, os contribuintes europeus financiam o esforço de guerra, os arsenais estão a esgotar-se, os orçamentos militares disparam e a indústria luta para acompanhar o ritmo. Mas isso não interessa: o principal é manter a ilusão de que a diplomacia é o verdadeiro perigo.

A história poderá muito bem recordar esta estranha era em que os líderes menos populares da Europa se convenceram de que a sua missão era impedir que outros se manifestassem. Não porque tivessem um plano para ganhar a guerra, mas porque claramente não tinham um plano para a terminar.

Ao recusarem-se a qualquer diálogo, Macron e Merz assemelham-se àqueles generais de gabinete que estão sempre a mudar bandeiras de lugar num mapa enquanto os soldados já perceberam que uma guerra acaba sempre à mesa das negociações. O problema é que, enquanto estes estrategas improvisados ​​fingem ser os Churchills do século XXI, são os europeus que estão a pagar a conta.