Quem quer morrer por um capricho de Trump?

(Rui Tavares, in Público, 06/01/2020)

Todas as passagens de ano nos entregamos ao ritual de tentar adivinhar o futuro. Desde 2003, muitos foram os anos para os quais se se previu que os EUA e o Irão iriam entrar em guerra. Logo a começar 2020, para o qual houve poucas previsões dessas, Donald Trump mandou assassinar Qasem Souleimany, general de uma milícia estatal iraniana usada para interferir na política de vários países vizinhos, e nunca estivemos tão perto da possibilidade de um conflito entre os EUA e o Irão como hoje.

Mas precisamente por tantas previsões em anos passados terem falhado, convém ser cauteloso nas previsões. Não sabemos se o Irão vai retaliar de forma a escalar o conflito ou se irá antes aproveitar politicamente a ocasião para se reforçar internamente e vitimizar externamente. O meu palpite — que não passa disso — é que um conflito direto em larga escala não interessa ao Irão nem aos EUA e que após um período de tensão ambos os países evitarão arriscar uma guerra declarada.

Em vez de fazer futurologia é mais útil pensarmos no que já sabemos do que se passou e, em particular, do que não se passou neste ataque. A última parte é mais fácil e também, em meu entender, mais relevante: o que não se passou foi qualquer comunicação entre a administração Trump e os seus teoricamente aliados europeus. Tanto quanto se sabe, nenhum outro governo da NATO o da União Europeia foi alertado para um ataque e tal magnitude geopolítica — nem sequer o governo do Reino Unido.

Podemos fazer todas as análises que quisermos à hipótese de a NATO estar ou não obsoleta. Mas há silêncios que falam muito mais do que as palavras, e este é um deles.

Em caso de retaliação iraniana sobre os EUA, os outros países da NATO incorreriam nas obrigações do famoso Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte que determina que um ataque a um aliado é um ataque a todos os países. Só que o grau de confiança mútua que é preciso ter para aceitar uma responsabilidade recíproca desse género implica, porém, acreditar na sensatez e previsibilidade das lideranças dos aliados. Ora, só um líder europeu que não estivesse bom da cabeça poria hoje as mãos no fogo por Trump. E se não confiam nele, quem pode estar disposto a pagar o preço do aventureirismo do presidente dos EUA?

Caso especialmente interessante é o do primeiro-ministro britânico. A passar férias numa estância do Caribe, Boris Johnson ainda não se pronunciou sobre o ataque norte-americano em solo iraquiano, o que permitiu aos seus ministros produzirem declarações desencontradas sobre o assunto, ora primeiro mais alinhados com outros governos europeus, ora evidenciando um total alinhamento com Trump a seguir. A menos de um mês do “Brexit”, o Reino Unido tem agora uma escolha complicada. Se opta por uma colagem a Donald Trump, pode ver-se envolvido como parte beligerante numa guerra sobre a qual não teve sequer direito a uma palavrinha. Se se distancia do presidente norte-americano, conhecido pelo seu espírito vingativo são postas em risco as possibilidades de um acordo comercial com os EUA que foram propagandeadas como sendo uma das poucas vantagens da saída da União Europeia.

Já por algumas vezes nesta coluna argumentei que a principal incógnita do “pós-Brexit” é saber de quem vai o Reino Unido tornar-se um país-satélite: se dos EUA ou da UE. Com uma crise iraniana no horizonte, somos capazes de vir a saber a resposta para esse enigma mais depressa do que antes pensávamos.

Mas a União Europeia não tem um dilema menor. A Europa e os EUA estão amarrados por laços históricos de um ciclo — o do pós-guerra — em larga medida encerrado. Mas se com George W. Bush já tinha ficado claro o desalinhamento de interesses e até de valores entre os dois lados do Atlântico, com Trump passamos a ter um presidente dos EUA que não hesita em arriscar um conflito em larga escala na Eurásia sem dedicar a cortesia de um aviso prévio aos europeus. A conclusão é clara: a Europa precisa de ter autonomia estratégica em relação aos EUA, e na Europa só através da UE existe a possibilidade de se acrescentar autonomia estratégica geopolítica às outras áreas em que a Europa já é uma espécie de “super-potência invisível”, como nas negociações comerciais ou na regulação da globalização. E para nos convencermos da urgência desse debate — e um debate muito difícil, reconheçamo-lo — não é sequer preciso que os EUA entrem em guerra declarada com o Irão.

Há talvez a possibilidade de Trump perder as eleições em novembro deste ano, e que com um democrata na Casa Branca o desalinhamento euro-americano se disfarce. Mas mesmo isso não é garantido. Joe Biden, que votou a favor da Guerra do Iraque, tem um historial intervencionista em política externa. A não ser que viéssemos a ter um Presidente Sanders ou uma Presidente Warren e, com eles, a hipótese de reforçar as Nações Unidas como plataforma multilateral de resolução de conflitos, a Europa ficaria sempre dependente das decisões de presidentes dos EUA que cada vez menos querem saber dos europeus. No caso de Trump, essas decisões parecem fundamentar-se em caprichos. A pergunta para os europeus é simples: quem no seu perfeito juízo quer morrer em nome de um capricho de Trump?


Não convém falar claro

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 07/12/2019)

Miguel Sousa Tavares

1 A ideia de que criar regiões administrativas dotadas de legitimidade política própria contribuiria para que, num golpe de pura magia, se resolvessem os problemas de desertificação e atraso do interior ou de injusta distribuição dos escassos recursos do país é das mais continuadas mistificações em cena na política portuguesa. Porventura décadas atrás ou num país grande e dividido, uniformemente povoado e com comunicações difíceis, tal fizesse sentido; hoje, num país com uma só etnia, uma só língua e uma só religião, que se atravessa em seis horas graças às auto-estradas que serviram para o tornar ainda mais pequeno mas também para despovoar o seu interior, a regionalização não é mais do que uma aspiração da classe política partidária, sem correspondência a nível popular — como se viu no referendo de 1998. Quando olhamos à nossa volta e vemos, logo ali na Catalunha, as ameaças à desintegração dos Estados e aos próprios regimes democráticos em resultado do separatismo regionalista, poderíamos ter a certeza de vir a ser o primeiro Estado que decidia fragmentar-se voluntariamente, de cima para baixo e sem ser por imposição popular.

Depois… depois, bem podiam esperar sentados, porque, se as regiões se podem criar por decreto, a riqueza das regiões não. A propósito do Plano Nacional de Habitação Acessível, dizia há dias o vereador da Habitação da Câmara de Évora que “não vale a pena criar instrumentos e políticas conceptualmente intocáveis mas que depois não casam com o território. Só se tirarmos o território do território e o colocarmos num laboratório”. Extrapolando, é exactamente o que se passa com os propagandistas da regionalização, como a chamada Comissão Independente para a Descentralização, que de independente nada teve e de descentralização nada se ocupou, pois nasceu e feneceu com o objectivo único e não disfarçado de recomendar ao Governo a urgente regionalização. Eles, certamente, conhecem mal o território chamado Portugal. Esse território está cheio de parques industriais sem empresas, apesar de o terreno e as infra-estruturas serem gratuitos, de piscinas municipais sem utentes, de centros de congressos sem conferencistas, de cineteatros sem músicos, nem actores, nem público. Tem escolas sem alunos, centros de saúde ou hospitais sem médicos, mesmo com habitação e melhores ordenados oferecidos, campos sem agricultores, casas sem habitantes. Nas aldeias e povoados, restam os centros de dia para os velhotes quando há auxiliares e os turismos rurais e restaurantes quando há mão-de-obra local (uma raridade), além do inevitável café, que já nem jornais vende. Quanto às cidades, salvam-se aquelas que felizmente apostaram em sediar universidades ou pólos universitários: Braga, Guimarães, Aveiro, Coimbra, Castelo Branco, Faro, Elvas ou Évora (em rápida descaracterização).

Tudo isto não aconteceu por acaso ou fatalidade, mas em resultado de décadas de políticas irresponsáveis de abandono, primeiro da agricultura e depois, por arrasto, do mundo rural e do interior. Como sempre, houve quem avisasse para as consequências, mas, como sempre também, a voragem de arrecadar primeiro e pensar depois, a vertigem dos dinheiros europeus foi mais forte do que tudo. É a nossa fatalidade: nunca pensar o país para lá do próximo ciclo eleitoral e das reivindicações que estão na ordem do dia. E porque dá trabalho ter ideias novas e elas só são mobilizadoras se forem a curto prazo, regressa ciclicamente a ideia supostamente salvadora da regionalização. Muito embora já tenha sido amplamente discutida e chumbada uma vez — e uma vez deveria ser suficiente para quem anda sempre a dizer que temos um problema de afastamento entre a classe política e os eleitores.

A regionalização nunca criará riqueza em zonas despovoadas pela simples razão de que quem cria riqueza são as pessoas — o seu trabalho, o seu investimento, a sua criatividade. Na melhor das hipóteses, o Governo central irá gastar parte dos preciosos recursos recolhidos aos contribuintes para distribuir um, dois, três envelopes de dinheiro pelas várias regiões. E os políticos regionais gastarão parte consigo mesmos e outra parte a fazer mais centros de saúde, mais piscinas, mais rotundas, mais estradas — onde, para seu grande espanto, nada acontecerá.

Pode ainda dizer-se, todavia, que, mesmo que não sirva para criar riqueza por si mesma, a regionalização pode ao menos servir para a distribuir melhor pelo país. Pois, justamente, essa é a maior e mais perigosa das mentiras. As estatísticas mostram que a distribuição de dinheiros públicos per capita é feita de forma crescente das regiões mais pobres para as mais ricas e inversamente à cobrança fiscal: Trás-os-Montes, Açores, Alentejo, Beiras, etc. Ou seja, o Estado central cumpre o seu dever de justiça social, como lhe compete. Mas uma vez dividido em regiões, e com cada governo regional a ter de se bater pelos votos do seu eleitorado, as regiões mais ricas não vão querer saber da solidariedade para com as mais pobres: aí temos os exemplos da Catalunha, do País Basco, do Piemonte, da Flandres e de vários outros que o demonstram.


2 Há um ano, Donald Trump declarava a NATO “obsoleta” e ameaçava mesmo retirar-se da organização. Mas um ano depois apareceu na Cimeira de Londres travestido de grande defensor da NATO contra o seu destruidor, o francês Emmanuel Macron. Com o Presidente francês sentado ao seu lado, Trump classificou como “insultuosas” a afirmação de que a NATO estava em morte cerebral e de que a Europa precisava de encontrar a sua própria estratégia e meios de defesa, não podendo confiar já nos Estados Unidos. “Sejamos sérios”, respondeu-lhe Macron, avançando com o exemplo da Turquia, o novo parceiro estratégico de Trump, que, com o seu beneplácito, invadiu a Síria para perseguir os guerrilheiros curdos que ajudaram a NATO e os americanos a derrotar o Daesh e que nos corredores da cimeira andou a chantagear outros membros da Aliança para que declarassem as milícias curdas como “terroristas”. A Turquia, um membro da NATO que foi comprar mísseis à Rússia. “Isso foi porque Obama não quis vender mísseis americanos” ripostou Trump, que não consegue digerir a popularidade que o seu antecessor tem na Europa, em contraste com o desprezo de que ele goza (ao ponto de Boris Johnson lhe ter suplicado que, por favor, não abrisse a boca para o apoiar nas eleições inglesas, porque só o iria prejudicar). O que Trump se “esqueceu”, porém, de dizer é que Obama não vendeu os mísseis porque Israel, o grande protegido dos Estados Unidos, e particularmente de Trump, se opôs.

No final, ganhou a Turquia, que não conseguindo ver os curdos classificados como “terroristas” e o seu massacre como “uma operação de contraterrorismo”, também não viu essa infâmia condenada — ou, nas palavras de António Costa, “registou-se uma diferença de pontos de vista”. Ganhou Trump, que conseguiu que a Aliança, no resumo do secretário-geral, “passe a acompanhar o desenvolvimento militar e tecnológico da China e a responder às políticas internacionais de Pequim”. A NATO prepara-se, pois, para se estender para os mares do sul da China, em apoio da posição estratégica dos Estados Unidos: era isto que Trump queria e é por isso que agora defende a NATO. E ele, que defende a desintegração da União Europeia, que denunciou o Acordo de Paris e se recusa a fazer parte do combate às alterações climáticas (para as quais os Estados Unidos são o maior contribuinte), exige, porém, que todos os membros europeus da NATO gastem 2% do PIB com as suas Forças Armadas.

E, Portugal, como se situa no meio disto tudo? Ah, Portugal está de bem com tudo e com todos. Se nem a Inglaterra nem a Espanha querem receber o encontro Netanyahu/Mike Pompeo, recebemos nós; sobre os curdos (disse-o António Costa) professamos os “valores da NATO” (!) mas também percebemos a “dimensão interna” da questão para os turcos; queremos ajudar a salvar o planeta mas lá arranjaremos 2% para gastar em armamento para ajudar a NATO nas suas novas missões; fomos os primeiros a abrir-nos, de par em par, aos interesses estratégicos chineses e assim continuaremos, mas claro que iremos para os mares do sul da China ao toque de chamada dos nossos “aliados”. É a política externa da Maria-vai-com-todos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


O mundo em realidade paralela

(José Goulão, 25/06/2019)

A elite governante mundial, em aliança com o aparelho comunicacional global que trata da sua propaganda, querem forçar-nos a viver numa realidade paralela, aquela em que a versão ficcional e oficial dos factos se transforma em verdade única, indiscutível, sendo a discordância anatemizada como fake news. 

Para ter a noção da envergadura da burla basta-nos pegar em alguns factos que fazem a actualidade, segundo a agenda ditada pelo aparelho de propaganda, e aprofundá-los um pouco. Não será necessário cavar muito fundo, porque a mistificação fica exposta a partir das primeiras incisões: não pode dizer-se que haja especial cuidado em preparar algumas das farsas. 

No topo da actualidade está a guerra contra o Irão: haverá ou não haverá? Quando haverá? Como haverá? O problema resume-se a estas dúvidas. 

Presume-se, pois, que existam razões justas, mecanismos legais para que a guerra se faça, talvez resoluções das Nações Unidas ou coisas do género. 

Não, resoluções não há; tão pouco o Congresso dos Estados Unidos deu o consentimento constitucional ao presidente para atacar o Irão. E, já agora, alguém sabe dizer o que fez o Irão para que mereça ser alvejado? Parece que uns petroleiros danificados no Golfo de Omã sem que haja provas de quem cometeu o crime; e o derrube de um drone norte-americano que invadiu o espaço aéreo iraniano, facto de que existem sobejas provas embora sejam censuradas pela comunicação global. 

Digamos, porém, que estas circunstâncias poderão ser pretextos circunstanciais, os casus belli, a ignição do conflito armado. 

Porque a pergunta que conta é esta: por que razão está o Irão a ser vítima de uma guerra através de sanções económicas arbitrárias que pode estender-se à componente militar? Procurem a resposta no mainstream: encontrá-la é tão difícil como acertar no euromilhões. Isto é, parte-se do princípio de que o Irão tem de ser punido porque sim ou por alguma coisa que já se manipulou e dissolveu algures entre notícias empolgadas, comentários e análises de uma guerra, afinal, imprescindível – é isso que interessa. 

De vez em quando cita-se o presidente dos Estados Unidos dizendo que, coitado, ele não quer a guerra, Teerão é que a força; por ele, preferia negociar… 

Negociar o quê? Ao que parece que o Irão se comprometa a não ter armas nucleares. Mas isso já ficou estabelecido num acordo aprovado em 2015 entre Teerão, os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha. Um acordo que está a funcionar, como comprova a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) nos relatórios das suas inspecções trimestrais. 

Acontece que os Estados Unidos deram o dito por não dito e retiraram-se há tempos do texto que assinaram. O que não inviabiliza o acordo nem significa que o Irão o viola. Então a guerra de que se fala é uma acção unilateral dos Estados Unidos – em que quer arrastar o mundo inteiro – para supostamente negociar o que está negociado. Sendo que, por ironia da história, o único projecto nuclear militar que o Irão alguma vez teve foi criado pelos Estados Unidos quando sustentavam a ditadura criminosa do Xá Reza Pahlevi. 

O mainstream, porém, não trata disto: dá muito trabalho às pessoas, ocupa-lhes a cabeça, faz pensar. Coisa que normalmente não é boa para as guerras.  

E as guerras são para fazer. 

Onde entra a NATO 

E quando se fala em guerra surge a NATO; como se sabe, sempre com a mais louvável e indiscutível postura ” ;defensiva” ; – não é assim que assegura a comunicação/propaganda? 

A NATO é sempre notícia, e mais ainda quando, como agora, se reuniram os ministros dos Estados membros. 

Sempre no seu estilo contido, disseram os ministros, em redor do seu secretário-geral renomeado de fresco, que ou a Rússia suspende a produção de um determinado míssil de médio alcance com capacidades nucleares ou a NATO procederá em conformidade. 

Ficou dado o recado, bem distribuído pela comunicação social. E basta! O resto é dispensável, toda a gente sabe muito bem quem são os russos. 

Vamos então aprofundar um pouco a matéria. 

Os russos dizem que o míssil em questão não viola o tratado de mísseis de médio alcance (INF), mas isso nada vale – é dito pelos russos. Poder-se-iam confrontar as duas versões, mas o que a NATO diz está dito, é um dogma. 

Além disso, as várias formas de rearmamento visando a Rússia que a NATO tem adoptado, em terra e no mar, viola esse tratado porque transforma objectivos supostamente defensivos em vantagens ofensivas e com capacidades nucleares. 

Bom, mas isto é dito igualmente pelos russos e também por pessoas informadas mas cujas opiniões e factos apresentados não cabem na versão oficial. 

No entanto, seria importante sublinhar que o recado é enviado pela NATO aos russos precisamente na mesma altura em que a Junta de chefes do Estado-maior das forças armadas norte-americanas – isto é, da NATO – aprovou uma nova doutrina. E esse normativo prevê o recurso a armas nucleares como meios ” ;decisivos” ; para resolver situações em que não haja ” ;vitórias convincentes” ; das forças do bem, as que asseguram ” ;o nosso civilizado modo de vida” ;. Isto é, situações como as do Afeganistão, do Iraque, da Líbia, da Síria, quiçá do Irão, da Crimeia e o mais que ao bem aprouver. Trata-se, diz a Junta, de garantir a ” ;estabilidade estratégica” ;, ao que parece uma situação que apenas é alcançável com vitórias plenas e domínio absoluto dos Estados Unidos e da NATO, nem que seja, a partir de agora, com bombas nucleares. 

O mainstream deveria ter dito alguma coisa sobre isto, pelo menos para os cidadãos ficarem a saber que as bombas nucleares poderão passar a decidir conflitos convencionais. Dizer para quê? Isso só iria agitar consciências tão postas em sossego com a informação fast food que lhes é servida. 

O humanitário Guaidó 

Estando o Irão no topo da agenda parece ter amainado, por ora, a sanha contra a Venezuela e as escolhas democráticas dos venezuelanos; até a RTP reduziu a intensidade dos esforços para transformar em grandes e legítimos democratas os fascistas enviados por Trump, Bolton & Cia. 

Isto não significa que a guerra travada em várias frentes, designadamente as sanções contra o povo e o roubo de bens do Estado não prossigam. O assunto é que transitou das manchetes para páginas interiores e posições intermédias dos alinhamentos. 

Por isso o grande público não foi informado do episódio mais actual da ” ;operação liberdade” ;, aquela tentativa de golpe em Fevereiro passado montada em torno do pretexto da entrada de ” ;ajuda humanitária” ; na Venezuela, com o conquistador Juan Guaidó na frente. 

Pois os bens angariadas por organizações tuteladas pela CIA e os milhões alcançados no concerto Live Aid ficaram na Colômbia e, segundo informações que são agora do conhecimento público, filtradas por agentes dos próprios serviços secretos colombianos, foram direitinhos para os bolsos e as contas pessoais das hostes de Guaidó, o presidente interino nomeado por Washington. Até o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Luís Almagro, um dos mentores de toda a ” ;operação liberdade” ;, surge agora a pedir um inquérito às circunstâncias, uma vez que, por outro lado, parte da ” ;ajuda” ; alimentar ficou a apodrecer em armazéns em Cúcuta, comunidade colombiana a que poderia ser útil pois está muito carente de tudo o que não lhe chega de Bogotá. 

Portanto, este desfecho da tão empolgante ” ;operação liberdade” ; que iria ” ;libertar” ; os venezuelanos do ” ;jugo” ; do democraticamente eleito Maduro ficou por contar pela comunicação/propaganda. E trata-se, afinal, de um final feliz – e rentável – para aqueles que, embora não ” ;libertassem” ; a Venezuela se viram livres de hipotéticas dificuldades financeiras pessoais. 

Epílogo ecológico 

Viria a talhe de foice destas situações recordar palavras recentes do secretário-geral da ONU, Eng. António Guterres, que tiveram apropriadas tonalidades autocríticas embora, mais uma vez, passassem ao lado do essencial – a mentira, o desprezo e o desrespeito em que vive mergulhada a esmagadora maioria dos seres humanos do planeta, perante a complacência das Nações Unidas. 

Disse o Eng. Guterres que a geração dos dirigentes actuais não tem estado à altura das necessidades – mas fê-lo no contexto da degradação ambiental e das alterações climáticas. 

Ora há muitas situações trágicas a montante e das quais a contaminação ambiental e os problemas climáticos são óbvias consequências. Há a guerra, as desigualdades cada vez mais profundas entre Estados e povos, as armadilhas financeiras, o desprezo ostensivo pelos direitos humanos, as antigas e mais recentes formas de colonialismo militar e económico, a desenfreada corrida às matérias-primas, o destruidor expansionismo agrícola transnacional, a impunidade da exploração de matérias-primas por métodos destruidores da água e dos solos, o comércio injusto dito ” ;livre” ;, o descarado desrespeito do capitalismo transacional por normas que poderiam preservar o ambiente mas, no seu entender, provocam restrições à ganância intrínseca. 

O meio ambiente e a ecologia não existem por si, como bolhas que possam ser tratadas isoladamente sem mudar o mundo. 

Imagine-se que agora até o mainstream é ecológico, fala contra as alterações climáticas, descobriu que o plástico é nocivo para o ambiente. Falta-lhe apurar e explicar, porém, como é que o desastre ambiental afecta drasticamente a esmagadora maioria dos pobres e poupa os ricos, os que o provocam, construindo-se assim mais um sistema de apartheid. 

A comunicação global e o Eng. Guterres estão, afinal, no mesmo comprimento de onda, cumprindo-se a ordem natural das coisas. Uma, porque a sua missão neste mundo é impor a realidade paralela; o outro porque contribui para fabricá-la, embora pudesse não o fazer, ao menos para respeitar os direitos humanos. 

Fonte aqui