As mentiras da NATO implodiram… Já foi dito a Kiev ‘paguem o preço da paz’

(Karl Haki, in Strategic-Culture.org, 18/06/2022)

British Prime Minister Boris Johnson and NATO Secretary General Jens Stoltenberg hold a joint news conference at NATO headquarters, in Brussels, Belgium February 10, 2022.

O dano duradouro, resultante das mentiras que se desmoronaram, é a erosão da presumível liderança por parte dos Estados Unidos e dos seus cúmplices da NATO.

A administração Biden, os meios de comunicação ocidentais (também conhecidos por sistema de propaganda) e o eixo militar da NATO estão em colisão frontal com a realidade. Um dos primeiros sinais disso é a diminuição do entusiasmo com o seu regime de estimação de Kiev, sendo este instado a reduzir suas perdas e a fazer um acordo com a Rússia.

Nos últimos quatro meses, desde que a Rússia lançou a sua operação militar especial na Ucrânia, o público ocidental tem sido inundado com chorrilhos de mentiras sobre a “agressão ilegal” de Moscovo, sobre como a Rússia estava a perder a guerra para os “defensores heroicos”, e como a NATO estava a defender princípios invioláveis da soberania da Ucrânia que, de alguma forma, “justificavam” a inundação do país com armas.

Agora Jens Stoltenberg, o chefe civil da aliança transatlântica liderada pelos EUA, acena provisoriamente com uma bandeira branca de rendição por força da realidade. Falando numa conferência na Finlândia no fim-de-semana passado, Stoltenberg instou o regime de Kiev a “pagar o preço da paz”, cedendo às reivindicações territoriais à Rússia. O antigo primeiro-ministro norueguês, cómica figura de madeira, está sem dúvida a ser utilizado como porta-voz dos planeadores estratégicos transatlânticos.

O “preço da paz” implicaria que as autoridades ucranianas reconhecessem a Península da Crimeia como parte da Federação Russa e a independência das repúblicas de Donbass. A invasão russa da Ucrânia, iniciada a 24 de Fevereiro, foi lançada para defender esses territórios de língua russa das ofensivas do regime de Kiev, apoiado pela NATO, e pelos seus batalhões nazis.

Isto marca uma reviravolta impressionante por parte do bloco da NATO. Desde o golpe de Estado patrocinado pela CIA em Kiev, em 2014, e a secessão da Crimeia para se juntar à Federação Russa, Moscovo tem sido continuamente vilipendiada por ter alegadamente anexado a península, enquanto os Estados Unidos e os seus aliados da União Europeia se têm amontoado em ronda após ronda de sanções económicas.

A suposta restauração da “integridade territorial” da Ucrânia tem sido uma razão recorrente para a crescente hostilidade do eixo da NATO liderado pelos EUA em relação à Rússia. Agora, porém, o chefe do bloco da NATO diz ao regime de Kiev que é melhor preparar-se para ceder território em nome da paz. Lá se vai o princípio! Então qual foi o objetivo de todos estes anos de sanções económicas crescentes contra a Rússia por causa da Crimeia?

A mudança de mentalidade é um reflexo da realidade emergente: a intervenção militar da Rússia na Ucrânia está, de facto, a revelar-se um sucesso. Moscovo assegurou as regiões de língua russa e danificou gravemente as forças armadas ucranianas infestadas de nazis. A pretensão de que a Ucrânia alguma vez aderirá à NATO está também fora de questão.

Há apenas algumas semanas atrás, os governos ocidentais e os seus meios de comunicação social alegavam em fanfarra que a Rússia estava a enfrentar uma derrota estratégica, imposta pelas as forças ucranianas armadas pela NATO. O Presidente dos EUA Joe Biden e o seu Secretário de Estado Antony Blinken estavam ufanos. Assim como o primeiro-ministro britânico Boris Johnson e a sua principal diplomata estrangeira, Liz Truss. O que dirão eles agora?

A natureza nazi das forças da Ucrânia foi encoberta com histórias de “defensores heroicos”. Quando a Rússia consolidou o seu poder de combate no leste da Ucrânia para tomar o Donbass, os meios de comunicação ocidentais alegremente relataram tal como um recuo. Em contraste, vários analistas e fontes militares independentes no terreno deram uma visão oposta e mais precisa, alegando que as forças russas e os seus aliados no Donbass estavam a fazer exatamente o que se propunham fazer: libertar o território de língua russa.

Agora, que a Rússia está no bom caminho para atingir os seus objetivos, a narrativa de propaganda ocidental está a desmoronar-se a partir das mentiras sobre as quais sempre foi construída.

Vai haver muito ranger de dentes devido ao derradeiro fracasso da propaganda. O desastre do Afeganistão vai parecer uma brincadeira em comparação com este fracasso épico. Centenas de biliões de dólares e euros de armamento dos EUA e da NATO enviados para a Ucrânia não fizeram nada para “defender” o país. Tem sido apenas uma bênção para o complexo militar-industrial e para os seus mercenários políticos. Mas a inundação de armamento não dissuadiu a Rússia de atingir os seus objetivos.

As repercussões económicas globais do conflito – totalmente inevitáveis se os EUA e os seus parceiros da NATO se tivessem empenhado com a Rússia na diplomacia para resolver as preocupações de segurança de Moscovo, há muito tempo exigidas por Moscovo – atingiram os Estados ocidentais como uma vingança. A subida dos preços e das contas de energia estão a prejudicar gravemente milhões de trabalhadores que veem a calamidade económica, não como culpa da Rússia (a chamada “subida dos preços de Putin”), mas como resultado dos jogos geopolíticos de Washington e Bruxelas e da indiferença das elites ocidentais. Este é apenas outro aspeto da realidade – uma das imensas implicações de uma convulsão social sem precedentes – que está a obrigar a classe dominante ocidental a salvar-se do seu desastre na Ucrânia.

A colisão frontal com a realidade vai criar reações explosivas. As potências ocidentais já estão a levar Kiev a aceitar o seu destino como um peão redundante. O conselho de Stoltenberg de “pagar um preço pela paz” é a ordem para Kiev cair na realidade e reduzir as suas perdas. O público ocidental vai ver, com razão, a total falta de escrúpulos que este expediente manifesta e perguntar para que foi todo o falso drama e as despesas absurdas financiadas pelos contribuintes. Uma revoltante reação negativa virá, pois, a chegar para os charlatães em funções.

Podemos esperar que os meios de comunicação ocidentais comecem a procurar bodes expiatórios para “explicar” o sucesso da Rússia. Dar, por exemplo, a conhecer relatórios como este recente do New York Times culpando o Presidente da Ucrânia, Vladimir Zelensky, por erros táticos. Mas a vitimização insuportável do regime de Kiev e do seu presidente-comediante, demasiado atrofiado, irá, sem dúvida, ficar em alta e duplicar, devido às exigências impossíveis de satisfazer pela a “defesa” americana e da NATO. Zelensky tem talento para nomear e envergonhar a perceção de falta de indulgência. Ele tem sido preparado para funcionar assim e o seu estatuto de celebridade ocidental dá-lhe um falso sentido de importância.

A história está repleta de bonecos patrocinados pela CIA que sobrevivem à sua utilidade e são assim descartados como lixo. Se Zelensky e a sua turma se enervarem por terem de deixar de jogar à bola com os EUA e os seus parceiros da NATO, tentando encobrir a sua pilha de mentiras, ou seja, não aceitando o seu papel de bode expiatório, então Zelensky enfrentará um “plano de reforma” mais enérgico.

Mas, em última análise, o dano duradouro das mentiras desmoronadas é a erosão da presumível liderança dos Estados Unidos e dos seus cúmplices da NATO. O Presidente russo Vladimir Putin ridicularizou as pretensões dos EUA como o “império das mentiras”. Isso está a revelar-se um destino factual.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Et maintenant, que vais je faire?

(Carlos Matos Gomes, in Facebook 20/06/2022)

A perspetiva de uma França ingovernável é preocupante. É perigosa para os democratas e para os europeus em geral. Numa situação de guerra, e de várias ameaças à Europa democrática e autónoma vindas do seu próprio interior – e as piores ameaças são as dos inimigos internos, historicamente são as implosões, as fraquezas internas, as traições que destroem impérios e nações – um dos estados pilares da Europa entrar em convulsão é uma má notícia. A derrota (de facto) de ´Macron é uma má notícia. A força de Mélenchon e de Le Pen são más notícias. (1) Ver abaixo explicação do autor sobre esta última opinião.

Retirei do Le Monde os poderes de um presidente segundo a Constituição Francesa (devemos analisar com base em factos e não em palpites do parece-me que ):

Com ou sem maioria na Assembleia, quais são os poderes de um Presidente da República?

O que diz a Constituição

O governo “determina e conduz a política da nação” ; O Parlamento aprova leis e pode derrubar o governo. O presidente é um “árbitro” que assegura o “funcionamento regular do poder público” e “a continuidade do Estado”, bem como garante da “independência nacional, integridade territorial e cumprimento dos tratados” . Ele também é o chefe dos exércitos e o único detentor do “fogo nuclear” .

De acordo com a Constituição, portanto, não é o Presidente da República quem deve decidir sobre a política interna do país. Seus próprios poderes são, na realidade, enquadrados:

– é o fiel da Constituição e pode, portanto, recorrer ao Conselho Constitucional se considerar que uma lei viola os seus princípios (mas os parlamentares também podem fazê-lo desde 1974);

– nomeia o primeiro-ministro da sua escolha;

– nomeia três dos membros do Conselho Constitucional, incluindo o presidente;

– pode assumir poderes excepcionais em caso de ameaça “grave e imediata” às instituições, à independência da nação, à integridade do território ou ao cumprimento de compromissos internacionais;

– pode dissolver a Assembleia Nacional;

– pode, por proposta do Governo ou do Parlamento, submeter a referendo um projecto de lei com base no artigo 11.º ( sobre um número limitado de assuntos ).

-Todas as suas outras prerrogativas estão sujeitas à “referenda” (assinatura) do Primeiro-Ministro e, se for o caso, dos ministros responsáveis. No entanto, em caso de coabitação, eles não estão necessariamente do mesmo grupo político do presidente.

Concretamente, o que Macron pode fazer sem maioria?

Mesmo que isso nunca tenha sido feito, o novo presidente pode decidir ignorar a maioria parlamentar e nomear um governo do seu próprio grupo político. Mas isso provavelmente levaria a uma sucessão de derrubes de governos ou dissoluções da Assembleia. Ou seja, a uma forte paralisia das instituições.

E agora? Recordei a canção de Gilbert Bécaud: Et maintenant que vais je faire, que era utilizada na ação psicológica da formação dos Comandos. Espero e desejo que os franceses e os seus eleitos saibam o que vão fazer. Bonne chance!


  1. Explicando a opinião expressa no 1º parágrafo

É uma boa questão, mas as respostas dependem das premissas. A questão da esquerda e da direita: antes dela deve ser equacionada a viabilidade das propostas. Prometer o paraíso pode ser de Esquerda, mas não deixa de ser demagogia e criar condições para um desenlace calamitoso. A equiparação entre a extrema-esquerda e a extrema-direita assenta na utilização do mesmo instrumento da demagogia – do vale tudo – e que conduzirá aos mesmos resultados. O exemplo clássico desta coincidência de resultados de políticas e propostas oriundas de extremos opostos, é o da Alemanha pré II GM, da demagogia da esquerda social-democrata e dos comunistas (a extrema esquerda do momento) e do partido nazi… Quer os grupos reunidos à volta de Mélenchon, quer os de Le Pen prometem tudo, sem cuidar da viabilidade – da realidade. E a realidade é que a França `tem vivido, em boa parte, à custa da Alemanha, e esta não está agora em condições de pagar nem o modelo social de Macron, nem, muito menos as promessas de Mélenchon ou de Le Pen, que, lendo os programas nos capítulos de direitos sociais são muito idênticos; idade da reforma, pensões, serviços públicos., férias, licenças…


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

A heresia do papa Francisco

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 14/06/2022)

Estava a ler textos sobre a “guerra da comunicação” em que estamos envolvidos, felizmente sem os custos em sangue e destruição da que ocorre na realidade do campo de batalha, na Ucrânia. Parti de um filósofo cujo pensamento conhecia um pouco, Paul Virílio, francês, autor de livros sobre as tecnologias da comunicação, e deste cheguei a um outro, desconhecido, Slajov Zizek, esloveno. Paul Virílio, com formação base em arquitetura, define a sociedade da informação como perigosa, já que a informática nos leva à perda da noção da realidade ao proporcionar uma quantidade gigantesca de dados.

É sobre a relação entre a realidade e a imagem que dela nos é transmitida que se travam hoje os combates da informação, desinformação, manipulação que nos são apresentados pelos meios de comunicação, que pretendem camuflar a sua qualidade de armas, atrás de um colete com a palavra PRESS, de uma direção editorial, ou de pastores com a pele de comentadores.

Para Zizek, com formação em sociologia, professor nas universidades de Lubiana e de Londres, o “real” é um termo que corresponde a um conceito enigmático, e não deve ser equiparado com a realidade, uma vez que a nossa realidade está construída simbolicamente; o real, pelo contrário, é um núcleo que não pode ser simbolizado, isto é, expresso com palavras ou com imagens. Só existe como abstrato. Para Žižek, a realidade tem a estrutura de uma ficção. Ou seja, acaba sendo apenas uma espécie de interpretação da “coisa em si”. Há quem não se limite a interpretá-la, mas a fabrique.

Esta minha tentativa de separar o real da realidade, de tentar entender as intenções de quem escreve o enredo da realidade que me é apresentada nas TVs, em particular, como arma de artilharia pesada, surgiu depois de ler e de confirmar tanto quanto possível a opinião do Papa Francisco sobre a guerra, em que, segundo os meios de comunicação e contra o discurso ocidental, terá criticado a Rússia pela crueldade na Ucrânia, mas dito que a guerra pode ter sido provocada, uma opinião que os manipuladores das TV (os grandes meios) escamotearam.

Sou agnóstico, mas reconheço as qualidades de coragem, inteligência e a capacidade de análise de personalidades religiosas, dos que têm uma visão do mundo criado e regulado por um Ente metafísico, que também determina o comportamento dos seres homens, lhes estabelece uma moral que não se reduz à crença, aos que conjugam fé e razão.

É o caso do Papa Francisco, que preside a uma instituição milenar, com influência histórica na vida dos humanos, em todo o planeta e em particular na Europa, que dispõe de uma dos mais eficientes serviços de informação mundiais e a quem presto a mais proveitosa atenção, assim como leio com proveito Tomás de Aquino, Santo Agostinho, ou o Padre António Vieira, os clássicos politeístas gregos, o escuto Dalai Lama.

O Papa Francisco tocou na ferida da discussão sobre aquilo que vemos nos ecrãs sob a aparência de informação, e que é, de facto, a criação de espetáculos da autodestruição humana, através das formas sofisticadas encontradas pelos meios de comunicação — o cinema, a televisão e a Internet — que utilizam as técnicas perigosas a que se referia Paul Virílio para promover o confronto com o “real”, com o objetivo de impor a ideologia hegemónica.

Este processo de espetacularização da destruição com fins políticos, com o objetivo de assegurar um poder, que o Papa Francisco deixa mais do que subentendido — quem quiser percebe — apoia-se na ideia, que a Igreja Católica, como outras desenvolve e cultiva, de que a autoridade é conferida com mais facilidade aos que falam da posição de vítima.

O esloveno Slajov Zizek reparou que o establishment americano conservador utilizou todas as potencialidades desta a lógica da vitimização (mártires e heróis) com o ataque às Torres Gémeas em Nova Iorque para justificar sua atitude de domínio na política mundial a partir o início do terceiro milénio DC.

O governo americano, utilizou um fenómeno da realidade (provocado por quem? — deixa o Papa no ar a propósito da Ucrânia) para manipular e congregar as populações do seu império e levá-los a aceitar e a pagar uma outra realidade de violência, terror e intolerância, que, no caso das Torres Gémeas, teve a sua representação máxima no fundamentalismo islâmico, e justificou a invasão do Afeganistão, e o incêndio do Médio Oriente é agora trocado pela invocação da “brutalidade russa” na Ucrânia. A repetição do mesmo número com sucesso, que o papa ensombreceu.

Esse enfrentamento de realidades e ficções foi traduzido pelos meios de condicionamento da opinião na dicotomia pela oposição: “Eixo do Bem x Eixo do Mal” — “Ocidente x Oriente”. Esta contextualização maniqueísta foi amplamente difundida através dos termos ideologizados do Bem e do Mal absolutos que comprometem a interpretação dos factos.

Ambos os acontecimentos, o 11 de Setembro, a guerra na Ucrânia, mas também o ataque à Sérvia, ocorreram de maneira camuflada e justificada sem direito a contraditório, nem a critica, pelo princípio de que a sociedade ocidental é essencialmente democrática e permite a coexistência de diversas opiniões. Pelo que é essencialmente Boa e pratica o Bem. Se essa é a realidade, tudo o que a contrarie é antidemocrático e antiocidental, q.e.d.

A postura autoritária do governo norte-americano, a elevação a objeto de culto (sacralização) do atentado de 11 de setembro e agora de Zelenski só deixa uma alternativa ao público consumidor de mensagens visuais: pense, reflita, mas chegue à conclusão “certa”. Fora de nós não há salvação!

Slajov Zizek chamou a estes atos de manipulação “efeito espetacular do real”. O Papa Francisco veio tirar, mesmo que muito cautelosamente, o véu que cobria a caixa do truque do ilusionista Biden. Dali, do sacrário da Casa Branca, não vai sair uma pomba branca…


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.