Por uma vez?

(Francisco Seixas da Costa, in Facebook, 10/04/2026, Revisão da Estátua)


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Com o seu acólito Mark Rutte à ilharga — secretário-geral de uma NATO que deveria servir a segurança norte-atlântica coletiva e não os caprichos de Washington pelo mundo —, Donald Trump lançou um ultimato a uma Europa que ele sabe estar refém dos seus próprios medos em matéria de segurança.

Se houvesse um módico de dignidade deste lado do Atlântico — e há razões crescentes para duvidar que reste muito —, deveria ser dito, alto e bom som, a Trump que compete aos Estados Unidos desenvencilharem-se do atoleiro em que, a reboque de Israel, se deixaram cair no Golfo.

Foram as opções de Washington, e não as da Europa, que deflagraram as tensões que agora ameaçam alastrar. A Europa não pode ser convocada a pagar a conta de aventuras em que não foi sequer consultada. É obsceno ouvir os EUA dizerem que atuam na defesa dos interesses daqueles que desprezam e constantemente ofendem. Esses interesses estavam, por exemplo, bem representados no acordo nuclear assinado com o Irão, que Trump abandonou.

Reconhece-se, naturalmente, que há agora interesses muito concretos em jogo. O petróleo iraniano faz falta, as rotas energéticas importam, a estabilidade do Golfo tem um peso real nas economias europeias. Mas a lógica imediatista dos interesses não pode servir de passaporte para a irresponsabilidade estratégica. Os europeus não podem ir a reboque para uma zona onde, num instante, poderão ser apanhados num novo ciclo de guerra — um ciclo que Israel não esconde estar desejoso de recomeçar.

E é aqui que a indignação não pode ser contida por um qualquer cálculo de conveniência. Depois da infâmia das últimas horas no Líbano. Depois de Gaza — a destruição sistemática de uma população, documentada, filmada, contabilizada em dezenas de milhares de mortos. Depois da Cisjordânia, onde a colonização avança com a metodologia lenta e implacável de quem sabe que o mundo olha para outro lado. Perante tudo isto, ou a Europa é capaz de tomar uma atitude firme face a Israel — e que fique claro: muito do material militar israelita continua a ser fornecido por Estados europeus, tornando a Europa cúmplice objetiva dos crimes com ele praticados—, ou perde, definitivamente, o pouco que lhe resta da antiga autoridade moral em que assentou o seu projeto civilizacional. Não a autoridade que se proclama em declarações cimeira após cimeira, mas aquela que se constrói na coerência entre o que se diz e o que se faz, entre os valores que se invocam e o destino das armas que se vendem.

Antecipar-se-á a objeção pragmática: uma posição firme irritaria Trump. Poderia levá-lo a tentar dividir o continente, a jogar as capitais umas contra as outras, como foi feito com tanta eficácia no caso do Iraque, quando Rumsfeld separou a “velha” Europa da “nova”. Claro que sim. Esse risco existe e seria ingénuo negá-lo. Que pode Trump fazer mais? Mais “tarifas”? Tirar as suas tropas da Europa? Os americanos não estão na Europa pelos nossos “lindos olhos”, estão cá, como nas Lajes, porque isso faz parte do seu projeto de segurança, para proteção dos seus interesses, que até agora coincidiam com os nossos.

A alternativa — o silêncio cúmplice, a submissão discreta, o alinhamento por antecipação — tem um nome que se julgava que a Europa tinha aprendido a detestar: apaziguamento. E o apaziguamento não pode ser um vício apenas em direção ao Leste, como a retórica dominante insiste em repetir. É igualmente degradante — e igualmente perigoso — quando praticado em direção a quem, de Washington ou de Telavive, exige da Europa que aceite, de cabeça baixa, que os seus valores são negociáveis e que os seus princípios são ornamentais.

É nestes momentos que a Europa tem obrigação de lembrar-se de que é uma entidade democrática, que tem opiniões públicas perante as quais os seus governos respondem, que afirma um projeto com uma base moral — a mesma que levou quase toda a gente a indignar-se quando ouviu Trump ameaçar que “uma civilização inteira” morreria se não fizesse o que ele queria.

Os cidadãos europeus merecem dirigentes que não confundam prudência com capitulação. Ver os seus governos alinhar como cordeiros atrás desse mesmo Trump seria não apenas uma traição aos valores que proclamam — seria uma abdicação que a história não costuma perdoar.

Olhando para o modo como o mundo reagiu nos últimos dias perante o drama do Golfo, parece claro que a opção por enfrentar Trump, sem a menor hostilidade mas com uma serena firmeza, seria uma atitude que arrastaria consigo largos setores da opinião pública europeia. Eu diria mesmo: por uma vez, desde há muito, a Europa tornar-se-ia popular aos olhos dos seus cidadãos. Houvesse coragem para isso.

5 pensamentos sobre “Por uma vez?

  1. Whale Project tem razão: “Com politicos destes nao será possível”… Sim, porque o vice presidente actual não vale mais que o seu chefe… Ler o seu CV é traumatizante!

    Resta-nos o prazer de constatar que, a principal contradição do nosso tempo é a contradição entre o imperialismo e o anti-imperialismo, que se expressa hoje, com violência sem precedentes, através da agressão criminosa contra o Líbano, que explodiu durante 40 dias com o ataque feroz à República Islâmica do Irão, é uma óbvia que é óbvia.
    A princípio, a associação de criminosos entre os predadores de Washington e os genocidas de Tel Aviv pensou que tinha os meios para prevalecer. Esses criadores de guerra consideravam-se a força dominante, e a República Islâmica do Irão era, na opinião deles, apenas o aspecto secundário da contradição principal. Este país em desenvolvimento apareceu-lhes como uma potência regional frágil não resistiria às pancadas da cibernética militar: ao contrário do que os belicistas de Washington e Tel Aviv acreditavam, as contradições internas da sociedade iraniana, longe de chegar a um estágio paroxístico sob o efeito de agressão estrangeira, foram cauterizadas por essa insuportável negação da soberania nacional iraniana que representou os bombardeios frenéticos do agressor.
    Ameaçada na sua existência, ferida em seu orgulho nacional, a República Islâmica do Irão era politicamente muito mais forte do que seus inimigos imaginavam, e a Quinta coluna permaneceu com assinantes ausentes.seria derrotado pelo aparato militar imperialista, tal era a sua convicção, no final de um confronto rápido e devastador.
    Pois bem: o tiro imperialista saiu-lhes pela culatra! Bravo … Mas ainda nao acabou…

  2. O problema do Senhor embaixador e o de muita gente.
    Nunca teve de trabalhar para americanos da classe WASP, a que pertence o bandalho do Trump, na terra do quinto conho.
    Se tivesse de ligar com gente que tratava empregados escuros abaixo de cão e lia a sua simpatia como medo e por isso fazia tudo para o desgraçado perder mesmo o emprego outro galo lhe cantaria.
    Os Estados Unidos são os Estados Unidos que conhecem indo lá como turistas para sítios “da alta” ou para altos encontros de Estado.
    Nunca para lá vão nas condições da arraia miúda.
    De resto, a única diferença entre os Estados Unidos de Trump e o de outros presidentes e simplesmente que este e mais pornográfico e aparenta demência justamente para criar medo.
    Quando deixaram de ter medo de outra potência que os poderia deter foi um fartar vilanagem.
    Desde o homem do saxofone que se arrogou polícia do mundo a lista e interminável.
    Já tinham havido barbaridades como o Vietname ou a sucessão de golpes no “quintal” da America Latina.
    Mas o fim da União Soviética fe los carregar no acelerador.
    A destruição da Jugoslávia sob Clinton, a destruição do Iraque sob Bush Filho, os ataques com drones que faziam crianças rezar por duas nublados, a destruição da Libia e o início do desmantelamento da Síria com Obama, a guerra proxy contra a Rússia via Ucrânia com o senil Biden, agora o ataque ao Irão com Trump e o seu acólito assassino messianico.
    Isto e um padrão dos Estados Unidos, não um padrão de Trump.
    E não me xinguem de antiamericano porque eu não tenho nada contra a martirizada America Latina.
    Antiestadounidense, se não existe passa a existir e podem me xingar a vontade porque eu sou.
    Sim, há gente decente por lá mas tal como os que havia na Alemanha nazi não são suficientes para impedir os seus crimes.
    O resto e conversa para boi dormir.

  3. Aprecio muito este texto do Senhor Embaixador Seixas da Costa. Fui um comentador entusiasta do seu blogue “Duas ou Três Coisas”, que abandonei, depois de ter sido copiosamente insultado por alguns dos seus comentadores, americanofilos dos quatro costados, que me acusavam de anti-americanismo primàrio, e pior ainda. Recordo mesmo que o Senhor Embaixador, numa das suas raras intervençoes, me acusou do mesmo mas de maneira mais diplomàtica: ” Acha que os americanos são mesmo como descreve,? dizia-me.
    Claro que um antigo embaicador em Washington se devia de ser um pouco compreensivo.

    O que é certo é que o Senhor Embaixadr hoje, vai mais longe que eu, nesses tempos. Eu não ousei dizer tanto!
    Mas , na minha opinião, o que seria hoje necessrio é que todos os antigos e actiais embaixadores em Washington, formassem uma coligação, com os executivos dos países respectivos, para denunciar o ditador e muitas coisas mais, sem citar Epstein, que nos leva para o abismo.

    É que Trump é um doente sanguinário, ele que dizia que uma vez no poder seria adepto da linha “Basta de Guerras”…

    Tem sido claro há muito tempo que Trump é uma pessoa com uma mente desorganizada e uma personalidade desordenada. O que os últimos meses e especialmente as últimas semanas colocaram em foco é como as suas patologias caíram para baixo e para fora através da sua administração. Tornaram-se institucionalizados. A razão pela qual a administração tantas vezes não age de forma coerente é que não pode. O mundo enfrenta algo de novo , desconcertante e assustador. Qunado vejo o secretário de estado à guerra, o famoso Pete, pedir aos americanos para rezar pela vitoria dos EUA no Irão !!!
    A administração como um todo carece de um apego consistente à realidade e a capacidade de organizar o seu pensamento de forma coerente. A grandiosidade, a impulsividade, a inconsistência e as rupturas directas de Trump com a realidade tornaram-se política de Estado.

    • o próprio Seixas da Costa é um enorme insultador; o que se passa é que os States ficaram numa posição que é ridículo defender, então qualquer pessoa com cérebro, por muito americanista que seja, tem de condenar aquilo; a mentira é culparem apenas o Trump por isso, o Trump está a defender os interesses de muita gente e tem os tomates entalados nos ficheiros Epstein para não ter hipótese de fazer outra coisa que não seja ir irracionalmente até ao fim;
      como o Montenegro tem o tomates entalados na história da Spinumviva para deixar o Ventura (tentar) governar – por isso é que anda sempre com aquele sorriso tranquilo-gozista, porque sabe que continuando assim não lhe vai acontecer nada de mau…. o que nos tem valido por aqui é que não têm conseguido fazer muita coisa do que querem (e depois, para eles, até a Constituição tem culpa).

  4. Sem hostilidade? Perante um assassino demente que queria que fossem os europeus a sacrificar os seus filhos tentando abrir o Estreito de Ormuz a força?
    Muitos jovens tiveram sorte de por uma vez os nossos políticos terem tido um vislumbre de lucidez ou agora milhares deles estariam a caminho de se ver a contas com os mísseis e as minas iranianas tingindo mar e terra com o seu sangue. Porque foi isso que o malandro exigiu.
    O que e preciso e que deixemos de sonhar com a destruição da Rússia e a pilhagem dos seus recursos.
    Que os nossos políticos deixem de fazer de conta que acreditam que a Rússia precisa disto para alguma coisa, percebam que ganham mais em fazer negócio honestamente com o vizinho do lado em vez de tentar faze lo sangrar.
    A Europa não tem recursos que interessem a ninguém. Se optar pelo caminho da honestidade nada tem a temer de ninguém.
    Por isso trate de enveredar pelo caminho da honestidade e da decência e diga ao maluco e ao assassino messianico do Netanyahu que a colaboração acabou.
    Trump ameaça sair da NATO porque não lhe demos o sangue dos nossos jovens numa guerra que começou sem pedir cavaco a ninguém.
    E alguém em que não se pode confiar.
    Por isso o que e preciso é haver coragem para cortar com este criminoso.
    Sem a Europa a pagar lhes armas também terão dificuldade em ter liquidez para cometer crimes como o cometido contra o Irão.
    Sem a Europa a fornecer lhes armas também os assassinos messiânicos que se julgam eleitos por Deus terão mais dificuldade em chacinar os vizinhos.
    Seria esse o único caminho para a paz.
    Esse e não tentar por paninhos quentes num assassino demente.
    Mas com políticos destes não me parece possível.

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