A Ucrânia a colapsar

(Estátua de Sal, 04/07/2025)


Não há coincidências, acha a Estátua. Consumidora dos canais televisivos de notícias sempre que está acordada e vigilante, a Estátua tem vindo a notar um certo realinhamento opinativo na CNN sobre as guerras na Ucrânia e em Gaza

Para começar o general Isidro – que devia ter um beliche para pernoitar nos estúdios da estação -, nunca mais apareceu e deixou de nos vender banha da cobra, desde o dia em que publicamente se assumiu como protocandidato à Presidência da República, não desdenhando nessa condição o apoio do Chega. Boa viagem, avança ó Isidro, que tens todo o meu apoio! Se é para roubar votos ao Almirante, a Estátua até te publica aqui um cartaz de propaganda, quando chegar a campanha eleitoral… 🙂

Desse modo, as manhãs e inícios de tarde, como hoje, ficaram muito mais apelativos. Começou por intervir o Major-general Agostinho Costa e seguiu-se o Major-general Carlos Branco, o que também é inédito: nunca opinavam os dois em sequência e a solo, não estando sujeitos ao contraditório da Soller, da Ferro Gouveia ou do Serronha e quejandos.

Já estou a imaginar os comentários dos direitolas e dos belicistas da bandeirinha azul e amarela, a vomitarem raiva por entredentes: “A CNN transformou-se num antro de putinistas!” 🙂

Meus caros direitolas, nada disso. Business is business e a CNN, que deve saber mais do que aquilo que nos mostra, provavelmente só está a antecipar a mudança do vento. Trump retirou uma parte importante do apoio à Ucrânia, sobretudo em termos de defesa aérea, e os mísseis e drones russos penetram cada vez incólumes no território ucraniano. Agostinho Costa, no vídeo abaixo, explica tudo.

Trump quer uma solução política para o conflito e quer que Zelensky se sente – não à mesa das negociações mas num banquinho das negociações para não fazer muitas exigências – ou então que se afaste e convoque novas eleições que, constitucionalmente, já há muito deviam ter ocorrido.

Sem o apoio dos EUA a Ucrânia irá colapsar num prazo breve, e essa é a força de Trump para impor uma solução política.

Tempos estranhos estes, em que a paz se faz pela força das ameaças, e pela retirada das armas aos contendores e não pela razoabilidade dos argumentos. Seja na Ucrânia, seja em Gaza, a técnica de pressão de Trump sobre os belicistas ocidentais é idêntica.

A ser bem-sucedido num caso e noutro, por ironia do destino, Trump caminhará a passos largos em direção ao Nobel da Paz. Obterá o galardão pelo seu amor à humanidade a transbordar do seu vulto imponente de grande estadista? Não. Será apenas porque, para ele, business is business as usual.

Mas que querem vocês? Nestes percursos labirínticos para a paz, como em muitos outros percursos, atenho-me ao antigo provérbio popular, manda quem pode, obedece quem deve.


“Kiev sem defesa” – a situação difícil em Kiev

(Agostinho Costa, in CNN, 04/07/2025)

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Um divã para a União Europeia, por favor

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 10/04/2025)


A situação actual demonstra que os imberbes chefes europeus não são capazes de orientar-se sem a mão condutora dos EUA. Esse foi o seu modo de vida desde a Segunda Guerra Mundial, adoptado sem qualquer consulta aos povos.


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A terapia não deverá proporcionar qualquer resultado, devido ao grau intratável de esquizofrenia e ao nível irreversível de insensibilidade atingido, mas à União Europeia e seus dirigentes formalmente eleitos e não eleitos resta apenas, como derradeiro e desesperado caminho para alguma sanidade mental, a procura do divã de um psicanalista.

Não seria vergonha nenhuma admitirem publicamente as patologias mentais que os atingem; vergonha é o que estão a fazer por estes dias, susceptível de deixar os «pais fundadores» às voltas nas sepulturas, no caso de alguma vez as suas promessas e objectivos terem correspondido às reais intenções – o que também não se verifica.

Alegavam os «pais fundadores» como Jean Monnet e Robert Schuman que a supranacionalidade, a que hoje deverá chamar-se federalismo, era indispensável para desenvolver a integração europeia, além de ser a melhor maneira de «tornar a guerra impensável e materialmente impossível». Eis que agora os herdeiros desses pioneiros, construtores do federalismo, se desmultiplicam em preparativos para uma guerra que, a acontecer, devastará novamente o continente e hipotecará o futuro de várias gerações de europeus. Sequestrar as soberanias deu no que deu.

O conflito desejado pelos membros da União Europeia mais o Reino Unido, como se o Brexit nunca tivesse existido, seria certamente o suicídio da organização, e daí não viria mal ao mundo, antes pelo contrário, não fosse sangrento e arrasador o caminho escolhido. Dramático é o facto de a guerra pretendida pelas «democracias liberais» para salvar o regime podre de Kiev, em desagregação mas ainda manobrado por nazis saudosos de Hitler, possa vir a sacrificar directamente milhões de jovens europeus e espalhar a fome, a miséria, a destruição e desespero através de todo o continente.

Os irresponsáveis dirigentes da União Europeia sabem que não têm dinheiro, nem armas, nem efectivos humanos para fazerem de cavaleiros andantes e avançar de peito feito para desafiar a Rússia, uma potência cujo poder militar, Zelensky o diz, «seria capaz de tomar conta da Europa em poucos dias». Mais irresponsavelmente ainda, os autocratas europeus querem reunir 800 mil milhões de euros para militarizar o continente, acabando de vez com o pouco que resta dos «estados sociais».

O chefe do nazi-banderismo, há muito fora de prazo, estará certamente a exagerar na sua avaliação do exército russo, que há pouco ainda dizia estar «na Idade Média». O seu objectivo é tentar alarmar os parceiros europeus, de modo a que peregrinem a Washington rogar ao pai desavindo que volte atrás, junte os cacos da NATO e reassuma as responsabilidades de tutela que lhe foi outorgada pelos «pais fundadores» da integração europeia.

A situação actual demonstra que os imberbes chefes europeus não são capazes de orientar-se sem a mão condutora dos Estados Unidos da América. Esse foi o seu modo de vida desde a Segunda Guerra Mundial, adoptado sem qualquer consulta aos povos; e agora que Washington ameaça voltar as costas, eis que a união nascida para tornar «impossível a guerra» entrou em estado de guerra logo que ficou entregue a si própria.

Uma vida assente numa grande mentira

A União Europeia e os seus dirigentes sofrem de formas agudas dos principais sintomas de esquizofrenia descritos pelos especialistas: alucinações – a principal das quais é, desde tempos imemoriais, a da «ameaça russa» e respectivas variantes; discurso confuso, muitas vezes sem fazer sentido – o pão nosso de cada dia, acrescido pela mentira contumaz; incontáveis repetições de movimentos – a sucessão das actuais e inconclusivas reuniões de guerra não podia ser mais explícita; isolamento social e disfunção cognitiva – nenhuma instituição como a União Europeia se fecha numa bolha estanque, distorce a realidade e manifesta tão ostensivo desprezo pelos povos e pelos seus direitos sociais. O paralelismo aqui deixado não passa de uma alegoria mas condiz, ponto por ponto, com a vida real.

Estes problemas são de nascença, o que os torna irresolúveis. A integração europeia foi criada com base em pretextos alegados pelos «pais fundadores» que não correspondiam às verdadeiras razões invocadas para o seu nascimento e desenvolvimento; e, sobretudo, sem qualquer vínculo às realidades que existiam e continuam a existir no continente. Uma abstracção, uma aberração.

Winston Churchill, um ultraconservador que chegou a parecer mais norte-americano que britânico disse: «Ao construir uma espécie de Estados Unidos da Europa centenas de milhões de trabalhadores poderão recuperar a alegria e a esperança simples que fazem a vida valer a pena».

«Estados Unidos da Europa» foi uma das várias designações da integração europeia a que recorreram os dirigentes considerados «pais fundadores», como os franceses Jean Monnet e Robert Schuman, o italiano Alcide de Gasperi, o alemão ocidental Konrad Adenauer e o belga Paul-Henri Spaak. A sua missão foi considerada de tal maneira transcendente que o Vaticano está a construir altares para os santos Robert Schuman e Alcide de Gasperi. Por enquanto já são «beatos» e «servos de Deus», pelo que, postas as coisas neste pé, a União Europeia é fruto de um milagre e foi abençoada à nascença.

Porém, até as artes milagreiras têm as suas imperfeições, porque os homens podem ser santos mas não são deuses. A ideia de «Estados Unidos da Europa» nunca poderia funcionar. Iguala realidades que não podem ser sobreponíveis: ignora a profundidade, a antiguidade e a ampla diversidade da cultura europeia, pretendendo nivelá-la pela cultura rudimentar de um país sem história nativa – a que existia foi arrasada com a maior das crueldades; passa levianamente por cima do riquíssimo mosaico de povos europeus, histórica, étnica e nacionalmente diferenciados por uma multiplicidade de línguas e dialectos, uma aguarela de tradições com particularidades próprias e únicas, uma pluralidade sem par de origens das nações – algumas das quais ainda são mantas de retalhos –, essências populares e sensibilidades religiosas. O contrário dos Estados Unidos da América.

Pretender promover uma integração supranacional deste caleidoscópio continental da mesma maneira que foram agregados, com vínculos federais, os Estados artificiais que integram os Estados Unidos da América, homogéneos entre si em quase todas as características que os definem, seria coisa de lunáticos se não se desse o caso de saberem o que estavam a fazer – precisamente o contrário do que diziam, cultivando a mentira. «Estados Unidos da Europa» não passava de uma imagem propagandística fácil de assimilar e que, na prática, traduzia o domínio dos Estados Unidos da América sobre o continente. Esse é o papel de ficção que as organizações criadas para pôr em prática a integração europeia têm desempenhado até agora.

O federalismo europeu, desde o nascimento, nada tem a ver com preocupações democráticas e muito menos com os direitos sociais e dos trabalhadores. Foi imposto aos povos de cima para baixo, por uma elite sem quaisquer vínculos populares que tinha como missão escondida, embora com a cauda de fora, garantir a tutela de Washington sobre o espaço europeu; tornar a supranacionalidade europeia como um contraponto «de liberdade» à União Soviética e ao campo socialista; afirmar-se como uma arma estratégica da guerra fria e conter, se necessário pela força e pela conspiração (Gládio, aparelho clandestino da NATO), as movimentações populares, partidos, organizações de massas e sindicais que divergissem, criticassem e combatessem os mecanismos de imposição de um sistema político-económico-militar único e, no limite, totalitário. Tudo sob o disfarce de «mundo livre» – o capitalismo monopolista, actualmente na sua versão de fundamentalismo neoliberal.

Jean Monnet disse: «Não haverá paz na Europa se os Estados forem reconstituídos com base na soberania nacional» e tudo o que isso implica.

Churchill, em consonância, assegurava que «só uma Europa unida pode garantir a paz» e apenas a supranacionalidade será capaz «de eliminar os males europeus do nacionalismo e do belicismo.»

O chanceler alemão, o ultradireitista e militantemente anticomunista Konrad Adenauer, defendeu que a maneira de «reconciliar as nações é integrá-las numa associação supranacional.»

O teste do Plano Fouchet

A gigantesca falsidade do projecto de União Europeia foi desmascarada logo no primeiro teste que enfrentou, quase contemporâneo do seu lançamento. A intervenção directa norte-americana no confronto que então se travou entre dois projectos antagónicos de associação dos países europeus deixou claro que a única motivação dos «pais fundadores» era mesmo assegurar a tutela de Washington sobre todos os desenvolvimentos que vieram desembocar na União Europeia.

Em 1962, o presidente francês Charles de Gaulle patrocinou o chamado Plano Fouchet, baptizado com o nome do embaixador de França na Dinamarca, encarregado de o apresentar publicamente.

Esta proposta era antagónica, ponto por ponto, do projecto norte-americano de integração europeia. De Gaulle, de facto preocupado com as ameaças de dissolução da soberania francesa no caminho seguido até então, desde a fundação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, jogou uma cartada para travar o processo.

O Plano Fouchet defendia uma solução intergovernamental que devolveria o poder de decisão aos Estados-nação. Previa uma União de Estados em forma de União Política intergovernamental que respeitasse a soberania dos membros e dispensasse a influência dos Estados Unidos na Europa, tanto política como militar.

Além disso, o Plano Fouchet defendia o princípio de que a União de Estados deveria ter em conta questões culturais e sociais.

A proposta de De Gaulle lançava ainda a ideia de uma Política Externa e de Defesa comum que tivesse em conta os interesses de todos os membros. Para assegurar a emanação democrática dessa União, os promotores do plano defendiam a realização de referendos em todos os Estados que viessem a ser membros.

Os «seis», incluindo o próprio governo francês, a Alemanha Ocidental, a Itália e o Benelux – Bélgica, Holanda e Luxemburgo –, deixaram imediatamente cair as máscaras; o edifício de pretextos para a «sua» integração desmoronou-se pela base, o rei ia nu mas a dicotomia posta em debate acabou por esfumar-se nos bastidores da «alta política» e, já nessa altura, com apoio da propaganda por via mediática. Os povos continuariam, até hoje, a estar a leste de tudo, sem que lhes fosse facultada, uma única vez, a possibilidade de terem a palavra, pelo menos em relação à soberania dos seus países. A falsificação absoluta da democracia.

Os responsáveis directos pelo projecto de tutela norte-americano condenaram o plano alternativo do presidente francês por «não valorizar a adesão à NATO ao propor uma política de defesa comum sem os Estados Unidos». Na Alemanha, Konrad Adenauer advertiu que referendos nem pensar, porque «são inconstitucionais». E o Plano Fouchet passou à História.

Por definição, a integração europeia teria de funcionar segundo os interesses políticos, económicos e militares dos Estados Unidos. De tal maneira que bastou agora Trump ameaçar a União Europeia de ficar entregue a si própria para o edifício europeu começar a ruir como o castelo de cartas que realmente é.

Voz grossa sem cordas vocais

A supranacionalidade reanimou nacionalismos, populismos, belicismo e militarismo. A possibilidade de retirada de Washington devolveu a guerra ao primeiro plano. Em situação de «orfandade», os interesses de cada um dos 27 chocam-se cada vez mais, o pandemónio e as fratricidas lutas de egos apenas começaram. Tudo o que eram ideais fundadores foram renegados, mesmo sendo oportunistas, manipuladores e acarretassem a exploração desmedida. Eram uma grande mentira, uma cenário paralelo que não resistiu à realidade quando o pretexto real deixou de existir – a tutela dos EUA.

Quanto  aos ideais não confessados, a integração europeia como instrumento da guerra fria e a garantia do poder norte-americano sobre a Europa parecem ser um conjunto vazio, salvaguardando sempre a hipótese de Trump mudar de ideias e reanimar a NATO, como está a acontecer. A gravíssima situação actual criada pelas provocações da aliança no Báltico e no Mar Negro são mais do mesmo, como se o novo catavento da Casa Branca não estivesse activo.

Apesar do fracasso absoluto das finalidades, reais ou fingidas, a União Europeia (UE) deixou obra: desindustrializou o continente, inventou a «economia verde» para que todos andemos entretidos com rituais que em nada travam a degradação ambiental, fez depender a própria existência do colonialismo norte-americano e dos humores, pouco favoráveis, das potências que estão a construir a nova ordem mundial multipolar para enterrar a totalitária «ordem internacional baseada em regras». A UE está isolada e em estado de guerra.

Voltemos às citações de Churchill. Dizia que os países da Europa «são demasiado pequenos para prosperarem isoladamente». Ao cabo de 70 anos de integração europeia, porém, os pequenos e médios países foram engolidos pelo federalismo neoliberal, a prosperidade é uma mentira transformada em imagem de  propaganda, nunca existiu tão profunda desigualdade social no continente, a austeridade imposta pelos interesses financeiros, económicos e militares – para os quais as várias etapas de «união europeia» foram criadas – continua a arrastar centenas de milhões das pessoas das classes média e baixa para os terrenos insalubres da miséria e da indigência. E agora para campos de morte.

Além disso, segundo os «pais fundadores», só o federalismo ou correspondente desaparecimento das soberanias nacionais poderia erradicar nacionalismos, populismos e outras maleitas sociais. Afinal, o combate às soberanias não apenas reanimou esses velhos fantasmas que deixaram marcas tão negras no Continente como continua a empurrá-los para o topo daquilo que é o regime de sonho do neoliberalismo, o fascismo. Nada que, no dia-a-dia actual, incomode a União Europeia porque, no fim de contas, tudo o que está em causa é garantir o funcionamento e os proveitos máximos e totalitários do neoliberalismo.

Durante o escasso período de meses em que a alternativa do Plano Fouchet ainda esteve em discussão, os «seis» da então CEE manifestaram inquietação porque tais ideias «poderiam tirar poder à Comissão», precisamente o órgão não eleito que corresponde à vocação absolutista da União. A Holanda ou Países Baixos, um inútil jogo de nomenclatura, esconjurou até o plano de De Gaulle porque «subvertia a NATO», pecado capital no processo de integração. Nada pode ser mais claro sobre a grande mentira das motivações que justificavam o desenvolvimento de uma integração europeia.

A União Europeia, perante o risco de deserção dos Estados Unidos, não sabe o que é, nem o que dizer, nem o que fazer, sobra-lhe a guerra; quer falar grosso, como um adolescente na puberdade que não pode contar com os pais, mas não possui cordas vocais para isso; esforça-se por andar pelos próprios pés mas ainda não cortou o cordão umbilical. Tudo é falso desde o início e o choque com essa realidade é traumático e fatal. 

A União Europeia pode procurar o divã do psicanalista, mas só um milagre dos santos fundadores lhe poderá valer. Não passa de um cadáver adiado, um zombie à deriva mas irresponsável, por isso muito perigoso. A Europa só será Europa quando se livrar da União Europeia. 

Façamos votos, mas sobretudo lutemos para que, quando isso acontecer, não seja através da guerra.

Fonte aqui.

O Império do Caos, recarregado

(Pepe Escobar, in S P U T N I K Internacional, 09/01/2025, Trad. Estátua)


“Toda guerra é baseada em enganos. Portanto, quando estamos capazes de atacar, devemos parecer incapazes; quando usamos as nossas forças, devemos parecer inativos; quando estamos perto, devemos fazer o inimigo acreditar que estamos longe; quando estamos longe, devemos fazê-lo acreditar que estamos perto.”

Sun Tzu, in A Arte da Guerra.


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Império do Caos é implacável. Lawfare, desestabilizações, sanções, sequestros, revoluções coloridas, falsas bandeiras, anexações: 2025 será o ano dos BRICS – mais os parceiros dos BRICS – como sendo os alvos escolhidos sob fogo.

O inestimável Prof. Michael Hudson cunhou o termo “caos” como sendo a política oficial dos EUA. E isso é uma atitude bipartidária – e atravessa todos os recantos do Deep State.

Na ausência de uma visão estratégica de longo prazo, e no meio da progressiva expulsão imperial da Eurásia, tudo o que resta ao Hegemon é desencadear o caos desde a Ásia ocidental até à Europa e partes da América Latina – uma tentativa concertada de Dividir para Governar os BRICS e frustrar o seu impulso coletivo de afirmação da soberania e da primazia dos interesses nacionais.

Um Think Tank dos EUA já havia lançado há um ano e meio a noção de swing states. Não a versão eleitoral paroquial americana, mas sua transposição para a geopolítica.

Todos os seis candidatos na época eram membros do BRICS (Brasil, Índia, África do Sul) ou potenciais membros ou parceiros do BRICS (Indonésia, Arábia Saudita, Turquia).

O código para “swing states” era inequívoco: todos esses são alvos de desestabilização – ou seja, se não respeitarem a “ordem internacional baseada em regras”, vão cair.

A Arábia Saudita, cautelosa em relação à sua riqueza depositada nos mercados financeiros de Londres e Nova Iorque, continua a proteger cautelosamente as suas apostas: teoricamente, Riade é membro dos BRICS, mas, na prática, não é bem assim. A Turquia foi convidada como parceiro (ainda não houve resposta oficial).

E então há a potência do Sudeste Asiático, a Indonésia, que acaba de ser admitida como membro pleno esta semana – sob a presidência brasileira dos BRICs. Chame-a de BRIIICS: o vetor predominante de uma recalibração sísmica das placas tectónicas geopolíticas – destinada a remodelar o comércio, as finanças e a governação.

Os BRIIICS e os parceiros selecionados estão a configurar uma rede formidável – empenhada em reescrever as regras do jogo: atualmente 10 membros de pleno direito e 8 parceiros de pleno direito -, perfazendo 41,4% do PIB global em paridades de poder de compra (PPC) e cerca de metade da população mundial. É isto que o Império do Caos está a enfrentar.

Imaginemos a China-Índia-Rússia-Irão-Indonésia-África do Sul-Brasil-Egito-Arábia Saudita como as pérolas transcontinentais do mundo multi-nodal emergente. Enormes populações; enormes recursos naturais e poder industrial; inúmeras possibilidades de desenvolvimento.

As elites governantes do Império do Caos não têm nada a oferecer como contraponto a essa crescente potência geopolítica – com seu próprio banco de desenvolvimento (claro, isso requer muito trabalho); comprometimento total para desenvolver e testar sistemas de pagamento alternativos; e uma ampla aliança comercial transcontinental empenhada em contornar progressivamente o dólar americano .

Em vez de trabalhar na diplomacia, no diálogo e na cooperação, o Império do Caos – e o Ocidente coletivo vassalo – “oferecem” algo à Maioria Global: o seu total apoio a um genocídio de limpeza étnica e seu total apoio a um gangue terrorista de fato e gravata, de degoladores “moderados” tomando o poder numa antiga nação árabe soberana.

Bem-vindo ao Terror e ao Genocídio R Us.

Em caso de dúvida, anexe tudo

Desenvolvendo ainda mais as suas realizações na cimeira de outubro passado em Kazan, os BRICS estão essencialmente a aplicar uma estratégia de Sun Tzu. Engano. Nenhuma grande proclamação. E nenhuma ameaça direta ao Império do Caos, exceto o foco claro em se livrar do domínio do FMI e do Banco Mundial – como no aumento do comércio em moedas locais.

O movimento dos BRICS, lenta mas seguramente, já está movendo outras peças multilaterais no tabuleiro de xadrez, da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) à ASEAN.

A China, no topo dos BRICS, estará focada numa tripla meta: a guerra tecnológica contra os EUA; aumentando a sua participação no comércio global; e a recalibração dos projetos da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI). Em vários aspetos, a BRI é a peça central da abordagem da China ao BRICS.

O foco de Pequim abrange mercados em todo o Sul Global, BRICS, acordos de livre comércio da ASEAN e APEC (chave para o comércio e investimento em toda a Ásia-Pacífico). A APEC está intimamente ligada à BRI. O foco do presidente Xi em construir e reforçar um mercado em toda a Eurásia foi primeiramente assente na BRI, lançada em 2013.

Paralelamente, desde 2022, o Ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, vem expandindo constantemente o apelo de Xi por uma “nova arquitetura de segurança no Oriente Médio”.

Para a China, isso significa o clássico Balance of Power: o Irão como um pilar muito forte, fazendo parceria com a China na Ásia Ocidental para combater os EUA. Em 2021, a China e o Irão assinaram um projeto crucial de cooperação econômica para 25 anos.

 Depois há a energia. Aproximadamente 50% das importações de petróleo bruto da China vêm da Ásia Ocidental. Os fornecedores da China – de petróleo e gás – são altamente diversificados: Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Omã, Kuwait, Catar e Irão (através da Malásia).

Paralelamente, Pequim não terá problemas em manter o QUAD e o AUKUS como pequenos incómodos. A NATO, voltando-se para a Ásia não tem como começar: a China está rapidamente a construir uma estratégia complexa de zona controlada.

Na África, a Aliança dos Estados do Sahel continuará a expandir-se – e a França como potência neocolonial está acabada. No resto da África, a Nova Resistência Descolonizadora só começa agora.

A América Latina, no entanto, é sinónimo de grandes problemas. O Império do Caos de Trump 2.0 pode entrar em plena Doutrina Monroe – para além do delírio de anexar o Canadá, a Gronelândia, o canal do Panamá e quaisquer outras latitudes insuspeitas. Em geral, será uma viagem difícil para nós selecionados do “quintal” – à exceção da devastada neocolónia Argentina.

Gerindo a derrota dos EUA contra a Rússia

O suicídio coletivo da Europa atingirá o paroxismo – devido à corrosão total do seu modelo social, industrial e cultural.

O catálogo de males inclui a demência total em Bruxelas; o fim da energia barata; a desindustrialização acelerada; as economias em queda livre; dívida impagável — pública e privada; e, por último, mas não menos importante, na chamada democracia da NATO, o desprezo absoluto da “liderança” da NATO-UE pelo cidadão/contribuinte europeu médio quando se trata de forçar cortes severos em serviços sociais em benefício do aumento do armamento.

A provável guerra comercial de Trump 2.0 contra a UE só acelerará o colapso da economia europeia.

Veja-se a França, que já está numa confusão terrível. A dívida francesa agora é negociada ao nível da dívida da Grécia em 2012, com spreads acima dos títulos alemães. Mais de 50% dos 2,5 triliões de euros do mercado de títulos do governo francês são propriedade de abutres globais e de capitais especulativos. Não há nenhum Mario Draghi com uma bazuca do BCE para salvar o euro da sua nova crise existencial. E Le Petit Roi é apenas um prisioneiro do pato manco, odiado até mesmo pelos ratos de esgoto de Paris.

O historiador, antropólogo e demógrafo Emmanuel Todd, autor do inovador La Défaite de L’Occident (aqui está a primeira resenha em inglês ), é um dos poucos intelectuais franceses que realmente entende as novas regras do jogo.

Numa entrevista surpreendente ao porta-voz privilegiado da alta burguesia francesa, Todd aponta o absurdo de considerar Trump vitorioso “nol meio de uma economia em frangalhos”; e ainda por cima quando “os EUA estão a perder uma guerra, à escala global, contra a Rússia”.

Então, no meio de toda a comoção sobre o “hiperpoder de Trump como um indivíduo mágico”, Todd avançou com uma formulação impressionante e cristalina: “O trabalho de Trump será administrar a derrota dos EUA contra a Rússia”.

A Síria como Líbia 2.0

Bem, todos nós, viciados em cultura pop, sabemos que os EUA vão continuar a “ganhar” – à maneira de Hollywood; ou melhor, à maneira da World Wrestling Federation (WWF). O certo é que, independentemente dos mísseis de Trump 2.0 que sejam lançados em guerras comerciais contra a Europa e a Ásia, as elites encurraladas e com direitos ancorados no Império do Caos serão levadas a infligir danos tremendos à Maioria Global.

A vitória na Síria levou-os a um estupor de embriaguez – e a mentalidade de “homens a sério vão para Teerão” está de volta para uma vingança (o Irão, não por acaso, é um membro de topo dos BRICS).

Estão reunidas todas as condições para que a Síria se torne a Líbia 2.0. Mas não se trata de um caso em que a casa ganha sempre – antes de mais, porque não há “casa”. No vizinho Líbano, o Hezbollah já se reorganizou. Resta a perspetiva de que, depois de se reagruparem e reestruturarem, o Hezbollah, o Ansarullah no Iémen, uma nova oposição síria e o IRGC no Irão se unam numa formação diferente e renovem a verdadeira batalha – contra Eretz Israel.

Ninguém sabe o que é que o salafi-jihadi de fato e gravata Ahmad Al-Sharaa, anteriormente Abu Mohammad Al-Jolani, está realmente a governar. Em graus diferentes, o Ocidente coletivo, as monarquias do Golfo Pérsico e Israel nunca confiarão nele e considerá-lo-ão descartável. Não passa de um bode expiatório útil e temporário.

Al-Jolani era o emir do ISIS* de Nineveh; o emir da Jabhat Al-Nusra*; e o emir principal da Al-Qaeda* no Levante. Ele personifica, por si só, toda a gama de propaganda ocidental fabricada sobre o “terror”. Os seus seguidores já estão furiosos por ele não ter transformado imediatamente a Síria num Emirado Islâmico.

Se ele não transferir o poder em 2025 – e não em quatro anos – para um parlamento, um governo e um presidente recém-eleitos, esqueçam o levantamento das sanções contra a Síria.

O Império do Caos – para não falar de Telavive – quer, de facto, uma Síria em caos permanente; certamente não um governo estável e representativo que lute contra o roubo do seu petróleo, gás e trigo.

Depois, há o choque frontal iminente entre Eretz Israel e o neo-otomanismo turco. O projeto turco de controlar a Síria é, na melhor das hipóteses, instável. O Império do Caos não cederá os curdos; o Ministério dos Negócios Estrangeiros turco já está a falar da possibilidade de uma “operação militar”. Paralelamente, o dinheiro árabe não começará a fluir para a reconstrução da Síria, a menos que Damasco esteja totalmente em dívida para com as monarquias do Golfo Pérsico.

É tudo uma questão de dívida – e de produção industrial

Os BRICS, como é óbvio, estão divididos por graves contradições internas, que serão impiedosamente exploradas pelo Império do Caos. A começar pelo Irão, Emirados Árabes Unidos, Egito e Arábia Saudita (quando os sauditas aparecem nas reuniões), que lutam para chegar a um consenso na mesma mesa.

Acrescentem-se as contradições internas de um poderoso lobby anti-BRICS no Brasil, mesmo dentro do Ministério dos Negócios Estrangeiros, espelhando a disputa interna iraniana entre os adeptos do Eixo da Resistência e a multidão de tendência atlantista.

O que mais importa, a nível institucional, é que a China-Rússia, na mais alta esfera dos BRICS, e também na esfera do soft power, continuem a enfatizar a igualdade, a harmonia e o foco no desenvolvimento humano como valores político-económicos cruciais – totalmente em sintonia com a Maioria Global.

O que não vai mudar, mesmo sob a pressão implacável do Império do Caos, é o impulso dos BRICS para construir um sistema paralelo e realmente democrático de relações internacionais. Isto não implica a construção de uma contraparte dos BRICS para a NATO; mesmo a SCO funciona como uma aliança frouxa. Na sequência da inevitável derrota americana na Ucrânia, a NATO, mais cedo ou mais tarde, implodirá – lado a lado com o seu braço de propaganda política, a UE.

O Prof. Michael Hudson, mais uma vez, acertou em cheio no nó górdio do problema coletivo dos BRICS. O cerne da questão é a dívida externa: “Não há maneira de os países BRICS crescerem e, ao mesmo tempo, pagarem as dívidas externas com que têm estado sobrecarregados nos últimos 100 anos e, especialmente, desde 1945.”

Estas obrigações em dólares são detidas por elites compradoras/oligárquicas “que não querem ter as suas próprias moedas porque os países do Sul Global e as suas oligarquias sabem que as dívidas não podem ser pagas”. Assim, “os países BRICS, para crescerem, têm de anular as suas dívidas” e resolver o conflito entre os interesses instalados e os interesses nacionais.

Hudson é inflexível ao dizer que “os parasitas domésticos precisam de ser tratados” para que os BRICS possam “erguer uma nova estrutura internacional de comércio e finanças”. O Império do Caos, é claro, “aliar-se-á aos parasitas locais” para fomentar o caos, a mudança de regime, o terror e por aí fora.

Por muito que os BRICS precisem de apresentar uma filosofia económica concertada – digamos, realisticamente, nos próximos quatro anos – a mudança geoeconómica já está em andamento. Desde o início do milénio, a produção industrial dos EUA cresceu apenas 10%; e desde 2019, literalmente 0%.

Em comparação, desde 2000, a produção industrial da China cresceu cerca de 1000%; a da Índia, mais de 320%; e a da Rússia, mais de 200%.

A NATO desenvolvida não tem estado a crescer desde o período pré-Covid 2019. A Europa Ocidental atingiu o pico em 2007/2008 – e a Alemanha atingiu o pico em 2017. A Itália é um caso lamentável: a produção industrial diminuiu (itálico meu) em 25% desde 2000.

Acresce que o Império do Caos, comparado com a Rússia, é absolutamente não competitivo na produção de armas e francamente risível no que diz respeito à hipersónica e à defesa antimíssil.

Um roteiro viável para os BRICS+ e a Maioria Global contrariarem a “estratégia” imperial de caos descontrolado seria acelerar a integração em todas as esferas; aplicar Sun Tzu para aumentar o quociente de contra-ataque aos movimentos de Trump 2.0; e forçar os mentores do Estado Profundo a tomarem decisões mal calculadas, umas atrás das outras.

Essa abordagem terá de progredir em sintonia com uma estratégia de Diversidade é Força concebida pelos BRICS, em que cada nação e parceiro traz para a mesa comum uma riqueza de matérias-primas, recursos energéticos, know-how de fabrico, logística e, por último, mas não menos importante, soft power: em conjunto, os planos de uma nova ordem equitativa capaz de dissolver o caos descontrolado.

*Organizações terroristas proibidas na Rússia e em muitos outros países

Fonte aqui.