Futebol e espetáculos que justificam guerras e encobrem genocídios

(Por Tortuga, in Resistir, 19/07/2026)


O principal produto mediático destes dias, acompanhado por milhões de telespectadores de todo o planeta, é o campeonato mundial de seleções nacionais de futebol organizado pela FIFA a cada quatro anos. Um espetáculo para os entusiastas do desporto de massas, mas também um importante ponto de encontro de todo o tipo de interesses económicos, sociais e políticos.

Antes de entrarmos em pormenores sobre as particularidades específicas do facto de esta edição do Mundial de Futebol se realizar nos EUA, convém recordar duas circunstâncias negativas que ocorrem em cada edição do Mundial e também noutros eventos desportivos e competições culturais de características semelhantes.

Por um lado, há a questão ecológica:   cada um destes eventos representa uma grande agressão ao ambiente, sob a forma de construção de infraestruturas faraónicas, na sua maioria desnecessárias: estádios, estradas, edifícios para alojar as delegações visitantes… Sem esquecer o custo humano de tudo isto. Por exemplo, no último Mundial do Qatar, cerca de 500 trabalhadores migrantes morreram nas obras, devido à pressa da organização para que as construções estivessem prontas dentro dos prazos. É também necessário ter em conta os danos causados à atmosfera pelas emissões poluentes dos automóveis e aviões que transportam os milhares e milhares de espectadores que se deslocam para assistir aos jogos ao vivo.

Por outro lado, é preciso mencionar o fomento dos nacionalismos patrióticos que se verifica com este tipo de competições. É sabido que o patriotismo nacionalista é um poderoso catalisador do racismo, da xenofobia, da exclusão e também da corrida ao armamento e da própria guerra. Os mundiais de futebol e de outros desportos, longe de promover o encontro multicultural e o diálogo, aprofundam as rivalidades e as diferenças entre países, exacerbam o culto à própria nação e são fonte de diversos tipos de desconsideração e desprezo para com as demais.

Mas concentremos-nos na presente edição do campeonato. Como é do conhecimento geral, o principal país anfitrião são os Estados Unidos da América do Norte. Um Estado que, ao longo da sua história recente, deixou pelo mundo uma série de guerras, golpes de Estado, pilhagens e violações do direito internacional. Um país cujo governo, para nos referirmos ao mais recente, ameaça invadir Estados soberanos, orquestra guerras económicas, impõe bloqueios comerciais que geram escassez — e, consequentemente, pobreza —, sequestra e assassina líderes de outros países, bombardeia escolas cheias de meninas e, acima de tudo, em conjunto com o seu aliado íntimo, Israel, mantém em curso um genocídio indescritível contra a população civil da Palestina e do Líbano. Limitando-nos apenas ao âmbito do futebol, soube-se nestes dias que 566 futebolistas palestinos – o equivalente a 25 equipas completas – foram assassinados por Israel.

Talvez pensem que somos demasiado sensíveis, mas permitam-nos opinar que o facto de um Estado que faz todas essas coisas poder organizar um campeonato mundial e de os restantes países participarem com as suas seleções nacionais, como se nada fosse, é uma forma de minimizar a gravidade dos crimes cometidos, ações que continuam a decorrer até aos dias de hoje.

É um desviar o olhar e, por conseguinte, justificar e até mesmo avalar todas essas políticas que constituem crimes contra a humanidade, levadas a cabo incessantemente pelo principal governo anfitrião deste Mundial de Futebol. O mesmo se pode afirmar sobre o facto de se permitir que Israel participe em competições internacionais ou no Festival Eurovisão da Canção.

Como se não bastasse, a esta circunstância fundamental há que acrescentar mais um conjunto de razões que fazem com que a realização de um Mundial nos EUA não faça o menor sentido:   o elevado preço dos bilhetes, que torna o espetáculo elitista, classista e excludente para as pessoas com rendimentos mais baixos. A forma como a agência governamental ICE aproveita o Mundial para a sua caça permanente a migrantes. A discriminação, sob a forma de obstáculos e humilhações nas fronteiras ou recusa de vistos que as autoridades dos EUA impõem a pessoas provenientes de países do Sul ou inimigos dos EUA, chegando mesmo a afetar algumas das seleções nacionais participantes, ou o árbitro somali Omar Artan, considerado o melhor de África, a quem foi impedida a entrada no país. Tudo isto sem que a FIFA, organizadora do torneio, emita a mais mínima crítica. Recordemos que, em 2023, a FIFA retirou à Indonésia a organização de um Mundial Sub-20, por não ter permitido a entrada no país aos membros da seleção israelense como medida de protesto contra o genocídio.

Denunciar o militarismo, as guerras e os genocídios, bem como as agressões ao ambiente ou aos direitos humanos fundamentais, é uma obrigação que temos enquanto seres humanos decentes. Assim como evitar que esses factos e situações sejam normalizados, justificados ou legitimados. Um pequeno gesto, que pode ser eficaz se muitas pessoas o praticarem, é deixar de consumir, enquanto espectadores, produtos da indústria do espetáculo promovidos ou produzidos em países como Israel e os EUA. A Copa do Mundo de Futebol de 2026, por exemplo.

Fonte aqui.

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Não deem audiência a quem chama democracia a um genocídio!

(Tita Alvarez, in Facebook, 23/05/2026)


Eles não me enganam. Apenas me enojam.


Há princípios que não se negociam.

O genocídio, a intenção sistemática de destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, é o aniquilamento absoluto de cada um desses pilares. Não é uma “falha” ou uma “imperfeição”. É a rutura total.

Um Estado que pratique, auxilie ou permita o genocídio não pode, sob qualquer artifício retórico, ser chamado de democrático. Nem sequer de “democracia imperfeita” ou “falha”. É, pura e simplesmente, um regime criminoso.

E. no entanto, todos os dias, comentadores televisivos vão aos ecrãs, em horário nobre, afirmar que Israel é um Estado democrático. Repetem como um mantra: “é a única democracia no Médio Oriente”.

Estes comentadores não são ingénuos. São pagos para mentir. São pagos para normalizar o anormal. São pagos para chamar “democracia” a um regime que, perante a lei internacional e a evidência factual, é acusado de cometer o maior dos crimes.

Não vou dar audiência a quem recebe um salário para branquear horrores. Não vou sentar-me no sofá a ouvir alguém que, com factos e seriedade fingida, tenta convencer-me de que o que estou a ver com os meus olhos não é verdade.

A democracia morre quando as palavras perdem o sentido. Morre quando nos habituamos à mentira repetida até à exaustão.

Eles não me enganam. Apenas me enojam.

Não vou dar audiência a quem é pago para mentir. Quem normaliza o horror não tem lugar no meu ecrã, nem no meu tempo, nem na minha consciência.

Se ainda tem um mínimo de decência e de clareza moral, faça o mesmo. Desligue. Não valide. Não alimente quem mente ao serviço do poder.

A Democracia não se diz. Pratica-se. Genocídio também não se esconde. Vê-se. E quem vê e continua a chamar democracia ao que está a acontecer… não é comentador. É cúmplice.

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Em Leninegrado, a pensar em Cuba e Gaza

(Boaventura Sousa Santos, in A Viagem dos Argonautas, 24/05/2026)


Ao longo da história, o cerco de populações foi muito utilizado como estratégia para obter a rendição das forças políticas e militares defensoras dos territórios cercados. A razão fundamental para crer na eficácia do cerco era a fome e a doença impostas à população civil. Alguns cercos duraram meses, outros duraram anos. Todos provocaram um sofrimento inaudito às populações, sobretudo às populações civis, as populações não diretamente envolvidas nos combates. Os militares e todos os funcionários de serviços de que dependiam, bem como os líderes políticos, sempre tiveram alguns privilégios.

A história sobre o êxito ou o fracasso dos cercos é fascinante. Se é verdade que muitas populações cercadas sucumbiram, em muitos outros casos resistiram e obrigaram os atacantes a retirar. Em tempos de autarcia das populações, o cerco era literal, à volta das muralhas, impedindo saídas e entradas e recorrendo muitas vezes à táctica da “terra arrasada”: queima de colheitas, abate de gado, envenenamento dos poços. Desde a era moderna, com a globalização do capitalismo e a liberalização do comércio internacional de mercadorias (e de pessoas), criaram-se tantas formas de interdependência entre os povos que novos instrumentos de encercamento foram postos à disposição dos atacantes (guetos, bloqueios, embargos, sanções, políticas anti-imigração, espaços aéreos fechados, criminalização internacional de líderes políticos, etc.). Reciprocamente, tais interdependências tornaram possíveis às populações cercadas novas táticas de resistência.

Não é objetivo deste texto analisar as virtualidades bélicas dos cercos. Centro-me exclusivamente no sofrimento humano que os cercos causam às populações civis cercadas. Para ilustrar esse sofrimento, escolho o cerco mais brutal da história contemporânea, o cerco de Leninegrado pelo exército Nazi entre Setembro de 1941 e Janeiro de 1944. Escolho-o pela sua brutalidade, mas também por ilustrar um caso de derrota do atacante, aliás, considerado ao tempo do cerco um inimigo todo poderoso. Faço-o a pensar em Cuba e na Palestina. Sobretudo tendo em mente que o mundo da comunicação social tem tido o papel nefasto de trivializar o sofrimento, mesmo quando aparentemente o dramatiza. Por esta razão, não se cria uma população mundial horrorizada e mobilizada contra o sofrimento humano injusto. Em vez disso, delega-se a má consciência a pequenos grupos de corajosos ativistas que, pela sua natureza, revelam tanto a possibilidade da resistência como a fatalidade da sua derrota.

Como me centro no sofrimento humano, socorro-me das descrições do cerco por parte daqueles que o viveram. A descrição deles e delas é mais poderosa do que qualquer análise abstrata. Entre muitas descrições, seleccionei a de Constantine Krypton (pseudónimo?) publicado em 1954 na revista Russian Review, vol 13:4, pp 255-265.[i] É uma longa citação:

“O inimigo não conseguiu destruir os edifícios de pedra; conseguiu, sim, uma aniquilação terrível da vida dentro deles. A causa principal da destruição entre a população foi a fome. De acordo com o recenseamento oficial de 1939, a população de Leninegrado era de 3.191.304 habitantes. O processo de aniquilação da população começou no final do mês de Novembro de 1941. O seu sinal exterior na vida da cidade foi o aparecimento nas ruas de todo o tipo de trenós, principalmente trenós de crianças atrelados uns aos outros com cadáveres sobre eles. Mais tarde, transportavam frequentemente os mortos em trenós individuais, especialmente se fossem mais compridos. Envolviam os cadáveres em lençóis, cobertores, tapetes, sacos de todo o tipo e todo o tipo de trapos. Dia após dia, o número destes trenós aumentava, criando, num determinado período, no final de Dezembro e início de Janeiro, uma procissão interminável ao longo das ruas principais.

O processo de morte da população de Leninegrado recebeu, na linguagem médica, o nome de «distrofia». A distrofia tinha três fases. A distrofia da primeira fase caracterizava-se por um enfraquecimento geral do organismo e uma grande perda de peso. A distrofia do segundo estágio trazia ainda maior fraqueza e perda de peso, juntamente com uma série de doenças que apresentavam, em particular, os seguintes sintomas: gengivas escamosas, formigueiros na parte superior do abdómen, úlceras, inchaço, dormência, problemas de estômago e similares. Esses sintomas já estavam parcialmente presentes no primeiro estágio. Na segunda fase, as pessoas começaram, como se dizia naquela época, «a devorar os seus músculos». A distrofia da terceira fase, com duração média de duas semanas, caracterizava-se pelo colapso completo da pessoa, depois a morte. Diz-se que aqueles que passavam para a terceira fase da distrofia não podiam ser salvos. Tive a oportunidade de observar dois casos em que familiares de uma pessoa distrófica acamada obtiveram manteiga e outros alimentos nutritivos, mas era absolutamente impossível proporcionar qualquer alívio real.

As pessoas que tinham entrado no período crítico permaneciam indiferentes a tudo à sua volta, num estado de completa apatia. As pessoas caíam e morriam inesperadamente enquanto caminhavam na rua, estavam na fila, no trabalho ou em casa. Certa vez, ao chegar ao Instituto, onde nas salas frias e sem aquecimento ainda decorriam aulas com três ou quatro pessoas, fui literalmente atacado por um homem bastante baixo. A mim, na qualidade de reitor da faculdade, ele expressou com grande ênfase a sua indignação pelo facto de tão poucos estudantes comparecerem às aulas. Parece que este homem era um professor de desenho técnico, que eu ainda não tinha conhecido. No semestre seguinte, ele iria dar um curso. Quanto ao número de alunos, ele teria sete. Então eu disse-lhe: «O facto de ter sete alunos, em vez dos habituais quatro ou cinco, demonstra um progresso notável, que só pode ser explicado pelo grande interesse na sua disciplina.» Isso acalmou-o um pouco, mas, dirigindo-se ao grupo de alunos, gritou com toda a força: «Sim, mas eu quero ter 25 alunos. Quero lutar por cem por cento.» Trinta ou trinta e cinco minutos depois, uma jovem aluna veio a correr ter comigo para informar que o professor de desenho técnico estava morto.

A taxa de mortalidade era excecional entre aqueles que estavam a concluir os seus estudos. Aqui, a competição cobrou o seu preço. Essas pessoas, apesar de todos os obstáculos, queriam concluir o seu trabalho de graduação e concluí-lo bem. Sem comida, em dormitórios frios, trabalhavam teimosamente e escreviam os seus trabalhos. Não viviam muito tempo depois disso — cerca de dez a quinze dias. O esforço intelectual excessivo com o estômago vazio tinha esgotado qualquer reserva de força que eles tivessem.

Na opinião dos médicos, no início de Dezembro de 1941, uma grande percentagem da população de Leninegrado encontrava-se na segunda fase de distrofia. O mês de Dezembro foi o período de transição para a segunda fase para a grande maioria da população. As condições de vida contribuíram fortemente para isso. A distribuição de alimentos em Dezembro tornou-se totalmente insignificante. Os trabalhadores recebiam 200 gramas de pão por dia; os funcionários civis e seus dependentes, ainda menos. A ração de cereais permitia preparar sopa apenas três ou quatro vezes por semana. As batatas tinham sido distribuídas pela última vez em Setembro. O número de cartões de trabalhadores (primeira categoria), que garantiam mais pão e cereais, era estritamente limitado. Um titular de uma cátedra nas escolas superiores de um instituto recebeu esses cartões apenas em Janeiro de 1942; mas os docentes, estudantes de pós-graduação e outros tinham os cartões de funcionários civis (segunda categoria).

Os suprimentos privados pertencentes à população esgotaram-se em meados ou, no máximo, no final de Novembro. Durante esse mês, as pessoas comiam gatos na cidade. Enquanto esperava na fila pelos cartões de racionamento de Dezembro, ouvi involuntariamente a conversa de alguns estudantes. Eles tinham descoberto que a carne de gato era muito saborosa; era algo semelhante à de coelho e só havia uma coisa desagradável: matar o gato. Os gatos defendem-se desesperadamente. Mas logo deixei de ouvir tais conversas — já não havia mais gatos para matar. Em Dezembro, as pessoas começaram a comer ratazanas, ratos e pombos. A uma mulher idosa que estava a morrer, a sua jovem sobrinha trouxe meio rato que tinha conseguido apanhar e deu-lho. No entanto, a mulher moribunda e a sua sobrinha, juntamente com os seus familiares, morreram pouco tempo depois. Seguiram-se os cães.

Os músculos eram a fonte básica de vida. Os médicos recomendavam em particular que as pessoas caminhassem menos e gastassem este recurso de forma mais razoável, uma vez que não seriam capazes de o reconstruir. Em condições especiais, os trabalhadores do NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos), o pessoal do estado-maior de guerra, os principais quadros do partido e a maioria dos trabalhadores responsáveis recebiam provisões alimentares. Estas pessoas, claro, não conheciam a fome. Os membros do Partido tinham alguns privilégios. No entanto, para além de porções extra de sopa sem cartões de racionamento e de um ou dois cartões adicionais, esses privilégios não ultrapassavam a quota legal. Aqueles que tinham alguma ligação com o abastecimento, como um serviço de refeições em alguma instituição, saíam-se um pouco melhor. A alimentação de alguns membros muito necessários do pessoal técnico de engenharia era melhor. Eram obrigados a viver em instalações governamentais, onde eram alimentados em refeitórios especiais e recebiam alguma comida para levar consigo. No entanto, quando um dos engenheiros levou a mãe para partilhar a sua comida com ela, recebeu uma repreensão do director. A melhor alimentação destinava-se a garantir a sua máxima capacidade de trabalho. A mãe teve de ir directamente para casa, a fim de partilhar o destino comum da população.

No final de Novembro e início de Dezembro, os ataques aéreos alemães chegaram ao fim. Isso, ao que parecia, poderia facilitar a aplicação dos conselhos médicos sobre a economia de energia física. A população poderia dormir tranquilamente à noite; não seria necessário correr para os abrigos antiaéreos nem apagar incêndios. No entanto, em vez dos bombardeamentos que tinham esgotado as suas forças físicas, a vida assumiu algo de novo e mais árduo. Em primeiro lugar, os eléctricos tinham deixado completamente de circular na cidade. Enquanto pela calçada se movia uma sucessão de trenós com cadáveres, nas calçadas, e por vezes nas ruas, havia um grande número de pessoas a caminhar, uma vez que careciam de qualquer outro meio de transporte. Para onde quer que se fosse, era preciso ir a pé: para o trabalho, para fazer recados diversos, simplesmente para visitar as casas das pessoas vizinhas. Todos tinham de fazer um esforço colossal e gastar uma quantidade extraordinária de energia. Uma grande desgraça foi o início do frio, e mais tarde o frio extremo do Inverno, chegando a 50 graus negativos.

Todos os esforços para salvar o sistema de água foram em vão, e toda a população da cidade começou a dirigir-se às bombas próximas que ainda estavam em funcionamento. Durante muito tempo, um buraco aberto na rua por um projétil de artilharia, a oito ou dez minutos a pé da nossa casa, salvou-me. Havia sempre água ali, que as pessoas dos apartamentos próximos vinham buscar. Muitas pessoas, não tendo uma bomba na vizinhança, nem buracos na rua, tiveram de percorrer longas distâncias, por vezes até ao rio, para ir buscar água. O problema da casa de banho foi resolvido despejando tudo na neve nos quintais.

Era impossível aquecer esses quartos. Era preciso dormir vestido, vestindo todas as peças de roupa disponíveis para se manter aquecido. Devido ao frio e à falta de água, muitas pessoas deixaram completamente de se lavar. Cozinhas e quartos de hóspedes irremediavelmente gelados foram transformados em locais de armazenamento. Aqui, frequentemente, eram construídas casas de banho. Uma circunstância extremamente difícil era a completa falta de luz eléctrica. Pequenas lâmpadas fumegantes da época da guerra civil lançavam luz apenas suficiente para permitir que alguém se movimentasse pela sala.

Entretanto, em Leninegrado, no final de Dezembro e em Janeiro, a situação assumiu um carácter catastrófico. O número diário de mortos disparou para entre 25.000 e 30.000. Possivelmente, para a parte da população que estava a morrer, esta foi a transição natural para o período crítico, com as suas consequências inevitáveis. As autoridades administrativas, literalmente sobrecarregadas pelo aumento da taxa de mortalidade, deram ordens para abrir os necrotérios. Estes surgiram nos pátios das casas de Leninegrado. Era escolhido um pátio de grandes dimensões para cada sete a dez casas, dependendo do número de residentes. Era afixado um cartaz e, através do administrador do prédio, era feita uma notificação adequada. Todos podiam agora levar os seus mortos para o necrotério. Para remover os cadáveres das ruas, foram atribuídos camiões, mas estes encontravam-se frequentemente em condições insatisfatórias. Era um trabalho difícil para os carregadores de camiões. Frequentemente, no meio das suas tarefas, caíam mortos e era necessário procurar substitutos. Em média, dez ou doze camiões carregados de cadáveres passavam pela nossa rua todos os dias. Nas ruas principais, o seu número era muito maior.

Embora a maioria das pessoas, independentemente do seu sofrimento, permanecesse notavelmente controlada, ocasionalmente ouvia-se falar de algum comportamento particularmente agressivo [ii]. Em meados de Dezembro, uma conhecida minha, uma senhora idosa, cuja filha estava num campo de concentração, saiu à rua, segurando o seu amado cão pela trela. O cão estava com ela há muito tempo. Antes que a senhora se apercebesse, vários homens lançaram-se sobre ela. Alguns queriam agarrar o cão; outros tentavam arrancar-lhe a trela da mão. Todos disputavam entre si, gritando: «o cão é meu.» Nesse momento, outros transeuntes chegaram a tempo de deter os agressores e afastá-los. A velha senhora regressou, agradecida, a casa com o cão, mas, mesmo assim, três ou quatro semanas depois, acabou por comer o próprio animal.

Aconselhava-se as pessoas a andarem com cuidado nas escadas escuras de madrugada. Ocorreram casos em que, partindo do princípio de que uma pessoa ia buscar pão, alguém lhe batia na cabeça e lhe roubava os cartões de racionamento. Normalmente, era necessário ter cuidado nessas escadas escuras depois de o pão ter sido adquirido. O pão tinha de ser transportado embrulhado e escondido. Por vezes, nas filas nas instalações da loja, os rapazes aventuravam-se a roubar o pão aos donos. Esperavam pelo momento certo e, então, cravavam os dentes num pedaço de pão nas mãos de alguém, tentando morder um pedaço. Por acaso, eu próprio observei uma cena dessas. A dona do pão em que o menino tinha cravado os dentes agarrou-o com grande violência pelo pescoço e não o deixava engolir; depois, a chorar, disse que tinha um menino como ele que estava a morrer em casa. Todas estas coisas eram excessos individuais, resultando num certo aumento da ilegalidade.

É possível até falar de novos tipos de «crime». Um deles era chamado de «esconder cadáveres». Ao manter o cadáver em casa durante cerca de uma semana e ocultar a morte, algumas pessoas conseguiam acumular pão suficiente no cartão do falecido para pagar a escavação da sepultura. Outras faziam-no para ficar com o pão e outros cartões de racionamento do falecido para uso pessoal. Conservar um cadáver nos apartamentos gelados daquela época não era tarefa difícil.

Eu conhecia uma funcionária civil que conseguiu esconder a sua tia morta durante quase um mês inteiro. Mais tarde, ela lamentou não ter feito o mesmo com a sua mãe, que tinha morrido dois ou três dias antes da tia. Mais tarde ainda, ela própria morreu, e um vizinho conseguiu escondê-la também durante cinco dias. Na prática, era difícil usar os cartões de uma pessoa morta por mais de doze ou catorze dias. Além disso, apenas uma pequena percentagem da população se dedicava a esta prática. Durante a segunda quinzena de Janeiro, dizia-se que a taxa de mortalidade tinha descido para 9.000 ou 10.000 por dia. Isto pode ter-se devido ao facto de as pessoas mais fracas já terem morrido ou, possivelmente, a uma alteração na qualidade do pão racionado. Seja como for, a melhoria das condições foi de curta duração. Uma nova desgraça abateu-se sobre a cidade. As fortes geadas e o estado geral de degradação dos edifícios da cidade levaram à paralisação do trabalho nas padarias da cidade e a maior parte das lojas ficou sem pão. Em algumas lojas onde o pão chegou, formaram-se filas enormes que se mantiveram desde o início da manhã até ao fim da tarde. Multidões de pessoas, após esperarem dez ou doze horas sob temperaturas geladas, saíram de mãos vazias. A falta de pão, juntamente com a exaustão extrema causada pela espera no frio, fez com que a taxa de mortalidade disparasse de imediato para o valor anterior de 25.000 a 30.000. Algumas pessoas morreram na fila; muitas morreram nas ruas, depois de correrem desesperadamente de loja em loja para perguntar se havia alguma esperança de uma entrega de pão.

No início de 1942, ocorreram alguns acontecimentos que foram muito embaraçosos para as autoridades militares e civis da cidade. Multidões de pessoas que estavam na fila assaltaram várias padarias. Mais impactante do que a pilhagem de algumas mercearias, considerando as condições particulares da vida soviética, foi um acontecimento de significado político. Duas organizações de mulheres (Trabalhadoras da Engenharia Técnica) uniram-se e apresentaram uma petição na qual solicitavam, em nome das crianças moribundas, a rendição da cidade. Elas apontavam para a prática geral das relações internacionais e, especialmente, para o recente anúncio de que Paris seria declarada uma «cidade aberta». Se esta petição conseguiu chegar a algum representante de nível superior a Pyotr Popkov, o presidente do Soviete de Leninegrado, nunca vim a saber. Na cidade, a petição não causou grande impressão, embora muitas pessoas soubessem da sua existência. Algumas mulheres trabalhadoras do Partido chegaram mesmo a discutir o assunto comigo, apesar de eu não ser membro do Partido e, o que é mais surpreendente, não condenaram as mulheres que tinham redigido a petição.”

A brutalidade do sofrimento humano do cerco de Leninegrado – um milhão e meio de mortos – não é qualitativamente diferente dos muitos genocídios coloniais e imperiais entre o século XVI e o século XX: os vários genocídios de povos originários das Américas e de África pelos colonizadores europeus e seus descendentes, o genocídio do povo herero e nama da Namíbia pelo Império Alemão entre 1904 e1908, o genocídio do povo arménio entre 1915-1923 pelo Império Otomano, o genocídio do povo judeu pela Alemanha Nazi, o genocídio do povo tutsi pela elite hútu no Ruanda em 1994, genocídio dos bósnios muçulmanos pelas forças sérvias entre 1992 e 1995 e o genocídio do povo rohingya pelo exército e polícia de Mianmar ao longo das duas últimas décadas.

O que distingue Leninegrado é a forma-cerco levada ao extremo. A mesma forma-cerco está em curso, de modos diferentes, na Palestina e em Cuba. Apesar do seu extremismo, o cerco de Leninegrado foi repelido e estou confiante que mais tarde ou mais cedo será também repelido na Palestina e em Cuba. Para isso é fundamental a solidariedade internacional.

Se Cuba e Palestina não romperem o cerco, seremos todos nós os derrotados, acordando tarde demais para o facto de que o cerco à volta da Palestina e de Cuba está já germinando à nossa volta, multiplicando-se, qual Hidra de Lerna, graças à nossa passividade. Começa a ser tarde demais para a intervenção de Hércules!

Cuba vencerá! Palestina vencerá!


NOTAS

[i] Trata-se da tradução reduzida de dois capítulos do livro do autor, Osada Leningrad, N. Y., Chekhov Publishing House, 1952. Esta descrição tem as suas limitações, sobretudo tendo em vista a documentação oficial e de arquivo diarista que veio a lume posteriormente. Torna a história do cerco ainda mais dramática. Consultar sobre esta bibliografia Sarah Gruszka, «L’historiographie du siège de Leningrad», Revue des études slaves, Vol. 83:1, 2012, pp. 269-281.

[ii] À luz do que escreve Gruszka, op. cit., houve muita criminalidade e alguma bem grave. É o caso de canibalismo e do comércio de carne humana. Estes crimes eram severamente punidos. A punição de crimes políticos foi igualmente severa.

Fonte aqui

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