A guerra económica contra Gaza

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 23/05/2018)

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Mais de cem palestinianos foram assassinados pelas forças armadas israelitas nas últimas semanas junto à fronteira entre Gaza e Israel em circunstâncias em que não representavam qualquer ameaça. É imensamente trágico que um Estado que resultou de uma das maiores, se não a maior tragédia do século XX – o Holocausto – seja hoje o perpetrador de quotidianas violações de direitos humanos, assentes numa cultura de superioridade racial e desumanização dos palestinianos.

Não é possível ouvir responsáveis israelitas a justificar os assassinatos com o argumento que ‘não conseguimos pôr todos os manifestantes na cadeia’ sem escutar ecos do passado e sentir um calafrio na espinha.

Porém, a violência da ocupação israelita não se limita àquela que é directamente perpetrada pelas forças armadas. Igualmente terríveis, imorais e ilegais – à luz do direito internacional – são os constrangimentos exercidos sobre a viabilidade dos territórios ocupados palestinianos. O caso de Gaza, que é um verdadeiro campo de concentração a céu aberto, não é único, mas é o mais chocante. A grande maioria dos seus dois milhões de habitantes não pode entrar ou sair do território, cuja área é semelhante ao concelho de Sintra, em resultado do fecho das fronteiras terrestres e do bloqueio marítimo e aéreo israelita. Esse mesmo bloqueio, imposto por Israel desde 2007, implica igualmente que as perspectivas de viabilidade económica e social do território sejam inexistentes.

Israel limita enormemente a entrada e saída de bens, incluindo a importação de materiais de construção, alimentos e até medicamentos. As exportações também cessaram praticamente após 2007. Segundo uma estimativa do Banco Mundial, o PIB do território caiu mais de 50% em resultado do bloqueio. A indústria anteriormente existente foi dizimada. A taxa de desemprego, de mais de 40%, é a mais alta do mundo. Cerca de 40% da população, três vezes mais do que na Cisjordânia, vivem em situação de pobreza. Estes não são problemas de subdesenvolvimento, mas de ‘des-desenvolvimento’ deliberadamente imposto por Israel, para usar o termo de um relatório das Nações Unidas.

Imagine o que é viver sem acesso a energia durante mais de vinte horas por dia durante anos em resultado do racionamento de combustível por parte de uma potência ocupante. Imagine uma situação em que apenas 10% da população têm acesso a água potável em condições de segurança. Imagine um território em que os pescadores são alvejados pela potência ocupante quando se afastam mais de 5km da costa para tentarem aceder a zonas de pesca menos exauridas. Em que, segundo um estudo da Organização Mundial da Saúde, 65% dos bebés com menos de um ano sofrem de anemia.

A situação que se vive em Gaza, perante a ignorância ou indiferença da maior parte do planeta, é a de um território sujeito a uma guerra económica que constitui, na descrição do Comité Internacional da Cruz Vermelha, uma forma de punição colectiva. O relator especial das Nações Unidas para a situação dos direitos humanos nos territórios ocupados caracterizou o bloqueio israelita como um crime contra a humanidade, para além de uma violação reiterada do direito internacional. Nos anos ’80 do século passado, o apartheid sul-africano pôde ser desmantelado em grande medida graças às sanções internacionais e ao boicote dos cidadãos de todo o mundo. Hoje, devemos todos mobilizar-nos para corrigir esta outra mancha na consciência da humanidade.

O governo de Israel insulta a história dos judeus 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 11/04/2018)

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Daniel Oliveira

 

Desde 30 de março que os palestinianos de Gaza celebram, com protestos, o Dia da Terra Palestiniana. Fazem-no junto a uma fronteira encerrada por um muro há décadas e que transforma aqueles 360 quilómetros quadrados com mais de dois milhões de humanos num enorme gueto. Podem ficar, pela sonoridade histórica que a palavra carrega, chocados. Mas a sonoridade histórica é absolutamente legítima. Há tantos elementos comuns, desde os raids punitivos ao confinamento étnico, passando pela arbitrariedade e desumanização do outro, que o paralelo é inevitável. A repressão israelita, em terra que juridicamente não é sua, já se saldou, em apenas uma semana, na morte de dezenas de palestinianos (não arrisco fixar um número aqui porque está sempre a aumentar).

A ordem do governo para as Forças Armadas israelitas é clara: abater qualquer manifestante que se aproxime da vedação fronteiriça. Há apelos de organizações israelitas para que os soldados se recusem a disparar munições reais contra manifestantes. Para que recusem ser, em vez de soldados, homicidas. Mas Avigdor Lieberman, ministro da Defesa e líder da extrema-direita xenófoba israelita, já avisou que a matança de quem se aproxime da fronteira é para continuar. Porque para uma parte das lideranças israelitas os árabes são uma subespécie a quem não faz sentido conferir qualquer tipo de humanidade.

Mas não é apenas na desumanização do outro e na criação de espaços confinados para tornar a repressão coletiva de todo um povo mais eficaz que o governo israelita vai buscar reminiscências do passado. Pela sua proximidade, Israel tem sido, como muitos países europeus, destino de milhares de refugiados em fuga dos conflitos no Darfur, Sudão do Sul e Eritreia. Cerca de 40 mil pessoas conseguiram atravessar o deserto do Sinai cruzando a fronteira entre o Egito e Israel. Todos os que passam esta fronteira são capturados e internados em campos de detenção no deserto onde ficam cerca de um ano, acusados de entrada ilegal. Desde 2012 que Israel construiu um muro entre Israel e o Egito semelhante ao desejado por Trump. Como recorda Patrícia Fonseca, num bom texto publicado na Visão, este é o mesmo deserto que Moisés terá atravessado, conduzindo os judeus que fugiam da escravidão. A história está mesmo cheia de ironias.

Como a maioria dos “infiltrados” – são assim chamados os imigrantes não-judeus – são cristãos em fuga do fundamentalismo islamista, o seu estatuto de refugiado é recusado. Para ser refugiado em Israel é preciso ter a religião certa, mesmo que tal restrição viole as normas internacionais. Nos últimos dez anos foi concedido asilo a dez refugiados. É a taxa mais baixa do mundo. E a forma para lidar com o problema foi explicada por Eli Yishai, ministro do Interior e líder do um partido ultraortodoxo, em 2012: “Até conseguir ter a possibilidade de os deportar, vou prendê-los e tornar as suas vidas miseráveis”. Só depois de enorme pressão internacional e de grandes manifestações em Telavive é que Netanyahu recuou e aceitou, pela primeira vez na história de Israel, a integração de imigrantes não-judeus. Mas este acordo com a ONU, que partilhava o esforço com outros países, durou 24 horas. Perante a pressão da extrema-direita de que depende, Netanyahu acabou por recuar. “Hoje são 60 mil, amanhã já tiveram filhos e netos e são 600 mil”, disse o primeiro-ministro, temendo a “absorção” da cultura israelita. Tem ou não tem uma sonoridade familiar?

Cada vez que alguém critica as políticas do Estado de Israel é imediatamente acusado de antissemitismo. O insulto não é mais do que uma chantagem. Uma exigência de um cheque em branco. Uma suspeita que nos pretende fazer a todos de reféns, tornando Israel no único Estado inimputável no mundo. Eu, descendente próximo de judeus, que não faço concessões a qualquer tipo de discurso antissemita, tenho sobre muitos dos que usam a acusação de antissemitismo para criminalizar qualquer critica ao governo de Israel uma vantagem: a coerência. Não escrevo nem digo sobre os judeus o que não escrevo e não digo sobre os cristãos ou os muçulmanos. Poderei ser cáustico com a Igreja Católica, atacar as ditaduras laicas ou as teocracias muçulmanas e ser crítico em relação ao Estado israelita. Nunca confundo isso com generalizações sobre qualquer religião ou povo. Ao contrário de todos os que se lembram do martírio do povo judeu mas ignoram, no seu racismo seletivo, o que aconteceu aos ciganos no Holocausto ou repetem sobre os muçulmanos o mesmo tipo de generalizações que fizeram crescer o antissemitismo na Europa. Não sendo seletivo, tenho sobre os que usam os judeus como instrumento de outros racismos a vantagem de nada ter de lhes responder. São os islamofóbicos e os racistas de todo o tipo que se aproximam da semente que alimentou o antissemitismo, não são aqueles que recusam todas as formas de discriminação e ódio religioso ou racial. Eu não escolho povos para amar e odiar.

As críticas que faço aos governos do Estado de Israel não nascem de ideias feitas. Estive várias vezes em Israel, na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em vários campos de refugiados palestinianos nos países vizinhos. Sei da revolta que nos toma as entranhas. E sei das contradições de tudo o que ali se vê. Como a sociedade israelita guarda ainda um pouco, cada vez menos, do espírito comunitarista que fez nascer aquela nação. De como a corrupção corroeu as entranhas da sociedade palestiniana. E de como uma e outra estão doentes de tanta dor e guerra. Não reduzo, essa é a base do sentimento antirracista, este conflito a um combate entre o bem e o mal, entre agressores naturais e vítimas naturais. Mas isso não me impede de distinguir o certo do errado. E saber que ali, agora, há décadas, há um ocupante e um ocupado, um prisioneiro e um carrasco. E que Israel já não é a casa segura que prometeu ser, é um campo de exclusão, onde os kibutzim deram lugar aos colonatos, o sionismo progressista deu lugar à xenofobia mais descarada, os democratas deram lugar aos militares, os laicos deram lugar aos fanáticos religiosos. Israel está doente, profundamente doente.

É impossível lembrar Aristides de Sousa Mendes e associa-lo a um ministro que diz que vai prender o refugiados cristãos em fuga do terror islamista e tornar as suas vidas tão infernais que acabarão por querer ir embora. É impossível associar os resistentes judeus contra o antissemetismo dos anos 30 àqueles que penduram panos na marginar de Telavive onde se lê “africanos, voltem para a vossa terra” e a um primeiro-ministro que avisa para os riscos da absorção por outras culturas se continuarem a deixar entrar cristãos africanos no país.

É impossível associar o sonho sionista a um Estado que aceita qualquer judeu mas fecha a porta a quem foge do terror e da morte se tiver outra religião. É impossível associar o ministro Lieberman, que manda os soldados israelitas atirar a matar sobre qualquer palestiniano de Gaza que se aproxime da fronteira israelita com os que, no gueto de Varsóvia, se ergueram numa luta heróica e suicida pela sua dignidade.

É impossível associar a luta de milhões de judeus contra a discriminação aos líderes políticos que construíram o gueto de Gaza e repetem as mestas tácticas do passado para manter a ordem e assim garantirem o “seu espaço vital”. E é difícil compreender um Estado judeu que ergue um muro no Sinai para impedir a passagem de quem foge do Egito e procura a salvação na Terra Santa.

A banalidade do mal não escolhe raças, povos ou religiões. Basta a impunidade estar assegurada, a máquina de terror estar montada e a desumanização do outro ser assimilada por todos para tudo ser possível. E é por isso que, apesar de toda a chantagem retórica, são os que apoiam o governo criminoso de Israel que mais se aproximam da cultura antissemita do passado e do presente. Os herdeiros dos que resistiram são os que repetem o óbvio: as vítimas e os carrascos não têm cor, religião ou nacionalidade predeterminada. Resultam uns e outros do espaço que tenha sido dado à arbitrariedade. E honrar a memória do sonho sionista, honrar a memória do martírio do povo judeu, é honrar os princípios que nos levam a reconhecer um criminoso quando ele está à nossa frente, sejam quais forem os credos dos assassinos e das vítimas. Não é ser cristão, muçulmano ou judeu que faz de alguém vítima ou agressor. É, através dos seus atos e das suas penas, ser vítima ou agressor.

Uma “Anne Frank” Palestiniana?

(Dieter Dillinger, 22/02/2018)

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A pequenita palestiniana de 16 anos Ahed Tamimi deu uma bofetada num soldado israelita poderosamente armado e protegido com colete balístico e capacete Kevlar. O jovem soldado não reagiu mal e até sorriu. Segundo algumas testemunhas ele até teria dito: se me dás outra bofetada ainda caso contigo.

Mas a cena foi fotografada e passou para os tenebrosos serviços secretos que comandam certas unidades militares quase ao modo Gestapo/SS que os judeus israelitas deveria saber como funcionavam e não repetir.

Em Dezembro passado foram à casa da menina e algemá-la para levarem para a tenebrosa prisão/campo de concentração israelita em que dizem terem entrado mais de 10 mil palestinianos e só saíram uns mil, não se sabendo se estão lá 9 mil ou apenas uns dois mil ou menos. Aquilo, dizem os palestinianos, é o “Auschwitz” israelita. Exagerado em número, mas não tanto na proporção das reduzidas populações do pouco que resta da Palestina toda retalhada e ocupada por colonatos e até de Israel.

De resto a menina vivia numa aldeia perto de Ramalah, a capital da Palestina, e protestava contra a ocupação altamente provocatória por parte dos Judeus Israelitas que tiraram o poço de água, cercando-o de arame farpado.

Enquanto o jovem soldado israelita percebeu que qualquer reação brutal seria péssima para a causa israelita e benéfica para a palestiniana, os juízes militares judeus não entenderam assim a estão fazer um processo que pode levar a pequena Tamimi a passar anos presa naquela horroroso campo de concentração tipo nazi.

Há dias, Ahed Tamimi fez 17 anos. Pois recebeu congratulações de todo o mundo, incluindo de muitos jovens israelitas e judeus de todo mundo, principalmente dos EUA.

Naturalmente que se tornou uma heroína da causa do povo palestiniano esquecido de todo o mundo, uma espécie de pequena Joana de Arc. Já foi condecorada pelo presidente da Turquia sem que tenha sido possível entregar-lhe a condecoração.

A menina de cabelo encaracolado e loiro quase ruivo podia ser uma israelita se tivesse nascido do outro lado da fronteira ou europeia ou americana.

A secreta israelita investigou e a palestiniana também, concluindo-se que era mesmo natural da palestina e a cena não foi inventada nem a menina nunca fez teatro. Ela estava verdadeiramente em fúria com os ocupantes da sua aldeia que lhe tinham tirado a água e obrigado aquele pequeno povo a ir buscar o precioso líquido a Ramalah.

Os juízes israelitas e os governantes mostraram serem muito mais estúpidos que o jovem soldado de 19 anos. Enquanto mantêm a menina no seu “Auschwitz” estão mais uma vez a contribuir para o repúdio mundial de Israel.

Libertem-na, levam-na para casa, junto da sua família, e deixem-se de serem estúpidos, pelos menos durante uma meia hora. Não queiram fazer da pequenita Ahed Tamimi uma “Anne Frank” palestiniana.