Ali Bábá e os Sessenta Coirões

(Luís Rocha, in Facebook, 11/09/2026, Revisão da Estátua)


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Há uma coisa que tenho de reconhecer ao Coiso. É um partido extremamente trabalhador. Trabalha muito para produzir absolutamente nada. É assim uma espécie de máquina de lavar roupa avariada. Faz um barulho dos diabos, abana a casa inteira, aquece que se farta, mas a roupa sai exatamente como entrou.

A última demonstração desta admirável capacidade produtiva foi a moção de censura ao Governo. O Coiso foi ao Parlamento para derrubar Montenegro com aquele entusiasmo de quem vai finalmente conquistar a Europa, quando na realidade tinha mais ou menos a mesma capacidade militar de uma associação recreativa de Alguidares de Baixo.

O sacristão de Mem Martins apareceu com ar de pequeno Napoleão, provavelmente já a imaginar a estátua no Rossio, seguido pela brigada de coirões parlamentares, todos afinados para berrar “demissão!”. E berraram. Berraram com convicção. Berraram com pulmão. Berraram como se o volume da voz tivesse alguma relação com o número de votos.

Não tinha. Para derrubar um Governo são precisos votos. E o Coiso tinha 60. Exatamente cinco dúzias.

A moção teve 60 votos a favor, 104 contra e 62 abstenções. Os 60 votos favoráveis foram precisamente os 60 deputados do Coiso. Não conseguiram convencer mais ninguém. Nem um. Foi uma coisa bonita de se ver, porque revelou finalmente a verdadeira dimensão parlamentar da revolução dos ruminantes. Cabia toda dentro do próprio redil.

Imagino que tenha havido um momento, depois da votação, em que alguém perguntou: “Então e agora?” E outro respondeu: “Agora dizemos que ganhámos.”

É assim que funciona a política coirona quando tem um problema com a realidade. A realidade diz “perderam”. A propaganda responde “vitória histórica”. E pronto. Problema resolvido.

O Coiso apresentou uma moção para demonstrar que o Governo estava isolado e descobriu que quem estava sozinho era ele. É uma espécie de ironia que normalmente exigiria um argumentista de comédia, mas que a política portuguesa oferece gratuitamente.

E eu até consigo perceber a irritação.

Se eu fosse dirigente de um partido de extrema-direita que tivesse uma relação particularmente pouco calorosa com o diretor da Polícia Judiciária, sobretudo depois da PJ ter estado envolvida no desmantelamento de organizações extremistas e neonazis, também não seria propriamente fã do homem.

Se passasse os dias a falar de imigração e criminalidade como quem vende rifas à porta da igreja e depois aparecesse a Polícia Judiciária a apresentar números que não confirmavam parte da narrativa, também começaria a sentir que aquele diretor tinha qualquer coisa contra a minha carreira política.

E se, pelo meio, tivesse inventado a história de um alegado assalto ao meu gabinete que estivesse a levantar uma quantidade considerável de perguntas, também perceberia a necessidade de arranjar rapidamente outro assunto.

É aqui que entra a moção.

Porque quando não se tem uma política económica convincente, fala-se de imigrantes. Quando não se tem uma política para a saúde, fala-se de criminosos. Quando não se tem uma política para a habitação, fala-se de identidade nacional. E quando não se tem capacidade para fazer coisa nenhuma, faz-se uma moção de censura.

É uma atividade política semelhante à de um homem que passa a tarde inteira a afiar uma faca e depois descobre que não tem pão.

Mas o melhor veio depois.

A moção foi chumbada, Montenegro continuou primeiro-ministro, Luís Neves continuou ministro e o Governo continuou no mesmo sítio. E, enquanto o Coiso se preparava para celebrar mais uma batalha imaginária contra o sistema, Montenegro aproveitou o debate para anunciar cerca de 800 milhões de euros em medidas para pensionistas e contribuintes.

É preciso ter azar.

Os homens foram ao Parlamento tentar matar politicamente o Governo e acabaram por servir-lhe de palco para anunciar medidas popularuchas.

São uma espécie de motorista de Uber paquistanês da política. Levam os adversários exatamente onde eles querem chegar.

E depois há a parte mais divertida, que é a explicação da vitória.

Porque o Coiso nunca perde. Pode perder eleições, votações, moções, argumentos, aliados e até o contacto com a realidade, mas perder nunca. Aquilo é uma máquina de reciclagem de derrotas. Entra uma derrota e sai uma “vitória política”.

Se tiverem 60 votos e os outros 166 não votarem com eles, é porque “marcaram a agenda”. Se ninguém os acompanha, é porque “não precisam de outros partidos”. Se a moção é chumbada, é porque “o sistema está borradinho de medo”.

É uma forma extraordinariamente confortável de fazer política. Não é preciso ganhar. Basta explicar muito bem porque é que perder é, afinal, uma maneira sofisticada de ganhar.

E talvez seja esse o verdadeiro problema do Coiso. Aquilo não parece um partido político. Parece uma sessão coletiva de autossatisfação.

Muito movimento. Muito entusiasmo. Muito suor. Muito berro. Muito “demissão!”. E no fim, quando se olha para os resultados, Portugal continua exatamente onde estava.

É o equivalente político de alguém passar dois minutos a fazer flexões diante do espelho e depois pedir aos outros que admirem a transformação. Não há transformação nenhuma. Há apenas o espelho. Mas o problema é que Portugal não está no espelho. Está cá fora. Que maçada.

Uma pessoa prepara uma revolução, compra os foguetes, ensaia os discursos, afina os coirões, veste-se de Napoleão e depois chega ao fim do dia e descobre que continua tudo igual.

Há dias em que a democracia consegue ser mesmo cruel. Principalmente para quem ainda não percebeu que gritar “demissão” não é o mesmo que ter capacidade intelectual para fazer alguma coisa de benéfico pela nação.

Mas pronto. Na próxima semana haverá outra coisa qualquer para berrar. Que nunca lhes dê uma amigdalite, coitadinhos…

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas:

https://www.parlamento.pt/Fiscalizacao/Paginas/Mocoes.aspx

https://www.parlamento.pt

https://www.rtp.pt

https://www.dn.pt

https://www.jn.pt

https://portugal.gov.pt

https://portugal.gov.pt/…/governo-anuncia-suplemento…

https://elpais.com/…/el-parlamento-portugues-rechaza-la…

Ladrão que grita “agarra que é ladrão!”

(António Garcia Pereira, in NoticiasOnline, 09/09/2026)

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Ao longo das últimas semanas veio-me inevitavelmente à memória algo que todos conhecemos: a velha história, e a expressão que a retrata, do ladrão que, vendo-se descoberto, procura desesperadamente desviar de si as atenções e escapar à prisão, apontando para outrem e gritando aos quatro ventos “agarra que é ladrão!”…

Na verdade, o chamado “caso Luís Neves”, numa fogueira diariamente atiçada pelo Chega e por André Ventura (cada vez mais uma e a mesma coisa) e pelos agentes e órgãos da comunicação social propriedade do empresário Mário Ferreira (em julgamento por fraude fiscal na compra e venda do navio “Atlântida”[1]), praticamente nada tem a ver com a discussão, as críticas e o apuramento de responsabilidades políticas e éticas. Tem antes servido dois objectivos essenciais: por um lado, a vingança por parte de quem se sente atingido por denúncias e, sobretudo, por investigações que os atingiram directamente e pelas quais consideram responsável o ex-Director Nacional da Polícia Judiciária (da evidenciação das próximas e promíscuas ligações entre o Chega e organizações neo-nazis, como o 1143 de Mário Machado, no caso de Ventura; e do apuramento dos contornos da negociata com o dito navio ferry e que justificaram uma acusação pelo Ministério Público e uma ida a julgamento, no caso de Mário Ferreira).

Quer isto dizer que a conduta de Luís Neves enquanto Director Nacional da PJ (altura em que – não o esquecemos – chegou a apodar os Advogados de arguidos de fazerem “terrorismo judiciário”…) foi, em particular nas situações que vieram entretanto a público, inteiramente correcta e isenta de críticas? Não, de todo! Como, aliás, o próprio já teve de reconhecer, ele foi, no mínimo, imprudente ao atribuir a realização de obras de carácter pessoal a alguém que tinha contratos com a PJ, ao fazer alterações numa propriedade familiar sem observar os adequados procedimentos administrativos e ao encomendar serviços e efectuar pagamentos numa informalidade que, embora possa ser relativamente comum, não deixa de ser irregular e incorrecta.

Mais grave ainda do que isso se me afigura a adopção dessa informalidade quando se trata de acções da própria PJ, como é o caso do já célebre atrelado que transportava produtos químicos (e que a especulação política e jornalística até já transforma em “drogas”)!? E mais grave ainda se afigura pretender justificar condutas erradas com a invocação da prática habitual e até de uma cultura organizacional da “informalidade”. Sobretudo em processos-crime e em casos em que estão em causa direitos fundamentais dos cidadãos, como o direito à liberdade, ao bom nome e reputação e à defesa, as chamadas “formalidades” são uma exigência e uma imposição do Estado de Direito democrático, precisamente para salvaguarda daqueles direitos fundamentais.

Porém, sobre estas matérias, há dois outros pontos essenciais que a gritaria do Chega e a fervorosa manipulação de alguma imprensa não podem fazer esquecer. Por um lado, e pelos dados que até agora se conhecem, parece inegável que não houve benefícios para ninguém, desde logo para o próprio, nem danos para ninguém, muito menos para o Estado. Por outro, e mais importante ainda, a existência de ilícitos criminais ou de nulidades ou irregularidades administrativas deve ser apurada, declarada e, se for o caso, objecto de condenação na sede própria e pelas entidades legal e constitucionalmente competentes (autoridades judiciárias e Tribunais), e não pelas gritarias de Ventura ou pelas bombásticas notícias de abertura de telejornais.

Acresce que o princípio da presunção de inocência em matéria criminal – que Ventura tanto se empenha em invocar quando se trata seja dos casos de abusos, agressões, torturas ou homicídios cometidos por agentes policiais, seja dos casos de furtos de malas, crimes sexuais, inclusive contra menores, ou ilícitos de natureza económica ou financeira em que têm estado envolvidos dezenas de elementos e dirigentes do Chega – é para aplicar a toda a gente e não apenas àqueles de quem se goste.

Crítica social e política, firme, até dura, devidamente fundamentada, sim. Operações de homicídio de carácter, ainda por cima frequentemente levadas a cabo com a prestimosa ajuda de órgãos e agentes não apenas da chamada Comunicação Social como até da própria Justiça, não, de todo, seja quem for o visado!

Porém, o que também não pode passar em claro é que toda esta intensíssima campanha propagandística – na qual, aliás, e muito significativamente, o Chega gasta milhões (que ninguém quer investigar…) em cartazes de rua – tem feito esquecer ou, pelo menos, passar para secundaríssimo plano os gravíssimos problemas com que o Povo português se continua a ver diariamente confrontado.

E nisso toda esta frenética campanha acaba por beneficiar quer o Chega, quer o Governo PSD/CDS.

Quanto ao Chega, antes de mais, deixou de se falar nos casos criminais que assolam as respectivas fileiras, um dos mais recentes dos quais terá sido a confirmação da condenação do seu dirigente nacional Pedro Frazão por difamação agravada. Mas, sobretudo, deixou de se falar na história do alegado assalto ao Gabinete do Chega no Parlamento. Um estranhíssimo (chamemos-lhe, por agora, assim…) assalto em que os seus autores, para roubarem uma pen e uns documentos com informações ditas confidenciais, que estariam à vista sobre a secretária mais próxima da porta, deixada aberta, teriam afinal virado o gabinete do avesso e deitado tudo ao chão (uma “operação” que seguramente demoraria mais tempo e faria muito mais ruído do que o necessário). A isto acresce o singular pormenor, que todos decerto retivemos, de a imagem de Nossa Senhora e o terço nela colocado terem permanecido miraculosamente intactos. E ainda o facto de um deputado do Chega ter entrado no gabinete, contra a mais que lógica indicação das autoridades, contaminando assim todos os elementos de prova ali eventualmente existentes, para efectuar uma filmagem do dito “assalto” e logo a colocar nas redes sociais.

Ora, aqui, para mais tratando-se de um suposto assalto ao Gabinete de um grupo parlamentar no interior de um órgão de soberania, a mais básica exigência democrática (de que Ventura agora evidencia não querer sequer ouvir falar) é a de que a respectiva investigação seja levada até ao fim, célere e eficazmente. Até para evitar que o Ministério Público (o mesmo que nada viu de xenófobo, discriminatório ou de incitamento ao ódio nos cartazes racistas da Campanha presidencial de André Ventura) acabe a arquivar o caso com o infelizmente já habitual argumento de que “não se lograram apurar indícios suficientes da prática de crime ou dos seus autores”. E isto quando está há 11 meses a arrastar no Tribunal Constitucional o procedimento relativo à extinção do Chega por este ser, como inequivocamente é, uma organização racista e que perfilha a ideologia fascista.

Por outro lado, a verdade é que, no campo da Saúde, as urgências continuam a encerrar e os auxílios de emergência continuam a tardar. O Governo já desistiu do objectivo de assegurar médico de família ao milhão e seiscentos mil portugueses que continuam sem o ter. Também os tempos de espera nos hospitais, quer para atendimentos urgentes, quer para consultas ou actos cirúrgicos, são absolutamente revoltantes. O último caso noticiado foi o de um homem de 70 anos, doente crónico e com pulseira amarela, que demorou 36 horas a ser atendido no Hospital Amadora-Sintra!?

Mas quase ninguém fala sobre isto…

Na área da Educação, e depois do escândalo dos exames nacionais em Julho, soube-se que, a apenas uma semana do início das aulas, ainda havia 2.000 horários por preencher. Soube-se igualmente que os alunos portugueses regrediram 20 anos nos resultados do Relatório PISA, da OCDE, com descidas significativas na Matemática, nas Ciências e, sobretudo, na Leitura, numa demonstração exuberante de onde tem conduzido a degradação do sistema de ensino público, a destruição da carreira docente e o predomínio, para não dizer a ditadura, dos écrans no ensino e também na vida social em geral.

Mas também este autêntico desastre nacional quase deixou de ser debatido.

Por outro lado, enquanto as empresas de combustíveis, actuando à rédea solta e especulando com os preços do crude, embolsam ganhos gigantescos (por exemplo, os lucros da GALP subiram 44% no 1.º semestre de 2026, atingindo os… 812 milhões de euros!), os portugueses vêem-se obrigados a pagar preços astronómicos pelos combustíveis, cerca de 30 cêntimos por litro acima dos praticados em Espanha. Daí resultam aumentos de custos nas suas actividades e no custo de vida em geral, com gravíssimos efeitos económicos e sociais. Mas também esta situação, e, sobretudo, a recusa do Governo em enfrentar os grandes potentados económicos do sector, tem passado praticamente em claro.

A Habitação (quer no arrendamento, inclusive de quartos para estudantes, quer na compra) atinge, por força da especulação imobiliária, da ausência de políticas de municipalização de solos e de reserva de áreas nos PDM para a construção de habitação acessível, valores absolutamente incomportáveis para o cidadão comum e, em particular, para os jovens. Mas o Governo revela-se sobretudo preocupado em facilitar os despejos, que já estão a pôr na rua famílias inteiras e, acima de tudo, os velhos, os pobres e os vulneráveis.

Porém, nada disto parece preocupar os políticos mais inflamados e os jornalistas ditos de investigação, alguns deles particularmente empenhados em andar com a polícia atrás dos maltratados e sobreexplorados imigrantes.

E na Justiça, seguindo aqui também uma lógica demagógica, a dos membros da Comissão promotora da “Reforma” (da qual os Advogados foram significativamente excluídos), no sentido de que os males da Justiça se devem a um pretenso “excesso de garantismo” dos cidadãos e à intervenção processual dos seus Advogados, foi aprovada e, a partir de 1 de Setembro de 2026, apressadamente colocada em vigor uma lei verdadeiramente temerosa, a Lei n.º 34/2026, de 27/07, que trata de alterar o Código de Processo Penal, o Código Penal e o Regulamento de Custas Processuais.

E o que faz essa lei, tal como já denunciaram ilustres Advogados, como o Dr. José António Barreiros, o Dr. Rui Silva Leal, o Dr. Miguel Páris de Vasconcelos, o Dr. António Jaime Martins (Presidente do Conselho Superior da Ordem dos Advogados) e o Dr. Telmo Semião (Presidente do Conselho Regional de Lisboa), iguala, senão mesmo ultrapassa, as soluções legais do tempo do fascismo.

Assim, entre outras barbaridades de autêntico retrocesso civilizacional, e sempre sob a alegação da celeridade, a lei alarga os chamados processos abreviados a crimes graves, como o homicídio, reduzindo o tempo de que o cidadão acusado dispõe para se defender. Antecipa ainda para antes da audiência a apreciação e decisão dos requerimentos de prova, permitindo a sua rejeição liminar. Mais grave do que tudo, prevê que, se o Juiz considerar abusivo ou dilatório um requerimento ou uma tomada de posição da parte, possam ser aplicadas multas até 10.200€ aos cidadãos que são partes nos processos, multas essas que os mais ricos continuarão a poder pagar, mas que levarão todos os outros a recear reagir perante decisões que considerem injustas ou ilegais. Além disso, a lei faz depender do pagamento dessas multas o prosseguimento de recursos e incidentes e possibilita, em caso de não pagamento imediato, o seu agravamento para 15.300€. Prevê ainda a participação disciplinar à Ordem contra o Advogado do cidadão em caso de segunda condenação deste.

É, em todo o seu esplendor, a velha concepção fascizante da Justiça: não como um direito fundamental dos cidadãos, mas como um Poder do Estado contra estes. É uma concepção que vê nos Advogados, na sua missão de defesa de quem representam e no combate permanente a todas as injustiças e iniquidades, um obstáculo a remover; que abomina a independência dos Advogados e do seu mandato; que confunde legitimidade com autoritarismo e que mistura propositadamente o impedimento pontual de eventuais abusos com a repressão do direito de defesa.

Trata-se assim do maior ataque dos últimos 50 anos à Justiça própria de um Estado que se proclama “de Direito democrático”, à advocacia livre e independente e, sobretudo, aos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.

Sobre tudo isto, porém, e salvo raras e honrosíssimas excepções (de que já antes citei alguns exemplos), reina o mais tumular e “conveniente” dos silêncios…

Por isso, aqui reafirmo: critique-se o que foi injusto e anti-ético; investigue-se e, se e quando provado, condene-se, em processo justo, o que foi ilegal. Mas não nos deixemos embalar em campanhas propagandísticas, quase sempre sustentadas em tão nebulosos quanto enormes apoios financeiros, levadas a cabo para que, enganando assim os incautos, quem é verdadeiramente “ladrão” (ou seja, responsável pelos problemas e situações existentes) consiga escapar precisamente por apontar para outros e se pôr aos gritos de “agarra que é ladrão!”.


[1] O navio “Atlântida” foi comprado em Setembro de 2014 pela empresa Mystic Cruises, de Mário Ferreira, para, dez meses depois, ser vendido por 11 milhões de euros à empresa ITW – International Winds, uma companhia sediada em Malta e gerida… pelo mesmo Mário Ferreira!

Fonte aqui

Deixemos trabalhar o Luís… embora nos arrependamos

(Carlos Esperança, in Facebook, 23/08/2026)

Informou o luminoso Sol, que o Luís veio em socorro de Nuno Melo, manifestando-lhe solidariedade no processo instaurado a “jornal online, André Ventura e Pedro Frazão”.

Interroguei-me sobre o que teriam dito o 4.º Pastorinho e o robusto líder parlamentar do Chega para enxofrarem o irascível Nuno Melo, líder do defunto CDS que o Luís levou a eleições para manter a marca AD. Afinal, lançaram suspeitas sobre o ministro da Defesa e o próprio CDS, sobre “negociatas” e “eventuais desvios de dinheiro” na compra das fragatas a Itália, com o insignificante custo de 3,9 mil milhões de euros!

Depois da compra dos submarinos por um ministro da Defesa, do CDS, com comissões de 1 milhão de euros, provadas na Alemanha, e cujo processo foi arquivado em 24 horas pela PGR Joana Marques Vidal, a dúvida percorreu todo o espetro político português, e Nuno Melo exigiu um pedido de desculpas ao partido com quem comunga ideias.

Para o atual CDS, o Chega é a sua referência ideológica. Por isso Nuno Melo se irritou, mas ao ver o Luís vir em sua defesa, com esta frase: «A lei e a decência pública deve-se [sic] aplicar a todos» não contive uma gargalhada, pelo autor, pela rudimentar gramática e pelo conteúdo. Nem o sorriso sonso e escarninho me irritou. O Luís tem um conflito tão insanável com a gramática, como com a ética.

Se algum leitor conhecer o Luís peço que lhe ensine a frase correta: «A lei e a decência pública devem-se aplicar a todos» ou mais elegante, seria exigir demais, «A lei e a decência pública devem aplicar-se a todos». Mas dito por ele, quem resistiria a uma boa gargalhada?

Quanto às fragatas, não é motivo para rir, é a herança que o Luís e o Nuno Melo deixam às gerações que começarem a pagar os juros e a amortizar o capital.

Se não fosse a gramática, se não me distraísse com a concordância gramatical, a pensar que a lei e a decência «devem» aplicar-se a todos, que a lei e a decência exigiriam que o verbo fosse conjugado na terceira pessoa do plural, se o autor da frase não fosse um singular calino, teria pensado que era uma confissão de arrependimento por um católico que foi a Fátima empunhar uma velinha na Procissão das Velas.

Se fosse uma confissão de arrependimento pelas violações da lei e da decência, não lhe faltaria um padre para o absolver depois da promessa de não mais pecar e de cumprida a penitência com a reza de um ato de contrição e uma novena.

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