O politicamente correto e a censura

(Carlos Esperança, 06/02/2018)

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Nunca deixei nem deixarei de combater os crimes, em especial os dos mais fortes contra os frágeis, dos ricos sobre os pobres, dos poderosos contra os fracos, sejam quais forem as vítimas, homens, mulheres, crianças ou velhos.

Há crimes que me repugnam particularmente, nomeadamente a violação e, dentro desta, a pedofilia. Dito isto, penso que chegou a hora de combater a onda moralista que, sob a capa do combate aos crimes sexuais contra as mulheres e à violência contra as minorias, ameaça subverter a civilização e coartar a liberdade individual.

Condenam-se prémios, livros, pinturas, músicas e filmes numa sanha persecutória que a Inquisição não desdenharia. E basta a denúncia para que o tribunal da opinião publicada amarre ao pelourinho da desonra os indigitados. E se forem culpados? Queimam-se-lhes os livros, rasgam-se as telas, apagam-se as gravações?

Um ator deixa de ser virtuoso por eventuais delitos? Um quadro de Picasso deixa de ser uma obra-prima pela conduta do génio para com as mulheres? Ezra Pound, um fascista, deixa de ser o maior poeta americano e um dos maiores do século XX? Temos de destruir as melhores interpretações de Beethoven ou Mozart, editadas pela Deutsche Grammophon, porque foram produzidas pela Filarmónica de Berlim, sob a regência do incorrigível nazi Herbert von Karajan?

No próximo dia 14 de julho não recordarei só a Queda da Bastilha, em 1789, lembrarei ainda o centenário do nascimento de Ingmar Bergman, independentemente da violência do emblemático episódio do passado europeu, a caminho da democracia, e da eventual predação sexual de um dos mais notáveis realizadores do cinema.

Há nesta vindicta do politicamente correto uma deriva pidesca e demencial que ameaça arrasar o ethos civilizacional herdado do Iluminismo. Quando as obras de arte e as mais emblemáticas criações da Humanidade ficarem sujeitas a critérios moralistas, temo pela criatividade e liberdade da civilização que hordas de moralistas não vacilam a afrontar.

Entreguem os criminosos aos tribunais e não se vinguem nas obras. Não permito que me privem dos filmes de Woody Allen, seja qual for o pretexto, qualquer que seja o crime de que o acusem.

Não se pode permitir que a moral interfira na criação e conceções estéticas. Muitos dos moralistas estariam hoje a fazer denúncias ao Santo Ofício, a assinalar judeus aos nazis, a acusar comunistas à Pide e a distribuir exemplares do Index Librorum Prohibitorum, só abolido em 14 de junho de 1966 pelo papa Paulo VI.

Censura, não.

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Quando se esquece Abril… regressam os fascistas

(Carlos Esperança, in Facebook, 26/01/2018)

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Quando a insensibilidade, a ignorância e a debilidade democráticas chegaram aos mais altos cargos do Estado, apagaram do calendário dos feriados, duas datas identitárias do povo que somos e da nação que temos, o 1.º de Dezembro e o 5 de Outubro.

Varridos os autores, sem honra nem glória, com militantes vexados com a ignomínia a que a solidariedade partidária os obrigou, não restava, a qualquer governo digno, outra alternativa que não fosse a reposição, como aconteceu.

Lamentavelmente, parece estar em curso o apagamento da data maior da Liberdade, em quase 9 séculos de História, o 25 de Abril. Exceto para os denegrir, os nomes de Melo Antunes, Vítor Alves, Carlos Fabião, Rosa Coutinho, Vítor Crespo, Salgueiro Maia, Costa Gomes, Marques Júnior, Costa Martins ou Vasco Gonçalves, para referir apenas alguns dos que faleceram, raramente são relembrados.

Quando só recordamos divergências e esquecemos aqueles a quem devemos a liberdade, deixamos de merecer a democracia, não faltando quem a queira derrubar.

Primeiro exoneraram da lapela os cravos, depois votaram ao esquecimento os heróis da Revolução e, finalmente, esperam que o tempo apague a carga ideológica para sepultar a data, os protagonistas e os sonhos de que foram portadores.

E nós, os que recebemos a liberdade, juntamos à ingratidão o desleixo, e desistimos de fazer a pedagogia cívica que devíamos, alheados do ruído destinado a minar as bases da democracia, à espera de um outro 28 de maio a que a desintegração da União Europeia, a acontecer, rapidamente nos conduz.

Um povo sem memória não perpetua um país, preenche um espaço sem identidade.

É por isso que amanhã, sábado, um grupo de fascistas, usando a liberdade que o sinistro ditador Salazar sempre negou aos adversários, vai prestar-lhe homenagem (ver notícia aqui). Os fascistas acabam por demonstrar a superioridade da democracia, mas os democratas não podem acreditar que a democracia é eterna.

Quanto mais me financias, mais gosto de ti

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 29/12/2017)

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João Quadros

Queria começar esta crónica desejando um magnífico ano de 2018 para todos os leitores, excluindo os que pertencem a partidos. A esses é escusado desejar porque já o garantiram. Isto foi a forma irónica – ou, segundo o spin partidário, populista – de fazer uma “piada” à recente lei do financiamento dos partidos.

Para começar, o facto de termos de acautelar um limite para as doações é uma espécie de confissão dos partidos – agarrem-me, senão eu roubo. Vou usar de todo o meu populismo para dizer que somos um país onde os políticos ganham pouco, mas gastam muito.

Podíamos estar aqui horas a falar da forma e conteúdo desta nova lei, mas estamos todos demasiado cansados das consoadas e das conversas em família. Das alterações à lei, a que me faz mais confusão é a isenção total de IVA para os partidos políticos, com efeitos retroactivos.

Vamos lá ver. Se os partidos acham que era injusto o IVA que pagaram em tempos e querem recebê-lo de volta, eu também quero receber o IVA que paguei a mais nos restaurantes no tempo da PAF. Este Governo já confirmou que era injusto. Isenção do IVA com efeitos retroactivos aos processos pendentes dá vontade de chorar, não fosse o IVA dos lenços.

Acho espectacular que se pague IVA de fraldas e que, a seguir, se façam comícios e as bandeiras não paguem IVA e nem para limpar o rabo servem. Segundo o que li, os partidos passam a ter IVA mais favorável do que as IPSS. Pelo menos, já dá para comprar verdadeira roupa de alta-costura.

O mais extraordinário do spin partidário é o querer reduzir a indignação de muitos a populismo, logo aqueles que todos os dias o usam. A forma de tentar anular uma indignação que, estranhamente, muitos sentem é tentar diminuir intelectualmente quem a tem. Não resulta porque somos nós que vamos votar em vocês. A verdade é que, talvez por isso, julguem que somos intelectualmente fraquinhos.

Tal como resulta mal as falsas virgens ofendidas. Ver Santana Lopes e Rui Rio ficarem chocados com esta lei é o tipo de lição de moral que não consigo aceitar. É como ver Maradona chocado com o doping no ciclismo.

Ou ver Assunção Cristas, agora, depois de meses e reuniões mais secretas do que aquelas a que vai o Nuno Magalhães na casa Mozart, vir dizer que saltou fora. Imagino que jamais o CDS vai aceitar devoluções e IVA, a não ser que venham em nome de um Jacinto Leite Capelo Rego. O CDS é o partido que fica do outro lado do muro a guardar enquanto os outros vão roubar as nêsperas, mas se aparece o dono diz que os outros foram às nêsperas.

Para acabar, o nosso sempre presente e opinativo Presidente Marcelo diz que não pode pronunciar-se “já” sobre as alterações à lei do financiamento dos partidos. Fico impressionado, até sobre o sentido da vida ele conseguiria falar mas, sobre isto, tem de meditar.

Termino como comecei, desejando um bom ano de 2018 para todos e uma excelente passagem de ano, mas deixo uma sugestão: depois desta lei do financiamento dos partidos, proponho trocar as cartolas compradas pela CML por auréolas para todos os portugueses. Bom ano.


TOP-5

Financiamentos

1. Costa faz as últimas compras de Natal no mercado de rua do Príncipe Real – Se estivesse na Raríssimas…

2. Braga. Dois anos e quatro meses de prisão efectiva por roubo de tablet – O Salgado roubou o equivalente a meia Apple.

3. Empregados de lar de idosos ganham 10 milhões na lotaria de Natal de Espanha – Lá vão os velhotes ficar sozinhos.

4. Doces e salgados proibidos nos hospitais – Só entra legionela.

5. Portugal perto de défice zero até Setembro – Vão distribuir dividendos por todos.