Os americanos e os russos, a nova grande aliança, foram derrotados este domingo na Hungria. Mas Sánchez percebeu que não é a política de apaziguamento que devolve a autoridade à Europa.
Numa daquelas conferências de imprensa circenses na Casa Branca, Trump, a criticar o primeiro-ministro britânico que se recusou a ser apoiante efusivo da guerra dos Estados Unidos contra o Irão, disse que Starmer “não era nenhum Churchill”.
Churchill é muitas vezes invocado ao pontapé e foi o caso. Em 1940, Churchill estava quase sozinho (com Anthony Eden, que se tinha demitido do governo quando percebeu que estava a vingar a opção apaziguadora com Hitler) no combate ao genocídio que o regime nazi levava a cabo contra os judeus e contra as ambições imperialistas de Hitler. Há um livrinho do historiador John Lukacs, Cinco Dias em Londres, que explica passo a passo todos os momentos dessa solidão e o milagre que foi travar a vitória do apaziguamento dentro do Governo britânico. O Reino Unido era bastante anti-semita, na época.
Na Europa, a única voz corajosa a opor-se ao genocídio que Israel está a travar em Gaza e à guerra de Trump e Netanyahu contra o Irão é Pedro Sánchez. Está sozinho: os líderes europeus podem não ter apoiado a guerra do Irão, mas cambalearam, hesitaram, não condenaram expressamente os Estados Unidos e esforçaram-se antes para pôr as culpas no Irão, por ter atacado, na sequência dos bombardeios americanos, outros países do Golfo.
Estamos a viver um grande momento de miséria moral na Europa (e Trump não agradeceu, antes pelo contrário). Ao contrário de Paulo Rangel, o ministro dos Exteriores de Sánchez não recebeu nenhum telefonema de Marco Rubio.
Quase todas as “altas patentes” europeias parecem os dirigentes do PCP a falar sobre a invasão da Ucrânia — e na altura muita gente, incluindo eu, atacou o PCP. Hoje, peço desculpa pelas minhas críticas à posição do PCP. Estão muito bem uns para os outros, no que toca a invasões ou “operações especiais” ou ataques a populações civis e infra-estruturas e, ao contrário do PCP, as críticas à cumplicidade europeia raramente se ouvem.
Depois da primeira ameaça louca de Trump no domingo passado, em que ameaçou fazer “os iranianos voltarem à idade da Pedra, que é o seu lugar”, António Costa ainda teve uma reacção decente e a mais forte desde que começou a guerra: “Qualquer ataque a infra-estruturas civis, nomeadamente energéticas, é ilegal e inaceitável” e o que se aplica “à guerra da Rússia na Ucrânia aplica-se a todo o lado”. Mas depois da ameaça da “destruição da civilização” iraniana, Costa e os outros ficaram calados.
Pedro Sánchez emerge agora como a única consciência moral da Europa, o único líder verdadeiramente corajoso, aquele que percebeu muito antes dos outros que os “princípios europeus” já foram suficientemente manchados e se a Europa quer enfrentar o inimigo interno (os americanos e os russos, a nova grande aliança, conseguiram ser derrotados este domingo na Hungria com a derrota de Órban) não é com a política do apaziguamento que vai lá.
Na sexta-feira, Sánchez fez um discurso no European Pulse Forum que é a “basezinha” dos dilemas europeus neste momento: “O desafio da Europa não é só rearmar-se para enfrentar os seus problemas de segurança e de defesa, mas também rearmar-se moralmente, para que possa contribuir para o desenvolvimento estável e pacífico do mundo”.
Sánchez defende que a União Europeia acabe com o acordo de associação com Israel — coisa que a Europa não fará. Obviamente, o Governo de Israel responde a Espanha com a palavra que usa contra todos os que se manifestam contra o genocídio em curso: “Anti-semita”. Na realidade, a Europa tem de escolher se mantém a cumplicidade com crimes de guerra e com o genocídio, mantendo a “chamberlanização” da sua política externa, ou se faz como Churchill e deixa de apaziguar. A única referência moral é hoje Pedro Sánchez… e o Papa Leão XIV.
(Um grande bem-haja para a autora deste texto. Tendo sido “cancelada” no Público, parece que agora lhe levantaram a “cancela”. Apesar de já estar 3 dias desatualizado, o texto – pela assertividade e pela contundência a que a autora já nos habituou -, merece toda a nossa atenção e reflexão.
Estátua de Sal, 07/04/2026)
A pena capital de Israel é fruto do genocídio em Gaza e da inacção da Europa. A UE é o maior parceiro comercial: corte os negócios, retire embaixadores.
1. Escrevo enquanto milhões de cristãos esperam a ressurreição de Cristo. É sábado antes do pôr do sol e há dois mil anos o corpo estava no sepulcro, depois de ser crucificado numa colina em Jerusalém. Os Evangelhos estão a ser lidos, revivendo o que aconteceu. Ano após ano é assim, e durante todo o ano é este corpo que os cristãos comem. Mas esta é a primeira Páscoa das nossas vidas em que o Estado que controla Jerusalém voltou à pena de morte. O que faz também de Israel o primeiro país no século XXI a aprovar no parlamento a execução de humanos. Por enforcamento, sem perdão e, na prática, só palestinianos. Aconteceu segunda-feira, com o ministro-colono Ben-Gvir (o proponente da lei) a abrir champanhe, gritos de alegria, abraços, aplausos e pequenas forcas na lapela.
2. Para quem não viu detalhes, resumo. Na Cisjordânia Ocupada, a pena de morte será a sentença padrão para os condenados em tribunais militares israelitas por homicídios classificados como terrorismo (atenuada para prisão perpétua em “circunstâncias especiais”). Esses tribunais podem impor a pena capital por maioria simples. As sentenças não podem ser comutadas nem perdoadas e devem ser executadas em 90 dias. Dentro de Israel, os tribunais civis podem impor a pena de morte ou prisão perpétua por homicídios cometidos com o objectivo de “negar a existência de Israel”.
Ou seja, sem referir etnia ou nacionalidade, a lei foi feita para visar os palestinianos, e não os terroristas israelitas (como os que diariamente actuam na Cisjordânia), reforçando o sistema de apartheid. A execução será sempre por enforcamento, com acesso limitado a assistência jurídica e supervisão.
3. Falei ao telefone com Keren Saar, uma das directoras da ACRI (Associação Para os Direitos Civis em Israel, a mais antiga e influente do género), que minutos depois do voto no Knesset entregou uma petição ao Supremo Tribunal para travar a lei. “O Supremo tem sido uma constante fonte de desapontamento”, reconhece Saar, “mas, se não tivéssemos esperança, não teríamos feito a petição. Não me refiro só a argumentos morais, mas legais”. Por exemplo, sempre que a “segurança de Israel” é invocada pelo Estado, o Supremo fica paralisado, explica Saar, mas, nas audições sobre a actual lei, o Shin Bet (Segurança Interna) não demonstrou que a lei vá trazer mais segurança para Israel.
O Supremo pode responder até 24 de Maio. A lei entrará em vigor antes, no início de Maio. Como não tem efeito retroactivo, não há risco de execução entretanto, diz Saar. “Mas é urgente a pressão internacional. Esta lei não pode estar mais distante dos valores judaicos, e este governo alimenta-se de morte.”
A ACRI fez o seu papel. Entretanto, um punhado em Israel saiu à rua contra a lei, a polícia de Ben-Gvir reprimiu (ele é ministro da Segurança Nacional) e a guerra contra o Irão mantém os israelitas a correr para os abrigos (inexistentes na Cisjordânia Ocupada).
Não será fácil reverter a lei. E isso é responsabilidade também da Europa.
4. “Portugal, país pioneiro na abolição da pena de morte, condena e lamenta a decisão do Parlamento de Israel”, disse a nota do MNE português. “Um retrocesso civilizacional que põe gravemente em causa a dignidade humana.”
Sim. Mas bastante mais. Porque esta pena capital só para palestinianos de facto é o resultado da licença para matar que a Europa dá a Israel desde 1948 e até ao colapso de todas as aparências pós-7 de Outubro. Licença ou auxílio na execução, de facto. O que a Europa tem dito a Israel é que não há limites, portanto, Israel pôde e faz tudo, a cada dia mais.
Se Ben-Gvir pôde impor a pena capital agora (em troca de fazer aprovar o orçamento do governo) foi porque o mundo em geral, e a Europa em particular, permitiram esta degradação diária, esta barbárie. Penso nas palavras de Aimé Césaire em 1950: como o colonizador se degrada, barbariza. Eis Israel colonizador da Palestina, rosto derradeiro da Europa colonial. Eis o derradeiro monstro.
Esta pena capital é filha do genocídio de Gaza. E vossa filha, ministro Rangel, primeiro-ministro Montenegro, conselheiro Costa, comissária Von der Leyen, chanceler Merz & etc. Os líderes de quase toda a Europa, ao continuarem, por exemplo, os negócios que fazem da UE a maior parceira comercial de Israel.
Um terço das exportações de Israel vão para a UE. O montante das trocas Israel-UE é 42,6 mil milhões de euros. A Europa não pode fazer nada? Pode. Quer travar a pena capital pela forca? Corte os negócios com Israel. Retire embaixadores, como fez Espanha. Há duas semanas, uma cidadã portuguesa foi atacada na Cisjordânia por colonos israelitas. O Governo português exigiu explicações ao embaixador de Israel? Alguém exigiu, nos palcos para que o convidam em Portugal? Houve pressões, sanções?
A cada dia, na Cisjordânia, há pelo menos 4,7 ataques de colonos israelitas (último relatório da ONU/OCHA). A UE fala da violência dos colonos como algo marginal ou fora de controlo para não ter de assumir que eles são o sistema. São o exército, o governo, o parlamento. São Israel: um Estado comandado por supremacistas judaicos que a Europa alimentou, e só se vai deter quando for travado.
5. Imaginem um exército invadir o Algarve e explodir as pontes que o ligassem ao resto do país. Foi o que Israel fez agora no Líbano. E os colonos estão já a preparar as famílias. Enquanto escrevo, chegam-me as fotos da minha amiga libanesa de Sour (Tiro), quarta maior cidade libanesa, património mundial. Campos e casas antiquíssimas, o mar onde o pai dela, 84 anos, ainda mergulhava todos os dias até se tornar ele mesmo um deslocado em Beirute. Uma herança de milhares de anos agora controlada por Israel, e um milhão de deslocados.
Um país amputado, como a Palestina continuamente. E Israel tem já pedaços da Síria, além de mais de metade de Gaza (53%). A outra quase metade é a que foi cedida ao plano neocolonial de Trump & aliados.
Licença para matar. Barbárie racista. Porquê? Até quando?
6. Não tenho espaço para me alongar na guerra contra o Irão, que o mundo está a sofrer porque convém a Israel. Trump foi nessa, mas os cordelinhos são de Bibi. Claro que a libertação dos iranianos não virá de criminosos de guerra, nem os EUA e Israel estão a pensar na democracia e bem-estar do Irão. Claro que os iranianos não iam sair à rua, derrubar o regime e dar graças a Trump. A Israel certamente não interessaria, porque Israel não quer um Irão livre e forte, mas sim um Irão fraco e em caos.
Israel é o grande agente do caos. Além de matar gente em escolas e hospitais no Irão, além de destruir parte do património mais belo do mundo, esta guerra destrói os esforços alternativos da sociedade civil iraniana contra a tirania. E é uma guerra só possível pelo laboratório que foi Gaza: o laboratório da destruição do direito internacional.
7. A seguir à Segunda Guerra, Césaire viu no fim do beco da Europa um Hitler, dentro de cada humanista cristão, um Hitler. E não tinha visto ainda o que seria a Europa pós-7 de Outubro, o que seria Israel.
A pena capital já existia em Israel para crimes de genocídio ou contra o Estado, mas só foi aplicada duas vezes. A primeira, em 1948, um soldado condenado por traição e fuzilado. A segunda, em 1962: Adolf Eichmann, o nazi responsável pelo transporte de milhões de judeus para o extermínio, enforcado. A única vez na história de Israel em que a forca foi usada. Agora, vai mesmo haver humanos a seguir Eichmann na forca?
Depois de séculos a perseguir judeus, culminando no Holocausto, a Europa fez a Palestina pagar as culpas europeias. Limpeza étnica em 1948, ocupação com colonatos em 1967, genocídio desde 2023, pena capital na Páscoa de 2026. Jerusalém é hoje uma cidade refém de Israel, como toda a Palestina, onde nenhum cidadão do mundo pode pisar se Israel não quiser.
Que pensam os cristãos humanistas de tudo isto na Páscoa de 2026? Naquela colina de Jerusalém, agora, não se pregam cruzes. Agora partimos a cervical com uma corda sem ninguém ver.
(Luis Rocha, in Facebook, 05/03/2026, mural de António Reis, revisão Estátua )
Imagina que um homem extremamente bem relacionado te convida para almoçar. Não um almoço qualquer, claro. Um daqueles almoços onde a lista de convidados parece saída de um encontro entre a realeza, Wall Street, Hollywood e meia dúzia de políticos que juram nunca ter estado ali. Imagina que o anfitrião é educado, inteligente, simpático, daqueles que conhecem toda a gente e que, curiosamente, toda a gente parece conhecer.
Imagina que, a meio da tarde, o anfitrião te pergunta com a naturalidade de quem oferece café se queres uma massagem. Nada de estranho. Stress, agenda cheia, o mundo é duro para quem tem responsabilidades. Depois mostra-te uma sala com jovens raparigas que parecem ter saído de um catálogo de spa tropical.
Imagina que aceitas. Imagina que a massagem termina com um daqueles chamados “finais felizes” que, convenhamos, transformam rapidamente qualquer spa numa tese prática sobre hipocrisia humana. Oral, manual, talvez mais do que isso. Um momento breve de decadência privada entre adultos que, naquele instante, acreditam que ninguém está a ver.
Agora imagina que dias depois o teu anfitrião telefona. E com uma voz perfeitamente tranquila te informa que as jovens eram menores. E que, por acaso, tudo foi gravado. Parabéns. Acabaste de ser promovido a marioneta.
Agora imagina que és juiz. Estás a decidir um processo delicado do tipo pedofilia, corrupção, tráfico de influências ou evasão fiscal. O tipo de caso que aparece nos jornais, e faz os discursos sobre moralidade pública florescer como papoilas em Maio. Imagina que o telefone toca. Do outro lado está o teu antigo anfitrião. Não pede nada de forma direta, claro. Pessoas sofisticadas não fazem chantagem de forma vulgar. Limitam-se a recordar-te que a memória digital é uma coisa extraordinária. E que certos vídeos envelhecem muito mal.
Imagina agora que és político. Tens de votar legislação sobre controlo de armas, direitos laborais ou regulação ambiental. Discursos inflamados no parlamento, entrevistas televisivas, promessas de integridade. Tudo muito digno. Até te lembrares da sala de massagens. E da câmara no canto.
Imagina que és editor de um grande jornal. Um desses guardiões da verdade que escrevem editoriais sobre ética pública e civilização ocidental. E imagina que sabes que existe um ficheiro com o teu nome. Um ficheiro onde a tua dignidade aparece reduzida a meia hora de spa altamente comprometedora.
Agora imagina que o teu simpático anfitrião afinal não era apenas um milionário excêntrico com amigos influentes. Imagina que era um operador. Um ativo. Alguém financiado para recolher segredos, fragilidades e pecados de gente poderosa. Um colecionador de compromissos humanos embalados em vídeo. Um homem chamado Jeffrey Epstein.
Imagina também que a sua companheira, Ghislaine Maxwell, não era apenas uma socialite elegante, mas também filha de Robert Maxwell, figura rodeada durante décadas pela aura de colaboração com os serviços de inteligência israelitas. E imagina que, quando Robert Maxwell morreu, recebeu funeral com honras em Israel.
Mas claro, tudo isto são coincidências. A História adora coincidências. Imagina agora a dimensão da coleção. Príncipes, bilionários, senadores, governadores, jornalistas, juízes, académicos e até presidentes. Um verdadeiro museu das elites ocidentais. Alguns desses nomes surgiram publicamente. Outros ficaram convenientemente protegidos pela névoa jurídica e pelo silêncio institucional.
Depois imagina que um dia o colecionador morre numa prisão. Oficialmente suicídio. Câmaras que não funcionam. Guardas que dormem. Protocolos que falham todos ao mesmo tempo, como se a incompetência tivesse decidido fazer uma festa. E imagina que, pouco depois, desaparecem gravações. Desaparecem documentos. Desaparecem provas.
Porque revelar tudo seria… inconveniente. Não para a justiça, naturalmente, essa gosta de luz, mas para uma certa elite global que descobriria, de repente, que a moralidade pública tinha sido administrada por um clube privado de pecadores gravados em alta definição.
Imagina agora a última cena. Milhares de pessoas poderosas continuam nos seus cargos. Fazem discursos, votam leis, escrevem editoriais, tomam decisões sobre guerras, economia e liberdade. E talvez algumas delas, quando o telefone toca à noite, sintam aquele frio muito particular na espinha.
Não é culpa. Não é arrependimento. É apenas a lembrança de que algures pode existir um vídeo.
E que, no grande teatro da política mundial, a democracia pode até parecer um sistema de governo. Mas às vezes funciona mais como um espectáculo de marionetas.