A prestação social única da Ramalho: Trabalho forçado com outro nome

(Augusto Oliveira, in Facebook, 31/05/2026)


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O Governo quer obrigar os beneficiários de prestações sociais a fazer trabalho voluntário. Mas desde quando o voluntariado é obrigatório? A própria ideia é absurda. Se é obrigatório, não é voluntariado. Se é voluntariado, não pode ser imposto. Não há volta a dar. Chamar voluntariado a uma obrigação é apenas uma tentativa de maquilhar a realidade com palavras bonitas.

Quem trabalha deve receber salário. Ponto final. O apoio social existe para garantir a sobrevivência mínima de quem vive em situação de pobreza ou exclusão. Não foi criado para fornecer mão-de-obra barata ao Estado ou às instituições.

Esta é mais uma invenção da senhora Ramalho. Segundo as suas palavras, o primeiro objetivo da prestação é “dar o mínimo de dignidade e de condições de vida a todas as pessoas”, protegendo situações de insuficiência económica severa. No entanto, é difícil conciliar esse discurso sobre dignidade com medidas que obrigam quem já vive em situação de pobreza a trabalhar sem remuneração adequada.

A frase soa bem nos discursos, mas esvazia-se de sentido quando se exige trabalho em troca de uma prestação que mal chega para pagar contas básicas.

Falar de dignidade enquanto se obriga pessoas pobres a trabalhar por valores miseráveis é um exercício de cinismo político.

Gostava de ver os defensores desta medida sobreviverem durante seis meses apenas com o salário mínimo nacional. Melhor ainda, gostava de os ver viverem com os cerca de 247 euros mensais que muitos beneficiários recebem. Talvez então percebessem o que significa escolher entre comer, aquecer a casa ou comprar medicamentos.

A mentora do pacote laboral, que na minha opinião, deveria seguir diretamente para o contentor do lixo da História surge agora com mais uma medida que representa uma visão profundamente desumana da pobreza, esta medida destina-se a castigar quem já vive no limite. Pessoas que sobrevivem com 247 euros por mês passam a ter de prestar pelo menos 15 horas de trabalho por semana, ou seja, cerca de 60 horas por mês.

As contas são simples: 247 euros divididos por 60 horas resultam em pouco mais de 4 euros por hora.

Se uma empresa pagasse este valor aos seus trabalhadores, ouviríamos falar de exploração. Mas quando é o Estado a fazê-lo, tentam vender a medida como integração social, responsabilidade ou solidariedade. Não é nada disso. É exploração dos mais pobres, embrulhada em linguagem burocrática.

O mais revoltante é a mensagem que esta medida transmite: quem recebe uma prestação social é tratado como suspeito, como alguém que tem de provar constantemente que merece sobreviver. Em vez de combater as causas da pobreza, combate-se quem é pobre.

A pobreza não é um crime. Receber apoio social não é um privilégio. É um direito de quem vive em situação de necessidade. O verdadeiro escândalo não é haver prestações sociais. O verdadeiro escândalo é haver quem trabalhe uma vida inteira e continue pobre, enquanto se apontam os dedos aos mais vulneráveis para esconder os fracassos das políticas públicas.

Se o trabalho é obrigatório, paguem-no de forma justa. Se não o querem pagar, não lhe chamem voluntariado. Chamem-lhe pelo nome que merece: trabalho forçado disfarçado de política social.

Mas não te revoltes. É exatamente isso que esperam de ti.

Fonte aqui

6 pensamentos sobre “A prestação social única da Ramalho: Trabalho forçado com outro nome

  1. A jiga-joga do António Ramalho no Novo Banco deve ter sido tão lesiva dos cofres de estado que tiveram de pôr a mulher dele a cortar nos subsídios e nos salários e direitos do trabalho… desde que haja dinheiro para as reformas douradas da camarilha…
    Ontem, o Centeno disse que a dívida pública está a aumentar e que as pensões do Estado estão a contribuir para esse aumento. Ora bem, os lesados do BES (todos nós, mas uns ainda tinham lá poupanças e esses perderam ainda mais) podem ficar a arder durante décadas ou mesmo toda a vida, que não vem nenhum mal ao mundo. Spinumvivas e Primeiro-ministro ao mesmo tempo? É na boa! Mas nas pensões dos Ramalhos ninguém toca, que o ordenado é bom mas é para se gastar e vão fazer falta quando já não tiverem idade para brincar aos tachos…

  2. E claro que tal como o pacote laboral também esta barbaridade não estava nas propostas de Governo da AD.
    Também devem ter aprendido com outro inglês, aquele porco gordo do Churchill que disse que o que se dizia em campanha não era o que se fazia quando se estava no Governo. Como se aldrabar em campanha fosse a coisa mais natural do mundo e um dever para os políticos que teem de convencer as massas ignaras e desprezíveis a votar neles.

    • E o alarido que não foi quando o Sócrates instaurou o programa Novas Oportunidades? O clamor dos direitolas pela afronta de querer requalificar profissionalmente e melhorar as habilitações de milhares de pessoas em idade activa e com condições físicas e de saúde para facilitar a reconversão e reintegração no “mercado de trabalho”, de forma a que pudessem ganhar a vida e contribuir para a economia nacional com actividades produtivas e descontos para a Segurança Social?
      Aqui d’El-Rey! Agora já se percebe qual era a intenção e o objectivo, colocar menores de idade, doentes e idosos a arranjar telhados, podar árvores e arbustos e a apanhar lixo nas ruas e à beira da estrada, sem nada lhes pagar a não ser manter o subsídio.

  3. Um trabalhador que receba salário mínimo pode contar com uma media de 5,34 euros a hora se calcular mos 172 horas de trabalho mensais a 22 dias úteis.
    Estes trabalhadores forcados deverão receber menos que isso sem contar que não cai um cêntimo para a Segurança Social.
    Para quem diz que o que se pretende e que estes apoios não se tornem um cheque para a vida não está nada mal. Quando o homem for velho vai viver de quê.
    Este esquema de atazanar os pobres para os obrigar a trabalhar porque supostamente não queriam já foi tentado.
    A Inglaterra foi perita nisso. As infames casas de trabalho onde muitos foram torturados até a morte eram a alternativa oferecida a quem já não conseguia aguentar as condições terríveis de trabalho nas fábricas e nos campos.
    O que este sistema conseguiu foi uma criminalidade que era superior a qualquer lado na Europa.
    Barco que afundasse nas costas da Gra Bretanha tinha os sobreviventes assassinados e a carga pilhada.
    Havia ainda os temíveis “afundadores” que em noites de tempestade dirigiam para os rochedos barcos em busca de um porto seguro. Os passageiros sobreviventes eram assassinados e dados de pasto aos peixes.
    Os ladrões de estrada invariavelmente matavam as suas vítimas mesmo que estas não resistissem.
    Isto tudo não acontecia porque a população do Reino Unido era mais cruel que outras.
    Acontecia por este sistema cruel e porque os ingleses enforcavam um por da cá aquela palha. E os mortos não identificam ninguém.
    O Reino Unido acabou por arrepiar caminho e apostar em apoios sociais decentes em vez de campos de concentração para pobres e forca.
    Também muito por culpa das tais alternativas socialistas que podiam levar muita gente a procura las.
    Portugal parece querer recuperar neste Século atrocidades que falharam no passado.
    Atazanar a vida dos mais pobres, criar desespero, nunca deu bom resultado.
    Querem que os turistas continuem a achar que Portugal e seguro? Então deixem de de tretas para encantar pategos.
    Mas claro que não o vão fazer pois que não lhes está na massa do sangue fazer outra coisa.
    Raios partam quem votou no homem que disse que a nossa vida não estava melhor mas a m*rda do país estava.

  4. Essa barbaridade já acontece há décadas com os beneficiários de subsídios de desemprego.
    O esquema e acrescentar a magra prestação 20 por cento mais subsidio de refeição.
    Assisti a muitas desgraças dessas quando o salário mínimo nacional era de uns miseráveis 485 euros.
    Um desgraçado era despedido de um restaurante no fim do Verão e vinha para casa com um subsídio de uns 300 paus.
    Mais 60 euros, o subsídio de refeição cerca de mais 60.
    Ou seja por menos que aquele miserável salário mínimo tinham um escravo que cumpria todo o horário de um funcionário.
    O pior de tudo e que aquilo dificultava a procura de emprego.
    Teoricamente tinham um dia por semana para ir a procura de emprego mas cabia ao chefe do serviço autorizar. Autorização que dependia muitas vezes do pobre diabo provar que nesse dia tinha mesmo uma entrevista de emprego.
    E terminado o período de subsídio, rua.
    No caso das autarquias, nos escalões mais baixos, as vezes lá conseguiam entrar para os quadros.
    No caso dos serviços centrais, em que se entrava por concurso nacional, era impossível ficarem nos serviços. Mas acabado aquele logo vinha outro.
    Pessoalmente odiava essas situações, ferviam me as tripas e o que mais me arrepiava era que alguns cumpriam as tarefas com zelo e dedicação apesar de saberem que quando o subsídio de desemprego acabasse estavam na rua.
    Essa designação arrepiava me, eu nunca a teria e acho que os mandava ir ver se o mar da Kraken.
    O que esta canalha pretende agora é alargar esse esquema infame de exploração.
    E acalmar os grunhos que acham que estão a pagar para quem não quer trabalhar. Esquecendo se que a maior parte dos que recebem esses apoios são idosos, crianças ou deficientes.
    Gente que simplesmente não pode trabalhar. Porque quem pode não se sujeita a essas humilhações.
    E os poucos que não querem vivem de esquemas da vida e de vez em quando ouvimos dizer que foram presos. Porque ninguém vive com aquela miséria. Sobreviver não e viver.
    Trabalhei anos num serviço social. Preferia varrer ruas em Irkutsk a passar as humilhações que via aquela gente passar.
    Idosos, crianças, mulheres devastadas pela violência doméstica.
    Foram anos terríveis, enquanto dali não sai não descansei.
    Por isso este projecto e as declarações desta gente levam me de volta a um tempo em que não sei como não dei um tiro nos cornos. Nos meus ou no de um daqueles doutores da mula russa.
    Trabalho forçado e crime.
    Se gostam tanto disso ofereçam se ao Trump como guardas ou directores de prisão nos Estados Unidos.
    Isto não sao os Estados Unidos.
    Vao ver se o mar da um grande cardume de tubarões brancos famintos.

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