Guia para derrubar estátuas

(Henrique Monteiro, in Expresso Diário, 11/06/2020)

Estátua de Gengis Khan na Mongólia, diz-se ser a maior estátua equestre do mundo

Além da idiotice que é olhar para a História com os olhos de hoje (não viveremos para ver o que dirão, daqui a 100 ou 200 anos, dos nossos heróis atuais), a ideia de que os seres humanos são dominados apenas por uma entre várias características é estúpida e primitiva. Sim, Churchill teve umas saídas racistas, mas livrou-nos de um (ou dois) totalitarismos sufocantes.


É sempre lamentável – e infelizmente é cada vez mais comum – verificar como um conjunto de energúmenos dão cabo de boas causas. Há imagens lindas e comoventes das manifestações antirracistas após o assassínio de George Floyd por um polícia. A própria família de Floyd apelou a que não existissem distúrbios. Porém, isso não impediu que extremistas partissem e pilhassem o que podiam, mesmo se de comerciantes sem outros meios de subsistência se tratasse.

Mas chegou-se ao cúmulo em Bristol, com o derrube e lançamento à água, de uma estátua do benfeitor da cidade (no séc. XVIII) que foi um traficante de escravos, e com a vandalização da estátua de Churchill em frente ao Parlamento de Londres, com o argumento de que o herói da II Guerra terá sido racista.

Além da idiotice que é olhar para a História com os olhos de hoje (não viveremos para ver o que dirão, daqui a 100 ou 200 anos, dos nossos heróis atuais), a ideia de que os seres humanos são dominados apenas por uma entre várias características é estúpida e primitiva. Sim, Churchill teve umas saídas racistas, mas livrou-nos de um (ou dois) totalitarismos sufocantes; sim, Colston ganhou dinheiro com o tráfico negreiro (numa época em que a consciência geral não condenava essa atividade, desenvolvida por negros, árabes, indianos, índios), mas fez na sua cidade (Bristol) e noutras, hospitais, creches, casas de recolhimento para pobres, enfim foi um filantropo. A sua estátua, atirada ao rio por um conjunto de inconscientes (que o próprio presidente da Câmara da cidade não condenou) mostra que este olhar unívoco sobre as personalidades do passado é uma desgraça a que poucos dão combate.

Por mim, e alinhando nesta onda histérica, tenho várias propostas. Por exemplo, todas as homenagens a Júlio César, ele próprio dizimador dos gauleses e possuidor de escravos. Mas não devemos ficar por aqui,

Na Hungria há uma estátua de Átila. Acorra-se a derrubá-la. Esse Átila invadiu a Europa e semeou o terror por aqui – tanto quanto Colston entre os negros, provavelmente. A palavra escravo provém de Eslavo, e perde-se na História quando os eslavos passaram a ser os seres mais procurados como… escravos.

A maior estátua equestre do mundo é na Mongólia. Dedicada a Gengis Khan, outro aterrorizador de chineses, indianos e europeus. Penso que é de bom senso derrubá-la.

Maomé II que fez cair Constantinopla e pôs fim ao Império Romano do Oriente, deixou que um saque (leia-se genocídio) brutal decorresse durante um dia inteiro. Profanando a cultura local, entrou a cavalo na principal Igreja (Santa Sofia, ou Hagia Sophia, em grego) e proclamou-a mesquita, numa demonstração de feroz colonialismo intolerante. Não sei se haverá por aí alguma coisa para destruir, mas há a de Solimão o Magnífico que fez do Império Otomano uma enorme potência imperialista, atacando os húngaros e os próprios austríacos, para além de gregos e búlgaros. Desde o seu antecessor Murat I que os otomanos raptavam crianças aos cristãos para os educarem de forma muçulmana e agressiva, transformando-os em janízaros, os mais fiéis ao sultão. Solimão tem uma estátua em Istambul que deve ter como destino o fundo do mar (para citar o piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton, a propósito de Colston).

Sitting Bull, o célebre ‘Touro Sentado’, índio que conjuntamente com ‘Crazy Horse’ dizimou as tropas norte-americanos em Little Big Horn (Montana), tem um monumento e um busto no Estado de South Dakota. É duvidoso. Tanto mais que ele depois se juntou ao circo de Buffalo Bill e ambos divertiram a América racista e a Europa colonialista. Teremos de pensar nesse monumento.

Como no da rainha Nginga, em Luanda. É certo que ela afrontou os portugueses por questões que nada têm a ver com a lenda que se fez. Mas é mais ou menos certo que, para não ficar de pé frente a um pouco cavalheiresco governador de Angola, mandou um negro pôr-se de quatro e sentou-se em cima dele. Num gesto que é manifestamente racista ou outra coisa qualquer que lhe queiram chamar.

E a rotunda da Boavista? Já viram que se chama Mouzinho da Silveira? O homem que derrotou Gungunhana e o obrigou às maiores humilhações? Será isto admissível? Para não falar de Pedro IV no Rossio, que parece não ser outro do que o seu primo Maximiliano do México, entretanto deposto quando a estátua feita em França ia a caminho do Novo Mundo. Não me recordo por que razão terá sido deposto, mas lá que o México estava cheio de escravos (se é que ainda os não tem…), sem dúvida.

Enfim, por motivos semelhantes a Colston, e bem piores do que as frases de Churchill, há muita coisa para os radicais antifa se entreterem. É pena que eles apenas olhem com os olhos de hoje, com o preconceito e certo ódio ao homem branco.


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