Make Mein Kampf great again

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 18/08/2017)
quadros
Os EUA são tão grandes que a diferença horária faz com que exista gente a viver no século XIX.

A cidade norte-americana de Charlottesville foi palco de graves confrontos durante uma manifestação de nazis americanos e uma contramanifestação de pessoas. O resultado final do confronto foi um morto por atropelamento, por um adepto do Alt-right, e vários feridos.

As manifestações foram convocadas depois de uma estátua do general sulista da Guerra da Secessão dos EUA e defensor da escravatura, Robert E. Lee, ter sido removida da cidade. Deviam ter-lhes dito: calma, vamos levar a do general Lee, mas vamos pôr uma do Adolfo. Os EUA são tão grandes que a diferença horária faz com que exista gente a viver no século XIX.

Em relação à retirada da estátua, porque o general era a favor da escravatura, podemos discutir o politicamente correcto, e a “humanidade” dos nossos dias, “versus” a questão histórica e temporal. É um bocado como o Nobel da Medicina para o Egas Moniz. Rebentava-lhes com o cérebro, fazia as pessoas patetinhas, mas achava que pelo menos deixavam de estar tão excitadas. Há coisas, por mais incríveis que sejam, que podem parecer fazer algum sentido na época em que aconteceram. O problema é quando querem fazer dessas estapafúrdias ideias de ontem novas ideias de hoje.

Nazismo não é o mesmo que revivalismo da música dos anos 80. Dançar a fingir que se está a fazer um solo numa guitarra eléctrica imaginária não é o equivalente a fazer a saudação nazi.

Não há espaço para os saudosistas do holocausto. O mundo viu morrer milhões de pessoas e escreveu o pior capítulo da História do homem, mas há quem ache que, apesar disso, deve haver espaço para eles. É como se os ratos que trouxeram a peste negra, no século XV, fizessem uma parada a atravessar a cidade a andar numa roda.

Queria ver o que aconteceria se houvesse uma manifestação dos apoiantes do ISIS com bandeiras, catanas, explosivos à cintura e muitos gritos de morte aos infiéis.

Nos EUA – o cemitério dos militares americanos -, apesar de todas as guerras em que estiveram envolvidos, é maioritariamente preenchido por soldados que morreram a combater o nazismo. Faz falta um “walking dead” para correr outra vez com esta gente saudosista do Adolfo.

Imaginemos os EUA durante a II Guerra com um Presidente como Trump, o cabelo ajuda. De que lado estaria o Presidente dos Estados Unidos? Pois. A resposta é assustadora, nem que seja pelo intervalo de tempo que precisamos para decidir.


TOP-5

KKK

1. Líder do PSD não quer “qualquer um” a viver em Portugal, também vai receber um convite do PNR.

2. Manifestação em Charlottesville junta centenas de apoiantes do Alt-right – Até estranhei o Observador não ter vindo dizer que havia mais gente na manif nazi do que no enterro do Soares.

3. A cantora Ágata, candidata do CDS a Castanheira de Pêra, postou no seu Facebook que a líder do CDS, “Conceição Cristas”, era uma grande senhora – E promete ser uma grande candidata a Nespereira de Pêra.

4. SIRESP volta a falhar incêndio – O SIRESP é como o Mon Chéri e o Ferrero Rocher, só está disponível depois do Verão, quando acaba o calor.

5. Passos Coelho discursou quase uma hora na “rentrée” do PSD em Quarteira – Depois diz que há suicídios e que a culpa é do Governo.

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Grotesco

(In Blog O Jumento, 17/06/2017)

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«Luisa Salgueiro, dita a cigana e não é só pelo aspecto, paga os favores que recebe com votos alinhados com os centralistas.»


Foi nestes termos que um eurodeputado do Partido Socialista se referiu a uma deputada do seu partido no Parlamento de Portugal. Temos portanto um deputado que acha que os ciganos têm um determinado aspeto e têm comportamentos de baixo nível próprios da sua etnia. Se este deputado fosse do partido da Le Pen teria sido notícia por racismo, mas como é de um partido que desde sempre se opôs ao racismo a sua condenação é abafada pelo sentimento de vergonha.
Qualquer português que não seja racista sente vergonha de ser concidadão desta personagem, os portugueses têm razões para que o país não seja representado por este deputado no parlamento europeu, o partido Socialista tem nele uma mancha que envergonha toda a esquerda, daí a resposta pronta de António Costa.
Mas este senhor além de grotesco revela pouca inteligência, só alguém com grandes debilidades ao nível da capacidade intelectual escreveria o que ele escreveu, dito desta forma sincera são raros os casos de racismo nesta forma pura, em que se considera que uma etnia ou raça tem uma natureza maldosa. Julgo que só mesmo o nazismo se aproximava desta abordagem em relação aos judeus.
Mas o ainda e vergonhosamente deputado europeu acha que não escreveu nada condenável e agora usa a sua página de Twitter para tentar denegrir deputados como João Galamba, tenta a todo o custo colocar-se na posição de quem está a ser atacado por ter sido um aliado de José Seguro. Tenta trazer Seguro para a sua pocilga ao mesmo tempo que procura atingir António Costa enlameando o nome de João Galamba, alguém que tem mais qualidades e inteligência na ponta de um dedo do que o eurodeputado em todo o seu esponjoso volume.
Esperemos que Seguro e os seus mais íntimos não se deixem emporcalhar pelo seu velho companheiro de viagem e que o PS se mobilize para extrair este furúnculo.

Um monhé, uma preta, um cigano e uma cega

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 04/12/2015)

Pacheco Pereira

            Pacheco Pereira

Devem ou não as pessoas ser descritas pela sua cor, religião, limitações físicas ou etnia? Esta é uma discussão clássica na comunicação social com dois campos quase sempre definidos, entre aqueles que acham que é racismo designá-los por essas qualidades, e aqueles que acham que é relevante descrevê -los nestes termos. Neste último grupo há duas variantes, aqueles que acham que essa informação é importante, como é o meu caso, e aqueles que acham que assim os diminuem na sua condição. A informação é relevante porque a diferença contém informação e há muita hipocrisia em não dá-la quando ela está diante dos olhos de toda a gente. Parece que estamos incomodados por eles serem o que são.

Depois há uma componente que não é só informativa é cívica e ética. Claro que ser monhé, preto, cigano ou cego é relevante num mundo de caucasianos brancos (ou mais ou menos brancos) mais ou menos perfeitos dos sentidos e supostamente católicos, apostólicos, romanos e sedentários. Sucede que eu fico muito feliz por o Governo ter um monhé, uma preta, um cigano e uma cega, pressupondo que são competentes e dedicados à sua função, a mesma condição que se coloca aos caucasianos brancos, e não sei se algum ariano louro, que possam fazer parte do Governo. Aqui são todos iguais. Mas o Governo fica melhor porque cada uma destas condições corresponde a uma experiência específica e essa experiência enriquece cada um dos que a tem e, nalguns casos, essa riqueza tem directa relevância para os cargos que exercem, noutros não. Torna-os é pessoas diferentes de nós, porque viram outras coisas, sentiram outras coisas, seja de bom, seja de mau, e a última coisa que quero é pessoas de plástico a governar. Já chega e há demais.

“Monhé” é de todas as designações aquela que tem um claro conteúdo pejorativo, mas estou convencido de que é para o lado com que António Costa vive melhor. Filho de goês, e não de um goês qualquer (como se ser goês fosse na nossa história ser “qualquer”), escritor, militante comunista dos dias do risco, transporta consigo suficiente história e memória de outro mundo para isso o tornar diferente. Ele pode não o dizer, ou sequer o ter consciente, mas não há volta a dar, traz.

Quanto à ministra da Justiça, negra e angolana, teve suficiente e, mais que suficiente, contacto, pessoal e familiar, com o que foi o drama da descolonização e o subsequente duríssimo conflito político, para se ter “feito” com essas dificuldades e ter singrado num meio hostil para uma negra como é o português. Sim, porque os portugueses também são racistas, não todos, mas muitos.

No caso da secretária de Estado que é cega, essa é uma experiência que tem directa relevância para o exercício do seu cargo, e talvez por isso a classificação é mais comummente aceite como sendo informativa. Mas já se discutiria o ser cega se o cargo fosse diferente, como se os cegos não pudessem ser bons ministros das Finanças ou da Defesa. O máximo que se pode dizer é que muito poucos cegos chegariam a um cargo desses devido às maiores dificuldades que teriam que vencer quotidianamente.

Homens e mulheres com vida, turbulenta e pouco convencional, vista quase sempre de lado pelo olhar dos imbecis e dos carreiristas, são tudo menos os betinhos yuppies que no conforto das seus berços dourados, ou na ascensão social pelas carreiras das “jotas”, povoam uma parte da nossa vida política. Isto não tem a ver com a esquerda e a direita, mas com o desprezo e a minimização das dificuldades da vida que é natural em quem nunca as teve.

O Prémio Nobel da Economia deste ano, Angus Deaton, dizia isso mesmo quando afirmava que a experiência da pobreza dava olhos diferentes para se ver, compreender e dar importância à pobreza. Não é que todos devam ser pobres, mas quem teve dificuldades olha de um modo geral de forma diferente para as dificuldades dos outros, e isso faz muita falta na vida política demasiado liofilizada dos dias de hoje. Estes homens e mulheres conheceram essas dificuldades por terem cor na pele, serem de uma etnia diferente, ou terem uma limitação nos seus sentidos, e por isso a vida lhes foi mais difícil, e trazem consigo uma coragem especial que está antes da sua vida pública. Não precisam de a nomear, ela existe.