Grotesco

(In Blog O Jumento, 17/06/2017)

manuel_santos

«Luisa Salgueiro, dita a cigana e não é só pelo aspecto, paga os favores que recebe com votos alinhados com os centralistas.»


Foi nestes termos que um eurodeputado do Partido Socialista se referiu a uma deputada do seu partido no Parlamento de Portugal. Temos portanto um deputado que acha que os ciganos têm um determinado aspeto e têm comportamentos de baixo nível próprios da sua etnia. Se este deputado fosse do partido da Le Pen teria sido notícia por racismo, mas como é de um partido que desde sempre se opôs ao racismo a sua condenação é abafada pelo sentimento de vergonha.
Qualquer português que não seja racista sente vergonha de ser concidadão desta personagem, os portugueses têm razões para que o país não seja representado por este deputado no parlamento europeu, o partido Socialista tem nele uma mancha que envergonha toda a esquerda, daí a resposta pronta de António Costa.
Mas este senhor além de grotesco revela pouca inteligência, só alguém com grandes debilidades ao nível da capacidade intelectual escreveria o que ele escreveu, dito desta forma sincera são raros os casos de racismo nesta forma pura, em que se considera que uma etnia ou raça tem uma natureza maldosa. Julgo que só mesmo o nazismo se aproximava desta abordagem em relação aos judeus.
Mas o ainda e vergonhosamente deputado europeu acha que não escreveu nada condenável e agora usa a sua página de Twitter para tentar denegrir deputados como João Galamba, tenta a todo o custo colocar-se na posição de quem está a ser atacado por ter sido um aliado de José Seguro. Tenta trazer Seguro para a sua pocilga ao mesmo tempo que procura atingir António Costa enlameando o nome de João Galamba, alguém que tem mais qualidades e inteligência na ponta de um dedo do que o eurodeputado em todo o seu esponjoso volume.
Esperemos que Seguro e os seus mais íntimos não se deixem emporcalhar pelo seu velho companheiro de viagem e que o PS se mobilize para extrair este furúnculo.
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Em ti, Dijsselbloem

(Isabel Moreira, in Expresso Diário, 25/03/2017)

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Em ti, Dijsselbloem, está o que está em todo o lado, o sexismo que nas tuas palavras põe alimentos e mulheres no mesmo cesto e toda uma visão heteronormativa do mundo.

Em ti, Dijsselbloem, está, no entanto, especificamente, o desprezo pelo outro, a vontade de aniquilar esse outro, num olhar de moral calvinista, a vontade de varrer da Europa quem tens por miseráveis.

Em ti, Dijsselbloem, está, afinal, a vontade ativa de ignorar as causas da crise dos países europeus, está afinal o que sempre esteve, uma ética punitiva a aplicar aos boçais do sul entre os quais também habitam os que durante muito tempo validavam o teu discurso acusando-nos de vivermos “acima das nossas possibilidades”.

Em ti, Dijsselbloem, está a prova de que a xenofobia e o racismo, a extrema-direita, infiltraram-se nos partidos que se dizem, como o teu, “sociais-democratas”, para vitória de quem quer pregar, precisamente, a segregação em vez da união, o tal do desprezo pelo outro que te sai pela boca.

Em ti, Dijsselbloem, está a o norte e o sul, os “fundadores” e os “servidores”, com pronta ajuda do ministro das finanças alemão (era para o país dele que falavas, quando vomitaste?).

Desengane-se quem diz que só está em causa uma clivagem ética e moral e não, também, uma clivagem ideológica.

Vi quem escrevesse que seria assim, por ter sido um homem “de esquerda” a dizer o que disse. Acontece que Dijsselbloem representa precisamente o fenómeno de desmaterialização da esquerda (que felizmente não aconteceu em Portugal). É um homem que há muito dá mostras de pertencer ao campo da direita austera, arrogante e moralista.

Justamente o que é extraordinário é ver a extrema-direita crescer nos seus partidos formais e esticar os ramos para dentro de outros partidos e através deles para instituições europeias.

Foi o caso do partido trabalhista holandês, que lá fez o seu caminho tendo um Dijsselbloem à sua frente, à frente do governo e à frente do Eurogrupo, que não disse uma única palavra verdadeiramente diferenciadora do discurso da extrema-direita e que morreu nas últimas eleições.

Quem não morreu foi a extrema-direita.

Em ti, Dijsselbloem, ouvimos o que destrói (e já destruiu) a Europa.

A direita absorveu o discurso extremista, o centro-esquerda pasokizou-se e a Europa suspira de alívio

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/03/2017)

Autor

                                    Daniel Oliveira

A Europa suspirou de alívio. O PVV, partido de extrema-direita de Geert Wilders (desculpem se não uso a palavra “populismo”, que hoje serve para meter tudo e o seu contrário no mesmo saco), passou a ser a segunda força nacional e ganhou cinco deputados (passou de 15 para 20), mas não ficou em primeiro. De uma ou de outra forma, todos pensam que não participaria no governo. Mas uma vitória de Wilders teria um efeito simbólico muito relevante, sobretudo quando sabemos que a extrema-direita espreita em França e na Alemanha. Ainda assim, exigir de Wilders uma assunção de derrota é talvez um pouco excessivo. Muito menos quando vem de forças que, ao contrário dele, perderam força política.

Se ouvirmos com atenção o discurso de campanha, a derrota da extrema-direita é parcial. Acontece na Holanda o que está a acontecer em muitos países europeus: os partidos do centro-direita incorporam parte do discurso dos extremistas. Mark Rutte (VVD), que perdeu 8 lugares mas manteve a liderança, importou grande parte do discurso de Wilders, sendo, em alguns temas fundamentais que marcam a fronteira entre a direita civilizada e a extrema-direita, difícil distingui-los. Mas se for europeísta – a saída na UE não é, de facto, uma questão para os holandeses – tudo parece deixar de ser um problema para os observadores europeus.

O alívio com o resultado de Wilders parece ter obscurecido um dos dados mais impressionantes: o resultado do Partido do Trabalho (PvDA), de Jeroen Dijsselbloem. Ele é especialmente relevante porque confirma um padrão europeu: a pasokização de vários partidos socialistas e trabalhistas europeus. Tão mais violenta quanto maior tenha sido a sua cedência a uma agenda que lhe devia ser estranha.

O PvdA passa de 38 para 9 deputados, de segunda para sétima força, ficando abaixo dos partidos à sua esquerda. É por isso estranho que Augusto Santos Silva se venha congratular com os resultados na Holanda, falando do ano da derrota do populismo, quando, apesar do alívio por Wilders não ter chegado ao topo, temos a direita tradicional a absorver parte do seu discurso e o centro-esquerda a eclipsar-se da vida política holandesa.

Apesar da boa notícia do crescimento menos acentuado do que o esperado do PVV, estes resultados confirmam o que tenho vindo a dizer: que a xenofobia e a islamofobia são capas para um descontentamento mais profundo, que resulta muito mais das políticas sociais do que da imigração. Segundo os estudos de opinião, as maiores preocupações dos eleitores dos principais partidos holandeses (incluindo os de direita) são a manutenção do sistema de saúde e a segurança social. A terceira é a luta contra o terrorismo e a quarta é dinheiro para a educação. A integração dos imigrantes e os refugiados é apenas a nona.

Apesar do alívio por Wilders não ter chegado ao topo, temos a direita tradicional a absorver parte do seu discurso e o centro-esquerda a eclipsar-se da vida política holandesa

Para animar (pelo menos anima-me a mim), só mesmo a subida da esquerda verde, que passa de 4 para 14 deputados, e a resistência do Partido Socialista (uma espécie de Bloco de Esquerda), que, apesar de cair um pouco, passa dos 15 para os 14 deputados. O padrão repete-se: os partidos do centro caem, o centro-esquerda cai muito mais do que o centro-direita, e, para além da extrema-direita, crescem partidos da esquerda progressista e ecologista. É uma boa notícia mas não chega para fazer uma festa. E é bem diferente da imagem de normalidade e continuidade que se está a tentar passar.

Nota: Como reação ao meu artigo de segunda feira, “O dia em que fui enganado por Jaime Nogueira Pinto”, o principal visado contactou-me para me informar que, ao contrário da versão do diretor da FCSH, nunca concordou com o adiamento ou cancelamento da sessão. Como é impossível confirmar qualquer uma das versões, por resultarem de uma conversa a dois, cabe-me apenas transmitir esta e deixar a cada leitor o direito a tirar as suas conclusões.