Foi você que falou de “cancelamento”?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 25/02/2021)

Não sei quantos xenófobos haverá em Portugal. Mas trinta mil já são seguros. Acham que há cidadãos de segunda, com liberdades de segunda e opiniões de segunda, dependendo do lugar onde nasceram. Perante qualquer critica, queixam-se de “cancelamento” e do “politicamente correto”. Mas para quem se atreva a confrontar as suas posições exigem deportações. O objetivo da vitimização militante e da intimidação agressiva é o mesmo: ficarem a falar sozinhos. Até chegarem ao poder e usarem meios mais eficazes.


O “cancelamento” de figuras públicas por causa de opiniões consideradas menos corretas é muito popular nos Estados Unidos. Ondas de julgadores usam as redes sociais e o espaço público para banirem alguém por alguma coisa que disse ou defendeu, obrigando-o a ceder, a mudar de posição ou a fingir que mudou. Ou a calar-se. A conversa é mais difícil do que parece. Qualquer pessoa tem o direito a reagir a uma opinião que lhe desagrada ou repugna. A democracia vive disso. Quando isso passa a ser viral os efeitos podem ser devastadores. E, no entanto, cada um dos que reage não faz mais do que usar a sua liberdade de expressão. Cabe-lhe distinguir se participa num linchamento que serve para criar medo de falar ou num debate livre com contraditório.

Também não é indiferente a função da pessoa que é contestada. Se for alguém que ocupa um cargo de relevância política, o escrutínio das suas opiniões é inerente à sua função. Exigir que as pessoas não avaliem as suas opiniões é querer amputar a democracia de conteúdo. Os políticos não são meros gestores. O que pensam e dizem conta. É o que mais conta, aliás.

Para se vitimizarem, sectores mais conservadores da nossa sociedade importaram de forma bastante amplificada as dores das vítimas da cultura de cancelamento nos EUA. Mas basta passear pelas redes sociais para perceber como o debate é um pouco deslocado. Sim, há uma cultura de trincheira que se instalou em todo o lado, onde a persuasão foi substituída pelo julgamento, a opinião livre pelo tribalismo e o argumento pelo insulto. À esquerda e à direita. Mas, tirando em alguns nichos no Twitter e alguns artigos de jornais, o “politicamente correto” é um produto gourmet de consumo limitado em Portugal. Mesmo na Academia, é quase irrelevante. Se há madraças políticas neste país, são as faculdades de economia, onde pontos de vista ideológicos são impostos como se de ciência exata se tratasse. Ainda recentemente tivemos sinais da dificuldade que essas faculdades têm em ver o seu nome associado à livre expressão do pluralismo.

Na semana passada, os mártires do “politicamente correto”, com posição hegemónica no espaço de opinião, dedicaram-se a rasgar as vestes por causa do escrutínio a posições que o novo presidente do Tribunal Constitucional deixou escritas sobre assuntos de relevância constitucional. Não escrevi sobre o tema porque nem ele me aquece muito nem, no início, achei que um artigo escrito há onze anos tivesse relevância suficiente. Quando todos os artigos surgiram ficou evidente um padrão de opinião. Legitima e livre, mas nem por isso irrelevante quando tem relação com o cargo que o jurista agora ocupa. Respeitar a liberdade de expressão não é tornar as opiniões inconsequentes. Isso é, aliás, desrespeitá-la. Quando são públicas e se relacionam com a função num determinado cargo público, devem ser debatidas e escrutinadas.

Enquanto as supostas vítimas do “politicamente correto” se queixam de qualquer crítica feita em qualquer rede social, sem qualquer consequência que não seja a legítima manifestação de discordância de cada um, acontecem coisas realmente graves neste país. Verdadeiras tentativas de cancelamento, mas em versão musculada.

Trinta mil pessoas assinaram uma petição, que levarão ao Parlamento, propondo a deportação de um cidadão português por ter chamado criminoso de guerra a Marcelino da Mata. A contestação a esta afirmação é legítima e livre, a consequência que propõem é reveladora. Não sei quantos xenófobos haverá em Portugal. Mas trinta mil já são seguros. Porque quem acha que um português que nasceu noutro país merece pena diferente pelo uso da sua liberdade de opinião do que quem nasceu em Portugal assume-se sem margem para dúvidas como xenófobo. Acha que há cidadãos de segunda, com liberdades de segunda e opiniões de segunda, dependendo do lugar onde nasceram.

Comparar o escrutínio, absolutamente natural em democracia, de posições sobre matérias constitucionais de um presidente do Tribunal Constitucional aos apelos de deportação por delito de opinião é um insulto à nossa inteligência. Defender a liberdade de expressão não é defender a indiferença perante a opinião. É defender que o escrutínio se faz dentro das regras democráticas.

Na mesma semana, André Ventura espalhou um vídeo de uma aula à distância, captado ilegalmente, para acicatar o ódio dos seus apoiantes contra um professor devidamente identificado, sem qualquer instrumento de defesa, que referiu uns factos que ele acha que não podem ser referidos nas aulas. Apesar de tudo, não nos podemos queixar. Por cá, ainda não se prendem rappers pelo conteúdo das suas músicas.

Há uma total dessintonia entre a vitimização de um sector político da sociedade e o seu comportamento. Perante qualquer critica, queixam-se do cancelamento e da censura do “politicamente correto”. Mas para os que se atrevem a confrontar as suas posições exigem processos disciplinares e deportações. O objetivo da vitimização militante e da intimidação agressiva é o mesmo: ficarem a falar sozinhos. Foi sempre o que fizeram na História. Até chegarem ao poder e usarem meios mais eficazes. Não é que nos escondam ao que vêm. A deportação é, como foi no passado, o mais simpático que têm para oferecer.


Quem tem amigos “pretos” não pode ser racista?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 18/11/2020)

A maneira mais fácil e, ao mesmo tempo, mais pateta de tentar apresentar credenciais antirracistas é dizer ao interlocutor, peito inchado a simular brio, cara frontal a dramatizar orgulho, esta banalidade disparatada: “eu até tenho amigos pretos!”.

Tal frase normalmente fecha uma conversa onde o proclamador da camaradagem inter-racial na vida privada lista uma série de razões de queixa sobre a convivência social que se vê obrigado a manter com pessoas de ascendência africana: “abusadores”, “ignorantes”, “preguiçosos”, “estúpidos”, “barulhentos”, “desrespeitosos”, “macacos”, “selvagens” e outras finezas semelhantes, ou bem piores, preenchem o prelúdio, o andamento, a melodia, o ritmo e a harmonia de um concerto de insultos que termina, em apoteose, num último compasso, com uma hipócrita ode à amizade entre raças.

Normalmente o branco que proclama a quem o quiser ouvir a amizade pessoal com negros é um racista, um horrível racista, um perigoso racista. Porquê?…

Em primeiro lugar, porque a própria ideia de classificar o círculo de amizades pessoal por raças é uma atitude racista.

Não passa pela cabeça de um branco português dizer “eu até tenho amigos brancos”, pois não encontra nesse facto nada de “anormal” a registar, não encontra qualquer diferenciação entre si próprio e os outros brancos que justifique assinalar publicamente tal ocorrência.

Quando um branco começa a dizer que até (e esta palavra “até” sublinha a singularidade do facto) tem amigos de outras raças está a discriminar, está a separar um agregado em particular da unidade grupal que constituem todos os seus amigos, está a diferenciar esse conjunto de indivíduos não por serem melhores ou piores amigos, não por serem constantes ou ausentes do quotidiano desse círculo de camaradagem, não por serem de maior ou menor confiança. Eles são catalogados e separados do grupo de amigos do branco português apenas por terem uma cor de pele diferente. Isto é puro racismo.

Esta discriminação também abrange outros tipos de preconceitos étnicos bem como atitudes homofóbicas, xenófobas e, mesmo, políticas.

A declaração “eu até tenho amigos gays” é frequentemente ouvida sair da boca de homofóbicos. “Eu dou-me bem com ciganos” ou “nada tenho contra os judeus” são braços da mesma raiz de ódio e preconceito.

Até antirracistas e antixenófobos alimentam-se da mesma planta moral dos racistas para resolver debates políticos anticomunistas quando disparam o fatal “eu até tenho amigos comunistas”, “tu és um comunista diferente dos outros” ou, pior, “o meu pai até foi comunista, mas…”. Farto-me de ouvir isto…

Há neste tipo de frases um inevitável tom condescendente e paternalista, uma assunção de superioridade assassina do equilíbrio da relação entre os interlocutores destes diálogos.

A declaração de amizade que o racista branco concede a alguns negros tem subjacente um suposto ato de generosidade do primeiro para com o segundo: o branco racista tem amigos negros apesar dos defeitos que aponta à generalidade da “raça”.

Esta é a mesma caridade classista das senhoras de sociedade que dizem às outras que se dão com “gente do povo”, que frisam o gosto em lidar com “pessoas simples” e que concluem encontrar ali a “autenticidade” em falta nos círculos da alta burguesia.

Esta é a parte mais horrível do racismo, pois está diretamente ligada ao alimento geracional da estratificação social em exploradores e explorados, é um dos pilares do edifício da injustiça social.

Este racismo do branco português é aliás ridículo e um tiro no pé. Se for para os Estados Unidos da América, o branco português deixa de ser branco, passa a ser classificado como hispânico ou latino e está sujeito a ouvir da boca de um americano branco a frase assassina: “eu até tenho amigos latinos.” De condição de explorador passa, num instante, à condição de explorado.

Finalmente, o racismo escondido atrás da frase “eu até tenho amigos pretos” é perigoso porque tenta ilibar o racista do seu racismo: mais do que desculpabilizar, procura-se justificar, racionalizar, defender. O autor desta frase, subliminarmente, afirma nada ter contra as pessoas com a pele de cor negra e, por nada ter contra elas, a sua argumentação e os insultos que profere não podem ser racistas e, por isso, são racionalizações, análises e pensamentos razoáveis, justos e objetivos.

A frase “eu até tenho amigos pretos” é um instrumento de propaganda racista construída para convencer pessoas não racistas a apoiar ideias racistas. Isto é perigoso.

Quando, numa entrevista na TVI, Miguel Sousa Tavares perguntou a André Ventura se ele tinha “algum amigo preto”, o candidato presidencial, em vez de responder que não aceitava classificar as amizades pessoais por raças ou de protestar pela utilização da palavra “preto”, respondeu que sim, que tinha vários e que até trabalhava com um.

A minha primeira reação foi lembrar-me de um quadro do humorista Dave Chapelle sobre um negro cego que se julgava branco, era racista, lutava pela supremacia branca e acabou líder do Ku Klux Klan. Quando, finalmente, percebeu que era negro, conformou-se, mas pediu o divórcio da mulher com quem esteve casado 19 anos “por ela ser uma amante de pretos”.

A minha segunda reação foi que, pelas razões atrás expostas, a resposta dada à pergunta do jornalista demonstrou o racismo, talvez inconsciente, mas claramente assinalável, da forma de pensar de André Ventura e isto é mais importante e mais relevante registar do que discutir os méritos ou deméritos da entrevista de Miguel Sousa Tavares, como estou a ver por aí.

Já agora, deixo duas perguntas.

Primeira pergunta: Será que para não ser racista tenho de ter amigos negros, índios, asiáticos, mestiços e sei lá que mais?

Segunda pergunta: Porque é que nunca ouvi uma pessoa de pele negra dizer “eu até tenho amigos brancos”?…


Giovani: há silêncios esclarecedores

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 14/01/2020)

Daniel Oliveira

Não costumo escrever sobre crimes. Porque alimentar o medo num dos países mais seguros do mundo me parece absurdo. Porque faço comentário político, e só faz sentido comentar um crime quando ele tem consequências ou motivações políticas. Se fosse claro que a morte de Giovani, estudante cabo-verdiano da Universidade de Bragança, tinha resultado de um crime de ódio racial teria escrito sobre ela. Não sendo claro, decidi nada escrever ao longo destes dias. Não porque não ache o crime bárbaro, mas porque não encontro nada de político que me permita fazer um comentário. E se critico aqueles que acham que um crime só é notícia quando o agressor é cigano ou imigrante e que só acham que a etnia é relevante quando o crime é cometido por não brancos, não faço o oposto.

Na verdade, este crime até poderia ter consequências políticas e poderia merecer comentários de responsáveis públicos. Um terço dos estudantes do Politécnico de Bragança são estrangeiros, de 70 nacionalidades diferentes. Este crime teve grande impacto na cidade, onde a instituição de ensino superior ganhou uma enorme centralidade. Cria uma sensação de insegurança que pode ter efeitos na imagem e na economia de Bragança.

Por outro lado, há as queixas de laxismo da polícia, feitas pela família de Giovani. O pai do jovem diz que a PSP negou a três dos seus amigos a possibilidade de apresentarem queixa quando estes se dirigiram, no dia seguinte à agressão, à esquadra: “Quando eles foram apresentar queixa à esquadra da PSP negaram-lhes que apresentassem queixa. Disseram-lhes que tinha de ser o próprio a apresentar queixa e que Giovani tinha seis meses para o fazer. Ver aqui . Esperam-se mais esclarecimentos sobre esta atitude, num caso que teve um seguimento – mas também uma origem – muito diferente da que existiu no caso do Campo Grande, em Lisboa. Só o empenhamento policial pode dar garantias a todos que não há tratamento diferenciado.

O que repugna na morte violenta de Giovani não é a nacionalidade ou etnia da vítima. O que repugna é que a sua etnia tenha decretado o silêncio ou discrição de quem costuma fazer da insegurança o centro do seu discurso político

A minha crónica acabaria por aqui – e por isso nem a escreveria – se a nossa situação política não tivesse mudado nos últimos meses. Não me entrego a perigosas acusações de crimes de ódio quando não sei se isso é verdade. Nem sequer sabemos a etnia dos agressores, apenas da vítima. Não me arrisco a definir a natureza de um crime pela cor de pele da vítima, assim como, ao contrário de André Ventura, não o faço pela cor do criminoso (só achou relevante a agressão a um médico quando teve a certeza que a agressora era cigana). Mas perante esta nova personagem e os que a imitam é difícil ficar por aqui.

Façamos, de boa-fé, este exercício: imaginem a notícia de que, na pacata cidade de Bragança, 15 cabo-verdianos, munidos com cintos, ferros e paus, tinham provocado a morte de um estudante. Imaginem, sem se perderem em minudências a que nunca se dá relevância nestes momentos, o debate que se instalaria. Acreditam que André Ventura e seus novos companheiros de caminhada passariam duas semanas sem abrir a boca sobre este assassinato, só se referindo a ele para sublinhar a incoerência dos outros?

O homem que fala de insegurança a todas as horas só se referiu a este caso, que provocou compreensível alarme social, duas vezes, que eu tivesse conseguido identificar. Uma para sublinhar a incoerência da esquerda e outra para partilhar o boato não confirmado de um site de extrema-direita (o mesmo que enviou um provocador para se fazer passar por “repórter” na manifestação de pesar pela morte de Giovani), que atribuía o assassinato do cabo-verdiano a ciganos. “Ui, agora é que a Joacine e o Bloco de Esquerda vão ter de arranjar um buraco bem fundo para se esconderem”, escrevia no seu Facebook, com uma satisfação pouco recomendável para o tema, o deputado. Para ele, o valor das vidas e dos crimes resume-se a este triste campeonato. Em nenhum momento decidiu dedicar uma palavra àquele que deverá ser um dos crimes mais graves a que Bragança assistiu nos últimos anos. Desta vez, esqueceu-se da “insegurança crónica” que se vive em Portugal.

O que repugna no assassinato de Giovani não é a nacionalidade ou etnia de agressores e vítima. O que repugna é que, mesmo tratando-se um crime que tem um forte impacto na vida de uma cidade, a etnia da vítima tenha decretado o silêncio ou discrição de quem costuma fazer da insegurança o centro do seu discurso político. E a certeza de que se fosse ao contrário não seriam tão discretos.