RUI RIO ENGANOU-SE NO NÚMERO DA PORTA

(In Blog O Jumento, 15/05/2018)
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Parece que se esqueceram de informar Rui Rio de que Sócrates já não é primeiro-ministro desde julho de 2011 e que, entretanto, o PSD já governou uma legislatura. Depois de algumas pantominices, como o retiro espiritual no Porto a seguir a ganhar a liderança do PSD, o tratamento ridículo dado a Hugo Soares até lá meter o Negrão ou os consensos com o PS, Rui Rio decidiu ser um líder da oposição a sério, mas enganou-se no número da porta e actua como se o primeiro-ministro fosse o José Sócrates.
Digamos que Rui Rio não acerta como líder da oposição. Começa por centrar a oposição no ministro que ninguém quer que caiam e que tem mais prestígio internacional e junto dos eleitores. Quando percebeu que não tinha sorte andando nas pediatrias dos hospitais para atacar Mário Centeno, o líder do PSD decidiu centrar a sua oposição num primeiro-ministro, mas como Costa está forte optou por um que ele julga que está na mó de baixo, José Sócrates.
Parece ser ridículo mas é verdade, desde que Rui Rio mandou Negrão ao debate com o governo atacar José Sócrates, questionando António Costa na qualidade de secretário-geral do PS, que todas as atenções se centram agora na ação dos ministros de … José Sócrates. Nas pastas das Finanças ataca-se Teixeira dos Santos, nas Obras Públicas o Mário Lino e por aí adiante, os únicos ministros de António Costa que merecem ser alvo de oposição são aqueles que também estiveram com Sócrates. O próprio Costa deixou de ser criticado pelo que faz como primeiro-ministro, mas sim como ex-ministro de Sócrates.
A ideia parece ser boa, mas revela incompetência. Se o PSD vai ao arquivo e ressuscita ministros para fazer oposição é porque não tem argumentos para criticar o governo que está em funções. Mas, não passa apenas uma imagem de incapacidade, dá de si uma imagem de cobardia, adoptou esta estratégia porque julgam que o PS deixou cair José Sócrates e este está definitivamente condenado. Aliás, um dos momentos mais miseráveis a que se assistiu no parlamento foi quando Fernando Negrão se referiu à acusação a Sócrates quase como uma condenação transitada em julgado.
Desde a posse deste governo que o PSD ainda não conseguiu fazer oposição; com Passos Coelho optou-se por aguardar pela vinda do diabo, Rui Rio opta por uma oposição quixotesca e vai à luta contra moinhos de vento.
Rui Rio revela-se um líder da oposição sem competência para esse papel, é incapaz de formular uma crítica; até ao momento ou fala de banalidades ou aproveita-se de incidentes para sugerir que a culpa é do Centeno. É incapaz de fazer uma crítica ao governo nos muitos dossiers geridos pelos seus governos. Agora desistiu mesmo de fazer oposição a este governo, optando por ser líder da oposição ao governo de … José Sócrates. Esperemos que quando quiser reunir com o Presidente da República não se engane, se o que o preocupa é Sócrates o lógico é que solicite a audiência a Cavaco Silva.
Que bela oposição, passa a imagem de quem não tem, argumentos, que não apresenta qualquer política alternativa, que espera desgraças para ter argumentos e que em vez de enfrentar Costa prefere fazer oposição a quem já não está no governo mas parece estar na mó de baixo. Enfim, estas são as qualidades  de um primeiro-ministro que espera que elas venham a ser premiadas pelo voto dos eleitores.
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Banhadas de ética

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 23/03/2018)

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João Quadros

O meu único receio é o facto de José Silvano ter sido condecorado por Cavaco Silva, e nós sabemos como acabaram a maioria das pessoas que foram condecoradas pelo velho Aníbal.


José Silvano é o novo secretário-geral do PSD. Silvano sucede a Feliciano Barreiras Duarte, que se demitiu do cargo depois de se ver envolvido em polémicas com o currículo e um subsídio de deslocação como deputado, ou seja, aldrabices que fez desde o tempo em que era secretário de Estado e chefe de gabinete de Passos, mas só, agora, deram por isso. Coitado do Rui Rio, para isto correr pior só lhe falta apanhar sarampo. Esta demissão foi um banho gelado de ética.

Feliciano demitiu-se, fez acusações às víboras do partido, e disse que se calhar até perdeu dinheiro com as trafulhices nas moradas. Só lhe faltou afirmar – “este ano até aldrabei as contas do IRS para conseguir subir de escalão e enterrei as facturas para não ter descontos.”

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse que não comenta a demissão no PSD, mas recordou que “não vale tudo na política” e foi jantar uma vichyssoise.

Resumindo, depois da investigação na Torre do Tombo feita pelo jornal online Observador, Feliciano foi corrido e José Silvano é o novo secretário-geral do PSD. Pergunta o mais chato dos meus leitores: “Quem é José Silvano? – como tenho uma paciência de santo, vou responder.

José Silvano é ex-presidente da Câmara de Mirandela. Teve os seus segundos de fama quando, em 2006, um ano depois de vencer as eleições autárquicas, decidiu colocar, como no filme, três cartazes de protesto contra a desertificação do interior junto à estrada IP4. As mensagens eram: “Aqui Termina o Portugal da Igualdade de Oportunidades – Bem-vindos a uma zona em desertificação. Próxima saída a 70 quilómetros, Espanha”. Tem tudo para correr bem excepto se o jornal online Observador, entretanto, não descobrir que não foi ele que fez os cartazes ou que houve dezenas de acidentes no IP4 porque as pessoas se distraíam a ler os “outdoors” do Silvano, ou que , afinal, ele aldrabou e são apenas 68 quilómetros até Espanha.

O Observador andou anos a atacar a geringonça e nem um risco na máquina conseguiu fazer, mas desde que a redacção do jornal de (extrema) direita começou a atacar o PSD de Rui Rio, não há dia que não faça mossa no partido. O Observador, finalmente, descobriu a sua verdadeira vocação. Qual será a nódoa que o jornal tem guardada para cair no nobre pano transmontano de José Silvano?

Convém recordar que Miguel Sousa Tavares no jornal da noite da SIC disse , sobre o novo secretário-geral do PSD: “Transmontanos, normalmente, são boa gente e não fazem malabarismos” – hum… assim, de repente , lembro-me de um transmontano que era um razoável malabarista com robalos: Armando Vara. Talvez, desta vez, Rui Rio tenha conseguido escolher alguém com todos os cantinhos bem lavados em termos de ética. O meu único receio é o facto de José Silvano ter sido condecorado por Cavaco Silva, e nós sabemos como acabaram a maioria das pessoas que foram condecoradas pelo velho Aníbal.


TOP-5

Silvano

1. Toupeira do Benfica recebeu dez mil euros suspeitos – Fico muito triste, pensei que era só paixão ao clube – camisolas e convites para jogos -, uma espécie de corrupção platónica mas afinal são todos iguais. Dez mil euros. Já não há amor à camisola.
2. Santana critica forma como direcção de Rio convidou Feliciano a demitir-se e lança o desafio a Rui Rio: “inaugurar a liderança” – Está forte! Imaginem se Santana tem perdido as eleições do PSD.
3. José Sócrates volta à Universidade (Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra) para falar sobre a crise pré-troika – Era mais interessante se fosse sobre o durante e a vida em Paris.
4. Ministério Público pede 5 anos de pena suspensa para Miguel Macedo – Se fosse pelo pescoço estava capaz de achar a pena justa.
5. Marcelo apela a que futebol português manifeste a mesma grandeza “lá fora” e “cá dentro” – E pediu dois bilhetes VIP para o Braga-Sporting.

 

 

A teoria do muro

(Francisco Louçã, in Expresso, 20/03/2018)

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(Este texto de Louçã merece reflexão e deve preocupar todos aqueles que, como eu, saudaram o surgimento do actual governo e o fim do guetto parlamentar a que os partidos à esquerda do PS estiveram votados durante 40 anos. Há vozes e forças dentro do PS que teimam em fazer emergir o  velho e relho centrão e não sei se Costa terá força – ou mesmo vontade -, de as conter. É essa a táctica e o plano da direita mais pragmática e inteligente e foi para isso que apearam o Passos do trono do PSD. Cabe aos democratas de esquerda frustar-lhes os desígnios.

Comentário da Estátua, 20/03/2018)


Numa curiosíssima investigação de ontem de um jornal de referência, o Público, uma “fonte” do ministério das finanças expende anonimamente uma teoria sobre o Orçamento para 2019, sob o título certamente expressivo de “Centeno não dá margem para aumentos na função pública”, que deve merecer toda a atenção. Essencialmente, a teoria é esta: não há dinheiro para repor o nível salarial perdido (cada funcionário recebe hoje menos 11,9% do que em 2010, em média) e o governo deve impor a manutenção do corte, até porque, faça o que fizer, o orçamento será sempre aprovado dado que os seus parceiros não querem uma crise política nas vésperas de eleições. Esta teoria tem, portanto, um discurso orçamental e um ultimato político.

Dirão os leitores, batidos nestas coisas: a política, sobretudo anónima, é feita de prosápia e, por isso, mais vale não ligar muito a cenários e pressões, até porque não consta que o Orçamento tenha começado a ser negociado (e bem devia). Talvez a leitora ou o leitor possam assim concluir um conselho aos partidos de esquerda: não liguem a fontes disfarçadas mais do que uma máscara merece, o Carnaval já passou, hoje é primavera, não reajam com nervosismo. A consistência é a força que move uma política e quem puder apresentar trabalho feito em negociações árduas e em soluções concretas será quem ficará a ganhar.

Ora, mesmo que predomine a cabeça fria, há que reconhecer que esta chantagem do não-dá-margem tem ainda uma outra implicação, além do jogo de sombras para condicionar uma negociação que o principal protagonista, o ministério das finanças, nem parece disposto a iniciar (alguém registará esta curiosa estratégia de suscitar um debate preventivo sobre um tema em que só fica assinalado que o governo não quer conversar sobre o assunto que traz a público). É que há nisto uma teoria, a teoria do muro.

A teoria do muro, como qualquer boa teoria, tem três axiomas: o primeiro é que o governo só vai até ao muro definido pelos acordos de 2015 com os partidos de esquerda; o segundo é que, em tudo o que importa, o governo decide como se tivesse maioria absoluta; e o terceiro axioma é que os dois primeiros são regras inquestionáveis. Além dos axiomas, a teoria ainda tem duas hipóteses auxiliares, que se chamam Rui Rio e Assunção Cristas: Rio mobiliza o entusiasmo do PS para voltar a acreditar numa maioria absoluta e Cristas ajuda o PS na divisão da direita.

A teoria é coerente, bem pensada e perfeitinha. E pode ser a condenação da estratégia de governo do PS, parece mesmo a armadilha que a bazófia coloca a si própria. Porque, além de axiomas e hipóteses auxiliares, há a realidade, tão aborrecida que ela é.

A realidade é que o PS está longe da maioria absoluta, o pouco que lhe falta é imenso. O PSD precisaria de cair mais – abaixo do que é já muito baixo – e o CDS de ficar insignificante, para que Costa possa sonhar com a maioria absoluta. Não basta o entusiasmo de um Júdice ou de um Soares dos Santos ou de outros que, descrentes da direita, saltam para o comboio esperançoso de um PS reforçado para por ordem na casa e devolver o regime de benefícios e mordomias que tantas saudades gera. Numa palavra, a teoria pede que o PS seja um muro contra a esquerda para ganhar votos à direita. Só que isso seria arriscar tudo na campanha eleitoral e para resultados perigosos: falhando, o PS ficaria dependente de Rio para o Orçamento de Estado e o PSD teria em breve a sua oportunidade de escolher o momento de “ir ao pote”, como Passos Coelho um dia elegantemente explicou. A teoria do muro é a única hipótese de sobrevivência de Rio depois de 2019.

Mas há ainda a realidade mais comezinha do dia a dia: a teoria do muro estatui que o governo só cede à esquerda no salário mínimo e nas matérias que estão escritas na pedra dos acordos de 2015. Ou seja, se o governo seguir essa teoria, não trata com os seus parceiros de nada de relevante dos problemas da governação, não estuda novas soluções, não se interessa por corrigir os erros, segue em frente como se não houvesse amanhã. Com a teoria do muro, para o governo a relação com os seus aliados basear-se-ia num minimalista contrato a prazo, desinteressado dos problemas que há que resolver. Saúde? Não interessa. A tal “fonte” nem sequer se dá à maçada de explicar como é que o concurso de centenas de médicos especialistas ficou retido um ano só porque sim. Segurança social? Regras para as carreiras longas? Contratação dos precários? A tal “fonte” não se perturba pelo facto de decisões acordadas demorarem mais um ou dois anos a executar do que estava definido, e nem se sabe se esses prazos serão cumpridos.

A teoria do muro determina que nas questões que importam, para além da restituição de rendimentos, fica tudo como está: o muro não deixa passar nada. Serviços públicos? Muro. Investimento? Muro. Transportes? Muro. Habitação para os jovens em cidades que se tornaram das mais caras da Europa? Muro. Bem-estar que as pessoas reconheçam? Muro. Garantias na saúde? Muro. Então, entusiasmado com Rui Rio, algum PS, capitaneado pela nossa “fonte” anónima, incha-se de satisfação com a teoria do muro: agora somos nós, basta o ultimato e acelerar. Em resumo, a teoria propõe um curso de ação que é a mais evidente garantia de que conduzirá ao falhanço, porque desiste de governar e assume que a prioridade é o jogo.