O fracasso do senhorito Guaidó 

(In Resistir, 30/04/2019)

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és…

Após o fracasso da tentativa de golpe de 23 de Fevereiro, em 30 de Abril o senhorito Guaidó fez uma nova tentativa e teve um novo fracasso. Isto revela muito acerca da inépcia dos agentes designados pelo império. Ao referido indivíduo fora ministrado um curso do NED , na ex-Juguslávia, acerca de técnicas para fazer revoluções coloridas.

Mas hoje, diante deste novo flop, pode-se verificar que o seu aproveitamento foi pequeno. A tradição do imperialismo de arrebanhar lumpens, marginais e mercenários para promover tumultos e golpes – tal como fez a CIA em 1953 contra o governo iraniano, de Mossadegh – é inútil quando se depara com a coesão das Forças Armadas e a consciência anti-imperialista do seu povo.

É o que acontece na Venezuela Bolivariana, apesar de todas as sabotagens e tentativas de desestabilização contra ela. 

Registe-se o papel ridículo dos vassalos americanos da UE (governo português inclusive) que servilmente, cumprindo ordens de Washington, reconheceram o governo do supracitado senhorito. Registe-se ainda a actuação repugnante e histérica da TV portuguesa na cobertura dos acontecimentos de hoje na Venezuela.


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Venezuela ou o encobrimento dos meios de comunicação sobre o rompimento de diálogo por parte dos opositores venezuelanos apoiados pelos EUA e pela UE 

(Miguel Ángel Moratinos, in A Viagem dos Argonautas, trad. Francisco Tavares, 05/02/19)

Para lá de uma defesa do trabalho de mediação de Zapatero, este é um texto bem elucidativo sobre o encobrimento dos meios de comunicação sobre o rompimento de diálogo por parte dos opositores venezuelanos apoiados pelos EUA e pela UE e sobre aquilo que verdadeiramente desejam para a Venezuela: não uma solução negociada, democrática, mas a imposição do derrube de um regime que, pelos vistos, tem tido mais actos eleitorais que qualquer outro país do hemisfério sul nos últimos 20 anos.

Como se pode ver, o golpe de Estado que está em curso não nasceu no dia 23 de janeiro com a autoproclamção de Guaidó….


Continuar a ler aqui: Venezuela ou o encobrimento dos meios de comunicação sobre o rompimento de diálogo por parte dos opositores venezuelanos apoiados pelos EUA e pela UE – “Em defesa da mediação de Zapatero”, por Miguel Ángel Moratinos | A Viagem dos Argonautas

Ainda se vão descobrir armas de destruição maciça na Venezuela

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 05/02/2019)

LOUCA3

Há várias formas de capturar um território com reservas de petróleo e nenhuma é fácil. A mais confortável é ter lá um governo que proteja os interesses da potência hegemónica, até deve ter capacidade militar e, de preferência, ser uma ditadura. É mais seguro. Se for uma ditadura teocrática, excelente, tudo se justifica. Assim género Arábia Saudita.

A segunda forma é uma guerra de ocupação. É um quebra-cabeças. Chega-se lá com um truque do tipo do incidente do Golfo de Tonkin, eles é que nos atacaram (1964, e foi a invasão norte-americana do Vietname), ou com o anúncio da descoberta das armas de destruição maciça de Saddam, ele é perigoso (2003, e foi a invasão norte-americana do Iraque). Mas tem sempre custos, botas militares no terreno podem voltar para casa em caixões. E depois os argumentos para a invasão são sempre um risco, como as tais armas no Iraque, uma certeza reafirmada na ONU por um general prestigiado, Colin Powell. Finalmente, mesmo que a opinião pública fique perplexa, há protesto e pode ser gigantesco, não por causa de Saddam Hussein, que ninguém tolerava, mas porque Washington já usou o truque vezes demais e não carecia de muito para perceber que mais uma guerra no Médio Oriente ameaçaria toda a região e a Europa. O resultado é, tudo somado, incerto. No Iraque, o saldo foi a extensão do poder de influência do Irão e mais terrorismo. Pagamos o preço ainda hoje.

Como a primeira estratégia não está disponível na Venezuela e a segunda é por ora demasiado arriscada, uma terceira está a ser ensaiada. Leva mais tempo, não é força concentrada, depende da evolução dos movimentos populares, é a estratégia do cerco e da convulsão interna. Ela depende de conseguir criar uma massa de revolta social. Mas há qualquer coisa de estranho que se está a passar: mal governada por um regime assente no petróleo, e o petróleo é sempre corrupção, que foi incapaz de diversificar a produção e de criar alguma soberania alimentar, cercada por sanções que impedem ou limitam as suas exportações, explorada pelos seus aliados chineses e russos, com os supermercados vazios, na Venezuela a opinião pública está dividida mas não se alinha facilmente com Trump. Onde se esperava uma cavalgada triunfante até à porta do palácio, vemos manifestações gigantes dos dois lados. E é por isso que este foi o momento escolhido para o reconhecimento internacional de Guaidó, ele precisa desse impulso externo para tentar dividir as forças armadas, depois de só ter conseguido a apresentação pífia de um coronel em Washington e de um general revoltado algures no país.

Há uma consequência desta terceira estratégia. É que ela exige política suja em bombardeamento maciço. Como se trata de jogar na divisão interna e de neutralizar a opinião pública internacional, é necessária uma devastadora campanha ideológica. Choque e pavor, mas não com bombas, será com notícias e opiniões. Tem de haver gritaria, choro, insultos, redes sociais em polvorosa. Ora, a estratégia vacilou no fim de semana, pois as televisões fizeram o seu trabalho e mostraram as duas manifestações. É inconveniente, esperava-se que só mostrassem a de Guaidó. Já tinha havido o caso da notícia da invasão da casa do pretendente. E depois o pateta veio contar como foi, uma carrinha branca com gente que se identificou como serviços secretos e que fizeram perguntas ao segurança que estava na guarita. Não pode ser assim, isto precisa de gente morta, imagens de desastre e violência.

Entretanto, como o caso se prolonga no tempo, vão surgindo alguns deslizes de nervosismo, como Bolton a sugerir que pode prender Maduro em Guantánamo (portanto, digam-me se estou a raciocinar bem: isso alegaria que o Presidente venezuelano é uma ameaça de segurança para os Estados Unidos e seria preso sob uma legislação de exceção que lhe retira o direito de defesa em tribunal). Outro erro, Trump vai lembrando uma invasão militar, tem de satisfazer os seus apoiantes, mas isso incomoda os governos europeus que, em estado de negação, rezam para que os militares internos lhes resolvam o problema que pode exigir militares invasores.

No fim, tudo se resume a isto: ainda se vai descobrir que deve haver armas de destruição maciça na Venezuela. Ou um incidente sangrento que justifique tudo. De uma forma ou outra, tem mesmo de haver o início de uma guerra civil para que a estratégia funcione. E já vimos de tudo, não é certo? Os alinhamentos mais surpreendentes são sempre possíveis e, para os que acham que os blocos geoestratégicos são uma garantia de proteção, venho lembrar-lhes que, após o golpe contra Allende, a China e o Vaticano foram os primeiros Estados a reconhecer o general Pinochet, enquanto os presos chegavam ao estádio de Santiago para serem fuzilados.