Ainda se vão descobrir armas de destruição maciça na Venezuela

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 05/02/2019)

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Há várias formas de capturar um território com reservas de petróleo e nenhuma é fácil. A mais confortável é ter lá um governo que proteja os interesses da potência hegemónica, até deve ter capacidade militar e, de preferência, ser uma ditadura. É mais seguro. Se for uma ditadura teocrática, excelente, tudo se justifica. Assim género Arábia Saudita.

A segunda forma é uma guerra de ocupação. É um quebra-cabeças. Chega-se lá com um truque do tipo do incidente do Golfo de Tonkin, eles é que nos atacaram (1964, e foi a invasão norte-americana do Vietname), ou com o anúncio da descoberta das armas de destruição maciça de Saddam, ele é perigoso (2003, e foi a invasão norte-americana do Iraque). Mas tem sempre custos, botas militares no terreno podem voltar para casa em caixões. E depois os argumentos para a invasão são sempre um risco, como as tais armas no Iraque, uma certeza reafirmada na ONU por um general prestigiado, Colin Powell. Finalmente, mesmo que a opinião pública fique perplexa, há protesto e pode ser gigantesco, não por causa de Saddam Hussein, que ninguém tolerava, mas porque Washington já usou o truque vezes demais e não carecia de muito para perceber que mais uma guerra no Médio Oriente ameaçaria toda a região e a Europa. O resultado é, tudo somado, incerto. No Iraque, o saldo foi a extensão do poder de influência do Irão e mais terrorismo. Pagamos o preço ainda hoje.

Como a primeira estratégia não está disponível na Venezuela e a segunda é por ora demasiado arriscada, uma terceira está a ser ensaiada. Leva mais tempo, não é força concentrada, depende da evolução dos movimentos populares, é a estratégia do cerco e da convulsão interna. Ela depende de conseguir criar uma massa de revolta social. Mas há qualquer coisa de estranho que se está a passar: mal governada por um regime assente no petróleo, e o petróleo é sempre corrupção, que foi incapaz de diversificar a produção e de criar alguma soberania alimentar, cercada por sanções que impedem ou limitam as suas exportações, explorada pelos seus aliados chineses e russos, com os supermercados vazios, na Venezuela a opinião pública está dividida mas não se alinha facilmente com Trump. Onde se esperava uma cavalgada triunfante até à porta do palácio, vemos manifestações gigantes dos dois lados. E é por isso que este foi o momento escolhido para o reconhecimento internacional de Guaidó, ele precisa desse impulso externo para tentar dividir as forças armadas, depois de só ter conseguido a apresentação pífia de um coronel em Washington e de um general revoltado algures no país.

Há uma consequência desta terceira estratégia. É que ela exige política suja em bombardeamento maciço. Como se trata de jogar na divisão interna e de neutralizar a opinião pública internacional, é necessária uma devastadora campanha ideológica. Choque e pavor, mas não com bombas, será com notícias e opiniões. Tem de haver gritaria, choro, insultos, redes sociais em polvorosa. Ora, a estratégia vacilou no fim de semana, pois as televisões fizeram o seu trabalho e mostraram as duas manifestações. É inconveniente, esperava-se que só mostrassem a de Guaidó. Já tinha havido o caso da notícia da invasão da casa do pretendente. E depois o pateta veio contar como foi, uma carrinha branca com gente que se identificou como serviços secretos e que fizeram perguntas ao segurança que estava na guarita. Não pode ser assim, isto precisa de gente morta, imagens de desastre e violência.

Entretanto, como o caso se prolonga no tempo, vão surgindo alguns deslizes de nervosismo, como Bolton a sugerir que pode prender Maduro em Guantánamo (portanto, digam-me se estou a raciocinar bem: isso alegaria que o Presidente venezuelano é uma ameaça de segurança para os Estados Unidos e seria preso sob uma legislação de exceção que lhe retira o direito de defesa em tribunal). Outro erro, Trump vai lembrando uma invasão militar, tem de satisfazer os seus apoiantes, mas isso incomoda os governos europeus que, em estado de negação, rezam para que os militares internos lhes resolvam o problema que pode exigir militares invasores.

No fim, tudo se resume a isto: ainda se vai descobrir que deve haver armas de destruição maciça na Venezuela. Ou um incidente sangrento que justifique tudo. De uma forma ou outra, tem mesmo de haver o início de uma guerra civil para que a estratégia funcione. E já vimos de tudo, não é certo? Os alinhamentos mais surpreendentes são sempre possíveis e, para os que acham que os blocos geoestratégicos são uma garantia de proteção, venho lembrar-lhes que, após o golpe contra Allende, a China e o Vaticano foram os primeiros Estados a reconhecer o general Pinochet, enquanto os presos chegavam ao estádio de Santiago para serem fuzilados.

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A Venezuela e os golpes brandos

(Por Francisco Tavares, in A Viagem dos Argonautas, 04/02/2019)

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Temos vindo a assistir nestes últimos dias, a mais uma tentativa de um golpe de Estado que derrube o governo de Maduro na Venezuela, ativamente promovido pelos EUA, a UE e outros aliados, apoiado em forças internas que, desde sempre, nunca aceitaram o regime bolivariano….


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Venezuela: O que eles esquecem

(Romain Mingus, in Resistir, 29/01/2019)

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O presidente francês, Emmanuel Macron, ordena a Nicolas Maduro que não reprima a oposição MAS ELE ESQUECE as 3 300 prisões e os 2 000 feridos ligados à repressão do movimento dos coletes amarelos.

O presidente do governo espanhol, Pedro Sanchez, dá oito dias a Nicolas Maduro para organizar eleições MAS ELE ESQUECE que não está no seu posto senão graças a uma moção de censura e não por eleições livres.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acusa Nicolas Maduro de não ser legítimo por o presidente venezuelano foi eleito senão por 30,45% dos inscritos, MAS ELE ESQUECE que apenas 27,20% dos eleitores estado-unidenses o escolheram.

O presidente colombiano, Ivan Duque, grita à “narco-ditadura venezuelana” MAS ELE ESQUECE que 65% da cocaína no mundo é fabricada na Colômbia, sob o olhar complacente das autoridades do país.

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, está preocupado quanto aos direitos humanos na Venezuela MAS ELE ESQUECE ter declarado que os movimentos sociais que se opusessem à sua política seriam considerados como organizações terroristas.

O presidente argentino, Mauricio Macri, acusa Nicolas Maduro de ser um corrupto MAS ELE ESQUECE que só o seu nome aparece nos Panama Papers, não o do presidente venezuelano.

Portugal deplora a crise venezuelano que, segundo a ONU, empurrou 7,2% dos venezuelanos para os caminhos da emigração MAS ELE ESQUECE que 21% dos portugueses tiveram de abandonar seu país e vivem no estrangeiro, segundo as mesmas fontes.

O presidente peruano, Martin Vizcarra, grita à ditadura na Venezuela MAS ELE ESQUECE que foi nomeado à frente do seu país sem o menor voto popular, apenas em substituição do presidente anterior destituído por corrupção.

No Reino Unido, os dirigentes denunciam os atentados à liberdade de expressão na Venezuela MAS ELES ESQUECEM que mantém, sem nenhum motivo válido, o jornalista Julian Assange em reclusão.

A Bélgica alarma-se com a situação da economia venezuelana MAS ELA ESQUECE que em Bruxelas a empresa Euroclear retém 1,25 mil milhões de dólares pertencentes ao Estado venezuelano.

Estas inversões acusatórias, próprias desta ” Escola do mundo invertido ” descrita por Eduardo Galeano, fazem parte do modus operandi da propaganda contra a Venezuela. Elas visam preparar a opinião pública internacional para a legitimidade de uma acção violenta contra o Povo venezuelano.

As bombas mediáticas já começaram a chover.


Fonte aqui