Grotesco

(In Blog O Jumento, 17/06/2017)

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«Luisa Salgueiro, dita a cigana e não é só pelo aspecto, paga os favores que recebe com votos alinhados com os centralistas.»


Foi nestes termos que um eurodeputado do Partido Socialista se referiu a uma deputada do seu partido no Parlamento de Portugal. Temos portanto um deputado que acha que os ciganos têm um determinado aspeto e têm comportamentos de baixo nível próprios da sua etnia. Se este deputado fosse do partido da Le Pen teria sido notícia por racismo, mas como é de um partido que desde sempre se opôs ao racismo a sua condenação é abafada pelo sentimento de vergonha.
Qualquer português que não seja racista sente vergonha de ser concidadão desta personagem, os portugueses têm razões para que o país não seja representado por este deputado no parlamento europeu, o partido Socialista tem nele uma mancha que envergonha toda a esquerda, daí a resposta pronta de António Costa.
Mas este senhor além de grotesco revela pouca inteligência, só alguém com grandes debilidades ao nível da capacidade intelectual escreveria o que ele escreveu, dito desta forma sincera são raros os casos de racismo nesta forma pura, em que se considera que uma etnia ou raça tem uma natureza maldosa. Julgo que só mesmo o nazismo se aproximava desta abordagem em relação aos judeus.
Mas o ainda e vergonhosamente deputado europeu acha que não escreveu nada condenável e agora usa a sua página de Twitter para tentar denegrir deputados como João Galamba, tenta a todo o custo colocar-se na posição de quem está a ser atacado por ter sido um aliado de José Seguro. Tenta trazer Seguro para a sua pocilga ao mesmo tempo que procura atingir António Costa enlameando o nome de João Galamba, alguém que tem mais qualidades e inteligência na ponta de um dedo do que o eurodeputado em todo o seu esponjoso volume.
Esperemos que Seguro e os seus mais íntimos não se deixem emporcalhar pelo seu velho companheiro de viagem e que o PS se mobilize para extrair este furúnculo.
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Lacerda na sombra e o bloco central ao espelho

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 14/06/2017)

 

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A nomeação de Diogo Lacerda Machado para presidente do Conselho de Administração da TAP é, como disse Pedro Passos Coelho, uma pouca vergonha? A resposta imediata não é simples. Por si só, não tem qualquer problema. A ideia de que o envolvimento do amigo de António Costa na negociação para a reversão de parte da privatização, em nome do Estado, cria qualquer tipo de conflito de interesses não faz grande sentido. Lacerda Machado negociou em nome do Estado e é em nome desse mesmo Estado que entrará para a TAP. Isto corresponde ao oposto de um conflito de interesses. Há uma confluência de interesses.

O que é grave e incompreensível é que Lacerda Machado tenha representado o Estado, não se sabe porquê e no início sem qualquer vínculo a ele, nestas negociações. Essa informalidade, habitual em algum nacional-porreirismo de que António Costa é cultor, levanta problemas para além daquele que o primeiro-ministro resolveu quando lhe garantiu, à pressa e de forma desajeitada, um contrato escrito. Lacerda Machado está em todo o lado em que o Estado tem problemas, apagando fogos como se fosse um ministro na sombra, um “faz-tudo” de Costa. E acumula essas tarefas com cargos em empresas privadas. Entre esses cargos esteve a Geocapital, uma empresa que foi parceira da TAP no pior negócio da sua história: a compra da Varig Engenharia e Manutenção. Tudo isto facilita a opacidade.

De cada vez que Passos tenta mostrar ao país a natureza do polvo socialista Costa devolve-lhe, num espelho, a natureza do bloco central. Costa embaraça o opositor, é verdade, mas não se pode dizer que fique bem no reflexo

Pelo perfil do envolvido e a natureza do lugar, a escolha de Lacerda Machado não tem a gravidade de tantos casos que conhecemos de políticos que saltam para o sector privado tendo como verdadeira utilidade os contactos que garantem e como verdadeiro currículo as facilidades que no Estado garantiram. Lacerda Machado não é Armando Vara no BCP, Eduardo Catroga na EDP, Pina Moura na Iberdrola, Jorge Coelho na Mota-Engil, Ferreira do Amaral na Lusoponte e tantos e tantos daqueles para quem a política foi uma rampa de lançamento para carreiras de gestão para as quais não estão qualificados nem, na realidade, vão propriamente exercer. Trapalhão como é, Catroga mostrou ao país o que lá fazem quando se dirigiu a Costa e lhe disse: “Se você precisar de mim para eu dar aí alguns entendimentos… Eu disponho-me a isso. Porque eu tenho uma visão da política que não é partidária.”

A nomeação de Lacerda Machado não corresponde exatamente a um padrão. Lacerda Machado não é um político. O lugar na administração da TAP não parece ser uma reforma dourada. Tendo interesses no privado, não temos razões para acreditar que se trate de um facilitador de negócios privados à custa do Estado. Tem sido, como já disse, um ministro na sombra para resolver problemas e carrega consigo toda a informalidade que Costa empresta à política. Não sendo uma pouca vergonha, é fortemente desaconselhável. E corresponde a uma cultura política que o primeiro-ministro não quer abandonar. Devia. O nacional-porreirismo é, com tantos sucessos políticos que tem tido, o seu calcanhar de Aquiles.

Outro dado interessante é a nomeação de Miguel Frasquilho como presidente da administração da TAP, um cargo mais relevante do que o de Lacerda Machado. Essa corresponde a um padrão e dá um sinal interessante. A geringonça não criou uma nova clientela. Apesar de serem determinantes para a maioria governativa, o Estado e as suas empresas não têm sido insuflados por boys e girls comunistas e bloquistas. Ao contrário do que aconteceu sempre que o CDS teve essa oportunidade.

Na realidade, mantém-se a lógica do bloco central. O que leva a esta situação caricata: sempre que Passos Coelho grita que é “pouca-vergonha” tropeça em alguém da sua entourage. Foi assim na Caixa, com Paulo Macedo, volta a ser assim na TAP, com Miguel Frasquilho. De cada vez que Passos tenta mostrar ao país a natureza do polvo socialista, Costa devolve-lhe, num espelho, a natureza do bloco central. Costa embaraça o opositor, é verdade, mas não se pode dizer que fique bem no reflexo.


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MULHER REPUDIADA A NORTE

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 20/05/2017)

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                                     Clara Ferreira Alves

Esta do repúdio, vindo de uma estrutura rosa, faz-me lembrar o divórcio dos países e religiões que assim o consentem e em que o marido começa por repudiar a mulher

Há tempo que não me ria tanto. Parece que existe pelo país marialva, algures a norte, um secretariado de uma comissão política de uma distrital de um partido, que poderemos referir por “estrutura rosa nacional” segundo a notícia (bem escrita por Isabel Paulo) do Expresso, (Ver notícia aqui) que está inconformada e “revoltada”. E está não apenas inconformada e revoltada como se reuniu para decidir se iria divulgar ou não um documento de protesto a que chamou moção de repúdio. Esta do repúdio, vindo de uma estrutura rosa, faz-me lembrar o divórcio dos países e religiões que assim o consentem e em que o marido começa por repudiar a mulher. Some-te! No antigamente, mulher repudiada era a que não conseguia produzir descendência, a que não prestava. A princesa Soraya, casada com o Xá da Pérsia, foi repudiada por ser estéril. A coisa não teve muito chá mas a pobre Soraya, que, dizem, era amada pelo Xá, teve de levar com a moção de repúdio e passou o resto da existência a passear de hotel em hotel a tristeza e a humilhação. Na Índia, a prática do repúdio, com ou sem moção e com ou sem monção, leva mulheres ao suicídio.

Não será o caso de Ana Catarina Mendes, dirigente nacional e, dizem, a número dois de António Costa e da estrutura rosa nacional. A estrutura pode ser rosa à vontade mas não aprecia mulheres que mandam nem a ingerência do pink power. Assim sendo, puxando as calças, e já diria o Eça “que calças, que talento!”, de um político da estrutura rosa local, e puxando os galões, o secretariado da comissão da distrital pariu (salvo seja) um documento em que repudia o posso, quero e mando do PS nacional, embora se venha a verificar na notícia que é o quero, posso e mando da dita Ana Catarina Mendes, que terá “desrespeitado e desconsiderado” um tal Joaquim Barreto porque não foi avisado do apoio da estrutura rosa nacional a um jantar de militantes nem do convite a Manuel Pizarro da secretária-geral-adjunta para representar o partido. No dito jantar, se bem depreendi. O Barreto foi desconsiderado. A secretária-geral-adjunta (e desvaneço-me em ternura por estes títulos) não entendeu que não cabe ao líder da distrital do Porto representar o PS num encontro autárquico de Fafe. A coisa foi assim posta por um dirigente da distrital bracarense, afirmando que Ana Catarina é a “autora moral do abuso” e o dito Pizarro, celebrizado pela briga com Rui Moreira, o “autor material da ofensa”. Isto só com um duelo ao amanhecer mas havendo mulher no meio… faça-se o repúdio!

A dita moção de censura, ou repúdio, foi logo entregue ao secretário-geral do partido, que felizmente também usa calças, mas os dirigentes bracarenses, ao tempo da dita notícia, ainda não tinham tido uma satisfação. Fonte próxima do deputado Barreto, cuja existência nos tinha passado despercebida (e se calhar também ao secretário-geral da estrutura rosa), torna António Costa “corresponsável e conivente pela inabilidade política da sua nº 2, que já deveria ter sido afastada depois da forma intrometida e trapalhona como atuou no caso do Porto”. Gosto desta linguagem, imagino que no recato da autarquia, no gabinete dos paços do conselho, a língua seja mais solta. A gaja anda a meter o bedelho onde não deve, as gajas quando se armam em mandonas… comigo isto não passa, é uma desfeita, é uma afronta!

Isto sou eu, a escriba, claramente praticando a virtude do mui imaginar, antes que o dito Barreto me repudie e repudie estas afirmações imaginárias por carta.

E o Costa não dava retorno!

Na reunião da distrital participaram todos os membros da comissão política, todos ou quase membros masculinos, a avaliar pela notícia, incluindo um ex-deputado, um ex-presidente da câmara de Fafe, um líder concelhio desavindo com o PS nacional, um ex-governador civil de Braga pai do secretário nacional do PS para a Organização nacional e “uma das ausências mais notadas da noite”. Entretanto, também o dito Pizarro criticou Ana Catarina Mendes pelo Porto e a zanga com Rui Moreira, que levou a cisões autárquicas em Fafe, Vizela, Barcelos, Celorico de Basto e Amares.

Ora, isto faz de Ana Catarina Mendes uma verdadeira Trump desta trapalhada a norte. E faz desta intriga que ocupa estas cabecinhas (muitas delas ex, mas não repudiadas, espera-se) mais do que o bem-estar das populações, uma verdadeira Casa Branca ou, à escala, uma casinha branquinha. É só intrigalhada.

“Vai ser uma hecatombe num distrito bastião histórico socialista.” Devido “à rédea solta que o secretário-geral do partido tem dado a Ana Catarina Mendes”. Dizem os ditos. A rédea solta… Isto lembra-me qualquer coisa.

O ‘Fado Marialva’. Cá estamos.

“Eu cá para mim/ não há ai não maior prazer que o selim e a mulher…/ Rédeas na mão, sorrir amar, trotar esquecer, e digam lá se isto é descer!”

Caro António Costa, um conselho. Escuta o Vicente da Câmara. “Porque quem anda no trote em cima de um bom alter/ leva no bote a mais difícil mulher…”

Mande a rapaziada da estrutura rosa local trotar e esquecer. Eles já se tinham pegado uns com os outros por causa do jantar do 25 de Abril. Não gostam de ficar de calças na mão.