Rio não oferece oposição ao PS. Montenegro oferece-lhe o centro

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 13/01/2020)

Daniel Oliveira

Rui Rio não é um líder empolgante. Ou pode ser apenas uma questão de tempo. Lembro-me de António Guterres ser um burocrata cinzento, Durão Barroso um falhado e Passos Coelho um eterno “jotinha”. Se a proximidade do poder pode oferecer carisma a uma alforreca, a sua distância pode tirar carisma a quem nasceu para liderar. Não estou a dizer que é o caso de Rio. Mas sua história política está mais ligada a vitórias do que a derrotas. É indiscutível que tem um estilo próprio, que joga bem com este tempo e que o tem favorecido quando deixa de ter intermediários na relação com o eleitorado de direita. É muito difícil reconhecer isto em Luís Montenegro, o típico político dos corredores e dos golpes palacianos. Bom tribuno, dificilmente desperta empatia com os eleitores. Mais uma vez, esta imagem pode mudar se tiver o poder ao seu alcance.

Mas este não é o momento em que o PSD se limita a escolher entre perfis de liderança. Os anos de chumbo da austeridade tiveram um altíssimo preço na base eleitoral do partido e as mudanças na direita europeia fazem tremer os seus frágeis pilares doutrinários.

Por conveniência interna ou impreparação política, Rui Rio e o partido não olharam para os efeitos profundos que os anos da troika tiveram na sua base de apoio. E, tirando umas frases desgarradas sobre o Chega, são incapazes de se posicionar em relação à radicalização de parte do eleitorado da direita. Nascido para ser “uma coisa em forma de assim”, o PSD não tem tradição de debate ideológico e político e, mesmo em crise, continua a comportar-se como uma mera plataforma de conquista do poder. Não faz esta discussão de forma explícita. Mas ela está lá.

Luís Montenegro representa o regresso ao passismo. Muitos dirão que esse passismo de que se fala não foi mais do que a máscara nacional para o que a troika ou as circunstâncias obrigaram o governo que herdou a bancarrota a fazer. Essa é, aliás, a tese de Rui Rio. Só que isso não é verdade. Mesmo assumindo que expressões como “ir para além da troika” foram meros artifícios para um governo de um país intervencionado fingir que tinha alguma autonomia, Passos Coelho teve um programa às eleições internas do PSD. As que perdeu e as que venceu. E teve um projeto de revisão constitucional ideologicamente claro e radical. Na realidade, a troika não o afastou da sua vontade, permitiu-lhe aplicar parte do seu programa. E os portugueses sentiram-no nas medidas que tomou e nas que não tomou, no que cedeu à troika e no que não se opôs, no que disse para justificar os seus atos e nos alvos que escolheu para eles.

Tenham sido as escolhas que fez fruto da convicção ou da necessidade, o PSD precisa de superar Passos Coelho. Assim como o PS precisou de superar José Sócrates. Paradoxalmente, o processo judicial contra Sócrates facilitou, apenas nisto, a vida aos socialistas. O corte, mesmo dos que eram próximos do ex-primeiro-ministro, foi inevitável. Compreensivelmente, ninguém se sente órfão de Sócrates no PS. Compreensivelmente, ainda há muitos órfãos de Passos no PSD.

Só que Passos é a ferida que deixou o PSD debilitado. Porque a sua política de austeridade atingiu sobretudo os mais velhos e reformados, indispensáveis aos partidos de direita. Aqueles que, ao contrário dos restantes, não têm como se adaptar à perda de rendimentos. Porque, depois disso, desprezou as eleições autárquicas, de que o PSD precisava para resistir à travessia do deserto. E porque o fez especialmente em Lisboa e Porto, agravando um processo de esvaziamento do centro-direita nos grandes centros urbanos. O PSD perdeu os reformados, perdeu os pobres e perdeu as autarquias. E tudo isso é, por culpas próprias e alheias, o legado de Passos Coelho. Montenegro, em vez de o superar, regressa a ele. Rio não faz nem uma coisa nem outra. O que quer dizer que não melhora nada, mas ao menos não volta para trás.

Depois, há o que está a acontecer na Europa e no mundo. O centro-direita está a deixar-se encantar pela direita antidemocrática e ultraconservadora. Em vez de lhe disputar o espaço, combatendo-a, imita-lhe o estilo. Legitima a sua agenda aos olhos dos seus eleitores que, depois, tendem a preferir o original à cópia.

Não é claro que este seja o caminho proposto por Luís Montenegro, mas é acarinhado por uma parte razoável dos que gravitam à sua volta. De Maria Luís Albuquerque a Miguel Morgado, os sinais de aproximação a um discurso mais musculado da direita são evidentes. E esta opção representaria, como representou em quase todo o lado, o suicídio do centro-direita português. Rui Rio está, pelo percurso pessoal, pela geração a que pertence e pela sua estratégia, a léguas desta tentação. Não estou seguro que represente uma alternativa clara. Mas não dará um passo para o abismo.

Uma vitória de Luís Montenegro seria um recuo para o passismo, em vez de o superar, e um avanço para o abismo da radicalização, em vez de o combater. Rui Rio, não estimulando, deixa tudo onde está. Esperando, como fizeram outros líderes do PSD, que António Costa se desgaste.

O que, sem maioria nem estratégia para além da gestão do pântano político que está a criar, não será difícil. Rio não oferece, por agora, grande oposição a António Costa. Luís Montenegro oferecer-lhe-ia o centro, transformando o PS no partido charneira. É mau para todos. Para a esquerda, que perde o seu partido hegemónico. Para a direita, que fica encostada a um canto radicalizado. E para a democracia, que deixa de garantir a escolha entre duas alternativas.



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Medricas

(José Pacheco Pereira, in Público, 30/11/2019)

Pacheco Pereira

Poucas palavras portuguesas são mais sinistras e pegajosas e retratam, com a sua pequenez, o servilismo do medo – é como ser covarde até na covardia.


Como quem escreve sabe, muitos artigos começam pelo título. Vem um título à cabeça e o resto vem depois. É o caso deste. O primeiro título foi “medricas”, o segundo “meter o rabinho entre as pernas”. Nesta altura do artigo, segunda ou terceira linha, não sei o que vai ficar, mas um deles será. Sei também que o título não vai nunca ser uma coisa soft do género “meteu a cabeça na areia como a avestruz”, ou qualquer coisa como “um passo em frente e dois para trás”. Mas sobram provérbios, brocardos, expressões idiomáticas e algumas palavras suficientemente insuportáveis, de que um bom exemplo é “medricas”.

Tudo isto vem a propósito da reacção da Câmara Municipal de Lisboa a uma moção aprovada na Assembleia Municipal de Lisboa, um órgão institucional eleito do município, que condena a “repressão ao povo catalão” e pede a libertação dos “presos políticos”, na sequência de uma “deriva autoritária” do Estado espanhol na Catalunha. Tudo coisas sensatas, realistas, justas e aceites sem discussão perante os factos por qualquer pessoa no mundo, caso se referisse ao Burkina Faso, ao Egipto, ao Ceilão, às Filipinas, à Turquia, à Federação Russa, e a mil e um lugares do mundo sobre os quais vota-se de cruz todos os dias e mesmo assim vota-se certo.

O problema é ser Espanha, aqui ao lado, uma democracia até chegar ao independentismo, em que aí começa a velha Espanha de Francisco Franco. E quem sabe história não tem dúvidas, todos os sinais estão lá, a excitação nacionalista, a violência agressiva do espanholismo, a vontade de punir a matraca, prisão e as várias formas de ferro e fogo, esses “traidores”. Se pensam que o Tsunami Democratic é o protótipo da violência inscrita na história e na política espanhola, desenganem-se. Olhem para o Vox, a ponta de um icebergue que a democracia espanhola nunca conseguiu derreter, como agora se está a ver. Junto dessa montanha de raiva, os incendiários de caixotes do lixo são meninos do coro.

O problema é que qualquer pessoa sensata percebe que a recusa de fazer um referendo, como a Escócia fez há uns anos, para se saber a vontade dos catalães é sinal de uma “deriva autoritária”, usando a Constituição como arma de arremesso por aqueles que não cumpriram os compromissos autonómicos que assinaram. O problema é que qualquer pessoa sensata percebe que o modo como se reprimiu a tentativa de referendo dá à palavra “repressão” o seu sentido pleno. O problema é que qualquer pessoa sensata percebe que os presos condenados a longas penas de cadeia por posições políticas que estavam mandatados a tomar pelos seus eleitores são “presos políticos” dê lá por onde der. O problema é que qualquer pessoa sensata que tem um sentido de justiça e solidariedade, não se fica e protesta, incomoda-se, vota moções, manifesta-se, indigna-se. O que os responsáveis políticos espanhóis, com vergonhoso destaque para o PSOE, estão a fazer é tapar o sol com uma peneira e o sol não deixa. Daí a fúria.

E depois contam com os fracos. Parece que os representantes do PS na Assembleia Municipal não se esqueceram do que foi o seu partido quando homens como Mário Soares, Tito de Morais, Salgado Zenha, Sottomayor Cardia, Cal Brandão, Teófilo Carvalho dos Santos, Vasco da Gama Fernandes e muitos outros, conheceram a prisão e o exílio por se revoltarem contra a “Constituição vigente”, como se dizia. Claro que, bem sei, o Portugal de Salazar não é a Espanha actual, mas quando chega à Catalunha tornam-se parecidos e para os presos políticos catalães são até bastante iguais. Ora esses representantes do PS votaram a moção contra a repressão na Catalunha, o que só os honra.

Mas não contaram com os fracos, quer os do PSOE, que fizeram queixinhas, chamaram aos socialistas portugueses “ignorantes”, nem os de cá, que foram logo pedir desculpas pela ousadia dos seus camaradas com memória. O comunicado da Câmara Municipal de Lisboa é uma vergonha de cobardia: “Esclarece que apenas as decisões tomadas em sede de reunião de vereadores vinculam a Câmara Municipal de Lisboa, e que nenhuma deliberação foi tomada, ou será aprovada, com esse teor.” Reparem no arrogante “nem será aprovada”. E depois coloca-se ao lado dos repressores: “A posição da Câmara Municipal de Lisboa é a este respeito inequívoca: total respeito pela soberania do Estado espanhol, da sua constituição, das suas leis e do funcionamento das suas instituições.” Podiam ter poupado o “inequívoco”, mas dobrar a cerviz precisa destas juras de fidelidade quando se usa a linguagem do poder.

Como todos sabem, que estão a ler este artigo, fiquei-me pelo “medricas”. Poucas palavras portuguesas são mais sinistras e pegajosas e retratam, com a sua pequenez, o servilismo do medo –​ é como ser covarde até na covardia.


Medina nas Finanças? A guerra no PS já começou

(Bernardo Ferrão, in Expresso Diário, 06/11/2019)

A hipótese de Fernando Medina suceder a Mário Centeno à frente das Finanças vem carregada de picante. O cenário avançado por Marques Mendes traz recados em diferentes direções e permite leituras. Passadas as legislativas, e com o Governo empossado, as autárquicas tornaram-se prioridade absoluta. Para continuar a governar, o PS não pode perder essas eleições. Mas há outro aviso: o braço de ferro entre Medina e Pedro Nuno Santos é agora mais do que evidente.

Nas últimas autárquicas, em 2017, as coisas não correram bem a Fernando Medina. Tinha herdado de António Costa a maioria no Executivo mas perdeu-a. Apesar da vitória com 42%, conseguiu menos 3 vereadores do que em 2013. O delfim de Costa não fez uma grande campanha, e teve uma concorrente feroz: Assunção Cristas. Foi na sequência desse resultado que Medina chegou a acordo com o movimento Cidadãos por Lisboa, que agora ocupa, entre outros, a vice-presidência da autarquia. E aqui está a primeira estranheza deste cenário: que sentido faria Medina sair para o Governo e entregar o poder a uma não socialista do Cidadãos por Lisboa? O cenário até poderia fazer sentido, se na CML ainda estivesse Duarte Cordeiro, líder da poderosa federação socialista de Lisboa, mas Cordeiro deixou a vice-presidência da câmara para ocupar os Assuntos Parlamentares.

O que seria pior para Medina: refugiar-se nas Finanças para estar protegido de uma hipotética derrota ou assumir o combate e o resultado, na primeira pessoa, até ao último dia do mandato?

Nos bastidores socialistas já se diz que esta hipótese foi posta a correr porque Costa teme perder Lisboa e a substituição de Centeno por Medina era a forma de “salvar” o delfim. Boas intenções, portanto! Mas o que seria pior para Medina: refugiar-se nas Finanças para estar protegido de uma hipotética derrota ou assumir o combate e o resultado, na primeira pessoa, até ao último dia do mandato?

A imagem de políticos demasiado calculistas é fatal e Medina não ignora a fatura que teria de pagar se fugisse para salvar a pele. Aliás, ciente de que o mandato é para levar até ao fim, dizia ao Expresso no ano passado – curiosamente quando o seu nome era avançado para outros cargos disponíveis: “vim para Lisboa para ficar, com o mandato que assumi e com o desejo de que ele se prolongue no próximo mandato.”

Mas há outra premissa neste cenário que me parece pouco lógica, pelo menos a esta distância. Bem sei que o calendário eleitoral favorece o PSD, os governos são normalmente castigados nas autárquicas e o PS terá tendência para cair depois dos bons resultados de 2017, mas daí a concluir pela derrota de Medina em Lisboa vai um enorme passo. É certo que não é um peso pesado em campanha, nem um mobilizador nato, mas se até às autárquicas continuar a apostar em áreas chave como a habitação e os transportes – e Costa deu-lhe uma enorme ajuda com os passes sociais – é ousado dizer que pode perder as eleições. Sobretudo quando a direita está em tão mau estado na cidade.

Toda esta história transpira a jogos de poder e cria danos ao partido. Não é novidade que este combate é feito sobretudo de duas caras: Pedro Nuno Santos e Fernando Medina. Escolher este momento para atirar Medina para as Finanças é tentar retirá-lo de cena, é reduzi-lo a coisa pouca. Como reparava e bem José Miguel Júdice, liderar a ala direita do PS terá muito pouca importância neste segundo mandato. Como se depreende, o day after de António Costa já se desenha. Por este andar, e dadas as personalidades em causa, o combate será a doer. Parece-me que Medina não começa mal. Arranca no centro da história, falam dele, outra vez. E se, ao contrário de Costa, cumprir o “palavra dada é palavra honrada”, é já um ganhador. Ficou até ao fim, deu a cara e sem precisar de mandar recados por ninguém. E acima de tudo, não está obrigado a ser candidato à liderança do PS. Ao contrário do ministro Pedro Nuno, que surge cada vez mais amarrado ao objetivo que traçou.