Uma oposição sem programa

(In Blog O Jumento, 02/04/2019)

Primeiro andaram um ano a divertirem-se convencidos de que o diabo lhes faria o trabalho, em vez de alternativas fizeram prognósticos desastrosos e antes do jogo, o resultado foi o que se viu, em vez de ir a São Bento o Mafarrico optou por se instalar na São Caetano e no Largo das Caldas.

Abandonados pelo diabo a imaginação escasseou, tiveram de se dedicar a coisas menores, pouco importando que se tratassem de situações resultantes das políticas que adotaram no passado. O grande problema do país passou a ser a linha verde do Metro de Lisboa. Aqueles que agora dizem que os passes sociais é coisa de citadinos, andaram meses preocupados com os que os algarvios, beirões ou transmontanos sofriam quando iam de Metro entre o Rossio e a Praça de Alvalade.

O Metro lá superou as maldades que lhe fizeram e foi a Catarina Martins que encontrou um argumento fundamental na crítica às políticas de Mário Centeno, era tudo culpa das cativações. Desta vez a direita optou por ser bipolar, começou por comparar o sucesso económico à austeridade, sugerindo que Centeno era aluno do Gaspar, ao mesmo tempo descobriu que quem morria de pneumonia teria sobrevivido se não houvessem cativações.

Mas o diabo apareceu mesmo e veio trazendo o fogo do inferno, Passos exultou e até começou a sonhar com mortos e se as vítimas dos incêndios não podiam ser atribuídas ao governo, então alguém teria de se suicidar porque o governo não os ajudou e surgiram logo mortos e feridos. A teoria da culpa das cativações evoluiu para as teses da ausência do Estado, por causa do Centeno o Estado falhava. A tese até teve honras de apoio presidencial.

Sem mais desgraças alguém reparou que no executivo havia um casal a que se juntavam um assessor e uma chefe de gabinete, descobriram logo que o governo em vez de ter tomado posse em Belém tinha-o feito numa repartição do Registo Civil. Os jornalistas do Observador deixaram de  ler a comunicação social estrangeira para ver o que se podia copiar, agora era necessário encontrar primos até ao terceiro grau, tarefa penosa num país em que quase todos são Silvas, Pereiras ou Costas.

Cansaram-se depressa, esperemos para ver como é que a direita vai esconder que não têm propostas a fazer ao país, ficaram bloqueados com as políticas da extrema-direita chique e não conseguiram propor um programa diferente do de Passos Coelho.

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Cristas, uma invenção de Costa

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 20/02/2019)

Daniel

Daniel Oliveira

Já muitos partidos apresentaram moções de censura condenadas ao fracasso. Já alguns o fizeram num momento em que a insatisfação popular não era evidente – não confundir um surto de greves táticas, num ano eleitoral em que são sempre mais eficazes, com insatisfação generalizada. Não me recordo se alguma vez foi feito num momento em que, se fosse aprovada, a moção de censura teria um efeito nulo, já que as eleições são este ano. Esta moção de censura não é apenas um nado-morto, é uma inutilidade assumida.

A inutilidade é tão evidente que ninguém assumiu que o alvo de Assunção Cristas era realmente António Costa. Para a geringonça, este até é um bom momento para se mostrar falsamente unida. O objetivo é criar um momento mediático em que, mais uma vez, Cristas se apresente como líder da oposição. Sabendo que Rio não está no Parlamento e que ainda não tem um grupo parlamentar seu, a presidente do CDS está a lutar contra um ausente. Não é difícil vencer um combate em que o opositor não pode entrar no ringue.

O objetivo da moção de censura é criar um momento mediático em que, mais uma vez, Cristas se apresente como líder da oposição. Quem criou esta fantasia? Foi António Costa, que se irrita com Cristas porque quer ter um partido com menos de 10% das intenções de voto como líder da oposição

Assunção Cristas afirmou, numa entrevista ao Expresso, que dizer que ela é a líder da oposição “é factual”. Olhando para as sondagens, não sei onde está demonstrado desse facto. Rui Rio continua, até ver, a liderar o partido com mais intenções de voto da oposição, o CDS não descolou e Cristas continua a liderar um partido com tantas possibilidades de chefiar um Governo como o PCP e o Bloco. Não passa tudo de uma fantasia. Quem criou esta fantasia? Não foi o CDS, apesar de tentar alimentar-se dela. Nem sequer foi a comunicação social, que se limita a difundir os delírios de Cristas. Foi António Costa. Costa irrita-se com Cristas no Parlamento porque lhe interessa ter um partido com menos de 10% das intenções de voto como líder da oposição. Dar força ao CDS é tirar força ao PSD e encostar a oposição à direita. Tudo o que Costa precisa para ter votos ao centro.

Não é grave que Cristas aproveite a borla que Costa lhe dá e se ponha em cima de um caixote para parecer enorme. Faz parte das regras do jogo. Desde que isso tenha, para quem deve olhar com atenção para a política, a importância relativa que realmente tem. Em suma, a moção de censura do CDS é o que é: um momento de campanha do CDS com a mesma importância real que tem o CDS.

O pior de 2018

(Valupi, in Blog Aspirina B, 31/12/2018)

bébés

(Até os bebés se riem a bandeiras despregadas com a petulância dos direitolas, a começar pela Cristas que diz que está preparada para ser Primeira-Ministra… 🙂

Comentário da Estátua de Sal, 01/01/2019)

 

O pior de 2018 foi não termos alguém do PSD (tanto fazia) e a Assunção Cristas a governar a malta.

Com esse pessoal a despachar decretos-lei, os professores já tinham recuperado todo o tempo de serviço e o mais que se lembrassem de pedir, os enfermeiros passariam a tirar os pensos com muito maior delicadeza e carinho e quem pensasse em fazer greves a cirurgias (ou que fosse ao corte das unhas) seria tratado como efectivo criminoso, os magistrados do Ministério Público teriam Joana Marques Vidal firme no comando da PGR por mais 6 ou 60 anos (o tempo que levasse a exterminar a praga de corruptos com ninho no Rato), o valente Ventinhas poderia dedicar-se a tempo inteiro a comentar processos judiciais em curso e caluniar certos arguidos que ele não grama, e, claro, as 20 estações de Metro da Cristas (com um custo simpático de dois mil milhões de euros) estariam quase prontas.

Os direitolas, quando vão para a oposição, transmutam-se em paladinos do Estado, da coisa pública, do investimento nos serviços sociais em favor dos mais desfavorecidos. Ou seja, a direita na oposição mal se distingue das pessoas decentes.

É, pois, lamentável que o PS não tenha deixado entrar à socapa nos Conselhos de Ministros alguém do PSD (tanto fazia) e a Assunção Cristas (ou deixá-la participar por SMS, feito artístico em que se terá especializado nesses dias de canícula em que só apetece piscina ou beira-mar).


Fonte aqui