Marcelo PR, o primeiro “telepopulista” a sério em Portugal

(Alfredo Barroso, in Facebook, 30/05/2025)

O “beijoqueiro” em acção… 🙂

Marcelo PR, o primeiro “telepopulista” a sério em Portugal e criador do caos onde irrompeu outro bem mais perigoso…


O ‘telepopulismo” irrompeu a toda a força em Portugal com a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República. Ao pôr em prática aquilo a que chamou «política de afetos» – à falta de melhor criatividade, e de um módico de consistência e de substância políticas –, Marcelo PR tinha absoluta necessidade das televisões para explicar o que era, e para praticar, essa «política de afetos».

Consistia esta, essencialmente, em beijar, abraçar e em tirar ele próprio retratos (as famosas “selfies”) a todo o «bicho careta» que se acercasse dele, a quem passava a mão p’lo pelo e transmitia palavras, expressões teatrais, gestos de carinho, simpatia e solidariedade – e sobretudo de caridade beata – por aí se ficando, assim cumprida plenamente, aliás, superficialmente, a função de mera propaganda política e de satisfação da sua vaidade pessoal.

Marcelo PR fez durar a coisa o tempo suficiente para ser reeleito, ainda que com resultados bem aquém do que ele esperava obter. Mas o que mais o incomodou na primeira vez que decidiu dissolver a Assembleia da República, foi a maioria absoluta obtida pelo PS de António Costa, que lhe retirava o protagonismo. Por isso ameaçou logo – caso inédito e totalmente abusivo – que tal maioria só duraria enquanto Costa fosse Primeiro-ministro, ameaça que “caiu como sopa no mel” quando uma matrona PGR, para esquecer, aceitou referir que Costa também vinha ao caso, ainda que “à vol d’oiseau”, numa “investigação” em curso do Ministério Público.

Depois de balbuciar alguns protestos, dizendo que se demitia, mas que o PR devia convidar outro socialista pra o substituir, Costa “raspou-se” com grande ligeireza, para ir constituir em Bruxelas um triunvirato com duas fanáticas belicistas que muitíssimo mal têm feito à União Europeia, mergulhada numa guerra indireta contra a Federação Russa, na qual está empenhado um “clown”, o ucraniano Volodymyr Zelensky, político narcisista e oportunista altamente suspeito de corrupção (ver “Pandora Papers”) e grande protetor dos grupos armados neonazis entretanto incorporados no seu exército.

Cá pela pátria ficou Marcelo PR a “protagonizar”, como ele tanto gosta e já tardava. Mas bem depressa se pôs a dissolver, por mais duas vezes, a Assembleia da República, pondo o seu partido, o PPD-PSD, no poder, todavia disfarçado de AD e com um governo minoritário, e ao mesmo tempo dando um enorme impulso a um partido de extrema-direita, o CHEGA, que logrou obter 50 deputados em 2024, e 60 deputados em 2025, sob a liderança de um “telepopulista”, André Ventura, sem dúvida muito mais eficaz politicamente, e bastante mais perigoso, do que Marcelo PR…


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Se fosse ele

(Por Alberto Carvalho, in Facebook, 28/05/2025, Revisão da Estátua)


(Não posso deixar de sublinhar a qualidade literária deste texto. Parabéns ao autor. Quanto às posturas políticas, estas ficam ao cuidado dos comentadores de serviço aqui da Estátua… 🙂

Estátua de Sal, 28/05/2025)


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Não sei se já repararam – creio que sim, mas estas coisas escorregam-nos do bolso da atenção como moedas pequenas – que há uma nova variante nacional da gripe do comentário. Chama-se se fosse eu. Altamente contagiosa. Instala-se com um certo brilho nos olhos e um jeito de quem acabou de resolver um enigma complexo com três peças de lego.

O caso mais recente foi o de Ricardo Costa, que, com a gravidade estudada de quem lê as notícias antes de escrever o futuro, afirmou que se fosse ele, o PS tinha de ser inteligente. Não no sentido banal – não cair nas armadilhas da AD ou manter uma narrativa coerente -, mas inteligente à maneira de um ilusionista em fim de carreira. Se fosse ele, dizia, o PS dava já à AD dois orçamentos aprovados, de mão beijada. Sem os conhecer. Um gesto de inteligência, parece.

Ora, eu não sei se a inteligência que se propõe é um ato de generosidade política ou um exercício de rendição estética. Talvez de ambas. O PS, esse partido demasiado habituado a saber-se adulto numa sala cheia de adolescentes, passaria a ser o mais velho dos mordomos: sábio, resignado, colaborante. E José Luís Carneiro – que Ricardo Costa gostaria de ver como Presidente – surgiria como um Diógenes moderno, oferecendo à direita a lanterna da estabilidade sem perguntar primeiro que sombras trazem os orçamentos no bolso.

Talvez seja essa a proposta: que a esquerda sirva a democracia como quem serve um chá morno. E que o PS, tendo perdido, mas não desaparecido, entre para o panteão dos partidos civilizados – esses que não fazem barulho, não mordem e oferecem orçamentos por antecipação. Mas a democracia não é uma ópera de câmara. É uma arena. E o PS, goste-se ou não, ainda representa um terço do país. Um terço é muito quando a maioria é uma ficção parlamentar, amarrada a votos emprestados e alianças de papel de alumínio.

A proposta de Ricardo Costa – ou melhor, a sua pose – parece-me uma forma de pedagogia invertida: ensinar os partidos a serem irrelevantes em nome da responsabilidade. Substituir a política pela urbanidade. E a oposição pela conivência técnica. Pergunto-me o que teria dito se fosse o PSD a perder por pouco e o PS a precisar de aprovar orçamentos frágeis. Teria sugerido à direita um gesto de inteligência semelhante? Ou é apenas a esquerda que deve envelhecer com dignidade, como um actor clássico fora de moda?

O comentário político em Portugal tem esta característica curiosa: quer ser árbitro e coreógrafo, juiz e anjo da guarda. Fala de inteligência como quem fala de elegância – como se a política fosse sobretudo uma questão de boas maneiras. Mas há uma diferença essencial entre respeitar o regime e abdicar de disputar o poder. A primeira é uma exigência democrática; a segunda é uma forma de deserção com gravata.

Ricardo Costa fala como quem lamenta o país – um hábito nacional – mas também como quem o observa do lado de fora, com o tédio benevolente de quem viu tudo. Não viu. Ninguém viu. Estamos numa encruzilhada: a direita está inflamada e fragmentada, a esquerda atordoada e sem bússola. O centro é um lago vazio. E os eleitores não estão particularmente interessados em lições de compostura institucional. Querem saber, por exemplo, se o PS vai continuar a defender os salários, os serviços públicos, os jovens que vivem de recibos verdes aos 38 anos. Querem saber se vai opor-se à privatização dos restos do Estado – ou se vai preferir “ser inteligente”.

A política portuguesa tem demasiadas vezes confundido sagacidade com resignação, cálculo com virtude. Mas a inteligência – a verdadeira – não consiste em ceder antes da luta. É saber por que razão se luta. E com que armas. Eu preferia que Ricardo Costa dissesse outra coisa: que o PS tem de reaprender a ser oposição com alma. Com risco. Com memória. E, sobretudo, com um projeto que não seja o de esperar que o adversário se desfaça por si. Porque se fosse ele, e não apenas mais um entre estúdios e câmaras, talvez percebesse que os partidos não existem para confirmar o comentário – mas para o desmentir, de vez em quando, com actos de coragem.

Talvez seja isso que falta: menos orçamentos pré-aprovados e mais gestos que não se esperavam. Um sobressalto, como dizia o outro. Ou só um momento de claridade – mesmo breve – em que a política volte a ser a disputa pelo bem comum, e não apenas um prolongamento do comentário em modo parlamentar.

Voltando ao início: o que se diz num estúdio, repete-se como se fosse filosofia. Mas às vezes não é mais do que uma boa educação mal aplicada. Isso, em política, costuma sair caro.

Eu e o PS

(Carlos Esperança, in Facebook, 24/05/2025), Revisão da Estátua)

E no fim da noite só se salvou Évora….

(Este texto está escrito na primeira pessoa pelo meu amigo Carlos Esperança, pelo que isso reforça a asserção de que as opiniões políticas nele expressas só a ele responsabilizam. A Estátua não faz propaganda partidária, nem contra o PS nem a seu favor, mas não pode ignorar que há uma “falha” – ideológica e não tectónica -, que divide a esquerda da direita – para usar uma classificação discutível, à falta de melhor -, que passa pelo interior dp PS. Isso fica claro no texto e o autor realiza um debate analítico que muitos simpatizantes e militantes do PS deveriam fazer.

Pela frontalidade sincera das posições expendidas, num exercício de separação ideológica das águas, resolvi publicá-lo.

Estátua de Sal, 25/05/2025)


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Agora que a urgência exige que o PS rapidamente tenha um novo líder, congratulo-me por ver José Luís Carneiro à frente do partido e desejo-lhe as maiores felicidades. É um político decente, sem ser de esquerda.

Não direi mal do PS, para isso bastam os militantes, os que preferem o poder sem cuidar da ideologia, os que estão prontos a denegrir o líder que perde, a favor de qualquer outro que os leve ao poder, os que aceitam que os seus líderes sejam acusados de radicais de esquerda pelos reacionários. Nunca o PS teve um líder radical de esquerda.

Foi assim que renunciaram à herança de Guterres, Sócrates e António Costa e deixaram que os adversários a denegrissem. Falei também de José Sócrates, o PM que a crise das dívidas soberanas destruiu, inovador e corajoso, cujos governos mereciam a defesa dos que querem uma governação entre a social-democracia e a democracia- cristã, devendo saber distinguir entre os problemas judiciais e a qualidade da sua governação.

Antes de José Luís Carneiro ser alvo de investigação preventiva e acusado de radical de esquerda, ele que é de direita, igual a Rui Rio, referência ética do PSD que Marcelo, Montenegro, Aguiar Branco e Ventura, este então no PSD, substituíram por homens de negócios sem visão para o País, continuarei a defender os meus ideais, a democracia liberal e a justiça social de que o IL é inimigo pior do que o Chega.

Assisti ao abandono de Ferro Rodrigues, infamado por um juiz de instrução narcisista e inculto, até ver agora os militantes que a direita mais à direita desejava à frente do PS, sem aí votar, a denegrirem o primeiro governo de António Costa, que os devia honrar, e a afastarem-se de Pedro Nuno dos Santos, imolado em golpes urdidos pelos empresários de Espinho, Montenegro e Hugo Soares.

Até o golpista de Belém, o do parágrafo, o adversário da despenalização do aborto, da regionalização e da decência, o que preferiu à estabilidade, às contas-certas e a Centeno a explosão do partido fascista e a entrega do poder ao bando atual, já foi perdoado.

Os que agora e há um ano invocavam o perigo do Chega para o PS viabilizar o governo reacionário e incompetente de Montenegro, jamais se oporão à aliança do PSD com o Chega, que Cavaco, Moedas e Miguel Relvas defendem. O “não é não”, é não enquanto convier!

A Europa assiste de novo, um século depois, ao advento do fascismo. Caíram primeiro os partidos comunistas, depois os sociais-democratas, enquanto a direita do pós-guerra, que lutou contra o fascismo, se tornou neoliberal e os sociais-democratas se deixaram seduzir pelo triunfo do capitalismo e se confundiram com a direita.

Agora, com a social-democracia afastada através de sucessivas eleições que culminaram golpes palacianos urdidos pelos órgãos que juraram fidelidade à Constituição, só resta a luta entre a direita moderada e a fascista enquanto o PS, como sucedeu em França, Grécia e outros países, se arrisca a desaparecer.

No dia 28 de maio, ironia da data, 99 anos depois, apuram-se os votos da emigração e o Chega passa a maior partido da oposição. No PS a capitulação ganha força. É a vida… 

Eu estarei onde sempre estive. É a vida…