Financiar, integrar, mimar a Ucrânia – nem que a vaca tussa

(João Gomes, in Facebook, 13/06/2026)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

A política europeia parece ter abandonado qualquer preocupação com a coerência para se dedicar exclusivamente à gestão de narrativas. A recente decisão de avançar com negociações de adesão da Ucrânia à União Europeia é exatamente isso.

Durante décadas, Bruxelas repetiu aos candidatos à adesão uma lista interminável de exigências: estabilidade institucional, economia funcional, combate à corrupção, respeito pelos princípios democráticos, independência judicial e capacidade de integração no mercado comum. Os critérios eram apresentados como objetivos, universais e inegociáveis.

Mas eis que é preciso colocar a Ucrânia nas atenções do Mundo. Um país devastado por uma guerra de grande escala, profundamente dependente de ajuda externa, com uma economia fragilizada, enormes desafios institucionais e uma situação política marcada pelas exceções próprias de um conflito armado. E, de repente, aquilo que durante anos foram obstáculos intransponíveis para outros candidatos. passa a mero detalhe administrativo.

A pergunta impõe-se: mudaram os critérios ou mudou apenas a conveniência política?

O contraste com a Turquia é inevitável. Há décadas que Ancara bate à porta da União Europeia. Ao longo dos anos, foram sendo apontadas razões para o congelamento do processo: questões institucionais, políticas e estratégicas. Contudo, independentemente da avaliação que cada um faça do regime turco, é difícil ignorar a diferença de tratamento. O que para uns constitui motivo suficiente para bloquear negociações durante décadas parece deixar de ser relevante quando se trata da Ucrânia.

A explicação oficial fala de solidariedade, valores europeus e defesa da democracia. A explicação é muito mais simples: geopolítica.

A Ucrânia tornou-se o projeto político mais importante da burocracia europeia. Não apenas como país, mas como símbolo. Um símbolo que precisa de ser financiado, armado, apoiado, promovido e integrado, custe o que custar. Um símbolo que serve para justificar políticas, mobilizar opiniões públicas e reforçar a narrativa de uma Europa unida perante uma ameaça externa.

O problema é que os cidadãos europeus vivem cada vez mais longe dessas prioridades.

Enquanto Bruxelas discute novos pacotes de apoio, milhões de europeus enfrentam crises de habitação, perda de poder de compra, crescimento da dívida pública, degradação dos serviços públicos e uma competitividade económica cada vez mais frágil face aos Estados Unidos e à Ásia. A sensação crescente é a de que a União Europeia demonstra mais urgência em resolver os problemas dos outros do que em enfrentar os seus próprios.

Esta lógica política de aplicar critérios diferentes conforme a utilidade estratégica do momento mostra ao que se chegou em Bruxelas. Disfarçam a incapacidade de resolver os problemas da UE com reuniões à semana, abraços entre dirigentes e discursos de ocasião. Se os critérios de adesão são sérios, então devem ser aplicados a todos. Se podem ser flexibilizados quando existe interesse político, então talvez nunca tenham sido tão objetivos quanto nos disseram.

O mais preocupante é que esta incoerência corrói a confiança dos cidadãos nas instituições europeias. Não porque estes sejam incapazes de compreender decisões estratégicas, mas porque percebem quando uma decisão política é apresentada como uma inevitabilidade técnica. A União Europeia não tem o direito de fugir à realidade nas suas tomadas de decisões geopolíticas. Ao fazê-lo os dirigentes incumprem o seu estatuto. No fim de contas, a mensagem que muitos europeus acabam por ouvir é simples: financiar, integrar e mimar a Ucrânia – nem que a vaca tussa.

3 pensamentos sobre “Financiar, integrar, mimar a Ucrânia – nem que a vaca tussa

  1. O problema da Turquia não é o seu regime. Espanha e uma manta de retalhos mal amanhada, que teve um rei nomeado por um ditador, que nunca se entendeu nem para uma letra para um hino, onde as forças policiais conservaram muitos tiques do antigamente e não foi isso que a impediu de entrar na União Europeia.
    Em Itália a Mafia era a entidade que mandava em vastas areas do território, nomeadamente a Sul, e não foi isso que a impediu de entrar para a União Europeia.
    Os países do antigo bloco de Leste ilegalizaram partidos, a maior parte deles sao aquilo a que se chamou democracias musculadas, a desiguldade e a miséria são mais que muitas e não foi isso que os impediu de entrar na União Europeia.
    O problema da Turquia e a religião praticada pela maior parte da populacao.
    Em pleno Século XXI ainda há quem fale na matriz cristã da Europa.
    A Turquia não entra porque a maior parte da população é muçulmana.
    Tão simples como isso.
    Já a Ucrânia e crista, ilegalizou a igreja ortodoxa russa e esta disposta a sacrificar se em nome de nos dar os recursos da Rússia.
    Por isso vai entrar na União Europeia apesar da ilegalização de partidos e da morte de opositores.
    E qual e a admiração?
    Os poderes europeus preocuparam se quando policias espanhóis andaram a deixar gente sem olhos na Catalunha?
    Quando gente que tentava fazer um referendo foi espancada e presa?
    Quando dirigentes políticos catalães foram presos e outros tiveram de fugir por simplesmente fazer o que tinham prometido em campanha eleitoral?
    Quando policias franceses espancaram brutalmente e usaram balas de borracha cegando manifestantes dos coletes amarelos alguém disse alguma coisa?
    Quando disseram foi para defender, no caso de Espanha a sua integridade territorial e no caso de França a ordem institucional.
    Vão se agora preocupar com pormenores como o facto de a Ucrânia nem ter um presidente legítimo pois que há mais de dois anos devia ter ido a votos e não foi?
    Uma cambada que nos ia matando a fome nos anos da troika, uma cambada que fez de toda a população cobaia mostrando que as nossas vidas não valem uma casca de alho vai se preocupar com o regime da Ucrânia?
    Assim está continue a fazer o frete de tentar destruir a Rússia.
    Por isso vamos mesmo continuar a pagar ao malandro do Herr Zelensky e a sustentar uma nação mais corrupta que a corrupção.
    Assim continue ela a sacrificar nacionais e mercenários nesta guerra proxy.
    Vamos mesmo pagar a esses malandros. Com a nossa saúde, com as nossas pensões, com as nossas vidas.
    Raios partam a Ucrânia.

    • Além da grande maioria da população turca ser muçulmana, coisa que para a “Europa de matriz (judaico-)cristã” é impeditiva de uma adesão pronta e célere (a Turquia até é membro da NATO, com o maior e mais bem equipado exército deste lado do Atlântico), a Turquia seria provavelmente o país mais populoso da Europa, e isso afectaria vários equilíbrios de poder, relativamente na proporção de deputados no Parlamento Europeu, a nível de estatutos, programas e fundos comunitários, e também no sentido geostratégico pois a UE tornar-se-ia menos “eurocêntrica” e mais “orientalizada”, por assim dizer)…

      Em contrapartida, com a perda de população que a Ucrãnia registou na última década, migrações e emigrações populacionais, refugiados de guerra, oblasts que foram anexados à Federação Russa, perdas humanas de soldados e não só, a Ucrânia tem nos dias de hoje uma população significativamente refuzida, comparativamente à década anterior… isto, parecendo que não, favorece a intensão de acelerar o processo de adesão e integração da Ucrânia na UE. Um país enorme, mas cuja população é menor que a de todos os países principais da actual UE (sem o Reino Unido), não lhes retirando “peso” relativo, por estarem no patamar de outros países médios.
      Não é só em Portugal e na Europa Ocidental que há “problemas demográficos”, mas a guerra na Ucrânia tem sido devastadora sobretudo para quem a vive de perto, as populações e os soldados na linha da frente…

      Nada acontece por acaso… apesar de parecer pura incompetência dos “grandes líderes”, eles têm sempre soluções de recurso “milagrosas”… e exploram ao máximo aquilo que entendem como “vantajoso”, mesmo que isso signifique o pior, que seja um mau augúrio para quem vive e enfrenta as realidades concretas que estes “iluminados” manipulam.

    • Uma Ucrânia fragilizada, com metade ou quase da representatividade e influência que poderia ter dada a sua dimensão territorial (seria o maior país da UE, penso eu de que), e entregue ao amigo de complôs Zé do Sky, promovido a herói nacional ucraniano e pan-europeu pela integração às três pancadas, mesmo que faseadas, mas relativamente célere da Ucrânia sob a sua alçada e do seu regime feito a martelo, seria o melhor que todos os “grandes líderes” europeus da actualidade poderiam desejar, reduzindo a Ucrânia a um culto de “líder máximo” amigo do peito dos “grandes líderes europeus”, emergido de uma série televisiva de ficção falada em russo, língua que hoje a própria estrela proíbe nos orgãos de comunicação oficiais, de comunicação social radio-televisiva e da imprensa…
      Uma Ucrânia assim, para lá do que já sofreu, seria muito mais fácil de moldar, trinchar, “encaixar” e aculturar… de processar e “modernizar”…
      Estas carolas direitolas não páram…

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.