O cancelamento como aniquilação do pensamento crítico e progressista

(Baltasar Garzón, in Público, 12/01/2026)

Imagem gerada por IA

Quase três anos depois, Boaventura de Sousa Santos continua publicamente cancelado no meio académico e social, sofrendo danos irreparáveis na sua vida profissional e pessoal.


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A violência de género causa grande dor à sociedade democrática. Acredita-se que o patriarcado continua vigente num sistema que historicamente concedeu autoridade, domínio e controlo ao homem. Normalizá-la e não agir contra a sua raiz, que não é outra senão a desigualdade estrutural do nosso sistema económico-social, é ser cúmplice. Compreender as suas múltiplas facetas, os espaços onde se reproduz e os seus efeitos, é uma obrigação.

O aumento da consciência e da investigação em Estudos de Género revelou que as agressões ocorrem nas mais diversas actividades, sobretudo quando existe uma relação de dependência entre o agressor e a vítima, sendo as estruturas e a falta de mecanismos de denúncia eficazes um terreno fértil que mantém a impunidade.

À medida que o silêncio foi quebrado, proliferaram denúncias que trouxeram essa realidade à tona e serviram para mudar leis e instituições. O movimento MeToo foi essencial para repensar os mecanismos que regiam esses espaços, mas ainda há muito a ser feito.

No entanto, como em toda a revolução, pode ter havido pessoas que, talvez alheias à dor de passar por situações de assédio e sob o pretexto de reivindicar a luta pelos direitos das mulheres, tenham ocultado outros interesses, algo que, longe de contribuir para quebrar os esquemas machistas, deu munição ao discurso antifeminista. A questão é: como podemos garantir que isso não aconteça?

Num momento em que a comunicação flui a uma velocidade vertiginosa, os efeitos negativos de uma informação pouco rigorosa ou de uma acusação incentivada pelas redes sociais podem significar a execução pública imediata do acusado e até mesmo a sua “morte civil”. Um dos maiores expoentes dessa penalização é o fenómeno do cancelamento público produzido, às vezes, pela inércia dos acontecimentos e outras vezes com a clara intenção de cercear a presunção de inocência. Quando essa dinâmica se instala, favorece-se a consolidação de um estado de suspeita que pode minar o Estado de direito.

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Há um caso que se destaca pela sua gravidade e por constituir um paradigma do que não deve acontecer, que afecta um dos mais prestigiados intelectuais progressistas contemporâneos, cujos ensinamentos contribuíram para o pensamento crítico e são um exemplo para aqueles que acreditamos que o direito deve ser o instrumento, juntamente com a ética e a moral, que rege a nossa convivência em busca de uma sociedade mais progressista, democrática, igualitária e solidária.

Refiro-me a Boaventura de Sousa Santos (B.S.S.), referência do progressismo e da esquerda intelectual do Sul Global, defensor dos direitos humanos, da igualdade e da justiça, dos povos originários e anti-imperialista consumado. Méritos que, no entanto, se transformaram em dardos envenenados à luz das acusações ferozes feitas contra ele em Abril de 2023.

Desde o início, o sociólogo, diante dessas denúncias infundadas, como posteriormente comprovou, colocou-se voluntariamente à disposição do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES) e do Ministério Público para contribuir na investigação e provar a sua inocência. Num exercício de auto-reflexão, publicou um artigo no qual auto-avaliava o seu comportamento. Quando o li, verifiquei que aquele que era o sociólogo de referência para o progressismo admitia honestamente que o machismo é inerente a todos nós, algo que também partilho no sentido de que o homem, por sua própria linhagem ancestral, subestimou a mulher até que esta conseguiu confrontá-lo. Mas ele deixou claro que nunca havia cometido os graves actos dos quais é acusado, lançando uma reflexão e um legado em prol da luta feminista.

Quase três anos depois, Boaventura de Sousa Santos continua publicamente cancelado no meio académico e social, sofrendo danos irreparáveis na sua vida profissional e pessoal. Entidades como o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais ou o Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza afastaram-no sem sequer o terem ouvido e sem abrir procedimentos internos, mas anunciando o seu cancelamento com comunicados públicos que encorajaram o julgamento mediático.

A posição do CES foi ainda mais vergonhosa. A instituição que o professor fundou, mas com a qual mantinha uma ligação parcial no momento dos supostos factos, anunciou a criação de uma Comissão Independente em paralelo à auto-suspensão de B.S.S., decisão que ele considerou necessária para facilitar a investigação. O relatório dessa comissão, embora indicasse “a existência de padrões de conduta de abuso de poder e assédio”, não mencionava nomes específicos nem crimes penais. Não foi conclusivo e acrescentava que “as versões apresentadas por vários denunciantes e vários acusados eram, em muitas situações, incompatíveis entre si, o que tornava impraticável avaliar as provas”.

Meses depois, a única consequência foi a demissão de B.S.S após intensa pressão por parte da direcção do CES. Nenhuma nova acção ou processo. Se esses padrões de comportamento abusivo existiam, por que não houve mais acções para combatê-los? A prioridade era realmente zelar pelo bem-estar e pela protecção das suas investigadoras ou eliminar um elemento incómodo, aproveitando a conjuntura?

Seja como for, o sociólogo português não teve outra saída senão recorrer à justiça como único método para aceder a um processo contraditório. No entanto, este também não está a ser um caminho fácil. Após a paralisação da acção civil de protecção da sua honra e a ignorância de muitas provas da sua defesa, teve de desistir e recorrer à via penal, que espera que lhe dê razão.

Escrevo sobre este caso porque acredito que devemos reflectir sobre a legitimidade dos processos de lapidação mediática, dado o seu carácter punitivo, emocionalmente devastador e incompatível com os valores de justiça e igualdade, com o risco adicional de que ocorram num contexto em que os discursos antifeministas estão a ser encorajados por forças reaccionárias e de extrema-direita.

Como defensores de um progressismo humanista, devemos trabalhar para melhorar a resolução das denúncias e para que, sem nunca pôr em causa a luta feminista, sejam respeitados os princípios que regem o Estado de direito, que passam por garantir a presunção de inocência, as garantias do devido processo, a contradição, a igualdade de armas, a transparência, a imparcialidade e a independência judiciais. Sem dúvida, ainda há reformas a serem feitas para que as mulheres vítimas possam sentir-se livres para recorrer à justiça e às instituições, sem serem julgadas ou sofrer consequências; e, igualmente, para que a justiça leve a sério situações como a descrita acima e seja tão ponderada quanto contundente, tão exaustiva quanto ágil na sua resolução, com uma análise minuciosa, sem se deixar levar por interesses mediáticos que apenas agravam os danos às denunciantes e aos denunciados.

Deve ficar clara a necessidade de uma reflexão profunda: se partimos do princípio de que uma sociedade democrática só pode ser construída a partir do respeito pelos direitos humanos, nunca se deve permitir o linchamento mediático paralelo ao julgamento processual, porque implica a própria deslegitimação deste último e o silenciamento no espaço público de vozes críticas e divergentes do “dogma oficial”, como a de Boaventura de Sousa Santos, que foi julgado, cancelado e condenado, sem direito à mais elementar defesa.

Fazer futuro – um testemunho amargo de um socialista desiludido

(José Monteiro, in Facebook, 08/07/2025, Revisão da Estátua)


O trauma do 18 de Março poderia ser suficiente para acordar o PS. Mas não foi. E, com boa probabilidade, não poderia ou pode ser. Durante longos anos o PS pretendeu a quadratura do círculo e navegou a bordo da barcaça do anticomunismo. È muito pouco para quem quer governar a sério. Significa, no essencial, amarrar-se ao passado por inabilidade ou incapacidade de olhar para a frente.

Em verdade, o PS já há muito que se foi transformando num “sítio” de linguagem vazia, ensimesmada, redonda, inapta, incapaz de gerar consequência política adequada ao pais que, ele PS, diz que somos. Um discurso sem alma, pobre, insuficiente para frutificar a seiva indispensável a um empoderamento político capaz de fazer futuro.

Assim, nesta rota suicida, perdeu a capacidade de pressentir o amanhã e de olhar o mundo antes de por ele ser esmagado. Ou, talvez pior: como escreve alguém que prezo, “perceberam que não podem perceber” e, para o haraquíri não ser completo, vão fingindo que não percebem.

Não me parece que seja possível que este PS volte a ter alguma relevância política. Há, desde logo, um ciclo mundial de fascização e o exemplo dos outros partidos socialistas europeus.

Há igualmente uma incapacidade de pensamento estratégico suscetível de clarear os próximos dez ou vinte anos e os caminhos necessários a percorrer.Mas há também, ou talvez primordialmente, um primeiro passo que faz deste PS uma verdadeira impossibilidade de ser: deixar de se esconder na metafísica neoliberal, de se embrulhar no mentiroso e putrefacto neoliberalismo político-económico, deixar de ser um PSD com pezinhos de lã e, enfim, de voltar a ser o verdadeiro grito de liberdade que esta terra, tão urgentemente, necessita…

Nota final

Um amigo meu, PS de alma, usa dizer-me que critico mais o PS do que a ”direita”. Riposto: a direita nunca me traiu. Nunca acreditei nela e, por isso, não poderia esperar dela outra coisa senão aquilo que ela faz, ou seja, destruir Abril e, nisso, destruir qualquer futuro para Portugal.  A direita até é eficiente: cumpre os seus objetivos com eficácia e tem a inestimável ajuda daqueles que nunca supusemos capazes de tal.

Quem realmente me traiu foi o PS, foi Costa – o tal amigo de criminosos, ou não seja ele quem chama a Israel, amigo –, foi a rota de apoio aos que foram mandatados para destruir o SNS, a escola pública, a segurança do cidadão e as políticas públicas mais essenciais à minimização da pobreza, à redução dos sem-abrigo, à destruição do sonho de habitação, ao empoderamento dos jovens, etc.

Estive com Costa contra Seguro, estive e estaria com Costa (promessa) contra Passos Coelho, já há muito que estou com Costa (promessa), contra o Costa que se me revelou.

E este PS, na senda do PS de Costa revelado, não permite esperar nada de salubre. Espero apenas que o PS não fique na história como o partido que ajudou a levar a democracia à sepultura.

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A cruzada do bem

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 18/02/2025)

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27 de Fevereiro de 2022, há pouco menos de três anos.

Se alguns nem sabiam situar a Ucrânia no mapa; outros, se das direitas, agiam por atávico reflexo condicionado e pensavam convictamente que a Rússia era «o comunismo», enquanto outros, se das esquerdas, afirmavam serem os russos «nazis».

Havia, ainda, os impressionáveis, aqueles que sem manifestar qualquer interesse em perceber o que ali acontecia há muito, lançavam mão ao discurso primitivo do anti-russismo desmazelado, pensando que bastava encadear um colar de adjetivos vazios e chorosos para adubar o fogo cego dos desabafos raivosos.

Todos, sem exceção, tanto os das direitas, como os das esquerdas, ou ainda os despolitizados, há muito que haviam aderido acriticamente ao preconceito da superioridade da «nossa maneira de viver», muito embora, tanto uns como outros se odeiem profundamente e tenham um entendimento conflituante a respeito dessa «maneira de viver».

Verificou-se, ainda, um fenómeno há mais de cem anos apontado por Le Bon: o surgimento dos camaleões que se queriam furtar às acusações dos extremistas de signo oposto e, assim, faziam o banho lustral de bondade. Partidários do Chega, do eterno envergonhado CDS, do PSD, do PS, do Bloco e do Livre irmanaram-se ombro a ombro com a bandeira que passara a ser o pendão comum azul-amarelo da forquilha invertida.

Os esquerdistas ali metidos não perceberam que glorificavam uma etnocracia “nacionalista” que por cá tanto abominam, ou um regime vassalo dos EUA e da NATO, enquanto os direitistas aplaudiam e exultavam com a cruzada contra o regime russo que é o contrário do “woke” que insuportavelmente lhes enche a boca de manhã à noite.

Obviamente, todos se portaram inqualificavelmente mal e conseguiram a proeza de colecionar todas as fraquezas possíveis de apontar aos homens [e às mulheres]: fraqueza intelectual, ignorância, caça ao inimigo inexistente, agressividade, arrogância, preconceito, irresponsabilidade, intolerância, imaturidade e, pois, oportunismo. Terão de beber a tisana depuradora antes de poderem voltar a falar.