A melancolia de esquerda revisitada

(António Guerreiro, in Público, 06/08/2021)

António Guerreiro

Como se viu recentemente, pela morte de Otelo Saraiva de Carvalho, a cultura de esquerda pode integrar hoje o “romantismo”, na sua “visão do mundo”. As aspas, num caso e noutro, têm funções diferentes: na palavra “romantismo”, elas servem para dizer que não se trata do movimento literário, na sua definição e delimitação históricas, mas de uma atitude, um modo de pensar, sentir e agir que atravessa os tempos e torna-se uma categoria do pensamento. Quanto a “visão do mundo”, as aspas servem para dizer que é uma expressão problemática e uma inevitável citação. Por mais naturalizada que esteja, por muito vulgar que se tenha tornado o seu uso, ela pertence a uma tradição escondida. Na verdade, quando analisada de perto, ela revela-se como a tradução de uma palavra forjada em data e por autor incertos (Kant? Schelling? Os estudiosos da sua história semântica divergem na atribuição) mas que irradiou com vigor precisamente no contexto histórico do romantismo alemão: Weltanschauung. A curva semântica desta palavra, como mostrou Victor Klemperer no seu famoso estudo sobre a língua do Terceiro Reich, vai da configuração intuitiva do mundo à ideologia. Na fraseologia nazi, Weltanschauung substituiu “Filosofia”.

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A atenção às palavras — às palavras do poder e ao poder das palavras — é um gesto crítico que deveria anteceder todos os outros porque é pelas palavras que começa a confiscação. Assim, prestando a devida atenção à frase inicial deste texto, percebemos que, levando a análise a um certo limite, é relativamente fácil definir uma “cultura de direita” (precisamente porque ela tende a cristalizar-se num vocabulário clássico), mas é difícil definir uma “cultura de esquerda”, não só porque a esquerda se declina no plural, mas porque a partir do momento em que se cristaliza num vocabulário, por conseguinte numa cultura, começa a trair-se a ela própria e a abandonar o seu núcleo crítico. E quanto ao “romantismo” — e, ainda mais, o romantismo revolucionário — que pensamento potencial, que relação com o devir, pode ele conter? Deve-se a um filósofo franco-brasileiro, filho de judeus da Europa Central, chamado Michael Löwy, uma análise e interpretação deste romantismo transhistórico que o subtrai à ideologia reaccionária ou mesmo fascista (a identificação do romantismo com o nazismo, ou o pré-nazismo, é uma questão importante), redescobrindo nele um lado revolucionário — progressista e não conservador, para utilizarmos o esquema que serviu para dividir o universo político. Neste sentido, o romantismo não é uma reacção ao Iluminismo.

Mas a revolta dos românticos, que concedia um papel importante à imaginação, está impregnada de melancolia. Daí a ideia de uma melancolia de esquerda, de que se ocupou o historiador italiano Enzo Traverso num livro de 2016, cuja edição original, publicada em França, se chama precisamente Mélancolie de gauche. Traverso atribui a essa melancolia “a força de uma tradição escondida” desde o século XIX. A sua análise é muito interessante e faz-nos perceber coisas pouco evidentes. Mas é possível verificar que essa tradição está cada vez menos escondida, já pouco tem de romântica e abandonou as suas potencialidade: são apenas cristalizações mitológicas, ficções fechadas, palavras semanticamente capturadas.

Difícil é hoje descobrir aquilo que sempre definiu a tarefa da esquerda: a construção de plataformas de onde se vislumbrem horizontes de expectativa, possibilidades de transformação que contradigam o regime do “presentismo” e os respectivos cenários da fatalidade.

O que é, afinal, a melancolia? É um processo psicológico que, levado ao extremo, subtrai o melancólico a toda a prova da realidade e o faz habitar entre fantasmas. Na teoria freudiana, a melancolia opõe-se ao luto (que é uma perda real que pode ser superada através de um “trabalho” — o “trabalho do luto”), hipertrofiando uma perda imaginária e entrando numa estratégia fúnebre. A melancolia tem o efeito de negação do mundo exterior, que é narcisicamente introjectado como objecto de amor. A esta alucinada cena onírica dos fantasmas devemos grandes obras literárias e artísticas, assim como importantes construções culturais. Mas a “força da tradição escondida”, que Traverso viu, na esteira de Walter Benjamin, na melancolia de esquerda arrisca-se hoje a ser um uso ruminante da memória que não tem nada do potencial que Benjamin descobriu na “rememoração”.



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A encruzilhada da esquerda

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 07/05/2021)

Miguel Sousa Tavares

Não me preocupa o impasse da direita portuguesa, a sua estagnação eleitoral e a sua incapacidade letárgica de abrir caminhos alternativos. Nem sequer sei se a tão contestada (pela esquerda) convenção do MEL já aconteceu ou não e nem percebo que importância tem isso. O que me preocupa é a esquerda. Claro que teoricamente, e a bem de uma democracia saudável, seria desejável que houvesse sempre latente uma alternativa de poder à direita, mas ela acontecerá no dia em que a direita e o centro-direita em Portugal encontrarem a fórmula e as pessoas certas para a encarnar. Até lá, e porque estamos ainda longe disso, o que me preocupa é como a esquerda exerce o poder e, sobretudo, que não desperdice oportunidades de aprender com as lições do passado, de servir as pessoas, de se ocupar de resolver os seus problemas concretos — numa palavra, de governar para o bem comum. Cem dias de Administração Biden nos Estados Unidos foram suficientemente eloquentes para que a esquerda portuguesa, e em particular o PS, meditem naquilo que pode ser feito, com muito menos preconceitos ideológicos e muito menos submissão a agendas da moda e muito mais avanços onde interessa. Enfrentando uma oposição política e social infinitamente mais acirrada do que aqui, Joe Biden traçou um caminho claro e a direito, assente naquilo que é a restauração do património de valores universais da esquerda: direitos humanos, compromisso absoluto com o combate às alterações climáticas, política externa guiada por princípios de democracia, solidariedade e não ingerência, combate à crise económica com cheques-família sem intermediação do Estado e redistribuição fiscal para combater as desigualdades (mas, atenção, ao contrário do que a malta economista do BE nas nossas universidades públicas aponta como exemplo sem indicar números, Biden, tal como a socialista Jacinda Ardern, da Nova Zelândia, pretende subir a taxa máxima de IRS, que abrange rendimentos acima de 480 mil euros por ano, de 37% para 39,6% — enquanto, entre nós, é de 48% para quem ganha mais de 80 mil e de 45% para quem ganha mais de 40 mil).

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Para não dizerem que não falei de flores, começo por dar dois exemplos de medidas que o Governo anunciou ter em estudo recentemente e que me parecem verdadeiras medidas de esquerda, justas e inclusivas. Uma é a introdução automática (sem que os seus beneficiários tenham de a pedir) de internet de banda larga, gratuita, nos lares das famílias mais desfavorecidas. Outra é o estabelecimento de uma quota de acesso ao ensino superior, independentemente de testes de admissão, a favor de minorias étnicas e sociais. Aqui, aliás, até vou mais longe, defendendo que deveria igualmente haver uma quota semelhante, obrigatória, nos estabelecimentos de ensino primário e secundário privados. Estas são medidas úteis e de efeitos visíveis, pensadas para além da espuma ideológica em voga, dos tribalismos a servir e da simples inveja de classe, que vêm a par do desejo de castigar o mérito e o sucesso individual, comum a uma certa direita de nostalgia salazarista.

Não é por acaso, aliás, que não poucas vezes e em não poucas áreas encontramos essa direita nostálgica e esta esquerda punitiva em caminhos coincidentes que, se olharmos com atenção, desembocaram sempre num mesmo local: o triunfo do Estado e a ruína do país. Um bom exemplo disso é o episódio protagonizado pela ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública (!), lembrando-se de atribuir um edifício dos serviços que tutela a estudantes universitários filhos de funcionários públicos. Decerto sem ponderar bem as reminiscências do seu gesto, Alexandra Leitão, longe de qualquer acto de modernização do Estado, estava sim a recuperar a velha práctica salazarista de fazer dos funcionários públicos os protegidos do regime — e isto depois de já o terem sido ostensivamente no processo de vacinação. Pior ainda foi quando disse ter sido mal compreendida e se quis explicar, dizendo que, como o edifício era do Estado, só podia ser utilizado pelo Estado. Ou seja: é deles. O Estado é deles, os edifícios do Estado são deles, não são nossos. É como um clube privado, mas pago com o dinheiro de todos. Será apenas um fait-divers, mas é elucidativo de como este Governo de várias esquerdas é um navio com um piloto ao leme e vários imediatos, cada um folgando ou caçando as velas conforme os ventos que lhe interessa apanhar. Os inomináveis desastres do Novo Banco e da TAP — fruto da facção estatizante da esquerda no poder (e também da direita populista, em parte do que toca ao NB) — aí estão para nos lembrar por muitos anos a vir e muitos impostos a pagar o preço que custa governar para satisfazer dogmas ideológicos da adolescência.

Ao contrário, a vergonha sem nome do que se passa no Perímetro de Rega do Mira e no Perímetro de Rega do Alqueva aí estão para nos mostrar o que sucede quando a esquerda se distrai do que é essencial — por preguiça, por diletância, porque não vem nas redes sociais ou não se manifesta nas ruas. Resumindo, porque já aqui escrevi abundantemente sobre isto: naquelas duas áreas, em zonas que são nuns casos de Reserva Agrícola Nacional, noutros de Reserva Ecológica e noutros de Rede Natura 2000 e até de Parque Natural, empresas, grande parte delas estrangeiras, subsidiadas pelos nossos impostos, praticam uma indústria agrícola agressora do ambiente em todos os sentidos, altamente consumidora de água e contaminadora química dos solos, destruidora da paisagem e dos ecossistemas. E, para tal, empregam, quase todas, uma mão-de-obra proveniente da Ásia, pagos miseravelmente, explorados por intermediários mafiosos e vivendo em contentores de aço e em condições que, hipocritamente, só agora o Governo diz ter descoberto serem “desumanas”. Mas esta vergonha dura há anos, com conhecimento de todos, com denúncias várias e perante o silêncio de todos com responsabilidades políticas, a começar pelo Governo e pelos partidos de esquerda e centrais sindicais.

Onde estiveram, em todos estes anos, os ecologistas partidários, os anticolonialistas contra o passado, os anti-racistas militantes? Querem derrubar estátuas e aceitam contentores com seres humanos lá dentro? Discutem (e acho bem) as regras do teletrabalho mas não se incomodam com homens a trabalhar 12 horas por dia, sem proteccão social alguma e a viveram aos 16 em cada contentor? E porquê? Porque não se manifestam? Porque não são portugueses? Porque não são suficientemente escuros?

Socorro-me do Fernando Assis Pacheco: “Eu quero o dia claro sobre as gentes da minha terra/ o pensamento claro devorando-me a cabeça.” Eis aqui uma agenda eternamente moderna para a esquerda: a justiça possível para tantos quanto possível; e um pensamento claro para determinar as políticas necessárias para tal. E isso passa por governar fora da agenda das redes sociais, das modas, das tribos e do politicamente correcto que invade o pensamento consentido e a comunicação social. Passa por não ter medo de fazer aquilo em que se acredita estar certo — não em cada momento, mas sempre, como princípio de actuação. Por exemplo e para terminar: acreditar que a defesa do Estado de Direito é um dos pilares fundamentais da defesa da liberdade e da democracia, a par da defesa de uma imprensa livre e responsável. E a liberdade e a democracia são onde tudo começa, são património inalienável da esquerda, em todas as épocas e contra todas as modas ou clamores populares. Defender o Estado de Direito passa por defender coisas essenciais como a presunção de inocência de todos os acusados, o seu direito a contraditório e a um julgamento imparcial em tribunal e não na rua ou nos jornais, e a defender isto sempre, mesmo contra a rua, contra a imprensa, contra a urgência de julgar e condenar. Porque, no fim da história, a subversão do Estado de Direito e a subversão das regras de um jornalismo livre e responsável é um objectivo planeado pela extrema-direita: sobre as cinzas de ambos esses pilares de uma sociedade democrática, eles reclamarão, como sempre, a vinda de um caudilho salvador da pátria.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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1.º de maio e o empreendedorismo dos escravos

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 03/05/2021)

Daniel Oliveira

(Daniel, desta vez só posso mesmo bater palmas. Excelente texto, atual, assertivo e panfletário. Dar-lhe-ia vinte valores sem qualquer hesitação. Estátua de Sal, 03/05/2021)


Os direitos que o trabalhador conquistou, e que lhe garantiram um século de liberdade crescente, são apresentados como uma prisão. A competição entre “empreendedores” miseráveis é o seu motor ideológico. E as plataformas tecnológicas, que permitem que se trabalhem 12 horas por dia, 7 dias por semana, ao ritmo do século XIX, para tirar menos de mil euros por mês, são o futuro proposto. Sem proteção na doença, férias, licenças, contratos, horário. O mundo proposto pelos vendedores das maravilhas da escravatura “empreendedora” é tão velho como o que reprimiu a manifestação de Chicago, a 1 de maio de 1886.


Um mundo mudou radicalmente nos últimos 135 anos, desde que a reprimida manifestação em Chicago exigiu a jornada de oito horas diárias. E, apesar das mudanças tecnológicas que deveriam ter libertado tempo para nós, ainda se trabalham 40,2 horas por semana na próspera e desenvolvida União Europeia – 40,8, em Portugal –, se incluirmos horas extraordinárias. Se é verdade que nestes 135 anos, os trabalhadores (agora conhecidos por “colaboradores”, para sublinhar a ausência de vínculos) conquistaram férias pagas, a semana inglesa, o direito à greve, a licença de parto e de doença, a reforma na velhice ou a negociação coletiva, as últimas três décadas foram de retrocesso.

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Não há nada mais idiota do que a fé acrítica no desenvolvimento tecnológico. A fé “progressista” na tecnologia substitui a máquina por Deus. Não é a tecnologia que determina que a prosperidade será para todos. Também não é ela que reforça os instrumentos de exploração. É o poder de cada um determinar o uso que será dado a essa tecnologia. É a política. Se os trabalhadores perderam a sua capacidade de defesa e de reivindicação, se deixaram de determinar de forma organizada e consciente as políticas públicas, a tecnologia será usada para os explorar um pouco mais, contribuindo para concentrar as suas vantagens nas mãos de poucos. Se tivessem essa capacidade, ela poderia libertá-los de trabalho alienado e oferecer a todos mais tempo livre com mais rendimento. A tecnologia reforça as tendências que já existem na sociedade. É a política, e não a tecnologia, que decide quem ganha e quem perde com cada desenvolvimento tecnológico.

Assim como é a política que determinará se a generalização do teletrabalho – com enormes riscos para a saúde mental e para as relações sociais – servirá para transferir mais custos do empregador para o assalariado e atomizar e isolar ainda mais os trabalhadores, fragilizando-os; ou se permitirá uma maior autonomia e ganho de tempo para mais pessoas. Na opção pelo teletrabalho, não está inscrita nenhuma das coisas. Mas está inscrita, na relação de poder que hoje existe, a primeira via.

As últimas três décadas resultara num enorme recuo em direitos laborais. Não se tratou de retirar da lei laboral os direitos e garantias que nela constavam, o que também aconteceu. Tratou-se de criar uma realidade paralela que é justificada com o “excesso de rigidez” das leis de trabalho, eufemismo para “excesso de direitos” dos trabalhadores. Ou com a globalização e mudanças tecnológicas, como se o uso a dar a uma e outra coisa estivesse pré-determinado. Um discurso a que foi associada a ética do empreendedorismo: quem aceitar ser um escravo será mais livre. Porque os direitos que o trabalhador conquistou, e que lhe garantiram um século de liberdade crescente – contrato, horário de trabalho, salário, direito a férias e a segurança –, são apresentados como uma prisão que o impede de ser tão rico como aquele para quem trabalha. Os sonhos que se sabem frustrados à partida, alimentados por competição entre “empreendedores” miseráveis, são o motor ideológico da perda de todos os direitos conquistados durante um século.

As plataformas tecnológicas, que permitem que emigrantes e portugueses trabalhem 12 ou 14 horas por dia, sete dias por semana, ao ritmo do século XIX, para tirarem mil euros ou menos por mês, são o exemplo da nova escravatura. Já não são as margens do mercado de trabalho, como quase sempre foi o trabalho imigrante. São o futuro que nos é proposto a todos. Sem proteção na doença, sem férias, sem licenças, sem contratos, sem limites na jornada de trabalho. Como há 135 anos. Mas com a promessa que a um destes empreendedores escravizados pode sair a lotaria. A resistência a isto não são boicotes à utilização destas plataformas, é a organização dos trabalhadores. Como não se fez, na passagem do século XIX para o século XX, não consumido os produtos manufaturados, mas pela construção de sindicatos e por greves. O ator político não é o consumidor, é o trabalhador.

Do ponto de vista político, tudo isto é possível porque a esquerda tem medo de parecer conservadora e ultrapassada. Vai abandonando estas lutas que os que sempre se opuseram a todos os avanços sociais vendem como caducas e anacrónicas. E permite que o que há de mais mofo na sociedade se apresente como novidade. Apesar de usarem as novas tecnologia e a desregulação global como alibi e de se apresentarem com uma novilíngua pejada de eufemismos hipócritas, os vendedores das maravilhas da escravatura “empreendedora” não têm rigorosamente nada de novo ou moderno para oferecer. O mundo que propõem é tão velho e conservador como o mundo que reprimiu a manifestação de Chicago, a 1 de maio de 1886.

Claro que a perda de direitos leva a uma revolta. A estratégia de direcionar essa revolta para imigrantes ou minorias é tão velha que espanta que haja quem ande à procura de explicações para o seu reaparecimento. Sempre foi esse o papel da extrema-direita: escape do poder económico para que o descontentamento poupe os de cima. Nunca teve outra função e, por isso, nunca assustou a elite económica. Em momentos de esgotamento político, como aquele a que assistimos, sempre contou com o seu apoio e financiamento.

A outra estratégia é a de canalizar a frustração dos trabalhadores contra os que ainda tenham alguns direitos. Sejam os mais velhos, com contratos (era o que se fazia há uns anos, alimentando um confronto geracional que já não tem muito a dar porque os mais velhos também já perderam direitos), sejam os trabalhadores do Estado, que estando fora do mercado competitivo e tendo maior capacidade de defesa e de reivindicação, mantêm muitos direitos que deixaram de existir no setor privado. Perante a injustiça relativa (e real), é fácil convencer os que perderam direitos que o caminho é exigir que os outros também os percam, fazendo-os acreditar que são “patrões” (contribuintes) explorados em vez de exigirem o mesmo para si.

As duas estratégias resultam. Mesmo que, intuitivamente, os trabalhadores saibam que a sua vida não melhorará um milímetro por mandarem embora imigrantes que fazem o trabalho que mais ninguém quer, por tirarem apoios sociais aos mais pobres ou por reduzirem os direitos dos trabalhadores do Estado que também deveriam ser seus. Mas não havendo quem lhes proponha melhor, é o que resta.

Diz-se que o problema deste tempo é a radicalização. Não é verdade. A radicalização é retórica e geralmente carente de foco político. O problema da esquerda, que teve um papel central nas conquistas de direitos laborais e sociais no século XX, é ter perdido a sua radicalidade nestas áreas – transferiu-as para outras. E, com isso, permitiu que um discurso ideológico se vendesse como técnico e a exigência de justiça social passasse a ser vista como devaneio ideológico.

Não há, nunca houve, outra forma dos trabalhadores conquistarem alguma coisa que não lhe querem dar que não seja a perturbação da paz social e económica. Só perante ela a concertação e negociação social acontecem. Ninguém dá o que não é obrigado a dar. A questão é se o sindicalismo, ou aquilo a que a ele suceda, descobre novas formas (e novas propostas) para o conseguir. Adaptadas, como o foram os sindicatos nascidos com a industrialização, às modalidades de trabalho e exploração que despontam. Ou se continua a acantonar-se nos poucos a quem as antigas formas de luta ainda podem servir.

O conservadorismo da esquerda não está na defesa dos direitos e garantias laborais. Essa é a radicalidade mais modernizadora que podem oferecer. Está na utilização de instrumentos de luta e resistência que não se adaptaram a este tempo. E que tenderão a ser mais, e não menos, radicais. Claro que não apelo a qualquer tipo de violência. Apelo à imaginação e à subversão.


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