O manual de instruções – ou réquiem para uma arquitetura

(José Pendão, in Facebook, 12/05/2026, Revisão da Estátua)


A Estátua não resiste em sublinhar a qualidade deste texto, no seu propósito de revisitar e nos facultar pistas de leitura interpretativa do mundo atual. Sim, citando Gramsci: “O mundo velho está a morrer e o novo ainda não pode nascer; neste interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”.

Os meus parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 12/05/2026)


Chamemos as coisas pelo nome, que é o mínimo que se deve a um cadáver: a ordem do pós-guerra morreu. Não foi assassinada — isso implicaria um ato, um momento, um culpado com as mãos ensanguentadas e a decência de fugir. Não. A ordem do pós-guerra foi abandonada. Deixada numa cadeira de rodas num corredor de hospital, com os documentos todos em dia e ninguém para a reclamar. Morreu da morte mais obscena que as civilizações conhecem: morreu porque deixou de ser útil a quem tinha a obrigação de a manter viva.

E o mais notável — o mais cirurgicamente notável — é que o guião dessa morte já tinha sido escrito. Várias vezes. Por pessoas diferentes. Em livros que toda a gente leu, ou diz ter lido, ou pelo menos reconhece a capa quando aparece na lista dos 100 livros que mudaram o mundo. Nenhum deles mudou nada, evidentemente. Mas voltaremos a esse ponto.

Comecemos pela arquitetura. Não a de betão — a outra. A de papel, de tratados, de instituições com siglas que durante décadas soaram a tédio burocrático e que, por isso mesmo, funcionavam. A ONU. O FMI. O Banco Mundial. A NATO. A União Europeia. O GATT e o seu rebento, a OMC. Os Acordos de Helsínquia. A Convenção de Genebra. O Tribunal Penal Internacional. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos — redigida, como se sabe, em 1948, por pessoas que ainda tinham nos olhos as imagens de Auschwitz e de Hiroxima e que, precisamente por isso, acreditavam que era possível (e sobretudo necessário) construir um sistema que impedisse a repetição do impensável.

Esse sistema não era bonito. Não era eficiente. Era lento, contraditório, hipócrita em muitas das suas aplicações, e frequentemente impotente. Mas existia. Tinha paredes. Tinha regras. Tinha, no mínimo, a força simbólica de dizer: Há coisas que não se fazem. E essa força simbólica — que os cínicos sempre desprezaram e os pragmáticos sempre subestimaram — era o que separava a ordem, do caos. Não uma muralha. Uma convenção. Um acordo tácito entre adultos de que o regresso à barbárie era demasiado caro.

Pois bem. A muralha está de pé. As paredes continuam visíveis. Os edifícios continuam em Genebra, em Nova Iorque, em Bruxelas, em Haia. Continuam a ter funcionários, orçamentos, logótipos, comunicados de imprensa e cafetarias com preços escandalosos. Mas, por dentro — por dentro — foram esvaziados com a meticulosidade de um ladrão que rouba um museu substituindo cada quadro pelo seu poster.

O Conselho de Segurança da ONU é um teatro onde dois dos cinco atores principais (que detêm o poder de veto, convém lembrar — e esse poder é absoluto, como o dos reis que a democracia supostamente aboliu) são, respetivamente, uma autocracia que invade países vizinhos e uma autocracia que constrói ilhas artificiais para reclamar mares. Os outros três — Estados Unidos, França, Reino Unido — oscilam entre a impotência, a hipocrisia e a amnésia seletiva que permite bombardear a Líbia em nome dos direitos humanos e ignorar o Iémen em nome do comércio de armas. A ONU não falhou. A ONU foi neutralizada por design, por dentro, pelos seus próprios fundadores, que desenharam o veto como uma válvula de segurança e criaram, na prática, uma máquina incapaz de agir contra os poderosos. Só contra os fracos. Sempre contra os fracos.

A OMC é um tribunal sem polícia. A Convenção de Genebra é uma carta de princípios que ninguém lê antes de disparar. O Tribunal Penal Internacional é uma jurisdição à qual os Estados Unidos nunca aderiram — e aprovaram, em 2002, uma lei (o chamado Hague Invasion Act, que não é paródia, embora mereça ser) que autoriza o uso de força militar para libertar qualquer cidadão americano detido pelo tribunal. Sim, leram bem. O país que se apresenta como farol da ordem internacional legislou o direito de invadir Haia.

E a União Europeia — ah, a União Europeia. O projeto mais ambicioso de cooperação supranacional da história da humanidade, nascido dos escombros de duas guerras e construído com a paciência beneditina de juristas, economistas e burocratas que acreditavam que a prosperidade partilhada era o melhor antídoto contra o nacionalismo. Transformada, sessenta anos depois, num mecanismo de gestão de crises que responde a cada crise tarde, mal, e com o entusiasmo de quem preenche formulários num serviço de finanças. Brexit. A crise migratória. A pandemia. A guerra na Ucrânia. De cada vez a mesma coreografia: surpresa, reunião de emergência, comunicado, divisão, compromisso diluído, comunicado sobre o comunicado. Bruxelas como Sísifo de fato e gravata — a empurrar a pedra encosta acima, de agenda em agenda, sabendo que volta a cair.

Isto seria apenas triste — o tipo de tristeza administrativa que gera editoriais sensatos e livros de quinhentas páginas com títulos como O Declínio da Ordem Liberal — se não fosse uma outra coisa: previsto. Inteiramente, meticulosamente, e por vezes assombrosamente previsto. Abramos os manuais.

1 George Orwell publicou 1984 em 1949 — um ano depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A coincidência cronológica é quase obscena. Enquanto Eleanor Roosevelt redigia o artigo 19.º (liberdade de opinião e expressão), Orwell descrevia a Novilíngua: um sistema em que as palavras são esvaziadas de significado até que “guerra” signifique “paz,” “liberdade” signifique “escravidão,” e o Ministério da Verdade se encarregue de reescrever o passado para que o presente nunca possa ser questionado.

Setenta e sete anos depois, a liberdade de expressão existe. Está consagrada em dezenas de constituições. É invocada diariamente — sobretudo por quem a usa como escudo para mentir sem consequências. O problema nunca foi a censura clássica, o corte, a proibição. Orwell percebeu isso: o problema é o excesso. O ruído. A multiplicação infinita de versões até que nenhuma seja verificável. Não é preciso proibir a verdade. Basta afogá-la em alternativas. O Ministério da Verdade não usa carimbos vermelhos — usa algoritmos. E funciona melhor do que Orwell imaginou, porque as pessoas colaboram voluntariamente. O Big Brother não precisa de vigiar: nós publicamos.

(E se isto parece exagero, perguntem-se: quando foi a última vez que leram uma notícia — uma — e tiveram a certeza de que era inteiramente verdadeira? Não “provavelmente verdadeira.” Não “verdadeira segundo fontes.” Certeza. A resposta, para a maioria, é que já não se lembram. A dúvida tornou-se o estado natural. E esse é, precisamente, o objetivo.)

2 Aldous Huxley publicou Admirável Mundo Novo em 1932, antes da guerra, antes dos campos, antes da bomba. O seu aviso era diferente do de Orwell, e por isso mais difícil de ouvir. Orwell temia os que proíbem livros. Huxley temia que não houvesse razão para os proibir, porque ninguém os quereria ler. A tirania de Huxley não oprime — entretém. Não castiga — seduz. O soma, a droga universal que elimina a ansiedade, a angústia e qualquer impulso de revolta, não é imposto. É desejado. Procurado. Consumido com entusiasmo.

Chamem-lhe soma. Chamem-lhe feed. Chamem-lhe scroll infinito, séries em catadupa, notificações que interrompem o pensamento exatamente no momento em que ele ameaçava tornar-se perigoso. A arquitetura da distração não foi construída por tiranos. Foi construída por engenheiros de Silicon Valley com licenciaturas em psicologia comportamental e stock options generosas, e funciona com uma eficácia que Huxley, que morreu em 1963, teria achado inverosímil. Não precisamos de ser obrigados a não pensar. Pagamos para não pensar. Pagamos subscrições mensais para não pensar. E quando, por acidente, pensamos, a próxima notificação chega em sete segundos. (Pausa para verificar o telemóvel. Sim, vocês também).

3 Ray Bradbury publicou Fahrenheit 451 em 1953. O título é a temperatura a que o papel arde. Os bombeiros, no romance, não apagam fogos — queimam livros. Mas Bradbury, numa entrevista tardia que merecia ser obrigatória, disse que o livro não era sobre censura governamental. Era sobre a sociedade que deixa de querer saber. Sobre a erosão lenta, confortável, democrática, do interesse pelo complexo. Sobre a substituição do argumento pelo slogan, da análise pelo soundbite, do debate pela performance. Os livros não ardem porque alguém os queima. Ardem porque ninguém os abre.

4 E George Miller — que ninguém confunde com um intelectual, porque usava carros e explosões em vez de palavras, e a academia tem estes preconceitos — filmou em Mad Max um mundo em que o contrato social se dissolveu e os recursos (água, gasolina, comida) são controlados por tiranos grotescos que os distribuem com conta-gotas para manter a dependência. A violência não é aberração: é sistema. A escassez não é acidente: é instrumento. E a estrada — interminável, árida, sem destino — é a única instituição que sobrevive.

Olhem agora para os preços da energia em qualquer país europeu. Olhem para o mercado da água na Califórnia. Olhem para as cadeias alimentares controladas por quatro ou cinco conglomerados que decidem o que comemos, quanto pagamos, e que agricultores sobrevivem. Miller não precisava de ter feito um documentário. Fez um.

— * —

O padrão, para quem ainda resista à evidência, é este: cada distopia foi lida pelas pessoas certas — e usada pelas erradas. Os que deviam ter protegido a verdade leram Orwell e perceberam que a desinformação é mais eficiente do que a censura: não é preciso destruir factos, basta fabricar dúvida. Os que deviam ter protegido a cultura leram Huxley e perceberam que o entretenimento é o controlo social mais barato que existe: não é preciso reprimir, basta saturar. Os que deviam ter protegido o conhecimento leram Bradbury e perceberam que a ignorância é autossustentável: não é preciso queimar livros, basta torná-los irrelevantes. Os que deviam ter protegido os recursos leram Miller e perceberam que a escassez é uma vantagem competitiva: não é preciso partilhar, basta controlar o acesso.

E todos — absolutamente todos — olharam para as instituições do pós-guerra e fizeram o mesmo cálculo: estas paredes ainda estão de pé, mas já ninguém as vigia. Podem ser esvaziadas por dentro. Lentamente. Respeitavelmente. Com comunicados e conferências de imprensa.

É o que Cícero, se fosse menos elegante, chamaria o roubo perfeito: não destruir a República, mas ocupá-la. Não demolir o Senado, mas torná-lo irrelevante. Deixar a fachada intacta, mudar as fechaduras.

A negociação — essa arte lenta, inglória, exasperante, que durante décadas impediu que desacordos entre potências nucleares se transformassem em cogumelos atómicos — foi substituída pela retórica do mais forte. Não porque a retórica seja mais eficaz. É-o menos. Mas é mais rápida. Dá melhores soundbites. E, sobretudo, não exige a humildade de reconhecer que o outro lado existe.

A subsidiariedade — essa ideia incómoda de que os que mais têm devem algo aos que nada têm, não por caridade mas por cálculo civilizacional, porque sociedades demasiado desiguais implodem — foi substituída pela mística da extração. Extrair valor. Extrair dados. Extrair trabalho. Extrair atenção. Extrair até não haver mais nada para extrair, e depois vender o relatório que documenta a extração como “caso de estudo em eficiência.”

A compaixão — e peço desculpa pela palavra, que parece de outro século, e talvez seja — foi reclassificada como fraqueza. A solidariedade como ingenuidade. O bem comum como conceito vago, bom para discursos inaugurais e nada mais.

— * —

Saramago, em O Ensaio sobre a Cegueira, escreveu que o pior não é a cegueira em si — é a cegueira de quem, podendo ver, escolhe não ver. Nesse romance, uma epidemia inexplicável cega toda uma cidade. A ordem dissolve-se. As instituições colapsam. A violência instala-se. E os que ainda vêem — que existem, que estão ali, que testemunham tudo — são demasiado poucos para impedir o que quer que seja.

Nas distopias, porém, há sempre um rebelde. Winston Smith. O Selvagem de Huxley. Montag, o bombeiro que começa a ler. Max, no deserto. Alguém que resiste. Alguém que vê. Alguém que, mesmo derrotado (e quase todos são derrotados — os autores de distopias são honestos quanto a isso), pelo menos encarna a possibilidade de que a resistência exista.

Na realidade — nesta realidade, a nossa, a que não tem créditos finais — o rebelde existe. Tem um podcast. Vende suplementos alimentares. Tem cinquenta e três teorias sobre o que realmente se passa, todas mutuamente incompatíveis, e o único ponto em que se distingue do sistema que diz combater é que ainda não tem orçamento suficiente para o replicar.

E aqui reside o veneno final. O mais lento. O mais eficaz.

A resistência — a verdadeira, a que os autores de distopias imaginaram como último reduto da dignidade — foi absorvida pelo próprio sistema que devia combater. Transformada em produto. Em nicho de mercado. Em estética. Usamos a palavra “resistência” como se fosse um hashtag (e, de facto, é — verifiquem). Lemos Orwell e partilhamos citações no Instagram. Citamos Huxley em threads do X entre dois anúncios de cripto moedas. A própria denúncia do sistema tornou-se conteúdo. E o conteúdo, como sabemos, precisa de engagement. E o engagement precisa de plataformas. E as plataformas pertencem — ironia magistral, ironia que os deuses gregos apreciariam com o seu humor cruel — exatamente às pessoas contra quem a resistência devia ser dirigida.

Orwell avisou. Huxley avisou. Bradbury avisou. Miller filmou. Saramago narrou. Cada um deles ofereceu, à sua maneira, uma planta do edifício em chamas. Um mapa do desastre. Um diagnóstico. Nós lemos o diagnóstico, concordámos com a gravidade, partilhámos nas redes, e voltámos a sentar-nos.

As instituições do pós-guerra estão de pé. Ocas, esvaziadas, habitadas por fantasmas que ainda emitem comunicados. Os manuais de instruções estão todos escritos — lidos, sublinhados, citados. E o edifício arde. Sem pressa. Sem drama. Com a lentidão de quem sabe que ninguém vai chamar os bombeiros. Até porque os bombeiros, como Bradbury nos explicou, estão ocupados. A queimar livros.

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Os Resistentes

(João Gomes, in Facebook, 29/12/2025)


Há seres humanos que persistem em acreditar quando acreditar já não é cómodo. Não por desconhecimento do mundo, mas por lucidez suficiente para perceber que a realidade dominante não é sinónimo de verdade última. São os resistentes. Não marcham em bloco nem levantam bandeiras ruidosas; sobrevivem, antes, na obstinação silenciosa de quem se recusa a aceitar que a injustiça seja natural e a desigualdade inevitável.

Carregam consigo ideologias feridas, muitas delas declaradas mortas pelos vencedores da história. Dizem-lhes que falharam – e falharam, é certo, não poucas vezes. Mas os resistentes sabem que muitas dessas falhas não nasceram das ideias em si, mas da sua captura: pela má condução política, pelo autoritarismo travestido de redenção, ou pela imaturidade de sociedades que ainda não compreendiam que a força coletiva não anula o indivíduo – protege-o.

Vivem hoje cercados por um liberalismo económico que se apresenta como horizonte único, como se fosse uma lei da natureza e não uma construção histórica. Um sistema que absolutiza o mercado, privatiza o risco, socializa o fracasso e chama liberdade à sobrevivência competitiva. Um sistema que mede o valor humano pela produtividade, a dignidade pelo rendimento e a vida pela sua utilidade económica.

Nesse mundo, a precariedade deixou de ser exceção para se tornar condição existencial. O trabalho já não garante futuro; apenas adia a queda. A riqueza cresce, mas escorre para cima, concentrada em elites cada vez mais desligadas da vida comum. Fala-se de mérito para justificar heranças, de eficiência para legitimar cortes, de inevitabilidade para anestesiar consciências.

Os resistentes não ignoram isto. Pelo contrário: é por verem com clareza que não desistem. Sabem que a promessa de uma sociedade mais justa foi traída, mas recusam aceitar que tenha sido uma ilusão. Recusam confundir o erro histórico com a falência moral da ideia de solidariedade. Continuam a acreditar que o trabalho e o fruto do trabalho não podem existir apenas ao serviço de poucos, enquanto muitos vivem numa permanente economia do medo.

Chamam-lhes ingénuos. Sonhadores fora do tempo. Mas talvez sejam apenas aqueles que ainda não se renderam ao cinismo como forma superior de inteligência. Procuram a bondade acima do materialismo, a concórdia acima da disputa permanente, o bem comum acima da acumulação privada. Não porque ignorem o conflito, mas porque sabem que uma sociedade organizada exclusivamente em torno dele acaba por se devorar a si própria.

Os resistentes não prometem paraísos. Sabem que nenhuma organização humana é perfeita. O que recusam é a normalização da injustiça, a glorificação da desigualdade, a ideia de que não há alternativa. Persistem não por esperança fácil, mas por responsabilidade ética. Porque desistir seria aceitar que o mundo é apenas aquilo que o poder permite – e nada mais.

E enquanto houver quem resista assim, sem garantias, sem aplauso e sem recompensa, a história não se fecha. Fica suspensa. Inquieta. À espera de que alguém volte a lembrar que viver em sociedade não é competir até ao esgotamento, mas partilhar o risco, o trabalho e a dignidade de existir.


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“O capitalismo “está morto”, mas Varoufakis não está contente: eis o tecnofeudalismo

(Pedro Rios sobre entrevista de Yanis Varoufakis, in Público, 20/11/2025)

O capitalismo morreu e deu lugar a algo pior, defende Yanis Varoufakis em Tecnofeudalismo

Somos servos nos territórios digitais de Bezos, Zuckerberg e companhia, os senhores feudais do século XXI. A tese de Yanis Varoufakis no livro Tecnofeudalismo.


Década de 1770. A vida corria mais ou menos como dantes em vários lugares da Europa. Homens ricos dominavam as zonas rurais e quarteirões urbanos, comandavam exércitos e marinhas. A renda das terras continuava a ser a força económica mais poderosa. Para onde olhássemos, víamos o que ainda podia ser descrito, em termos económicos, como uma forma de feudalismo, mesmo que esse sistema social, económico e político já estivesse teoricamente morto. Noutros sítios, as nuvens de fumo lançadas pelas fábricas alimentadas pelas primeiras máquinas a vapor poderiam levar alguém a falar em “feudalismo industrial” ou “feudalismo de mercado”, mas observadores perspicazes chamaram “capitalismo” a este emergente sistema económico e abriram os olhos da humanidade para a “grande transformação” que estava a acontecer. A imagem está em Tecnofeudalismo, livro de Yanis Varoufakis agora publicado em Portugalpela Objectiva.

Em 2025, o economista e ministro das Finanças grego em 2015 também vê um sistema a nascer nas ruínas de outro. Usa um nome, polémico, audaz, para ele: tecnofeudalismo. “Qual é, então, a minha hipótese? É a de que o capitalismo está morto, no sentido em que a sua dinâmica deixou de governar as nossas economias”, escreve em Tecnofeudalismo, editado originalmente em 2023. Ao Ípsilon, Varoufakis, uma das mais conhecidas figuras da esquerda europeia, diz que “o parasita cresceu mais do que o organismo”: o tecnofeudalismo matou o capitalismo.

Treinar máquinas para que nos treinem para que as treinemos

É uma imagem forte, uma poderosa analogia. No feudalismo, o sistema económico pré-capitalista que marcou a vida na Europa, os servos trabalhavam sem remuneração nas terras dos senhores feudais (ou dos seus vassalos). No tecnofeudalismo, segundo Varoufakis, os utilizadores da Internet são novos servos: com cada scroll, texto, fotografia ou vídeo carregados para a Net, com cada minuto de atenção despendido, contribuímos para a acumulação de riqueza pelos novos senhores feudais — Jeff Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Meta), Sundar Pichai (Alphabet), Elon Musk (X, Tesla), Tim Cook (Apple) & companhia. Nos feudos digitais destes ultra-ricos, somos “servos não remunerados, cuja função é fornecer as nossas informações, a nossa atenção, a nossa identidade e, sobretudo, os padrões de comportamento que treinam os seus algoritmos”, lemos em Tecnofeudalismo.

A “mutação” do capitalismo

O tecnofeudalismo, um termo já usado em 2020 pelo economista francês Cédric Durand,​ não equivale ao feudalismo, esclarece Varoufakis. “Todos os meus críticos cometem o erro de pensar que estou a sugerir que voltámos ao feudalismo, ao passado. Não, não voltámos. Vamos em direcção ao futuro, a um futuro muito distópico”, diz ao Ípsilon, numa videochamada a partir de sua casa, na Grécia.

Podia ter usado expressões como capitalismo “da nuvem”, “digital”, “algorítmico” ou “da vigilância”, este último cunhado por Shoshana Zuboff​​, socióloga que denunciou a maneira como as big tech extraem os nossos dados e manipulam o nosso comportamento para maximizar receitas. Porém, acredita o ex-ministro grego, a questão hoje não é “quem sabe o quê e o que acontece com os nossos dados”, mas antes quem “detém e quem lucra com este poder exorbitante”. O “jogo intensificou-se”, indo muito além da vigilância: para ele, está em causa uma mudança profunda na economia e uma nova forma de capital, o capital-nuvem (referência à computação em nuvem) — com consequências políticas que já são visíveis.

Socializar o “capital-nuvem”

“O que produz a Uber? O que produz o Airbnb? O que produz a Amazon? Nada, absolutamente nada, excepto o poder de cobrar rendas”, defende. “E depois há máquinas, como esta aqui [mostra o telemóvel] — o Google Assistant — ou a [Amazon] Alexa, que são interfaces com uma forma de capital que nada produz. Treina-se [a máquina] para que ela nos conheça e ela treina-nos para que a treinemos a conhecer-nos melhor. E depois ela dá-nos conselhos — sair ou não de casa consoante a meteorologia, que livro comprar.”

Nesta vida cada vez mais digital, teoriza Yanis Varoufakis, velhos preceitos do capitalismo — o mercado, a competição livre — são derrubados, trocados por territórios digitais controlados por empresas de matriz monopolística. Exemplifica: “Se perguntarmos ‘Alexa, que bicicleta eléctrica recomendas que eu compre?’, somos transportados para um território onde uma máquina — não um anunciante humano, não um especialista em marketing — coloca desejos de consumo na nossa mente.” Ao comprar a bicicleta no site de Jeff Bezos (no seu “feudo”), “parte do que pagámos pela bicicleta vai para a Amazon, que não a produziu”. Uma venda que acontece “fora do mercado” tradicional do capitalismo, um negócio em que o fabricante de bicicletas reduz a sua mais-valia para pagar uma “renda a Jeff Bezos”. Os novos senhores feudais não só exploram o trabalho não remunerado dos servos, apropriam-se também do valor produzido pelos capitalistas tradicionais, os seus vassalos (o fabricante de bicicletas que depende da Amazon é um deles).

O capitalismo “assentava em dois pilares: os mercados e o lucro. Se estiver certo na minha análise, esta nova forma de capital, que triunfou completamente, substituiu os mercados por estas plataformas digitais — ou feudos, como lhes chamo.” Empresas como a Amazon valem mais do que o PIB da larga maioria dos países— cada uma vale mais de 2 biliões (milhão de milhões) de dólares — ​e o seu negócio está sobretudo ligado a “rendas, não a lucros. Já não falamos de capitalismo.” Séculos depois do fim do feudalismo, “a renda voltou a ser a maior fonte de acumulação de riqueza”.

O poder das big tech

As crises de 2008 e da pandemia de covid-19 levaram os bancos centrais a emitir moeda. Em vez de criar empregos ou aumentar salários, os bancos e as empresas preferiram investir nas acções das grandes empresas tecnológicas. Consequência: em vez de reanimar o capitalismo, a “avalanche de fundos públicos” deu início à Era do Capital-Nuvem, lemos em Tecnofeudalismo. As big tech valorizaram em bolsa e ganharam poder. Mais recentemente, aliaram-se a Donald Trump. Varoufakis dá um exemplo recente, vindo dos Estados Unidos: a regulação das stablecoins, criptomoedas indexadas ao dólar. “Pela primeira vez, o Estado cedeu o seu monopólio de imprimir dinheiro. O que a Administração Trump fez foi dizer aos tipos das big tech e aos banqueiros ‘juntem-se e podem imprimir dólares’, o que é uma transição assustadora. Nunca teria acontecido se não tivéssemos tido a ascensão do capital-nuvem.”

Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, Sundar Pichai e Elon Musk na tomada de posse do Presidente Trump, em Janeiro Pool / getty images

Este tipo de capital cresce quanto mais dependentes dos ecrãs somos. “Não há conspiração aqui: o código do algoritmo está escrito de maneira a maximizar as rendas da nuvem do seu dono. O algoritmo trabalha por conta própria, apoliticamente, de forma totalmente amoral. Acontece que para maximizar as rendas da nuvem de Elon Musk, o Twitter [agora X], o algoritmo procura deixar-nos zangados. Envenena as nossas conversas, envenena a nossa democracia. [Outros algoritmos] canalizam a nossa criatividade através do Spotify, da Netflix — e depois temos a inteligência artificial a escrever guiões de filmes. A lógica do capital-nuvem penetra em todos os recantos da nossa existência, da mesma forma que Marx e Engels descreviam, em A Ideologia Alemã​[1846], que a acumulação de capital estava a mudar a nossa cultura, o nosso ethos, a nossa alma.”

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Como podem os países responder à influência desmesurada das big tech? Varoufakis elogia a “muralha” que a China ergueu para impedir a entrada de empresas norte-americanas na sua economia. Diz ainda que Pequim está mais adiantada do que a União Europeia na interoperabilidade entre plataformas online (por exemplo, permitir que os seus utilizadores recebam mensagens de outras plataformas ou que possam transitar entre elas sem perder informações pessoais) — deixarmos de ser “servos” ou reféns das plataformas que usamos “reduz significativamente” o poder das grandes tecnológicas. Critica o facto de, neste ano, a Comissão Europeia ter abandonado os planos de cobrar um imposto sobre as empresas digitais, uma vitória para Trump e os gigantes tecnológicos dos EUA, como a Apple e a Meta. A “soberania digital” europeia e o combate ao domínio das big tech é uma das bandeiras do Democracy in Europe Movement 2025 (DiEM25), a aliança europeia de esquerda que Varoufakis co-fundou.

Não é um ludita. “Não somos contra o capital-nuvem — somos contra a ditadura do capital-nuvem detido por 0,0001% da população”, diz. “Queremos capital-nuvem, mas queremos socializá-lo. Mas isso exige coragem política e a Europa não a tem.” Imagina, por exemplo, uma versão do Airbnb feita em Lisboa, com “regras votadas pelos cidadãos” para impedir a descaracterização da cidade pelo turismo, uma app compatível e interoperável com outras aplicações do género de outras cidades e com as apps de transportes locais. “Porque é que não a fazemos?”

O erro da esquerda

No capítulo final de Tecnofeudalismo, livro escrito como uma espécie de diálogo com o seu falecido pai, também marxista, Varoufakis arrisca desenhar o que poderia ser uma “fuga ao tecnofeudalismo”, uma visão com “empresas democratizadas”, “dinheiro democratizado”, “a nuvem e a terra como bens comuns”. Uma visão de esquerda: para fazer das ferramentas digitais meios de “colaboração e emancipação humana”, e para voltarmos a ser donos “da nossa mente, temos de possuir colectivamente o capital-nuvem”

As críticas de Varoufakis, que se define como marxista libertário, à esquerda levam-no a recuar ao início do século XX. A esquerda, nas suas várias tipologias, cometeu, então, “um grande erro”.

“Quando a esquerda surgiu com força, no século XIX, era um movimento emancipatório amante da liberdade. Era tudo sobre libertação. Era sobre libertar os trabalhadores da fome e da exploração. Era sobre libertar as mulheres do patriarcado. Era sobre libertar as colónias das metrópoles, do imperialismo. Era tudo sobre liberdade. E algures no início do século XX, abandonámos o conceito de liberdade. Entregámo-lo aos liberais, que não querem saber da liberdade de ninguém que não eles próprios, só se preocupam com a liberdade dos poderosos.” A esquerda focou-se “na igualdade e na justiça”, mas tornou-se “autoritária”, como se viu na União Soviética.

Antes de entrar na política grega, incursão que teria o seu auge em 2015, quando foi, por poucos meses, ministro das Finanças em plena crise da dívida soberana do país, Yanis Varoufakis dava aulas numa universidade. “Ninguém me conhecia excepto pelo trabalho académico”, conta. “Depois de 1929 [o crash da Bolsa de Nova Iorque], com o falhanço da esquerda em fazer avançar uma agenda para transformar a economia social, o descontentamento cresceu devido às políticas de austeridade e o resultado foi o fascismo. Em 2008, senti que isto voltaria a acontecer. Foi por isso que entrei na política, porque sabia que o fascismo teria um ressurgimento. Estava convencido disso por causa desta combinação de austeridade severa para a maioria e de socialismo para os grandes negócios e o grande capital. Isso levaria sempre a descontentamento que seria explorado pelos xenófobos, pelos ultranacionalistas, pelos fascistas.” Ao salvar os bancos, Barack Obama “criou Trump”; na Europa, ao impor austeridade, governos sociais-democratas geraram uma “raiva” que germinou durante anos e alimentou a ascensão da direita radical em vários países, entre os quais Portugal. E a esquerda, o que faz? “Está a travar batalhas de há 50 anos que não podem ser vencidas.”

Ainda assim, Varoufakis não perdeu a esperança. “Figuras como Zohran Mamdani [um socialista democrático eleito presidente da Câmara de Nova Iorque] lembram-nos de que não temos o direito de fazer passar os nossos falhanços por inevitabilidades”, diz. “Faço sempre a distinção entre esperança e optimismo. Não sou optimista. Não tenho o direito a ser optimista. Vivemos num planeta que está a morrer. Há uma catástrofe climática. Temos genocídio. Vivemos sob circunstâncias terríveis. Os historiadores do futuro vão olhar para a nossa geração e não vão ser gentis. O nosso dever moral não é sermos optimistas, mas termos esperança e fazermos dessa esperança algo real.”