A Ordem do Dia

(Daniel Oliveira, in Expresso, 26/08/2021)

Daniel Oliveira

A 20 de fevereiro de 1933, 25 industriais encontraram-se com Hitler e ofereceram 2 milhões de marcos à campanha nazi. Empresas que hoje são motores da Alemanha e da Europa. Éric Vuillard descreve a reunião, em “Ordem do Dia”. Hitler não foi o chefe de lunáticos que assaltou o poder, contra a vontade da elite. Foi a solução de recurso dessa elite. Têm saído notícias de empresários que financiam o Chega. Ele é um reforço musculado do sistema. Reductio ad Hitlerum? Não. Estou a dizer que, como escreve Vuillard, “não se cai duas vezes no mesmo abismo, mas cai-se sempre da mesma forma”


A 20 de fevereiro de 1933, 25 industriais e banqueiros encontraram-se com Adolf Hitler, que 15 dias depois iria a votos e precisava de dois terços do Parlamento para aprovar a Lei de Concessão de Plenos Poderes, o que acabaria por a ser possível graças ao apoio do Partido do Centro Católico. A reunião, com o objetivo de recolher dinheiro para a campanha, foi na residência oficial do Presidente do Reichstag, Hermann Göring. Éric Vuillard descreve-a, em “Ordem do Dia” (Prémio Goncourt 2017, publicado em Portugal pela D. Quixote), preenchendo os espaços vazios com notas ficcionais.

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Na reunião estariam Wilhelm von Opel (Opel), Ernst Tengelmann (Gelsenkirchener Bergwerks), Fritz Springorum (Hoesch), August Rosterg (Wintershall), Karl Buren (BUBIAG e membro do Conselho da BDA – confederação patronal alemã), Georg von Schnitzler ( IG Farben), Hugo Stinnes Jr. (membro do conselho da Associação Industrial Alemã), Ludwig von Winterfeld e Wolf-Dietrich von Witzleben (Siemens), Wolfgang Reuter (Demag), August von Fink (filho do fundador da Allianz) e mais alguns industriais, banqueiros e figuras que viriam a ter relevo na política económica nazi. Só naquele dia, a fina flor da finança e da indústria alemã ofereceu ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães dois milhões de marcos. A reunião só fica na História porque a História foi severa com o que aconteceu depois. Aquele era um encontro banal. Negócios, apenas. O encontro com Hitler foi afável, com frases amenas e de atenção para cada um dos convidados.

Escreve Éric Vuillard: “O essencial da mensagem cingia-se a isto: era preciso pôr termo a um regime fraco, afastar a ameaça comunista, suprimir os sindicatos e permitir que cada patrão fosse um Führer na sua empresa.” O objetivo não era a subversão do sistema, era a salvaguardar o que interessava no sistema: a prosperidade daquelas respeitáveis fortunas. Depois da saída de Hitler e de novo discurso de Goering, repetindo as mesmas ideias, Hjalmar Schacht, presidente do banco central alemão até 1930 e futuro ministro da economia de Hitler até 1937, sorriu e rematou: “E agora, meus senhores, é passar à caixa!”

Mas quem ali estava não eram aquelas pessoas. Era a BASF, a Bayer, a Agfa, a Opel, a IG Farben, a Siemens, a Allianz, a Telefunken, a Varta (então Accumulatoren-Fabrik Aktiengesellschaft), a Krupp. Quase todas ainda existem, quase todas com os mesmos nomes. Estes motores da economia alemã e europeia não se limitaram a ajudar Hitler a chegar ao poder. Lucraram com a exploração do trabalho dos campos de concentração. Buchenwald, Ravensbrück, Sachsenhausen, Flossenbürg, Dachau, Natzweiler-Struthof, Dora-Mittelbau, Gross-Rosen, Neuengamme ou Auschwitz serviram empresas como a Krump, a BMW, a Siemens, a Bayer, a Agfa, a Telefunken ou a IG Farben (a última explorava uma enorme fábrica em Auschwitz). Algumas foram, mais tarde, forçadas a indemnizar sobreviventes do Holocausto ou seus herdeiros, usando o gesto para uma limpeza publicitária, mas sempre contrariadas ou em valores irrelevantes para o dano causado e o lucro garantido.

Hitler não foi o chefe de um grupo de lunáticos que assaltou o poder, contra a vontade da elite de então. Foi a solução de recurso dessa elite. E a razão porque falo deste exemplo extremo é porque em todas as outras vitórias da direita autoritária, mesmo que muito menos extremas, aconteceu o mesmo.

Um grande empenhamento de doutrinação ideológica conseguiu que se instalasse uma associação automática entre capitalismo e democracia. E essa associação passou a fazer-se de forma ainda mais ousada, entre capitalistas e democracia. Haverá, na elite económica, quem tenha mais ou menos amor à democracia. Haverá muito poucos para quem esse amor supere o apego aos seus próprios interesses. E há momentos da História, que nem sequer são excecionais, em que a democracia e a liberdade são inimigas dos seus interesses.

Os que se movem pelo lucro não têm outros valores que não seja o lucro. A liberdade ou a democracia interessa-lhes na medida em que lhes serve, dispensando-as quando são um empecilho. Não desprezam nem acarinham o poder do Estado. Precisam do Estado para impor as suas “reformas”, defender os seus negócios e a sua propriedade e reprimir as veleidades democráticas do povo. Dispensam o Estado quando ele limita o seu poder.

Haveria, entre os “respeitáveis” industriais que financiaram a entrega do poder absoluto a Hitler, alguns nazis. Outros tratavam apenas da “ordem do dia”, fazendo contas aos seus benefícios e necessidades de curto e médio prazo. Depois, havendo mão de obra disponível em campos de concentração, aproveitaram. São só negócios. Muitos seriam antissemitas, mas todos perceberiam a enorme vantagem de ter um agitador que, perante o povo, apontasse o dedo para bem longe deles. E isso também não mudou.

Têm saído notícias sobre vários empresários já com algum peso a financiar o Chega – esperemos que todos o façam dentro da lei. Não há, nesse apoio, nada de estranho. Pelo contrário, ele é natural e acontece com quase toda a extrema-direita por esse mundo fora. Estranho é que, por enquanto, ainda seja tímido. O Chega é muitas vezes apresentado como antissistémico. A palavra tem a fluidez necessária para ser usada por todos. Ela só pode ser traduzida com rigor quando nos entendemos sobre o que é o sistema. E, para os que são contra o sistema, ele é apenas aquilo a que se opõem. Mas se assumirmos que o sistema é, antes de tudo, o económico, o Chega é o oposto de um partido antissistémico. É um reforço musculado do sistema. Basta ler o programa social e económico do partido de 2019, antes do apagão a que chamaram “clarificação”.

Os empresários que agora financiam André Ventura são os que sentem que as coisas estão maduras para impor as suas “reformas” de forma mais expedita. Também eles acharão que o sistema é o que não gostam: o que limita a sua liberdade absoluta. Se o Chega crescer, outros, talvez mais “respeitáveis”, irão seguir-lhes o exemplo e pôr ali as suas fichas.

Estou a cair na falácia argumentativa conhecida por Reductio ad Hitlerum? A própria ideia desta falácia, que tenta isolar o horror nazi como algo absolutamente excecional, é conveniente, porque nos quer fazer acreditar que o que aconteceu ali não nasceu de processos políticos banais e repetíveis. Mas que fique claro: não estou a dizer que Ventura é nazi. É mesmo só oportunista. O que estou a dizer é que a sua função, para esta elite, é a de sempre. A melhor resposta à acusação é dada por Éric Vuillard: “Não se cai duas vezes no mesmo abismo. Mas cai-se sempre da mesma forma, com uma mistura de ridículo e de pavor. (…) O abismo está rodeado de moradas imponentes.”


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Tão verde, o novo mundo

(António Guerreiro, in Público, 28/05/2021)

António Guerreiro

A natureza é um campo de batalha. E a guerra em curso não é aquela imanente às leis do equilíbrio natural nem tem nenhum aspecto darwinista, mas é uma guerra civil mundial, assimétrica, entre os açambarcadores e os expropriados. Agora, que os recursos finitos estão à beira do esgotamento e que deixou de se poder contar com a grande disponibilidade do universo natural através da domesticação técnica, económica e política, é o “capitalismo verde”, ungido de virtudes salvíficas, que prossegue a mesma guerra de sempre. Veja-se o que se passa actualmente muito perto de nós: no Alentejo, hectares e hectares de terra começam a ser cobertos por painéis fotovoltaicos e estão anunciados projectos megalómanos. Desactiva-se a central de carvão em Sines, mas a seguir, a alguns quilómetros dali, projecta-se uma vasta impermeabilização de terrenos pelos tais painéis — lisos, estéreis e mortais como a matéria plástica das estufas mais a sul. A população da zona ficou agora a saber que o sol, quando nasce, não é para todos. Muito mais a norte, nas terras do Barroso, não é o sol, mas o lítio que é a matéria-prima a extrair do fundo da terra. A população protesta, organiza-se pelo direito à paisagem e à diversidade da vida que nela habita. Mas a paisagem, como sabemos, começou a ser açambarcada ainda antes do sol.

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É verdade que não podemos viver sem extrair energia de algum lado e não conseguimos imaginar uma diminuição drástica do consumo de energia sem que se dê uma regressão catastrófica. Mas nenhuma exigência de realismo nos deve fazer acreditar nas falsidades das energias alternativas e renováveis, a que temos sido expostos enquanto se vai instalando um capitalismo verde à custa da chamada “crise climática”. A verdade que hoje estamos em condições de apreender, sem hesitações, é que não há energias inócuas e sem efeitos muito nocivos. O que há é um discurso poderoso para encobrir o lado negro da onda verdejante. Sabemos que a extracção do lítio para as baterias dos carros eléctricos (assim como outros componentes necessários à sua fabricação) tem efeitos devastadores; sabemos que a energia solar, explorada em larga escala, precisa de superfícies imensas, instala o deserto, expropria as populações da sua terra. As chamadas energias alternativas são a nova indústria do capitalismo verde e transformam as populações em cobaias de um laboratório planetário. O neo-liberalismo teorizado pelos societários do Mont-Pèlerin diz que a condição para um funcionamento optimal do mundo é que as populações sejam privadas de toda a capacidade de agir sobre ele.

A denominada “crise climática”, que muitos ingénuos pensaram e pensam que seria o factor que iria, finalmente, ditar o fim do capitalismo, é o recurso recente de um novo capitalismo triunfante. Como nos ensinou Schumpeter, no capitalismo a destruição desempenha um papel tão importante como a criação. O slogan de um ecologismo de boas vontades, mas quase inócuo, avisa que “não há planeta B” e que caminhamos para uma catástrofe que atinge a todos. Não é verdade: há um planeta B no interior deste mesmo planeta, onde se instalam, ao abrigo das calamidades (canículas, cheias, tufões, ciclones, etc.), a minoria que açambarca todos os meios e recursos.

Para alguns, o proclamado fim do mundo está a ser o início de um novo mundo, próspero e maravilhoso; os desastres ecológicos são selectivos, não atingem a “grande família dos homens”, não abarcam a humanidade desprovida de qualquer referência à história e à organização social e política. A ecologia política diz-nos que o desregulamento climático é uma consequência dos modos de produção e consumo próprios do capitalismo. Mas não vai além disso, não diz o que é necessário: que chegámos a uma época em que a crise climática ofereceu ao capitalismo — que exibe por todo o lado uma desavergonhada cor “verde” de onde retira grandes proveitos — novas condições para se perpetuar. Convida-nos a substituir o nosso carro a gasóleo por um carro eléctrico, fazendo-nos crer que estamos a salvar o planeta, escondendo-nos que apenas deslocámos os factores de destruição. O que fica a salvo, afinal, é a indústria automóvel. Mas não queremos, quase todos, ter um automóvel? E não queremos todos, mesmo todos, salvar o planeta? Pois bem, aí temos o capitalismo verde a criar e depois a alimentar essas nossas ilusões. A ecologia há-de morrer ainda antes do capitalismo.



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A fortuna bumerangue de MacKenzie Scott

(Ricardo Lourenço, in Expresso, 21/05/2021)

MacKenzie Scott

(Esta história dá que pensar. Enquanto milhões de seres humanos sonham sair da miséria, outros por muito que doem da sua fortuna, não conseguem deixar de ficar ainda mais ricos. É estranho mas é, na verdade, o sistema económico que temos, é o capitalismo a funcionar em todo o seu esplendor e em todo o seu absurdo.

Estátua de Sal, 24/05/2021)


A terceira mulher mais rica do mundo comprometeu-se a doar a fortuna em vida, mas a fonte dos seus milhões, a Amazon, complicou-lhe a vida.


Pormenores íntimos chegavam a conta-gotas às capas das revistas cor de rosa. A estrela de Hollywood, vencedora de um Óscar, não entendia como.

De forma furtiva, ao longo de anos, o próprio pai lucrara com a fama da filha. Quando se apercebe da sua traição, Jessica parte de Los Angeles com destino a Las Vegas para confrontá-lo.

Durante a viagem de carro, da costa do Pacífico ao deserto do Nevada, cruza-se com três mulheres distintas, que, tal como ela, atravessam momentos de crise.

Dana é uma guarda-costas perita em operações especiais, capaz de desativar bombas e efetuar cirurgias de emergência, mas que treme sempre que pensa em casar com o homem que ama. Vivian tenta proteger os seus gémeos recém-nascidos de um velho namorado abusador, herança de um passado como prostituta. Lynn luta contra o alcoolismo.

Ao longo de quatro dias, as mulheres refletem sobre o que as preocupa, o que as deixa tolhidas, retorcidas como uma nota de um dólar, queixando-se da má sorte e dos erros ao longo do tempo.

Apercebem-se depois de que todas aquelas “armadilhas da vida”, como lhes chamam, são os momentos de maior apreço. No fundo, não os trocariam por nada.

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“O que não me mata torna-me mais forte”, repetem, transformando o aforismo de Friedrich Nietzsche sobre a capacidade de resistência à adversidade numa máxima do poder feminino.

Este enredo paradoxal serve de base para o segundo livro de MacKenzie Scott, “Traps”, publicado em 2013, altura em que a escritora ainda assinava MacKenzie Bezos. Ex-mulher do homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, também ela saiu da sombra de alguém que viu a vida privada exposta nas páginas de um tabloide, o “The News of the World”.

O caso extraconjugal de Jeff Bezos com a apresentadora de televisão Lauren Sánchez tornou-se conhecido depois de o casal ter anunciado o divórcio, na sequência de uma separação amigável.

Descobrir-se-ia que a vida de Jeff também fora vendida aos tabloides, depois de fotos e mensagens íntimas dos amantes aparecerem, sem se saber como, na primeira página da publicação.

Uma investigação paga pelo multimilionário, revelada pelo “The Wall Street Journal”, apontou a culpa ao irmão de Sánchez, que lhe pirateou o telemóvel e alegadamente vendeu o material por cerca de 200 mil dólares (166 mil euros).

O diário “The Guardian” acrescentou uma hipótese alternativa: a de que os serviços secretos da Arábia Saudita arquitetaram o roubo, em reação à cobertura feita pelo “The Washington Post”, de que Bezos é proprietário, sobre as violações dos direitos humanos perpetradas por Riade. O próprio Governo americano garante que agentes sauditas assassinaram Jamal Khashoggi, um dos colunistas do “The Washington Post” e crítico da ditadura.

Por fim, o “The New York Times” esclareceu que a explicação era menos elaborada no que concerne à apropriação de dados pessoais. Todos os indícios apontavam para a mão criminosa do irmão de Sánchez.

Com tanto drama à mistura, esperou-se um daqueles divórcios com roupa suja lavada em público e com as câmaras da TMZ (canal televisivo dedicado a celebridades) em perseguições aos protagonistas. Nada disso se passou.

Entre o anúncio do fim da relação, em janeiro de 2019, e a conclusão do divórcio, três meses depois, ambos se mantiveram em silêncio. O primeiro tweet de MacKenzie sobre o assunto serviu para apaziguar os ânimos dos acionistas da Amazon, o gigante de comércio eletrónico construído de raiz pelo casal desde 1994.

Entregando o controlo quase total da empresa ao ex-marido, a escritora recebeu 30 mil milhões de dólares (25 mil milhões de euros) e, ainda, 4% das ações da Amazon, cujo valor pulou de 38 mil milhões de dólares (31 mil milhões de euros) para os atuais 60 mil milhões de dólares (50 mil milhões de euros).

Naquele momento, que poderia ser descrito no livro “Traps” como uma das tais “armadilhas da vida”, MacKenzie reorientou a mesma. Com entrada direta para o terceiro lugar da lista das mulheres mais ricas do mundo, ela dedicou-se à filantropia sem pedir fama em troca — até hoje, concedeu apenas duas entrevistas, recusando milhares de pedidos todos os anos, incluindo o do Expresso, explicaram assessores próximos.

Numa delas, dada a Charlie Rose em 2013, no antigo programa diário da PBS (estação pública de televisão), jurou que apenas pretende uma “vida normal”. Pressionada pelo semblante desconfiado do decano do jornalismo americano, reconheceu que o desejo provavelmente nunca se concretizará.

A culpa é da Amazon, que jorra dinheiro detentor de um efeito bumerangue. Todos os dólares gastos regressam, por muito que MacKenzie se queira ver livre deles.

APRENDIZ DE NOBEL

“É um pouco indiferente. Ela sempre quis ser escritora”, diz ao Expresso Carole Glikfeld, professora de Literatura da magnata na Universidade de Washington durante os anos 90. “Enquanto o marido vivia obcecado pelos números, ela usava o tempo livre para melhorar os instrumentos de escrita”, revela.

Naquela conversa com Charlie Rose, MacKenzie confessou, meio envergonhada, que se tornou rica sem saber como. Mas o embaraço desapareceu quando começou a falar dos livros.

Além de “Traps”, publicou em 2005 “The Testing of Luther Albright”, a história de um engenheiro civil, perito na construção de barragens. Pai e marido devoto, convenceu-se de que propiciaria felicidade eterna à família através da bolha em que viviam, reprimindo as próprias emoções.

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Um tremor de terra com origem na falha de San Andreas, na Califórnia, pôs tudo em causa, e o mundo que Luther construíra começou a ruir. Os filhos revoltaram-se e a mulher distanciou-se. Até a casa que erguera com as próprias mãos ganhou fissuras em todas as paredes.

MacKenzie confessou à revista “Vogue” (na outra entrevista que deu) que demorou 10 anos para acabar a obra, que arrecadaria o American Book Award. O trabalho e as crianças (os Bezos têm quatro filhos) impediram dedicação total.

O facto de ser o primeiro trabalho levou-a a mergulhar fundo, a ter cuidado extremo, chegando a chorar compulsivamente sempre que pensava no personagem principal. “Quantas vezes as lágrimas escorreram-me do rosto enquanto levava os meus filhos para os treinos de futebol”, afirmou.

A paixão pela escrita manifestou-se logo aos 6 anos, quando redigiu “The Bookworm”, um rol de observações sobre flores e árvores. Impressionada, uma avó exigiu que os pais fotocopiassem as 142 páginas, não fossem as mesmas perderem-se. Quando uma inundação as destruiu, todos se arrependeram de não terem ouvido a anciã.

A mãe de MacKenzie, Holiday, era uma alegre dona de casa e o pai, Jason, um conselheiro financeiro que receberia um ordenado capaz de sustentar um estilo de vida de classe média. Esta versão contada pela autora esbarra no facto de a família possuir, na altura, duas mansões na Califórnia.

Artigos de imprensa do início dos anos 70 mostram fotos de Holiday em jantares de beneficência, como os realizados no Fine Arts Museum of San Francisco, famosos em todo o país graças à ementa de nove iguarias só ao alcance de alguns.

Na verdade, Jason chefiava uma firma de investimento, e até o próprio liceu que MacKenzie frequentou, o Hotchkiss, no estado de Connecticut, repleto de lagos artificiais e com um campo de golfe, destaca-se como escola de elite.

Elizabeth Meyer, antiga colega em Hotchkiss, recorda ao Expresso que “MacKenzie só tinha amigos nerds — nada de betos. Lembro-me de que tinha bastantes dificuldades nas atividades desportivas e sugeriu várias vezes à direção da escola para trocá-las por aulas de escrita, mas não aceitaram”.

MacKenzie sonhava em frequentar a Universidade de Princeton e as aulas de Toni Morrison, a escritora americana ex-Prémio Nobel da Literatura e Pulitzer, falecida em agosto de 2019. “Encolhía­mos os ombros e ríamo-nos”, detalha Elizabeth.

Anos mais tarde, não só Toni Morrison foi sua professora de Escrita Criativa como lhe orientou a tese de licenciatura. Após a passagem por Princeton, ambas permaneceram em contacto, e Morrison pediu-lhe várias vezes para não abdicar da carreira de escritora.

Carole Glikfeld, a professora de Literatura da magnata na Universidade de Washington, comunicou-lhe o mesmo receio: “A pressão da vida familiar poderia deitar tudo a perder.”

AS GARGALHADAS DE BEZOS

Banido do mundo da finança por um período de 25 anos, Jason deixou de ser o pilar da família. Numa decisão judicial, datada de 1990, lê-se que “os gastos luxuosos impediram a firma de reembolsar os clientes dos investimentos feitos”. Nada se sabe sobre o que lhe aconteceu após esse episódio. Quanto a Holiday, acabou por abrir uma loja de roupa em Palm Beach, na Florida.

Os vários biscates ajudaram MacKenzie a pagar as propinas de Princeton, que ao valor de hoje rondam os 50 mil dólares (41 mil euros) anuais. Pousados os livros, MacKenzie temeu que a escassez de dinheiro lhe comprometesse os planos, o que a forçou a atravessar o estado de New Jersey e a empregar-se numa firma de investimento em Manhattan, Nova Iorque, paredes-meias com Wall Street.

O interior do edifício era um labirinto ziguezagueante de corredores e microgabinetes, todos eles divididos por separadores muito finos. Ao lado do seu, Jeff, que a entrevistou para o cargo, passava o dia à gargalhada enquanto conversava com os clien­tes ao telefone.

“Todos os dias a ouvi-lo. Aquele riso fabuloso… Como era possível não me apaixonar por ele?”, lembrou a amigos durante a boda, três meses depois do primeiro encontro.

O casamento foi a primeira mudança. Em 1994, ambos deixaram Nova Iorque e partiram para Sea­ttle. Jeff queria abrir uma livraria online. Dado o crescimento exponencial da internet, a perspetiva de uma loja com prateleiras quase infinitas assemelhava-se a uma máquina de fazer dinheiro.

Com apenas 23 anos, MacKenzie seguiu o sonho do marido e prescindiu do seu. O primeiro livro teria de esperar. Sem um pingo de empreendedorismo nas veias, ganhou paixão pelo projeto, em parte por se tratar de um negócio de arte. Mais prosaico, Jeff considerava-o um meio para atingir a fortuna.

Assim como muitas outras empresas americanas, a dos Bezos começou numa garagem. Com o acumular dos cifrões, mudaram-se para um armazém numa zona industrial abandonada. Os gigantes do sector, como a Barnes & Noble e a Borders, pareciam atordoados e incapazes de reagir ao novo rival.

MacKenzie trabalhava como guarda-livros. Jonathan Kochmer, um dos primeiros empregados contratados, lembra ao Expresso alguns pormenores daquela época: “Nunca sonhámos que ela teria uma carreira como escritora. Parecia tão satisfeita com o que fazia. Anos mais tarde, quando li que passara por Princeton e pelas aulas de Toni Morrison, fiquei boquiaberto.”

O sucesso imediato da Amazon talvez tenha contribuído para a felicidade descrita pelo antigo funcionário. A notabilidade da empresa consolidou-se após um artigo de capa no “The Wall Street Journal”.

Aos poucos, a livraria online transformou-se num supermercado. Dos livros passou para a música e por fim tornou-se uma plataforma de venda para terceiros. “Sapatos? Velas? Brinquedos sexuais? A Amazon vende tudo”, parodia Kochmer.

A RAINHA INVISÍVEL

Com a entrada da Amazon em Bolsa em 1997, os ganhos dispararam e a revista “Time” nomeou Jeff como figura do ano, apelidando-o de “Rei do Cibercomércio”. Sobre a rainha, nem uma palavra.

MacKenzie nunca demonstrou desagrado pelo facto de o sucesso da Amazon ser atribuído em exclusivo ao marido. Porventura, preferirá o anonimato, tal como Jessica no livro “Traps”, a personagem eremita e em parte autobiográfica.

“O Jeff é muito diferente de mim”, revelou em 2013 à revista “Vogue”. Nesse mesmo ano, na conversa com Charlie Rose, explicou-se melhor: “Ele gosta de gente. É um tipo muito sociável. As festas, para mim, são uma dor de cabeça. Detesto conversas de ocasião, prefiro analisar os diálogos, as palavras.”

Em 2014, com dois livros publicados e uma fortuna conjunta com o marido avaliada em 25 mil milhões de dólares, MacKenzie vivia para as crianças, na altura com idades compreendidas entre os 8 e os 13 anos. Jeff era presença assídua em jantares de gala com celebridades.

O gosto pela alta-costura e por carros topo de gama contrastava com o estilo calças de ganga e t-shirt branca da mulher, reconhecível na vizinhança por conduzir uma carrinha Honda azul amolgada, sempre com os filhos no banco traseiro.

Num discurso do magnata em Princeton, em 2010, por ocasião do final do ano letivo, provou-se de novo a invisibilidade de MacKenzie. Embora ambos fossem produto da Universidade, apenas ele teve direito a tratamento especial. Até quando Jeff se referiu à mulher — “uma apoiante desde a primeira hora e que está aqui na segunda fila” —, as câmaras e os presentes ignoram-na.

“Talvez se Jeff tivesse dado um pouco mais de contexto, aquela gente perceberia a importância dela para a Amazon”, conta-nos Carole Glikfeld, a antiga professora de MacKenzie. “À medida que me apercebia da disparidade de tratamento, temia que ela partisse a loiça.”

UMA REVOLUÇÃO NA FILANTROPIA

O divórcio concretizou-se há dois anos. Com a tinta ainda fresca e 60 mil milhões de dólares ao dispor, MacKenzie entrou no The Giving Pledge, uma organização filantrópica formada por mais de 200 multimilionários que se comprometem a doar em vida quase toda a sua fortuna.

Warren Buffett e Bill e Melinda Gates — que, entretanto, anunciaram o fim de uma relação de 27 anos — figuram como os mentores da iniciativa. No total, 600 mil milhões de dólares (493 mil milhões de euros) serão investidos em projetos filantrópicos.

Jeff, hoje a pessoa mais rica do mundo, permanece de fora. Num artigo publicado no jornal “The Seattle Times”, em 2012, a Amazon é descrita como “ausente do cenário altruísta”, enquanto “foge” das críticas sobre “contabilidade criativa” que lhe permitirá pagar pouco ao Fisco.

O canal televisivo CBS revelou, em 2018, que a Amazon comunicou aos investidores o pagamento de uma taxa de 1,2% em impostos federais, bastante abaixo dos 14% exigidos ao vulgar americano.

No ano passado, MacKenzie doou 6 mil milhões de dólares (5 mil milhões de euros). “A pandemia destruiu a vida de muitos, especialmente daqueles que já sofriam”, justificou num post publicado no seu blogue pessoal. “As perdas têm sido maiores para mulheres, minorias e pobres. Ao mesmo tempo, as grandes fortunas aumentaram.”

Em vez de criar fundações ou empresas com um objetivo predefinido — Bill e Melinda Gates dedicaram-se à cura da malária, enquanto Mark Zuckerberg e Priscilla Chan financiam projetos na área da Educação —, a nova benemérita abre os cordões à bolsa e prefere que não lhe agradeçam. “A abordagem de Bill e Melinda funciona, mas não envolve os profissionais no terreno, que possuem mais conhecimento sobre as verdadeiras necessidades das comunidades desfavorecidas”, constata Elizabeth J. Dale, professora da cadeira de Liderança no curso de Gestão na Universidade de Seattle.

Esta especialista acredita que a abordagem de MacKenzie “revolucionou” a filantropia. “Quando os doadores confiam naqueles que estão na linha da frente, as pessoas mais necessitadas passam a controlar o seu destino. Isso significa que existe uma mudança na dinâmica de poder. Na sociedade americana, fortuna equivale a poder, logo um doador rico pode ter imensa influência sobre uma organização, a menos que faça o que MacKenzie fez. O que ela lhes diz é o seguinte: ‘Aqui têm o dinheiro. Confio em vocês. Boa sorte.’”

A Point Foundation foi uma das beneficiadas pelos milhões de MacKenzie. “De um dia para o outro”, lembra a sorrir Jorge Valencia, fundador da organização, que oferece bolsas e apoio escolar a estudantes de minorias sexuais. “Com a pandemia, foi uma complicação para encontrar um lugar seguro para eles ficarem”, conta ao Expresso. “Quería­mos ter a certeza de que continuariam a ter acesso à comida e à internet, dada a nova realidade do ensino virtual.”

Valencia nota que a recolha de fundos passou, no último ano, para o ciberespaço, devido à pandemia. Temeu, por isso mesmo, que as ajudas diminuíssem, até porque muitas empresas e particulares também passam por dificuldades.

A revista “The Chronicle of Philanthropy” descreveu esta agonia num artigo publicado em maio de 2020. Dois meses depois, representantes de MacKenzie contactaram o ativista, informando-o de que um depósito chorudo estava a caminho.

Apesar de não revelar o montante do “presente” — termo usado por MacKenzie —, Valencia garante-nos que se trata de “uma verba nunca vista” e “sem qualquer compromisso associado”. “Somos menos de 20 na Point Foundation. Após o anúncio, julgo que ninguém conteve as lágrimas.”

Em meados do verão passado, MacKenzie tornou claro o que a move. Novamente no seu blogue, escreveu que os tais “presentes” são fundamentais, porque “uma civilização tão desequilibrada é mais do que injusta — é insustentável”.

Pouco depois, o ex-marido testemunhou no Congresso americano a propósito de suspeitas de violação da lei da concorrência. As respostas agradaram de tal maneira ao mercado financeiro que nos dias seguintes as ações da Amazon bateram recordes.

Em menos de uma semana, MacKenzie recuperou quase todo o dinheiro que doara até então. A tendência de crescimento da Amazon intensificou-se ao longo da crise de saúde pública provocada pela covid-19, que obrigou grande parte do comércio convencional a fechar portas. “A pandemia foi boa para a Amazon”, graceja, mais uma vez, Jonathan Kochmer, ex-empregado da empresa.

Tendo por base registos do início deste mês, o gigante da internet vale perto de 1,5 biliões de dólares (1,2 biliões de euros). O preço de cada ação ronda os 3300 dólares (2700 euros). A tal fortuna que MacKenzie disse que nunca procurou colou-se-lhe.

O desejo de ser “alguém normal”, tal como lembrou na conversa com Charlie Rose há oito anos, persistirá. No início deste ano, MacKenzie casou-se com Dan Jewett, um professor de Ciências dos filhos. Os vizinhos de Seattle confirmam que a velhinha Honda azul ainda circula, um tanto ou quanto por milagre, dado o crescente número de maus-tratos infligidos pela condutora, ainda e sempre vestida de calças de ganga e t-shirt branca.

No final da entrevista a Rose, o jornalista manteve-se admirado com a simplicidade das aspirações da convidada, que, em resposta, arregalou os olhos e disse: “Seria maravilhoso!”