Surfar a onda de contestação ao Catar…

(Por Hugo Dionísio, in Facebook, 21/11/2022)

Tem sido uma enorme operação de denúncia das inaceitáveis práticas laborais – empresariais refira-se – a que o mundo tem assistido no Catar. A imprensa – também empresarial – não tem poupado espaço dedicado ao facto: o negócio acima dos seres humanos, escravatura, sobre-exploração, tratamento indigno de migrantes, migrantes prisioneiros em acampamentos que não podem abandonar, condições de trabalho humanamente inaceitáveis…

Devemos assumir, desde já, que grande parte das acusações são válidas e merecidas, não apenas pelo que o Catar fez na construção dos estádios e infraestruturas do mundial de futebol, mas também pelo facto de estas práticas não constituírem exceção, tratando-se antes de um padrão, devendo até assumir-se que, face à incidência dos holofotes da imprensa internacional sobre este evento, que, porventura, até tenhamos assistido a uma versão mais light das horrendas práticas laborais aí desenvolvidas. E não se diga apenas no Catar, porque a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Kuwait, também não devem ser muito diferentes.

Chegados aqui e não podendo subsistir quaisquer dúvidas quanto à dimensão extrema da exploração presenciada, devemos, contudo, aproveitar a boleia e tocar já de uma penada em tudo o que fica de fora desta onde de contestação que tanto tem de pontual, como de superficial, como arrogante.

É mesmo motivo para me levar a uma reflexão: não terá esta onda de contestação às condições do Catar algumas das características que também se veem na contestação à intervenção russa na Ucrânia?

Vejamos, nos dois casos algumas das críticas são justas, as preocupações com as vítimas são plausíveis e as acusações à brutalidade dos envolvidos também são aceitáveis. Mas em que falha esta onda de contestação? Falha no mesmo em que falha a contestação à Rússia: falha em lembrar a história; falha em identificar a natureza real e profunda do problema; falha em retirar as devidas ilações – e duras consequências – em matéria de práticas do próprio Ocidente, sempre tão rápido a acusar os outros do que também faz, apoia e perpetua.

Eu sei, eu sei… As falhas de uns não perdoam as falhas de outros. Precisamente por isso. Apontar as falhas de uns, por uma questão de coerência deve levar-nos a apontar, com a mesma dureza – e nalguns casos de forma ainda mais veemente pela imoralidade e hipocrisia subjacentes – as práticas de outros.

O Mundial do Catar é um mundial típico de um mundo capitalista e ideologicamente liberal. Tens dinheiro? Então consegues fazer! Não é assim o ideal de liberalidade do liberalismo? Que não devem ser impostos limites coletivos à expressão individual da liberdade que resulta da acumulação de riqueza, precisamente porque essa acumulação é em si “virtuosa” e, quando projetada através da liberdade individual, é geradora de mais riqueza e dinâmicas sociais também virtuosas?

O Mundial do Catar é um exemplo paradigmático do que é o capitalismo e a ideologia liberal. O Catar não é um país importante, culturalmente determinante, regionalmente agregador e representativo, futebolisticamente relevante como o seriam outros como o Irão, o Egipto ou até a Argélia, para ir apenas a países muçulmanos e com tradição de futebol. Nada disto. O mundial não está no Catar por uma questão de justiça ou mérito. Não! O mundial está no Catar porque o Catar teve o dinheiro para o comprar: através da compra dos votos e de uma campanha mediática orquestrada; através de campanhas de charme e de persuasão pelo fausto e luxo.

Tal como um rico tem mil e uma mansões só porque é rico, enquanto milhões de pobres não têm nenhuma, o Catar, país do Sul global, teve direito ao seu mundial, enquanto países como os que referi, a que poderíamos adicionar a Nigéria, o Vietname, a Indonésia, Angola, Marrocos e outros, países de futebol e relevantes de muitas formas, nunca o conseguiram, por não o poderem comprar. O dinheiro comprou o mundial, ponto final.

Este dinheiro foi alimentar muitos bolsos ocidentais, desde a promoção, ao marketing, à construção e organização, bolsos  que não disseram NÃO, baseando-se para isso no historial de práticas desumanas do Catar. Empresas ocidentais, profissionais ocidentais (um dos técnicos de SST era português, e que bem lhe souberam os 10 mil euros mensais), todos cooperaram, a troco de dinheiro, no jogo viciado e desumano que foi praticado pelo Catar. Tal como noutras situações, nenhum disse nada.

É em nome destes, e de outros que lá estão, que Marcelo diz “temos de esquecer”, tal como dizia que temos de esquecer a pedofilia e os abusos da Igreja. Marcelo faz parte desse mundo hipócrita que, com uma mão aponta o erro, e com outra guarda o dinheiro que o erro produziu.

Mas, à boleia desta onda de comiseração pelos desunidos “trabalhadores do mundo”, que quando se unem e tomam o poder, são sempre acusados de o fazer, veio também a questão da escravatura que terá existido no Catar. E bem, digo eu.

É, contudo, fundamental continuar esta onda de contestação que responsabiliza o Catar, para responsabilizar quem origina e legitima pela sua prática, todo um conjunto de outras formas de escravatura com que convivemos normalmente com um silêncio ensurdecedor.

Como não me lembrar dos mercados de escravos da Líbia (ver na imagem acima), em que seres humanos – por serem pobres – são carregados em camiões como gado (pior que o gado na ainda rica Europa), para trabalharem em atividades que vão gerar lucros que, mais tarde, entram nos mercados financeiros que ninguém diz se recusa a receber. E como esquecer os causadores disto? Afinal, foi a França de Sarkozy e a NATO de Obama, hoje elevadas a anjos da paz, que destruíram um país evoluído, com o maior rendimento per capita e o maior índice de desenvolvimento humano de toda a áfrica. Tudo porque este país, então muito rico, quis usar o seu ouro para suportar uma moeda pan-africana que visava libertar a África do jugo do franco africano e do dólar. Ah! E este país também tem o “azar” de ter muito petróleo.

E que bem soube ouvir Meloni chamar “questo Bambino” a Macron e acusar a França das suas práticas imperiais e coloniais no Burkina Faso e noutros países, as quais, como provado pela própria Meloni, sugam 50% das riquezas destes países para o Banco Central francês, impedindo-os de se desenvolverem e, consequentemente, não deixando outra opção aos seus povos que não seja a de emigrar massivamente através do mediterrâneo. Tudo verdade. Mas Meloni também esquece que as causas desta migração massiva não se prendem só com o jugo ocidental (e não apenas francês) sobre os países africanos, mas também com a destruição do Líbano, do Iraque, da Síria e da Líbia, antes destinos destas massas migrantes e não apenas pontos de passagem. Mas isto Meloni já não poderia dizer, porque seria reconhecer que EUA, NATO e UE vivem do mesmo.

Voltando ao mundial, o que também é esquecido e deve ser apanhado à boleia, são os milhares de mortos que todos os anos se afogam no Mediterrâneo devido à intervenção dos EUA, NATO e da UE em África e no Médio Oriente, ao ponto de, onde o FMI entra, onde entram os fundos destas organizações, onde estes fazem as suas “revoluções” coloridas e os países que a eles se submetem, nenhum, mas mesmo nenhum, consegue desenvolver-se e sair da mais nefasta pobreza. Uma vez mais, esta pobreza negou a estes povos o direito a um mundial, que o Catar por ser rico, pôde comprar.

E como acusar o Catar, como faz a capa do DN, por ser o mundial que coloca o negócio acima das pessoas e esquecer o que essa prática significa aqui, no Ocidente? Vejamos o caso dos estafetas da UberEats ou da Glovo? Paquistaneses e Indianos, como no Catar, a subirem e a descerem as colinas de Lisboa, às vezes com mais de 40 graus celsius, em chinelos, quase sem comer, sem seguro de acidentes de trabalho, muitas vezes com o seu passaporte apreendido por máfias intermediárias que são “partners” das Ubers deste mundo… Não serão estas práticas desumanas? Não significarão, estas práticas, uma inaceitável e desumana exploração? Já pensaram no número de acidentes de trabalho (17 vezes mais do que um trabalhador normal) que sofre esta gente, apenas por ser pobre? E quando sofrem um acidente, para além de pobres morrem à fome porque as pornograficamente ricas plataformas não querem saber?

Eu gostava de ver todos os que criticam – e bem – as práticas do Catar, a acusarem os donos da Uber, da Amazon, da Glovo e outras, do mesmo tipo de práticas em todo o mundo – não apenas no Catar – e a recusarem fazer parte desse mundo desumano que, ainda por cima e da forma que só a hipocrisia ocidental sabe fazer, nos é apresentado como sofisticado e moderno.

Por outro lado, a negação dos mais básicos direitos laborais que vemos no Catar, por ausência total de um estado que obrigue à sua aplicação, está qui presente no Ocidente com a moderna economia digital. Corrompendo, comprando e aproveitando os olhos fechados da UE e dos estados membros, estas “modernas” empresas, entraram selvaticamente nos mercados da distribuição de bens e serviços, e à boleia da inação desenvolveram práticas que violam o mais básico dos direitos humanos – o direito à dignidade. Agora, no topo de negócios multimilionários, não existe governo capitalista que consiga colocá-las no seu lugar. Um exemplo bem paradigmático de liberalismo económico. O mesmo liberalismo que ataca o nosso código do trabalho, que faz do Catar o inferno laboral que é, e que, avançando ainda mais e de forma impune no Ocidente, qualquer dia, muito pouco teremos a apontar ao Catar sem que sejamos envergonhados por um manto de cinismo e hipocrisia. O que não faltam são situações, no nosso mundo “civilizado” em que o negócio prevalece sobre as pessoas.

Mas, ainda à boleia do mesmo, também devemos questionar a hipocrisia da FIFA que diz não se poder mostrar mensagens políticas nos estádios pelas equipas, protegendo assim o seu negócio, mas que, quando foi para retirar a seleção russa e bielorussa das provas internacionais e admitir mensagens de condenação nos estádios, não se importou de aceitar. Afinal, o critério não é regulamentar, o critério chama-se EUA e NATO. NATO que se encontra profundamente dividida, como demonstra a última ação de espionagem dos EUA que invadiu os servidores militares turcos para conhecer os planos de ataque aos curdos da Síria.

Enfim, são muitas as consequências que devemos retirar desta onda de consternação para com os trabalhadores do Catar, nomeadamente, quanto aos milhões de refugiados que se encontram na Turquia, que recebe milhões da UE, para nem os deixar voltar, nem os deixar entrar na União, condenando milhões de pobres a uma existência em campos de concentração, ainda para mais, com as mais desumanas condições de vida. Viramos uma pedra e encontramos mais uma razão para surfar a onda Catar aqui na UE.

Tal como a onda de condenação à Rússia deveria justificar um surf contra a NATO, a UE e todas as guerras de agressão que praticam, e isto, veja-se bem, sem justificar a agressão que pelos primeiros possa ter sido feita.

Até na questão das sanções, aplicadas a uns e não a outros. Sabiam que os EUA têm aliviado as sanções à Rússia? E enquanto a UE fala de mais sanções, a maioria dos países da União aumentou o seu comércio bilateral com a Rússia? Tanta hipocrisia. E tanta falta de coerência.

Coerência, que esta malta “woke” não tem, nem um pingo!


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Estamos assistir ao fim do capitalismo, e com ele as suas consequências

(André Campos, in comentários na Estátua de Sal, 17/11/2022)

O capitalismo só foi possível com a energia barata. A festa acabou!

Guerras, fomes, revoluções, etc., etc., são os efeitos secundários do fim do capitalismo. O declínio energético conduzirá ao caos socioeconómico global e, por conseguinte, a um declínio da população mundial. Não é impossível que a população mundial caia para menos de um ou dois mil milhões de pessoas em poucas décadas, se a humanidade não encontrar uma nova fonte de energia ilimitada e de progresso tecnológico para alimentar e cuidar da população mundial. Acredito que isto vai acontecer… ordem através do caos, por falta de uma palavra melhor e pela loucura de alguns bilionários megalómanos e, na sua maioria, psicopatas.

Certamente o capitalismo trouxe um certo progresso na nossa maneira de ver as coisas. Mas hoje, é um dos motores da nossa desintegração civilizacional! Atualmente, o conceito de interesse geral já não está na ordem do dia. E o sistema oscila entre dois conceitos de sociedade: a sociedade universal e individualista. Tudo depende da origem étnica e cultural do cidadão-consumidor.

”O capitalismo é a espantosa crença de que o pior dos homens fará o pior das coisas para o maior bem de todos” – Keynes.
Devemos voltar ao básico: o capitalismo não é nosso amigo, as guerras industriais mostraram-no, a produção de armas de destruição maciça denuncia o absurdo do “nosso” comportamento. O nosso consumo industrial tem como consequência devorar o mundo de forma abusiva, excessivamente em relação às nossas necessidades reais e sacrificamos o futuro das gerações futuras sem voltarmos à razão, desde que deixemos os homens e as ideias que são esmagados pelas consequências dos seus atos e pelas práticas que geram. Quando levarmos isto a sério, tanta água poluída terá corrido sob a ponte que não haverá mais água para nos mostrar a clareza do que precisa de ser feito.
Bertrand Russell: “O problema com este mundo é que os tolos estão certos e as pessoas sensatas são duvidosas.”
O liberalismo é anarquia organizada para que os ricos tenham tudo a ganhar, mas as suas almas e os pobres tenham tudo a perder.
O mundo livre deve ser o nosso farol para não deixarmos o caminho certo.
A loucura liberal está a afundar o interesse geral ao perseguir a ordem pública dos lobos esfomeados e esfomeados dentro de si, pilhando os recursos das gerações futuras. O nosso progresso cega-nos e engana os nossos princípios para favorecer a velocidade do lucro. Nada temos a invejar às sociedades arcaicas e bárbaras baseadas em sacrifícios humanos no que diz respeito às nossas guerras.

A riqueza e a pobreza atraem o indivíduo abaixo e para além da humanidade comum sem se encontrarem. O idiota é o indivíduo que não sabe que está privado do que quer e não é capaz de cuidar de outra coisa que não sejam os seus assuntos privados. O individualismo é o triunfo da liberdade do indivíduo para cuidar apenas de si próprio, é uma reivindicação dos ricos, os ricos reivindicam a sua superioridade social e o domínio da sua ordem.
A recusa de submissão, das nossas elites e daqueles que lucram com o sistema, à realidade que se impõe sobre a razão que deveria ter estado no comando, é a nossa maior ameaça. Paul Virilio denunciou-o sem que tivéssemos tomado todas as medidas construtivas: O dano colateral do progresso “é mascarado pela propaganda do progresso que mascara o acidente do progresso” …Um mundo de progresso que mascara o acidente do progresso… “Não é uma questão de ser contra o progresso; é uma questão de ser contra o progresso de uma catástrofe que é paralela” e consubstancial ao progresso. E aí os ecologistas que são a parte do acidente, o acidente de poluição, não estão à altura desta dimensão escatológica e receio que o niilismo regresse com um programa do fim. Há aqui uma grande questão com a globalização, com a incerteza da democracia neste momento, com a fraqueza da democracia.

Esquecemos o essencial e afundamo-nos na escuridão porque cavar o nosso tempo perdido para o dourar é apressarmo-nos a entrar na boca dos nossos problemas.

O mal absoluto do nosso tempo são os bilionários que estabelecem monopólios, destruindo o capitalismo ao impedir a concorrência e corrompendo os governos para escapar aos impostos e restrições legais.

Isso aconteceu nos EUA no final do século XIX e início do século XX. Os multimilionários da época eram os Vanderbilt (caminho-de-ferro), Rockefeller (petróleo), Carnegie (aço), J.P. Morgan (banca), Thomas Edison (eletricidade, entre outras coisas). Os seus monopólios permitiram-lhes fixar preços e empobrecer as massas que exigiam condições de vida mais humanas, mas em vão, apesar das greves e revoltas sangrentas. Entre eles, Morgan, Carnegie e Rockefeller representavam mil biliões de dólares numa América onde 90% da população vivia com um rendimento inferior a 100 dólares por mês.

Para evitar ter o governo americano contra eles, à medida que as eleições de 1896 se aproximavam e o candidato democrata, William Bryan, prometia reformas, formaram uma coligação, (diríamos agora uma conspiração) dotada de vários milhões de dólares para ter o seu homem eleito como presidente. Esse homem era William McKinley. Subornaram a imprensa, ameaçaram os seus empregados com despedimento se Bryan fosse eleito; como a votação não era secreta, a ameaça foi eficaz. É claro que McKinley foi eleito e tudo permaneceu na mesma. Os bilionários ficaram mais ricos. J.P. Morgan, para além das suas actividades bancárias, criou, através de aquisições e fusões, a US STEEL que se tornou a maior empresa siderúrgica dos EUA. Durante os quatro anos seguintes, um jovem político republicano, Theodore Roosevelt, tornou-se governador do Estado de Nova Iorque e começou a regular os monopólios. Nas eleições federais de 1900, os bilionários retomaram as suas manobras, mas sem conseguirem corromper Teddy Roosevelt; assim, para o neutralizar, foi-lhe oferecido o posto de vice-presidente, o que foi mais honorário do que real. Na eleição de 1900, McKinley foi reeleito, mas em 1901, durante uma viagem, Leon Frank Czolgosz, um trabalhador despedido por J.P. Morgan quando a U.S.STEEL foi criada, matou McKinley que morreu oito dias depois. O vice-presidente reformista, Teddy Roosevelt, tornou-se presidente.

Um pesadelo para os bilionários. Apesar das manobras destes tiranos, começou uma guerra total e, após vários processos judiciais de alto nível, os monopólios foram desmembrados. Se não fosse esta situação imprevisível e única, não teria havido classe média nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar, e o apetite destes ogres teria sido infinito.


Hoje, os herdeiros destes tiranos, Bill Gates, George Soros, Jeff Bezos, Warren Buffet, Elon Musk, Mark Zuckerberg e o grupo de Davos aprenderam a sua lição. Corromperam todos os principais meios de comunicação social ao serem seus proprietários, corromperam todos os partidos políticos e sindicatos e neutralizaram todos os potenciais opositores.

Nada impede, pois, o seu desejo de pilhar empresas estabelecidas através da uberização, de roubar recursos nacionais e internacionais, de roubar poupanças através da especulação bolsista e da inflação desenfreada, etc.


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Tanta verdade junta mereceu publicação – take XXIII

(Por José André Campos Ferreira, in Estátua de Sal, 31/10/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Strategic Culture Fondation ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 31/10/2022)


 Império russo:

– Russo, muito pouco falado no estrangeiro.
– O Pacto de Varsóvia dissolveu-se em 1991, na crença de que já não havia um inimigo americano.
– Sem porta-aviões (não são necessários, pois permanecem em casa a maior parte do tempo)

O Império Americano:
– Numerosas bases em todo o mundo, incluindo áreas que são territórios dos EUA.
– Com a omnipresença da língua inglesa no mundo, (mesmo no Parlamento Europeu quando já não há inglês)
– Satélites Starlink permanentemente aéreos.
– Controlo dos exércitos de outros países através da NATO
– 11 porta-aviões necessários para o controlo militar global

Há angústia do decrescimento imperial está mais do lado das multinacionais financeiras anglo-saxónicas, basta seguir as curvas da estagflação da economia ocidental, do declínio do nível de vida per capita, do desemprego, da agitação social e de várias crises de identificação.

No contexto desta guerra, existe obviamente um conflito de civilizações: entre um homem completamente desconstruído (“ocidental” para simplificar) e um homem “tradicional” ligado a uma história, uma família, uma religião, um território… No Ocidente, ainda há propaganda sobre uma democracia que permanece, no máximo, num horizonte distante. A europa, está dependente da energia. Poderíamos continuar e continuar… As alternâncias políticas não mudam nada. Em suma, quando ouço que “a Ucrânia está a defender a democracia” sinto-me como se estivesse a ser tomado por um tolo, ou burro.

Os valores ocidentais são aplicáveis apenas na Ucrânia.
Porque é que os valores ocidentais não são aplicados à Arménia, um país que está a ser atacado por outro país que está cheio de gás, o Azerbaijão, que está a aguçar o apetite dos países ocidentais. O agressor aqui é apoiado e armado por Israel, pelos EUA e pela Turquia. Os valores europeus não são senão uma hipocrisia.

Claro que a Rússia e a China não são democracias, mas será que nós próprios continuamos a ser democracias?
Desde que os principais meios de comunicação social estão nas mãos dos oligarcas e influenciam grandemente as eleições para manter uma casta de tecnocratas que têm pouca preocupação, ou nenhuma com o bem público e os interesses daqueles que os colocam no poder, mas que são servidores de um sistema financeiro internacional, podemos perguntar a nós próprios.

É realmente a vontade do povo Português ser dissolvido num mundo globalizado, dividido em comunidades e finalmente escravizado por interesses fora do seu controlo?

O problema com o discurso dos europeístas é que eles pensam sempre que sabem qual é o melhor sistema de governação para os outros em vez de reverem o funcionamento da sua própria democracia. É engraçado ouvi-los dizer cada vez que Putin é aprovado por 70-80% da sua população e que é um ditador autocrático, enquanto em casa na Europa não sabemos quem elege os seus líderes e como chegaram a estas posições!

Os líderes ocidentais podem ter métodos diferentes, mas não são diferentes daqueles a que chamam ditadores.

Na UE não há democracia mas sim idiocracia. Não gosta de ter a guerra na Europa perto de si e prefere exportá-la para outro lugar, Iraque e Líbia sabem muito sobre ela. Não têm vergonha, matando dois presidentes de países soberanos com impunidade, os assassinos continuam a monte.

A Europa continua a seguir a política dos EUA apesar da crise energética que a está a abalar seriamente e a ameaçar a sua economia. A guerra na Ucrânia é sobretudo um assunto para a Europa como um todo e não para os EUA, especialmente no caso da utilização de armas nucleares ou químicas, que deve ser acordada com a Rússia. É portanto mais que tempo de a Europa decidir por si própria sobre o futuro das suas populações que viveram as atrocidades das duas guerras mundiais!
Os europeus não sabiam como fazer as suas escolhas após o colapso da URSS, onde era necessário na altura, após a implementação da perestroika por Gorbatchov, reformar o sistema, sim, a Europa teria iniciado mesmo um convite da nova Rússia para a integração da marcha que foi feita para a criação da futura comunidade europeia em 93.

É certo que a Rússia deve encontrar o seu lugar na comunidade europeia da qual faz parte geograficamente, o que levará ao derretimento da NATO, que é apenas um conjunto de problemas para os países europeus e para o mundo inteiro, e é assim que a ameaça russa terminará com a sua integração.

“Vladimir Putin, acaba de explodir a era dos combustíveis fósseis.
Ele desencadeou um movimento global e determinado na Europa, apoiado pelos EUA, para se afastar dos combustíveis russos e acelerar a eficiência e as energias renováveis.
Era para lá que a Europa se dirigia de qualquer forma, mas agora está a avançar muito mais depressa.
Então a guerra na Ucrânia é um o jogo da transição energética?

Esta guerra pôs em prática um imposto global sobre o carbono muito maior do que os economistas queriam pôr em prática para proteger o clima.

É claro que não é exatamente um “imposto”, não é aplicado da forma correta e está a causar muitos problemas. Mas como um “sinal de preço” [o custo mais elevado da energia e o seu impacto nos transportes, por exemplo], dará um grande estímulo à mudança para a eficiência e as energias renováveis.
E se a Europa continuar a afastar-se do petróleo, gás e carvão com a visão e determinação que tem demonstrado até agora, então o grande sofrimento infligido por Vladimir Putin não terá sido inteiramente em vão.”

Seja intencional ou não, este tipo de informação não é dada: O ganho territorial mineral russo na Ucrânia é estimado em 13 triliões de dólares e este aumentará com a captura de Odessa. Fonte: Washington Post. Quanto ao declínio do dólar, este foi desvalorizado em 95% e o euro em 85% em relação ao ouro. Todos os economistas sabem disto.

A Rússia não está sozinha e os países amigos não são como os países ocidentais. O mundo sabe que o Ocidente é um continente com o qual não se pode contar, e eles escolheram o seu lado.

É preciso pensar sempre nos recursos naturais que cada país possui. Isto muda completamente o padrão e os números ‘ocidentais’. A Rússia, o Cazaquistão, a Mongólia, vários países da África Central, e claro o Médio Oriente, podem muito rapidamente recuperar, apagar as suas dívidas e esmagar o seu poder em 3 anos. Isto é o que os BRICS+ e a OPEC+ estão a demonstrar.
O petrodólar já não será a única referência num futuro próximo, nem mesmo na América do Sul e Venezuela (na OPEP+).

Este Inverno será duro: a Europa desfrutará de banhos frios, refeições cruas e longos passeios de bicicleta à chuva, neve e mísseis de algum lado.

Penso que se o México quisesse entrar numa aliança militar com a Rússia e a China, os americanos não a aceitariam. Cuba ainda está sob um embargo americano, e isso do ponto de vista do ocidente é lógico. Mas o que o ocidente acha lógico não acham lógico da Rússia. O que me perturba é que temos a impressão de que o nosso mundo está a ruir diante dos nossos olhos, que o nosso poder de compra está a cair e que tudo isto poderia ter sido evitado. A diplomacia poderia ter evitado esta guerra.

Por falar em diplomacia…
A diplomacia ocidental é falar muito para finalmente não dizer nada, confundir o interlocutor para tirar vantagem sem partilhar o ganho…

A diplomacia é a encarnação da arrogância ocidental… tem de pensar como ocidentais, falar como ocidentais, atualizarmo-nos como ocidentais, governar o país como ocidentais… e no dia em que já não queremos tudo isso, é o exército que tem de intervir para acrescentar tempero à diplomacia ocidental.
As colónias desapareceram, mas os colonos ainda estão presentes.

Esta guerra é de facto entre os EUA e a Rússia e é provocada pelos EUA para enfraquecer o progresso russo e o da Europa como consequência. É necessário reconhecer que o império americano está em declínio e que, por este facto, procura manter a sua posição por todos os meios, como todos os impérios anteriores, incluindo a guerra de enfraquecimento dos emergentes.


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