Como foi possível?

(Hugo Dionísio, in S. C. F., 31/10/2026, Revisão da Estátua)


Este texto é longo mas merece ser lido com toda a atenção. Ele explica em grande parte o percurso errado que conduziu às catástrofes que assolam o mundo na atualidade, mormente os países do dito Ocidente.

Parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 03/11/2026)


O Relatório Kissinger instrumentalizou emancipação feminina e migração para conter natalidade e pressionar salários. O resultado: fascismo.


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Europa, Paris, ano 2100. Num qualquer livro de história de um país que outrora pertencera à extinta União Europeia, tenta-se explicar o que conduzira à trágica situação ocorrida setenta anos antes. Uma professora, tentava em vão explicar, como fora possível ter-se chegado ali.

Primeiro, apoiando-se no programa fornecido, a docente começou por alegar uma grande crise de mão de obra, criada pelo decréscimo abrupto da taxa de natalidade nos países com as economias mais avançadas. As causas desse declínio eram extremamente complexas e, entre inúmeras causas, a explicação mais em voga situava-se na intersecção entre justas dinâmicas de luta e de emancipação social, a forma como essas medidas foram aproveitadas pela classe dominante – conforme descrito no próprio Relatório Kissinger – e o modo como as condições de trabalho, não evoluírem e corresponderam às necessidades sociais sentidas e exigidas pelos trabalhadores, no âmbito da terceira e na quarta revoluções industriais, provocando um desajustamento entre as necessidades populacionais e demográficas e o modo de exploração capitalista, que não dava espaço e tempo à mulher, à família, para procriar e planear o futuro. O trabalho tinha de vir primeiro, a carreira, o rendimento, e depois, para muitas, foi tarde demais.

O Relatório Kissinger, concluído em 1974, representando o expoente máximo da contradição entre capitalismo e necessidades sociodemográficas, explorava de forma subversiva o planeamento familiar e associava a educação e a condição das mulheres à redução da fecundidade, como formas de controlar o crescimento da população mundial. Para os seus autores, o cálculo era simples: demasiada população conduzia à escassez de recursos; demasiados jovens, conduzem a reivindicações e até revoluções pelo controlo nacional dos respetivos recursos. Num caso e no outro, isso jogava contra o interesse nacional dos EUA. Na prática, o Relatório Kissinger, em vez de olhar para a luta feminina pela emancipação como um ganho civilizacional puro, propunha uma instrumentalização imperialista dessa luta legítima pela liberdade e igualdade, agravando uma das graves contradições do sistema capitalista, das primeiras décadas do século XXI.

A lógica promovida foi simples: a libertação da mulher só interessava na medida em que se alinhasse com os interesses nacionais dos EUA e do imperialismo. Muito do que foi feito (ou deixado fazer), a partir daí, nomeadamente em matéria de negação dos direitos de parentalidade e de acomodação do direito à família, no quadro das relações laborais e sociais, não apenas constituiu um instrumento perverso de controlo populacional, como ainda negou às mulheres emancipadas e seus companheiros, o direito a fruírem de uma nova liberdade, a liberdade de se constituir família em resultado do amor, do planeamento da vida e não da retrógrada imposição económica e social. A ideologia dominante nos EUA tinha esta capacidade de tornar feio tudo o que bonito era.

Distinguir entre o que resulta de contradições próprias do sistema capitalista, ou de um programa subversivo, não é tarefa fácil. Contudo, os EUA, tal como sucedeu com muitas das mais importantes lutas sociais – democracia, liberdade, direitos humanos, igualdade – acabaram por conseguir virar o bico ao contrário, tornando-as muitas vezes perniciosos cavalos de Tróia, como sucedeu com a Primavera árabe, as invasões do Iraque, do Afeganistão, a destruição da Jugoslávia, da Líbia, da Síria e do Iémen, a cobertura dos direitos humanos e do combate ao terrorismo. Tal como nas épocas mais medievais, usava-se a pretensão civilizatória, para ocupar, pilhar, desmantelar.

Duas tendências aparentemente avançadas e inatacáveis — a emancipação da mulher em relação ao poder patriarcal do pai, dos irmãos ou do marido, e a possibilidade de as famílias escolherem quando ter filhos, abrindo também a porta à revolução sexual seguinte, em que o sexo deixou de ser tabu e passou a ser visto como algo livre e até saudável — foram resultado por um lado, da luta, mas, por outro, não deixaram de ser instrumentalizadas por interesses mesquinhos, egoístas e narcisistas, e até imperialistas. Tudo isto usado para retirar amplitude e abrangência política a estas lutas sociais.

Um dos resultados, numa primeira fase, foram, em parte, os trinta anos de ouro dos EUA e do ocidente, com a entrada de todo esse «PIB feminino» na economia, criando a riqueza industrial que alimentaria a reconstrução europeia pós segunda guerra mundial, e o poderio económico que viria não apenas a derrotar a URSS, através do outspending (gastar mais do que), como a sustentar um Estado de bem-estar cuja existência tivera de ser concedida para que o sistema capitalista não desmoronasse moralmente, perante uma proposta socialmente mais justa apresentada pelo outro lado do Muro de Berlim. Esta dinâmica social mais vasta, em que se inseriu a luta das mulheres, alimentou o poder da classe trabalhadora, deu-lhe amplitude e conduziu a uma conquista de direitos sem precedentes, com o consequente retorno em matéria de redistribuição de riqueza.

No final desse período, nomeadamente a partir dos anos sessenta e sobretudo nas décadas seguintes, a Escola de Chicago começou a praticar o que mais tarde se viria a designar por neoliberalismo, depois consagrado no conhecido «Consenso de Washington», expressão criada por John Williamson em 1989. A proposta, numa fase decadente da URSS, em que esta já se encontrava em retracção e os EUA encontravam na República Popular da China de Mao Tsé Tung um aliado ocasional, conduziu, sucessivamente, à brutal desregulação do mundo do trabalho e a um ataque sem precedentes aos direitos sociais, antes pilares da “democracia social liberal”. As mulheres, os homens e as famílias começaram, primeiro, a deixar de ter tempo para a vida familiar; em seguida, as mulheres foram obrigadas a adiar a maternidade para não comprometer a carreira, muitas vezes num adiamento sem fim. Mais tarde, com a queda dos salários e a degradação dos serviços públicos, ter filhos passou a ser um luxo a que cada vez menos pessoas se podiam dar ao direito.

Nesta fase, convém explicar por que razão os serviços públicos se desagregaram. A proposta neoliberal assentava em contas públicas supostamente certas, baixos impostos para as «empresas», com a justificação avançada de se fomentar o trickle down (infiltração dos ricos para os pobres), impostos altos sobre o trabalho, comodificação de setores fundamentais, como a saúde, a educação, a habitação e a segurança social, e privatização em massa de setores antes considerados estratégicos. A federalização e degradação das soberanias foram instrumentos da lógica privatizadora, veículo de transmissão e entrada de capitais estrangeiros, em “livre circulação”, que se apoderaram dos monopólios estatais. Países como Portugal soçobraram de tal forma que privatizaram quase 100% do sector empresarial público. Nada escapou à ânsia dos gaviões de Wall Street.

Nessa altura, como forma de marinar bem o processo e torná-lo mais lógico, tinham sido introduzidos termos como «anarcocapitalismo», «Estado mínimo» e «Estado austeritário». O que antes fundamentara a necessidade de assegurar a existência do Estado deixava de ser necessário, perante a ideia de que este era pernicioso, demasiado grande e que a riqueza deveria estar do lado «de quem a cria», ou seja, das «empresas». Nunca dos trabalhadores. Tudo o que falhava economicamente era tido, pela ideologia dominante, como culpa das resistências legais e sociais à liberalização total. Convém dizer que esta «ideologia dominante» se apresentava como não sendo «ideologia» mas “técnica».

O fim desse salário invisível, pago através de benefícios e direitos sociais, serviços públicos gratuitos ou muito acessíveis, energia, comunicações e logística a preços comportáveis, associado à queda da natalidade e à acumulação sem precedentes dos activos, em cada vez menos mãos, conduziu a uma estagnação económica sem fim, dramática para uma «economia» que se media — e que arcaico isso era! — em PIB: produto interno bruto! Os mais ricos acumulavam como nunca, faziam os recursos sair para os paraísos fiscais e activos financeiros improdutivos, mas tudo isso era PIB. Quanto mais PIB, piores eram as condições de vida da maioria. O que se media não eram as variáveis da civilização, como o crescimento produtivo, o acesso a infraestruturas, a circulação de mercadorias, energia produzida e eficiência energética, acesso a serviços fundamentais, poder de compra, mas sim a quantidade de riqueza como um todo. O desperdício fazia crescer o PIB! A guerra fazia crescer o PIB! Tornou-se demasiado fácil mentir e apresentar como crescimento o que era destrutivo e improdutivo.

Perante a falta de saídas, a alegada escassez de mão de obra fazia pressão para o aumento dos salários; ao mesmo tempo, uma estagflação sem fim levava o patronato a exigir a entrada de imigrantes, a governos cada vez mais dóceis e habitados por funcionários da «C-suite» empresarial — governos pelo patronato financiados e por ele promovidos na comunicação dita «social». Foi a época em que as maiores associações patronais exigiam portas abertas. Mão de obra barata, para actividades de baixo valor acrescentado, mas muito lucrativas e com o prémio de pressionar, para baixo, os salários dos trabalhadores locais.

A entrada de imigrantes correspondia não apenas a um acréscimo de PIB — tanto pelo que produziriam como pelo que consumiriam —, mas também à repetição, sessenta anos depois, do efeito que tivera a emancipação da mulher durante os tais trinta anos de ouro. Realidade a que se associou ainda a guerra da Ucrânia, motor de venda de armas, bem como a bolha da Inteligência Artificial.

Ao longo de décadas, entraram muitos milhões de trabalhadores migrantes no Ocidente. Os EUA passaram de cerca de 249 milhões de habitantes, em 1990, para aproximadamente 342 milhões, em 2025. Em França, a população da França metropolitana passou de cerca de 50 milhões, em 1968, para mais de 66 milhões, em 2023; no conjunto do país, estimava-se em 69,1 milhões no início de 2026. A Alemanha, que, já reunificada, tinha 79,8 milhões de habitantes em 1990, ultrapassara os 84 milhões em 2023. Portugal, que durante décadas rondara os dez milhões, atingiu 11,4 milhões em 2025.

Entre outras razões, também para melhor ajudar esse PIB vivo, dinâmico e em movimento a entrar, potências ocidentais e organizações internacionais envolveram-se, directa ou indirectamente, em guerras e intervenções que desestabilizaram vários países. A NATO assumiu o comando das operações militares na Líbia em 2011; no Iraque, a invasão de 2003 fora conduzida por uma coligação liderada pelos EUA, mas não pela NATO enquanto organização. A Síria afundara-se numa guerra com múltiplas intervenções externas, fomentada pelos EUA; o Irão e o Líbano enfrentavam outros conflitos e crises, em que EUA e ocidente também foram actores principais, não raramente sob a máscara de um instrumento chamado Israel.

Tais processos conduziram à destruição de países soberanistas que recebiam migrantes. Países que, em diferentes graus e períodos, tinham conhecido regimes laicos e fases de prosperidade económica viram-se destruídos pela máquina imperialista. As justificações existiram sempre, mas hoje sabemos que eram tão falsas quanto insatisfatórias. O resultado foi o que se viu: imensas multidões desesperadas à procura de atravessar o Mediterrâneo, a qualquer custo. Dos campos de «detenção» na Turquia, às instalações de triagem da Grécia ou Itália, a Europa foi “invadida” pelo desespero económico, produto da sua incúria, egoísmo, criminosa irresponsabilidade e imbecil arrogância, responsáveis pela provocação de um êxodo inverso ao da Segunda Guerra Mundial. Os europeus que haviam migrado para muitas dessas paragens, quando se tratou de fugir desesperadamente ao terror nazifascista, agora eram eles próprios quem não queria entre si, muitos dos que os haviam albergado antes. A história neofascista na Europa é também uma história de ingratidão histórica sem fim.

Milhões de muçulmanos, hindus e budistas entraram pelo Ocidente adentro, pela Europa adentro, chocando comunidades, desafiando costumes, impondo naturalmente as suas culturas e valores. Não porque o quisessem, mas porque a sua entrada em números tão grandes acabaria por conduzir a tal. Poder-se-ia perguntar, por que razão estes Estados não se haviam preparado para tal processo, já que pretendiam encetá-lo. Uma entrada que poderia enriquecer culturalmente um continente em morte lenta, foi vista como uma espécie de parasítica invasão.

Os países ocidentais não se prepararam precisamente pelas mesmas razões que conduziram à destruição do ponto de equilíbrio anterior. O PIB entrou, mas o lucro da sua exploração ficou em pouquíssimas mãos. Foi o tempo em que as plataformas do Vale do Silício exploraram migrantes como escravos e, com essa exploração, atomizaram os direitos laborais ainda existentes. Condutores de Uber, entregadores de comida, trabalhadores na apanha da fruta, turismo de massas: não houve actividade de baixo valor acrescentado, baixa qualificação e baixo salário em que não fossem empregues. Esse PIB foi acumulado e concentrado, mas para a comunidade autóctone ficou apenas o desafio da integração.

Talvez esse tenha sido um dos problemas. Não se podia esperar muito crescimento de actividades com um perfil tão pobre. Mas, se os governos, nesse momento ainda mais dóceis, isentaram de impostos e subsidiaram avultadamente aqueles que exploraram essa mão de obra, sem nada exigir em troca, esses mesmos governos, demitidos da responsabilidade da coesão social, deixaram às sociedades os impactos, os custos e os encargos. Tal como se haviam divorciado em relação às necessidades dos trabalhadores locais, por maioria de razão também se divorciaram em relação às necessidades dos migrantes e do investimento necessário com a sua integração saudável. Uns e outros, trabalhadores locais e migrantes, foram carne para canhão de um modelo económico cada vez mais selvagem e voraz.

Transportes públicos lotados, serviços públicos exauridos, sociedades espartilhadas: o choque para o comum dos trabalhadores foi brutal. Até as casas faltaram nessa altura! Subitamente transformadas em mercadoria e em activos financeiros, vendê-las e arrendá-las tornava-se, não poucas vezes, menos vantajoso, pois a sua entrada no mercado desvalorizava — pelo aumento da oferta — activos sobre os quais se estruturavam swaps, derivados, futuros, ETF, obrigações, etc. Mais pessoas, menos casas. Mais procura, mais casas vazias, menos casas no mercado, preços mais elevados, e mais casas em cada vez menos mãos. Garantias constitucionais que deveriam ter sido redimensionadas foram vítimas da ideologia dominante do estado mínimo.

As guerras do império e a financeirização da energia provocaram preços elevadíssimos, que desembocaram num aumento brutal do custo de vida: inflação, estagflação, deflação, não houve nada que não atacasse. Tudo isto enquanto assistíamos aos Estados serem governados por governos que viviam alheados, abstraídos das dores e dos lamentos da população.

Não foi preciso muito para que o imigrante passasse a ser visto como invasor. Políticos comprometidos pelo apoio e pela cumplicidade com as políticas até aí aplicadas, para se divorciarem das suas responsabilidades e lucrarem politicamente com a revolta, elegeram o trabalhador estrangeiro como culpado.

Não valeu a pena dizer que esse trabalhador não vinha porque queria, que o seu país estava destruído pelas guerras e neocolonialismo provocados pelo Ocidente, que esse migrante ficaria lá se pudesse, que vinha em desespero, que o tinham trazido e lhe tinham facilitado a entrada para o poderem explorar, para que os nossos salários fossem contidos e desvalorizados, e para que patrões sem escrúpulos e políticos corruptos pudessem lucrar com tudo isso. De nada valeu dizê-lo, demonstrá-lo e prová-lo. Estava escrito na parede, como estivera escrito na parede alemã dos anos trinta do século XX: os judeus não eram os culpados.

O bode expiatório estava arranjado e ainda trazia a vantagem de fracturar a classe trabalhadora.

Não tardaram as acusações de que apenas queriam os subsídios. Como se todos os trabalhadores não quisessem subsídios que aliviassem a sua miséria. Como se fosse crime um trabalhador querer um subsídio para o qual havia pago com impostos, no trabalho ou como consumidor. Como se uma família, com o pai e a mãe a trabalhar, não merecesse alívio pela luta árdua do dia a dia, por uma vida de trabalho prometida, e sem Eldorado no final.

As acusações não pararam! Não valeu a pena dizer que os refugiados — apresentados como os únicos que recebiam sem ter de trabalhar — eram residuais; que mesmo as famílias numerosas, cujos filhos não trabalhavam e recebiam subsídios da segurança social, estavam a preservar PIB futuro e mão de obra barata; que os maiores subsídios, isenções, prémios e perdões, aos biliões, eram dados ao capital, às «empresas», empresas que tantas vezes não pagavam impostos. Dessas, ninguém falava.

A tensão foi subindo e passou para quem antes tinha uma vida digna e a via agora ameaçada. Insensíveis, os governos permaneceram surdos, cegos e mudos. Não reforçaram os serviços públicos, não aumentaram os salários, não melhoraram as pensões, não integraram os migrantes como estes mereciam ser integrados enquanto seres humanos, especialmente depois de terem sido deslocados. Fizeram como haviam feito em meados do século XX. Fuga em frente. As massas humanas tornaram-se tão desumanas como só os seres humanos podem ser.

Havia que rechaçar as culpas. Foi fácil colocar os brancos que recebiam apoios ao arrendamento, ao desemprego e à doença, reformas, pensões, complementos e outras formas de assistencialismo a culpar os outros por também os receberem. Havia uma sensação de que não chegava para todos e ninguém avançava com melhor explicação que «o dinheiro não chegava». Esse ódio cresceu e deu jeito a governos cada vez mais impotentes para afrontar os interesses que os tinham eleito. Umas notícias sobre o fim da Segurança Social, a inevitabilidade da austeridade e o fim dos direitos incendiaram tudo. O que antes chegava para todos agora não chegava para ninguém, e a única explicação lógica que passava, dia e noite, nos órgãos da ideologia dominante era que os culpados eram «os migrantes».

Nenhum cidadão médio dessa altura saberia dizer por que razão o dinheiro já não chegava. A economia crescia, a produtividade crescia, a riqueza coletiva aumentava, mas para onde ia o dinheiro, então? Só poderia ser para os «migrantes». Pouco adiantou explicar que, segundo estimativas da Oxfam, desde 2015 os 1% mais ricos detinham mais riqueza do que os 99% e que, em 2017, oito homens possuíam tanto como a metade mais pobre da humanidade. Um minibus chegava, afinal, para transportar os detentores dessa riqueza concentrada. Tudo isto acontecia ao ritmo de menos impostos pagos, mais subsídios e benefícios fiscais recebidos, menos direitos dos trabalhadores, salários mais baixos e mais horas de trabalho. Empresas antes públicas, privatizadas e pagas com o seu próprio dinheiro davam agora lucros bilionários aos 1%, retirando ao Estado recursos fundamentais. Mas a culpa era dos «migrantes».

O inimigo estava escolhido e dava muito jeito a uma classe que enriquecia e concentrava cada vez mais. Os «migrantes» tinham dado muito jeito para concentrar ainda mais riqueza; agora, davam jeito como bodes expiatórios. Tal como nos idos 30’s do século XX, em que o grande capital europeu não se quis ver afectado pela crise económica pós 1ª grande guerra e pela primeira vaga de descolonização, também nos 30’s do século XXI, o grande capital de então, especialmente o Francês, perdido que estava o sorvedouro neocolonial do Sahel, também não quis dividir com o povo os resultados da crise do período pré-guerra mundial e resultante do esgotamento do modelo económico neoliberal. Perdida a indústria, degradada a hegemonia do dólar, o Ocidente acabara de perder, por culpa própria, o seu toque de Midas.

Perante as dificuldades, a falta de uma ideologia resistente, forte — resultado de vinte anos de cinzentismo do «não há esquerda nem direita», «as ideologias acabaram», «o marxismo é coisa do passado» e «a luta de classes nunca existiu» — deixou a população trabalhadora ideologicamente desarmada, presa fácil de uma ideologia dominante disfarçada de «pragmatismo», «neutralidade», «isenção» e «moderação». Os avisos dos sábios de outrora quanto ao perigo do discurso que se apresentava como isento de ideologia, a ninguém recordaram.

O que não existia mesmo, na sociedade, era «moderação». Hordas de trabalhadores e jovens estudantes, em protesto por direitos, entrelaçavam-se com redes sociais inflamadas de ódio pelos «migrantes» e pelos contestatários. Governos assustados foram incendiando ainda mais os ânimos, como na metáfora das formigas: colocadas num frasco, sem alimento, as formigas morrem, mas não se matam; abanado o frasco e atiradas umas contra as outras, começam a matar-se. Nem nos parlamentos, nem na comunicação dita «social», nem nos governos se encontrava a tal «moderação», a tal «contenção». Toda a decência parecia ter desaparecido.

Os mais «moderados», os que tentavam compreender e explicar a situação, eram acusados de serem cúmplices dos «invasores». A sua luta, as suas denúncias e as suas reivindicações pelo civismo, pela dignidade e pela liberdade para todos conduziram à sua ilegalização e prisão. As manifestações passaram a ser reprimidas e os seus participantes, perseguidos.

Cem anos depois, a humanidade voltou a matar indiscriminadamente outros seres humanos etnicamente diferentes. Desses, passou aos «politicamente diferentes» e, destes, ainda, aos que não podiam trabalhar. Milhões foram parar a campos de concentração; outros tantos foram atirados ao mar e bombardeados para que fugissem. Um horror sem fim que vitimou mulheres, crianças e idosos, sem qualquer dó nem piedade. Quanto maior o ódio, mais cresciam os partidos que o promoviam, num transe homicida coletivo sem fim.

Vinte anos antes desses acontecimentos, muitos tinham-se questionado sobre como fora possível aos nazis matarem tantos judeus, ciganos, comunistas, eslavos, negros e pessoas com deficiência. Trinta anos mais tarde, já muito poucos queriam saber. Hoje, em 2100, voltamos aqui a questionar-nos: como foi possível?

Fontes

  1. Conselho de Segurança Nacional dos EUA, National Security Study Memorandum 200: Implications of Worldwide Population Growth for U.S. Security and Overseas Interests, 10 de dezembro de 1974; Departamento de Estado dos EUA, Foreign Relations of the United States, 1969–1976, Population Policy
  2. John Williamson, The Washington Consensus as Policy Prescription for Development, Peterson Institute for International Economics, conferência proferida no Banco Mundial em 13 de janeiro de 2004
  3. U.S. Census Bureau, Historical Population Change Data (1910–2020) e U.S. Population Growth Slows Due to Historic Decline in Net International Migration, 27 de janeiro de 2026
  4. Institut National de la Statistique et des Études Économiques (INSEE), Full set of local data — France métropolitaine, e Demographic Report 2025, 13 de janeiro de 2026
  5. Statistisches Bundesamt (Destatis), A Changing Population — Assumptions and Results of the 14th Coordinated Population Projection, e Population by Age Groups
  6. Instituto Nacional de Estatística (INE), Estimativas de População Residente, 22 de junho de 2026.
  7. NATO, NATO Operations and Missions: NATO and Libya (February–October 2011) e NATO Training Mission Iraq (2004–2011).
  8. Oxfam, An Economy for the 1%, 2016, e Just 8 Men Own Same Wealth as Half the World, 16 de janeiro de 2017.
  9. United States Holocaust Memorial Museum, Holocaust Encyclopedia: Victims of the Nazi Era — Nazi Racial Ideology, 20 de setembro de 2024.

Fonte aqui

Uma teoria marxista da crise no mundo contemporâneo

(Por Michael Roberts, in WordPress Blog, 13/06/2026, Trad. Estátua)


Esta é uma versáo em inglês, traduzida para português, de uma entrevista publicada em chinês pela Academia Chinesa de Ciências Sociais em 2025 na revista World Socialist Research.


1º Michael Roberts, obrigado pelo seu tempo! Poderia contar-nos brevemente quando conheceu e aceitou o marxismo e qual foi o impacto do seu trabalho anterior na City de Londres?

Se tiver uma visão marxista sobre o funcionamento do capital financeiro, será muito menos provável que presuma que tudo correrá bem com os investimentos financeiros. Uma lição que aprendi para os trabalhadores, e que também se aplica à China, é: mantenham-se afastados dos mercados financeiros. Melhor ainda, os fundos de pensões dos trabalhadores não devem depender de investimentos no mercado bolsista, uma vez que estes fundos perdem continuamente as contribuições dos trabalhadores ao fazê-lo. Mas o contrário também é verdade. Uma compreensão profunda do funcionamento do sistema financeiro pode ajudar-nos a explicar melhor as fragilidades e especulações do sistema.

2.º Qual pensa que é a ideia central do marxismo? Qual a relação entre o materialismo histórico e a crítica da economia política?

As ideias centrais do marxismo podem ser reduzidas a dois conceitos-chave. Em primeiro lugar, a história da organização humana desde os tempos primitivos é a história da luta de classes. A concepção materialista da história é a de que a mudança, para o bem e para o mal, é impulsionada pelos interesses materiais das classes e, em particular, pela classe dominante (senhores feudais, empresas capitalistas) e pela classe operária. Embora os indivíduos possam desempenhar papéis fundamentais em momentos da história (decisões e ações de reis ou de líderes revolucionários), em última análise, a mudança depende da economia e das classes. Como dizia Marx: “os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem segundo as suas próprias circunstâncias, mas segundo as circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas pelo passado”.

A segunda ideia central é a lei do valor no capitalismo. O capitalismo é um sistema de produção orientado para o lucro dos proprietários dos meios de produção, que exploram aqueles que nada possuem para além da sua capacidade de trabalhar para esses proprietários. O trabalho cria todas as coisas e serviços que utilizamos e necessitamos, mas o valor desse trabalho é apropriado pelos proprietários dos meios de produção como “mais-valia”, para além do que o trabalhador recebe pelo seu trabalho. Esta mais-valia é acumulada como capital. As nossas necessidades sociais dependem, então, das decisões dos capitalistas sobre se é rentável ou não. Esta explicação do funcionamento da economia moderna é negada pelos apologistas do capitalismo – mas é inegavelmente clara.

3.º A teoria da crise é uma parte importante da crítica de Marx à economia política. Têm sido muitos os debates entre marxistas sobre como compreender a teoria da crise de Marx. O que pensa da teoria da crise de Marx e da relação entre a superprodução, o subconsumo e a tendência de descida da taxa de lucro?

Sim, uma teoria das crises no capitalismo é muito importante. Os defensores do capitalismo negam a existência de crises endémicas na produção capitalista – ou seja, quebras regulares e recorrentes na produção, no investimento e no emprego. Para eles, tais crises são acontecimentos aleatórios, isolados ou o resultado de más decisões, especulações ou negligência. Os defensores negam que as crises sejam inerentes ao sistema capitalista de produção com fins lucrativos. Mas a lei do valor de Marx revela porque é que as crises regulares são endémicas. A produção capitalista só ocorre se houver lucro, e Marx demonstra que surge uma contradição entre o impulso para aumentar a produção e a rentabilidade dessa produção (ou seja, o lucro em relação ao capital investido). Os capitalistas competem entre si para ganhar quota de mercado e uma maior fatia dos lucros apropriados dos trabalhadores. Para obter vantagem, recorrem à utilização de tecnologias que poupam mão-de-obra para reduzir custos e aumentar a produtividade do trabalho. Mas Marx defendia que o lucro só provém do trabalhor que vai trabalhar; assim, se o investimento em máquinas etc. aumentar em relação à mão-de-obra, a produtividade pode aumentar, mas à custa de uma tendência decrescente da rentabilidade. Eventualmente, a rentabilidade pode cair tanto que provoca uma quebra nos lucros totais. Então, os capitalistas deixam de investir, fecham a produção e despedem trabalhadores. O desemprego aumenta juntamente com o stock de bens e serviços não vendidos. Isto é uma recessão. Só pode ser corrigida com o aumento da rentabilidade, o que exige a remoção de trabalhadores desnecessários, empresas fracas e a manutenção de salários baixos. Só assim todo o processo pode recomeçar. As recessões são um processo de “limpeza” necessário para a recuperação do capital. Marx esboça a sua teoria das crises com maior clareza no Volume 3 de O Capital, Capítulos 13 a 15.

No entanto, muitos marxistas não aceitam que a lei da tendência decrescente da taxa de lucro, tal como é explicada nestes capítulos, seja relevante para as crises do capitalismo. Em vez disso, consideram duas outras teorias principais. A primeira é a do “subconsumo”. Isto ocorre quando os trabalhadores não conseguem comprar todos os bens e serviços produzidos pelos capitalistas porque não têm dinheiro suficiente. Tanto Marx como Engels contestaram esta teoria do subconsumo, salientando que os trabalhadores nunca terão dinheiro suficiente para comprar toda a produção vendida, precisamente porque os salários não contêm todo o valor criado e realizado, uma vez que os capitalistas se apropriam de qualquer mais-valia (a diferença entre o valor das mercadorias vendidas e os salários pagos aos trabalhadores; por outras palavras, os lucros). A questão é que os capitalistas não têm de vender todas as suas mercadorias aos trabalhadores; grande parte das vendas é feita a outros capitalistas (por exemplo, o aço é vendido aos fabricantes de automóveis para a produção de automóveis, etc.).

A outra teoria alternativa é a da “superprodução”. Os capitalistas continuam a produzir para acumular mais lucros sem ponderarem se conseguirão vender a sua produção no mercado. Produzem em excesso em relação à procura. O problema desta explicação das crises é que não explica quando é que a produção se torna “excessiva”. Pode nunca acontecer, ou pode acontecer a qualquer momento. Não há lógica nesta teoria. Por outras palavras, se a oferta estiver alinhada com a procura, poderá ainda existir uma crise de investimento e de produção no capitalismo? Marx diria que sim, porque a rentabilidade do que está a ser produzido é que determina se os capitalistas investem ou não. De facto, é assim que se desenrolam as crises. A rentabilidade cai, depois os lucros totais, e depois os capitalistas tentam vender mais para compensar a queda dos lucros. Mas isso significa “superprodução”, obrigando os capitalistas a baixar os preços e/ou a reduzir a produção. A sobreprodução é o resultado da sobreacumulação de capital, ou seja, da queda da rendibilidade do capital investido, e não o contrário.

4.º Em 2020, publicou o livro Engels 200 – O seu contributo para a Economia Política, no qual apresentou sistematicamente a investigação de Engels sobre economia política e o seu contributo para a economia política marxista. No entanto, existe a visão de que a crise provocada pela queda da taxa de lucro é, na verdade, um ponto de vista de Engels, e que este teria exagerado ou mesmo adulterado a discussão de Marx sobre a tendência de queda da taxa de lucro ao editar o volume 3 de O Capital. O que pensa desse ponto de vista?

Esta visão foi expressa por vários marxistas (em particular, o académico marxista alemão Michael Heinrich), que afirmam ter lido artigos inéditos de Marx que aparentemente mostram Engels a alterar as palavras de Marx para dar mais importância à lei da tendência decrescente da taxa de lucro. Estes marxistas alegam ainda que Marx, na verdade, abandonou a lei na década de 1870 e, por isso, não deveria ser considerada relevante para a economia marxista e para a teoria da crise.

Mas outros estudiosos demonstraram claramente que Engels não distorceu significativamente o texto de Marx, como nos capítulos 13 a 15 do Volume 3, onde a lei da rentabilidade é explicitada. E não há provas de que Marx tenha abandonado esta lei na década de 1870 – pelo contrário, continuou a estudá-la. Por exemplo, na década de 1870, Marx dedicou um tempo considerável ao estudo da taxa de lucro com diversas fórmulas matemáticas. Quando Engels editou o Volume 3 de O Capital, excluiu o trabalho matemático de Marx sobre a taxa de lucro, embora isso confirmasse que Marx ainda se mantinha fiel à sua lei. Tudo isto é explicado no meu livro Marx 200 e no meu livro Engels 200, com todas as referências.

Os marxistas que defendem esta ideia também distorceram a lei do valor de Marx, transformando-a numa teoria monetária, ou seja, o valor não é criado pelo trabalho na produção, mas sim realizado apenas com a venda de mercadorias produzidas no mercado. Portanto, sem venda, não há valor. Não era essa a visão de Marx. O valor é o resultado do esforço do trabalho humano na produção; a quantidade desse valor que é efetivamente realizada depende da venda no mercado. Mas não há qualquer valor sem a produção do trabalho humano. Por detrás desta teoria revista, tenta-se substituir a rendibilidade como causa fundamental das crises por uma teoria da instabilidade monetária ou do crédito, semelhante à visão de economistas tradicionais como Keynes.

5.º Do seu ponto de vista, quais são as principais diferenças entre a economia política marxista e outras escolas de economia (como a economia neoclássica, o keynesianismo, etc.)? Poderemos considerar a teoria da crise como uma diferença importante ou mesmo essencial entre a economia política marxista e a economia ocidental convencional?

A principal diferença reside no facto de outras escolas de economia, mesmo as mais radicais e “heterodoxas” que não aceitam a perfeição dos mercados, discordarem da lei do valor de Marx. Não aceitam que a principal contradição da produção capitalista seja a produção para o lucro, e não para a necessidade social, e que o aumento da produção entre eventualmente em conflito com o aumento da rentabilidade, o que leva a ciclos de expansão e recessão, ou seja, crises. A escola neoclássica dominante nega que as crises possam ocorrer em mercados bem geridos ou em mercados sem interferência de governos, monopólios ou sindicatos. Os economistas heterodoxos negam o papel do lucro nas crises e apontam a “falta de procura” (Keynes), a instabilidade financeira (Minsky), os monopólios (Sweezy, Stiglitz) ou a má regulação.

E esta é uma diferença crucial, porque todas estas escolas sugerem que a produção capitalista pode ser modificada ou corrigida para que o capitalismo funcione melhor. Keynes disse que mais despesas governamentais ou injecções monetárias resolveriam o problema; o heterodoxo Minsky disse: regule os bancos e as instituições financeiras, e então o capitalismo estabilizará. Estas abordagens reformistas estão teórica e empiricamente erradas. A teoria da crise de Marx mostra que o capitalismo não pode ser reformado desta forma. As crises são endémicas do capitalismo porque, em última análise, são causadas pela queda da rentabilidade. A única forma de pôr fim às crises é substituir o capitalismo por uma economia planificada sob propriedade comum, ou seja, sem capitalistas.

6.º Na sua investigação, quais os impactos da financeirização do capitalismo na economia real e na classe trabalhadora?

Uma das características dos últimos 50 anos nas economias modernas do Norte Global tem sido a ascensão do setor financeiro, não só dos bancos, mas também dos hedge funds, fundos de investimento, fundos de seguros, private equity, criptomoedas, etc. Cada vez mais, os capitalistas têm direcionado os seus lucros acumulados para ativos financeiros e especulação, em vez de investirem em novas tecnologias e setores produtivos. Este é o fenómeno da “financeirização”.

No entanto, alguns marxistas e outros ficaram tão encantados com este desenvolvimento que começaram a afirmar que o capitalismo mudou completamente. Já não é um sistema de produção com fins lucrativos através da exploração do trabalho em fábricas, escritórios, etc., mas sim um sistema financeiro e monetário onde o dinheiro gera mais dinheiro. Isto significa que os trabalhadores perderam o seu papel de produtores de valor no capitalismo. Ora, os capitalistas podem obter valor apenas através de artifícios monetários. O capitalismo tornou-se capital financeiro, que domina o capital produtor.

Isto é um absurdo. Embora os lucros financeiros em algumas economias, como os EUA e o Reino Unido, sejam consideráveis, atingindo até 25% do lucro total, a grande maioria dos lucros ainda provém da venda de bens e serviços produzidos pelos trabalhadores. E isto é especialmente verdade no chamado Sul Global, onde a indústria transformadora se tornou predominante, e não o sector financeiro. Globalmente, a classe trabalhadora nunca foi tão grande e a maior parte da acumulação capitalista ainda provém do trabalho dos operários na produção. O leopardo do capitalismo não mudou as suas manchas.

7.º O que pensa da atual crise do capitalismo no sistema económico global, sobretudo da crise financeira dos últimos anos? Que perspetivas nos pode a economia política marxista oferecer para compreendermos a crise do capitalismo?

Este é um assunto complexo. No século XXI, vivemos as duas maiores crises da história do capitalismo: a de 2008-2009 e a de 2020. Há todas as razões para esperar que outra crise ocorra antes do final desta década. Pode ser desencadeada por uma nova crise financeira, como a de 2008. Desta vez, a crise pode não começar nos bancos propriamente ditos, mas ser gerada pelo aumento da dívida das empresas e pelo custo do serviço dessa dívida. Atualmente, cerca de 20% das empresas na Europa, Japão e Estados Unidos são consideradas “zombies”, ou seja, são como mortos-vivos, pois não geram lucros suficientes nem sequer para cobrir o custo do serviço das suas dívidas existentes e, por isso, têm de continuar a contrair empréstimos. Estas empresas correm o sério risco de falir e arrastar consigo até empresas lucrativas, num efeito dominó.

8.º Acha que, desde o fim da Grande Recessão em 2009, as principais economias capitalistas estão numa Grande Depressão? Existe alguma diferença entre a Grande Depressão e outras grandes depressões na história do capitalismo? Que estratégias deverá a China adotar em resposta ao impacto global da Grande Depressão?

Defino uma depressão, por oposição a uma recessão ou crise, como um período em que, após uma crise, a anterior tendência de crescimento da produção, do investimento e, sobretudo, da rendibilidade, é muito inferior à observada antes da crise. E esta tendência decrescente pode persistir durante décadas. Neste sentido, a Longa Depressão a partir da década de 2010, que identifiquei, é semelhante à depressão do final do século XIX (1873-1897) e à Grande Depressão de 1929-1942. Em 2025, a depressão actual continua, dado que a crise pandémica de 2020 não resultou num aumento significativo da rendibilidade, e, por isso, o crescimento do investimento e do PIB real continuam ainda mais fracos do que na década de 2010.

A China evitou todas estas crises no capitalismo. Isto porque a economia chinesa é dominada por um amplo sector estatal e pelo planeamento governamental, pelo que qualquer instabilidade no seu sector capitalista pode ser ultrapassada e o investimento e a produção podem prosseguir de forma relativamente ininterrupta. Se as economias capitalistas do Ocidente entrarem noutra recessão, o comércio e o investimento na China serão afetados, mas a China possui agora uma enorme base doméstica e investiu fortemente em novas tecnologias, continuando a direcionar e a planear estes investimentos principalmente através do sector estatal. A China necessita de expandir o sector estatal e o planeamento para reduzir a instabilidade no seu sector capitalista, particularmente exposta pela queda acentuada do sector imobiliário (maioritariamente baseado no capitalismo).

9.º As moedas digitais e a tecnologia blockchain têm sido temas em voga no campo da tecnologia financeira nos últimos anos, e têm tido um impacto profundo na economia global e no sistema financeiro. Qual a sua opinião sobre estas inovações financeiras e finanças digitais? Conduzirão a uma crise económica mundial ainda mais grave?

As cripto moedas, como são chamadas, tal como a bitcoin, são apenas mais uma forma de ativo financeiro especulativo, como o ouro ou as pinturas. Não são formas alternativas de dinheiro que possam substituir as moedas emitidas pelo Estado (dinheiro fiduciário), como o dólar ou o yuan. As moedas digitais em geral já existem de uma forma, ou seja, paga as suas contas com cartão, telemóvel ou transferência bancária sem utilizar dinheiro em papel. O possível novo desenvolvimento seria uma moeda digital emitida por um banco central, que contornaria os bancos comerciais. Até agora, este desenvolvimento teve um progresso limitado. Enquanto isso, as cripto moedas são mais uma forma daquilo a que Marx chamou “capital fictício”, que aumenta ainda mais o risco de um colapso financeiro no futuro.

10.º Dada a crescente popularidade da inteligência artificial e da automação, como aplicar o marxismo para analisar o impacto do progresso tecnológico nos modos de produção e nas relações sociais? Na sua investigação, qual a correlação entre progresso tecnológico e crescimento económico?

Isso é complexo. A inteligência artificial (IA) é apenas uma nova forma de tecnologia destinada a substituir o trabalho humano e a aumentar a produtividade, elevando assim o nível de exploração do trabalho pelo capital. As novas tecnologias podem levar a enormes perdas de emprego, especialmente nas indústrias e ocupações que substituem, mas também podem, com o tempo, criar novas indústrias e empregos. Considere a revolução industrial, a revolução da eletricidade, a indústria automóvel, a revolução da informática. A tecnologia sempre foi fundamental para o crescimento económico, aumentando a produtividade do trabalho, principalmente quando a dimensão da força de trabalho deixa de crescer – como acontece na China de hoje.

Argumenta-se que a IA é um desenvolvimento completamente novo que irá substituir totalmente o trabalho humano, uma vez que pode superar a inteligência humana. As evidências para tal são duvidosas. Grande parte da IA ​​consiste apenas no processamento rápido do conhecimento humano existente e não pode substituir a natureza imaginativa da inteligência humana. Além disso, a IA levará algum tempo, até mesmo décadas, a difundir os seus efeitos de aumento da produtividade nas economias. Na minha opinião, não é um “game changer” capaz de salvar o capitalismo.

11.º O tecno feudalismo é uma visão que surgiu nos últimos anos para descrever as mudanças na sociedade causadas pela tecnologia da nuvem, ou seja, os gigantes da tecnologia e as grandes empresas de plataformas detêm os dados e o poder como senhores feudais, enquanto os utilizadores comuns servem estes senhores digitais como produtores de dados não remunerados, como servos, e a nova forma de rendimento substitui o lucro como principal forma de acumulação. Concorda com o uso do tecno feudalismo para definir o estádio atual da sociedade ocidental?

O tecno feudalismo, enquanto conceito, sugere que a produção capitalista, ou seja, a produção com fins lucrativos através da exploração do trabalho, foi substituída por um feudalismo onde os monopólios digitais apenas extraem rendimentos. Mas de onde vêm estas rendas? Marx salientou que o rendimento, os juros e os lucros provêm da mesma fonte: a mais-valia apropriada do valor criado pela força de trabalho humana. É simplesmente errado argumentar que as empresas que vendem tecnologia na nuvem não produzem bens para venda e lucro, tal como qualquer processo capitalista. A maior parte dos lucros da Amazon provém da distribuição e transporte de produtos; a maior parte dos lucros do Facebook provém da publicidade; a maior parte dos lucros do Google também. A maior parte dos lucros da Microsoft e da Apple provém da venda de hardware e software. Não se trata de feudalismo, mas de capitalismo puro e simples. O capitalismo não está morto, e sugerir isso é uma ideia perigosa para os trabalhadores, porque significa que o trabalho pode não ver o seu inimigo como o capital na sua totalidade, mas apenas uma pequena parte dele, pelo que não há necessidade de substituir o capitalismo, mas apenas o capitalismo “feudal monopolista”.

12.º A teoria do valor-trabalho é a ideia central da economia marxista. Na era da automação e da economia digital, como aplicar a teoria do valor-trabalho para analisar a economia moderna? O que pensa sobre os dados como um novo fator de produção?

Os dados ou conhecimento provêm da atividade humana. Portanto, o conhecimento tem valor da mesma forma que as coisas físicas têm valor para a sociedade e para o capital. O conhecimento é material: requer a energia do trabalho humano, ou seja, trabalho intelectual, da mesma forma que o trabalho físico. Ambos são materiais e criam valor. Assim, o capital pode apropriar-se da mais-valia dos trabalhadores do conhecimento que emprega, e fá-lo cada vez mais em todos os sectores e em todo o mundo. Esta mais-valia está incorporada nas patentes, nos direitos de propriedade intelectual, etc. O conhecimento ou o trabalho intelectual é tão “material” como o trabalho físico. A atividade mental ocorre nas sinapses do cérebro humano e é combinada com o trabalho físico através de um computador, etc. Portanto, o trabalho intelectual cria valor tanto como o trabalho físico. E os trabalhadores do conhecimento fazem parte do proletariado tanto como os trabalhadores manuais que executam tarefas físicas.

De facto, os trabalhadores intelectuais estão a ser cada vez mais explorados pelo capital para apropriação da mais-valia (lucro). Portanto, não há necessidade de inventar um novo termo para a classe trabalhadora, como “multidão”. Isto implica que a classe trabalhadora, aqueles que só ganham a vida vendendo a sua força de trabalho e não possuem meios de produção, já não existe. Este termo oculta a luta de classes entre o trabalho e o capital, confundindo, assim, a necessidade de substituir o capitalismo.

13.º O desenvolvimento do capitalismo digital aprofundou a divisão Norte-Sul ?

Sim, está a aumentar essa divisão. Mas essa divisão já estava a aumentar de qualquer forma. O Sul Global (com exceção da China) não está a atingir o Norte Global, seja qual for o indicador utilizado: PIB per capita; produtividade por trabalhador; rendimento per capita; redução da desigualdade. A divisão Norte-Sul expressa-se no controlo de um bloco imperialista de economias com populações relativamente pequenas, que domina o resto do mundo, onde se concentra a maior parte da humanidade.

14.º Que políticas económicas pensa que o Presidente Donald Trump irá adotar e que impactos terão essas políticas na economia global?

Não podemos ter a certeza do que Trump fará. Mas afirma que vai aplicar tarifas elevadíssimas sobre as importações americanas, principalmente as provenientes da China. Alega que o seu objetivo é levar a indústria americana de volta ao patamar anterior, à custa do resto do mundo. Acima de tudo, quer dar continuidade à política das anteriores administrações americanas de estrangular, sufocar e inverter o progresso económico da China, vista como a principal ameaça à hegemonia americana. De facto, Trump também apoiará novas provocações militares para restringir a China. A nível interno, pretende reduzir os impostos sobre as empresas para que os ricos e as grandes empresas paguem ainda menos do que atualmente e eliminar as regulamentações sobre a indústria e o combate ao aquecimento global. O seu gabinete é composto inteiramente por gestores de fundos de cobertura e de private equity bilionários que procurarão beneficiar os ricos à custa da maioria dos americanos.

A nível mundial, se Trump levar avante estas políticas, o comércio global sofrerá um revés e as tensões entre a aliança ocidental liderada pelos EUA e a China aumentarão perigosamente. A desigualdade de riqueza e de rendimento entre países e dentro dos países aumentará, e as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente continuarão, com o risco de guerra também na Ásia.

15.º As políticas económicas prometidas por Trump, como os cortes maciços de impostos e o aumento das despesas militares, representarão uma ameaça à estabilidade económica global, conduzindo a níveis mais elevados de endividamento global?

Sim, a dívida global já está em níveis recorde e em relação à produção global. Em particular, o governo dos EUA está a apresentar défices orçamentais consideráveis ​​para financiar a guerra na Ucrânia e em apoio de Israel, e planeia aumentos maciços nas despesas militares para financiar novas ações globais. Trump quer que a Europa pague mais por isso, mas, entretanto, a dívida pública dos EUA está a atingir níveis recorde e o custo do serviço dessa dívida em juros já está a superar as despesas do governo com a educação, os cuidados de saúde e outros serviços públicos.

16.º As políticas económicas de Trump irão agravar as contradições do sistema capitalista global, conduzindo à sobreprodução e à tendência para as crises?

Tudo isto ocorre num contexto global de baixo crescimento e comércio, fraco investimento e crescimento limitado da produtividade. As principais economias capitalistas, com a possível exceção dos EUA, estão estagnadas ou mesmo em franca recessão, sobretudo na Europa. Há grandes probabilidades de estas economias enfrentarem uma grave recessão até ao final desta década, que se espalhará para o resto do mundo, como aconteceu em 2008 e 2020. Só a China pode esperar ultrapassar esta situação.

17.º As políticas económicas de Trump refletem a ascensão do nacionalismo económico e do protecionismo no contexto da globalização? Estas políticas agravarão a desigualdade económica global? Como podem os países em desenvolvimento responder à desigualdade no sistema económico global?

O protecionismo e o nacionalismo por parte de outros não são uma solução alternativa a Trump. Os países em desenvolvimento precisam de se unir para cooperar no comércio, no investimento e na redução da desigualdade. Mas, para isso, os povos destes países precisam de governos que defendam os direitos laborais e a propriedade comum dos recursos e dos ativos, para planear cada economia individualmente e em cooperação global. Infelizmente, quase todos os governos do Sul Global não defendem estas políticas. Ou são controlados por déspotas ou apoiam as grandes empresas internamente e o imperialismo norte-americano no estrangeiro. Enquanto estes governos não mudarem, não espero grandes progressos em termos de maior crescimento, redução das desigualdades, pleno emprego e melhores serviços públicos.

18.º Persiste na escrita de blogs há muito tempo. Que influência teve este estilo de escrita no seu pensamento e troca de ideias? Poderia partilhar as suas pesquisas recentes ou planos de investigação para o futuro?

O objetivo deste blogue e dos meus livros é o de ampliar a nossa compreensão do funcionamento do capitalismo, das suas contradições e falhas, com vista a substituí-lo. Considero a análise de Marx sobre o capitalismo a mais convincente e, por isso, procuro defender as ideias de Marx, tal como as vejo, contra alternativas, todas elas se resumindo a tentar fazer o capitalismo funcionar (melhor). O meu blogue não se destina a académicos, mas a ativistas que procuram mudar o mundo para melhor. Isto não significa que ignore questões difíceis ou complexas de teoria ou evidência estatística. Pelo contrário, tento explicá-las de forma mais clara. Neste momento, estou a preparar um novo livro sobre o que está a acontecer ao capitalismo e à economia mundial na década de 2020. Trata-se, na verdade, de uma continuação do meu livro “A Longa Depressão”, publicado em 2016. Muitas coisas aconteceram desde então e ainda há muito por vir nesta década. ‘Time is Running Out’ será publicado em dezembro de 2026 pela Haymarket Books.

Fonte aqui

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Barbárie ou civilização

(Michael Hudson, entrevistado por Luca Placidi, in Resistir, 29/07/2014)

(Aconselho vivamente a leitura desta entrevista, apesar de ser longa e de certos enunciados só poderem ser, provavelmente, compreendidos por gente com formação na economia dos autores clássicos, muito para além do que se ensina hoje nas universidades: a vulgata neoliberal das loas aos mercados em roda livre. É que todas as questões candentes da atualidade são analisadas. Desde a economia mundial e do seu rumo, até à geopolítica dos conflitos em curso na Ucrânia e em Gaza, até ao futuro da Europa no mundo multipolar que se está a erguer lentamente. A não perder.

Estátua de Sal, 30/07/2024)


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Luca Placidi: Sejam todos bem-vindos. É um grande prazer e uma honra ter hoje connosco o Professor Michael Hudson. Para quem ainda não o conhece, Michael é professor de economia na Universidade de Missouri-Kansas City e investigador no Levi Economics Institute do Bard College.

Michael é também um antigo analista da Wall Street, consultor político, e é o anfitrião da Geopolitical Economy Hour juntamente com Radhika Desai, que é transmitida no canal YouTube de Ben Norton, Geopolitical Economy Report. Professor, bem-vindo e mais uma vez obrigado por estar connosco hoje.

Michael Hudson: Bem, obrigado pelo convite. Estou contente por poder falar para um público italiano.

Ler a entrrevista na íntegra aqui