Uma teoria marxista da crise no mundo contemporâneo

(Por Michael Roberts, in WordPress Blog, 13/06/2026, Trad. Estátua)


Esta é uma versáo em inglês, traduzida para português, de uma entrevista publicada em chinês pela Academia Chinesa de Ciências Sociais em 2025 na revista World Socialist Research.


1º Michael Roberts, obrigado pelo seu tempo! Poderia contar-nos brevemente quando conheceu e aceitou o marxismo e qual foi o impacto do seu trabalho anterior na City de Londres?

Se tiver uma visão marxista sobre o funcionamento do capital financeiro, será muito menos provável que presuma que tudo correrá bem com os investimentos financeiros. Uma lição que aprendi para os trabalhadores, e que também se aplica à China, é: mantenham-se afastados dos mercados financeiros. Melhor ainda, os fundos de pensões dos trabalhadores não devem depender de investimentos no mercado bolsista, uma vez que estes fundos perdem continuamente as contribuições dos trabalhadores ao fazê-lo. Mas o contrário também é verdade. Uma compreensão profunda do funcionamento do sistema financeiro pode ajudar-nos a explicar melhor as fragilidades e especulações do sistema.

2.º Qual pensa que é a ideia central do marxismo? Qual a relação entre o materialismo histórico e a crítica da economia política?

As ideias centrais do marxismo podem ser reduzidas a dois conceitos-chave. Em primeiro lugar, a história da organização humana desde os tempos primitivos é a história da luta de classes. A concepção materialista da história é a de que a mudança, para o bem e para o mal, é impulsionada pelos interesses materiais das classes e, em particular, pela classe dominante (senhores feudais, empresas capitalistas) e pela classe operária. Embora os indivíduos possam desempenhar papéis fundamentais em momentos da história (decisões e ações de reis ou de líderes revolucionários), em última análise, a mudança depende da economia e das classes. Como dizia Marx: “os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem segundo as suas próprias circunstâncias, mas segundo as circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas pelo passado”.

A segunda ideia central é a lei do valor no capitalismo. O capitalismo é um sistema de produção orientado para o lucro dos proprietários dos meios de produção, que exploram aqueles que nada possuem para além da sua capacidade de trabalhar para esses proprietários. O trabalho cria todas as coisas e serviços que utilizamos e necessitamos, mas o valor desse trabalho é apropriado pelos proprietários dos meios de produção como “mais-valia”, para além do que o trabalhador recebe pelo seu trabalho. Esta mais-valia é acumulada como capital. As nossas necessidades sociais dependem, então, das decisões dos capitalistas sobre se é rentável ou não. Esta explicação do funcionamento da economia moderna é negada pelos apologistas do capitalismo – mas é inegavelmente clara.

3.º A teoria da crise é uma parte importante da crítica de Marx à economia política. Têm sido muitos os debates entre marxistas sobre como compreender a teoria da crise de Marx. O que pensa da teoria da crise de Marx e da relação entre a superprodução, o subconsumo e a tendência de descida da taxa de lucro?

Sim, uma teoria das crises no capitalismo é muito importante. Os defensores do capitalismo negam a existência de crises endémicas na produção capitalista – ou seja, quebras regulares e recorrentes na produção, no investimento e no emprego. Para eles, tais crises são acontecimentos aleatórios, isolados ou o resultado de más decisões, especulações ou negligência. Os defensores negam que as crises sejam inerentes ao sistema capitalista de produção com fins lucrativos. Mas a lei do valor de Marx revela porque é que as crises regulares são endémicas. A produção capitalista só ocorre se houver lucro, e Marx demonstra que surge uma contradição entre o impulso para aumentar a produção e a rentabilidade dessa produção (ou seja, o lucro em relação ao capital investido). Os capitalistas competem entre si para ganhar quota de mercado e uma maior fatia dos lucros apropriados dos trabalhadores. Para obter vantagem, recorrem à utilização de tecnologias que poupam mão-de-obra para reduzir custos e aumentar a produtividade do trabalho. Mas Marx defendia que o lucro só provém do trabalhor que vai trabalhar; assim, se o investimento em máquinas etc. aumentar em relação à mão-de-obra, a produtividade pode aumentar, mas à custa de uma tendência decrescente da rentabilidade. Eventualmente, a rentabilidade pode cair tanto que provoca uma quebra nos lucros totais. Então, os capitalistas deixam de investir, fecham a produção e despedem trabalhadores. O desemprego aumenta juntamente com o stock de bens e serviços não vendidos. Isto é uma recessão. Só pode ser corrigida com o aumento da rentabilidade, o que exige a remoção de trabalhadores desnecessários, empresas fracas e a manutenção de salários baixos. Só assim todo o processo pode recomeçar. As recessões são um processo de “limpeza” necessário para a recuperação do capital. Marx esboça a sua teoria das crises com maior clareza no Volume 3 de O Capital, Capítulos 13 a 15.

No entanto, muitos marxistas não aceitam que a lei da tendência decrescente da taxa de lucro, tal como é explicada nestes capítulos, seja relevante para as crises do capitalismo. Em vez disso, consideram duas outras teorias principais. A primeira é a do “subconsumo”. Isto ocorre quando os trabalhadores não conseguem comprar todos os bens e serviços produzidos pelos capitalistas porque não têm dinheiro suficiente. Tanto Marx como Engels contestaram esta teoria do subconsumo, salientando que os trabalhadores nunca terão dinheiro suficiente para comprar toda a produção vendida, precisamente porque os salários não contêm todo o valor criado e realizado, uma vez que os capitalistas se apropriam de qualquer mais-valia (a diferença entre o valor das mercadorias vendidas e os salários pagos aos trabalhadores; por outras palavras, os lucros). A questão é que os capitalistas não têm de vender todas as suas mercadorias aos trabalhadores; grande parte das vendas é feita a outros capitalistas (por exemplo, o aço é vendido aos fabricantes de automóveis para a produção de automóveis, etc.).

A outra teoria alternativa é a da “superprodução”. Os capitalistas continuam a produzir para acumular mais lucros sem ponderarem se conseguirão vender a sua produção no mercado. Produzem em excesso em relação à procura. O problema desta explicação das crises é que não explica quando é que a produção se torna “excessiva”. Pode nunca acontecer, ou pode acontecer a qualquer momento. Não há lógica nesta teoria. Por outras palavras, se a oferta estiver alinhada com a procura, poderá ainda existir uma crise de investimento e de produção no capitalismo? Marx diria que sim, porque a rentabilidade do que está a ser produzido é que determina se os capitalistas investem ou não. De facto, é assim que se desenrolam as crises. A rentabilidade cai, depois os lucros totais, e depois os capitalistas tentam vender mais para compensar a queda dos lucros. Mas isso significa “superprodução”, obrigando os capitalistas a baixar os preços e/ou a reduzir a produção. A sobreprodução é o resultado da sobreacumulação de capital, ou seja, da queda da rendibilidade do capital investido, e não o contrário.

4.º Em 2020, publicou o livro Engels 200 – O seu contributo para a Economia Política, no qual apresentou sistematicamente a investigação de Engels sobre economia política e o seu contributo para a economia política marxista. No entanto, existe a visão de que a crise provocada pela queda da taxa de lucro é, na verdade, um ponto de vista de Engels, e que este teria exagerado ou mesmo adulterado a discussão de Marx sobre a tendência de queda da taxa de lucro ao editar o volume 3 de O Capital. O que pensa desse ponto de vista?

Esta visão foi expressa por vários marxistas (em particular, o académico marxista alemão Michael Heinrich), que afirmam ter lido artigos inéditos de Marx que aparentemente mostram Engels a alterar as palavras de Marx para dar mais importância à lei da tendência decrescente da taxa de lucro. Estes marxistas alegam ainda que Marx, na verdade, abandonou a lei na década de 1870 e, por isso, não deveria ser considerada relevante para a economia marxista e para a teoria da crise.

Mas outros estudiosos demonstraram claramente que Engels não distorceu significativamente o texto de Marx, como nos capítulos 13 a 15 do Volume 3, onde a lei da rentabilidade é explicitada. E não há provas de que Marx tenha abandonado esta lei na década de 1870 – pelo contrário, continuou a estudá-la. Por exemplo, na década de 1870, Marx dedicou um tempo considerável ao estudo da taxa de lucro com diversas fórmulas matemáticas. Quando Engels editou o Volume 3 de O Capital, excluiu o trabalho matemático de Marx sobre a taxa de lucro, embora isso confirmasse que Marx ainda se mantinha fiel à sua lei. Tudo isto é explicado no meu livro Marx 200 e no meu livro Engels 200, com todas as referências.

Os marxistas que defendem esta ideia também distorceram a lei do valor de Marx, transformando-a numa teoria monetária, ou seja, o valor não é criado pelo trabalho na produção, mas sim realizado apenas com a venda de mercadorias produzidas no mercado. Portanto, sem venda, não há valor. Não era essa a visão de Marx. O valor é o resultado do esforço do trabalho humano na produção; a quantidade desse valor que é efetivamente realizada depende da venda no mercado. Mas não há qualquer valor sem a produção do trabalho humano. Por detrás desta teoria revista, tenta-se substituir a rendibilidade como causa fundamental das crises por uma teoria da instabilidade monetária ou do crédito, semelhante à visão de economistas tradicionais como Keynes.

5.º Do seu ponto de vista, quais são as principais diferenças entre a economia política marxista e outras escolas de economia (como a economia neoclássica, o keynesianismo, etc.)? Poderemos considerar a teoria da crise como uma diferença importante ou mesmo essencial entre a economia política marxista e a economia ocidental convencional?

A principal diferença reside no facto de outras escolas de economia, mesmo as mais radicais e “heterodoxas” que não aceitam a perfeição dos mercados, discordarem da lei do valor de Marx. Não aceitam que a principal contradição da produção capitalista seja a produção para o lucro, e não para a necessidade social, e que o aumento da produção entre eventualmente em conflito com o aumento da rentabilidade, o que leva a ciclos de expansão e recessão, ou seja, crises. A escola neoclássica dominante nega que as crises possam ocorrer em mercados bem geridos ou em mercados sem interferência de governos, monopólios ou sindicatos. Os economistas heterodoxos negam o papel do lucro nas crises e apontam a “falta de procura” (Keynes), a instabilidade financeira (Minsky), os monopólios (Sweezy, Stiglitz) ou a má regulação.

E esta é uma diferença crucial, porque todas estas escolas sugerem que a produção capitalista pode ser modificada ou corrigida para que o capitalismo funcione melhor. Keynes disse que mais despesas governamentais ou injecções monetárias resolveriam o problema; o heterodoxo Minsky disse: regule os bancos e as instituições financeiras, e então o capitalismo estabilizará. Estas abordagens reformistas estão teórica e empiricamente erradas. A teoria da crise de Marx mostra que o capitalismo não pode ser reformado desta forma. As crises são endémicas do capitalismo porque, em última análise, são causadas pela queda da rentabilidade. A única forma de pôr fim às crises é substituir o capitalismo por uma economia planificada sob propriedade comum, ou seja, sem capitalistas.

6.º Na sua investigação, quais os impactos da financeirização do capitalismo na economia real e na classe trabalhadora?

Uma das características dos últimos 50 anos nas economias modernas do Norte Global tem sido a ascensão do setor financeiro, não só dos bancos, mas também dos hedge funds, fundos de investimento, fundos de seguros, private equity, criptomoedas, etc. Cada vez mais, os capitalistas têm direcionado os seus lucros acumulados para ativos financeiros e especulação, em vez de investirem em novas tecnologias e setores produtivos. Este é o fenómeno da “financeirização”.

No entanto, alguns marxistas e outros ficaram tão encantados com este desenvolvimento que começaram a afirmar que o capitalismo mudou completamente. Já não é um sistema de produção com fins lucrativos através da exploração do trabalho em fábricas, escritórios, etc., mas sim um sistema financeiro e monetário onde o dinheiro gera mais dinheiro. Isto significa que os trabalhadores perderam o seu papel de produtores de valor no capitalismo. Ora, os capitalistas podem obter valor apenas através de artifícios monetários. O capitalismo tornou-se capital financeiro, que domina o capital produtor.

Isto é um absurdo. Embora os lucros financeiros em algumas economias, como os EUA e o Reino Unido, sejam consideráveis, atingindo até 25% do lucro total, a grande maioria dos lucros ainda provém da venda de bens e serviços produzidos pelos trabalhadores. E isto é especialmente verdade no chamado Sul Global, onde a indústria transformadora se tornou predominante, e não o sector financeiro. Globalmente, a classe trabalhadora nunca foi tão grande e a maior parte da acumulação capitalista ainda provém do trabalho dos operários na produção. O leopardo do capitalismo não mudou as suas manchas.

7.º O que pensa da atual crise do capitalismo no sistema económico global, sobretudo da crise financeira dos últimos anos? Que perspetivas nos pode a economia política marxista oferecer para compreendermos a crise do capitalismo?

Este é um assunto complexo. No século XXI, vivemos as duas maiores crises da história do capitalismo: a de 2008-2009 e a de 2020. Há todas as razões para esperar que outra crise ocorra antes do final desta década. Pode ser desencadeada por uma nova crise financeira, como a de 2008. Desta vez, a crise pode não começar nos bancos propriamente ditos, mas ser gerada pelo aumento da dívida das empresas e pelo custo do serviço dessa dívida. Atualmente, cerca de 20% das empresas na Europa, Japão e Estados Unidos são consideradas “zombies”, ou seja, são como mortos-vivos, pois não geram lucros suficientes nem sequer para cobrir o custo do serviço das suas dívidas existentes e, por isso, têm de continuar a contrair empréstimos. Estas empresas correm o sério risco de falir e arrastar consigo até empresas lucrativas, num efeito dominó.

8.º Acha que, desde o fim da Grande Recessão em 2009, as principais economias capitalistas estão numa Grande Depressão? Existe alguma diferença entre a Grande Depressão e outras grandes depressões na história do capitalismo? Que estratégias deverá a China adotar em resposta ao impacto global da Grande Depressão?

Defino uma depressão, por oposição a uma recessão ou crise, como um período em que, após uma crise, a anterior tendência de crescimento da produção, do investimento e, sobretudo, da rendibilidade, é muito inferior à observada antes da crise. E esta tendência decrescente pode persistir durante décadas. Neste sentido, a Longa Depressão a partir da década de 2010, que identifiquei, é semelhante à depressão do final do século XIX (1873-1897) e à Grande Depressão de 1929-1942. Em 2025, a depressão actual continua, dado que a crise pandémica de 2020 não resultou num aumento significativo da rendibilidade, e, por isso, o crescimento do investimento e do PIB real continuam ainda mais fracos do que na década de 2010.

A China evitou todas estas crises no capitalismo. Isto porque a economia chinesa é dominada por um amplo sector estatal e pelo planeamento governamental, pelo que qualquer instabilidade no seu sector capitalista pode ser ultrapassada e o investimento e a produção podem prosseguir de forma relativamente ininterrupta. Se as economias capitalistas do Ocidente entrarem noutra recessão, o comércio e o investimento na China serão afetados, mas a China possui agora uma enorme base doméstica e investiu fortemente em novas tecnologias, continuando a direcionar e a planear estes investimentos principalmente através do sector estatal. A China necessita de expandir o sector estatal e o planeamento para reduzir a instabilidade no seu sector capitalista, particularmente exposta pela queda acentuada do sector imobiliário (maioritariamente baseado no capitalismo).

9.º As moedas digitais e a tecnologia blockchain têm sido temas em voga no campo da tecnologia financeira nos últimos anos, e têm tido um impacto profundo na economia global e no sistema financeiro. Qual a sua opinião sobre estas inovações financeiras e finanças digitais? Conduzirão a uma crise económica mundial ainda mais grave?

As cripto moedas, como são chamadas, tal como a bitcoin, são apenas mais uma forma de ativo financeiro especulativo, como o ouro ou as pinturas. Não são formas alternativas de dinheiro que possam substituir as moedas emitidas pelo Estado (dinheiro fiduciário), como o dólar ou o yuan. As moedas digitais em geral já existem de uma forma, ou seja, paga as suas contas com cartão, telemóvel ou transferência bancária sem utilizar dinheiro em papel. O possível novo desenvolvimento seria uma moeda digital emitida por um banco central, que contornaria os bancos comerciais. Até agora, este desenvolvimento teve um progresso limitado. Enquanto isso, as cripto moedas são mais uma forma daquilo a que Marx chamou “capital fictício”, que aumenta ainda mais o risco de um colapso financeiro no futuro.

10.º Dada a crescente popularidade da inteligência artificial e da automação, como aplicar o marxismo para analisar o impacto do progresso tecnológico nos modos de produção e nas relações sociais? Na sua investigação, qual a correlação entre progresso tecnológico e crescimento económico?

Isso é complexo. A inteligência artificial (IA) é apenas uma nova forma de tecnologia destinada a substituir o trabalho humano e a aumentar a produtividade, elevando assim o nível de exploração do trabalho pelo capital. As novas tecnologias podem levar a enormes perdas de emprego, especialmente nas indústrias e ocupações que substituem, mas também podem, com o tempo, criar novas indústrias e empregos. Considere a revolução industrial, a revolução da eletricidade, a indústria automóvel, a revolução da informática. A tecnologia sempre foi fundamental para o crescimento económico, aumentando a produtividade do trabalho, principalmente quando a dimensão da força de trabalho deixa de crescer – como acontece na China de hoje.

Argumenta-se que a IA é um desenvolvimento completamente novo que irá substituir totalmente o trabalho humano, uma vez que pode superar a inteligência humana. As evidências para tal são duvidosas. Grande parte da IA ​​consiste apenas no processamento rápido do conhecimento humano existente e não pode substituir a natureza imaginativa da inteligência humana. Além disso, a IA levará algum tempo, até mesmo décadas, a difundir os seus efeitos de aumento da produtividade nas economias. Na minha opinião, não é um “game changer” capaz de salvar o capitalismo.

11.º O tecno feudalismo é uma visão que surgiu nos últimos anos para descrever as mudanças na sociedade causadas pela tecnologia da nuvem, ou seja, os gigantes da tecnologia e as grandes empresas de plataformas detêm os dados e o poder como senhores feudais, enquanto os utilizadores comuns servem estes senhores digitais como produtores de dados não remunerados, como servos, e a nova forma de rendimento substitui o lucro como principal forma de acumulação. Concorda com o uso do tecno feudalismo para definir o estádio atual da sociedade ocidental?

O tecno feudalismo, enquanto conceito, sugere que a produção capitalista, ou seja, a produção com fins lucrativos através da exploração do trabalho, foi substituída por um feudalismo onde os monopólios digitais apenas extraem rendimentos. Mas de onde vêm estas rendas? Marx salientou que o rendimento, os juros e os lucros provêm da mesma fonte: a mais-valia apropriada do valor criado pela força de trabalho humana. É simplesmente errado argumentar que as empresas que vendem tecnologia na nuvem não produzem bens para venda e lucro, tal como qualquer processo capitalista. A maior parte dos lucros da Amazon provém da distribuição e transporte de produtos; a maior parte dos lucros do Facebook provém da publicidade; a maior parte dos lucros do Google também. A maior parte dos lucros da Microsoft e da Apple provém da venda de hardware e software. Não se trata de feudalismo, mas de capitalismo puro e simples. O capitalismo não está morto, e sugerir isso é uma ideia perigosa para os trabalhadores, porque significa que o trabalho pode não ver o seu inimigo como o capital na sua totalidade, mas apenas uma pequena parte dele, pelo que não há necessidade de substituir o capitalismo, mas apenas o capitalismo “feudal monopolista”.

12.º A teoria do valor-trabalho é a ideia central da economia marxista. Na era da automação e da economia digital, como aplicar a teoria do valor-trabalho para analisar a economia moderna? O que pensa sobre os dados como um novo fator de produção?

Os dados ou conhecimento provêm da atividade humana. Portanto, o conhecimento tem valor da mesma forma que as coisas físicas têm valor para a sociedade e para o capital. O conhecimento é material: requer a energia do trabalho humano, ou seja, trabalho intelectual, da mesma forma que o trabalho físico. Ambos são materiais e criam valor. Assim, o capital pode apropriar-se da mais-valia dos trabalhadores do conhecimento que emprega, e fá-lo cada vez mais em todos os sectores e em todo o mundo. Esta mais-valia está incorporada nas patentes, nos direitos de propriedade intelectual, etc. O conhecimento ou o trabalho intelectual é tão “material” como o trabalho físico. A atividade mental ocorre nas sinapses do cérebro humano e é combinada com o trabalho físico através de um computador, etc. Portanto, o trabalho intelectual cria valor tanto como o trabalho físico. E os trabalhadores do conhecimento fazem parte do proletariado tanto como os trabalhadores manuais que executam tarefas físicas.

De facto, os trabalhadores intelectuais estão a ser cada vez mais explorados pelo capital para apropriação da mais-valia (lucro). Portanto, não há necessidade de inventar um novo termo para a classe trabalhadora, como “multidão”. Isto implica que a classe trabalhadora, aqueles que só ganham a vida vendendo a sua força de trabalho e não possuem meios de produção, já não existe. Este termo oculta a luta de classes entre o trabalho e o capital, confundindo, assim, a necessidade de substituir o capitalismo.

13.º O desenvolvimento do capitalismo digital aprofundou a divisão Norte-Sul ?

Sim, está a aumentar essa divisão. Mas essa divisão já estava a aumentar de qualquer forma. O Sul Global (com exceção da China) não está a atingir o Norte Global, seja qual for o indicador utilizado: PIB per capita; produtividade por trabalhador; rendimento per capita; redução da desigualdade. A divisão Norte-Sul expressa-se no controlo de um bloco imperialista de economias com populações relativamente pequenas, que domina o resto do mundo, onde se concentra a maior parte da humanidade.

14.º Que políticas económicas pensa que o Presidente Donald Trump irá adotar e que impactos terão essas políticas na economia global?

Não podemos ter a certeza do que Trump fará. Mas afirma que vai aplicar tarifas elevadíssimas sobre as importações americanas, principalmente as provenientes da China. Alega que o seu objetivo é levar a indústria americana de volta ao patamar anterior, à custa do resto do mundo. Acima de tudo, quer dar continuidade à política das anteriores administrações americanas de estrangular, sufocar e inverter o progresso económico da China, vista como a principal ameaça à hegemonia americana. De facto, Trump também apoiará novas provocações militares para restringir a China. A nível interno, pretende reduzir os impostos sobre as empresas para que os ricos e as grandes empresas paguem ainda menos do que atualmente e eliminar as regulamentações sobre a indústria e o combate ao aquecimento global. O seu gabinete é composto inteiramente por gestores de fundos de cobertura e de private equity bilionários que procurarão beneficiar os ricos à custa da maioria dos americanos.

A nível mundial, se Trump levar avante estas políticas, o comércio global sofrerá um revés e as tensões entre a aliança ocidental liderada pelos EUA e a China aumentarão perigosamente. A desigualdade de riqueza e de rendimento entre países e dentro dos países aumentará, e as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente continuarão, com o risco de guerra também na Ásia.

15.º As políticas económicas prometidas por Trump, como os cortes maciços de impostos e o aumento das despesas militares, representarão uma ameaça à estabilidade económica global, conduzindo a níveis mais elevados de endividamento global?

Sim, a dívida global já está em níveis recorde e em relação à produção global. Em particular, o governo dos EUA está a apresentar défices orçamentais consideráveis ​​para financiar a guerra na Ucrânia e em apoio de Israel, e planeia aumentos maciços nas despesas militares para financiar novas ações globais. Trump quer que a Europa pague mais por isso, mas, entretanto, a dívida pública dos EUA está a atingir níveis recorde e o custo do serviço dessa dívida em juros já está a superar as despesas do governo com a educação, os cuidados de saúde e outros serviços públicos.

16.º As políticas económicas de Trump irão agravar as contradições do sistema capitalista global, conduzindo à sobreprodução e à tendência para as crises?

Tudo isto ocorre num contexto global de baixo crescimento e comércio, fraco investimento e crescimento limitado da produtividade. As principais economias capitalistas, com a possível exceção dos EUA, estão estagnadas ou mesmo em franca recessão, sobretudo na Europa. Há grandes probabilidades de estas economias enfrentarem uma grave recessão até ao final desta década, que se espalhará para o resto do mundo, como aconteceu em 2008 e 2020. Só a China pode esperar ultrapassar esta situação.

17.º As políticas económicas de Trump refletem a ascensão do nacionalismo económico e do protecionismo no contexto da globalização? Estas políticas agravarão a desigualdade económica global? Como podem os países em desenvolvimento responder à desigualdade no sistema económico global?

O protecionismo e o nacionalismo por parte de outros não são uma solução alternativa a Trump. Os países em desenvolvimento precisam de se unir para cooperar no comércio, no investimento e na redução da desigualdade. Mas, para isso, os povos destes países precisam de governos que defendam os direitos laborais e a propriedade comum dos recursos e dos ativos, para planear cada economia individualmente e em cooperação global. Infelizmente, quase todos os governos do Sul Global não defendem estas políticas. Ou são controlados por déspotas ou apoiam as grandes empresas internamente e o imperialismo norte-americano no estrangeiro. Enquanto estes governos não mudarem, não espero grandes progressos em termos de maior crescimento, redução das desigualdades, pleno emprego e melhores serviços públicos.

18.º Persiste na escrita de blogs há muito tempo. Que influência teve este estilo de escrita no seu pensamento e troca de ideias? Poderia partilhar as suas pesquisas recentes ou planos de investigação para o futuro?

O objetivo deste blogue e dos meus livros é o de ampliar a nossa compreensão do funcionamento do capitalismo, das suas contradições e falhas, com vista a substituí-lo. Considero a análise de Marx sobre o capitalismo a mais convincente e, por isso, procuro defender as ideias de Marx, tal como as vejo, contra alternativas, todas elas se resumindo a tentar fazer o capitalismo funcionar (melhor). O meu blogue não se destina a académicos, mas a ativistas que procuram mudar o mundo para melhor. Isto não significa que ignore questões difíceis ou complexas de teoria ou evidência estatística. Pelo contrário, tento explicá-las de forma mais clara. Neste momento, estou a preparar um novo livro sobre o que está a acontecer ao capitalismo e à economia mundial na década de 2020. Trata-se, na verdade, de uma continuação do meu livro “A Longa Depressão”, publicado em 2016. Muitas coisas aconteceram desde então e ainda há muito por vir nesta década. ‘Time is Running Out’ será publicado em dezembro de 2026 pela Haymarket Books.

Fonte aqui

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Da impunidade dos crimes do Ocidente à impotência coletiva dos povos – Parte II

(Por Erno RENONCOURT, in Le Grand Soir, 10/10/2024, Trad. Estátua)

Anteriormente, postulámos que a invariância, no tempo e no espaço, da impunidade dos crimes ocidentais e do desamparo coletivo dos povos, confrontados com a desapropriação da sua identidade, autenticidade, liberdade, dignidade e humanidade pelo capitalismo inovador (através do cancelamento de direitos humanos e inteligência artificial), estiveram ligados à peregrinação das legiões militantes e revolucionárias que se lançaram, como vanguardas das lutas dos povos, em todos os lugares, ao assalto ao capitalismo, com as bandeiras do materialismo histórico. Baseando-nos nos exemplos de Gaza e do Haiti, modelámos um sistema de equações que tende a mostrar que esta invariância, esta impotência e esta deambulação estão entrelaçadas e emaranhadas nos fios de uma espiral desumanizante que carrega o mundo, não sem resistência, mas com perda de sentido e de inteligência, rumo ao que chamamos de indigência para todos.


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Apressemo-nos a dizer que, na nossa concepção, a indigência é um estado de inclinação (colapso) da consciência humana em direção aos padrões culturais e éticos mais básicos, onde o ser humano, acotovelado, precário e condicionado pelas incertezas da sua existência, renuncia à inteligência e abandona a dignidade humana através do desejo de se apegar a vacuidades materiais que são promovidas, mediadas e, portanto, percebidas como valores existenciais. Esta busca pelo sustento da existência resulta em fissuras na consciência humana. É através delas que o capitalismo se infiltra para despejar os recursos da sua geoestratégia de desumanização, brutalizando os humanos.

O paradoxo de não pensar, através de um processo de duplo pensamento

Este processo de embrutecimento, condicionamento e colapso da consciência através do capitalismo mutante foi previsto por Pierre Bourdieu. Em 1998, ele escreveu, com uma precisão analítica cirúrgica, que “esta utopia neoliberal, que pretende basear-se no progresso, na razão e na ciência, procura apenas enviar o pensamento crítico de volta ao arcaísmo, destruindo metodicamente todas as estruturas colectivas e todas as conquistas sociais” (Pierre Bourdieu, Contre-feux. Propos pour servir à la résistance contre l’invasion néo-libérale, Paris, Liber-Raisons d’Agir, 1998).

No mesmo livro, escreveu: “A essência do neoliberalismo é impor por toda a parte o embrutecimento coletivo maciço, promovendo o caos e a precariedade como únicos modos de dominação. São estes os factores que permitem manter este estado generalizado de insegurança e precariedade como condicionamento psicológico para melhor subjugar os trabalhadores, escravizar o povo e impedi-lo de pensar noutras possibilidades mais dignas de sair deste impasse existencial que faz do mercado livre o único valor dominante que se pode impor à humanidade”.

Tendo gerado precariedade material, que condiciona os seres humanos a uma busca frenética pelo acesso aos recursos materiais para subsistir e sobreviver, o capitalismo também se infiltrou nas fendas que essas precariedades geram. E isto porque, aparentemente, melhor do que os marxistas, os teóricos do capital compreenderam que a relação entre existência e consciência gera ciclos de feedback que podem levar a vários estados mentais que condicionam a acção humana. Porque como escreve Ludwig Von Mises em seu Abridged Human Action, um tratado de economia: “O homem só age na história se sua consciência estiver em dificuldades (frustrada, desconfortável) em relação a determinadas condições de existência”. E é para evitar esta elevação da consciência para as vibrações mais elevadas de resistência que o capitalismo, nas suas mutações históricas, deu a certos homens a ilusão de uma certa influência, de um certo sucesso, de uma certa cobertura mediática que não só os condicionará a submeterem-se à autoridade, mas também atrairá a admiração das massas que só vêem o seu futuro através do prisma daqueles que são enobrecidos pelo sistema. O que induz este paradoxo de desempenho fracassado: a mesma geoestratégia, que aliena e desumaniza, também produz uma forma de enobrecimento e mediatização através de uma ilusão de sucesso, que fascina os pobres. Daí a sua incapacidade de escapar do bloqueio da invariância.

Assim, não é raro ver, particularmente no Haiti, activistas revolucionários que combatem o capitalismo no terreno económico e na luta dos trabalhadores, a correrem atrás dos atractivos culturais e académicos que o capitalismo produz através das suas instituições. O que cria um efeito paradoxal que aniquila o seu compromisso militante. Só podemos encontrar as causas desta manifestação no colapso da consciência e na perda de inteligência colectiva que o capitalismo alimenta através da cultura, do conhecimento e da tecnologia, realidades que são sempre percebidas como progresso. É através dos seus paradoxos que o neoliberalismo se perpetua, criando fissuras na consciência dos seres humanos que os impedem de integrar esses paradoxos num modelo de dados que torne evidente a sua interligação.

Não foi senão isto, essencialmente, o que George Orwell disse quando escreveu em 1984 que: “Os próprios nomes dos quatro ministérios que nos lideram revelam uma espécie de atrevimento na inversão deliberada dos factos. O Ministério da Paz trata da guerra, o da Verdade, da mentira, o do Amor, da tortura, o da Abundância, da fome. Estas contradições não são acidentais, nem são o resultado da hipocrisia comum, são exercícios deliberados de duplo pensamento. Na verdade, é apenas através da reconciliação dos opostos que o poder pode ser mantido indefinidamente. O velho ciclo não poderia ser quebrado de outra forma. Para que a igualdade humana seja para sempre posta de lado, para que os grandes, como os chamamos, mantenham perpetuamente os seus lugares, a condição mental dominante deve ser a loucura dirigida.” (George Orwell, 1984 , Gallimard, 1950, p. 253).

Não será esta loucura controlada precisamente a engenharia do caos que está em acção em todo o mundo? Mas quantos são capazes de saber que se trata de um verdadeiro processo científico que tende a garantir a confiança (portanto o desempenho) de um sistema, simulando falhas contínuas no seu ambiente para avaliar o impacto, planear uma melhor defesa e refinar a estratégia de manutenção do modelo? Não é este jogo perverso praticado por estes homens das sombras a quem Giulano Da Empoli, no seu livro Os Engenheiros do Caos, chama “engenheiros do caos”? Na verdade, são eles que implementam os algoritmos e processos para desviar a nossa raiva legítima, capturando nas suas redes a massa de públicos insatisfeitos, mas vulneráveis ​​e frágeis. No entanto, estes públicos, embora tenham todos os motivos para se levantarem contra as respectivas elites dos seus países, não estão, no entanto, menos sob a influência das elites, contendo a sua raiva através de plataformas de redes sociais que transmitem extensivamente temas populistas, através do respeito pelas instituições democráticas. , através do respeito pelos pactos republicanos. Tantos pseudovalores que não têm outro objetivo senão quebrar a resistência coletiva das pessoas.

É apenas uma forma de dizer que é navegando nas águas estagnadas das fissuras da consciência humana que os geoestrategas da desumanização asseguram o ressurgimento do seu modelo económico. E é por isso que nos parece que é na consciência que é preciso voltar atrás e repensar o materialismo histórico e orientá-lo para um materialismo sistémico.

Ouvir o som da indigência do mundo para além do nosso inconsciente coletivo

Lembremos que este fórum, nas suas sucessivas partes, não tem outras razões que o motivem, a não ser: alimentar, neste tempo que se reconfigura pelos múltiplos braços da espiral da indigência para todos, um problema contextual e construtivo para encorajar aqueles, daqui e de outros lugares, que realmente querem pensar e inovar as lutas contra a desumanização, a sistematizar os fundamentos do materialismo histórico, radicalizar a sua dialética num compromisso do EU no terreno da consciência, para o além do compromisso militante no campo da ação política.

Mas a acção política falhou em quase todo o mundo. A esquerda tornou-se mais reacionária e mais atraída pelo fascismo tecnológico do que a outrora direita fascista. É como se, com a ajuda da relatividade geral, a esquerda e a direita tivessem respectivamente invertido as suas linhas ideológicas sob o efeito das curvaturas e enganos da geoestratégia ocidental.

Se excetuarmos algumas raras vozes de uma esquerda extrema, em geral consciente, todos aqueles que nas redes sociais manifestam pensamento crítico contra o sistema são pessoas que navegam à vista na margem direita para as suas ondas tempestuosas, próximas dos níveis extremos.

Onde está o erro, senão na perda de rumo da bússola ideológica? “E como é na prática que o homem deve provar a verdade, isto é, a realidade e o poder do seu pensamento neste mundo e para o nosso tempo” (Karl Marx e Friedrich Engels, L’ideologie Allemande , Éditions sociales, 1968, pp. 31-32), a incapacidade das vanguardas marxistas, em todo o mundo, de colocar em prática a dialética da história para se apropriar dos três tempos necessários à abolição da alienação capitalista (Ibid., p.60) é ao mesmo tempo uma fracasso teórico e prático. Mas este fracasso teórico não é necessariamente o do marxismo, só pode ser o fracasso intelectual (falha da inteligência) daqueles que o interpretaram como uma teoria universal e imutável da acção revolucionária. Com efeito, segundo Alex Mucchielli (Savoir Interpréter , Armand Colin, 2012) as coisas só adquirem sentido para um observador num determinado contexto e de acordo com a posição que ocupa em relação a esse contexto.

No entanto, muitos marxistas ainda não estão conscientes de que a realidade social não é dada, de que não existe uma realidade verdadeira imposta a todos da mesma forma, por assim dizer, universal. Têm dificuldade em admitir que a realidade é uma construção que se estrutura em contacto com as incertezas da existência, e esta construção depende da forma como a consciência humana interpreta essas incertezas. Todo o nosso propósito é provar que este é o verdadeiro ensinamento do materialismo dialético. Infelizmente, este ensinamento não foi compreendido, porque nos concentramos mais nas fórmulas marcantes que decretam, ressoam como profissões de fé e se impõem como dogmas eternos. Como se os dialéticos materialistas, em todo o mundo, tivessem lido Marx, sem realmente compreender que o marxismo, por ser uma teoria científica, exige um esforço de contextualização, uma abordagem sistémica que nos convida a ir além da contradição para ceder ao paradoxo o status de um possível não excludente.

Se considerarmos que uma abordagem sistémica da lição marxista nos obriga a admitir a verdade da tese, de que são as condições de existência dos homens, decorrentes das forças produtivas e do estado social do seu contexto, que determinam a sua consciência, encorajá-los a agir para fazer história e transformar sua existência, não exclui o vaivém entre existência e consciência e certos estados de consciência plena ou vazia, onde respectivamente o ser pode estar totalmente desperto e permanecer em conexão com o ambiente ou estar sem peso num vazio cognitivo permanecendo totalmente desconectado do mundo. Isto permite-nos postular que a invariância da impotência dos povos face à sua desumanização e a impunidade arrogante e eficiente dos crimes ocidentais se devem ao facto de ser a consciência da grande maioria dos homens que não foi capaz de entrar em contradição (na luta, na revolta, na indignação) com o caráter insuportável que a alienação capitalista atingiu na história. O que dizemos aqui não é muito diferente do que escreveu Julian Assange: “Cada vez que testemunhamos uma injustiça e não agimos, estamos a formar o nosso carácter para sermos passivos… Acabamos então por perder toda a capacidade de nos defendermos [… ]. »

E é precisamente isso que o capitalismo faz: agora, na sua versão de geoestratégia de desumanização global e universal, treina a nossa consciência para ser passiva, dando-nos pequenas distrações, liberdades virtuais, valores pseudo-universais para nos manter afastados das esferas superiores. de plena consciência, e impede-nos de entrar nesta inquietação existencial que nos obriga a ver o duplo padrão (duplo pensamento) em tudo o que o Ocidente engrandece. Mas porque é que as vanguardas marxistas em todo o mundo não conseguiram compreender a advertência de Bourdieu contra o neoliberalismo? Um alerta, no entanto, facilmente descodificável, pois ao dizer-nos que “o neoliberalismo é apenas um programa de destruição de estruturas colectivas capazes de obstruir a lógica do mercado puro”, convidou-nos a perceber que a força de resistência dos povos reside agora na sua capacidade de obstruir a lógica do mercado (nas suas múltiplas manifestações), recusando o consumo de produtos que se revelem prejudiciais à nossa humanidade. Eles não tinham inteligência? Ou foram todos recrutados para os redemoinhos desta engenharia do caos que se infiltra nos corações das vanguardas mais doutrinadas?

Na verdade, se a história da indústria evoluiu, ao ponto de o capitalismo se ter transformado num poder insuportável que desumaniza todas as pessoas, e ainda assim esta dupla realidade não mobilizou os homens a rejeitarem os valores do capitalismo e a radicalizarem-se para transformarem a sua existência e realizarem-se humanamente na história, é necessariamente porque há uma falha na consciência humana. E quando a consciência humana falha, ela só pode suportar a existência. Isto é, aliás, o que o próprio Marx postula: “é igualmente claro que é impossível fazer história quando falta aos homens não apenas a faculdade de conceber o significado da história e os materiais para a ação de transformação da história“. (Karl Marx e. Friedrich Engels, A Ideologia Alemã , Edições Sociais, 1968, p.58).

Há, portanto, no ruído ensurdecedor desta errância, as ondas de falhas de uma impotência e de uma invariância que, embora precária e alienante da existência das massas humanas em ecossistemas falidos, não tem sido capaz de despertar as suas consciências para as empurrár para empreendem a marcha rumo à apropriação do seu ser genérico, para a realização da celebração da humanidade e do fim da história. São as incertezas que pontuam este ruído que nos tornam tão insolentes ao questionar a inteligência das vanguardas marxistas em todo o mundo na sua apropriação da noção de consciência na teoria marxista da história.

Uma manifesta falta de consciência num ecossistema divergente

Convém lembrar aos papas infalíveis que detêm o monopólio da verdade da dialética materialista, que para nós não se trata de vestir a farda de especialista e de intérprete de Marx, mas de procurar, na consciência humana, a falha que os estrategas globalistas, engenheiros do caos, criadores de imposturas, guardiões do ressurgimento do carrossel invariável têm explorado com sucesso. Porque são eles que permitem que o capitalismo, na sua incessante metamorfose, alcance no século XXI aquilo a que Francis Cousin chama aquele “estágio onde o mundo inteiro [oscila e se afunda] num êxtase obsceno perante a sua dominação” (Francis Cousin, Ser versus ter, Para uma crítica radical e definitiva da falsidade onipresente, O retorno às fontes , 2012, p.6). Este êxtase obsceno foi particularmente evidente durante a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris, em Julho passado: toda a Paris vibrava com cultura, desporto e luxo, embora ao mesmo tempo Gaza estava a ser sujeita ao genocídio, a Ucrânia continuava a ser transformada pela NATO num território de carne para canhão para enfraquecer a Rússia, o Haiti mergulhou na desapropriação do seu território pelos gangues federados pela ONU, tendo sido desde a escravatura um território de experimentação de desumanização.

Quem tem tempo para ter um interesse humano e autêntico por estes lugares distantes, exceto navegando, surfando nas notícias, na agitação das redes sociais, nas mentiras e na propaganda da mídia oficial?

Quantos suspeitam que as redes sociais fazem parte do arsenal tecnológico da engenharia do caos que a geoestratégia da desumanização implementa para colapsar as consciências e quebrar toda resistência autêntica contra as suas estruturas? Quem tem tempo para entender a inflação de mensagens sem sentido que circulam nas plataformas de mídia social?

Quantos sabem que “o processamento destes imensos dados díspares exige hoje a utilização de novas ferramentas (Big Data, inteligência artificial) que se tornaram instrumentos de poder no cenário internacional. E cujo uso impacta de forma mais geral os modos de governo político de nossas sociedades” (Amaël Cattaruzza, Geopolítica dos dados digitais: Poder e conflitos na era do Big Data , Le cavalier bleu, 2019). Quantos dentre as vanguardas das lutas populares no mundo sabem que certos compromissos exigem maior vigilância e, portanto, maior consciência dos riscos?

Não será isto, de forma divergente, um indício ecossistémico dessa inconsciência que se revela no sublime texto de Djamel Labidi), publicado no mesmo dia da primeira parte desta coluna no site Grand Soir? Há de facto uma divergência entre estes ecos de inconsciência, porque esta fraqueza, estes erros, que Djamel Labidi percebe como as causas dos golpes desferidos à resistência palestiniana na sua luta contra este Estado criado para o genocídio, por aqueles que queriam limpar a sua consciência relativamente aos crimes do nazismo, são algumas das manifestações daquilo que chamo de fracasso humano e perda de inteligência colectiva nas formas de luta e resistência das vanguardas dos povos do mundo inteiro contra a geoestratégia da desumanização. Se o capitalismo triunfa e se recicla, para além das suas crises, ao ponto de ameaçar de extinção toda a vida na terra, é na verdade porque os estrategas da desumanização, os criadores da impostura, foram capazes de detectar as falhas na consciência humana. Exploraram-nos para criar esta engenharia do caos que torna as pessoas impotentes, inconscientes da sua desumanização e em perpétuo êxtase face às atracções culturais, tecnológicas e libertárias, e da fumaça que produzem, por sua vez, paradoxalmente, mas sem escrúpulos, os geoestrategistas da caos.

Mas como podemos compreender este êxtase da maioria dos povos do mundo perante os artefactos culturais do capitalismo senão através do fracasso da sua consciência? Como podemos explicar que apesar de ter “obstruído [virtualizado] a realidade de modo que ela não possa mais levar a nada [que seja] capaz de superá-la, de modo a que ela esteja assim em condições de se reproduzir indefinidamente sem nunca mais retornar a nada, que não ela mesma, na eterna multiplicação da reificação” (Francis Cousin, Ser contra o ter, Para uma crítica radical e definitiva da falsidade onipresente, Le Retour aux source , 2012, p.6), o capitalismo continua a lucrar vendendo às massas os produtos de consumo que as amolecem, pelo equilíbrio invariável entre os paradoxos que a engenharia do caos gera para entorpecer os humanos?

Para responder a esta questão, sugiro ao leitor o excelente texto de Marti Michel (Ver aqui ),
publicado no Le Grand Soir em 5 de outubro de 2024 que é, como o de Labidi, é um eco divergente do colapso da consciência humana, que postulamos como a linha de falha que precisa de ser assegurada.

E nisso, apesar da precisão da análise de Labidi, devemos reconhecer que os geoestrategas da desumanização são fortes. Porque a força de uns nunca é absoluta, está sempre ligada às fraquezas de outros. Quando as pessoas de todo o mundo se munirem de novas vanguardas – ficando plenamente conscientes de que o seu compromisso contra a desumanização multifacetada requer a unidade do seu ser, e que a menor das suas experiências sensíveis na existência deve cristalizar a essência desse compromisso através duma luta radical -, a força mudará de mãos… na esperança de que amanhã o mundo não desapareça.

Porque ao ler as linhas das nossas mãos, suadas e trémulas de impotência face à desumanidade e à impunidade demonstradas pelos líderes ocidentais e pelas suas redes mediáticas, não é preciso ser Nostradamus para compreender que a verdadeira ansiedade apocalíptica se apoderou de quase todas as pessoas do planeta.

Elas adquirem uma consciência cada vez maior e mais aterrorizante, de que as linhas de incerteza, que fazem o mundo oscilar, desde a crise sanitária do coronavírus em 2019, entre o horror de uma falha humana pela realidade virtual do pós-humanismo e a engenharia do caos, estabelecendo o medo e a precariedade como modo de governo, se intensificaram, e tornaram-se mais precisas e claras em termos de ameaças aos seres humanos. Ninguém, exceto aqueles que vivem em total irreflexão analítica, em duplo pensamento, entre a insignificância e a inconsciência, ainda ousa duvidar de que existe um risco quase manifesto, entre a probabilidade absoluta e a certeza, de ver o mundo cair na loucura apocalíptica entre o outono de 2024 e o inverno de 2025.

Algo sombrio na minha plena consciência me diz que a equação 2+2=5, omnipresente, em 1984 de George Orwell , é um código de duplo pensamento em que sentido e absurdo coexistem, a tal ponto que os signos perdem o seu significado em qualquer equação, ao mesmo tempo em que têm um profundo , significado codificado que se refere ao elemento neutro da operação sugerida (o zero) pela equação colocada. A título de dica, deixo aos leitores a substituição do sinal de mais na equação 2+2=5 pelo elemento neutro da adição e a exclusão do sinal de igual que não tem mais significado.

Nos vemos em 2025 para o resto deste fórum… no outro mundo. Tremem humanos, o inverno de fogo está chegando, o grande bárbaro ocidental da desumanização prepara seu novo banquete para ressurgir sobre suas estruturas bárbaras em novas imposturas.

Fonte aqui.


Da impunidade dos crimes do Ocidente à impotência coletiva dos povos – Parte I

(Por Erno RENONCOURT, in Le Grand Soir, 04/10/2024, Trad. Estátua)

Podemos afirmar que, na sua forma atual de geoestratégia totalitária da globalização, o capitalismo já não pode ser definido tal como o marxismo o entendia no século XIX, ou seja, simplesmente como um sistema de produção de mercadorias e bens através da exploração do trabalho assalariado.


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Neste texto, propomos uma reflexão atípica, até mesmo herética, para repensar o sentido e reapropriar as questões da noção de “consciência” nas novas formas de luta a serem travadas contra a indigência multifacetada que o capitalismo semeia com grandes ventos apocalípticos sobre todos os continentes e em todas as estações. Esta reflexão parece-nos contextualmente necessária, porque, na sua perspetiva da viabilidade humana da história, o materialismo dialético postulou que a condição sine qua non da revolução dependia da transformação da alienação capitalista em poder insuportável (Karl Marx e Friedrich Engels, in A Ideologia Alemã).

Ora, a observação da evolução do capitalismo como um poder monetário insuportável é reconhecida por unanimidade. Segundo Marc Chesney, professor de finanças da Universidade de Zurique, “nunca na história houve uma concentração de riqueza em tão poucas mãos”. E esta situação é ainda mais insuportável porque é perigosa. Porque, além disso, a oligarquia financeira está tão interessada nos seus ativos económicos que jura apenas pelo crescimento e pela abundância, e está pronta a assar a humanidade que se rebela contra a sua indigência com o fogo nuclear.

Na verdade, esta oligarquia assumiu todos os direitos: manteve durante muito tempo uma grande parte da população mundial na escravatura, especialmente nos países do Sul; derrotou a democracia e o modelo social que tinha, contra a sua vontade, concedido às populações do Norte, depois da Segunda Guerra Mundial, no seu desejo de derrotar o bloco comunista que se impôs, através do seu triunfo sobre o nazismo, como modelo alternativo.

Tendo manobrado até se impor como único modelo dominante, após o colapso do bloco de Leste em 1991, esta oligarquia queria tanto expandir o seu crescimento que transformou o seu modelo económico neoliberal de deterioração dos ecossistemas e dos espaços humanos numa geoestratégia da globalização, com o objetivo de absorver toda a riqueza do mundo.

Compreendemos facilmente porquê. E sentindo-se ameaçada pelas potências emergentes que querem um mundo multipolar, menos sujeito aos ditames do Estado único sob o controlo desta oligarquia financeira e predatória, parece assumir o risco de colocar a humanidade à beira do guerra apocalíptica.

De Gaza ao Haiti: a mesma divagação da consciência humana

E, no entanto, embora esta gangrena, que semeia o caos e a precariedade em prol do seu crescimento e abundância, seja, no final do primeiro quartel do século XXI, unanimemente reconhecida como um poder monetário e totalitário insuportável, a humanidade nunca foi tão impotente e distante das frentes da revolução. Tomando os exemplos de Gaza e do Haiti, podemos modelar os termos dos problemas enfrentados por esses povos por meio de equações equivalentes que envolvem os conceitos de invariância, impotência e errância, interligando-se e entrelaçando-se como variáveis ​​estruturantes de uma mesma representação da realidade. Da realidade do mesmo mundo alienado, do mesmo desejo de quem a todos tem que desumanizar retirando-lhes a sua dignidade; e isto, apesar da distância geográfica, cultural e histórica destes dois povos, e apesar da diversidade de formas e múltiplas manifestações desta desumanização ou desta divagação de consciência.

Assim, podemos propor uma equivalência entre os termos do problema haitiano e os de Gaza, e mesmo os do mundo, da seguinte forma:

Haiti desumanizado = Invariância das raízes totalitárias do Duvalierismo (que são consequências das estruturas esclavagistas) + impotência coletiva + divagação da governação local (perda de inteligência coletiva local).

Gaza Desumanizada = Invariância das estruturas genocidas do Estado hebraico (diversificação das estruturas esclavagistas) + impotência coletiva + deambulação da governação democrática global (perda de inteligência coletiva global).

Na verdade, enquanto toda Gaza estava a ser alvo de genocídio em 2024, as classes ricas e médias em França (e em todo o mundo) celebravam os Jogos Olímpicos de Paris 2024. Enquanto o Haiti era entregue à experimentação pelo Ocidente e pelas suas instituições internacionais a um gangsterismo estatal transnacional, que devolve a vida da maioria da população pobre às mesmas condições desumanizantes da época da escravatura, no Ocidente os seus artistas, os seus escritores, os seus intelectuais acotovelam-se nos teatros mundiais para terem sucesso nos sonhos brancos de outros lugares e estão prontos para todas as infâmias, todas as vilanias para se agarrarem a esse sucesso longe desse buraco de merda.

Era como se o Grande Noite da ação revolucionária, destinada a iluminar a festa da humanidade social e genérica, se tivesse esfumado. A aurora de um amanhã cor-de-rosa não dissipou os pesadelos da noite, uma lua opaca de terror passou no ângelus do dia, o velho mundo recusa-se a morrer e o claro-escuro de Gramsci transformou-se num eclipse de horror com a efígie da morte. É como se o grande bárbaro, o eterno carniceiro e coveiro dos povos, tivesse coberto o mundo com a sombra espessa do seu gigantesco manto apocalítico, como um convite para o banquete da humanidade que está prestes a ser assada no altar da sua felicidade pós-humanista.

Mas onde está o erro? Porque é que os raios materiais negros da existência desumanizada, tão carregados de cólera militante, não iluminaram os céus da consciência de classe dos povos para os impulsionar para a história como motores revolucionários?

Transições sistémicas

Não pensem que estamos a utilizar esta metáfora para ridicularizar as perspetivas de uma provável revolução, fazendo o papel de aprendiz de crítico do marxismo. O nosso objetivo é mais estratégico do que académico, mais pragmático do que filosófico. É um esforço de sistematização da dialética materialista para contextualizar as condições de viabilidade humana da história, para além da maturação das forças produtivas e económicas. Porque o marxismo é uma teoria científica, e como tal deve seguir o ritmo da dialética: qualquer mudança na infraestrutura da sociedade deve levar a uma rutura na superestrutura, com novas ideias adaptadas para permitir que a teoria seja ajustada de modo a permanecer viva e atual, reinventando-se indefinidamente.

Podemos afirmar que, na sua forma atual de geoestratégia totalitária da globalização, o capitalismo já não pode ser definido tal como o marxismo o entendia no século XIX, ou seja, simplesmente como um sistema de produção de mercadorias e bens através da exploração do trabalho assalariado. O capitalismo, nas suas estruturas globalizadas, inovadoras, virtualizadas e desmaterializadas, tornou-se um ecossistema de desumanização que, depois de anteontem se ter apropriado gratuitamente das riquezas da natureza através da escravatura do trabalho negro e indígena, e ontem através das guerras mundiais e da colonização, quer agora aniquilar o ser humano, apropriando-se da sua consciência através das miragens da inteligência artificial.

Perante esta inovação perversa, que corrói a dignidade e a humanidade do ser humano através da posse, colocando o poder e o saber no centro da sua existência como artefactos de sucesso do seu condicionamento desumanizador, é necessário um esforço sistémico de reapropriação da noção de consciência, para além da sua leitura “estática dialética” como substrato religioso da alienação (Karl Marx, Os Manuscritos de 1844, Apresentação, tradução e notas de Émile Bottigelli. Paris, Les Éditions sociales, 1972, p. 79).

A consciência, porque intervém, não como emergência dada, na compreensão da existência, mas como construção decorrente da representação, interpretação e modelação das suas reais e complexas dimensões alienantes, participa, portanto, no processo de ação para a viabilização humana da história. E, como tal, vai-se afirmando como uma questão de resistência e um território de luta para a construção de uma insubordinação verdadeiramente internacional. Uma insubordinação que não será uma impostura ideológica, mas uma verdadeira insurreição das consciências, assegurando o endireitar das posturas, para que o corpo e a mente se alinhem permitindo que as pessoas ocupem dignamente o seu lugar na existência, aprendendo a ser elas próprias, apesar das suas circunstâncias precárias, aprendendo a enraizarem-se no solo da sua cultura e a saberem renunciar a certos bens económicos e a certos atrativos de sucesso, que implicam sempre pesados passivos para a humanidade.

Este esforço é tanto mais útil já que, mesmo alguns marxistas parecem esquecer que, fazer história não é a mesma coisa que escrever história. Assim, há nuances a esclarecer entre as diferentes conceções possíveis do materialismo: a do homem como ator da história, a do homem como autor da sua própria história e a do homem como fazedor da história.

Para nós, isto é uma forma de dizer que não são tanto as condições de existência do homem que determinam o seu papel na história, mas sim a sua compreensão dos diferentes papéis que pode desempenhar na história e os sacrifícios que está disposto a fazer para assumir plena e autenticamente as exigências de cada um desses papéis.

 Pois é evidente que cada um destes papéis exige dele posturas mentais e talentos diferentes, consoante a sua lucidez, a sua inteligência, por assim dizer, a sua consciência. A maioria dos marxistas, no entanto, parece ter um horror sagrado a este conceito, que para eles é sinónimo de alienação religiosa. De facto, muitos dialéticos materialistas tendem a esquecer que a ação humana não se põe em marcha sob o pretexto de que as condições históricas estão reunidas. Pois essas condições podem estar historicamente reunidas, mas os homens podem não saber como interpretá-las, nem como explorá-las para as necessidades da viabilidade humana da história. Consequentemente, a ação humana, como veremos, é o trabalho de pessoas que estão até ao pescoço no marasmo da sua existência, plenamente conscientes das suas condições de existência precárias e desumanizadoras, plenamente conscientes das suas responsabilidades no contexto do momento histórico em que se encontram, genuinamente decididas a mudar estas condições falhadas, e sistematicamente equipadas com os meios e ferramentas para levar a cabo esta mudança (Ludwig Von Mises, Human Action, 1949). Se assim não for, a ação pode não passar de um fiasco, como a revolta dos comunistas de Paris (Karl Marx, Les luttes de classe en France (1848-1850), 1850), dando à história motivos para se repetir, passando constantemente da tragédia à comédia, até se impor como a invariância e o eterno recomeço da mesma tragicomédia para a humanidade.

Metamorfoses indigentes

O erro foi acreditar que basta que as pessoas existam em determinadas condições precárias e desumanizantes para que tenham consciência de classe e se improvisem como atores da história, proclamando-se revolucionários.

Esquecemo-nos de que a consciência, como produto da existência, se constrói em relação à existência, e que essa relação conduz a movimentos flutuantes de ida e volta que podem ser inteligentes e estruturantes ou alienantes e desvinculadores; de modo que a realidade nunca é a mesma para um observador, dependendo do ângulo através do qual a sua consciência interpreta a existência. Da existência à consciência, portanto, há estados mentais que os dialéticos não se deram ao trabalho de inventariar para os integrar no seu arsenal de luta contra a desumanização da existência. E, perniciosamente, é destes estados mentais que o neoliberalismo se apropriou subtilmente, tão bem que conseguiu colocar o homem contra o homem num processo paradoxal de desempenho fracassado.

Inicialmente, através de condicionamentos psicológicos e culturais adequados, inculcou nas pessoas o culto do ter (propriedade privada), obrigando-as a submeterem-se às autoridades detentoras dos recursos e a renunciarem à dignidade para garantir a empregabilidade que dá acesso ao poder de compra. Há um paradoxo neste processo, uma vez que o desempenho do acesso aos recursos (o ter) obriga naturalmente o indivíduo a renunciar à sua inteligência e a permitir a erosão da sua dignidade. Como disse muito bem Noam Chomsky:

“Há dois conjuntos de princípios. Os princípios do poder e do privilégio e os princípios da verdade e da justiça. Se perseguirmos o poder e os privilégios, isso far-se-á sempre à custa da verdade e da justiça”.

Algumas pessoas acreditam que podem enganar o sistema aceitando o que este lhes dá e afirmando que são agentes de mudança do sistema. O erro é que subestimaram o facto de a consciência se adaptar ao que reforça a sua inércia.

Em segundo lugar, conscientes da metamorfose que o ser humano sofre, através da erosão da sua dignidade, quando é enobrecido pela riqueza e pelos bens, os estrategas do neoliberalismo aproveitaram a evolução tecnológica para desmaterializar as estruturas de alienação, embelezando as suas formas bárbaras de ação, transformando-as em artefactos de direitos e de liberdade: o direito às cópulas intersexo (enquanto se aguarda a sua generalização entre espécies), o direito à gestação de substituição (enquanto se aguarda a sua metamorfose universal em gestação de substituição por outra espécie), o direito à mudança de sexo (enquanto se aguarda o direito à mutação para outra espécie).

Assim, no entrelaçamento temporal desta dupla metamorfose, nasceu um gosto pelo gozo, pelo luxo e pela devassidão que distanciou as pessoas de esquerda do território da consciência, impedindo-as de o verem como uma questão-chave na luta e um espaço mental de resistência contra a indigência que se digitalizou e virtualizou, tomando as trajetórias do imaterial (Jean Clam, CNRS, 2016) para melhor desumanizar a vida.

Esta é a acusação insolente e a dissidência que aqui quisemos trazer, neste tempo apocalíptico e carregado de energia nuclear que despoja cada vez mais os homens da sua humanidade, impelindo-os para os territórios deste fracasso humano através da espiral da mais pura indigência.

Com este libelo herético – para além da fúria apocalíptica deste outono de 2024, que amplifica todos os medos, enquanto esperamos que a humanidade caia no abismo da miséria -, estou aqui para deixar ecoar em ecossistemas tépidos algumas conversas autênticas e intranquilas (num cenário de tecnologias de inteligência e previsão ética para a tomada de decisões através de aprendizagens neuro-turbulentas e sensoriais), e para me libertar um pouco mais das amarras que atrofiam a vivência sensorial e a sublimação da existência, através da plena consciência de si.

Até breve para o resto – a Parte II.

Fonte aqui.