O idealismo eurofederalista que renega a verdadeira Europa

(Hugo Dionísio, in S. C. F., 20/09/2026, Revisão da Estátua)


Von der Leyen cria “Europa dos valores”: exclui Rússia, Sérvia e Turquia, premia obediência com fundos e prepara a guerra eterna.


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No seu discurso sobre o estado da União, proferido em Estrasburgo a 16 de setembro de 2026, Úrsula von der Leyen consolidou um novo conceito ideológico, evoluindo de uma União Europeia situada numa “Europa” geográfica — um espaço material, com necessidade de alargamento e de contenção de saídas, mediante redistribuição de fundos que dessem à periferia a percepção de que, em vez de abandono, lhe estavam destinados o desenvolvimento e a convergência com o centro — para um espaço europeu ideal, mitológico e exclusivo. (1) Uma “Europa” dos “valores” comuns, ao invés de uma “União” Europeia de diferentes povos.

A presidente da Comissão abriu com Charles Dickens — “era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos” — e de seguida enunciou a contradição que estrutura todo o discurso: “o estado da nossa União é o mais forte de sempre”, afirmou, acrescentando logo que “o estado da nossa União também pode parecer tão precário quanto nunca”. São duas afirmações “incompatíveis”, admitiu, “mas ambas são verdadeiras”. Ao cidadão médio, português e europeu, custa reconhecer, na Europa “mais forte de sempre”, a Europa real da emigração, dos salários baixos e das fábricas a encerrar; mas custa reconhecê-la porque a Europa que von der Leyen descreve não é essa. (1) A “Europa” de von der Leyen é uma espécie de “Lebensraum”, estendendo-se também para leste, mas a partir de Bruxelas e não de Berlim, encontrando-se, igualmente, em tensão permanente com as nações, também “europeias”, que aí se situam.

Daí que a “Europa” a que se refere von der Leyen já não seja a “Europa” da União Europeia, mas antes uma “Europa” de tipo olímpico, inacessível ao comum dos mortais — leia-se, aos povos que não se iniciam, conformam e formatam nos “valores” enunciados. Pertencer à “Europa” enunciada, idealizada, pela presidente da Comissão Europeia, não chega estar no continente europeu: implica uma prova de fidelidade, um teste de lealdade, materializado na adesão aos standards “europeus” exigidos, que corporizam e materializam, na prática, os tais “valores europeus” de que estes burocratas constantemente falam.

Na “Europa” de Úrsula, o candidato não adiciona, por si só, nenhum valor acrescentado. Ao invés, o candidato tem de se esvaziar de valores considerados contraditórios e imbuir-se da luz que significam, para esta gente, os tais “valores europeus”. Não aceitando esta troca, esta rejeição da identidade, da história e da cultura em prol da “luz da verdade”, não é possível entrar no clube exclusivo, no Olimpo, no jardim de Borrell, que bem poderia ser, não fosse uma heresia, o jardim do Éden.

Para os bálticos, a entrada na “Europa” significou, com o tempo, um esvaziamento quase total, até de população. Tendo perdido, num caso ou outro, mais de um quarto da população em relação ao período soviético (15), ser aceite no clube iniciático restrito significou um divórcio com a sua dimensão multiétnica, passando estes países a perseguir os seus próprios cidadãos que mantinham o russo como língua principal, a dupla nacionalidade e a cultura russa como elemento identitário. Para recriarem uma identidade que coubesse na “Europa dos valores”, estas nações tiveram de aceitar apagar o seu passado como territórios do império russo e como repúblicas da ex-URSS.

Mas esta exigência foi ainda mais longe, implicando uma reescrita da história. Kaja Kallas mostrou-se ofendida quando alguém lhe disse que a URSS e a Rússia tinham combatido o nazismo e o fascismo. Von der Leyen mostrou-se ofendida com as honrarias a Ratko Mladić em Belgrado, mas mostrou-se solidária com as honrarias dadas à UPA, à 14.ª Divisão da Galícia, a Stepan Bandera ou aos Irmãos da Floresta — todas organizações e indivíduos praticantes de crimes de guerra internacionalmente reconhecidos. Em suma, para pertencerem à “Europa”, estes países tiveram de deixar de ser quem eram. Mas o que dizer de uma Suécia ou de uma Finlândia, antes reconhecidas pela sua neutralidade, tendo de repente de dela prescindir e jurar lealdade à NATO, levando esta organização para as fronteiras com a Rússia, em sinal de evidente desafio e acosso? (16)

Neste sentido, ao invés de uma entidade multinacional, multiétnica, verdadeiramente paneuropeia, von der Leyen apresenta-nos uma Europa que renega o próprio conceito de “União Europeia”, para passar a incluir nações que a ela não pertencem, mas cujos dirigentes — muitas vezes em direta contradição com os povos aí residentes (veja-se o caso de Maia Sandu na Moldávia) (17) — aceitam pertencer ao mesmo espaço ideal, cognitivo, valorativo e cultural.

Daí esta “Europa” ser tão avessa à democracia que diz consagrar. E como poderia? Como poderia uma entidade burocrática, não eleita, mas, mais importante ainda, não escrutinável do ponto de vista verdadeiramente democrático, favorecer a democracia?

O caso islandês é paradigmático: os islandeses votaram, disseram “não” (18). Os ingleses votaram no Brexit, disseram “não”! Os noruegueses nem votar querem (19) e os franceses e irlandeses votaram tanto e tanto disseram “não”, até que, com referendos sucessivamente referendando os próprios referendos, os cansaram e os levaram a dizer “sim”.

Para a Ucrânia, como para a Moldávia, entrar na “Europa dos valores” pode significar uma traição tão monumental como a sujeição a uma guerra fratricida, suicida, em nome dos etéreos, mas monumentalmente fundamentais, “valores europeus”. Zelensky fala em “lutar pela liberdade” e “lutar pela Europa”. O preço que obriga o seu povo a pagar por não ter querido, em nome da “Europa”, cumprir os acordos de Minsk e de Istambul I (20) (21), implicou uma redução da ordem de um terço da população sob o controlo de Kyiv (22), uma perda de regiões que preferiram ir à sua vida do que pertencer a uma nação que os obrigava a ser quem não eram, uma destruição, por recusas constantes em dialogar e verdadeiramente negociar, do aparelho produtivo, uma alienação massiva dos recursos e um endividamento brutal que impedirá, durante muitos anos, o país de se desenvolver, se, no final, sobrar país. Da Geórgia, a “Europa dos valores” exigiu o mesmo sacrifício, tornando matéria a estratégia exposta pela RAND Corporation (23). A Moldávia, veremos; mas, para já, duas charlatanices eleitorais para eleger Maia Sandu (17) não prenunciam bom caminho. Na Roménia, um candidato ganhou as eleições e foi impedido de se candidatar à segunda volta, vendo anulada a sua participação eleitoral por “interferência russa” (24), apenas porque considerava que a NATO deveria abandonar o território romeno, porque Georgescu não queria ver a Roménia destruída pela Rússia, em caso de conflito alargado.

Esta Europa, antes medida por uma suposta mútua identificação ideológica e uma coincidência geográfica, é, agora, uma entidade que exige sacrifícios imensos a quem nela queira estar. É caso para dizer que, para pertencermos ao paraíso, temos de ter uma vida infernal. Se, no passado, países como Portugal tiveram de pagar a jóia de entrada em destruição do seu sistema produtivo, agora, para entrar, significa assumir as dores históricas dos derrotados da Segunda Guerra Mundial e, em nome deles, cometer um sacrifício suicida. Mas os que ficam não ficam melhor, porque, para defenderem o seu “Lebensraum”, têm de aceitar trocar a qualidade de vida, os serviços públicos e o investimento por armas e guerra. No discurso de von der Leyen, a guerra, o conflito militar, o belicismo e o militarismo andam de mãos dadas com os “valores” e princípios. A paz só nela se fala para justificar a guerra! Em nenhum momento ouvimos a presidente da Comissão falar da paz, pela paz e para a paz!

Esta ideia de Europa, cuja pertença se mede pela submissão política — e que, na sua lógica de formatar os povos à imagem da metrópole, ressuscita o velho idealismo de uma Europa “purificada” dos que não se submetem, da “toxicidade” das dependências próprias dos negócios com outras nações —, orgulha-se de praticar uma lógica ária de inclusão pela conformidade e pela conformação. Não se trata de uma Europa onde os povos são assimilados na sua originalidade, mas de uma onde os povos são padronizados e formatados à imagem de Bruxelas. Para o serem, nem verdadeiramente europeus precisam de ser.

Quem ouviu o discurso teve a confirmação. Von der Leyen anunciou que pretende “abrir a porta” para o Canadá ser “o primeiro membro associado da União Europeia” (25) — um país da América do Norte, com um oceano de distância de Bruxelas. Anunciou a concretização de um Conselho de Segurança Europeu, num formato de líderes com “parceiros como o Canadá, a Ucrânia, o Reino Unido, a Noruega e outros” — dos quais nenhum é membro da União. À Ucrânia — que não pertence ao espaço geográfico da UE — prometeu o maior apoio de sempre, com o projeto Freya de defesa antimíssil (“Freya é apenas o início”, disse, acrescentando que mais será preciso), assente nos fundos remanescentes do instrumento SAFE; e o novo quadro financeiro 2028-2034, o qual prevê até 100 mil milhões de euros mobilizáveis para a Ucrânia, com o apoio de natureza militar a continuar e a ser canalizado através do “Ukrainian Peace Facility” (Instrumento de Paz na Ucrânia), que serve para continuar a guerra. (1) (13) Trata-se de um instrumento extraorçamental, literalmente à margem do orçamento comunitário, mas que está em plena consonância com esta ideia de “Europa”, uma espécie de “eurofascismo”, em que as “fasces” são substituídas pelos exércitos de burocratas leais a Bruxelas.

Esta “Europa”, que assenta crescentemente em estruturas paralelas, fora do espaço geográfico e à margem dos tratados que enformam a União Europeia, de forma a que os candidatos ao clube se sintam do clube (1) (13), apesar do veto de membros da União, espelha bem o conceito idealista, fascizante, celebrado por von der Leyen. Para que os Estados-membros da União Europeia nada possam fazer a respeito desta nova “Europa”, Bruxelas cria estruturas paralelas, sem escrutínio democrático de qualquer tipo, de forma a que seja possível construir, na prática, uma “Europa” que vá além e contradiga, na essência, a União Europeia que antes tinham vendido aos povos.

O que faz estas nações pertencerem à “Europa” de von der Leyen não é a sua condição geográfica, nem a continental, nem a cultural. Todas essas perdem cor perante a que mais conta, a decisiva. Trata-se da condição política e ideológica: o facto de, em determinado momento, professarem a identidade política que Bruxelas ditou. A Geórgia é o caso limite: em 27 de junho de 2024, o Conselho Europeu concluiu que a ação do governo georgiano estava “de facto” a suspender o processo de adesão à UE (4); em 2025, a Comissão chegou a qualificar a Geórgia de “país candidato apenas de nome” (26). O mesmo povo, o mesmo país, a mesma geografia, a mesma matéria — mas a condição de submissão política deixou de existir e, com ela, evaporou-se a sua pertença à “Europa”. Já a Arménia, agora aproximando-se do “corredor médio” do Cáucaso do Sul e da Ásia Central, pode passar a ser “europeia”, recebendo até 12 mil milhões de euros de investimento público e privado via Global Gateway: a geografia pode ser negociada, reescrita, renomeada, desde que a ortodoxia seja a correta. (1) (4) Se Trump chamou Golfo do México de “Golfo da América”, porque não pode von der Leyen chamar a Ásia Central ou o norte da América de “Europa”?

A essa “Europa” não podem pertencer países como a Turquia, a Sérvia ou a Rússia. A estes povos falta-lhes a atracção fatal por Bruxelas, falta-lhes quererem ser “europeus” no sentido professado por von der Leyen — que, no discurso, condenou as honras fúnebres de Ratko Mladić em Belgrado: “glorificar criminosos de guerra simplesmente não tem lugar na União Europeia”, disse, esquecendo-se das honras a gente como Bandera. Nenhuma destas nações está disposta a reescrever a sua história e a sua cultura para ser admitida no clube restrito. Um russo pode gostar muito de iPhones e BMWs, mas, regra geral, não quer ser mais do que russo, respeitando e celebrando a história e a cultura russas. Esse é também o problema sérvio. O ser excluído, na visão de Bruxelas, condena a nação em causa a um inferno de autocracia, fake news, teorias da conspiração e ditadura; pertencer à “Europa dos valores” dá a democracia, a liberdade, o Estado social — o céu. (1)

Consequentemente, a Europa de von der Leyen tem horror à soberania e à independência nacional. O discurso é eloquente: propôs “o Artigo 4 europeu”, um protocolo de emergência que flanqueia o Artigo 4 da NATO, e prometeu que “a Europa defenderá cada metro quadrado do seu território”, não se sabendo bem se está a falar da União Europeia, o que faria todo o sentido, da NATO, o que faria algum sentido, ou da “Europa dos valores”, que se estende já da Ásia Central às terras negras do Donbass, passando pelos glaciares do Canadá.

Mais significativo ainda é o diagnóstico: os sistemas europeus “foram feitos para um mundo diferente”, movidos por “tentativas bem-intencionadas de consenso e compromisso”, devendo questionar-se se ainda servem o propósito. Traduzindo o que disse von der Leyen: o consenso entre nações soberanas é um defeito a corrigir. Roberta Metsola, presidente do Parlamento, fez coro, nas palavras de abertura da sessão: “as pessoas querem que defendamos uma Europa de valores”. “Valores”, repete-se, não uma geografia. (1) (3) Esta “Europa dos valores” é uma forma engenhosa de ir além da verdadeira União Europeia e encetar uma cruzada pela salvação das almas, desta feita já não pela evangelização, mas pela suposta “democratização”, “Estado de Direito”, “liberdade de expressão”, “direito de amar quem quisermos” e “sustentabilidade ambiental” — uma misturada de conceitos tão contraditórios quanto desenhados para incluir um espectro mental pós-moderno e que visa tirar da barbárie autoritária, da menoridade mental, das mentiras e das teorias da conspiração os povos a submeter. Usando termos expressos por Úrsula e associados.

Munida de um evangelho que cruza o velho e requentado neoliberalismo com o recuperado idealismo fascista, transposto da sua dimensão “nacional” para um âmbito “federal”, e da dimensão identitária individualista e socialmente atomizadora da era do fim da história, a Comissão Europeia, qual Vaticano da Idade Média, enceta um ataque ideológico à soberania nacional, fazendo-o em duas frentes. Primeiro: obrigando os Estados-membros a prescindirem da independência nacional, transferindo-a para Bruxelas, renegando a própria história e celebrando a “Europa” como um bem em si mesmo. Segundo: criando uma identidade falsa, a “Europa dos valores”, que inclui os formatados e exclui os resistentes, na esperança de que ela produza a coesão plurinacional que nenhuma bandeira comunitária conseguiu gerar.

Desengane-se quem pensar que estamos perante uma qualquer dimensão europeia multinacional — que unisse e celebrasse, assimilasse e incluísse o que é diferente, e na qual coubessem os que hoje são excluídos. A Europa de von der Leyen é o contrário: uma Europa que exclui os demais, considerando-os fora. É idealista porque decidiu divorciar-se da realidade material — da condição geográfica que torna também “europeus” todos os povos do continente europeu. Para pertencer à “Europa” de von der Leyen, ou se professam os valores — o que significa aceitar Bruxelas como uma espécie de sumo pontífice — ou é-se excluído, contradito, perseguido.

O tom inquisitorial transparece nas próprias palavras da presidente: “vemos isto na ascensão dos extremos, no declínio da nuance”. É notável o termo usado: a “nuance”! Como se a “nuance” não pudesse existir também no extremismo. Como se a dimensão com “nuance” que von der Leyen nos dá da “Europa” — de uma Europa dos que estão dentro e não dos que estão fora, de uma Europa que exclui a diferença e celebra a excepcionalidade — não fosse, ela própria, uma forma de extremismo, de sectarismo e fanatismo. A incapacidade de conciliar com os russos tresanda a fanatismo de outros tempos, a ressentimento e a sede inconciliável de retribuição. Ou seja, uma total ausência de “nuance” — o que von der Leyen acusa os outros de ter.

Um outro exemplo desta dimensão “evangélica”, idólatra e charlatã da “Europa dos valores” é a eleição da divergência face à narrativa oficial como um dos problemas mais graves do nosso tempo. A incapacidade, o sectarismo das suas crenças e crendices leva a presidente da Comissão à pergunta retórica: queremos “uma Europa forte e independente que defenda os seus valores neste mundo”, ou deixamos “as nossas democracias serem minadas pelos proxies e pelas marionetas dos autoritários”? Quem diverge da narrativa ursuliana, note-se, não é tratado como adversário político: é “proxy”, é “marioneta”, é traidor. Faz lembrar alguma coisa?

Daí o vocabulário de “guerra cognitiva” e a abertura do orwelliano ministério da verdade, ou a Inquisição “dominicana” de Bruxelas, materializada no Centro para a Resiliência Democrática, que “antecipa, deteta e responde” — não aos argumentos, que nunca se discutem, mas aos seus autores. Se algo não bate certo com a narrativa oficial, é porque a pessoa em causa foi vítima de fake news e conspirações. Nem por um momento von der Leyen duvida da narrativa que propaga: é a palavra divina, é a verdade, é o Deus único! Se o que dizemos não bate certo, é porque nós estamos enganados. E ver esta pessoa falar de “extremos”…

A atitude de tipo inquisitorial é indesmentível: acuso, logo tenho razão. É que, como nos tempos da Inquisição, os inquisidores nem sempre eram os mais iluminados pensadores — basta ouvir Kaja Kallas, a alta representante para os Negócios Estrangeiros, para quem foi “novidade” saber que a China e a Rússia estiveram entre os vencedores sobre o nazi-fascismo; a mesma Kallas que prometeu, este outono, “as listas de sanções mais abrangentes desde o início da guerra”, acrescentando um terço ao total de pessoas e entidades sancionadas — já mais de três mil —, porque “a pressão tem de continuar a crescer até Moscovo pôr fim à sua guerra”. Não se discute com elas, não se dialoga: aniquila-se. (1) (5) (6)

A inevitável inconciliação entre esta “Europa” e os que não lhe pertencem constitui também um desacoplamento da condição material da União Europeia, que nasceu, segundo os escritos, para simplesmente unir os povos europeus e celebrar a paz — e que visava aproximar a periferia do centro, daí estabelecendo os fundos comunitários que visavam resolver as contradições intra-União. Era uma submissão à matéria, uma consciência da sua existência. Ao longo do tempo, a UE foi perdendo essa consciência e, com ela, foi alimentando-se da soberania, como forma de mascarar, muitas vezes à força, a sua impotência para resolver os problemas reais, até que descambou na sua versão atual: autoritária, das sanções, do dentro e do fora, do é e do não é, dos valores ou da falta deles.

O discurso assume agora a reconfiguração desse compromisso. O novo quadro financeiro 2028-2034, de quase dois biliões de euros, funde coesão, agricultura, migração e segurança num único instrumento; o primeiro capítulo orçamental cai de cerca de 65% para 45% do total, e a coesão, em percentagem do rendimento nacional bruto, pode descer de 0,30% para um intervalo entre 0,14% e 0,29%, num desvio de recursos para a competitividade e a defesa que os “amigos da coesão” — entre os quais Portugal — combatem em vão. (11) (12) Enquanto mais e mais europeus vivem pior, von der Leyen celebra “o Estado social” e “uma Europa que faz”. E a lição húngara é didática: contra Viktor Orbán, anos de fundos congelados; depois de 12 de abril, quando “o povo húngaro tomou o futuro nas suas mãos”, “escolheu a democracia, escolheu a Europa” e trouxe “a Hungria de volta aonde pertence: ao coração da União Europeia” — 16,4 mil milhões de euros de fundos europeus foram desbloqueados (27) (28). A obediência compra-se. Os fundos perderam a função de coesão e ganharam a função de disciplina. (1) (3) (11) (12)

O mesmo duplo critério vale para as dependências. A dependência energética da Rússia, que permitiu a industrialização da Alemanha, é hoje apresentada como “tóxica” — adjectivo do próprio discurso (“libertar-se da dependência tóxica dos combustíveis fósseis russos”). Já a dependência do GNL norte-americano — 58% das importações de GNL da UE em 2025 (9), com projeções que apontam para 80% até 2030 e alertas de que a energia pode voltar a ser “arma” de pressão política sobre a Europa (10) — é omitida do discurso, como o são todas as outras dependências. O discurso contém, aliás, a confissão involuntária: ao celebrar a compra de mísseis Patriot americanos para a Ucrânia, von der Leyen acrescentou que “temos também de reduzir em conjunto a nossa dependência de um único fornecedor”. De um único fornecedor de quê? De defesa e de energia: dos Estados Unidos, que ela nunca tem coragem de nomear, no longo discurso que nos fez.

E no mesmo discurso em que admite que “o défice comercial com a China é agora de mil milhões de euros por dia” e que ele conduz à “desindustrialização dos corações industriais da Europa”, a presidente celebra uma Europa que “se tornou a maior potência comercial do planeta”. O que conta é a compatibilidade com os “valores” proclamados — não quer dizer praticados: tudo tem de ser compatível; o que não for, exclui-se e antagoniza-se. (1) (9) (10)

Claro que esta Europa perdeu um dos seus principais anjos guardiães: os EUA. Nem por um momento von der Leyen os nomeou como aliados ou amigos — nem sequer para lhes dirigir uma palavra de divergência. Não os podendo condenar ao fogo do antagonismo, da guerra e das sanções, condena-os ao apagamento, esperando não ser também por eles apagada. Charles Michel, ex-presidente do Conselho Europeu, foi mais direto, horas antes do discurso: “ela começou o seu mandato a seguir cegamente os Estados Unidos, com muitas consequências. Houve uma espécie de ingenuidade.” (3) Resta a NATO — que o discurso professa como um catecismo: todo o investimento em defesa, garantiu, será “totalmente alinhado com a NATO”. Quem quiser entrar no clube, professe a NATO. Como Jeffrey Sachs tem repetido, a Europa “só protesta quando Trump ameaça a Gronelândia; de resto, tolera, quando não celebra, o comportamento dos EUA” (14) — e se os Estados Unidos deixassem de impor as suas guerras ao resto do mundo, ficaríamos todos melhor; e se a “Europa dos valores” deixasse os seus antagonismos com a Rússia, a Turquia ou a Sérvia, idem.

Esta “Europa” é, neste sentido, religiosa: uma teologia dos valores, com céu e inferno, dentro e fora, é e não é. Censura canais de televisão, blogues e media independentes — incluindo os europeus —, acusando tudo de conspirativo; aplica sanções a pessoas singulares por divergirem da opinião oficialista e institucionalista; denuncia “guerra cognitiva” em vez de responder a quem argumenta. E o delírio é próprio das sociedades decadentes, em negação e apanhadas por um qualquer fanatismo. Os fanatismos não se discutem: têm de ser aniquilados.

Porque esta resvalação para a idolatria esconde um mal profundo: uma Europa irrelevante — que von der Leyen só pode elogiar por ser “a maior potência comercial do planeta”, o maior mercado de consumo do mundo, e nada mais; uma Europa sem centralidade, decadente. Há um elemento do discurso que diz tudo: a “competição internacional feroz” pela industrialização, o “segundo choque da China” que, para von der Leyen, já cá está — o Sul a competir agora com o Norte. Em vez de viver essa realidade, a Europa tenta descolar dela e voltar ao tempo dos impérios divinos europeus: “recapturar a imaginação europeia” com um novo Congresso da Europa, setenta anos depois do Tratado de Roma.

Dizendo celebrar os seus valores, prepara-se para alterar a estrutura dos fundos para dar aos mais fortes, como uma imperatriz sem medo de escrutínio — e os processos que lhe batem à porta, do caso das SMS trocadas com o CEO da Pfizer, que o Tribunal Geral do UE considerou violação da lei da transparência e do princípio da boa administração, às mensagens que, segundo a Comissão, já não existem no telefone da presidente (7) (8) —, acusa, condena, repele, eloga, promove e salva ao sabor da sua vontade. Para a presidente da Comissão não há Estado de Direito, só o Estado de Direito dela própria. Imaculada, intangível, incomparável e imperscrutável.

As consequências dos seus atos baterão à porta dos trabalhadores de toda a Europa — da Europa real, daquela que vai dos Urais ao Cabo da Roca. (1) (7) (8)

Como todos os fascismos — que se mascaram sempre de palavras mansas —, também este vive da alma dos povos que atormenta. Nos países que celebravam o nacionalismo e o imperialismo, quanto mais se celebrava a ideia, pior o povo vivia: era como se o idealismo se alimentasse da força vital.

É este o problema dos idealismos nacionalistas, federalistas ou imperialistas: celebram a ideia, nunca a realidade. Hitler queria invadir a Europa para a tornar igual à Alemanha — o que queria dizer: submetida à Alemanha. Von der Leyen cria uma Europa que exclui, para que restem apenas os que se submetem.

O desacoplamento material funciona no idealismo nacionalista, imperialista e expansionista como um cancro que se alimenta do corpo que renega. Para celebrar e concretizar a ideia, o idealismo fascista, neofascista, eurofascista ou federal-fascista é obrigado a pressionar as suas fronteiras reais, pois as fronteiras ideais não se compadecem nem se contêm nas geográficas. Ao fazê-lo, ameaça naturalmente os povos que vivem na sua periferia. Os que não se submetem terão de ser aniquilados, pela força, se necessário for. É por isso que o idealismo fascizante, da direita reacionária, revisionista e revanchista, apenas pode trazer a guerra, pois elege como objetivos a concretizar não o apaziguamento das contradições materiais existentes, mas o seu exacerbamento, alimentando-se do mesmo e da contradição que produz como alimento da sua própria propaganda, alienador dos povos e divisor das comunidades. As contradições que impõe a quem está fora, vistas como ameaças, justificam o desvio de recursos para a guerra e a imposição da guerra eterna, à custa da carestia crescente da vida. Não é nada de novo; é história requentada — desde que não revista por quem escreve a soldo da narrativa oficialista, o que quer dizer, nestes dias, que se vende em qualquer grande superfície comercial.

Esta “Europa” é, assim, uma espécie de federal-fascismo: quanto mais celebra a ideia da “Europa dos valores”, mais se afasta da matéria, mais se contradiz com a realidade — e a forma que encontra de resolver essa contradição é a concretização de um código moral, quase religioso, porque recusa a crítica e a discussão, e opta por nos dizer onde está o bem e o mal, o inferno e o céu.

Uma “Europa” destas não pode ser de paz, porque divide, exclui, cria um fosso, antagoniza. É incapaz de assimilar: apenas de submeter. Nem os que se submetem serão algum dia vistos como iguais — um português nunca será igual a um alemão; apenas serão tolerados e incluídos, despojos de tudo o que Bruxelas considera pernicioso.

Combater esta Europa é trazê-la de volta à realidade de que foge: às suas limitações sociais, à sua degradação moral, política e social.

FONTES

  1. Discurso sobre o estado da União 2026 de Úrsula von der Leyen (transcrição oficial, Comissão Europeia, 16/09/2026) — https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/speech_26_1868
  2. Serviço Audiovisual da Comissão Europeia — versão integral do discurso (16/09/2026) — https://audiovisual.ec.europa.eu/en/media/video/I-293083
  3. Euronews — cobertura integral do discurso: declarações de Roberta Metsola, Charles Michel, «declínio da nuance», orçamento de 2 biliões (16/09/2026) — https://www.euronews.com/my-europe/2026/09/16/ursula-von-der-leyen-delivers-state-of-the-union-speech
  4. Comissão Europeia — Alargamento: Geórgia, «processo de adesão de facto suspenso» (2024-2025) — https://enlargement.ec.europa.eu/countries/georgia_en
  5. Euronews — Kaja Kallas anuncia sanções mais abrangentes desde o início da guerra (17/08/2026) — https://www.euronews.com/my-europe/2026/08/17/eu-to-propose-tougher-sanctions-on-russia-this-autumn-kaja-kallas-says
  6. Responsible Statecraft — «Kaja Kallas’ shocking lack of historical literacy» (09/09/2025) — https://responsiblestatecraft.org/kaja-kallas-history/
  7. Euractiv — Tribunal Geral da UE: Comissão violou regras de transparência no caso «Pfizergate» (14/05/2025) — https://www.euractiv.com/news/pfizergate-commission-broke-transparency-rules-over-von-der-leyen-texts-court-rules/
  8. PBS NewsHour/AP — SMS entre von der Leyen e CEO da Pfizer provavelmente apagados (08/2025) — https://www.pbs.org/newshour/world/eu-chiefs-texts-to-a-pharma-boss-during-pandemic-were-likely-erased-new-york-times-reports
  9. ACER — Análise do mercado europeu de GNL: os EUA forneceram 58% das importações de GNL da UE em 2025 (07/2026) — https://www.acer.europa.eu/monitoring/MMR/LNG_market_developments_2026
  10. Gas Outlook — «EU ponders pivot from U.S. LNG dependence»: risco de 80% de dependência até 2030 e de «armação» da energia (02/2026) — https://gasoutlook.com/analysis/eu-ponders-pivot-from-u-s-lng-dependence/
  11. Bruegel — «National plans, regional voices»: coesão no orçamento 2028-2034, queda de 0,30% para 0,14-0,29% do RNB (01/2026) — https://www.bruegel.org/policy-brief/national-plans-regional-voices-cohesion-policy-next-european-union-budget
  12. Eyes on Europe — Orçamento 2028-2034: capítulo da coesão cai de ~65% para 45% do total (06/2026) — https://www.eyes-on-europe.eu/2028-2034-eu-budget-cohesion-policy-at-the-centre-of-political-dispute/
  13. Comissão Europeia — Orçamento da UE 2028-2034: 100 mil milhões para a Ucrânia, Facilidade Europeia de Paz, Global Europe de 200 mil milhões — https://commission.europa.eu/strategy-and-policy/eu-budget/long-term-eu-budget/eu-budget-2028-2034_en
  14. Jeffrey Sachs — entrevista à Berliner Zeitung (via jeffsachs.org, 01/2026): «a Europa só protesta quando Trump ameaça a Gronelândia» — https://www.jeffsachs.org/interviewsandmedia/rmlrm3wmn3dbbyjmze8asr9mm6p9ml
  15. BESA Center — «Baltic States Depopulation: The Effect of the EU Periphery or Soviet Legacy?» — Letónia, Lituânia e Estónia perderam ~25-30% da população entre 1991 e 2022 [NOVA FONTE] — https://besacenter.org/baltic-states-depopulation-the-effect-of-the-eu-periphery-or-soviet-legacy/
  16. Parlamento do Reino Unido (Commons Library) — «NATO enlargement: Sweden and Finland», Research Briefing CBP-9574 — Finlândia adere em 04/04/2023, Suécia em 07/03/2024 [NOVA FONTE] — https://commonslibrary.parliament.uk/research-briefings/cbp-9574/
  17. AP News — Moldávia: PAS de Maia Sandu vence legislativas de 28/09/2025 com alegações de interferência russa [NOVA FONTE] — https://apnews.com/article/maia-sandu-moldova-russia-europe-election-pas-da9455583fc394d027ac1c08e735f59e
  18. CBS News/AP — Referendo de 29/08/2026: os islandeses rejeitam retomar as negociações de adesão à UE (52,8% «não») [NOVA FONTE] — https://www.cbsnews.com/news/iceland-eu-referendum-vote-european-union/
  19. New Union Post — «Norway will be affected by Iceland’s EU referendum result»: referendos noruegueses de 1972 e 1994 rejeitaram a adesão [NOVA FONTE] — https://newunionpost.eu/2026/07/31/norway-iceland-eu-referendum-interview/
  20. SWP Berlin (Stiftung Wissenschaft und Politik) — «Peace Talks Between Russia and Ukraine: Mission Impossible» (08/11/2022): cronologia do colapso dos acordos de Minsk e das negociações de Istambul [NOVA FONTE] — https://www.swp-berlin.org/10.18449/2022C65/
  21. Foreign Affairs — Samuel Charap e Sergey Radchenko, «The Talks That Could Have Ended the War in Ukraine» (04/2024): os rascunhos dos tratados de Istambul e o colapso das negociações [NOVA FONTE] — https://www.foreignaffairs.com/ukraine/talks-could-have-ended-war-ukraine
  22. OCDE — «Ukraine’s Strategic Response to the Displacement Crisis» (2026): ~6,5 milhões de refugiados no estrangeiro, ~4,6 milhões de deslocados internos e população sob controlo governamental em queda [NOVA FONTE] — https://www.oecd.org/en/publications/ukraine-s-strategic-response-to-the-displacement-crisis_9b773da4-en/full-report/ukrainian-migration-and-displacement-crisis-in-numbers_84aa775c.html
  23. RAND Corporation — «Overextending and Unbalancing Russia» (2019): estratégia de desestabilização russa com cenários no Cáucaso (Geórgia) e na Ucrânia [NOVA FONTE] — https://www.rand.org/pubs/research_briefs/RB10014.html
  24. LSE Europp Blog — «The annulment of Romania’s presidential election reflects both foreign meddling and domestic failures» (13/12/2024): anulação do primeiro turno vencido por Georgescu [NOVA FONTE] — https://blogs.lse.ac.uk/europpblog/2024/12/13/the-annulment-of-romanias-presidential-election-reflects-both-foreign-meddling-and-domestic-failures/
  25. AP News — «The EU wants to make Canada its first ‘associate member’», com reação de Trump; Canadá adere ao instrumento SAFE (16-17/09/2026) [NOVA FONTE] — https://apnews.com/article/europe-canada-carney-associate-member-3fdb111dd4d23d88b3de88c274c52711
  26. OC Media — «EU issues 2025 Enlargement Report, says Georgia is a ‘candidate country in name only’» (04/11/2025) [NOVA FONTE] — https://oc-media.org/eu-issues-2025-enlargement-report-says-georgia-is-a-candidate-country-in-name-only/
  27. Al Jazeera — «EU to release billions in frozen funds for Hungary amid Magyar reforms» (29/05/2026): 16,4 mil milhões de euros desbloqueados [NOVA FONTE] — https://www.aljazeera.com/news/2026/5/29/eu-to-release-billions-in-frozen-funds-for-hungary-amid-magyar-reforms
  28. Parlamento do Reino Unido (Commons Library) — «Hungary: 2026 parliamentary election», Research Briefing CBP-10612 — derrota de Orbán a 12/04/2026 e vitória de Péter Magyar/Tisza [NOVA FONTE] — https://commonslibrary.parliament.uk/research-briefings/cbp-10612/

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O Grande Assalto: como a UE vendeu o petróleo dos povos antes do jackpot do século XXI

(Hugo Dionísio, in S. C. F., 12/09/2026, Revisão da Estátua)


UE privatizou petroleiras e entregou lucros ao capital privado. Preços explodem enquanto Rússia e Bielorrússia mantêm gasolina barata.


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O superpoder da dissimulação da UE na preparação do assalto

No plano dos combustíveis fósseis, como a gasolina e o gasóleo, a história da energia dispendiosa não começa com o euro, não começa com a guerra da Ucrânia e nem agora com o desastre trumpista no Golfo Pérsico. Um dos capítulos mais importantes do desastre estratégico e energético da UE começa a desenhar-se muito antes, na lógica rentista, monopolista e privada que a UE representa. O drama energético que vivemos hoje na União Europeia resulta de algo muito profundo: uma arquitetura neoliberal que cobra um preço altíssimo pela entrada no clube restrito, que dá aos Estados periféricos o direito de perderem a sua soberania, a juventude mais qualificada e o condicionamento do seu setor produtivo aos ditames ocidentalistas.

Tudo começa quando a Comissão Europeia declarou guerra aos monopólios! Mas esta guerra aos monopólios, por acaso — e só por acaso — «estatais», visava outro objetivo, mais sub-reptício: a reestruturação do setor energético, de forma a que fosse colocado ao serviço da lógica rentista. Como tal, ao invés de destruir tais monopólios, a UE descobriu que a forma mais eficaz de os «derrubar» não passava por proibi-los, mas antes por obrigar os Estados a vendê-los. Golpe de mestre! Tudo sob uma capa de promissora «liberalização», já identificada, noutros momentos históricos, como altamente perniciosa.

As diretivas de liberalização dos mercados da energia, o mercado único e a Agenda de Lisboa traçaram o algoritmo pretendido: a) separar a rede da produção; b) abrir a entrada ao capital nacional e estrangeiro; c) proibir as participações cruzadas por parte do Estado. Neste processo, a UE mostrou todo o seu horror à soberania nacional, à independência dos povos, à sua liberdade, em última instância. Em troca da liberdade coletiva, que lhes roubou, prometia-lhes a liberdade individual de comprar, pagar, escolher, o endividamento fácil e o desenraizamento social.

O resto do percurso foi simples! A partir do poder que a Comissão tem de conformar os governos nacionais às pretensões que representa — através de um conjunto cruzado e integrado de condicionalidades, recomendações, planos, agendas e estratégias, bem ancoradas em fundos comunitários e na sua conexão com a política económica exigida —, foi o trabalho das próprias governações nacionais, ansiosas por mostrar «modernidade», «ambição», «pragmatismo» e «bom comportamento» (tudo muito contraditório), que fez o caminho chegar onde nos encontramos. A Comissão Europeia tem este superpoder da dissimulação: dona e senhora da capacidade de atribuir todas as culpas aos governos eleitos, reservando para si uma burocracia totalitária, inescapável, inescrutável e autoritária.

E assim, é razão para dizer que, antes do ser, já o era! Ainda antes de a moeda única nascer e levar com ela uma fatia enorme das soberanias nacionais, especialmente dos países mais periféricos, necessitados do Fundo de Coesão, os maiores países da futura moeda única despojaram-se dos seus maiores «ativos» estratégicos: a Itália vendeu a ENI em quatro ofertas públicas entre 1995 e 1998, «libertando» o Estado de cerca de 70% da empresa.

A Espanha «abriu» o capital da Repsol e da Cepsa, e a torneira jorrou até ficar seca; o Reino Unido já nem tinha o que vender — vendera a última fatia pública da BP entre 1979 e 1987, uma década antes dos outros sequer começarem (o Estado britânico, note-se, nunca deteve a maioria da BP). Até a França, que na energia elétrica chegou a reter jóias como a EDF — hoje integralmente pública outra vez, renacionalizada em 2023 —, teve de se «libertar» da Total. A fórmula utilizada era engenhosa: o Estado recebia uns milhares de milhões de euros — regularmente a pretexto de uma qualquer crise do déficit ou da dívida impulsionada por Bruxelas — e, em troca, entregava um fluxo infinito e contínuo de lucros monopolistas a acionistas privados, prescindindo assim de propriedade, controlo, rendimento e alavanca de política energética e industrial. Sobrou um controlo parcial na Itália — onde o Estado manteve cerca de 30% da ENI, hoje 33% — e pouco mais. A Alemanha, a Bélgica, os Países Baixos e o Luxemburgo nunca contaram com estatais monopolistas neste domínio dos combustíveis.

O euro, esse acelerador da combustão dos «fardos» monopolistas estatais

A moeda única não foi só uma moeda: foi um catalisador, um aspirador de ativos estratégicos e um colete de forças. À sombra da entrada da «moeda única», a UE varreu os últimos vestígios de um mercado soberano de combustíveis fósseis. Tratou-se de um instrumento de convergência económica que incluía, nos seus pressupostos, a receita dogmática neoliberal da «redução do peso do Estado na economia». Nesses tempos, não houve noticiário televisivo, crónica económica e intervenção dos partidos do «centro moderado» que mostrassem alguma moderação na afirmação de tal princípio. O resultado foi direto: o que faltava vender, vendeu-se!

Portugal executou o modelo exemplar da privatização faseada, pois, à data, ainda havia muita força no lado soberanista da esquerda, que obrigava o «centro moderado», mas radicalmente neoliberal, a encontrar a forma mais dissimulada de dar a facada final nos combustíveis portugueses: quatro blocos de venda da Galp entre 1999 e 2006, culminando no IPO de 23% em outubro de 2006. Sob o pretexto do combate ao déficit e à dívida pública, com o executivo de Durão Barroso e de Manuela Ferreira Leite, a «Thatcher portuguesa», Portugal foi «libertado» do terrível monopólio da Galp. Grécia, Finlândia e Áustria são as únicas resistentes, com participações públicas acima dos 30%. Em 2021, a Grécia acordou a venda de 20% dos 35,5% que ainda detinha na Hellenic Petroleum — operação concluída em 2023.

A conclusão é simples: quando o euro entrou em circulação física, consagrando o sistema euro-dólar, em 2002, o mapa energético europeu já fora redesenhado: os monopólios nacionais deixaram de pertencer às nações, mas continuaram a existir, apenas tendo mudado de mãos públicas para privadas. Passaram a pertencer ao mercado. Como constataremos, ser do mercado significa ter dono, e significa que o dono tem de ganhar mais — muito mais!

Importa também não desligar esta estratégia fomentada por Bruxelas de dois outros fatores: a importância do petrodólar enquanto âncora do dólar e a necessidade de que as transações dos produtos petrolíferos passassem a ser feitas em moedas não nacionais, o que foi conseguido através do euro; e a importância da entrada do capital internacional dolarizado no capital das empresas privatizadas. Também aqui somos vítimas do dólar, do petrodólar e da subserviência do sistema euro ao dólar.

O alargamento: entregar o ativo energético como preço de entrada no clube restrito do «sonho europeu»

Se os capítulos anteriores foram uma desistência, o grande alargamento que decorreu de 2004 a 2013 foi uma rendição, uma chantagem e uma submissão. Para entrar no clube do «sonho europeu», os países do centro e leste europeu tiveram de vender as refinarias, os gasodutos e as petrolíferas. A taxa de entrada era entregar ao mercado algo de muito rentável e parte da âncora da moeda de reserva hegemónica. Tal como a unificação alemã, o alargamento a Leste deslocou o eixo do poder europeu, definitivamente, da França primeiro, e do eixo franco-alemão depois, para o outro lado do Atlântico, sob a tutela da burocracia de Bruxelas.

A cronologia é eloquente e não deixa dúvidas, valendo mais do que as palavras ocas em sentido contrário: a Roménia vendeu o controlo da Petrom à austríaca OMV em dezembro de 2004 — 669 milhões de euros pagos ao Estado romeno pelos 33,34% iniciais e mais um aumento de capital, no valor de 830 milhões de euros, que elevou a OMV a 51% e nem sequer entrava nas contas públicas. No total, a operação situava o valor da Petrom nos 2,2 mil milhões de euros. Uma oferta em nome do povo romeno!

A Chéquia vendeu cerca de 63% da Unipetrol aos polacos da PKN Orlen por uns míseros 11,3 mil milhões de coroas (cerca de 380 milhões de euros, à cotação da época). A Lituânia viu a única refinaria dos pequenos bálticos — a Mažeikių Nafta (da «pesada» herança soviética) — ser comprada pelos polacos da Orlen, em 2006, por cerca de 2,3 mil milhões de dólares no total, dos quais apenas cerca de 850 milhões reverteram para o Estado lituano, numa operação que Vilnius justificou explicitamente por razões de segurança nacional, porque os russos haviam tentado comprá-la! E que tal terem ficado com ela?

A Hungria é das únicas resistentes, mas não por acaso. Os russos da Surgutneftegaz haviam comprado em 2009 21,2% da MOL à austríaca OMV e, em 2011, o Estado húngaro readquiriu esse pacote — por 1,88 mil milhões de euros — para afastar o controlo russo. Com Orbán, talvez por isso mesmo, o Estado manteve-se acionista de referência, o que explica o ódio que lhe têm gente como Soros. Na Hungria, os combustíveis são mais baratos do que em grande parte da UE — muito mais baratos —, tão mais acessíveis que um eurocrata de Bruxelas, numa conferência em Budapeste, me disse que «o Estado húngaro subsidia os combustíveis». O eurocrata despejava ali o seu ódio, mas não contra o facto de Orbán ser da direita conservadora e reacionária; antes, culpava-o de ser um desastre na economia e na justiça. Talvez este tipo devesse olhar para cima, para a própria presidente da UE. O facto é que, na Hungria, onde vigoraram durante anos tectos de preço nos combustíveis, esses custam hoje menos do que na maioria dos países da Europa. A outra exceção é a Polónia, cuja petrolífera PKN Orlen permanece sob controlo do Estado e que, em 2022, reforçou esse controlo com a fusão Orlen–Lotos. Adivinhem que preços pratica? Pois: uns dos mais baixos da UE!

A recolha do grande prémio!

O mercado europeu estava pronto para o choque. Se o papel que hoje a UE tem na alimentação dos ganhos de energia dos EUA, na sustentação do dólar e do petrodólar e nos preços elevados dos combustíveis é resultado da arquitetura corporativista encetada por Bruxelas, ou o contrário — ou seja, se os preços elevados e o reforço dos fluxos de capital financeiro associado são resultado do papel assumido —, não sabemos. O que sabemos é que o resultado é simples: os Estados foram desapropriados de ativos importantíssimos para o desenvolvimento europeu, os povos ficaram a pagar o combustível muito mais caro, os Estados tiveram de aumentar os impostos sobre produtos petrolíferos para compensar as perdas e a economia europeia está um inferno. Com exceção das que se mantiveram públicas ou parcialmente públicas, comprar gasolina ou gasóleo é proibitivo para um trabalhador europeu médio, ou para um pequeno empresário!

O que nos é possível observar é muito simples: ao longo de todo o século XXI assistimos a um sem-fim de picos petrolíferos que resultaram em ganhos especulativos brutais e em preços dos combustíveis ainda mais brutais. As subidas abruptas e as descidas ténues passaram a constituir um instrumento para a obtenção de ganhos especulativos — não pelos Estados, mas pelos detentores privados desse capital. Aos povos europeus, à economia não especulativa, restaram os preços elevadíssimos e os impostos brutais, que visam compensar as perdas anteriores.

De 1999 — o ano do euro «em conta», quando o barril andava pelos 10–20 dólares — até hoje, o petróleo multiplicou o seu preço por vários fatores, com ciclos dos 147 dólares em 2008, da guerra da Ucrânia em 2022 e do choque de 2026.

Só em 2022, as cinco supermajors — ExxonMobil, Shell, Chevron, BP e TotalEnergies — somaram cerca de 200 mil milhões de dólares de lucros, o maior ano da sua história: a Shell bateu o recorde dos seus 115 anos, a ExxonMobil chegou aos 59,1 mil milhões de lucros. Desde o início da guerra na Ucrânia, o mesmo grupo acumulou, ao que se estima, quase meio bilião de dólares — cerca de 467 mil milhões.

O movimento do capital não mente: nos EUA, metade dos lucros extraordinários do setor fóssil de 2022 terá cabido ao 1% mais rico, enquanto os 50% mais pobres receberam 1% da riqueza produzida (dado que não foi possível confirmar em fontes públicas). Nesta montanha-russa de subidas e descidas, os EUA tornaram-se o fornecedor privilegiado da União Europeia e o maior produtor de petróleo do mundo!

A realidade fora da UE: a soberania contradiz a tendência

Não pode haver ingenuidades ou condescendências de qualquer tipo. Fora da UE, o mapa dos preços demonstra a tendência referida. Em abril de 2026, a gasolina custava na Rússia cerca de 0,80 dólares por litro e na Bielorrússia 0,90 — contra cerca de 2,50 euros na Alemanha, 2,60 na Dinamarca e 2,90 nos Países Baixos, os preços mais altos do mundo «avançado». Estes dois países recuperaram o controlo público perdido nos anos 90 e não querem saber de políticas anti-monopólio (do Estado, apenas) por parte da UE, do FMI e do Banco Mundial.

A Sérvia, candidata eterna ao clube e por isso pressionada a «reformar» o seu setor, situava-se nos 1,90 euros — bastante abaixo do preço dos Países Baixos. Contra a Sérvia temos o encravamento continental e o facto de não ter petróleo.

Daí que a explicação não seja geográfica e não interessa explicar. Onde o Estado controla a cadeia de valor — extração, refinação, importação —, pode fazer «trade-off» (compensações entre fatores diferentes) e decidir que o combustível é um bem estratégico e não uma mercadoria especulativa, transferindo, através de um preço interno mais reduzido, o rendimento que a UE entregou e decidiu obrigar outros a entregar ao mercado. Um mercado ávido de lucros, que quer vê-la crescer até ao céu, deslocando para os seus «offshores» fatias cada vez maiores de riqueza sonegada ao crescimento económico e social dos Estados.

A Noruega é talvez o caso mais instrutivo: tem dos preços mais altos da Europa na bomba, mas abriu o capital da Statoil em 2001 e nunca deixou o Estado descer dos dois terços do capital total (hoje Equinor). Então o que se passa? O que se passa é que o dinheiro dos preços altos não engorda um acionista: alimenta o fundo soberano que pertence a cada norueguês, a todos os noruegueses.

A Rússia e a Bielorrússia escolheram o preço baixo, beneficiando o consumidor; a Noruega escolheu o fundo soberano; a UE escolheu o acionista, a oligarquia. Todos escolheram. A diferença é quem recebe. Esta é a diferença, hoje, entre estar ou não estar na UE. O resto é conversa para estupidificar quem esteja excessivamente entregue à solidão reflexiva e brutalmente exposto à «informação» desconexa das redes sociais e à manipulação dos órgãos dominantes.

A UE como motor de empobrecimento: engordar uns poucos, matar de fome todos os outros

Volta-se assim ao princípio e fecha-se o círculo. Entre 1995 e 2009, a Europa — primeiro voluntariamente, depois sob coação de alargamento — transferiu para o capital privado os monopólios energéticos que as gerações anteriores construíram de forma coletiva e que foram responsáveis pela elevação incomparável dos padrões de vida e de rendimento.

A instituição de economias mistas, dotando os Estados de recursos estratégicos e fundamentais, possibilitou a socialização dos resultados da produção, elevando a educação, a saúde, o conhecimento, a tecnologia e a alimentação de todos os europeus. Entre os anos 50 e os anos 70, a Europa Ocidental viveu os seus 30 anos dourados. A presença de uma URSS dotada de padrões sociais elevados obrigou o capital a concessões antes impensáveis. Centenas de milhões de trabalhadores e suas famílias puderam beneficiar da socialização de alguns dos resultados da sua própria produção. A Europa tornou-se o continente mais desenvolvido, industrializado, democrático e avançado do ponto de vista humano.

Desaparecida a URSS e, com ela, o «perigo comunista», enfraquecidos os sindicatos e os partidos de classe que reclamam para quem trabalha a sua fatia digna de riqueza, chegámos ao tempo da desforra, da recolha dos despojos. O facto de nunca se ter ensinado o que foi realmente o fascismo, a sua ligação intrínseca ao capitalismo, o papel que a luta de classes teve na elevação dos padrões de vida da UE, a importância de partidos que sejam capazes de exigir e propor medidas radicalmente diferentes, que mudem, que criem rupturas, resultou num estado de inconsciência histórica que está a conduzir à repetição dos mesmos erros. Porque quem não conhece a sua história está fadado a repetir os mesmos dramas!

A concentração de riqueza nos países mais fragilizados pelas estratégias neoliberais encetadas pela UE, ao serviço de Washington e do seu sistema hegemónico, faz com que o cidadão comum pague a gasolina quase ao triplo do preço russo e trabalhe para a pagar com salários que não acompanham a curva do Brent. Existe alternativa, e a alternativa está no controlo público destes ativos estratégicos.

A Noruega, no topo dos índices sociais, mas fora do clube de Bruxelas, demonstra que a alternativa ao neoliberalismo não era utópica, que funcionava. Quem paga agora pelo dano causado? Quem nos compensa agora pelas perdas causadas, nas nossas vidas, nas vidas dos nossos filhos e netos, com as mentiras contadas?

E ainda há quem acredite nesta gente!

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Fontes

  1. Brookings Institution — «From chokepoint to crisis: The Strait of Hormuz and global oil markets», 8-6-2026. https://www.brookings.edu/articles/from-chokepoint-to-crisis-the-strait-of-hormuz-and-global-oil-markets/
  2. Banco Central Europeu — Blog: «Energy shock: why oil and gas prices have risen less than expected», 27-7-2026. https://www.ecb.europa.eu/press/blog/date/2026/html/ecb.blog20260727~1212bdb8f9.en.html
  3. FMI — «How the War in the Middle East Is Affecting Energy, Trade, and Finance», 30-3-2026. https://www.imf.org/en/blogs/articles/2026/03/30/how-the-war-in-the-middle-east-is-affecting-energy-trade-and-finance
  4. Wikipédia (EN) — «2026 Iran war fuel crisis» (consultado em 8-9-2026). https://en.wikipedia.org/wiki/2026_Iran_war_fuel_crisis
  5. Cargopedia — «Os preços dos combustíveis na Europa», 24-8-2026. https://www.cargopedia.pt/os-pre%C3%A7os-dos-combust%C3%ADveis-na-europa
  6. OMV — «OMV closes the acquisition of 51% of SNP Petrom SA», 14-12-2004. https://www.omvpetrom.com/en/media/latest-news/2004/omv-closes-the-acquisition-of-51-of-snp-petrom-sa-december-14-2004-10-30-am-
  7. Reuters / Ekathimerini — «OMV signs ‘historic’ Petrom buy», 24-7-2004. https://www.ekathimerini.com/economy/24477/omv-signs-historic-petrom-buy/
  8. wiiw — G. Hunya, «Privatization Disputes in Romania – the Petrom Case», 2007. https://wiiw.ac.at/privatization-disputes-in-romania–the-petrom-case-dlp-428.pdf
  9. PKN Orlen — «PKN ORLEN’s acquisition of Unipetrol» (anúncio regulamentar n.º 41/2004), 4-6-2004. https://www.orlen.pl/en/investor-relations/reports-and-publications/regulatory-announcements/2004/02/Regulatory-announcement-no-41-2004
  10. Wikipédia (EN) — «Orlen Unipetrol». https://en.wikipedia.org/wiki/Orlen_Unipetrol
  11. OSW — «Hungary will buy Russian shares in MOL», 25-5-2011. https://www.osw.waw.pl/en/publikacje/analyses/2011-05-25/hungary-will-buy-russian-shares-mol
  12. Jamestown Foundation — «Major Russian Oil Company Secretly Buys Into Hungary’s MOL», 3-4-2009. https://jamestown.org/major-russian-oil-company-secretly-buys-into-hungarys-mol/
  13. Jamestown Foundation — «Polish Company Acquires Majority Stake in Lithuania’s Oil Sector», 2006. https://jamestown.org/polish-company-acquires-majority-stake-in-lithuanias-oil-sector/
  14. The New York Times — «Poland: Oil concern buys a refinery», 15-12-2006. https://www.nytimes.com/2006/12/15/business/world-business-briefing-europe-poland-oil-concern-buys-a-refinery.html
  15. Wikipédia (EN) — «Orlen Lietuva». https://en.wikipedia.org/wiki/Orlen_Lietuva
  16. Galp — Relatório & Contas 2006. https://www.galp.com/corp/Portals/0/Recursos/Investidores/SharedResources/Relatorios/PT/2006RA/RelatorioEContas.pdf
  17. Público — «Galp encerra hoje ciclo de duas décadas de grandes privatizações», 23-10-2006. https://www.publico.pt/2006/10/23/economia/noticia/galp-encerra-hoje-ciclo-de-duas-decadas-de-grandes-privatizacoes-1274215
  18. AbrilAbril — «Galp: Estado perdeu milhões nos últimos dez anos», 24-10-2016. https://www.abrilabril.pt/nacional/galp-estado-perdeu-milhoes-nos-ultimos-dez-anos
  19. Energy Monitor — «Big Oil profits soared to nearly $200bn in 2022», 8-2-2023. https://www.energymonitor.ai/finance/big-oil-profits-soared-to-nearly-200bn-in-2022/
  20. ExxonMobil — «ExxonMobil announces full-year 2022 results», 31-1-2023. https://corporate.exxonmobil.com/news/news-releases/2023/0131_exxonmobil-announces-full-year-2022-results
  21. AIE — Políticas: «Renationalisation of EDF» (atualizado em 1-4-2025). https://www.iea.org/policies/16429-renationalisation-of-edf
  22. EDF — «The French State becomes the sole shareholder of EDF again», 15-6-2023. https://chile.edf.com/en/news/the-french-state-becomes-the-sole-shareholder-of-edf-again
  23. Eni — «Eni’s shareholders» (estrutura acionista, atualizada em junho de 2026). https://www.eni.com/en-IT/governance/shareholding-structure.html
  24. HRADF / Greek Growth Fund — «Hellenic Petroleum». https://growthfund.gr/en/project/hellenic-petroleum/
  25. Gulf News — «Statoil debuts at premium to IPO price», 19-6-2001. https://gulfnews.com/business/energy/statoil-debuts-at-premium-to-ipo-price-1.419282
  26. Statoil — Annual Report and Accounts 2001. https://www.equinor.com/content/dam/statoil/documents/annual-reports/2001/statoil-annual-report-2001.pdf
  27. Bolsa de Valores de Budapeste — perfil da MOL Nyrt. (free float de 61,56%). https://bse.hu/pages/company_profile/$security/MOL

Hugo Dionísio

Hugo Dionísio is a Lawyer, researcher and geopolitics’ analyst. He is the owner of Canal-factual.wordpress.com Blog and co-founder of MultipolarTv, a Youtube Channel targeted to geopolitical analysis. He develops activity as Human Rights and Social rights activist as board member of the Portuguese Democratic Lawyers Association. He is also a researcher at the Portuguese Workers Trade Union Confederation (CGTP-IN).

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Frontalidade espanhola perturba o pensamento único

(José Goulão, in AbrilAbril, 03/08/2026)


O actual ataque a Espanha usando seres humanos pobres e sujeitos a terríveis sofrimentos como carne para canhão é mais um exemplo do indigno arsenal de combate desenvolvido pelo imperialismo, e o Ocidente em geral, para impôr os seus interesses autocráticos.


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Passa pela cabeça de alguém que através de um mágico clique, accionado algures no reino de Marrocos, quiçá em Telavive ou Washington, dezenas de milhares de marroquinos e outros africanos se tenham posto simultaneamente em movimento ao assalto da cidade autónoma espanhola de Ceuta, para daí tentarem espalhar-se por todo o território espanhol?

Onde estarão os congeminadores, os agitadores e os cúmplices desta operação? Não é possível, ou pelo menos seguro, apontá-los a dedo. Mas sabe-se como funcionam, percebem-se as suas estratégias, identificam-se os seus objectivos.

O objectivo, não tenho disso qualquer dúvida, é o de derrubar o governo de Pedro Sánchez em Madrid. Um executivo montado com base no Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e que, quando já ninguém esperava que tal coisa acontecesse, descarrilou do trajecto neoliberal e suicida adoptado pelos seus «irmãos» em todo o mundo.

Por esta razão, e devido às consequências que se vão desenvolvendo com uma coerência assustadora para as estruturas do poder globalista em Bruxelas e Washington, a autocracia que se esconde atrás da «democracia liberal» decidiu agir. Coleccionou motivos, pretextos e conspirações convergentes para pôr fim à vida do governo de Sánchez.

Nem nos piores pesadelos de Von der Leyens, Costas e Trumps poderá haver lugar para enfants terribles, soberanistas e pensamentos discordantes no interior da União Europeia e da NATO. Os polícias da «democracia liberal», dos nossos «valores compartilhados» e da «nossa civilização» não admitem opiniões dissonantes no interior de um pluralismo que se manifesta com voz única.

Governo de Sánchez é para abater

Não tenham dúvidas, nem ilusões: em Washington e Bruxelas já foi definido o futuro de Sánchez: chefe de governo a abater. O problema é que não lhes será fácil atingir esse objectivo golpista com um estalar de dedos: não menosprezem Espanha como um país corajoso, senhor de si e da sua diversidade. Espanha nunca foi, nem é, um reles «bom aluno»; conhece o seu poder, não se acobarda e, pelos caminhos que trilha, nunca aceitará dissolver-se e desaparecer num magma em que as nações e os cidadãos sejam reduzidos à ínfima espécie. Espanha, não tenham dúvidas, é um calhau nos sapatos das máfias de Bruxelas e Washington. Não será fácil removê-lo.

A carga contra Ceuta através do desumano aproveitamento de toda a espécie de carências e indignidades coloniais a que estão submetidos os marroquinos e outros povos do Norte de África é  a última versão dos instrumentos usados para desestabilizar Espanha. O senhor de Washington e os súbditos de Bruxelas acarinham essa ideia fixa desde que Pedro Sánchez provou, sem deixar dúvidas, de que não está em sintonia total com o regime de capitalismo selvagem cultivado pelos Estados Unidos e a União Europeia, com objectivos militares e globalistas.

Pedro Sánchez não é um revolucionário social, não questiona o sistema capitalista; porém, aparenta ser um social-democrata que mantém referências a uma social-democracia que já não se usa. Para ser hoje um autêntico ocidental é preciso venerar o fundamentalismo neoliberal. Sánchez não o faz, logo é um erro de casting, um bug no sistema. Basta alguém seguir uma linha em alguma medida desrespeitadora da receita política única para cair em desgraça nos bastidores sombrios, conspirativos e vingativos de Bruxelas e Washington. 

Ora, Sánchez não irá permitir que a juventude espanhola pague o preço dos delírios belicistas e expansionistas em que a União Europeia mergulha cada vez mais para tentar garantir a sobrevivência do nazismo banderista de Kiev. Delírios esses associados, por sua vez, ao mito das supostas ambições russas em toda a Europa – a tal falsificação que garante lucros brutais, de volumes inimagináveis, às mega corporações do armamento, da energia e dos media.

Sánchez também usa a sua voz firme e confiante para defender a Palestina, o povo palestiniano e para confrontar – sem medo – o regime fascista sionista de Israel, as suas práticas genocidas e anexionistas e o desrespeito pelo direito internacional. Eis o insólito a que chegámos: o governo espanhol é o único do mundo ocidental, que tanto diz guiar-se pelo direito internacional, a respeitar, de facto, o direito internacional. E para os autocratas de Bruxelas isso é inadmissível.

Ter vontade e personalidade é fatal

O cerco a Pedro Sánchez iniciou-se ao nível mais elementar – o plano interno. E logo com um admirável peso de legitimidade: os franquistas do Vox e do Partido Popular, marchando em ordem unida com o poderoso aparelho patronal, rastejando todos eles no pântano da corrupção institucional, montaram uma campanha contra a suposta corrupção do governo de Sánchez. Apesar de uma boa parte da comunicação social ser muito dócil quando se trata das ordens dos sectores passadistas, a campanha ainda não atingiu os objectivos; mas não morreu, apenas parece patinar.

A seguir somaram-se à campanha de descrédito contra o governo as posições patrióticas assumidas por Sánchez perante as ordens da NATO e de Trump para aumentar os gastos militares de cada aliado até 5% do PIB. O não de Sánchez foi rotundo desde logo – colocando-o na mira de Trump, que o adoptou como inimigo de estimação.

O peso da cada vez mais forte voz do governo espanhol em defesa da Palestina e dos palestinianos reforça o desespero dos aliados da NATO e da União Europeia. Sánchez foi o único chefe de governo destas alianças a passar das palavras aos actos, dando o exemplo de medidas que podem, de facto, embaraçar o totalitarismo sionista. Além disso, a firmeza do governo espanhol ultrapassou as fronteiras do país, encorajou populações de nações europeias e dos Estados Unidos a não temerem colocar-se ao lado dos palestinianos e ostentarem simbologia e bandeiras que fizeram crescer a visibilidade da questão palestiniana no mundo.

Para infelicidade de muitos, sobretudo os que tudo fizeram, a começar por Trump, para que a indomável Espanha não vencesse o campeonato do mundo de futebol, o tiro saiu-lhes pela culatra. Apesar das manobras de viciação da competição, uma executadas, outras preparadas, a verdade desportiva acabou por prevalecer dentro das quatro linhas.

O exemplo espanhol alastrou e observaram-se acções de solidariedade com a Palestina em quase todos os jogos da competição. As selecções do Egipto e do Irão tomaram também como suas as bandeiras palestinianas e por essa razão, ninguém duvide disso, foram vítimas de miseráveis e fatais erros de arbitragem.

A campanha de matriz espanhola, contudo, deu grande alento à causa palestiniana. A imagem do genial jovem jogador Lamine Yamal exibindo uma enorme bandeira da Palestina nos festejos da vitória espanhola, e solidarizando-se com o seu povo em muitas entrevistas, deixou uma marca que não irá apagar-se e, certamente, frutificará.

Não restam dúvidas, portanto, de que o ataque a Espanha conduzido por Marrocos e os seus protectores visíveis e invisíveis, sacrificando dezenas de milhares de pobres e marginalizados do Norte de África numa enorme vaga de desestabilização, é uma operação de grau superior contra o governo de Sánchez. Não é por acaso que surgiram dos quadrantes fascistas as primeiras sugestões para que a Espanha seja suspensa do Acordo de Schengen, por não saber lidar com os problemas da imigração. A inimitável Meloni, o reaccionaríssimo governo finlandês, os dirigentes xenófobos da Suécia e da Dinamarca e o imprescindível Ventura cavalgam na crista da onda para que o governo espanhol seja castigado.

Marrocos, por seu lado, ficou ainda com as costas mais quentes depois de Donald Trump, como dono do mundo, ter garantido a construção de uma auto-estrada de 120 quilómetros ligando o território marroquino ao território ocupado da República Saarauí Democrática, como via para a anexação da antiga colónia espanhola do Saara Ocidental. 

Circunstância que representa também um ataque directo contra os direitos internacionais espanhóis. Isto é, os Estados Unidos, a União Europeia e Marrocos, que durante décadas prorrogaram a organização de um referendo tutelado pela ONU para que o povo saarauí pudesse decidir o seu futuro, aceitam agora que uma autoestrada resolva o problema e Marrocos possa finalmente engolir o Saara Ocidental. Para gáudio do Ocidente e de Israel, de modo a que assim se cumpram, à sua maneira, os direitos humanos e o direito internacional.

Um resort de luxo em Gaza e uma auto-estrada turística, que também possibilitará a rapina de outras importantes riquezas do Saara Ocidental, consumarão as limpezas étnicas na Palestina e neste país do Norte de África. Assim sendo, engordarão ainda mais os bolsos de quem de direito e, no fim da linha, instalará paraísos turísticos sobre os restos mortais de milhões de seres humanos supliciados. Desta maneira humanista, o Ocidente tenta dar-nos a ilusão de que implantou as bandeiras da paz e da civilização em territórios há muito amaldiçoados por impuros, bárbaros, hereges. Mais uma cruzada bem sucedida.

No entanto, do fundo das catacumbas de conspiração onde se cozinham as receitas dos novos e falsos pacifismos emergiu a Espanha, com o seu quê de inesperado, sabendo nós como o totalitarismo é absorvente e alérgico aos desvios de linha. Apesar do cerco e de tantas manobras multifacetadas, o governo de Pedro Sánchez renova-se em coragem e não se deixa abalar pelas ameaças.

O ataque a Ceuta é grave, e uma aposta forte dos inimigos da Espanha. Aqueles que o conduzem não têm qualquer respeito pelos seres humanos que sacrificam, quanto mais não seja porque os fins justificam os meios. E montaram a operação, como é próprio de mentes perversas e doentes, de maneira a coincidir com a tragédia dos pavorosos incêndios que assolam o território espanhol e mobilizam a maior parte dos seus efectivos de segurança e protecção civil.

Entretanto, muitas das vítimas da gigantesca arruaça reconheceram o engodo, o logro, e estão a regressar a Marrocos, evitando, in extremis, a armadilha que lhes foi montada por quem não os considera gente.

Os cidadãos dos países da União Europeia e da NATO têm muito a agradecer a Espanha e devem pôr os olhos no seu exemplo. Afinal, e ainda que não seja fácil, é possível pôr em xeque o totalitarismo do chamado «mundo ocidental» e desmascarar essa fraude ardilosa conhecida como «democracia liberal».

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