O Grande Assalto: como a UE vendeu o petróleo dos povos antes do jackpot do século XXI

(Hugo Dionísio, in S. C. F., 12/09/2026, Revisão da Estátua)


UE privatizou petroleiras e entregou lucros ao capital privado. Preços explodem enquanto Rússia e Bielorrússia mantêm gasolina barata.


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O superpoder da dissimulação da UE na preparação do assalto

No plano dos combustíveis fósseis, como a gasolina e o gasóleo, a história da energia dispendiosa não começa com o euro, não começa com a guerra da Ucrânia e nem agora com o desastre trumpista no Golfo Pérsico. Um dos capítulos mais importantes do desastre estratégico e energético da UE começa a desenhar-se muito antes, na lógica rentista, monopolista e privada que a UE representa. O drama energético que vivemos hoje na União Europeia resulta de algo muito profundo: uma arquitetura neoliberal que cobra um preço altíssimo pela entrada no clube restrito, que dá aos Estados periféricos o direito de perderem a sua soberania, a juventude mais qualificada e o condicionamento do seu setor produtivo aos ditames ocidentalistas.

Tudo começa quando a Comissão Europeia declarou guerra aos monopólios! Mas esta guerra aos monopólios, por acaso — e só por acaso — «estatais», visava outro objetivo, mais sub-reptício: a reestruturação do setor energético, de forma a que fosse colocado ao serviço da lógica rentista. Como tal, ao invés de destruir tais monopólios, a UE descobriu que a forma mais eficaz de os «derrubar» não passava por proibi-los, mas antes por obrigar os Estados a vendê-los. Golpe de mestre! Tudo sob uma capa de promissora «liberalização», já identificada, noutros momentos históricos, como altamente perniciosa.

As diretivas de liberalização dos mercados da energia, o mercado único e a Agenda de Lisboa traçaram o algoritmo pretendido: a) separar a rede da produção; b) abrir a entrada ao capital nacional e estrangeiro; c) proibir as participações cruzadas por parte do Estado. Neste processo, a UE mostrou todo o seu horror à soberania nacional, à independência dos povos, à sua liberdade, em última instância. Em troca da liberdade coletiva, que lhes roubou, prometia-lhes a liberdade individual de comprar, pagar, escolher, o endividamento fácil e o desenraizamento social.

O resto do percurso foi simples! A partir do poder que a Comissão tem de conformar os governos nacionais às pretensões que representa — através de um conjunto cruzado e integrado de condicionalidades, recomendações, planos, agendas e estratégias, bem ancoradas em fundos comunitários e na sua conexão com a política económica exigida —, foi o trabalho das próprias governações nacionais, ansiosas por mostrar «modernidade», «ambição», «pragmatismo» e «bom comportamento» (tudo muito contraditório), que fez o caminho chegar onde nos encontramos. A Comissão Europeia tem este superpoder da dissimulação: dona e senhora da capacidade de atribuir todas as culpas aos governos eleitos, reservando para si uma burocracia totalitária, inescapável, inescrutável e autoritária.

E assim, é razão para dizer que, antes do ser, já o era! Ainda antes de a moeda única nascer e levar com ela uma fatia enorme das soberanias nacionais, especialmente dos países mais periféricos, necessitados do Fundo de Coesão, os maiores países da futura moeda única despojaram-se dos seus maiores «ativos» estratégicos: a Itália vendeu a ENI em quatro ofertas públicas entre 1995 e 1998, «libertando» o Estado de cerca de 70% da empresa.

A Espanha «abriu» o capital da Repsol e da Cepsa, e a torneira jorrou até ficar seca; o Reino Unido já nem tinha o que vender — vendera a última fatia pública da BP entre 1979 e 1987, uma década antes dos outros sequer começarem (o Estado britânico, note-se, nunca deteve a maioria da BP). Até a França, que na energia elétrica chegou a reter jóias como a EDF — hoje integralmente pública outra vez, renacionalizada em 2023 —, teve de se «libertar» da Total. A fórmula utilizada era engenhosa: o Estado recebia uns milhares de milhões de euros — regularmente a pretexto de uma qualquer crise do déficit ou da dívida impulsionada por Bruxelas — e, em troca, entregava um fluxo infinito e contínuo de lucros monopolistas a acionistas privados, prescindindo assim de propriedade, controlo, rendimento e alavanca de política energética e industrial. Sobrou um controlo parcial na Itália — onde o Estado manteve cerca de 30% da ENI, hoje 33% — e pouco mais. A Alemanha, a Bélgica, os Países Baixos e o Luxemburgo nunca contaram com estatais monopolistas neste domínio dos combustíveis.

O euro, esse acelerador da combustão dos «fardos» monopolistas estatais

A moeda única não foi só uma moeda: foi um catalisador, um aspirador de ativos estratégicos e um colete de forças. À sombra da entrada da «moeda única», a UE varreu os últimos vestígios de um mercado soberano de combustíveis fósseis. Tratou-se de um instrumento de convergência económica que incluía, nos seus pressupostos, a receita dogmática neoliberal da «redução do peso do Estado na economia». Nesses tempos, não houve noticiário televisivo, crónica económica e intervenção dos partidos do «centro moderado» que mostrassem alguma moderação na afirmação de tal princípio. O resultado foi direto: o que faltava vender, vendeu-se!

Portugal executou o modelo exemplar da privatização faseada, pois, à data, ainda havia muita força no lado soberanista da esquerda, que obrigava o «centro moderado», mas radicalmente neoliberal, a encontrar a forma mais dissimulada de dar a facada final nos combustíveis portugueses: quatro blocos de venda da Galp entre 1999 e 2006, culminando no IPO de 23% em outubro de 2006. Sob o pretexto do combate ao déficit e à dívida pública, com o executivo de Durão Barroso e de Manuela Ferreira Leite, a «Thatcher portuguesa», Portugal foi «libertado» do terrível monopólio da Galp. Grécia, Finlândia e Áustria são as únicas resistentes, com participações públicas acima dos 30%. Em 2021, a Grécia acordou a venda de 20% dos 35,5% que ainda detinha na Hellenic Petroleum — operação concluída em 2023.

A conclusão é simples: quando o euro entrou em circulação física, consagrando o sistema euro-dólar, em 2002, o mapa energético europeu já fora redesenhado: os monopólios nacionais deixaram de pertencer às nações, mas continuaram a existir, apenas tendo mudado de mãos públicas para privadas. Passaram a pertencer ao mercado. Como constataremos, ser do mercado significa ter dono, e significa que o dono tem de ganhar mais — muito mais!

Importa também não desligar esta estratégia fomentada por Bruxelas de dois outros fatores: a importância do petrodólar enquanto âncora do dólar e a necessidade de que as transações dos produtos petrolíferos passassem a ser feitas em moedas não nacionais, o que foi conseguido através do euro; e a importância da entrada do capital internacional dolarizado no capital das empresas privatizadas. Também aqui somos vítimas do dólar, do petrodólar e da subserviência do sistema euro ao dólar.

O alargamento: entregar o ativo energético como preço de entrada no clube restrito do «sonho europeu»

Se os capítulos anteriores foram uma desistência, o grande alargamento que decorreu de 2004 a 2013 foi uma rendição, uma chantagem e uma submissão. Para entrar no clube do «sonho europeu», os países do centro e leste europeu tiveram de vender as refinarias, os gasodutos e as petrolíferas. A taxa de entrada era entregar ao mercado algo de muito rentável e parte da âncora da moeda de reserva hegemónica. Tal como a unificação alemã, o alargamento a Leste deslocou o eixo do poder europeu, definitivamente, da França primeiro, e do eixo franco-alemão depois, para o outro lado do Atlântico, sob a tutela da burocracia de Bruxelas.

A cronologia é eloquente e não deixa dúvidas, valendo mais do que as palavras ocas em sentido contrário: a Roménia vendeu o controlo da Petrom à austríaca OMV em dezembro de 2004 — 669 milhões de euros pagos ao Estado romeno pelos 33,34% iniciais e mais um aumento de capital, no valor de 830 milhões de euros, que elevou a OMV a 51% e nem sequer entrava nas contas públicas. No total, a operação situava o valor da Petrom nos 2,2 mil milhões de euros. Uma oferta em nome do povo romeno!

A Chéquia vendeu cerca de 63% da Unipetrol aos polacos da PKN Orlen por uns míseros 11,3 mil milhões de coroas (cerca de 380 milhões de euros, à cotação da época). A Lituânia viu a única refinaria dos pequenos bálticos — a Mažeikių Nafta (da «pesada» herança soviética) — ser comprada pelos polacos da Orlen, em 2006, por cerca de 2,3 mil milhões de dólares no total, dos quais apenas cerca de 850 milhões reverteram para o Estado lituano, numa operação que Vilnius justificou explicitamente por razões de segurança nacional, porque os russos haviam tentado comprá-la! E que tal terem ficado com ela?

A Hungria é das únicas resistentes, mas não por acaso. Os russos da Surgutneftegaz haviam comprado em 2009 21,2% da MOL à austríaca OMV e, em 2011, o Estado húngaro readquiriu esse pacote — por 1,88 mil milhões de euros — para afastar o controlo russo. Com Orbán, talvez por isso mesmo, o Estado manteve-se acionista de referência, o que explica o ódio que lhe têm gente como Soros. Na Hungria, os combustíveis são mais baratos do que em grande parte da UE — muito mais baratos —, tão mais acessíveis que um eurocrata de Bruxelas, numa conferência em Budapeste, me disse que «o Estado húngaro subsidia os combustíveis». O eurocrata despejava ali o seu ódio, mas não contra o facto de Orbán ser da direita conservadora e reacionária; antes, culpava-o de ser um desastre na economia e na justiça. Talvez este tipo devesse olhar para cima, para a própria presidente da UE. O facto é que, na Hungria, onde vigoraram durante anos tectos de preço nos combustíveis, esses custam hoje menos do que na maioria dos países da Europa. A outra exceção é a Polónia, cuja petrolífera PKN Orlen permanece sob controlo do Estado e que, em 2022, reforçou esse controlo com a fusão Orlen–Lotos. Adivinhem que preços pratica? Pois: uns dos mais baixos da UE!

A recolha do grande prémio!

O mercado europeu estava pronto para o choque. Se o papel que hoje a UE tem na alimentação dos ganhos de energia dos EUA, na sustentação do dólar e do petrodólar e nos preços elevados dos combustíveis é resultado da arquitetura corporativista encetada por Bruxelas, ou o contrário — ou seja, se os preços elevados e o reforço dos fluxos de capital financeiro associado são resultado do papel assumido —, não sabemos. O que sabemos é que o resultado é simples: os Estados foram desapropriados de ativos importantíssimos para o desenvolvimento europeu, os povos ficaram a pagar o combustível muito mais caro, os Estados tiveram de aumentar os impostos sobre produtos petrolíferos para compensar as perdas e a economia europeia está um inferno. Com exceção das que se mantiveram públicas ou parcialmente públicas, comprar gasolina ou gasóleo é proibitivo para um trabalhador europeu médio, ou para um pequeno empresário!

O que nos é possível observar é muito simples: ao longo de todo o século XXI assistimos a um sem-fim de picos petrolíferos que resultaram em ganhos especulativos brutais e em preços dos combustíveis ainda mais brutais. As subidas abruptas e as descidas ténues passaram a constituir um instrumento para a obtenção de ganhos especulativos — não pelos Estados, mas pelos detentores privados desse capital. Aos povos europeus, à economia não especulativa, restaram os preços elevadíssimos e os impostos brutais, que visam compensar as perdas anteriores.

De 1999 — o ano do euro «em conta», quando o barril andava pelos 10–20 dólares — até hoje, o petróleo multiplicou o seu preço por vários fatores, com ciclos dos 147 dólares em 2008, da guerra da Ucrânia em 2022 e do choque de 2026.

Só em 2022, as cinco supermajors — ExxonMobil, Shell, Chevron, BP e TotalEnergies — somaram cerca de 200 mil milhões de dólares de lucros, o maior ano da sua história: a Shell bateu o recorde dos seus 115 anos, a ExxonMobil chegou aos 59,1 mil milhões de lucros. Desde o início da guerra na Ucrânia, o mesmo grupo acumulou, ao que se estima, quase meio bilião de dólares — cerca de 467 mil milhões.

O movimento do capital não mente: nos EUA, metade dos lucros extraordinários do setor fóssil de 2022 terá cabido ao 1% mais rico, enquanto os 50% mais pobres receberam 1% da riqueza produzida (dado que não foi possível confirmar em fontes públicas). Nesta montanha-russa de subidas e descidas, os EUA tornaram-se o fornecedor privilegiado da União Europeia e o maior produtor de petróleo do mundo!

A realidade fora da UE: a soberania contradiz a tendência

Não pode haver ingenuidades ou condescendências de qualquer tipo. Fora da UE, o mapa dos preços demonstra a tendência referida. Em abril de 2026, a gasolina custava na Rússia cerca de 0,80 dólares por litro e na Bielorrússia 0,90 — contra cerca de 2,50 euros na Alemanha, 2,60 na Dinamarca e 2,90 nos Países Baixos, os preços mais altos do mundo «avançado». Estes dois países recuperaram o controlo público perdido nos anos 90 e não querem saber de políticas anti-monopólio (do Estado, apenas) por parte da UE, do FMI e do Banco Mundial.

A Sérvia, candidata eterna ao clube e por isso pressionada a «reformar» o seu setor, situava-se nos 1,90 euros — bastante abaixo do preço dos Países Baixos. Contra a Sérvia temos o encravamento continental e o facto de não ter petróleo.

Daí que a explicação não seja geográfica e não interessa explicar. Onde o Estado controla a cadeia de valor — extração, refinação, importação —, pode fazer «trade-off» (compensações entre fatores diferentes) e decidir que o combustível é um bem estratégico e não uma mercadoria especulativa, transferindo, através de um preço interno mais reduzido, o rendimento que a UE entregou e decidiu obrigar outros a entregar ao mercado. Um mercado ávido de lucros, que quer vê-la crescer até ao céu, deslocando para os seus «offshores» fatias cada vez maiores de riqueza sonegada ao crescimento económico e social dos Estados.

A Noruega é talvez o caso mais instrutivo: tem dos preços mais altos da Europa na bomba, mas abriu o capital da Statoil em 2001 e nunca deixou o Estado descer dos dois terços do capital total (hoje Equinor). Então o que se passa? O que se passa é que o dinheiro dos preços altos não engorda um acionista: alimenta o fundo soberano que pertence a cada norueguês, a todos os noruegueses.

A Rússia e a Bielorrússia escolheram o preço baixo, beneficiando o consumidor; a Noruega escolheu o fundo soberano; a UE escolheu o acionista, a oligarquia. Todos escolheram. A diferença é quem recebe. Esta é a diferença, hoje, entre estar ou não estar na UE. O resto é conversa para estupidificar quem esteja excessivamente entregue à solidão reflexiva e brutalmente exposto à «informação» desconexa das redes sociais e à manipulação dos órgãos dominantes.

A UE como motor de empobrecimento: engordar uns poucos, matar de fome todos os outros

Volta-se assim ao princípio e fecha-se o círculo. Entre 1995 e 2009, a Europa — primeiro voluntariamente, depois sob coação de alargamento — transferiu para o capital privado os monopólios energéticos que as gerações anteriores construíram de forma coletiva e que foram responsáveis pela elevação incomparável dos padrões de vida e de rendimento.

A instituição de economias mistas, dotando os Estados de recursos estratégicos e fundamentais, possibilitou a socialização dos resultados da produção, elevando a educação, a saúde, o conhecimento, a tecnologia e a alimentação de todos os europeus. Entre os anos 50 e os anos 70, a Europa Ocidental viveu os seus 30 anos dourados. A presença de uma URSS dotada de padrões sociais elevados obrigou o capital a concessões antes impensáveis. Centenas de milhões de trabalhadores e suas famílias puderam beneficiar da socialização de alguns dos resultados da sua própria produção. A Europa tornou-se o continente mais desenvolvido, industrializado, democrático e avançado do ponto de vista humano.

Desaparecida a URSS e, com ela, o «perigo comunista», enfraquecidos os sindicatos e os partidos de classe que reclamam para quem trabalha a sua fatia digna de riqueza, chegámos ao tempo da desforra, da recolha dos despojos. O facto de nunca se ter ensinado o que foi realmente o fascismo, a sua ligação intrínseca ao capitalismo, o papel que a luta de classes teve na elevação dos padrões de vida da UE, a importância de partidos que sejam capazes de exigir e propor medidas radicalmente diferentes, que mudem, que criem rupturas, resultou num estado de inconsciência histórica que está a conduzir à repetição dos mesmos erros. Porque quem não conhece a sua história está fadado a repetir os mesmos dramas!

A concentração de riqueza nos países mais fragilizados pelas estratégias neoliberais encetadas pela UE, ao serviço de Washington e do seu sistema hegemónico, faz com que o cidadão comum pague a gasolina quase ao triplo do preço russo e trabalhe para a pagar com salários que não acompanham a curva do Brent. Existe alternativa, e a alternativa está no controlo público destes ativos estratégicos.

A Noruega, no topo dos índices sociais, mas fora do clube de Bruxelas, demonstra que a alternativa ao neoliberalismo não era utópica, que funcionava. Quem paga agora pelo dano causado? Quem nos compensa agora pelas perdas causadas, nas nossas vidas, nas vidas dos nossos filhos e netos, com as mentiras contadas?

E ainda há quem acredite nesta gente!

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Fontes

  1. Brookings Institution — «From chokepoint to crisis: The Strait of Hormuz and global oil markets», 8-6-2026. https://www.brookings.edu/articles/from-chokepoint-to-crisis-the-strait-of-hormuz-and-global-oil-markets/
  2. Banco Central Europeu — Blog: «Energy shock: why oil and gas prices have risen less than expected», 27-7-2026. https://www.ecb.europa.eu/press/blog/date/2026/html/ecb.blog20260727~1212bdb8f9.en.html
  3. FMI — «How the War in the Middle East Is Affecting Energy, Trade, and Finance», 30-3-2026. https://www.imf.org/en/blogs/articles/2026/03/30/how-the-war-in-the-middle-east-is-affecting-energy-trade-and-finance
  4. Wikipédia (EN) — «2026 Iran war fuel crisis» (consultado em 8-9-2026). https://en.wikipedia.org/wiki/2026_Iran_war_fuel_crisis
  5. Cargopedia — «Os preços dos combustíveis na Europa», 24-8-2026. https://www.cargopedia.pt/os-pre%C3%A7os-dos-combust%C3%ADveis-na-europa
  6. OMV — «OMV closes the acquisition of 51% of SNP Petrom SA», 14-12-2004. https://www.omvpetrom.com/en/media/latest-news/2004/omv-closes-the-acquisition-of-51-of-snp-petrom-sa-december-14-2004-10-30-am-
  7. Reuters / Ekathimerini — «OMV signs ‘historic’ Petrom buy», 24-7-2004. https://www.ekathimerini.com/economy/24477/omv-signs-historic-petrom-buy/
  8. wiiw — G. Hunya, «Privatization Disputes in Romania – the Petrom Case», 2007. https://wiiw.ac.at/privatization-disputes-in-romania–the-petrom-case-dlp-428.pdf
  9. PKN Orlen — «PKN ORLEN’s acquisition of Unipetrol» (anúncio regulamentar n.º 41/2004), 4-6-2004. https://www.orlen.pl/en/investor-relations/reports-and-publications/regulatory-announcements/2004/02/Regulatory-announcement-no-41-2004
  10. Wikipédia (EN) — «Orlen Unipetrol». https://en.wikipedia.org/wiki/Orlen_Unipetrol
  11. OSW — «Hungary will buy Russian shares in MOL», 25-5-2011. https://www.osw.waw.pl/en/publikacje/analyses/2011-05-25/hungary-will-buy-russian-shares-mol
  12. Jamestown Foundation — «Major Russian Oil Company Secretly Buys Into Hungary’s MOL», 3-4-2009. https://jamestown.org/major-russian-oil-company-secretly-buys-into-hungarys-mol/
  13. Jamestown Foundation — «Polish Company Acquires Majority Stake in Lithuania’s Oil Sector», 2006. https://jamestown.org/polish-company-acquires-majority-stake-in-lithuanias-oil-sector/
  14. The New York Times — «Poland: Oil concern buys a refinery», 15-12-2006. https://www.nytimes.com/2006/12/15/business/world-business-briefing-europe-poland-oil-concern-buys-a-refinery.html
  15. Wikipédia (EN) — «Orlen Lietuva». https://en.wikipedia.org/wiki/Orlen_Lietuva
  16. Galp — Relatório & Contas 2006. https://www.galp.com/corp/Portals/0/Recursos/Investidores/SharedResources/Relatorios/PT/2006RA/RelatorioEContas.pdf
  17. Público — «Galp encerra hoje ciclo de duas décadas de grandes privatizações», 23-10-2006. https://www.publico.pt/2006/10/23/economia/noticia/galp-encerra-hoje-ciclo-de-duas-decadas-de-grandes-privatizacoes-1274215
  18. AbrilAbril — «Galp: Estado perdeu milhões nos últimos dez anos», 24-10-2016. https://www.abrilabril.pt/nacional/galp-estado-perdeu-milhoes-nos-ultimos-dez-anos
  19. Energy Monitor — «Big Oil profits soared to nearly $200bn in 2022», 8-2-2023. https://www.energymonitor.ai/finance/big-oil-profits-soared-to-nearly-200bn-in-2022/
  20. ExxonMobil — «ExxonMobil announces full-year 2022 results», 31-1-2023. https://corporate.exxonmobil.com/news/news-releases/2023/0131_exxonmobil-announces-full-year-2022-results
  21. AIE — Políticas: «Renationalisation of EDF» (atualizado em 1-4-2025). https://www.iea.org/policies/16429-renationalisation-of-edf
  22. EDF — «The French State becomes the sole shareholder of EDF again», 15-6-2023. https://chile.edf.com/en/news/the-french-state-becomes-the-sole-shareholder-of-edf-again
  23. Eni — «Eni’s shareholders» (estrutura acionista, atualizada em junho de 2026). https://www.eni.com/en-IT/governance/shareholding-structure.html
  24. HRADF / Greek Growth Fund — «Hellenic Petroleum». https://growthfund.gr/en/project/hellenic-petroleum/
  25. Gulf News — «Statoil debuts at premium to IPO price», 19-6-2001. https://gulfnews.com/business/energy/statoil-debuts-at-premium-to-ipo-price-1.419282
  26. Statoil — Annual Report and Accounts 2001. https://www.equinor.com/content/dam/statoil/documents/annual-reports/2001/statoil-annual-report-2001.pdf
  27. Bolsa de Valores de Budapeste — perfil da MOL Nyrt. (free float de 61,56%). https://bse.hu/pages/company_profile/$security/MOL

Hugo Dionísio

Hugo Dionísio is a Lawyer, researcher and geopolitics’ analyst. He is the owner of Canal-factual.wordpress.com Blog and co-founder of MultipolarTv, a Youtube Channel targeted to geopolitical analysis. He develops activity as Human Rights and Social rights activist as board member of the Portuguese Democratic Lawyers Association. He is also a researcher at the Portuguese Workers Trade Union Confederation (CGTP-IN).

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Frontalidade espanhola perturba o pensamento único

(José Goulão, in AbrilAbril, 03/08/2026)


O actual ataque a Espanha usando seres humanos pobres e sujeitos a terríveis sofrimentos como carne para canhão é mais um exemplo do indigno arsenal de combate desenvolvido pelo imperialismo, e o Ocidente em geral, para impôr os seus interesses autocráticos.


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Passa pela cabeça de alguém que através de um mágico clique, accionado algures no reino de Marrocos, quiçá em Telavive ou Washington, dezenas de milhares de marroquinos e outros africanos se tenham posto simultaneamente em movimento ao assalto da cidade autónoma espanhola de Ceuta, para daí tentarem espalhar-se por todo o território espanhol?

Onde estarão os congeminadores, os agitadores e os cúmplices desta operação? Não é possível, ou pelo menos seguro, apontá-los a dedo. Mas sabe-se como funcionam, percebem-se as suas estratégias, identificam-se os seus objectivos.

O objectivo, não tenho disso qualquer dúvida, é o de derrubar o governo de Pedro Sánchez em Madrid. Um executivo montado com base no Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e que, quando já ninguém esperava que tal coisa acontecesse, descarrilou do trajecto neoliberal e suicida adoptado pelos seus «irmãos» em todo o mundo.

Por esta razão, e devido às consequências que se vão desenvolvendo com uma coerência assustadora para as estruturas do poder globalista em Bruxelas e Washington, a autocracia que se esconde atrás da «democracia liberal» decidiu agir. Coleccionou motivos, pretextos e conspirações convergentes para pôr fim à vida do governo de Sánchez.

Nem nos piores pesadelos de Von der Leyens, Costas e Trumps poderá haver lugar para enfants terribles, soberanistas e pensamentos discordantes no interior da União Europeia e da NATO. Os polícias da «democracia liberal», dos nossos «valores compartilhados» e da «nossa civilização» não admitem opiniões dissonantes no interior de um pluralismo que se manifesta com voz única.

Governo de Sánchez é para abater

Não tenham dúvidas, nem ilusões: em Washington e Bruxelas já foi definido o futuro de Sánchez: chefe de governo a abater. O problema é que não lhes será fácil atingir esse objectivo golpista com um estalar de dedos: não menosprezem Espanha como um país corajoso, senhor de si e da sua diversidade. Espanha nunca foi, nem é, um reles «bom aluno»; conhece o seu poder, não se acobarda e, pelos caminhos que trilha, nunca aceitará dissolver-se e desaparecer num magma em que as nações e os cidadãos sejam reduzidos à ínfima espécie. Espanha, não tenham dúvidas, é um calhau nos sapatos das máfias de Bruxelas e Washington. Não será fácil removê-lo.

A carga contra Ceuta através do desumano aproveitamento de toda a espécie de carências e indignidades coloniais a que estão submetidos os marroquinos e outros povos do Norte de África é  a última versão dos instrumentos usados para desestabilizar Espanha. O senhor de Washington e os súbditos de Bruxelas acarinham essa ideia fixa desde que Pedro Sánchez provou, sem deixar dúvidas, de que não está em sintonia total com o regime de capitalismo selvagem cultivado pelos Estados Unidos e a União Europeia, com objectivos militares e globalistas.

Pedro Sánchez não é um revolucionário social, não questiona o sistema capitalista; porém, aparenta ser um social-democrata que mantém referências a uma social-democracia que já não se usa. Para ser hoje um autêntico ocidental é preciso venerar o fundamentalismo neoliberal. Sánchez não o faz, logo é um erro de casting, um bug no sistema. Basta alguém seguir uma linha em alguma medida desrespeitadora da receita política única para cair em desgraça nos bastidores sombrios, conspirativos e vingativos de Bruxelas e Washington. 

Ora, Sánchez não irá permitir que a juventude espanhola pague o preço dos delírios belicistas e expansionistas em que a União Europeia mergulha cada vez mais para tentar garantir a sobrevivência do nazismo banderista de Kiev. Delírios esses associados, por sua vez, ao mito das supostas ambições russas em toda a Europa – a tal falsificação que garante lucros brutais, de volumes inimagináveis, às mega corporações do armamento, da energia e dos media.

Sánchez também usa a sua voz firme e confiante para defender a Palestina, o povo palestiniano e para confrontar – sem medo – o regime fascista sionista de Israel, as suas práticas genocidas e anexionistas e o desrespeito pelo direito internacional. Eis o insólito a que chegámos: o governo espanhol é o único do mundo ocidental, que tanto diz guiar-se pelo direito internacional, a respeitar, de facto, o direito internacional. E para os autocratas de Bruxelas isso é inadmissível.

Ter vontade e personalidade é fatal

O cerco a Pedro Sánchez iniciou-se ao nível mais elementar – o plano interno. E logo com um admirável peso de legitimidade: os franquistas do Vox e do Partido Popular, marchando em ordem unida com o poderoso aparelho patronal, rastejando todos eles no pântano da corrupção institucional, montaram uma campanha contra a suposta corrupção do governo de Sánchez. Apesar de uma boa parte da comunicação social ser muito dócil quando se trata das ordens dos sectores passadistas, a campanha ainda não atingiu os objectivos; mas não morreu, apenas parece patinar.

A seguir somaram-se à campanha de descrédito contra o governo as posições patrióticas assumidas por Sánchez perante as ordens da NATO e de Trump para aumentar os gastos militares de cada aliado até 5% do PIB. O não de Sánchez foi rotundo desde logo – colocando-o na mira de Trump, que o adoptou como inimigo de estimação.

O peso da cada vez mais forte voz do governo espanhol em defesa da Palestina e dos palestinianos reforça o desespero dos aliados da NATO e da União Europeia. Sánchez foi o único chefe de governo destas alianças a passar das palavras aos actos, dando o exemplo de medidas que podem, de facto, embaraçar o totalitarismo sionista. Além disso, a firmeza do governo espanhol ultrapassou as fronteiras do país, encorajou populações de nações europeias e dos Estados Unidos a não temerem colocar-se ao lado dos palestinianos e ostentarem simbologia e bandeiras que fizeram crescer a visibilidade da questão palestiniana no mundo.

Para infelicidade de muitos, sobretudo os que tudo fizeram, a começar por Trump, para que a indomável Espanha não vencesse o campeonato do mundo de futebol, o tiro saiu-lhes pela culatra. Apesar das manobras de viciação da competição, uma executadas, outras preparadas, a verdade desportiva acabou por prevalecer dentro das quatro linhas.

O exemplo espanhol alastrou e observaram-se acções de solidariedade com a Palestina em quase todos os jogos da competição. As selecções do Egipto e do Irão tomaram também como suas as bandeiras palestinianas e por essa razão, ninguém duvide disso, foram vítimas de miseráveis e fatais erros de arbitragem.

A campanha de matriz espanhola, contudo, deu grande alento à causa palestiniana. A imagem do genial jovem jogador Lamine Yamal exibindo uma enorme bandeira da Palestina nos festejos da vitória espanhola, e solidarizando-se com o seu povo em muitas entrevistas, deixou uma marca que não irá apagar-se e, certamente, frutificará.

Não restam dúvidas, portanto, de que o ataque a Espanha conduzido por Marrocos e os seus protectores visíveis e invisíveis, sacrificando dezenas de milhares de pobres e marginalizados do Norte de África numa enorme vaga de desestabilização, é uma operação de grau superior contra o governo de Sánchez. Não é por acaso que surgiram dos quadrantes fascistas as primeiras sugestões para que a Espanha seja suspensa do Acordo de Schengen, por não saber lidar com os problemas da imigração. A inimitável Meloni, o reaccionaríssimo governo finlandês, os dirigentes xenófobos da Suécia e da Dinamarca e o imprescindível Ventura cavalgam na crista da onda para que o governo espanhol seja castigado.

Marrocos, por seu lado, ficou ainda com as costas mais quentes depois de Donald Trump, como dono do mundo, ter garantido a construção de uma auto-estrada de 120 quilómetros ligando o território marroquino ao território ocupado da República Saarauí Democrática, como via para a anexação da antiga colónia espanhola do Saara Ocidental. 

Circunstância que representa também um ataque directo contra os direitos internacionais espanhóis. Isto é, os Estados Unidos, a União Europeia e Marrocos, que durante décadas prorrogaram a organização de um referendo tutelado pela ONU para que o povo saarauí pudesse decidir o seu futuro, aceitam agora que uma autoestrada resolva o problema e Marrocos possa finalmente engolir o Saara Ocidental. Para gáudio do Ocidente e de Israel, de modo a que assim se cumpram, à sua maneira, os direitos humanos e o direito internacional.

Um resort de luxo em Gaza e uma auto-estrada turística, que também possibilitará a rapina de outras importantes riquezas do Saara Ocidental, consumarão as limpezas étnicas na Palestina e neste país do Norte de África. Assim sendo, engordarão ainda mais os bolsos de quem de direito e, no fim da linha, instalará paraísos turísticos sobre os restos mortais de milhões de seres humanos supliciados. Desta maneira humanista, o Ocidente tenta dar-nos a ilusão de que implantou as bandeiras da paz e da civilização em territórios há muito amaldiçoados por impuros, bárbaros, hereges. Mais uma cruzada bem sucedida.

No entanto, do fundo das catacumbas de conspiração onde se cozinham as receitas dos novos e falsos pacifismos emergiu a Espanha, com o seu quê de inesperado, sabendo nós como o totalitarismo é absorvente e alérgico aos desvios de linha. Apesar do cerco e de tantas manobras multifacetadas, o governo de Pedro Sánchez renova-se em coragem e não se deixa abalar pelas ameaças.

O ataque a Ceuta é grave, e uma aposta forte dos inimigos da Espanha. Aqueles que o conduzem não têm qualquer respeito pelos seres humanos que sacrificam, quanto mais não seja porque os fins justificam os meios. E montaram a operação, como é próprio de mentes perversas e doentes, de maneira a coincidir com a tragédia dos pavorosos incêndios que assolam o território espanhol e mobilizam a maior parte dos seus efectivos de segurança e protecção civil.

Entretanto, muitas das vítimas da gigantesca arruaça reconheceram o engodo, o logro, e estão a regressar a Marrocos, evitando, in extremis, a armadilha que lhes foi montada por quem não os considera gente.

Os cidadãos dos países da União Europeia e da NATO têm muito a agradecer a Espanha e devem pôr os olhos no seu exemplo. Afinal, e ainda que não seja fácil, é possível pôr em xeque o totalitarismo do chamado «mundo ocidental» e desmascarar essa fraude ardilosa conhecida como «democracia liberal».

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Quanto menos Estado, mais fogos a alastrar

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 28/07/2026)


A sensação de desamparo ante a amplitude dos incêndios que lavram no sul da Europa Ocidental, sobretudo em Espanha e em França, leva-nos a questionar a capacidade de resposta e a eficácia das instituições. Com um milhão de pessoas evacuadas das suas casas, cenários de devastação e fogos incontroláveis, é de todo evidente que a Europa não se deve aventurar num conflito que os seus dirigentes entusiasticamente defendem contra a Rússia.

​Isto decorre de décadas de demolição sistemática e intencional das estruturas do Estado, demência ideológica que se converteu no desastre presente. ​Se no plano económico, o abandono do Estado enquanto estratega e guia do desenvolvimento e reforço da soberania e segurança dos povos se revelou um desastre, como há anos foi notório durante os confinamentos COVID, assistimos pela segunda vez nesta década às consequências do desinvestimento e da destruição das estruturas que protegiam as populações.

​Toda a arrogância dos liberais que ao longo dos últimos 40 anos nos acenaram com a utopia globalista e a repetir que o Estado era inútil, pesado e dispendioso, desaba perante nós neste furacão de fogo que nos entra casa adentro através dos noticiários.

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