Odeias o socialismo mas nem sabes o que estás a odiar

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 05/05/2026, Revisão da Estátua)

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Este ano, tu vais descobrir tarde demais que votar para perseguir imigrantes e proteger bilionários tem um preço. E esse preço não fica nos discursos. Vai aparecer no supermercado, nos lares, nos incêndios, na economia, nas reformas, na escola pública, no SNS, na habitação e nas rendas.

As políticas desta coligação de vontades entre o PSD e a extrema-direita vão começar a sair dos vídeos, dos slogans e das redes sociais — e vão entrar na tua vida. E nem estou a falar apenas do roubo da estabilidade, do trabalho e do dinheiro de quem trabalha para enriquecer os de cima. Nem dos pacotes laborais que pisam os de baixo e protegem os de cima. Nem da transformação dos serviços públicos em negócios para os grandes grupos económicos lucrarem à custa da tua saúde, da educação dos teus filhos, do suor do teu trabalho, da tua família e do teu futuro. Estou a falar de coisas concretas. Coisas que vais sentir na pele.

Este ano, teremos um verão complicado ao nível dos incêndios. Não há mão-de-obra suficiente para limpar as florestas, que estão, neste momento, transformadas num autêntico barril de pólvora. Os imigrantes foram escorraçados, e estas políticas vão ter custos em área ardida e em vidas humanas.

Os lares de terceira idade, sem mão-de-obra, veem os custos disparar, e serás tu, se tiveres pais ou avós num lar, a pagar a fatura.

A saúde pública continua a ver sair os seus profissionais para os negócios dos privados, enquanto tu ficas a olhar para a porta trancada das urgências.

Os custos nos supermercados disparam, não só para alimentar os lucros recorde dos grandes retalhistas, mas também porque a falta de mão-de-obra na agricultura começa a ter custos elevados.

Há alunos sem professores, mas ninguém sabe exatamente quantos, porque, no meio do caos deste Governo, não há grande interesse em que se saiba.

Os médicos de família têm listas de espera de seis meses. Exames essenciais já nem aceitam marcações — para a lista não parecer grande demais.

A economia, que precisava de 100 mil imigrantes todos os anos, começa a encravar. Os anos de ouro do crescimento económico de António Costa estão a terminar, e o que vem a seguir vai doer.

Pior do que a pandemia e a guerra na Ucrânia, que não nos colocaram de joelhos, bastaram dois anos de extrema-direita a condicionar o Governo para tudo começar a desabar.

A extrema-direita, em pânico, ao perceber que tu podes começar a ver o truque, grita que basta aumentar os salários para preencher essas vagas. Mas, quando há três postos de trabalho vagos e apenas dois trabalhadores disponíveis, por muito que aumentes os salários, um dos postos continuará por preencher — e essa empresa sofrerá com isso.

A seguir, dizem-te que, se aumentarmos muito os ordenados, os emigrantes que estão na Suíça voltam. Esquecem-se de te dizer que, se em Portugal triplicássemos o salário de quem trabalha num lar de terceira idade, esse lar teria de repercutir esse custo nas famílias que lá têm os seus familiares. E sabes quem pagaria? Tu. Mas, para a extrema-direita, isso é indiferente. O que interessa é ganhar poder à custa da tua revolta, da tua frustração e dos slogans fáceis que te meteram na cabeça.

Isto não apareceu do nada. Foi uma longa propaganda, bem financiada, em jornais, televisões e centenas de grupos nas redes sociais. Foi aí que foram buscar ao fundo dos buracos o pior do sistema, para mudar a mentalidade deste país e ensinar pessoas comuns, como tu, a odiar cegamente, sem sequer perceberem porquê.

Odeias não ter lugar na creche para o teu filho e culpas o imigrante — mas não culpas o corte do IRC aos mais poderosos, dinheiro que daria para garantir creches para todos os que precisam.

Ao mesmo tempo que odeias esse “socialismo”, esqueces que foi precisamente esse “socialismo” que te deu essas creches.

Odeias que as urgências de obstetrícia estejam fechadas e culpas a mulher imigrante que teve um filho em Portugal — esquecendo que temos hoje menos nascimentos do que há dez anos.

Não foi a pressão do número de grávidas. Foi a pressão do lucro privado que roubou médicos ao SNS, e o aumento de 20% da população idosa. Mas isso os bilionários não querem que tu saibas. É melhor para os bolsos deles que culpes o trabalhador imigrante e não penses muito no assunto.

Odeias o imigrante que aluga um quarto e atribuis-lhe o aumento do custo da habitação — quando, na verdade, sem ele não haveria quem construísse habitação nem quem reabilitasse casas para arrendar. A falta de mão-de-obra é uma das principais razões pelas quais os custos da habitação dispararam, e com eles as rendas.

Odeias o imigrante porque ele é visível…senta-se ao teu lado no autocarro. Já, os milionários estrangeiros que vieram comprar casas e arrendá-las a preços exorbitantes; os que desviaram a construção da classe média para o segmento de luxo e turismo; os especuladores imobiliários; os grandes fundos com benefícios fiscais que atraem ainda mais capital predatório — esses são invisíveis.

Odeias um milhão de imigrantes que entraram ao longo de dez anos, mas fechas os olhos aos 30 milhões de visitantes que invadem o país todos os anos, pressionando o mercado imobiliário e empurrando os residentes dos grandes centros urbanos para a periferia.

O que não sabes é que hoje 12,5% da habitação é comprada por empresas, não por famílias. Mas o culpado de tudo, disseram-te eles, é o rapaz que veio do Bangladesh e que divide a casa com mais quatro pessoas.

Odeias os imigrantes que te constroem casas, tratam dos teus idosos, te servem no café e colhem os alimentos que compras no supermercado. Dizes que eles são os culpados, que pressionam os serviços públicos — mas ninguém te explicou que a população, mesmo com imigração, apenas aumentou 3,7% em 10 anos, Isso porque vivemos num país envelhecido e a morrer.

Odeias o socialismo que não existe, mas foi dele que nasceu quase tudo o que hoje consideras um direito adquirido: a escola pública, o SNS, o direito a um mês de férias pagas, o direito ao descanso, o abono de família, os manuais escolares gratuitos, o subsídio de desemprego e a reforma. Na verdade, odeias e nem sabes o que estás a odiar.

Odeias o aumento da criminalidade que vês em vídeos nas redes sociais, quando os números indicam que a criminalidade violenta tem vindo a diminuir de forma consistente. No tempo de Passos Coelho, quando André Ventura andava no PSD, a criminalidade violenta era 25% superior — mas ele andava caladinho.

Odeias e culpas grupos de imigrantes porque te olham, porque foste doutrinado para sentir medo de caras com tons de pele mais escuros. Mas os crimes que estão a aumentar são os dos jovens radicalizados.

O crime de ódio, o número recorde de chamadas da polícia às escolas e o facto de 20% dos violadores, segundo o RASI, terem menos de 20 anos mostram outra realidade. Não é o desconhecido na rua. É o namorado. O conhecido. O familiar.

Até ao nível dos crimes rodoviários, o que se vê é o individualismo do “cada um por si”, com o Estado desinteressado em formar bons condutores.

Odeias os dependentes de subsídios e achas que os imigrantes vivem deles porque os vês na praça durante o dia — mas ninguém te explica que eles são a força de trabalho mais precária em Portugal: trabalham algumas semanas e ficam outras à espera do próximo trabalho.

Odeias os subsídios para os pobres, mas não sabes que os 20% mais ricos recebem mais subsídios do que os 20% mais pobres.

Odeias os partidos que te defendem para ficares ao lado de quem se ri de ti no campo de golfe. É assim que acabas a votar contra ti próprio. Quando vives com medo e em paranoia permanentes, já não votas em quem te protege. Votas em quem te promete castigar alguém. Esse é o golpe.

Tu podes ganhar o salário mínimo, não ter dinheiro para pagar um seguro de saúde, não conseguir pôr os teus filhos numa escola privada, receber abono de família, precisar do SNS, precisar da escola pública, precisar da reforma, precisar dos direitos laborais que outros conquistaram antes de ti — e, mesmo assim, foste convencido a odiar o centro-esquerda como se fosse ele o teu inimigo.

Fizeram-te acreditar que os abonos de família que recebes não te tornam “subsídio-dependente”, mas que o apoio dado a alguém mais pobre do que tu já é um escândalo.

Fizeram-te acreditar que o problema do país era o pobre que recebe pouco, o imigrante que trabalha muito e a mulher de lenço.

Muitos votaram porque viram muitos videozinhos nas redes sociais.

Votaram porque acharam que a grande insegurança no país era uma mulher islâmica com um lenço na cabeça e uma máscara cirúrgica no rosto, que foi levar o filho à escola.

Votaram porque acreditaram que, talvez, castigando outros pobres, conseguissem viver melhor.

Votaram na mudança, sem perceber que essa mudança era voltar para o passado, quando o país vivia na miséria.

Mal sabes que és usado pelos bilionários que financiam esses partidos. E que, depois de os poderosos “controlarem” os imigrantes, serás tu o próximo a ser controlado… Aliás, já estás a ser controlado.

Obrigado, Bangladesh

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 30/01/2026)

O que Ventura não suporta é que o jornalismo desfaça a sua tese insultuosa de que os imigrantes vivem de subsídios e que, pelo contrário, demonstre que ele é que vive de mentiras.


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À saída de uma vila alentejana dou com um dos muitos cartazes que o Chega e o seu chefe, André Ventura, espalharam por Portugal inteiro: “O Alentejo não é o Bangladesh.” Pois não, não é: o Bangladesh não precisa de importar alentejanos para conseguir sustentar a sua agricultura, para fazer as sementeiras e as colheitas, para apanhar a azeitona e a amêndoa. Tivesse o Bangladesh uma barragem como a do Alqueva — “Construam-me, porra!” (a tal que ia dar trabalho a todos os alentejanos e tornar prósperos os seus agricultores) — e hoje não haveria ninguém a trabalhar no regadio do Alqueva nem a tornar próspera a sua agricultura. Mas, felizmente para os alentejanos, os “violadores, assaltantes e bandidos” com que, segundo Ventura, o “socialismo” e os “partidos de esquerda” encheram o país nos últimos anos, vindos de África, do Bangladesh ou do Brasil, não se importam de fazer o trabalho duro nos campos que a maioria dos alentejanos já não quer fazer. E, mesmo dormindo em barracões ou contentores, ou em casas onde cabem 30 no lugar de três e pagando aos senhorios alentejanos por 30 e não por três, essa gente estranha que o socialismo importou continua a trabalhar, recebendo o ordenado mínimo e vivendo em condições de indignidade. Ou mesmo fazendo trabalho forçado e semiescravo nos campos alentejanos, vigiados e ameaçados por guardas da GNR, em regime de supranumerário e ao serviço de “empresários” agrícolas apoiados por dinheiros europeus e que, tal como André Ventura, vão à missa todos os domingos e são contra o acordo com o Mercosul, porque, dizem, os do Mercosul podem vender mais barato porque não têm as preocupações sociais deles. Obrigado, Bangladesh!

Obrigado, Bangladesh
Hugo Pinto

Numa praça de uma aldeia algarvia entro num café cujo interior está submergido por uma intensa vozea­ria, digna de um souk árabe. Mas não — sossega, Ventura —, não são árabes, são algarvias, e esta é a sua ocupação diária: tagarelar e jogar à raspadinha. O dia inteiro, porque não há nada de necessário para fazer que os imigrantes não façam: eles trabalham e os algarvios votam no Chega — ao que parece porque temem que eles venham substituí-los e com isso fazer submergir esta nossa exaltante civilização judaico-cristã. Na mesa em frente da minha estão três mulheres em desabrida gritaria, às quais se vem juntar também uma empregada da casa. E ali estaciona à conversa, até que alguém lhe grita do balcão: “Ó Mena, anda trabalhar que há clientes à espera!” Aí, a provável votante do Chega vira-se, furibunda: “Eles que esperem, não vês que estou na conversa? Era o que faltava!” Por um momento imagino a mesma cena protagonizada por um empregado ou empregada que fizesse parte do rol dos assaltantes, violadores ou bandidos de que fala Ventura — devia ser bonito! Porque o Algarve — que vive quase exclusivamente da prestação de serviços aos turistas — dá-se ao luxo de votar no partido que quer expulsar os que prestam esses serviços e sem os quais todo o Algarve colapsaria em dois tempos. Porque os africanos, brasileiros, asiáticos, essa ralé de assaltantes e violadores, além de servirem nos hotéis, nos restaurantes e nos campos de golfe, também estão na construção civil, ajudando a construir os hotéis, vivendas e aldea­mentos onde os turistas dormem, servidos pelos imigrantes. Obrigado, Bangladesh!

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Em Lisboa vou a um lar da terceira idade — por razões pessoais e não em campanha eleitoral. Ali, onde uma sociedade sem tempo para os pais nem espaço para a velhice entrega os seus velhos a guardar, não há um só, uma só trabalhadora portuguesa: uma só! São todas africanas e, sobretudo, brasileiras — que, com o seu feitio de ternura inata, substituem-se aos filhos ausentes, tratando os utentes por “minha querida”, “meu amor”. Suponho que sem estes imigrantes os nossos pais e avós estariam abandonados em casa ou ao frio nos jardins públicos, servindo de cenário para as reportagens televisivas sobre os reformados. Obrigado, Bangladesh!

Aliás, apesar de todas as lamentações, se muitos portugueses ainda recebem pensões de reforma, e actualizadas anualmente acima do valor da inflação, devem-no às contribuições dos imigrantes que cá trabalham para a Segurança Social, permitindo inverter o que parecia vir a ser um caminho sem retrocesso em direcção à insustentabilidade financeira. Em Espanha, o Governo socialista acaba de avançar para a legalização extraordinária de meio milhão destes imigrantes, desde que não tenham antecedentes criminais; em Portugal, André Ventura pretende expulsá-los todos ou, não o conseguindo, obrigá-los a pagar contribuições e impostos durante cinco anos antes de poderem ter acesso a quaisquer benefícios: um esbulho cristão. Perdoa-lhes, Bangladesh!

Ainda em Lisboa, como tantos de nós tantas vezes para não ter de sair para almoçar, chamo a Uber Eats, e lá aparece um indiano, paquistanês ou bengali escorrendo água da chuva e sem tempo a perder para tirar o capacete. Imagino-o à noite, no seu barracão atulhado de outros “assaltantes” como ele, longe do seu país, da sua aldeia, da sua mulher, dos seus filhos, dos seus pais — como outrora os nossos emigrantes na Alemanha ou em França, cujos descendentes hoje votam à distância no Chega. Imagino-o na sua solidão diária, contando os dias e os anos até que uma lei desumana lhe permita o reagrupamento familiar, e sem que nenhum de nós, a quem eles tanto servem, se detenha a pensar como viverão estes homens na flor da idade e privados de tudo — estes “violadores”, como assegura o Dr. Ventura —, mas de cujas violações, assaltos e bandidagem não temos notícia. Obrigado, Bangladesh!

O Dr. André Ventura, licenciado em Direito e candidato à Presidência da República, também está em guerra contra o comportamento deste “jornalismo”, que, tal como “os partidos de esquerda” e o “socialismo que mata”, desvaloriza “tudo o que é violador, assaltante e bandido que entra em Portugal”. O Papa Francisco, um homem que os cristãos e os não cristãos respeitavam, disse em tempos que o que matava era “este capitalismo”, e não o socialismo. Mas é sabido que Ventura não gostava do Papa Francisco, achava-o nada menos do que “um anti-Cristo”. Bem vistas as coisas, Ventura não é cristão, é católico português, coisa bem diferente. “Este jornalismo”, de que Ventura não gosta, é aquele que revela os números e as verdades que contrariam as suas teses sobre os imigrantes: que são eles que respondem pelos lucros da Segurança Social e, graças a isso, a contenção do défice público; que são eles que asseguram uma taxa de natalidade positiva; que são eles que garantem a viabilidade económica da agricultura, da construção civil, do turismo, das pescas; que são eles que limpam as ruas das nossas cidades, que nos trazem comida ou remédios a casa, que tomam conta por nós dos nossos pais e avós, que constroem as pontes, as estradas, as vias férreas e as Expo com que o país se quer mostrar modernizado — e, ao contrário do que queria Ventura, a taxa de criminalidade entre os imigrantes é irrelevante. O que Ventura não suporta é que o jornalismo recorde isso aos portugueses, que vá ouvir os empresários que reclamam mais imigrantes e não menos, que desfaça a tese insultuosa de Ventura de que os imigrantes vivem de subsídios. O que não suporta é que o jornalismo demonstre que é ele que vive de mentiras, chegando ao ponto de inventar, em directo na RTP, uma “notícia do dia” sobre um cigano que teria entrado aos tiros numa escola, “disparando para o ar sobre as crianças” (?) — e que era absolutamente falsa, como tantas outras que ele e o seu partido divulgam sem sombra de pudor. E não gosta que o jornalismo conte que há elementos do Chega entre os grupúsculos neo­nazis de camisas pretas que querem derrubar a democracia — a que Ventura prefere chamar o “sistema”.

“Deus, pátria, família e trabalho”, eis o credo de André Ventura, “o candidato do povo” contra o sistema. Soa familiar e é familiar. Pobre povo se algum dia voltar a querer viver em ditadura, às mãos de quem quer pôr isto na ordem! Logo verá o chefe dizer-lhe que se ocupe da família e do trabalho, que de Deus e da pátria ocupa-se ele. E assim viveremos mais 50 anos felizes, como as nações sem história.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

A glorificação da miséria como projeto político

(Luis Rocha, in Facebook, 26/01/2026)


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Olhei para Davos e tive de rir. Milhares de jactos privados alinhados para mais um congresso do World Economic Forum, onde se discute tudo o que fica bem nas fotografias oficiais e nada do que realmente interessa. Fala-se de inovação, de sustentabilidade, de futuro. Não se fala de desigualdade económica extrema, de taxação das fortunas obscenas, nem do elefante suíço na sala. Os paraísos fiscais.

 O capitalismo moderno não ignora o problema, limita-se a fingir que não sabe de onde ele vem.

Os números são públicos, verificados e moralmente pornográficos. Doze indivíduos concentram hoje mais riqueza do que cerca de quatro mil milhões de pessoas. Não é exagero retórico, não é linguagem inflamada, é aritmética. Quando um sistema produz este resultado de forma consistente, não estamos perante um erro. Estamos perante um modelo que cumpre exactamente o seu objectivo.

Esse modelo chama-se neoliberalismo. Vende liberdade e entrega dependência. Promete mérito e institucionaliza heranças. Fala de eficiência enquanto suga o valor do trabalho para o entregar ao capital. O seu mecanismo central é simples. Baixar impostos a quem mais tem, reduzir o Estado à sua expressão mínima e deslocar o peso fiscal para quem vive do salário e do consumo. O resto é decoração ideológica.

Em Portugal, esta lógica tem representantes entusiasmados, como o Coiso daquele partido de gente parva, que transformou a política fiscal num espectáculo de demagogia agressiva. Sempre que fala de impostos, fá-lo como se estivesse a libertar o povo de uma opressão imaginária. O seu discurso é linear, menos progressividade, menos redistribuição, menos Estado. O efeito real dessas propostas é igualmente linear, mais vantagem estrutural para grandes patrimónios, menos capacidade do Estado para corrigir desigualdades, e um terreno fértil para a evasão fiscal legal e moralmente legitimada. Não é preciso ensinar ninguém a fugir aos impostos quando se cria um sistema que praticamente pede desculpa por existir.

O mais fascinante e aqui entra a sátira que a realidade exige, é observar gente pobre a bater palmas a este programa. Pessoas que vivem do salário mínimo, de pensões curtas, de empregos precários, a votar com entusiasmo em quem defende políticas desenhadas para beneficiar quem nunca verá um centro de saúde sem seguro privado. Não é ignorância pura, é uma mistura tóxica de ressentimento mal direccionado, propaganda eficaz e uma fé quase religiosa na ideia de que um dia, por milagre estatístico, também farão parte do topo.

Cotrim de Figueiredo, com ar extremista mais asseado e discurso tecnocrático, representa o mesmo projecto com menos ruído. O seu orgulho neoliberal é quase comovente. Fala da desigualdade como um efeito secundário aceitável, da redistribuição como um obstáculo e do mercado como entidade moralmente neutra. A sua utopia é uma sociedade onde quem tem muito merece tudo e quem tem pouco merece uma palestra sobre esforço individual. É a desigualdade transformada em virtude cívica.

O resultado destas visões combinadas é conhecido. Os impostos indirectos aumentam. Os salários ficam para trás. Os serviços públicos degradam-se. A concentração de riqueza acelera. E, ainda assim, há quem continue a votar nisto com a convicção de quem acredita estar a dar uma lição aos “outros”, mesmo que esses outros sejam tão pobres quanto eles.

O que vejo não é apenas um erro político, é um fenómeno psicológico colectivo. A glorificação da miséria como sinal de virtude. Sofrer passa a ser prova de carácter. Defender ricos passa a ser sinal de inteligência. Questionar a desigualdade passa a ser inveja. É um truque antigo, agora partilhado em posts cheios de erros ortográficos.

Quando constato que doze pessoas têm mais riqueza do que metade da humanidade, e que há quem defenda com fervor as políticas que tornam isso possível, não vejo falta de dados. Vejo uma escolha consciente de submissão. Um voto dado contra o próprio interesse, embalado pela fantasia de que o problema nunca está em cima, está sempre ao lado ou em baixo. Em português corrente, cretinice.

No entanto, Davos continuará a existir, e os jactos continuarão a aterrar.

E por cá continuarão a haver pobres a arrotar como se fossem ricos.

Nada que a telenovela, o Big Brother e a música pimba não resolvam.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas:

https://www.oxfam.org.uk/…/oxfams-global-inequality…

https://www.dn.pt/…/riqueza-de-12-maiores-milionarios…