O Brasil não é uma herança de família

(José Pendão, in Facebook, 26/10/2026, Revisão da Estátua)


O programa eleitoral de Flávio Bolsonaro tinha uma particularidade enternecedora: antes de salvar o Brasil, convinha salvar o pai. A prioridade foi anunciada sem grandes pudores, com aquela desenvoltura tão característica de quem considera a separação de poderes uma formalidade burocrática destinada a complicar a vida das famílias respeitáveis. A anistia de Jair Bolsonaro, condenado por envolvimento numa tentativa de golpe de Estado, tornou-se uma das bandeiras do candidato, que prometia procurar a absolvição política do progenitor pelos mecanismos ao seu alcance, fosse através do Congresso ou de um eventual indulto presidencial. Uma curiosa conceção de serviço público, convenhamos, em que a Presidência da República funciona como extensão da sala de estar familiar e o interesse nacional começa, muito naturalmente, por resolver os problemas judiciais lá de casa.

Felizmente, os brasileiros tinham outros planos.

Luiz Inácio Lula da Silva acaba de ser reeleito Presidente do Brasil com 51,79% dos votos, contra os 48,21% de Flávio Bolsonaro, numa recuperação extraordinária depois de ter perdido a primeira volta. Aos oitenta anos, o antigo operário metalúrgico conquistou o seu quarto mandato, contrariando sondagens, expectativas e aquela numerosa congregação internacional de especialistas que há anos anuncia a morte definitiva da esquerda com a convicção de quem já encomendou as flores para o funeral.

O defunto, pelos vistos, continua a mexer-se. E, para grande inconveniência dos coveiros, ainda vota.

Seria, contudo, precipitado concluir que o resultado brasileiro representa o início de uma gloriosa reconquista progressista. Conheço suficientemente bem a História, e sobretudo a humanidade, para desconfiar de ressurreições políticas anunciadas antes de o entusiasmo eleitoral ter terminado a digestão. As revoluções que começam com champanhe e declarações solenes sobre o nascimento de uma nova era costumam acabar em reuniões de emergência para explicar por que razão a nova era se parece tanto com a anterior.

Mas seria igualmente absurdo ignorar o significado desta vitória.

Num mundo onde Donald Trump regressou à Casa Branca, onde Javier Milei transformou uma motosserra em manifesto ideológico e onde diferentes movimentos nacionalistas e populistas conseguiram apresentar-se como proprietários exclusivos do futuro, o Brasil acaba de introduzir um desagradável contratempo na narrativa da inevitabilidade histórica.

A extrema-direita descobriu que a História não é uma estrada de sentido único e que, por mais alto que se grite, continuam a existir cruzamentos onde os cidadãos podem escolher outra direção.

Convém, naturalmente, distinguir o conservadorismo democrático da direita populista e dos movimentos autoritários. Nem toda a direita é extrema-direita, nem todo o liberal é um bolsonarista de fato engomado. Mas uma parte significativa do novo populismo desenvolveu uma extraordinária técnica de exploração do descontentamento social: identificar problemas reais, encontrar culpados suficientemente convenientes e oferecer soluções que dispensam o incómodo exercício de compreender as causas.

A criminalidade? Falta de autoridade. A pobreza? Falta de esforço. A imigração? Culpa dos imigrantes, evidentemente. A degradação dos serviços públicos? Culpa dos burocratas, das elites, dos comunistas ou de uma conspiração internacional que, curiosamente, nunca parece encontrar dificuldades para reunir os seus membros.

É uma forma de pensamento económico de admirável eficiência. As causas são sempre simples, os culpados estão previamente identificados e as soluções cabem num autocolante para o para-choques de uma Brasilia amarela.

O bolsonarismo acrescentou a esta receita uma componente particularmente brasileira: uma espécie de monarquia republicana em que o poder circula pela família, a autoridade é venerada como virtude suprema e as instituições são respeitadas com uma condição bastante razoável, a de não contrariarem os interesses do patriarca.

A justiça deve ser implacável, sobretudo com os pobres, os suspeitos habituais e os adversários políticos. A polícia precisa de poderes reforçados, os criminosos merecem penas exemplares e a sociedade necessita de disciplina. Mas quando um tribunal condena o chefe da família por uma conspiração contra a ordem democrática, instala-se subitamente uma epidemia de sensibilidade garantista. Descobre-se a importância dos direitos individuais, denuncia-se a perseguição judicial e a palavra «anistia» começa a ser pronunciada com a ternura normalmente reservada às orações de Natal.

É uma conceção da justiça semelhante à daqueles cavalheiros que defendem entusiasticamente o cumprimento das regras de trânsito, desde que as multas sejam enviadas exclusivamente para a morada dos vizinhos.

O mais extraordinário é que ninguém se deu ao trabalho de esconder esta contradição. Flávio Bolsonaro fez da possibilidade de libertar o pai uma promessa política assumida. Não se tratava de uma suspeita maliciosa inventada pelos adversários, nem de uma interpretação abusiva de algum discurso obscuro. Era uma prioridade proclamada publicamente, como se um dos grandes problemas nacionais do Brasil fosse a dificuldade de um antigo Presidente condenado encontrar uma solução satisfatória para a sua situação penal.

E depois falam-nos de renovação política.

A dinastia apresentava-se como a grande alternativa às velhas elites, uma revolução contra o sistema conduzida pelo filho do anterior chefe do sistema, com o objetivo de reabilitar o pai e preservar a influência da família. Faltava apenas instituir o brasão oficial e estabelecer um regime de transmissão hereditária do ressentimento.

Naturalmente, quase sessenta milhões de brasileiros votaram em Flávio Bolsonaro, e seria intelectualmente preguiçoso concluir que todos o fizeram para libertar Jair Bolsonaro. Muitos manifestaram preocupações legítimas com a criminalidade, o endividamento, os impostos, o custo de vida e a condução económica do país. Outros identificam-se com valores conservadores ou discordam profundamente das políticas de Lula. Reduzir um eleitorado tão vasto a uma caricatura seria cometer precisamente o erro que tantas vezes atribuímos aos nossos adversários.

Mas não deixa de ser legítimo perguntar por que razão uma parte da população aceita tão facilmente que a defesa intransigente da autoridade conviva com projetos destinados a aliviar as consequências judiciais dos seus próprios dirigentes.

A resposta talvez esteja menos na ideologia do que numa velha tendência humana: a facilidade com que transformamos princípios universais em privilégios de grupo.

E, enquanto a direita populista aperfeiçoava esta arte, o que andava a fazer a esquerda?

Em demasiados países, dedicava-se a perder a ligação com as pessoas que historicamente afirmava representar. Continuava a falar de justiça social, mas nem sempre parecia capaz de explicar como é que essa justiça se traduzia numa renda suportável, num emprego estável, numa escola decente ou num hospital onde fosse possível marcar uma consulta sem consultar previamente a esperança média de vida.

Não se trata de desvalorizar os direitos das minorias, a igualdade de género ou a proteção ambiental. São conquistas fundamentais de sociedades democráticas e não luxos facultativos que se abandonam perante dificuldades económicas. Trata-se de reconhecer que uma política progressista incapaz de responder às condições materiais da população acabará por deixar a defesa desses direitos politicamente isolada.

Uma pessoa pode preocupar-se simultaneamente com a dignidade dos imigrantes e com o preço do supermercado. Aparentemente, esta descoberta ainda não chegou a todas as direções partidárias.

Lula percebeu, pelo menos durante a campanha, que não bastava apresentar Flávio Bolsonaro como uma ameaça à democracia. Era necessário convencer os brasileiros de que a alternativa poderia melhorar as suas vidas. Falou de rendimentos, trabalho, proteção social, endividamento das famílias e oportunidades económicas. Procurou recuperar eleitores desencantados e mobilizar aqueles que tinham ficado em casa na primeira volta.

Não sabemos ainda se conseguirá cumprir as expectativas, nem se as medidas anunciadas são economicamente sustentáveis a longo prazo. Algumas levantam legítimas dúvidas orçamentais. Mas a campanha trouxe novamente para o centro do debate uma questão que a esquerda não deveria alguma vez ter permitido que lhe escapasse: de que serve defender abstratamente o futuro se não conseguimos melhorar concretamente o presente?

E talvez seja esta a lição mais importante para os movimentos progressistas europeus, incluindo os portugueses, tão frequentemente ocupados a discutir a pureza doutrinária das suas propostas enquanto os seus antigos eleitores procuram respostas noutros quadrantes políticos.

O populismo não se combate eficazmente tratando todos os seus eleitores como uma multidão de ignorantes manipulados. Combate-se compreendendo as razões do seu descontentamento e apresentando soluções mais credíveis do que a promessa de encontrar um bode expiatório para cada problema nacional.

Mas não confundamos esperança com ingenuidade. Lula venceu, mas o bolsonarismo não desapareceu. Quarenta e oito por cento dos votos representam uma força política extraordinariamente relevante, e o novo Congresso brasileiro terá uma presença conservadora ainda mais robusta. O Presidente enfrentará dificuldades económicas, enormes tensões institucionais e uma sociedade profundamente dividida. A vitória eleitoral não concede poderes sobrenaturais, embora alguns governantes, de diferentes quadrantes, pareçam continuar à espera de que essa disposição seja incluída nas respetivas constituições.

E o comportamento de Flávio Bolsonaro depois da derrota oferece-nos uma recordação pouco tranquilizadora do que continua em jogo. O candidato recusou reconhecer o resultado e anunciou que pretende pedir a anulação da eleição, contestando a decisão judicial que prolongou o horário de votação. A decisão foi controversa e pode naturalmente ser sujeita a escrutínio. Mas contestar judicialmente uma eleição exige fundamentos e provas, não apenas a convicção íntima de que perder é uma injustiça incompatível com a própria importância histórica.

O pai também recusara aceitar a derrota de 2022. É reconfortante descobrir que, num mundo de valores familiares em erosão, certas tradições continuam a ser transmitidas de geração em geração.

A democracia, para esta conceção de política, parece funcionar segundo um princípio bastante simples: quando ganhamos, o povo pronunciou-se soberanamente; quando perdemos, o povo foi evidentemente enganado, o sistema encontra-se corrompido e torna-se urgente reconsiderar as regras do jogo. É uma espécie de democracia com cláusula de devolução, reservada exclusivamente aos membros do clube.

Mas as consequências desta eleição não se esgotam no Brasil. O país é a maior economia da América Latina, possui recursos estratégicos essenciais, uma dimensão territorial e demográfica que lhe confere influência internacional e uma importância ambiental que ultrapassa largamente as suas fronteiras. A continuidade de Lula representa também a continuidade de uma diplomacia que procura preservar autonomia perante Washington, manter relações com a China e desempenhar um papel relevante entre as economias emergentes.

Num contexto internacional em que Trump procura reforçar a influência norte-americana no continente, esta vitória constitui um limite político à expansão de um bloco regional alinhado com a sua administração. Não significa que Lula se transforme num adversário permanente dos Estados Unidos, nem que o Brasil possa ignorar as suas relações comerciais. Significa apenas que continua a existir uma grande potência sul-americana cuja orientação externa não se confunde automaticamente com as preferências da Casa Branca.

Um pormenor aparentemente modesto, mas que possui alguma importância num tempo em que a autonomia diplomática começa, em determinados círculos, a ser considerada uma manifestação de falta de educação.

Também a proteção da Amazónia poderá beneficiar desta continuidade. Os resultados de redução da desflorestação durante o mandato de Lula representam progressos reais, ainda que acompanhados por contradições ambientais e económicas que não podem ser ignoradas. O Brasil continua a enfrentar pressões poderosas sobre o território, conflitos relacionados com a exploração de recursos naturais e desafios de desenvolvimento que nenhuma fotografia de um Presidente abraçado a uma árvore consegue resolver.

E não será Lula quem resolverá sozinho as contradições geopolíticas de um mundo dominado por interesses económicos, nacionalismos e rivalidades estratégicas. Mas talvez não seja necessário exigir-lhe semelhante prodígio.

A importância desta vitória reside também na demonstração de que o avanço da direita populista não constitui uma inevitabilidade. Os seus movimentos podem ganhar eleições, conquistar governos e influenciar profundamente o debate público, mas podem igualmente ser contrariados por alternativas políticas capazes de mobilizar maiorias.

Uma derrota eleitoral não destrói uma ideologia, tal como uma vitória não representa necessariamente a consagração moral dos vencedores. Convém recordar isto aos dois lados, sobretudo àqueles que desenvolvem uma tendência preocupante para confundir a vontade popular com a vontade divina sempre que os resultados lhes são favoráveis. E seria particularmente saudável que a esquerda não cometesse agora o erro de transformar Lula num santo padroeiro da democracia.

O Partido dos Trabalhadores tem uma história que inclui realizações sociais significativas, mas também escândalos, erros económicos, compromissos discutíveis e promessas por cumprir. A própria dependência de uma liderança octogenária levanta dúvidas legítimas sobre a capacidade de renovação do progressismo brasileiro.

O homem que simboliza a esperança de rejuvenescimento da esquerda mundial tem oitenta anos. A ironia é tão generosa que quase dispensa comentário.

Talvez o verdadeiro desafio não seja encontrar novos Lulas, mas construir movimentos políticos suficientemente fortes para não dependerem eternamente da longevidade de um único dirigente. Uma esquerda que pretende representar o futuro deveria conseguir imaginar esse futuro sem precisar de consultar primeiro o boletim clínico dos seus fundadores. Ainda assim, seria mesquinho negar o significado do que aconteceu no domingo.

Durante anos habituámo-nos a ouvir que os valores progressistas estavam condenados, que os cidadãos tinham deixado de acreditar na solidariedade e que o futuro pertencia inevitavelmente aos novos profetas da autoridade, da identidade nacional e da motosserra libertadora. O Brasil veio recordar que a História não é uma escritura de propriedade e que os seus presumíveis herdeiros podem descobrir, no momento da partilha, que os restantes familiares não concordam com o testamento.

Talvez esta eleição inspire movimentos progressistas noutros países. Talvez fique como uma exceção num ciclo internacional dominado por forças conservadoras. Talvez o próximo mandato de Lula produza avanços importantes ou uma nova coleção de desilusões. A política tem esta inconveniente característica de não oferecer garantias de satisfação.

Mas uma coisa mudou. A narrativa da inevitabilidade sofreu uma pequena, embora considerável, indisposição.

E, sobretudo, milhões de brasileiros demonstraram que a democracia continua a oferecer a possibilidade de escolher entre projetos diferentes, mesmo depois de anos de polarização, desconfiança e discursos sobre a suposta inutilidade das instituições.

Não significa que o povo tenha finalmente acordado de um longo sono político. Os povos não adormecem nem despertam em conjunto, como passageiros obedientes de uma excursão organizada. Dividem-se, contradizem-se, mudam de opinião e, frequentemente, voltam a cometer erros que julgavam ter deixado para trás. É precisamente essa imprevisibilidade que torna a democracia tão irritante para quem prefere governar sem interrupções.

A esperança, por seu lado, continua a ser uma criatura de hábitos pouco recomendáveis. Insiste em reaparecer quando tudo parecia definitivamente perdido, perturba o conforto intelectual dos pessimistas e obriga-nos a considerar a possibilidade desagradável de que os nossos destinos não estejam inteiramente decididos.

Confesso que mantenho alguma desconfiança perante tanto otimismo. A humanidade já me proporcionou demasiadas ocasiões para apreciar a robustez das minhas piores expectativas.

Mas talvez, desta vez, mereça conceder-lhe o benefício da dúvida.

O Brasil não salvou o mundo. Não derrotou definitivamente o populismo, não resolveu as desigualdades sociais e não inaugurou uma era de esclarecimento universal. O bolsonarismo continuará a existir, Trump continuará na Casa Branca, as forças nacionalistas continuarão a disputar o poder e os problemas económicos e sociais não desaparecerão por decreto presidencial.

Mas, no domingo, os brasileiros recusaram entregar a Presidência a um candidato que incluía entre as suas promessas a resolução dos problemas judiciais do pai.

E fizeram-no através do instrumento mais banal e simultaneamente mais extraordinário que uma democracia possui: uma urna de voto.

Pode parecer pouco, sobretudo para quem esperava assistir ao nascimento de uma revolução mundial. Mas, numa época em que tantos autoproclamados salvadores da pátria tratam as instituições democráticas como obstáculos administrativos às suas ambições pessoais, talvez seja uma recordação suficientemente importante.

A esperança não conquistou o mundo. Limitou-se a ganhar umas eleições.

E a família Bolsonaro descobriu, uma vez mais, que uma república não é uma herança de família.

Pelo menos enquanto os eleitores continuarem a ter alguma coisa a dizer sobre o assunto.

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Põem quem ganha pouco a discutir com quem ganha ainda menos

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 09/08/2026, Revisão da Estátua)

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O Chega não precisou de chegar ao Governo para rebentar com o país, destruir as contas públicas e fazer a sociedade retroceder 50 anos. Uma turba minoritária, mas barulhenta, agressiva e muito ativa nas redes sociais, conseguiu elevar um partido alimentado pelo ressentimento e pelas mentiras até ao centro da política portuguesa.

E a direita tradicional, em vez de enfrentar a extrema-direita, começou a imitá-la. Primeiro copiou-lhe as palavras. Depois copiou-lhe os inimigos. A seguir copiou-lhe as leis. Agora já copia até os disparates.

Mas não é só em Portugal. A Itália, campeã das entradas ilegais pelo Mediterrâneo, aparece agora indignada com Espanha por causa de Ceuta, uma cidade espanhola situada em África… sim, em África. Só em 2025 chegaram a Itália por mar 66 316 migrantes, quase metade de todas as chegadas registadas no Mediterrâneo nesse ano. Ainda assim, foi o Governo italiano que decidiu impor controlos a quem viajava de Espanha… Irónico, não é?

Bastaram algumas imagens de pessoas a correr e, em poucos minutos, o TikTok já tinha decretado uma “invasão da Europa”. É assim que se faz política hoje. Por trás deste espetáculo existe uma máquina internacional de propaganda da extrema-direita, alimentada por Estados, redes digitais, interesses económicos e serviços de informações.

E há suspeitas de que a crise de Ceuta possa ter feito parte de uma operação híbrida conduzida por Marrocos e Israel, com envolvimento da Mossad, para pressionar e desestabilizar o Governo espanhol. Isto ajuda a perceber até que ponto populações desesperadas podem ser usadas como arma por interesses que nada têm de humanitário. Depois, as imagens são entregues aos idiotas úteis do TikTok. Uns fabricam o caos, outros filmam-no e a extrema-direita transforma-o em votos.

O resultado está à vista. Há gente que já nem sabe distinguir imigração não documentada de entrada ilegal. Segundo os dados da Polícia Marítima divulgados pela Autoridade Marítima Nacional, em dez anos foram registados apenas sete episódios de entrada irregular, envolvendo 135 pessoas. Cento e trinta e cinco pessoas em dez anos. Na Itália entraram centenas de milhares. Em Portugal, por esta via, foram 135. Mas explicar esta diferença destrói o espetáculo. Acaba com a “invasão”, estraga os vídeos e obriga os vendedores de medo a discutir a realidade.

Por isso misturam tudo. Misturam quem atravessou clandestinamente uma fronteira com quem entrou legalmente e só depois ficou em overstay. Misturam quem ficou além do prazo com trabalhadores que aguardam documentos mas o estado falha. Misturam pessoas sem título de residência com criminosos e depois atiram tudo para o mesmo saco, porque sem essa aldrabice não existe invasão nenhuma para vender.

Nenhum partido sério defende fronteiras abertas a criminosos ou um país sem controlo. Isso é uma mentira inventada para fugir à verdadeira discussão… saber se uma pessoa que entrou legalmente, vive cá, trabalha, tem casa, filhos, meios de subsistência e passa o controlo dos antecedentes criminais deve poder regularizar a sua situação ou deve ser expulsa, separada dos filhos, presa e tratada como uma criminosa.

É aqui que o circo fica à vista. Os partidos que mais berram contra a ilegalidade são muitas vezes os mesmos que criam as condições para manter milhares de pessoas sem documentos.

Sem documentos, o Estado sabe menos. Não sabe com segurança onde vivem, para quem trabalham, quanto recebem, se são exploradas, se os patrões pagam impostos ou se existe algum problema criminal. Em vez de as trazerem para dentro da lei, deixam-nas na sombra. E uma pessoa na sombra dá muito jeito a alguns chicos-espertos. Trabalha mais barato, reclama menos, não denuncia o patrão, aceita horários que mais ninguém aceitaria e vive com medo de ser expulsa. É o trabalhador ideal para o patrão sem escrúpulos que vota no CHEGA.

Todos os anos, Portugal recebe perto de 30 milhões de turistas não residentes. Em 2025 foram 29,9 milhões. REPITO… Quase 30 milhões de chegadas num único ano. Esses visitantes também utilizam aeroportos, estradas, transportes, hospitais, água, energia, alojamento e espaço urbano. Também criam pressão sobre o país. E não lhes é exigido, como condição de cada entrada, o conjunto de provas pedido a quem pretende trabalhar cá.

Mas ninguém fala disso. Ninguém fala em substituição populacional quando chega um avião cheio de turistas britânicos. Ninguém publica um vídeo quando empurram a população do centro das cidades para abrir alojamentos locais e lojas de souvenirs. Portanto, o problema nunca foi simplesmente o estrangeiro entrar. O problema é ser pobre, trabalhar cá e querer fazer parte da sociedade.

O Governo acabou com a manifestação de interesse em junho de 2024, eliminando a via que permitia a regularização através do trabalho e dos descontos. Ou seja, fechou-se a porta precisamente aos trabalhadores de que mais precisam a agricultura, a construção, os lares, as cozinhas, os hotéis e as limpezas. Agora, esse trabalhador tem de conseguir, a milhares de quilómetros de distância, um patrão disposto a contratá-lo antes de o conhecer. Estúpido não é?

Isto é a receita perfeita para criar intermediários, contratos comprados, falsas promessas, burlas, dependência e redes de exploração mafiosas. Troca-se um processo que podia ser controlado diretamente entre o trabalhador, a empresa, a Segurança Social e o Estado por um mercado organizado à distância, onde o intermediário controla o acesso ao país e o trabalhador já chega dependente de quem lhe arranjou o contrato. Depois fingem-se surpreendidos quando aparecem esquemas, máfias e tráfico de droga ligados a esse sistema.

A regra que defendo é simples… quem entra legalmente tem 90 dias para encontrar trabalho e demonstrar que possui alojamento, meios de subsistência e antecedentes compatíveis com a residência. Cumpre os requisitos, documenta-se. Não cumpre, regressa ao seu país. Ninguém sério é contra isso. Aliás, meios de subsistência, alojamento, inscrição na Segurança Social, quando aplicável, e controlo dos antecedentes criminais já faziam parte das condições legais para obter uma autorização de residência.

Aos 20% que garantem que Portugal não precisa de imigração, a resposta é muito simples: faltam trabalhadores nas obras, na agricultura, nos lares, nas cozinhas, nos hotéis, nas limpezas, nos transportes e em muitos outros trabalhos essenciais. Apareçam amanhã de manhã para ocupar esses lugares. Por cada um que aparecer, será necessário menos um imigrante.

No segundo trimestre de 2026, o desemprego caiu para 5,3%, o valor mais baixo da atual série do INE. O Banco de Portugal diz que os trabalhadores estrangeiros se tornaram centrais para o crescimento do emprego num contexto de redução da população nacional em idade ativa e de escassez de mão-de-obra. A OCDE avisa que a falta de trabalhadores e o envelhecimento já pesam sobre o crescimento e a capacidade das empresas portuguesas para crescer e inovar.

Também podemos exigir salários suíços para atrair trabalhadores na Europa. E até concordo… os salários portugueses são demasiado baixos e deviam subir. Mas Portugal é um país com pouca acumulação de capital, baixas qualificações em grande parte da população, investimento insuficiente, empresas pequenas que raramente conseguem crescer e demasiada gestão pouco preparada para construir uma economia tecnológica como a suíça. Não temos apenas um problema de produtividade.

Temos falta de capital, formação, investigação, escala empresarial, gestão competente e empresários capazes de criar atividades de elevado valor.

Pagar salários suíços para apanhar batatas não transforma as empresas nacionais em líderes mundiais em inteligência artificial. Fechar uma exploração agrícola não cria uma fábrica de semicondutores. Fechar um restaurante não forma engenheiros. Expulsar um servente não cria um empresário tecnológico. Só destrói a economia de baixo valor que ainda existe, sem criar capital, empresas, conhecimento ou riqueza de alto valor para a substituir. Parte dessa conta, derivada da estupidez que engolimos nas redes sociais, já está a chegar.

A primeira fatura aparece na habitação

Portugal precisa de cerca de 300 mil casas, mas faltam entre 80 mil e 120 mil trabalhadores na construção. Cerca de 30% dos trabalhadores do setor são estrangeiros.

Entretanto, a imigração líquida caiu para cerca de metade e as empresas avisam que as restrições já estão a agravar a falta de mão-de-obra e poderão provocar atrasos, aumentos de custos ou cancelamentos de projetos.

Menos pedreiros, serventes, carpinteiros, eletricistas, canalizadores e pintores não fazem baixar o preço das casas. Fazem subir o custo da construção, prolongam os prazos e reduzem o número de casas que se consegue construir. A política que supostamente protege os portugueses acaba a tornar mais cara a casa do português.

O mesmo pedreiro que falta para construir um prédio falta para recuperar uma casa abandonada. O mesmo canalizador falta para substituir uma canalização. O mesmo eletricista falta para reabilitar um imóvel que podia voltar ao mercado de arrendamento.

Os orçamentos sobem. As esperas aumentam. Pequenas obras deixam de compensar. Casas que podiam ser recuperadas continuam vazias e degradadas. A falta de mão-de-obra já está a empurrar para cima as mensalidades dos lares. Em apenas um ano, o valor médio aumentou cerca de 250 euros e aproximou-se dos dois mil euros mensais, enquanto 70% das unidades analisadas não tinham vagas. Um lar não funciona com discursos patrióticos e racistas. É preciso alguém para dar banho, mudar roupa, preparar refeições, limpar quartos, administrar cuidados, vigiar durante a noite e ajudar uma pessoa que já não consegue levantar-se sozinha. Esse trabalho não pode ser deslocalizado para a China. E ainda não existe uma aplicação que dê banho ao avô. Se faltarem auxiliares e cuidadores, as mensalidades sobem ainda mais, as vagas diminuem, a qualidade piora ou o trabalho regressa para dentro das famílias. Perdemos uma auxiliar de um lar e obrigamos uma enfermeira, uma professora, uma contabilista ou uma engenheira a reduzir o horário ou a abandonar temporariamente o emprego para cuidar dos pais. Retira-se uma pessoa de um trabalho essencial e acaba-se por retirar outra de um trabalho mais qualificado.

Depois chega a agricultura

Os trabalhadores estrangeiros já representam cerca de metade da força de trabalho agrícola portuguesa. Uma batata não se apanha através da internet. Uma vinha não se vindima com inteligência artificial. Se faltarem trabalhadores, o agricultor tem três possibilidades… Produz menos, abandona a cultura ou fecha a atividade. No fim, a conta aparece na caixa do supermercado.

A comida produzida em Portugal fica mais cara ou deixa de ser produzida. E depois importamos aquilo que já não conseguimos colher cá. Expulsamos o trabalhador estrangeiro que apanhava a fruta em Portugal e compramos fruta produzida em Espanha, Marrocos ou França por outro trabalhador estrangeiro. Destruímos a produção portuguesa, o emprego, os impostos e a riqueza que ficava no país.

Depois vêm os hotéis, os restaurantes, as cozinhas e as limpezas

Os estrangeiros representam atualmente cerca de 40% dos trabalhadores da hotelaria e restauração. Não podemos mandar limpar um quarto no Algarve a partir de uma central na Índia. Não podemos arrumar uma cozinha, lavar a loiça ou preparar um pequeno-almoço usando um robô do Elon Musk. Ou existe alguém para fazer o trabalho, ou o serviço fica mais caro, mais lento e pior.

Os restaurantes reduzem horários. Os hotéis fecham. As equipas ficam sobrecarregadas. As empresas recusam clientes. Algumas fecham. E quem paga não é André Ventura, nem o ministro que fez a lei, nem o influencer que partilhou o vídeo. É o português que paga mais pelo almoço, pela limpeza, pelo hotel, pela reparação da casa e pelo lar dos pais.

Depois chega a fatura às empresas

Uma empresa que não consegue contratar começa por recusar encomendas. A seguir adia investimentos. Depois deixa de crescer. E, quando chega o momento de decidir onde abrir a próxima fábrica, o próximo armazém, a próxima exploração agrícola ou o próximo centro logístico, compara países.

Se em Portugal não encontra trabalhadores e em Espanha encontra, o investimento atravessa a fronteira. Vai para onde consegue produzir. Com o investimento vão as máquinas, os fornecedores, as exportações, os impostos e os empregos mais qualificados.

Porque o imigrante que trabalha numa obra, numa fábrica, numa exploração agrícola ou num hotel não está sozinho. À sua volta existem encarregados, administrativos, técnicos, comerciais, motoristas, contabilistas, engenheiros e gestores. Quando a atividade desaparece, não desaparece apenas o posto manual ocupado pelo estrangeiro. Desaparece também o emprego melhor pago do português.

É assim que a mentira de que “um imigrante a menos significa um emprego a mais para um português” se vira contra quem acreditou na mentira. E, quando a economia começa a encolher, os portugueses não são promovidos para uma economia tecnológica imaginária. Alguns acabam empurrados para trás. O encarregado volta a executar tarefas manuais. A profissional qualificada reduz o horário para cuidar dos pais. O trabalhador despedido de uma empresa que fechou aceita um emprego mais duro, mais precário e pior pago. Não se acabou com a exploração. Mudou-se apenas o explorado.

Depois chega a conta à Segurança Social

Em 2025, os estrangeiros pagaram mais de 4,15 mil milhões de euros em contribuições, cerca de 14% do total. Portugal envelhece. Há cada vez mais pensionistas e, proporcionalmente, menos pessoas em idade ativa a pagar as suas reformas.

Podemos querer menos imigração. O que não podemos é querer, ao mesmo tempo, menos trabalhadores, mais idosos, reformas maiores, melhores hospitais, mais lares, menos impostos e fingir que as contas se resolvem com bandeiras do Chega a abanar e TikToks do André Ventura. Alguém vai pagar. E não serão os milionários que financiam esses partidos. A conta acaba nas contribuições, nos impostos, nas reformas e nos serviços públicos.

Uma economia que produz menos, investe menos e emprega menos gera menos receita. Ao mesmo tempo, uma população envelhecida precisa de mais saúde, mais pensões, mais cuidados continuados e mais apoio domiciliário. Quando o dinheiro deixa de chegar, o Estado escolhe… aumenta os impostos, aumenta as contribuições, reduz o crescimento das reformas, adia investimentos ou corta nos serviços.

A extrema-direita vende a expulsão como se fosse gratuita

Não é… Está a ter um preço brutal na nossa economia e os custos já se sentem em todo o lado.mAcabaram os anos de ouro em que foram criados mais postos de trabalho do que havia portugueses para os ocupar e chamavam à nossa economia uma das melhores do mundo.

A conta hoje já aparece no centro de saúde sem profissionais, na operação adiada, no lar sem vaga, na escola degradada, no transporte que não foi construído e na reforma que já não acompanha o custo de vida.

Até as obras públicas ficaram mais caras. O Governo pode anunciar milhares de milhões para habitação, ferrovia, hospitais, redes elétricas e transição energética. Mas o dinheiro não pega numa pá, não conduz uma máquina, não assenta um tijolo e não instala um cabo.

Sem trabalhadores, os concursos ficam vazios, as obras atrasam e o Estado paga mais.Ter fundos europeus sem pessoas para executar os projetos é como ter uma ambulância sem condutor… fica muito bonita na fotografia, mas não salva ninguém.

E, por fim, destrói-se a própria capacidade de mudar a economia. Uma economia tecnológica não nasce no espaço vazio deixado por uma exploração agrícola que fechou, por um hotel que reduziu a atividade ou por uma empresa de construção que desistiu. A transição para uma economia de elevado valor exige capital, formação, universidades, investigação, empresários preparados, empresas com escala e anos de investimento. E tudo isso custa dinheiro.

Quando destruímos empresas, produção, empregos e contribuições, também destruímos lucros, impostos, poupança e investimento… ou seja, destruímos parte da riqueza que podia financiar a passagem para uma economia melhor.

A economia de alto valor tem de ser construída por cima da economia que já existe, substituindo-a progressivamente à medida que surgem atividades melhores. Se demolirmos primeiro e tentarmos construir depois, podemos acabar sem nenhuma das duas. Sem trabalhadores para construir casas, colher alimentos, limpar hotéis e cuidar dos idosos. E sem capital, empresários, qualificações e tecnologia para criar a economia do futuro. Sem a economia antiga e sem a nova.

É um país a caminhar para o colapso enquanto aplaude a própria queda. O verdadeiro fracasso foi deixar Portugal envelhecer, perder trabalhadores, manter baixas qualificações, acumular pouco capital e não investir devidamente a riqueza criada pela imigração na habitação, nos serviços públicos, na formação e na transformação da economia.

Depois, para esconder esse falhanço, apontaram o dedo ao alvo mais fácil… o trabalhador pobre que chegou de fora. Tudo isto é vendido como patriotismo. Mas não há nada de patriótico em tornar mais cara a casa do português, o lar dos pais do português, a comida do português e os serviços de que o português precisa.

Não há nada de patriótico em perder empresas para Espanha, produção agrícola, investimento, contribuições para a Segurança Social e empregos de portugueses.

E não há nada de patriótico em pôr o português pobre contra o imigrante ainda mais pobre, enquanto o patrão que explora os dois goza férias nas Maldivas. Esse é o verdadeiro truque.

Põem quem ganha pouco a discutir com quem ganha ainda menos

Enquanto isso, o povo se entretém com vídeos do TikTok, descarrega a raiva em quem limpa os quartos, apanha a fruta, constrói as casas e cuida dos idosos.

Esta gente que financia a direita e transformou Portugal num país de salários baixos, rendas altas, baixa qualificação, pouco capital e serviços públicos insuficientes continua confortavelmente fora da discussão. A contar o dinheiro e a escolher a cor do próximo Lamborghini.

A escada para a cave

(José Pendão, in Facebook, 07/07/2026, Revisão da Estátua)


Há uma grande vantagem no Chega: só engana quem faz muita questão de ser enganado.

O partido tem a subtileza de uma sirene de fábrica às seis da manhã. Desde que apareceu, foi colocando no escaparate democrático o seu pequeno bazar de horrores: prisão perpétua, perda de nacionalidade, castração química, revisão constitucional com cheiro a demolição controlada, guerra à imigração, guerra às pessoas trans, guerra às mulheres, guerra às escolas, guerra às bandeiras, guerra aos pobres, guerra a tudo o que respire fora do molde regulamentar do ressentimento nacional.

Não é um programa político. É uma lista de compras feita por um inquisidor com cartão Continente.E, mesmo assim, há sempre alguém a dizer: “Calma, é preciso ouvir estas pessoas.”

Pois é. Ouvir, ouvimos. O problema é quando, depois de ouvir, alguém entrega o microfone, a sala, as chaves do edifício e ainda pergunta se preferem café ou chá antes da revisão constitucional.

Convém recordar o cardápio, porque a memória pública em Portugal tem a consistência de pudim instantâneo. O Chega quis prisão perpétua. Quis perda de nacionalidade para cidadãos naturalizados. Abriu espaço para a castração química. Teve uma moção aprovada numa convenção que defendia a esterilização de mulheres que recorressem repetidamente ao aborto. Propôs confinamento específico para comunidades ciganas durante a pandemia. Apropriou-se do velho lema “Deus, Pátria, Família”, esse perfume de sacristia autoritária que Portugal conhece demasiado bem para fingir inocência.

Sim, meus amigos. “Deus, Pátria, Família.” Porque aparentemente o Estado Novo tinha problemas, mas a linha de merchandising era fortíssima.

E depois há quem se ofenda quando chamam extrema-direita à extrema-direita. É sempre comovente. Querem prisão perpétua, punitivismo corporal, nacionalidade condicional, moral sexual de confessionário, suspeita racial e uma Constituição com menos direitos e mais cacete — mas ai de quem lhes diga que isto tem um certo ar de família ideológica. Ficam magoadíssimos. Uma extrema-direita muito sensível. Uma espécie de rinoceronte de porcelana.

A sociologia, essa velha estraga-jantares, tem palavras para isto. Chama-lhe pânico moral quando uma sociedade escolhe grupos vulneráveis, transforma-os em ameaça existencial e depois exige autoridade, polícia, castigo, expulsão, pureza. Chama-lhe nativismo quando a comunidade nacional é imaginada como propriedade de uns contra a presença de outros. Chama-lhe populismo autoritário quando o “povo” é reduzido aos que concordam com o chefe e todos os restantes passam a ser parasitas, traidores, degenerados ou estrangeiros em potência.

O Chega não inventou a roda. Limitou-se a pôr-lhe pneus carecas e conduzi-la em contramão na Avenida da Liberdade.

Mas o Chega, sozinho, não é a história toda. Seria apenas o Chega: ruidoso, agressivo, performativo, uma mistura de tasca ressentida com seminário de marketing digital para quem acha que a civilização ocidental acabou quando alguém pediu leite de aveia. O problema começa quando a direita clássica decide que o monstro afinal é útil para carregar mobília.

Durante anos, PSD e CDS apresentaram-se como a direita responsável, europeia, institucional, democrata-cristã, personalista, respeitadora do regime. Tinham as suas obsessões, os seus tiques, os seus senhores de blazer que dizem “rigor” como quem mastiga uma noz seca. Mas havia uma linha. Uma linha mínima. Uma dessas coisas antigas, quase românticas, como telefones com fio ou vergonha na cara.

Essa linha foi ao chão. Não caiu com estrondo. Não houve trovões. Não entrou um tanque pelo Terreiro do Paço. Caiu como caem as coisas em Portugal: devagarinho, em reuniões, requerimentos, votações, comunicados, entrevistas sem perguntas e frases sobre “sentido de responsabilidade”. A democracia portuguesa, que já sobreviveu a tanta mediocridade com ar condicionado, assiste agora a uma novidade mais perigosa: a normalização do indigno com linguagem de expediente.

A Lei da Nacionalidade endurece. A Lei dos Estrangeiros aperta. O discurso sobre imigração passa a soar menos a política pública e mais a triagem étnica com assessoria jurídica. Fala-se em ligação efetiva, integração, segurança, controlo. Palavras limpas. Palavras passadas a ferro. Palavras que, na prática, servem muitas vezes para dizer: tu, talvez; tu, não; tu, espera; tu, prova; tu, volta; tu, és sempre suspeito.

E a televisão ajuda. A televisão ajuda imenso. A televisão descobriu os imigrantes como quem descobre bolor atrás do armário. Há imigrantes no rodapé, imigrantes no painel, imigrantes no direto, imigrantes em imagens de rua, imigrantes encostados à parede, imigrantes como cenário, imigrantes como ameaça, imigrantes como meteorologia adversa.

Entretanto, a escola pública pode arder em lume brando, o SNS pode tossir sangue, a habitação pode transformar-se num casino com canalização, o preço do cabaz alimentar pode exigir financiamento bancário — mas o país acorda todos os dias para discutir nacionalidade e imigração como se a grande crise portuguesa fosse o vizinho chamar-se Rahim, trabalhar doze horas e ainda assim ter a ousadia metafísica de existir.

E quando os crimes de ódio aumentam, quando a violência simbólica começa a procurar corpo, quando a frase nojenta de ontem vira piada aceitável hoje e proposta legislativa amanhã, aparece sempre alguém, muito composto, a pedir serenidade. A serenidade é belíssima. Também é excelente para ver a casa arder sem deixar cair o cálice.

Depois vieram as pessoas trans, porque nenhuma vaga reacionária se sente completa sem meter o Estado dentro do corpo de alguém. O Parlamento aprovou, com PSD, Chega e CDS, alterações que revogam a lógica de autodeterminação de género. De repente, o Estado português, que demora meses a resolver uma consulta, descobriu uma rapidez fulminante para vigiar identidades. A máquina pública, habitualmente sonolenta como um gato ao sol, tornou-se atleta olímpica quando o assunto foi dizer a uma minoria: “Espere. Prove. Justifique-se. Passe pelo guiché da dignidade condicionada.”

É notável. Para resolver urgências hospitalares, prudência. Para resolver salários, complexidade. Para resolver habitação, mercado. Para limitar direitos de pessoas trans, celeridade parlamentar. Quase dá vontade de pôr uma bandeira arco-íris à porta do SNS para ver se finalmente alguém o leva a sério.

Ah, a bandeira. Essa ameaça têxtil à República.

PSD, Chega e CDS aprovaram também a proibição de bandeiras “ideológicas, partidárias ou associativas” em edifícios públicos, atingindo, entre outras, a bandeira LGBTI. Finalmente, Portugal enfrentou o seu grande inimigo: um retângulo colorido. O país suspirou de alívio. As rendas baixaram, os médicos regressaram, os professores sorriram, os comboios chegaram a horas. Tudo porque se impediu um edifício público de parecer minimamente solidário com pessoas que ainda levam pancada por serem quem são.

Chama-se a isto guerra cultural. É barata, fotogénica e não exige resolver nada. Dá ao eleitor a sensação de vitória sem lhe dar casa, salário, médico, escola ou futuro. É como comer algodão-doce em dia de fome: fica-se com a boca doce e o estômago vazio.

E depois há os pobres. Porque o reacionário moderno nunca perdoa ao pobre a falta de elegância estatística.

A ideia de obrigar beneficiários de prestações sociais a trabalho comunitário apareceu embrulhada em palavras lindas: dignidade, mérito, responsabilidade, contribuição. A direita adora estas palavras quando olha para baixo. Para cima, prefere outras: incentivo, competitividade, contexto, desburocratização. Ao pobre exige-se moral. Ao forte oferece-se enquadramento. Ou seja: se estás sem meios, prova que mereces ajuda. Se tens poder, explica-nos calmamente porque não podias cumprir.

E pelo caminho ainda se quis aliviar a criminalização da omissão de declaração de trabalhadores à Segurança Social. Isto num país onde o trabalho doméstico, a imigração indocumentada e a vulnerabilidade feminina se cruzam muitas vezes numa espécie de cave social que todos sabem existir, mas sobre a qual se fala baixinho, para não perturbar o almoço.

Dureza para o fraco. Nuance para o patrão. Chibatinha moral para baixo, almofada processual para cima. Um clássico. Eça teria escrito isto, mas provavelmente teria pedido um brandy a meio.

É tudo muito rápido. Demasiado rápido. E a velocidade é parte do método. Atira-se tudo ao mesmo tempo: imigração, nacionalidade, género, bandeiras, prestações sociais, Código Penal, revisão constitucional. O cidadão comum tenta acompanhar como quem apanha papéis ao vento num dia de temporal. Quando percebe uma coisa, já há três novas. Quando se indigna com uma, dizem-lhe que a outra é mais importante. Quando protesta, acusam-no de histeria. Quando se cala, chamam consenso.

É assim que se muda a janela do aceitável. Não se empurra de uma vez. Desloca-se um centímetro por dia. Ontem era impensável. Hoje é polémico. Amanhã é razoável. Depois de amanhã é inevitável. Na sexta-feira já há um comentador a dizer que sempre defendeu aquilo, embora com “preocupações humanistas”.

Portugal conhece esta música. Já a ouviu em vinil, em rádio de pilhas, em discursos graves, em salas onde se confundia ordem com medo e autoridade com obediência. Não precisamos de fingir que cada regressão chega ao mundo sem antecedentes, como uma criança pura nascida de um ovo constitucional.

O mais grave não é que o Chega queira descer a escada. O Chega nasceu no patamar de baixo e sempre olhou para a cave com saudade.

O mais grave é ver PSD e CDS, partidos que se diziam da casa democrática, a segurar o corrimão, a acender a luz e a murmurar: “Vá, mas com responsabilidade.”

Porque é isto que está em causa: não o folclore do Chega, não os gritos, não os cartazes, não as frases de tasca com microfone parlamentar. O que está em causa é a autorização. A bênção. A respeitabilidade emprestada. A velha direita democrática a servir de lavandaria institucional para ideias que ainda ontem cheiravam a mofo, porão e arquivo da PIDE.

E quando o indigno passa pela máquina de lavar do poder, sai com cheiro a legislação. Por isso, sim: está tudo a acontecer muito depressa. Mas não tão depressa que não se veja.

Vê-se perfeitamente. Vê-se no modo como se fala de imigrantes. Vê-se no modo como se suspeita dos pobres. Vê-se no modo como se patologizam pessoas trans. Vê-se no modo como se transforma uma bandeira num inimigo. Vê-se no modo como a Constituição deixa de ser abrigo comum e passa a projeto de remodelação para quem acha que há direitos a mais e portugueses errados.

A democracia não morre apenas quando alguém lhe aponta uma arma. Às vezes morre de gravata, com quórum, parecer, requerimento conjunto e hino nacional no fim.

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