Como Draghi e os últimos 30 anos abriram caminho à extrema-direita

(In AbrilAbril, 30/07/2022)

A queda do «Super Mario» provocou pânico em Bruxelas e a indignação dos meios de comunicação social. A vitória da extrema-direita é quase uma certeza.


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Alterações climáticas na ecologia política

(Pacheco Pereira, in Público, 16/04/2022)

Pacheco Pereira

A direita, porque cresce, está arrogante e persecutória e a esquerda está na defensiva, moralista, encurralada e ineficaz.


As últimas eleições legislativas mostraram alterações significativas na nossa ecologia política. É como se tivessem chegado drásticas alterações climáticas que estão a mudar o nosso “tempo”. E como acontece com as outras, as do planeta, há quem queira ver e quem faça de conta que nada mudou. Elas manifestam-se em todo o espectro político, e estão interligadas: o PS tornou-se o grande partido centrista, a direita trouxe para o Parlamento a sua radicalização, e a esquerda tornou-se quase insignificante.

DR

Mantendo a minha posição de fundo, a de que conceitos como esquerda e direita não são heurísticos — porque da sua aplicação não resulta conhecimento, mas ilusão, ou, se se quiser, aquilo a que Marx chamava “ideologia” —, uso-os muitas vezes mais por comodidade do que por rigor. Mas aqui é impossível não os usar como descritores, porque, quando numa sociedade há um reforço político identitário que passa por esta dicotomia, ela não pode deixar de ser usada, mesmo que os termos sejam mais posicionais do que substanciais. Está em curso também uma radicalização identitária do espaço público, mais do que na sociedade, mas vai lá chegar. A radicalização é um processo difícil de travar, embora os seus limites sejam sempre os grandes números, os eleitores, a democracia.

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O país está centrista — veja-se a vitória do PS, de que ninguém verdadeiramente quer tirar consequências, com a ilusão de que é um partido de esquerda. Na verdade, o PS é um partido muito mais centrista do que de esquerda, e que não ganharia se não fosse assim, mas que não tem vontade nem capacidade reformista. O centro está sólido, mas imóvel e estagnado, susceptível à corrupção e ao clientelismo, mas incapaz de reformas. E como tem tempo, pior ainda.

A nova ecologia mostra que a direita radical está na ofensiva, dominando grande parte do espaço público, com uma presença na comunicação social cada vez mais significativa e que não se mede nas listas ridículas das altercações no Twitter, este é “teu” e este é “meu”. Vai mais longe e mais fundo, é uma presença de contexto que molda a direcção editorial, as escolhas de temas, de perguntas, e, claro, de pessoas. Nas redacções, nos lugares, nos apresentadores, nos comentadores residentes, conforme o seu canal e horário, nas relações com financiadores, nas parcerias com fundações e com think tanks.

A possibilidade de reformas poderia ter vindo do PSD, em aliança com o PS, mas o falhanço de Rio no PSD, que se deveu em grande parte às ambiguidades face ao Chega, acabou com essa possibilidade

A direita, porque cresce, está arrogante e persecutória e a esquerda está na defensiva, moralista, encurralada e ineficaz. O moralismo é uma espécie de defesa no último quartel. Na sua variante mais extremista, naquilo a que se chama o “politicamente correcto”, a esquerda torna-se censória e iliberal, pretendendo que o controlo das palavras lhe dá o controlo da sociedade e assumindo causas com nomes nobres, mas práticas autoritárias.

Acantona-se assim num combate cultural que acaba por ser supra-social, e que desvaloriza as causas económicas e sociais da desigualdade, da exclusão, da injustiça. O resultado é um elitismo “cultural-chic”, que grassa como uma moda, na comunicação social, nas indústrias culturais subsidiadas, na intelectualidade dos suplementos culturais, mas está a perder a competição nos jovens com a direita radical sob veste anarco-liberal, na “Burberry school of economics”, e com os adultos no populismo conservador, e de facto machista e racista, do Chega.

Noutro aspecto, a esquerda torna-se vítima de si própria, porque o moralismo em política faz o jogo da direita que tem os pecados todos, a começar pela corrupção, a fuga aos impostos, o “planeamento fiscal” que leva a riqueza ganha cá para “lá”, a indiferença e o egoísmo social, mas que é menos afectada pela sua denúncia pública, como se as pessoas achassem que isso é “normal”, expectável, como agora se diz.

O moralismo torna pecadilhos de gente da esquerda escândalos de dimensão nacional que a direita usa com sanha muito para além da sua real importância. Vejam-se os títulos e torrentes de artigos sobre a exclusividade não cumprida de Mariana Mortágua, as obras ilegais na casa de Ana Gomes ou a imaginação curricular de Raquel Varela, e não é por acaso serem todas mulheres. Fizeram asneira? Fizeram, mas o que está em causa é a proporção do ataque. A proporção ainda conta ou não? Para este tipo de combate corpo a corpo, não.

A direita aponta alvos, e desenvolve campanhas, a esquerda está manietada ou porque quer ou porque não pode. A razão é que a dinâmica política dá hoje o poder de classificar à direita radical, que aponta a alvos demasiado passivos, porque ou têm culpa ou não “assumem”, como dizem as revistas do jetset, ou ficam a um canto à espera que passe o mau tempo. Não passa.

A guerra ucraniana agravou este processo, e teve um efeito devastador à esquerda, desequilibrando ainda mais um processo que já vinha de antes. Mas isso fica para uma continuação.

O autor é colunista do PÚBLICO


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“Isto é o futuro”?

(Manuel Loff, in Público, 05/04/2022)

Manuel Loff

Parece que nem se reparou. O ultradireitista Viktor Orbán ganhou as quartas eleições consecutivas. Há doze anos no poder, Orbán transformou por via constitucional o sistema político húngaro, para dele fazer um caso paradigmático de liberalismo autoritário (liberal nas formas, autoritário no conteúdo), derrotou uma coligação verdadeiramente inacreditável de forças da oposição que vão desde os socialistas aos neofascistas do Jobbik, e que escolheu um candidato para disputar o Governo a Orbán que é toda uma metáfora dos tempos que vivemos: Péter Márki-Zay é um neoliberal de formação americana, contrário ao salário mínimo e a imposto sobre fortunas; católico conservador que, só para efeitos da campanha eleitoral, se comprometeu a deixar de opor-se ao divórcio e ao aborto; e defensor da política de Orbán de bloqueio à entrada de refugiados não europeus.

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O ter apoiado, contra a posição do Governo, o envolvimento húngaro na ajuda militar à Ucrânia contra a Rússia parece ter-lhe custado tantos votos que permitiu a Orbán aparecer como o homem que quer proteger a Hungria da guerra e ganhar por uma margem maior que a anterior. Se podem ser limpas e justas eleições disputadas no contexto autoritário que é o húngaro, essa é outra história; as dúvidas sobre a democraticidade da Hungria levantam-se num contexto de generalizada erosão democrática que tem as suas componentes centrais no securitarismo de Estado, na intimidação das minorias étnicas e políticas, na hipervigilância feita sistema, a que agora se soma uma nova corrida ao armamento.

Normalizada, integrada, assumida. A presença generalizada da extrema-direita por toda a Europa faz de Orbán, juntamente com o governo da extrema-direita católica polaca, mais um caso de sucesso que de exceção. De norte a sul do continente, partidos da extrema-direita povoam os corredores do poder político e/ou as suas agendas e as suas propostas são adotadas com mais ou menos adaptações por governos que se dizem democráticos depois de encenarem a rejeição do racismo, da xenofobia e do autoritarismo.

Ao contrário do que se tem escrito, a grande maioria da extrema-direita (a começar pela própria ucraniana) tem-se assumido como anti-Putin e, coerentemente com o seu discurso nacional-historicista, descreve a Rússia como o inimigo ancestral daquilo a que agora se voltou a chamar a civilização europeia – precisamente a mesma que outras extremas-direitas acham ter na Rússia de Putin um dos seus defensores. No poder (da Polónia, da Letónia, da Eslováquia), ela pode posicionar-se a favor de tudo quanto possa arrastar a NATO para uma guerra com a Rússia, ou, pelo contrário, como no caso da Hungria, manter com o governo russo uma relação semelhante àquela que se tem descrito haver (ou ter havido) entre a extrema-direita francesa, italiana ou austríaca.

O que a guerra tem propiciado é uma normalização das extremas-direitas do centro-leste da Europa, a começar pela polaca e pela ucraniana, descritas agora como “aliados fiéis” do Ocidente na luta contra a Rússia.

Não é, portanto, a posição perante Putin que define a extrema-direita, da mesma forma que tomar partido nesta guerra, como bem se percebe, não distingue quem é democrata de quem não o é. O que a guerra tem propiciado é uma normalização das extremas-direitas do centro-leste da Europa, a começar pela polaca e pela ucraniana, descritas agora como “aliados fiéis” do Ocidente na luta contra a Rússia. (Pensando bem, é exatamente o que elas diziam de si próprias quando por toda a região se aliaram a Hitler em 1941.)

Outra das lições destes anos de autoritarismo húngaro e polaco – hoje com atitudes diferentes perante a guerra na Ucrânia, mas que permanecem os aliados de sempre nas suas políticas racistas – é que nenhum deles pretende deixar a UE: o que eles querem, como sublinha Steven Forti (Extrema-derecha 2.0, 2021), é “mudá-la mas não destruí-la”. Toda a extrema-direita do leste da Europa (a começar por Orbán) é partidária da adesão quer à NATO, quer à UE, e aquela que na Europa ocidental pôs em causa não a primeira, mas a segunda, deixou de o fazer a partir de 2017-18. Podem húngaros e polacos enfrentar, com muita calma, de resto, a ameaça de sanções de Bruxelas (de que não mais se ouviu falar), mas nenhum dos dois governos pretende abandonar a UE. Pelo contrário, o que demonstra a reação ocidental à guerra é que eles têm ganho um significativo espaço de manobra. Como disse Orbán no domingo passado, “o que estamos a dizer à Europa é que isto não é o passado – isto é o futuro.”

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico


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