Põem quem ganha pouco a discutir com quem ganha ainda menos

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 09/08/2026, Revisão da Estátua)

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O Chega não precisou de chegar ao Governo para rebentar com o país, destruir as contas públicas e fazer a sociedade retroceder 50 anos. Uma turba minoritária, mas barulhenta, agressiva e muito ativa nas redes sociais, conseguiu elevar um partido alimentado pelo ressentimento e pelas mentiras até ao centro da política portuguesa.

E a direita tradicional, em vez de enfrentar a extrema-direita, começou a imitá-la. Primeiro copiou-lhe as palavras. Depois copiou-lhe os inimigos. A seguir copiou-lhe as leis. Agora já copia até os disparates.

Mas não é só em Portugal. A Itália, campeã das entradas ilegais pelo Mediterrâneo, aparece agora indignada com Espanha por causa de Ceuta, uma cidade espanhola situada em África… sim, em África. Só em 2025 chegaram a Itália por mar 66 316 migrantes, quase metade de todas as chegadas registadas no Mediterrâneo nesse ano. Ainda assim, foi o Governo italiano que decidiu impor controlos a quem viajava de Espanha… Irónico, não é?

Bastaram algumas imagens de pessoas a correr e, em poucos minutos, o TikTok já tinha decretado uma “invasão da Europa”. É assim que se faz política hoje. Por trás deste espetáculo existe uma máquina internacional de propaganda da extrema-direita, alimentada por Estados, redes digitais, interesses económicos e serviços de informações.

E há suspeitas de que a crise de Ceuta possa ter feito parte de uma operação híbrida conduzida por Marrocos e Israel, com envolvimento da Mossad, para pressionar e desestabilizar o Governo espanhol. Isto ajuda a perceber até que ponto populações desesperadas podem ser usadas como arma por interesses que nada têm de humanitário. Depois, as imagens são entregues aos idiotas úteis do TikTok. Uns fabricam o caos, outros filmam-no e a extrema-direita transforma-o em votos.

O resultado está à vista. Há gente que já nem sabe distinguir imigração não documentada de entrada ilegal. Segundo os dados da Polícia Marítima divulgados pela Autoridade Marítima Nacional, em dez anos foram registados apenas sete episódios de entrada irregular, envolvendo 135 pessoas. Cento e trinta e cinco pessoas em dez anos. Na Itália entraram centenas de milhares. Em Portugal, por esta via, foram 135. Mas explicar esta diferença destrói o espetáculo. Acaba com a “invasão”, estraga os vídeos e obriga os vendedores de medo a discutir a realidade.

Por isso misturam tudo. Misturam quem atravessou clandestinamente uma fronteira com quem entrou legalmente e só depois ficou em overstay. Misturam quem ficou além do prazo com trabalhadores que aguardam documentos mas o estado falha. Misturam pessoas sem título de residência com criminosos e depois atiram tudo para o mesmo saco, porque sem essa aldrabice não existe invasão nenhuma para vender.

Nenhum partido sério defende fronteiras abertas a criminosos ou um país sem controlo. Isso é uma mentira inventada para fugir à verdadeira discussão… saber se uma pessoa que entrou legalmente, vive cá, trabalha, tem casa, filhos, meios de subsistência e passa o controlo dos antecedentes criminais deve poder regularizar a sua situação ou deve ser expulsa, separada dos filhos, presa e tratada como uma criminosa.

É aqui que o circo fica à vista. Os partidos que mais berram contra a ilegalidade são muitas vezes os mesmos que criam as condições para manter milhares de pessoas sem documentos.

Sem documentos, o Estado sabe menos. Não sabe com segurança onde vivem, para quem trabalham, quanto recebem, se são exploradas, se os patrões pagam impostos ou se existe algum problema criminal. Em vez de as trazerem para dentro da lei, deixam-nas na sombra. E uma pessoa na sombra dá muito jeito a alguns chicos-espertos. Trabalha mais barato, reclama menos, não denuncia o patrão, aceita horários que mais ninguém aceitaria e vive com medo de ser expulsa. É o trabalhador ideal para o patrão sem escrúpulos que vota no CHEGA.

Todos os anos, Portugal recebe perto de 30 milhões de turistas não residentes. Em 2025 foram 29,9 milhões. REPITO… Quase 30 milhões de chegadas num único ano. Esses visitantes também utilizam aeroportos, estradas, transportes, hospitais, água, energia, alojamento e espaço urbano. Também criam pressão sobre o país. E não lhes é exigido, como condição de cada entrada, o conjunto de provas pedido a quem pretende trabalhar cá.

Mas ninguém fala disso. Ninguém fala em substituição populacional quando chega um avião cheio de turistas britânicos. Ninguém publica um vídeo quando empurram a população do centro das cidades para abrir alojamentos locais e lojas de souvenirs. Portanto, o problema nunca foi simplesmente o estrangeiro entrar. O problema é ser pobre, trabalhar cá e querer fazer parte da sociedade.

O Governo acabou com a manifestação de interesse em junho de 2024, eliminando a via que permitia a regularização através do trabalho e dos descontos. Ou seja, fechou-se a porta precisamente aos trabalhadores de que mais precisam a agricultura, a construção, os lares, as cozinhas, os hotéis e as limpezas. Agora, esse trabalhador tem de conseguir, a milhares de quilómetros de distância, um patrão disposto a contratá-lo antes de o conhecer. Estúpido não é?

Isto é a receita perfeita para criar intermediários, contratos comprados, falsas promessas, burlas, dependência e redes de exploração mafiosas. Troca-se um processo que podia ser controlado diretamente entre o trabalhador, a empresa, a Segurança Social e o Estado por um mercado organizado à distância, onde o intermediário controla o acesso ao país e o trabalhador já chega dependente de quem lhe arranjou o contrato. Depois fingem-se surpreendidos quando aparecem esquemas, máfias e tráfico de droga ligados a esse sistema.

A regra que defendo é simples… quem entra legalmente tem 90 dias para encontrar trabalho e demonstrar que possui alojamento, meios de subsistência e antecedentes compatíveis com a residência. Cumpre os requisitos, documenta-se. Não cumpre, regressa ao seu país. Ninguém sério é contra isso. Aliás, meios de subsistência, alojamento, inscrição na Segurança Social, quando aplicável, e controlo dos antecedentes criminais já faziam parte das condições legais para obter uma autorização de residência.

Aos 20% que garantem que Portugal não precisa de imigração, a resposta é muito simples: faltam trabalhadores nas obras, na agricultura, nos lares, nas cozinhas, nos hotéis, nas limpezas, nos transportes e em muitos outros trabalhos essenciais. Apareçam amanhã de manhã para ocupar esses lugares. Por cada um que aparecer, será necessário menos um imigrante.

No segundo trimestre de 2026, o desemprego caiu para 5,3%, o valor mais baixo da atual série do INE. O Banco de Portugal diz que os trabalhadores estrangeiros se tornaram centrais para o crescimento do emprego num contexto de redução da população nacional em idade ativa e de escassez de mão-de-obra. A OCDE avisa que a falta de trabalhadores e o envelhecimento já pesam sobre o crescimento e a capacidade das empresas portuguesas para crescer e inovar.

Também podemos exigir salários suíços para atrair trabalhadores na Europa. E até concordo… os salários portugueses são demasiado baixos e deviam subir. Mas Portugal é um país com pouca acumulação de capital, baixas qualificações em grande parte da população, investimento insuficiente, empresas pequenas que raramente conseguem crescer e demasiada gestão pouco preparada para construir uma economia tecnológica como a suíça. Não temos apenas um problema de produtividade.

Temos falta de capital, formação, investigação, escala empresarial, gestão competente e empresários capazes de criar atividades de elevado valor.

Pagar salários suíços para apanhar batatas não transforma as empresas nacionais em líderes mundiais em inteligência artificial. Fechar uma exploração agrícola não cria uma fábrica de semicondutores. Fechar um restaurante não forma engenheiros. Expulsar um servente não cria um empresário tecnológico. Só destrói a economia de baixo valor que ainda existe, sem criar capital, empresas, conhecimento ou riqueza de alto valor para a substituir. Parte dessa conta, derivada da estupidez que engolimos nas redes sociais, já está a chegar.

A primeira fatura aparece na habitação

Portugal precisa de cerca de 300 mil casas, mas faltam entre 80 mil e 120 mil trabalhadores na construção. Cerca de 30% dos trabalhadores do setor são estrangeiros.

Entretanto, a imigração líquida caiu para cerca de metade e as empresas avisam que as restrições já estão a agravar a falta de mão-de-obra e poderão provocar atrasos, aumentos de custos ou cancelamentos de projetos.

Menos pedreiros, serventes, carpinteiros, eletricistas, canalizadores e pintores não fazem baixar o preço das casas. Fazem subir o custo da construção, prolongam os prazos e reduzem o número de casas que se consegue construir. A política que supostamente protege os portugueses acaba a tornar mais cara a casa do português.

O mesmo pedreiro que falta para construir um prédio falta para recuperar uma casa abandonada. O mesmo canalizador falta para substituir uma canalização. O mesmo eletricista falta para reabilitar um imóvel que podia voltar ao mercado de arrendamento.

Os orçamentos sobem. As esperas aumentam. Pequenas obras deixam de compensar. Casas que podiam ser recuperadas continuam vazias e degradadas. A falta de mão-de-obra já está a empurrar para cima as mensalidades dos lares. Em apenas um ano, o valor médio aumentou cerca de 250 euros e aproximou-se dos dois mil euros mensais, enquanto 70% das unidades analisadas não tinham vagas. Um lar não funciona com discursos patrióticos e racistas. É preciso alguém para dar banho, mudar roupa, preparar refeições, limpar quartos, administrar cuidados, vigiar durante a noite e ajudar uma pessoa que já não consegue levantar-se sozinha. Esse trabalho não pode ser deslocalizado para a China. E ainda não existe uma aplicação que dê banho ao avô. Se faltarem auxiliares e cuidadores, as mensalidades sobem ainda mais, as vagas diminuem, a qualidade piora ou o trabalho regressa para dentro das famílias. Perdemos uma auxiliar de um lar e obrigamos uma enfermeira, uma professora, uma contabilista ou uma engenheira a reduzir o horário ou a abandonar temporariamente o emprego para cuidar dos pais. Retira-se uma pessoa de um trabalho essencial e acaba-se por retirar outra de um trabalho mais qualificado.

Depois chega a agricultura

Os trabalhadores estrangeiros já representam cerca de metade da força de trabalho agrícola portuguesa. Uma batata não se apanha através da internet. Uma vinha não se vindima com inteligência artificial. Se faltarem trabalhadores, o agricultor tem três possibilidades… Produz menos, abandona a cultura ou fecha a atividade. No fim, a conta aparece na caixa do supermercado.

A comida produzida em Portugal fica mais cara ou deixa de ser produzida. E depois importamos aquilo que já não conseguimos colher cá. Expulsamos o trabalhador estrangeiro que apanhava a fruta em Portugal e compramos fruta produzida em Espanha, Marrocos ou França por outro trabalhador estrangeiro. Destruímos a produção portuguesa, o emprego, os impostos e a riqueza que ficava no país.

Depois vêm os hotéis, os restaurantes, as cozinhas e as limpezas

Os estrangeiros representam atualmente cerca de 40% dos trabalhadores da hotelaria e restauração. Não podemos mandar limpar um quarto no Algarve a partir de uma central na Índia. Não podemos arrumar uma cozinha, lavar a loiça ou preparar um pequeno-almoço usando um robô do Elon Musk. Ou existe alguém para fazer o trabalho, ou o serviço fica mais caro, mais lento e pior.

Os restaurantes reduzem horários. Os hotéis fecham. As equipas ficam sobrecarregadas. As empresas recusam clientes. Algumas fecham. E quem paga não é André Ventura, nem o ministro que fez a lei, nem o influencer que partilhou o vídeo. É o português que paga mais pelo almoço, pela limpeza, pelo hotel, pela reparação da casa e pelo lar dos pais.

Depois chega a fatura às empresas

Uma empresa que não consegue contratar começa por recusar encomendas. A seguir adia investimentos. Depois deixa de crescer. E, quando chega o momento de decidir onde abrir a próxima fábrica, o próximo armazém, a próxima exploração agrícola ou o próximo centro logístico, compara países.

Se em Portugal não encontra trabalhadores e em Espanha encontra, o investimento atravessa a fronteira. Vai para onde consegue produzir. Com o investimento vão as máquinas, os fornecedores, as exportações, os impostos e os empregos mais qualificados.

Porque o imigrante que trabalha numa obra, numa fábrica, numa exploração agrícola ou num hotel não está sozinho. À sua volta existem encarregados, administrativos, técnicos, comerciais, motoristas, contabilistas, engenheiros e gestores. Quando a atividade desaparece, não desaparece apenas o posto manual ocupado pelo estrangeiro. Desaparece também o emprego melhor pago do português.

É assim que a mentira de que “um imigrante a menos significa um emprego a mais para um português” se vira contra quem acreditou na mentira. E, quando a economia começa a encolher, os portugueses não são promovidos para uma economia tecnológica imaginária. Alguns acabam empurrados para trás. O encarregado volta a executar tarefas manuais. A profissional qualificada reduz o horário para cuidar dos pais. O trabalhador despedido de uma empresa que fechou aceita um emprego mais duro, mais precário e pior pago. Não se acabou com a exploração. Mudou-se apenas o explorado.

Depois chega a conta à Segurança Social

Em 2025, os estrangeiros pagaram mais de 4,15 mil milhões de euros em contribuições, cerca de 14% do total. Portugal envelhece. Há cada vez mais pensionistas e, proporcionalmente, menos pessoas em idade ativa a pagar as suas reformas.

Podemos querer menos imigração. O que não podemos é querer, ao mesmo tempo, menos trabalhadores, mais idosos, reformas maiores, melhores hospitais, mais lares, menos impostos e fingir que as contas se resolvem com bandeiras do Chega a abanar e TikToks do André Ventura. Alguém vai pagar. E não serão os milionários que financiam esses partidos. A conta acaba nas contribuições, nos impostos, nas reformas e nos serviços públicos.

Uma economia que produz menos, investe menos e emprega menos gera menos receita. Ao mesmo tempo, uma população envelhecida precisa de mais saúde, mais pensões, mais cuidados continuados e mais apoio domiciliário. Quando o dinheiro deixa de chegar, o Estado escolhe… aumenta os impostos, aumenta as contribuições, reduz o crescimento das reformas, adia investimentos ou corta nos serviços.

A extrema-direita vende a expulsão como se fosse gratuita

Não é… Está a ter um preço brutal na nossa economia e os custos já se sentem em todo o lado.mAcabaram os anos de ouro em que foram criados mais postos de trabalho do que havia portugueses para os ocupar e chamavam à nossa economia uma das melhores do mundo.

A conta hoje já aparece no centro de saúde sem profissionais, na operação adiada, no lar sem vaga, na escola degradada, no transporte que não foi construído e na reforma que já não acompanha o custo de vida.

Até as obras públicas ficaram mais caras. O Governo pode anunciar milhares de milhões para habitação, ferrovia, hospitais, redes elétricas e transição energética. Mas o dinheiro não pega numa pá, não conduz uma máquina, não assenta um tijolo e não instala um cabo.

Sem trabalhadores, os concursos ficam vazios, as obras atrasam e o Estado paga mais.Ter fundos europeus sem pessoas para executar os projetos é como ter uma ambulância sem condutor… fica muito bonita na fotografia, mas não salva ninguém.

E, por fim, destrói-se a própria capacidade de mudar a economia. Uma economia tecnológica não nasce no espaço vazio deixado por uma exploração agrícola que fechou, por um hotel que reduziu a atividade ou por uma empresa de construção que desistiu. A transição para uma economia de elevado valor exige capital, formação, universidades, investigação, empresários preparados, empresas com escala e anos de investimento. E tudo isso custa dinheiro.

Quando destruímos empresas, produção, empregos e contribuições, também destruímos lucros, impostos, poupança e investimento… ou seja, destruímos parte da riqueza que podia financiar a passagem para uma economia melhor.

A economia de alto valor tem de ser construída por cima da economia que já existe, substituindo-a progressivamente à medida que surgem atividades melhores. Se demolirmos primeiro e tentarmos construir depois, podemos acabar sem nenhuma das duas. Sem trabalhadores para construir casas, colher alimentos, limpar hotéis e cuidar dos idosos. E sem capital, empresários, qualificações e tecnologia para criar a economia do futuro. Sem a economia antiga e sem a nova.

É um país a caminhar para o colapso enquanto aplaude a própria queda. O verdadeiro fracasso foi deixar Portugal envelhecer, perder trabalhadores, manter baixas qualificações, acumular pouco capital e não investir devidamente a riqueza criada pela imigração na habitação, nos serviços públicos, na formação e na transformação da economia.

Depois, para esconder esse falhanço, apontaram o dedo ao alvo mais fácil… o trabalhador pobre que chegou de fora. Tudo isto é vendido como patriotismo. Mas não há nada de patriótico em tornar mais cara a casa do português, o lar dos pais do português, a comida do português e os serviços de que o português precisa.

Não há nada de patriótico em perder empresas para Espanha, produção agrícola, investimento, contribuições para a Segurança Social e empregos de portugueses.

E não há nada de patriótico em pôr o português pobre contra o imigrante ainda mais pobre, enquanto o patrão que explora os dois goza férias nas Maldivas. Esse é o verdadeiro truque.

Põem quem ganha pouco a discutir com quem ganha ainda menos

Enquanto isso, o povo se entretém com vídeos do TikTok, descarrega a raiva em quem limpa os quartos, apanha a fruta, constrói as casas e cuida dos idosos.

Esta gente que financia a direita e transformou Portugal num país de salários baixos, rendas altas, baixa qualificação, pouco capital e serviços públicos insuficientes continua confortavelmente fora da discussão. A contar o dinheiro e a escolher a cor do próximo Lamborghini.

A escada para a cave

(José Pendão, in Facebook, 07/07/2026, Revisão da Estátua)


Há uma grande vantagem no Chega: só engana quem faz muita questão de ser enganado.

O partido tem a subtileza de uma sirene de fábrica às seis da manhã. Desde que apareceu, foi colocando no escaparate democrático o seu pequeno bazar de horrores: prisão perpétua, perda de nacionalidade, castração química, revisão constitucional com cheiro a demolição controlada, guerra à imigração, guerra às pessoas trans, guerra às mulheres, guerra às escolas, guerra às bandeiras, guerra aos pobres, guerra a tudo o que respire fora do molde regulamentar do ressentimento nacional.

Não é um programa político. É uma lista de compras feita por um inquisidor com cartão Continente.E, mesmo assim, há sempre alguém a dizer: “Calma, é preciso ouvir estas pessoas.”

Pois é. Ouvir, ouvimos. O problema é quando, depois de ouvir, alguém entrega o microfone, a sala, as chaves do edifício e ainda pergunta se preferem café ou chá antes da revisão constitucional.

Convém recordar o cardápio, porque a memória pública em Portugal tem a consistência de pudim instantâneo. O Chega quis prisão perpétua. Quis perda de nacionalidade para cidadãos naturalizados. Abriu espaço para a castração química. Teve uma moção aprovada numa convenção que defendia a esterilização de mulheres que recorressem repetidamente ao aborto. Propôs confinamento específico para comunidades ciganas durante a pandemia. Apropriou-se do velho lema “Deus, Pátria, Família”, esse perfume de sacristia autoritária que Portugal conhece demasiado bem para fingir inocência.

Sim, meus amigos. “Deus, Pátria, Família.” Porque aparentemente o Estado Novo tinha problemas, mas a linha de merchandising era fortíssima.

E depois há quem se ofenda quando chamam extrema-direita à extrema-direita. É sempre comovente. Querem prisão perpétua, punitivismo corporal, nacionalidade condicional, moral sexual de confessionário, suspeita racial e uma Constituição com menos direitos e mais cacete — mas ai de quem lhes diga que isto tem um certo ar de família ideológica. Ficam magoadíssimos. Uma extrema-direita muito sensível. Uma espécie de rinoceronte de porcelana.

A sociologia, essa velha estraga-jantares, tem palavras para isto. Chama-lhe pânico moral quando uma sociedade escolhe grupos vulneráveis, transforma-os em ameaça existencial e depois exige autoridade, polícia, castigo, expulsão, pureza. Chama-lhe nativismo quando a comunidade nacional é imaginada como propriedade de uns contra a presença de outros. Chama-lhe populismo autoritário quando o “povo” é reduzido aos que concordam com o chefe e todos os restantes passam a ser parasitas, traidores, degenerados ou estrangeiros em potência.

O Chega não inventou a roda. Limitou-se a pôr-lhe pneus carecas e conduzi-la em contramão na Avenida da Liberdade.

Mas o Chega, sozinho, não é a história toda. Seria apenas o Chega: ruidoso, agressivo, performativo, uma mistura de tasca ressentida com seminário de marketing digital para quem acha que a civilização ocidental acabou quando alguém pediu leite de aveia. O problema começa quando a direita clássica decide que o monstro afinal é útil para carregar mobília.

Durante anos, PSD e CDS apresentaram-se como a direita responsável, europeia, institucional, democrata-cristã, personalista, respeitadora do regime. Tinham as suas obsessões, os seus tiques, os seus senhores de blazer que dizem “rigor” como quem mastiga uma noz seca. Mas havia uma linha. Uma linha mínima. Uma dessas coisas antigas, quase românticas, como telefones com fio ou vergonha na cara.

Essa linha foi ao chão. Não caiu com estrondo. Não houve trovões. Não entrou um tanque pelo Terreiro do Paço. Caiu como caem as coisas em Portugal: devagarinho, em reuniões, requerimentos, votações, comunicados, entrevistas sem perguntas e frases sobre “sentido de responsabilidade”. A democracia portuguesa, que já sobreviveu a tanta mediocridade com ar condicionado, assiste agora a uma novidade mais perigosa: a normalização do indigno com linguagem de expediente.

A Lei da Nacionalidade endurece. A Lei dos Estrangeiros aperta. O discurso sobre imigração passa a soar menos a política pública e mais a triagem étnica com assessoria jurídica. Fala-se em ligação efetiva, integração, segurança, controlo. Palavras limpas. Palavras passadas a ferro. Palavras que, na prática, servem muitas vezes para dizer: tu, talvez; tu, não; tu, espera; tu, prova; tu, volta; tu, és sempre suspeito.

E a televisão ajuda. A televisão ajuda imenso. A televisão descobriu os imigrantes como quem descobre bolor atrás do armário. Há imigrantes no rodapé, imigrantes no painel, imigrantes no direto, imigrantes em imagens de rua, imigrantes encostados à parede, imigrantes como cenário, imigrantes como ameaça, imigrantes como meteorologia adversa.

Entretanto, a escola pública pode arder em lume brando, o SNS pode tossir sangue, a habitação pode transformar-se num casino com canalização, o preço do cabaz alimentar pode exigir financiamento bancário — mas o país acorda todos os dias para discutir nacionalidade e imigração como se a grande crise portuguesa fosse o vizinho chamar-se Rahim, trabalhar doze horas e ainda assim ter a ousadia metafísica de existir.

E quando os crimes de ódio aumentam, quando a violência simbólica começa a procurar corpo, quando a frase nojenta de ontem vira piada aceitável hoje e proposta legislativa amanhã, aparece sempre alguém, muito composto, a pedir serenidade. A serenidade é belíssima. Também é excelente para ver a casa arder sem deixar cair o cálice.

Depois vieram as pessoas trans, porque nenhuma vaga reacionária se sente completa sem meter o Estado dentro do corpo de alguém. O Parlamento aprovou, com PSD, Chega e CDS, alterações que revogam a lógica de autodeterminação de género. De repente, o Estado português, que demora meses a resolver uma consulta, descobriu uma rapidez fulminante para vigiar identidades. A máquina pública, habitualmente sonolenta como um gato ao sol, tornou-se atleta olímpica quando o assunto foi dizer a uma minoria: “Espere. Prove. Justifique-se. Passe pelo guiché da dignidade condicionada.”

É notável. Para resolver urgências hospitalares, prudência. Para resolver salários, complexidade. Para resolver habitação, mercado. Para limitar direitos de pessoas trans, celeridade parlamentar. Quase dá vontade de pôr uma bandeira arco-íris à porta do SNS para ver se finalmente alguém o leva a sério.

Ah, a bandeira. Essa ameaça têxtil à República.

PSD, Chega e CDS aprovaram também a proibição de bandeiras “ideológicas, partidárias ou associativas” em edifícios públicos, atingindo, entre outras, a bandeira LGBTI. Finalmente, Portugal enfrentou o seu grande inimigo: um retângulo colorido. O país suspirou de alívio. As rendas baixaram, os médicos regressaram, os professores sorriram, os comboios chegaram a horas. Tudo porque se impediu um edifício público de parecer minimamente solidário com pessoas que ainda levam pancada por serem quem são.

Chama-se a isto guerra cultural. É barata, fotogénica e não exige resolver nada. Dá ao eleitor a sensação de vitória sem lhe dar casa, salário, médico, escola ou futuro. É como comer algodão-doce em dia de fome: fica-se com a boca doce e o estômago vazio.

E depois há os pobres. Porque o reacionário moderno nunca perdoa ao pobre a falta de elegância estatística.

A ideia de obrigar beneficiários de prestações sociais a trabalho comunitário apareceu embrulhada em palavras lindas: dignidade, mérito, responsabilidade, contribuição. A direita adora estas palavras quando olha para baixo. Para cima, prefere outras: incentivo, competitividade, contexto, desburocratização. Ao pobre exige-se moral. Ao forte oferece-se enquadramento. Ou seja: se estás sem meios, prova que mereces ajuda. Se tens poder, explica-nos calmamente porque não podias cumprir.

E pelo caminho ainda se quis aliviar a criminalização da omissão de declaração de trabalhadores à Segurança Social. Isto num país onde o trabalho doméstico, a imigração indocumentada e a vulnerabilidade feminina se cruzam muitas vezes numa espécie de cave social que todos sabem existir, mas sobre a qual se fala baixinho, para não perturbar o almoço.

Dureza para o fraco. Nuance para o patrão. Chibatinha moral para baixo, almofada processual para cima. Um clássico. Eça teria escrito isto, mas provavelmente teria pedido um brandy a meio.

É tudo muito rápido. Demasiado rápido. E a velocidade é parte do método. Atira-se tudo ao mesmo tempo: imigração, nacionalidade, género, bandeiras, prestações sociais, Código Penal, revisão constitucional. O cidadão comum tenta acompanhar como quem apanha papéis ao vento num dia de temporal. Quando percebe uma coisa, já há três novas. Quando se indigna com uma, dizem-lhe que a outra é mais importante. Quando protesta, acusam-no de histeria. Quando se cala, chamam consenso.

É assim que se muda a janela do aceitável. Não se empurra de uma vez. Desloca-se um centímetro por dia. Ontem era impensável. Hoje é polémico. Amanhã é razoável. Depois de amanhã é inevitável. Na sexta-feira já há um comentador a dizer que sempre defendeu aquilo, embora com “preocupações humanistas”.

Portugal conhece esta música. Já a ouviu em vinil, em rádio de pilhas, em discursos graves, em salas onde se confundia ordem com medo e autoridade com obediência. Não precisamos de fingir que cada regressão chega ao mundo sem antecedentes, como uma criança pura nascida de um ovo constitucional.

O mais grave não é que o Chega queira descer a escada. O Chega nasceu no patamar de baixo e sempre olhou para a cave com saudade.

O mais grave é ver PSD e CDS, partidos que se diziam da casa democrática, a segurar o corrimão, a acender a luz e a murmurar: “Vá, mas com responsabilidade.”

Porque é isto que está em causa: não o folclore do Chega, não os gritos, não os cartazes, não as frases de tasca com microfone parlamentar. O que está em causa é a autorização. A bênção. A respeitabilidade emprestada. A velha direita democrática a servir de lavandaria institucional para ideias que ainda ontem cheiravam a mofo, porão e arquivo da PIDE.

E quando o indigno passa pela máquina de lavar do poder, sai com cheiro a legislação. Por isso, sim: está tudo a acontecer muito depressa. Mas não tão depressa que não se veja.

Vê-se perfeitamente. Vê-se no modo como se fala de imigrantes. Vê-se no modo como se suspeita dos pobres. Vê-se no modo como se patologizam pessoas trans. Vê-se no modo como se transforma uma bandeira num inimigo. Vê-se no modo como a Constituição deixa de ser abrigo comum e passa a projeto de remodelação para quem acha que há direitos a mais e portugueses errados.

A democracia não morre apenas quando alguém lhe aponta uma arma. Às vezes morre de gravata, com quórum, parecer, requerimento conjunto e hino nacional no fim.

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Está na hora de sair à rua

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 12/06/2026, Revisão da Estátua)

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É triste ver a prostituição política do PSD… entregar a sua alma social-democrata para se agarrar ao poder, não para fazer reformas sérias, não para melhorar o país, mas para alimentar uma máquina de clientelismo 100 vezes pior do que tudo o que já vimos.

E é por isso que já não chega comentar. Já não chega assistir a isto como se fosse uma novela.

O que está a acontecer em Portugal é uma mutação política, a destruição do PSD enquanto partido social-democrata e a criação de uma máquina de terraplanagem dos direitos dos trabalhadores, dos mais fracos, dos mais pobres e dos mais fáceis de culpar. O PSD negoceia com o Chega o pacote laboral, negoceia a Prestação Social Única, acerta calendários para rebentar a Constituição, aprova uma lei migratória que permite deter menores — menores metidos na máquina administrativa de detenção do Estado —, aprova diplomas para perseguir bandeiras que simbolizam a igualdade que a própria Constituição devia proteger e, ao mesmo tempo, continua a fingir que existe uma linha vermelha.

Continua a fingir que governa, que resolve o SNS, que melhora a escola pública, que combate as rendas especulativas deste país…que melhora a vida de quem trabalha.

E quando um partido que dizia defender a democracia passa a depender da extrema-direita para mexer no trabalho, esmagar os mais pobres, domesticar símbolos de igualdade e desmantelar a Constituição, então não estamos perante política normal.

Estamos perante uma emergência democrática, daquelas que movem nações inteiras.

O PSD precisa de sobreviver em nome dos boys, dos lugares, das muitas Spinumvivas do país e dos interesses instalados. O Chega precisa de legitimação, de aparecer na televisão e de distribuir poder aos seus — enquanto mantém a massa entretida com TikToks.  A IL e os sectores mais neoliberais precisam de uma janela histórica para transformar direitos em custos, protecção social em suspeita e tirar a Constituição da frente das grandes fortunas.

Cada um oferece a sua parte. O PSD oferece a respeitabilidade institucional que já só existe no seu passado. O Chega oferece votos e ruído suficiente para distrair o povo com bandeiras, burcas, ciganos, casas de banho, fantasmas inventados e guerras culturais feitas à medida da taberna. A IL oferece o roubo, a exploração de quem trabalha e a destruição da sociedade em linguagem económica jovem, moderna e de business school — mas que na verdade anda a falhar desde os anos 80. No fim, todos trabalham para a mesma operação: tirar força aos de baixo e dar mais poder aos de cima.

E nós vamos ficar a ver? Vamos ficar sentados enquanto transformam o país num circo, com toda a gente aos berros por causa de pedaços de pano, enquanto as elites comem caviar e explicam na televisão que temos de ser “flexíveis”? Um país de chico-espertos, negócios imobiliários, criptomoedas, casinos online e turismo de baixo valor, a vender pastéis de nata a espanhóis, enquanto os espanhóis nos vendem comboios?

Está na hora de todos os sociais-democratas verdadeiros, de todos os socialistas democráticos, de todos os democratas, de todos os trabalhadores, de todos os que acreditam que um país não é uma quinta privada dos poderosos, saírem à rua.

O pacote laboral é a primeira frente.Flexibilidade? Dizem eles… Palavra neutra que na verdade significa trabalhador mais descartável, despedimento mais fácil, sindicatos mais fracos, vida das famílias mais insegura. Quando o trabalhador fica sozinho, o salário não sobe. A precariedade aumenta. O medo entra nas casas. E quem trabalha aprende a agradecer migalhas como se fossem conquistas.

A Prestação Social Única é a segunda frente. Juntar prestações sociais podia ser uma boa ideia. Nas mãos deste Governo, simplificação tornou-se vigilância, punição e populismo barato para quem acha que é tudo malandro a viver de subsídios.

O que vemos não é só cortar apoios — é humilhar quem precisa deles…incluindo crianças — é ensinar os pobres a ficarem submissos. O beneficiário deixa de ser alguém empurrado por salários baixos, rendas impossíveis, doença, toxicodependência, saúde mental ou exclusão. Passa a ser tratado como preguiçoso que deve ser castigado e vigiado. E por isso o pobre deve trabalhar sem salário digno, sem sindicato, sem direitos. Mão-de-obra gratuita para os de cima, em troca de um valor que não chega ao ordenado mínimo.

Até a miséria pode ser capitalizada pelos poderosos. É a mesma lógica que agora vende reclusos a limpar florestas como se fosse uma grande solução nacional.  O trabalho prisional já existia. A floresta não se resolve com performance penal para telejornal e redes sociais. Isto serve sobretudo para alimentar a fantasia taberneira de ver “criminosos” postos a trabalhar, enquanto se evita falar de ordenamento do território, abandono rural, lucro fácil e Estado ausente.

O Chega entra aqui com a função que melhor sabe desempenhar… Transformar uma reforma social em mais uma performance para o tik tok. Enquanto se prepara trabalho mais barato, pobres mais vigiados e Constituição mais domesticada, inventa-se uma ameaça em cada bandeira. Até a bandeira arco-íris, que simboliza uma coisa tão simples como igualdade de direitos independentemente de quem amas ou de quem és, passa a ser tratada como perigo ideológico.

Como se a igualdade fosse uma provocação. Como se direitos humanos fossem propaganda. Como se a Constituição não dissesse, no seu espírito mais básico, que ninguém pode ser diminuído por existir de forma diferente.

É assim que se distrai o povo dos problemas reais: salários baixos, rendas impossíveis, SNS em rutura, escola pública cansada, custo de vida a disparar e trabalhadores esmagados. Dão-lhes uma bandeira para odiarem enquanto lhes roubam o futuro.

E em Lisboa vê-se o mesmo desprezo social…Moedas prepara cortes nos apoios às refeições escolares, podendo obrigar milhares de famílias a pagar mais pela comida dos filhos, enquanto há dinheiro público para piqueniques de luxo, eventos chiques e negócios bem instalados. Até a comida das crianças entra na conta da austeridade, desde que os de cima continuem bem servidos.

A revisão constitucional é a terceira frente — e a mais grave.

A Constituição portuguesa ainda guarda a memória de que democracia não é apenas votar. É escola pública, saúde pública, direitos laborais, proteção social, habitação e limites ao poder económico. Para a direita neoliberal e a extrema-direita, essa memória é um incómodo que querem apagar. Querem uma Constituição menos social, menos antifascista, mais compatível com um país onde o mercado manda e o Estado castiga — e onde os mais pobres são ensinados a culpar bandeiras arco-íris, burcas, ciganos, imigrantes. Qualquer coisa menos quem lhes rouba o salário, a casa e a dignidade.

A coligação Spinumviva–PSD–CDS–IL–Chega simboliza a nova direita…  A nova direita que favorece os que ganham 10.000 euros por mês enquanto diz aos que ganham 1.000 euros que a culpa de tudo é do “malandro” que recebe 200 euros.

É essa a obscenidade política do momento. E é por isso que temos de sair à rua. Porque quando a televisão transforma isto em algo “debativel”, quando os jornais fecham o enquadramento, quando os comentadores de sempre fingem que isto é apenas “governabilidade”, alguém tem de dizer basta.

Uma manifestação tão grande, tão clara, tão impossível de ignorar, que nem as televisões com os seus planos fechados, nem os jornais com as suas manchetes domesticadas, nem os comentadores todos do mesmo lado consigam fingir que não viram.

O PSD está a prostituir-se politicamente ao Chega não porque concorde com todos os seus delírios, mas porque aceita depender deles. E quem aceita depender da extrema-direita acaba sempre por lhe pagar renda ideológica.

Primeiro cede na linguagem. Depois cede nos temas. Depois cede nos favores. Depois cede na Constituição. Quando dá por si, já não está a usar o Chega.TORNOU-SE CHEGA.

O Chega, por sua vez, não precisa de governar formalmente para vencer. Aliás, governar seria o fim do Chega — e o desastre final do país. Para eles basta contaminar o debate, fazer ruído para aparecer nas televisões.

Basta obrigar o PSD a falar como eles. Basta transformar pobres em inimigos, imigrantes em ameaça, menores em detidos, reclusos em propaganda, crianças em custo municipal, direitos em privilégios, sindicatos em entraves, igualdade em ideologia, Constituição em problema e democracia em espectáculo de ódio e gritaria permanente.

Portugal está perante uma aliança de conveniência entre neoliberalismo e populismo punitivo. O neoliberalismo trata da parte material: reduzir direitos, baratear trabalho, fragilizar o Estado social e abrir espaço ao negócio privado. O populismo trata da parte emocional: produzir inimigos, espalhar paranoia, alimentar fobias e convencer quem sofre que o culpado não é quem explora, mas quem está ainda mais abaixo.

É a carroça da desigualdade — puxada por burros a zurrar contra bandeiras, alimentados por algoritmos, televisões e comentadores a explicar aos pobres que têm direitos a mais — e na carroça, bem sentados, os bilionários a rir.

A pandemia não pôs este país de joelhos. A guerra não pôs este país de joelhos. A crise inflacionária não pôs este país de joelhos. Mas este tsunami de extrema-direita taberneira, neoliberalismo de business school, clientelismo, ódio organizado e destruição social está a rebentar com o país por dentro.

E desta vez não são os bancos que estão em risco. És tu. É o teu salário. É a tua renda. É o teu contrato. É a tua escola pública. É o teu hospital. É a tua reforma. É a tua Constituição. É a tua vida.

No fim, a pergunta decisiva é sempre a mesma: quem ganha? Ganha o trabalhador que fica mais protegido? Não. Ganha o pobre que passa a viver com mais dignidade? Não. Ganha o imigrante que trabalha, desconta e é usado como bode expiatório? Não. Ganha quem tem uma renda da casa impossível de pagar? Não. Ganha o doente que precisa de uma cirurgia? Não. Ganha quem só quer viver com os mesmos direitos, sem ser usado como boneco numa guerra cultural? Não. Ganha a democracia constitucional, social e plural? Não.

Ganham os de cima. Ganha quem quer trabalho mais barato, Estado social mais fraco, pobres disciplinados, sindicatos enfraquecidos, Constituição domesticada e uma população entretida com ódio, bandeiras, performances e inimigos imaginários enquanto a riqueza continua a subir para o topo.

É por isso que esta não é apenas uma disputa parlamentar. É uma disputa sobre o tipo de país que vai sobrar. Uma democracia social, com direitos e dignidade? Ou uma sociedade de castigo, medo e obediência, onde os pobres trabalham sem salário, os trabalhadores vivem sem segurança e os poderosos governam por trás da cortina, enquanto os seus porta-vozes atiram paranoias, mentiras e inimigos inventados para a arena mediática?

Está na hora de sair à rua. Não para defender um partido.  Não para salvar uma bandeira. Mas para defender a ideia simples de que um país não pode ser governado contra quem trabalha, contra quem é pobre, contra quem precisa, contra quem não tem voz, contra quem ama de forma diferente, contra quem existe fora da norma que eles querem impor.

Está na hora de uma manifestação que diga, sem ambiguidades: Não aceitamos que transformem Portugal numa máquina de castigar pobres, explorar trabalhadores, perseguir símbolos de igualdade e servir elites.

Porque desta vez não estão só a brincar com governos. Estão a mexer na vida de todos nós. E chega uma altura em que o povo percebe que foi enganado — e nessa altura ele não perdoa.