Está na hora de sair à rua

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 12/06/2026, Revisão da Estátua)

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É triste ver a prostituição política do PSD… entregar a sua alma social-democrata para se agarrar ao poder, não para fazer reformas sérias, não para melhorar o país, mas para alimentar uma máquina de clientelismo 100 vezes pior do que tudo o que já vimos.

E é por isso que já não chega comentar. Já não chega assistir a isto como se fosse uma novela.

O que está a acontecer em Portugal é uma mutação política, a destruição do PSD enquanto partido social-democrata e a criação de uma máquina de terraplanagem dos direitos dos trabalhadores, dos mais fracos, dos mais pobres e dos mais fáceis de culpar. O PSD negoceia com o Chega o pacote laboral, negoceia a Prestação Social Única, acerta calendários para rebentar a Constituição, aprova uma lei migratória que permite deter menores — menores metidos na máquina administrativa de detenção do Estado —, aprova diplomas para perseguir bandeiras que simbolizam a igualdade que a própria Constituição devia proteger e, ao mesmo tempo, continua a fingir que existe uma linha vermelha.

Continua a fingir que governa, que resolve o SNS, que melhora a escola pública, que combate as rendas especulativas deste país…que melhora a vida de quem trabalha.

E quando um partido que dizia defender a democracia passa a depender da extrema-direita para mexer no trabalho, esmagar os mais pobres, domesticar símbolos de igualdade e desmantelar a Constituição, então não estamos perante política normal.

Estamos perante uma emergência democrática, daquelas que movem nações inteiras.

O PSD precisa de sobreviver em nome dos boys, dos lugares, das muitas Spinumvivas do país e dos interesses instalados. O Chega precisa de legitimação, de aparecer na televisão e de distribuir poder aos seus — enquanto mantém a massa entretida com TikToks.  A IL e os sectores mais neoliberais precisam de uma janela histórica para transformar direitos em custos, protecção social em suspeita e tirar a Constituição da frente das grandes fortunas.

Cada um oferece a sua parte. O PSD oferece a respeitabilidade institucional que já só existe no seu passado. O Chega oferece votos e ruído suficiente para distrair o povo com bandeiras, burcas, ciganos, casas de banho, fantasmas inventados e guerras culturais feitas à medida da taberna. A IL oferece o roubo, a exploração de quem trabalha e a destruição da sociedade em linguagem económica jovem, moderna e de business school — mas que na verdade anda a falhar desde os anos 80. No fim, todos trabalham para a mesma operação: tirar força aos de baixo e dar mais poder aos de cima.

E nós vamos ficar a ver? Vamos ficar sentados enquanto transformam o país num circo, com toda a gente aos berros por causa de pedaços de pano, enquanto as elites comem caviar e explicam na televisão que temos de ser “flexíveis”? Um país de chico-espertos, negócios imobiliários, criptomoedas, casinos online e turismo de baixo valor, a vender pastéis de nata a espanhóis, enquanto os espanhóis nos vendem comboios?

Está na hora de todos os sociais-democratas verdadeiros, de todos os socialistas democráticos, de todos os democratas, de todos os trabalhadores, de todos os que acreditam que um país não é uma quinta privada dos poderosos, saírem à rua.

O pacote laboral é a primeira frente.Flexibilidade? Dizem eles… Palavra neutra que na verdade significa trabalhador mais descartável, despedimento mais fácil, sindicatos mais fracos, vida das famílias mais insegura. Quando o trabalhador fica sozinho, o salário não sobe. A precariedade aumenta. O medo entra nas casas. E quem trabalha aprende a agradecer migalhas como se fossem conquistas.

A Prestação Social Única é a segunda frente. Juntar prestações sociais podia ser uma boa ideia. Nas mãos deste Governo, simplificação tornou-se vigilância, punição e populismo barato para quem acha que é tudo malandro a viver de subsídios.

O que vemos não é só cortar apoios — é humilhar quem precisa deles…incluindo crianças — é ensinar os pobres a ficarem submissos. O beneficiário deixa de ser alguém empurrado por salários baixos, rendas impossíveis, doença, toxicodependência, saúde mental ou exclusão. Passa a ser tratado como preguiçoso que deve ser castigado e vigiado. E por isso o pobre deve trabalhar sem salário digno, sem sindicato, sem direitos. Mão-de-obra gratuita para os de cima, em troca de um valor que não chega ao ordenado mínimo.

Até a miséria pode ser capitalizada pelos poderosos. É a mesma lógica que agora vende reclusos a limpar florestas como se fosse uma grande solução nacional.  O trabalho prisional já existia. A floresta não se resolve com performance penal para telejornal e redes sociais. Isto serve sobretudo para alimentar a fantasia taberneira de ver “criminosos” postos a trabalhar, enquanto se evita falar de ordenamento do território, abandono rural, lucro fácil e Estado ausente.

O Chega entra aqui com a função que melhor sabe desempenhar… Transformar uma reforma social em mais uma performance para o tik tok. Enquanto se prepara trabalho mais barato, pobres mais vigiados e Constituição mais domesticada, inventa-se uma ameaça em cada bandeira. Até a bandeira arco-íris, que simboliza uma coisa tão simples como igualdade de direitos independentemente de quem amas ou de quem és, passa a ser tratada como perigo ideológico.

Como se a igualdade fosse uma provocação. Como se direitos humanos fossem propaganda. Como se a Constituição não dissesse, no seu espírito mais básico, que ninguém pode ser diminuído por existir de forma diferente.

É assim que se distrai o povo dos problemas reais: salários baixos, rendas impossíveis, SNS em rutura, escola pública cansada, custo de vida a disparar e trabalhadores esmagados. Dão-lhes uma bandeira para odiarem enquanto lhes roubam o futuro.

E em Lisboa vê-se o mesmo desprezo social…Moedas prepara cortes nos apoios às refeições escolares, podendo obrigar milhares de famílias a pagar mais pela comida dos filhos, enquanto há dinheiro público para piqueniques de luxo, eventos chiques e negócios bem instalados. Até a comida das crianças entra na conta da austeridade, desde que os de cima continuem bem servidos.

A revisão constitucional é a terceira frente — e a mais grave.

A Constituição portuguesa ainda guarda a memória de que democracia não é apenas votar. É escola pública, saúde pública, direitos laborais, proteção social, habitação e limites ao poder económico. Para a direita neoliberal e a extrema-direita, essa memória é um incómodo que querem apagar. Querem uma Constituição menos social, menos antifascista, mais compatível com um país onde o mercado manda e o Estado castiga — e onde os mais pobres são ensinados a culpar bandeiras arco-íris, burcas, ciganos, imigrantes. Qualquer coisa menos quem lhes rouba o salário, a casa e a dignidade.

A coligação Spinumviva–PSD–CDS–IL–Chega simboliza a nova direita…  A nova direita que favorece os que ganham 10.000 euros por mês enquanto diz aos que ganham 1.000 euros que a culpa de tudo é do “malandro” que recebe 200 euros.

É essa a obscenidade política do momento. E é por isso que temos de sair à rua. Porque quando a televisão transforma isto em algo “debativel”, quando os jornais fecham o enquadramento, quando os comentadores de sempre fingem que isto é apenas “governabilidade”, alguém tem de dizer basta.

Uma manifestação tão grande, tão clara, tão impossível de ignorar, que nem as televisões com os seus planos fechados, nem os jornais com as suas manchetes domesticadas, nem os comentadores todos do mesmo lado consigam fingir que não viram.

O PSD está a prostituir-se politicamente ao Chega não porque concorde com todos os seus delírios, mas porque aceita depender deles. E quem aceita depender da extrema-direita acaba sempre por lhe pagar renda ideológica.

Primeiro cede na linguagem. Depois cede nos temas. Depois cede nos favores. Depois cede na Constituição. Quando dá por si, já não está a usar o Chega.TORNOU-SE CHEGA.

O Chega, por sua vez, não precisa de governar formalmente para vencer. Aliás, governar seria o fim do Chega — e o desastre final do país. Para eles basta contaminar o debate, fazer ruído para aparecer nas televisões.

Basta obrigar o PSD a falar como eles. Basta transformar pobres em inimigos, imigrantes em ameaça, menores em detidos, reclusos em propaganda, crianças em custo municipal, direitos em privilégios, sindicatos em entraves, igualdade em ideologia, Constituição em problema e democracia em espectáculo de ódio e gritaria permanente.

Portugal está perante uma aliança de conveniência entre neoliberalismo e populismo punitivo. O neoliberalismo trata da parte material: reduzir direitos, baratear trabalho, fragilizar o Estado social e abrir espaço ao negócio privado. O populismo trata da parte emocional: produzir inimigos, espalhar paranoia, alimentar fobias e convencer quem sofre que o culpado não é quem explora, mas quem está ainda mais abaixo.

É a carroça da desigualdade — puxada por burros a zurrar contra bandeiras, alimentados por algoritmos, televisões e comentadores a explicar aos pobres que têm direitos a mais — e na carroça, bem sentados, os bilionários a rir.

A pandemia não pôs este país de joelhos. A guerra não pôs este país de joelhos. A crise inflacionária não pôs este país de joelhos. Mas este tsunami de extrema-direita taberneira, neoliberalismo de business school, clientelismo, ódio organizado e destruição social está a rebentar com o país por dentro.

E desta vez não são os bancos que estão em risco. És tu. É o teu salário. É a tua renda. É o teu contrato. É a tua escola pública. É o teu hospital. É a tua reforma. É a tua Constituição. É a tua vida.

No fim, a pergunta decisiva é sempre a mesma: quem ganha? Ganha o trabalhador que fica mais protegido? Não. Ganha o pobre que passa a viver com mais dignidade? Não. Ganha o imigrante que trabalha, desconta e é usado como bode expiatório? Não. Ganha quem tem uma renda da casa impossível de pagar? Não. Ganha o doente que precisa de uma cirurgia? Não. Ganha quem só quer viver com os mesmos direitos, sem ser usado como boneco numa guerra cultural? Não. Ganha a democracia constitucional, social e plural? Não.

Ganham os de cima. Ganha quem quer trabalho mais barato, Estado social mais fraco, pobres disciplinados, sindicatos enfraquecidos, Constituição domesticada e uma população entretida com ódio, bandeiras, performances e inimigos imaginários enquanto a riqueza continua a subir para o topo.

É por isso que esta não é apenas uma disputa parlamentar. É uma disputa sobre o tipo de país que vai sobrar. Uma democracia social, com direitos e dignidade? Ou uma sociedade de castigo, medo e obediência, onde os pobres trabalham sem salário, os trabalhadores vivem sem segurança e os poderosos governam por trás da cortina, enquanto os seus porta-vozes atiram paranoias, mentiras e inimigos inventados para a arena mediática?

Está na hora de sair à rua. Não para defender um partido.  Não para salvar uma bandeira. Mas para defender a ideia simples de que um país não pode ser governado contra quem trabalha, contra quem é pobre, contra quem precisa, contra quem não tem voz, contra quem ama de forma diferente, contra quem existe fora da norma que eles querem impor.

Está na hora de uma manifestação que diga, sem ambiguidades: Não aceitamos que transformem Portugal numa máquina de castigar pobres, explorar trabalhadores, perseguir símbolos de igualdade e servir elites.

Porque desta vez não estão só a brincar com governos. Estão a mexer na vida de todos nós. E chega uma altura em que o povo percebe que foi enganado — e nessa altura ele não perdoa.

Vai trabalhar, Luís!

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 02/06/2026, Revisão da Estátua)

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Luís Montenegro devia parar de mandar os outros trabalhar e começar, ele próprio, a trabalhar.

Porque ninguém é contra que quem recebe RSI tenha de trabalhar, formar-se ou participar em atividades úteis.

ISSO JÁ EXISTIA. Desde 2012, os beneficiários do RSI podiam ser chamados a prestar atividade socialmente útil, até 15 horas por semana, em entidades sem fins lucrativos, na economia social ou em serviços públicos, sem substituir postos de trabalho.

Portanto, a grande “novidade” do Luís é a propaganda feita pela agência de comunicação Spinumviva. O que Montenegro fez foi pegar numa lei que já existia, meter-lhe um embrulho de castigo e vendê-la à malta que gosta de acreditar que a miséria é preguiça.

Antes chamava-se inserção. Agora vende-se como punição: “Toma lá, vai limpar florestas, para aprenderes.”

E é aqui que temos de abrir os olhos. Uma coisa é trabalho para integrar: acompanhamento, formação, saúde mental, tratamento de dependências, literacia, rotina, entrada gradual no mercado de trabalho. Outra coisa é o Estado usar a chantagem sobre os mais pobres para criar mão de obra barata, temporária e obediente, enquanto finge que está a combater “subsídio-dependentes”.

Em dezembro de 2025, o RSI tinha 164 954 beneficiários. Cerca de 32,7% eram menores e 30,6% tinham 50 ou mais anos. O valor médio pago era de 155,41 euros por beneficiário e 327,13 euros por família. É esta a “vida de luxo” que a direita odeia.

Não é a vida de luxo das benesses fiscais, dos favores, dos perdões, dos benefícios, dos offshores e dos subsídios de milhares de milhões aos grandes grupos económicos que passeiam, com tapete vermelho, nos corredores do poder.

E já agora, não, não há uma reserva mágica de milhares de trabalhos sociais com tarefas simples, seguras, úteis e supervisionadas para encaixar toda a gente. Isso é palha para o burro aplaudir.

Há pessoas com doença mental, alcoolismo, toxicodependência, exclusão social, baixa escolaridade, analfabetismo funcional e problemas graves até para compreender instruções simples. Entregar uma motosserra a uma pessoa descompensada e mandá-la limpar uma floresta não é política social. É sadismo burocrático. É vingança de frustrados sentados no sofá.

É a direita a atirar pobres contra pobres, cansados contra miseráveis, explorados contra excluídos, todos convencidos de que a culpa da sua vida difícil está em quem recebe 155 euros para não morrer de fome.

A Prestação Social Única até pode ser positiva: simplificar apoios, reduzir burocracia, facilitar o acesso e combater a pobreza.

Aliás, esta reforma nem sequer é uma invenção genial deste Governo. Foi inscrita no PRR por António Costa como reforma de simplificação da Segurança Social, com o objetivo de combater a pobreza e a exclusão social, consolidando prestações não contributivas, incluindo o RSI.

Mas como este Governo é fraco, atrasado e incompetente, chegou ao fim do prazo do PRR em pânico. E, em vez de apresentar isto como uma reforma de inclusão, decidiu embrulhar tudo em linguagem punitiva para agradar à plateia que precisa de sentir que alguém ainda mais pobre vai ser castigado.

No essencial, pouco mudou sobre obrigações de trabalho, formação e atividade socialmente útil. O antigo RSI já previa contrato de inserção, deveres, trabalho, formação e punições por recusa injustificada, incluindo 24 meses sem receber prestação em certos casos.O que mudou foi a propaganda à volta do tema.

Saiu o combate à pobreza. Entrou o espetáculo do castigo…só faltou a chuva falsa.

Saiu a integração. Entrou a performance do “vai trabalhar umas horitas”.

Saiu a ideia de devolver pessoas à sociedade. Entrou a palha para quem acha que a miséria é uma falha moral que deve ser punida.

O Estado adora mandar os pobres trabalhar. O problema começa quando chega a hora de o Estado trabalhar pelos pobres: tratar, acompanhar, formar, integrar, criar emprego real, garantir saúde, habitação e estabilidade.

Isso já dá trabalho. E um Estado que trabalha para os de baixo sai sempre caro aos de cima. Não é, Luís?

Odeias o socialismo mas nem sabes o que estás a odiar

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 05/05/2026, Revisão da Estátua)

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Este ano, tu vais descobrir tarde demais que votar para perseguir imigrantes e proteger bilionários tem um preço. E esse preço não fica nos discursos. Vai aparecer no supermercado, nos lares, nos incêndios, na economia, nas reformas, na escola pública, no SNS, na habitação e nas rendas.

As políticas desta coligação de vontades entre o PSD e a extrema-direita vão começar a sair dos vídeos, dos slogans e das redes sociais — e vão entrar na tua vida. E nem estou a falar apenas do roubo da estabilidade, do trabalho e do dinheiro de quem trabalha para enriquecer os de cima. Nem dos pacotes laborais que pisam os de baixo e protegem os de cima. Nem da transformação dos serviços públicos em negócios para os grandes grupos económicos lucrarem à custa da tua saúde, da educação dos teus filhos, do suor do teu trabalho, da tua família e do teu futuro. Estou a falar de coisas concretas. Coisas que vais sentir na pele.

Este ano, teremos um verão complicado ao nível dos incêndios. Não há mão-de-obra suficiente para limpar as florestas, que estão, neste momento, transformadas num autêntico barril de pólvora. Os imigrantes foram escorraçados, e estas políticas vão ter custos em área ardida e em vidas humanas.

Os lares de terceira idade, sem mão-de-obra, veem os custos disparar, e serás tu, se tiveres pais ou avós num lar, a pagar a fatura.

A saúde pública continua a ver sair os seus profissionais para os negócios dos privados, enquanto tu ficas a olhar para a porta trancada das urgências.

Os custos nos supermercados disparam, não só para alimentar os lucros recorde dos grandes retalhistas, mas também porque a falta de mão-de-obra na agricultura começa a ter custos elevados.

Há alunos sem professores, mas ninguém sabe exatamente quantos, porque, no meio do caos deste Governo, não há grande interesse em que se saiba.

Os médicos de família têm listas de espera de seis meses. Exames essenciais já nem aceitam marcações — para a lista não parecer grande demais.

A economia, que precisava de 100 mil imigrantes todos os anos, começa a encravar. Os anos de ouro do crescimento económico de António Costa estão a terminar, e o que vem a seguir vai doer.

Pior do que a pandemia e a guerra na Ucrânia, que não nos colocaram de joelhos, bastaram dois anos de extrema-direita a condicionar o Governo para tudo começar a desabar.

A extrema-direita, em pânico, ao perceber que tu podes começar a ver o truque, grita que basta aumentar os salários para preencher essas vagas. Mas, quando há três postos de trabalho vagos e apenas dois trabalhadores disponíveis, por muito que aumentes os salários, um dos postos continuará por preencher — e essa empresa sofrerá com isso.

A seguir, dizem-te que, se aumentarmos muito os ordenados, os emigrantes que estão na Suíça voltam. Esquecem-se de te dizer que, se em Portugal triplicássemos o salário de quem trabalha num lar de terceira idade, esse lar teria de repercutir esse custo nas famílias que lá têm os seus familiares. E sabes quem pagaria? Tu. Mas, para a extrema-direita, isso é indiferente. O que interessa é ganhar poder à custa da tua revolta, da tua frustração e dos slogans fáceis que te meteram na cabeça.

Isto não apareceu do nada. Foi uma longa propaganda, bem financiada, em jornais, televisões e centenas de grupos nas redes sociais. Foi aí que foram buscar ao fundo dos buracos o pior do sistema, para mudar a mentalidade deste país e ensinar pessoas comuns, como tu, a odiar cegamente, sem sequer perceberem porquê.

Odeias não ter lugar na creche para o teu filho e culpas o imigrante — mas não culpas o corte do IRC aos mais poderosos, dinheiro que daria para garantir creches para todos os que precisam.

Ao mesmo tempo que odeias esse “socialismo”, esqueces que foi precisamente esse “socialismo” que te deu essas creches.

Odeias que as urgências de obstetrícia estejam fechadas e culpas a mulher imigrante que teve um filho em Portugal — esquecendo que temos hoje menos nascimentos do que há dez anos.

Não foi a pressão do número de grávidas. Foi a pressão do lucro privado que roubou médicos ao SNS, e o aumento de 20% da população idosa. Mas isso os bilionários não querem que tu saibas. É melhor para os bolsos deles que culpes o trabalhador imigrante e não penses muito no assunto.

Odeias o imigrante que aluga um quarto e atribuis-lhe o aumento do custo da habitação — quando, na verdade, sem ele não haveria quem construísse habitação nem quem reabilitasse casas para arrendar. A falta de mão-de-obra é uma das principais razões pelas quais os custos da habitação dispararam, e com eles as rendas.

Odeias o imigrante porque ele é visível…senta-se ao teu lado no autocarro. Já, os milionários estrangeiros que vieram comprar casas e arrendá-las a preços exorbitantes; os que desviaram a construção da classe média para o segmento de luxo e turismo; os especuladores imobiliários; os grandes fundos com benefícios fiscais que atraem ainda mais capital predatório — esses são invisíveis.

Odeias um milhão de imigrantes que entraram ao longo de dez anos, mas fechas os olhos aos 30 milhões de visitantes que invadem o país todos os anos, pressionando o mercado imobiliário e empurrando os residentes dos grandes centros urbanos para a periferia.

O que não sabes é que hoje 12,5% da habitação é comprada por empresas, não por famílias. Mas o culpado de tudo, disseram-te eles, é o rapaz que veio do Bangladesh e que divide a casa com mais quatro pessoas.

Odeias os imigrantes que te constroem casas, tratam dos teus idosos, te servem no café e colhem os alimentos que compras no supermercado. Dizes que eles são os culpados, que pressionam os serviços públicos — mas ninguém te explicou que a população, mesmo com imigração, apenas aumentou 3,7% em 10 anos, Isso porque vivemos num país envelhecido e a morrer.

Odeias o socialismo que não existe, mas foi dele que nasceu quase tudo o que hoje consideras um direito adquirido: a escola pública, o SNS, o direito a um mês de férias pagas, o direito ao descanso, o abono de família, os manuais escolares gratuitos, o subsídio de desemprego e a reforma. Na verdade, odeias e nem sabes o que estás a odiar.

Odeias o aumento da criminalidade que vês em vídeos nas redes sociais, quando os números indicam que a criminalidade violenta tem vindo a diminuir de forma consistente. No tempo de Passos Coelho, quando André Ventura andava no PSD, a criminalidade violenta era 25% superior — mas ele andava caladinho.

Odeias e culpas grupos de imigrantes porque te olham, porque foste doutrinado para sentir medo de caras com tons de pele mais escuros. Mas os crimes que estão a aumentar são os dos jovens radicalizados.

O crime de ódio, o número recorde de chamadas da polícia às escolas e o facto de 20% dos violadores, segundo o RASI, terem menos de 20 anos mostram outra realidade. Não é o desconhecido na rua. É o namorado. O conhecido. O familiar.

Até ao nível dos crimes rodoviários, o que se vê é o individualismo do “cada um por si”, com o Estado desinteressado em formar bons condutores.

Odeias os dependentes de subsídios e achas que os imigrantes vivem deles porque os vês na praça durante o dia — mas ninguém te explica que eles são a força de trabalho mais precária em Portugal: trabalham algumas semanas e ficam outras à espera do próximo trabalho.

Odeias os subsídios para os pobres, mas não sabes que os 20% mais ricos recebem mais subsídios do que os 20% mais pobres.

Odeias os partidos que te defendem para ficares ao lado de quem se ri de ti no campo de golfe. É assim que acabas a votar contra ti próprio. Quando vives com medo e em paranoia permanentes, já não votas em quem te protege. Votas em quem te promete castigar alguém. Esse é o golpe.

Tu podes ganhar o salário mínimo, não ter dinheiro para pagar um seguro de saúde, não conseguir pôr os teus filhos numa escola privada, receber abono de família, precisar do SNS, precisar da escola pública, precisar da reforma, precisar dos direitos laborais que outros conquistaram antes de ti — e, mesmo assim, foste convencido a odiar o centro-esquerda como se fosse ele o teu inimigo.

Fizeram-te acreditar que os abonos de família que recebes não te tornam “subsídio-dependente”, mas que o apoio dado a alguém mais pobre do que tu já é um escândalo.

Fizeram-te acreditar que o problema do país era o pobre que recebe pouco, o imigrante que trabalha muito e a mulher de lenço.

Muitos votaram porque viram muitos videozinhos nas redes sociais.

Votaram porque acharam que a grande insegurança no país era uma mulher islâmica com um lenço na cabeça e uma máscara cirúrgica no rosto, que foi levar o filho à escola.

Votaram porque acreditaram que, talvez, castigando outros pobres, conseguissem viver melhor.

Votaram na mudança, sem perceber que essa mudança era voltar para o passado, quando o país vivia na miséria.

Mal sabes que és usado pelos bilionários que financiam esses partidos. E que, depois de os poderosos “controlarem” os imigrantes, serás tu o próximo a ser controlado… Aliás, já estás a ser controlado.