Querem transformar a tua reforma num negócio. E, para isso, precisam primeiro de te convencer de que a Segurança Social está falida.
A Segurança Social terminou 2025 com €6.712 milhões de excedentes no Sistema Previdencial.
Mas aparece agora um grupo escolhido pelo Governo a dizer-nos:
“Afinal, há um défice de €1.944 milhões.”
Como fizeram o truque de ilusionismo?
Foram buscar um velho regime da função pública, a CGA, fechado a novos subscritores desde 2006, carregado de pensionistas e com cada vez menos trabalhadores a descontar; meteram-no dentro da mesma fotografia da Segurança Social; retiraram das contas milhares de milhões que o Estado sempre lhe transfere para pagar responsabilidades antigas e…
Voilà: nasceu o défice para enganar tolinhos.
E quem acham que foi escolhido para fazer este “estudo”?
Comecemos pelo coordenador.
Jorge Bravo
Foi coordenador nacional do Conselho Estratégico Nacional do PSD para o Trabalho e Segurança Social. Já trabalhou em reformas da Segurança Social durante o Governo de Passos Coelho e já defendia, no universo do PSD, algumas das soluções que reaparecem agora: contas individuais, capitalização e sistemas complementares privados.
Carla Castro
Ex-deputada da IL. Criou e dirigiu o Gabinete de Estudos do partido.
Pedro Serrasqueiro — CDS e Iniciativa Liberal.
Foi assessor parlamentar do CDS e, depois, assessor parlamentar da IL.
Raquel Andrada
Trabalhou no gabinete da Segurança Social durante Passos Coelho e voltou ao Governo com a AD.
Elsa Gomes
Governo Passos Coelho e Governo AD.
Luís Farrajota
Governo Passos Coelho e Governo AD.
Nuno Venes
Nomeado para funções dirigentes durante Passos Coelho e depois escolhido pela AD.
E ainda vários membros vindos diretamente de gabinetes do atual Governo:
Joana Vicente — gabinete do ministro das Finanças.
Fátima Mestre — gabinete do secretário de Estado do Trabalho.
Hugo Resina — gabinete da Segurança Social.
Isto não parece exatamente uma assembleia aleatória de economistas com todas as visões possíveis sobre o Estado social.
Isto parece uma reunião de negócios…
E há algo ainda mais extraordinário, o despacho que criou o grupo mandava estudar e desenvolver:
capitalização;
regimes complementares de reforma;
poupança individual;
planos profissionais;
prolongamento da vida ativa.
Ou seja:
Primeiro “encomendaram” a receita.
Depois foram inventar uma doença.
Escolhe-se quem faz o estudo.
Escolhem-se as perguntas.
Escolhe-se o que entra nas contas.
E define-se previamente que as soluções devem passar por capitalização e reformas complementares.
Depois aparece a manchete perfeita:
“Afinal, a Segurança Social está em défice.”
E milhões de portugueses começam a pensar:
“Então isto vai falir.”
Primeiro criam medo.
Depois convencem-te de que o sistema público não aguenta.
Finalmente, aparecem bancos, seguradoras e fundos de investimento para te “salvar”.
Mas salvar quem ???
Porque aquilo que hoje vai diretamente para um sistema coletivo passa a poder alimentar:
fundos de pensões;
gestoras de ativos;
seguros de reforma;
produtos financeiros;
comissões de gestão;
mercados bolsistas.
Milhões de trabalhadores.
Todos os meses.
Durante 30, 40 ou 50 anos.
Façam as contas ao tamanho brutal deste negócio para os milionário que financiam esses partidos.
A Segurança Social não é apenas uma instituição pública.
É um dos maiores fluxos permanentes de dinheiro do país.
E, nos últimos anos, esse saco encheu.
Porquê?
Porque Portugal criou emprego.
Porque aumentou brutalmente o número de pessoas a trabalhar e a descontar.
Porque salários e contribuições cresceram.
E porque centenas de milhares de imigrantes entraram no mercado de trabalho e começaram a pagar Segurança Social.
Em 2025:
o Sistema Previdencial teve +€6.712 milhões.
As contribuições cresceram cerca de 8,9%.
O emprego cresceu.
O número de contribuintes cresceu.
E os trabalhadores estrangeiros já representavam perto de 20% dos contribuintes, tendo explicado mais de metade do crescimento recente do número de pessoas a descontar.
É precisamente agora, quando há tanto dinheiro a entrar, que aparece uma súbita urgência em convencer-nos de que aquilo está praticamente falido.
Curiosa coincidência.
E aqui entra o grande truque da CGA.
A CGA é um regime em extinção.
Como deixou de receber novos subscritores em 2006, durante esta fase tem cada vez menos trabalhadores a financiá-la, enquanto continua a pagar as pensões acumuladas no antigo sistema.
Isso gera, naturalmente, uma forte necessidade transitória de financiamento público.
Mas essa necessidade não dura para sempre: à medida que os antigos subscritores se reformam e, posteriormente, os pensionistas falecem, também desaparecem progressivamente as responsabilidades da CGA.
Mas, entretanto, a manchete já fez o seu trabalho.
Milhões de pessoas não vão ler metodologia atuarial.
Vão guardar apenas isto:
“A Segurança Social está em défice.”
Missão cumprida.
Porque a próxima frase será:
“Temos de reformar o sistema.”
E depois:
“Precisamos de mais capitalização.”
Depois:
“Cada trabalhador deve ter a sua conta individual.”
Depois:
“As empresas devem contribuir para fundos complementares.”
Depois:
“O Estado deve incentivar fiscalmente a poupança privada.”
E, quando dermos por ela, uma parte crescente daquilo que devia garantir uma reforma pública digna estará a alimentar os mercados financeiros e o novo Lamborghini do acionista.
Eles cobram comissões quer a bolsa suba, quer a bolsa desça.
Tu é que ficas com o risco.
Uma crise financeira aos 35 anos pode dar tempo para recuperar.
Uma crise financeira aos 66, precisamente quando te vais reformar, pode destruir anos de poupança.
Num sistema público de repartição, o risco é distribuído coletivamente entre gerações e ao longo do tempo.
Num sistema cada vez mais individualizado e capitalizado, o risco começa a cair sobre ti.
Tiveste salários baixos?
Problema teu.
Ficaste desempregado?
Problema teu.
Paraste de trabalhar para cuidar dos filhos?
Problema teu.
Tiveste uma doença prolongada?
Problema teu.
A bolsa caiu no ano em que te reformaste?
Problema teu.
Viveste mais anos do que o modelo atuarial previa?
Também problema teu.
É a velha fórmula neoliberal: privatizar o rendimento e individualizar o risco.
E quando tudo correr mal?
Quando milhões de pensionistas ficarem sem rendimento suficiente?
Adivinhem quem terá de aparecer.
O Estado.
Ou seja:
nos anos bons, comissões e lucros privados.
Nos anos maus, risco público.
É um negócio extraordinário.
Só não é para nós.
Enquanto nos dizem diariamente que o problema de Portugal são os imigrantes, foram precisamente centenas de milhares desses imigrantes que chegaram, trabalharam e começaram a alimentar a Segurança Social.
Enquanto nos mandam olhar para ciganos, bairros, refugiados e estrangeiros, há gente muito mais acima a olhar para um saco com milhares de milhões de euros e a perguntar:
“Como é que transformamos isto num negócio?”
É por isso que esta história importa.
Estamos a discutir quem ficará com uma fatia gigantesca da riqueza produzida pelos trabalhadores portugueses nas próximas décadas.
Portugal vinha de anos de forte criação de emprego, recordes de contribuintes, aumento das receitas contributivas e uma Segurança Social com milhares de milhões de excedente.
Era um sistema público demasiado grande, demasiado rico e demasiado apetecível para ficar fora do alcance dos mercados.
Enquanto a direita radical mantém o país ocupado a culpar ciganos e imigrantes, outra direita prepara-se para abrir aos grandes interesses financeiros uma das últimas grandes reservas coletivas de riqueza dos portugueses.
Enquanto te distraem, outros vão metendo a mão no saco.
O Chega não precisou de chegar ao Governo para rebentar com o país, destruir as contas públicas e fazer a sociedade retroceder 50 anos. Uma turba minoritária, mas barulhenta, agressiva e muito ativa nas redes sociais, conseguiu elevar um partido alimentado pelo ressentimento e pelas mentiras até ao centro da política portuguesa.
E a direita tradicional, em vez de enfrentar a extrema-direita, começou a imitá-la. Primeiro copiou-lhe as palavras. Depois copiou-lhe os inimigos. A seguir copiou-lhe as leis. Agora já copia até os disparates.
Mas não é só em Portugal. A Itália, campeã das entradas ilegais pelo Mediterrâneo, aparece agora indignada com Espanha por causa de Ceuta, uma cidade espanhola situada em África… sim, em África. Só em 2025 chegaram a Itália por mar 66 316 migrantes, quase metade de todas as chegadas registadas no Mediterrâneo nesse ano. Ainda assim, foi o Governo italiano que decidiu impor controlos a quem viajava de Espanha… Irónico, não é?
Bastaram algumas imagens de pessoas a correr e, em poucos minutos, o TikTok já tinha decretado uma “invasão da Europa”. É assim que se faz política hoje. Por trás deste espetáculo existe uma máquina internacional de propaganda da extrema-direita, alimentada por Estados, redes digitais, interesses económicos e serviços de informações.
E há suspeitas de que a crise de Ceuta possa ter feito parte de uma operação híbrida conduzida por Marrocos e Israel, com envolvimento da Mossad, para pressionar e desestabilizar o Governo espanhol. Isto ajuda a perceber até que ponto populações desesperadas podem ser usadas como arma por interesses que nada têm de humanitário. Depois, as imagens são entregues aos idiotas úteis do TikTok. Uns fabricam o caos, outros filmam-no e a extrema-direita transforma-o em votos.
O resultado está à vista. Há gente que já nem sabe distinguir imigração não documentada de entrada ilegal. Segundo os dados da Polícia Marítima divulgados pela Autoridade Marítima Nacional, em dez anos foram registados apenas sete episódios de entrada irregular, envolvendo 135 pessoas. Cento e trinta e cinco pessoas em dez anos. Na Itália entraram centenas de milhares. Em Portugal, por esta via, foram 135. Mas explicar esta diferença destrói o espetáculo. Acaba com a “invasão”, estraga os vídeos e obriga os vendedores de medo a discutir a realidade.
Por isso misturam tudo. Misturam quem atravessou clandestinamente uma fronteira com quem entrou legalmente e só depois ficou em overstay. Misturam quem ficou além do prazo com trabalhadores que aguardam documentos mas o estado falha. Misturam pessoas sem título de residência com criminosos e depois atiram tudo para o mesmo saco, porque sem essa aldrabice não existe invasão nenhuma para vender.
Nenhum partido sério defende fronteiras abertas a criminosos ou um país sem controlo. Isso é uma mentira inventada para fugir à verdadeira discussão… saber se uma pessoa que entrou legalmente, vive cá, trabalha, tem casa, filhos, meios de subsistência e passa o controlo dos antecedentes criminais deve poder regularizar a sua situação ou deve ser expulsa, separada dos filhos, presa e tratada como uma criminosa.
É aqui que o circo fica à vista. Os partidos que mais berram contra a ilegalidade são muitas vezes os mesmos que criam as condições para manter milhares de pessoas sem documentos.
Sem documentos, o Estado sabe menos. Não sabe com segurança onde vivem, para quem trabalham, quanto recebem, se são exploradas, se os patrões pagam impostos ou se existe algum problema criminal. Em vez de as trazerem para dentro da lei, deixam-nas na sombra. E uma pessoa na sombra dá muito jeito a alguns chicos-espertos. Trabalha mais barato, reclama menos, não denuncia o patrão, aceita horários que mais ninguém aceitaria e vive com medo de ser expulsa. É o trabalhador ideal para o patrão sem escrúpulos que vota no CHEGA.
Todos os anos, Portugal recebe perto de 30 milhões de turistas não residentes. Em 2025 foram 29,9 milhões. REPITO… Quase 30 milhões de chegadas num único ano. Esses visitantes também utilizam aeroportos, estradas, transportes, hospitais, água, energia, alojamento e espaço urbano. Também criam pressão sobre o país. E não lhes é exigido, como condição de cada entrada, o conjunto de provas pedido a quem pretende trabalhar cá.
Mas ninguém fala disso. Ninguém fala em substituição populacional quando chega um avião cheio de turistas britânicos. Ninguém publica um vídeo quando empurram a população do centro das cidades para abrir alojamentos locais e lojas de souvenirs. Portanto, o problema nunca foi simplesmente o estrangeiro entrar. O problema é ser pobre, trabalhar cá e querer fazer parte da sociedade.
O Governo acabou com a manifestação de interesse em junho de 2024, eliminando a via que permitia a regularização através do trabalho e dos descontos. Ou seja, fechou-se a porta precisamente aos trabalhadores de que mais precisam a agricultura, a construção, os lares, as cozinhas, os hotéis e as limpezas. Agora, esse trabalhador tem de conseguir, a milhares de quilómetros de distância, um patrão disposto a contratá-lo antes de o conhecer. Estúpido não é?
Isto é a receita perfeita para criar intermediários, contratos comprados, falsas promessas, burlas, dependência e redes de exploração mafiosas. Troca-se um processo que podia ser controlado diretamente entre o trabalhador, a empresa, a Segurança Social e o Estado por um mercado organizado à distância, onde o intermediário controla o acesso ao país e o trabalhador já chega dependente de quem lhe arranjou o contrato. Depois fingem-se surpreendidos quando aparecem esquemas, máfias e tráfico de droga ligados a esse sistema.
A regra que defendo é simples… quem entra legalmente tem 90 dias para encontrar trabalho e demonstrar que possui alojamento, meios de subsistência e antecedentes compatíveis com a residência. Cumpre os requisitos, documenta-se. Não cumpre, regressa ao seu país. Ninguém sério é contra isso. Aliás, meios de subsistência, alojamento, inscrição na Segurança Social, quando aplicável, e controlo dos antecedentes criminais já faziam parte das condições legais para obter uma autorização de residência.
Aos 20% que garantem que Portugal não precisa de imigração, a resposta é muito simples: faltam trabalhadores nas obras, na agricultura, nos lares, nas cozinhas, nos hotéis, nas limpezas, nos transportes e em muitos outros trabalhos essenciais. Apareçam amanhã de manhã para ocupar esses lugares. Por cada um que aparecer, será necessário menos um imigrante.
No segundo trimestre de 2026, o desemprego caiu para 5,3%, o valor mais baixo da atual série do INE. O Banco de Portugal diz que os trabalhadores estrangeiros se tornaram centrais para o crescimento do emprego num contexto de redução da população nacional em idade ativa e de escassez de mão-de-obra. A OCDE avisa que a falta de trabalhadores e o envelhecimento já pesam sobre o crescimento e a capacidade das empresas portuguesas para crescer e inovar.
Também podemos exigir salários suíços para atrair trabalhadores na Europa. E até concordo… os salários portugueses são demasiado baixos e deviam subir. Mas Portugal é um país com pouca acumulação de capital, baixas qualificações em grande parte da população, investimento insuficiente, empresas pequenas que raramente conseguem crescer e demasiada gestão pouco preparada para construir uma economia tecnológica como a suíça. Não temos apenas um problema de produtividade.
Temos falta de capital, formação, investigação, escala empresarial, gestão competente e empresários capazes de criar atividades de elevado valor.
Pagar salários suíços para apanhar batatas não transforma as empresas nacionais em líderes mundiais em inteligência artificial. Fechar uma exploração agrícola não cria uma fábrica de semicondutores. Fechar um restaurante não forma engenheiros. Expulsar um servente não cria um empresário tecnológico. Só destrói a economia de baixo valor que ainda existe, sem criar capital, empresas, conhecimento ou riqueza de alto valor para a substituir. Parte dessa conta, derivada da estupidez que engolimos nas redes sociais, já está a chegar.
A primeira fatura aparece na habitação
Portugal precisa de cerca de 300 mil casas, mas faltam entre 80 mil e 120 mil trabalhadores na construção. Cerca de 30% dos trabalhadores do setor são estrangeiros.
Entretanto, a imigração líquida caiu para cerca de metade e as empresas avisam que as restrições já estão a agravar a falta de mão-de-obra e poderão provocar atrasos, aumentos de custos ou cancelamentos de projetos.
Menos pedreiros, serventes, carpinteiros, eletricistas, canalizadores e pintores não fazem baixar o preço das casas. Fazem subir o custo da construção, prolongam os prazos e reduzem o número de casas que se consegue construir. A política que supostamente protege os portugueses acaba a tornar mais cara a casa do português.
O mesmo pedreiro que falta para construir um prédio falta para recuperar uma casa abandonada. O mesmo canalizador falta para substituir uma canalização. O mesmo eletricista falta para reabilitar um imóvel que podia voltar ao mercado de arrendamento.
Os orçamentos sobem. As esperas aumentam. Pequenas obras deixam de compensar. Casas que podiam ser recuperadas continuam vazias e degradadas. A falta de mão-de-obra já está a empurrar para cima as mensalidades dos lares. Em apenas um ano, o valor médio aumentou cerca de 250 euros e aproximou-se dos dois mil euros mensais, enquanto 70% das unidades analisadas não tinham vagas. Um lar não funciona com discursos patrióticos e racistas. É preciso alguém para dar banho, mudar roupa, preparar refeições, limpar quartos, administrar cuidados, vigiar durante a noite e ajudar uma pessoa que já não consegue levantar-se sozinha. Esse trabalho não pode ser deslocalizado para a China. E ainda não existe uma aplicação que dê banho ao avô. Se faltarem auxiliares e cuidadores, as mensalidades sobem ainda mais, as vagas diminuem, a qualidade piora ou o trabalho regressa para dentro das famílias. Perdemos uma auxiliar de um lar e obrigamos uma enfermeira, uma professora, uma contabilista ou uma engenheira a reduzir o horário ou a abandonar temporariamente o emprego para cuidar dos pais. Retira-se uma pessoa de um trabalho essencial e acaba-se por retirar outra de um trabalho mais qualificado.
Depois chega a agricultura
Os trabalhadores estrangeiros já representam cerca de metade da força de trabalho agrícola portuguesa. Uma batata não se apanha através da internet. Uma vinha não se vindima com inteligência artificial. Se faltarem trabalhadores, o agricultor tem três possibilidades… Produz menos, abandona a cultura ou fecha a atividade. No fim, a conta aparece na caixa do supermercado.
A comida produzida em Portugal fica mais cara ou deixa de ser produzida. E depois importamos aquilo que já não conseguimos colher cá. Expulsamos o trabalhador estrangeiro que apanhava a fruta em Portugal e compramos fruta produzida em Espanha, Marrocos ou França por outro trabalhador estrangeiro. Destruímos a produção portuguesa, o emprego, os impostos e a riqueza que ficava no país.
Depois vêm os hotéis, os restaurantes, as cozinhas e as limpezas
Os estrangeiros representam atualmente cerca de 40% dos trabalhadores da hotelaria e restauração. Não podemos mandar limpar um quarto no Algarve a partir de uma central na Índia. Não podemos arrumar uma cozinha, lavar a loiça ou preparar um pequeno-almoço usando um robô do Elon Musk. Ou existe alguém para fazer o trabalho, ou o serviço fica mais caro, mais lento e pior.
Os restaurantes reduzem horários. Os hotéis fecham. As equipas ficam sobrecarregadas. As empresas recusam clientes. Algumas fecham. E quem paga não é André Ventura, nem o ministro que fez a lei, nem o influencer que partilhou o vídeo. É o português que paga mais pelo almoço, pela limpeza, pelo hotel, pela reparação da casa e pelo lar dos pais.
Depois chega a fatura às empresas
Uma empresa que não consegue contratar começa por recusar encomendas. A seguir adia investimentos. Depois deixa de crescer. E, quando chega o momento de decidir onde abrir a próxima fábrica, o próximo armazém, a próxima exploração agrícola ou o próximo centro logístico, compara países.
Se em Portugal não encontra trabalhadores e em Espanha encontra, o investimento atravessa a fronteira. Vai para onde consegue produzir. Com o investimento vão as máquinas, os fornecedores, as exportações, os impostos e os empregos mais qualificados.
Porque o imigrante que trabalha numa obra, numa fábrica, numa exploração agrícola ou num hotel não está sozinho. À sua volta existem encarregados, administrativos, técnicos, comerciais, motoristas, contabilistas, engenheiros e gestores. Quando a atividade desaparece, não desaparece apenas o posto manual ocupado pelo estrangeiro. Desaparece também o emprego melhor pago do português.
É assim que a mentira de que “um imigrante a menos significa um emprego a mais para um português” se vira contra quem acreditou na mentira. E, quando a economia começa a encolher, os portugueses não são promovidos para uma economia tecnológica imaginária. Alguns acabam empurrados para trás. O encarregado volta a executar tarefas manuais. A profissional qualificada reduz o horário para cuidar dos pais. O trabalhador despedido de uma empresa que fechou aceita um emprego mais duro, mais precário e pior pago. Não se acabou com a exploração. Mudou-se apenas o explorado.
Depois chega a conta à Segurança Social
Em 2025, os estrangeiros pagaram mais de 4,15 mil milhões de euros em contribuições, cerca de 14% do total. Portugal envelhece. Há cada vez mais pensionistas e, proporcionalmente, menos pessoas em idade ativa a pagar as suas reformas.
Podemos querer menos imigração. O que não podemos é querer, ao mesmo tempo, menos trabalhadores, mais idosos, reformas maiores, melhores hospitais, mais lares, menos impostos e fingir que as contas se resolvem com bandeiras do Chega a abanar e TikToks do André Ventura. Alguém vai pagar. E não serão os milionários que financiam esses partidos. A conta acaba nas contribuições, nos impostos, nas reformas e nos serviços públicos.
Uma economia que produz menos, investe menos e emprega menos gera menos receita. Ao mesmo tempo, uma população envelhecida precisa de mais saúde, mais pensões, mais cuidados continuados e mais apoio domiciliário. Quando o dinheiro deixa de chegar, o Estado escolhe… aumenta os impostos, aumenta as contribuições, reduz o crescimento das reformas, adia investimentos ou corta nos serviços.
A extrema-direita vende a expulsão como se fosse gratuita
Não é… Está a ter um preço brutal na nossa economia e os custos já se sentem em todo o lado.mAcabaram os anos de ouro em que foram criados mais postos de trabalho do que havia portugueses para os ocupar e chamavam à nossa economia uma das melhores do mundo.
A conta hoje já aparece no centro de saúde sem profissionais, na operação adiada, no lar sem vaga, na escola degradada, no transporte que não foi construído e na reforma que já não acompanha o custo de vida.
Até as obras públicas ficaram mais caras. O Governo pode anunciar milhares de milhões para habitação, ferrovia, hospitais, redes elétricas e transição energética. Mas o dinheiro não pega numa pá, não conduz uma máquina, não assenta um tijolo e não instala um cabo.
Sem trabalhadores, os concursos ficam vazios, as obras atrasam e o Estado paga mais.Ter fundos europeus sem pessoas para executar os projetos é como ter uma ambulância sem condutor… fica muito bonita na fotografia, mas não salva ninguém.
E, por fim, destrói-se a própria capacidade de mudar a economia. Uma economia tecnológica não nasce no espaço vazio deixado por uma exploração agrícola que fechou, por um hotel que reduziu a atividade ou por uma empresa de construção que desistiu. A transição para uma economia de elevado valor exige capital, formação, universidades, investigação, empresários preparados, empresas com escala e anos de investimento. E tudo isso custa dinheiro.
Quando destruímos empresas, produção, empregos e contribuições, também destruímos lucros, impostos, poupança e investimento… ou seja, destruímos parte da riqueza que podia financiar a passagem para uma economia melhor.
A economia de alto valor tem de ser construída por cima da economia que já existe, substituindo-a progressivamente à medida que surgem atividades melhores. Se demolirmos primeiro e tentarmos construir depois, podemos acabar sem nenhuma das duas. Sem trabalhadores para construir casas, colher alimentos, limpar hotéis e cuidar dos idosos. E sem capital, empresários, qualificações e tecnologia para criar a economia do futuro. Sem a economia antiga e sem a nova.
É um país a caminhar para o colapso enquanto aplaude a própria queda. O verdadeiro fracasso foi deixar Portugal envelhecer, perder trabalhadores, manter baixas qualificações, acumular pouco capital e não investir devidamente a riqueza criada pela imigração na habitação, nos serviços públicos, na formação e na transformação da economia.
Depois, para esconder esse falhanço, apontaram o dedo ao alvo mais fácil… o trabalhador pobre que chegou de fora. Tudo isto é vendido como patriotismo. Mas não há nada de patriótico em tornar mais cara a casa do português, o lar dos pais do português, a comida do português e os serviços de que o português precisa.
Não há nada de patriótico em perder empresas para Espanha, produção agrícola, investimento, contribuições para a Segurança Social e empregos de portugueses.
E não há nada de patriótico em pôr o português pobre contra o imigrante ainda mais pobre, enquanto o patrão que explora os dois goza férias nas Maldivas. Esse é o verdadeiro truque.
Põem quem ganha pouco a discutir com quem ganha ainda menos
Enquanto isso, o povo se entretém com vídeos do TikTok, descarrega a raiva em quem limpa os quartos, apanha a fruta, constrói as casas e cuida dos idosos.
Esta gente que financia a direita e transformou Portugal num país de salários baixos, rendas altas, baixa qualificação, pouco capital e serviços públicos insuficientes continua confortavelmente fora da discussão. A contar o dinheiro e a escolher a cor do próximo Lamborghini.
Acabaram de aparecer na televisão e no TikTok imagens de milhares de pobres a correr em Ceuta — que, convém recordar, continua a ficar no continente africano.
Segundo a doutrina Chegana, é apenas uma questão de horas até atravessarem Espanha, passarem Badajoz, tomarem Elvas e chegarem a Santarém para se apoderarem dos nossos trabalhos sazonais a apanhar hortaliças, dos quartos sem contrato e dos salários abaixo do mínimo.
É uma logística admirável para pessoas que, segundo a mesma narrativa, são tão selvagens que nem GPS devem saber utilizar.
Entretanto, Marrocos continua “neutro”: compra armas a Israel, coopera com os seus serviços de informações, agradece a Trump o reconhecimento do Saara Ocidental e quase só falta inaugurar uma rotunda com o nome da Mossad.
Espanha, pelo contrário, reaproxima-se da Argélia, denuncia o que acontece em Gaza e consegue irritar, ao mesmo tempo, Rabat, Telavive e o trumpismo.
Isso é inadmissível…
Por uma coincidência com pontualidade suíça, dezenas de milhares de pessoas interpretam da mesma maneira uma decisão judicial espanhola, escolhem o mesmo destino, partem na mesma janela temporal e convergem de várias cidades marroquinas em carros, táxis e transportes coletivos.
Tudo espontâneo, evidentemente…
A polícia marroquina, presente no local com veículos, barreiras e meios antimotim, descobriu nesse dia os benefícios do mindfulness… respirou fundo, contemplou e, segundo alguns relatos, até indicou o caminho mais rápido para Ceuta.
Curiosamente, quando Rabat decidiu que o espetáculo já tinha duração suficiente, reapareceram os controlos, os reforços e a capacidade policial.
A fronteira que parecia impossível controlar voltou rapidamente a ser controlável… Já tinham produzido conteúdo suficiente para os tik toks.
Se isto fosse uma operação híbrida, provavelmente seria exatamente assim — com a CIA a jurar que estava apenas a apanhar praia em Rabat, a Mossad a garantir que tinha ido passar o fim de semana a Casablanca e toda a gente muito surpreendida por o caos ter beneficiado precisamente quem tinha interesse em o provocar.
Produzido o filme, entram os figurantes habituais. Porque o circo não se faz só de malabaristas; também precisa de palhaços.
Trump grita “invasão”. A extrema-direita europeia carrega no TikTok.O gabinete do Ventura fica desarrumado. O Ventura berra. Os algoritmos repetem as imagens.
E governos assustados reforçam fronteiras contra pessoas que nem sequer saíram de África. Portugal, naturalmente, também reforça a fronteira com Espanha. Nunca se sabe quando uma pessoa retida em Ceuta, sem passagem livre para a Península, decide atravessar espontaneamente 800 quilómetros e aparecer em Vilar Formoso.
Multidões, corpos na água, militares, confrontos e a palavra INVASÃO escrita em letras suficientemente grandes para dispensar qualquer explicação.
Rabat pressiona Espanha. Israel castiga politicamente quem denuncia Gaza. Trump alimenta os seus populistas.
A extrema-direita recebe imagens novas. Meloni, no país por onde entram mais imigrantes clandestinos do que por Espanha, quer fechar as fronteiras. E os algoritmos fazem o resto.
Entretanto, dezenas de milhares regressam rapidamente a Marrocos. O perigo desaparece quase tão depressa como apareceu, mas o filme já está montado, legendado e distribuído.
No fim, uns são enganados para avançar. Outros são enganados para terem medo de quem avançou. E os verdadeiros beneficiários ficam confortavelmente sentados, a transformar desespero em imagens, imagens em medo e medo em votos.