Vai trabalhar, Luís!

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 02/06/2026, Revisão da Estátua)

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Luís Montenegro devia parar de mandar os outros trabalhar e começar, ele próprio, a trabalhar.

Porque ninguém é contra que quem recebe RSI tenha de trabalhar, formar-se ou participar em atividades úteis.

ISSO JÁ EXISTIA. Desde 2012, os beneficiários do RSI podiam ser chamados a prestar atividade socialmente útil, até 15 horas por semana, em entidades sem fins lucrativos, na economia social ou em serviços públicos, sem substituir postos de trabalho.

Portanto, a grande “novidade” do Luís é a propaganda feita pela agência de comunicação Spinumviva. O que Montenegro fez foi pegar numa lei que já existia, meter-lhe um embrulho de castigo e vendê-la à malta que gosta de acreditar que a miséria é preguiça.

Antes chamava-se inserção. Agora vende-se como punição: “Toma lá, vai limpar florestas, para aprenderes.”

E é aqui que temos de abrir os olhos. Uma coisa é trabalho para integrar: acompanhamento, formação, saúde mental, tratamento de dependências, literacia, rotina, entrada gradual no mercado de trabalho. Outra coisa é o Estado usar a chantagem sobre os mais pobres para criar mão de obra barata, temporária e obediente, enquanto finge que está a combater “subsídio-dependentes”.

Em dezembro de 2025, o RSI tinha 164 954 beneficiários. Cerca de 32,7% eram menores e 30,6% tinham 50 ou mais anos. O valor médio pago era de 155,41 euros por beneficiário e 327,13 euros por família. É esta a “vida de luxo” que a direita odeia.

Não é a vida de luxo das benesses fiscais, dos favores, dos perdões, dos benefícios, dos offshores e dos subsídios de milhares de milhões aos grandes grupos económicos que passeiam, com tapete vermelho, nos corredores do poder.

E já agora, não, não há uma reserva mágica de milhares de trabalhos sociais com tarefas simples, seguras, úteis e supervisionadas para encaixar toda a gente. Isso é palha para o burro aplaudir.

Há pessoas com doença mental, alcoolismo, toxicodependência, exclusão social, baixa escolaridade, analfabetismo funcional e problemas graves até para compreender instruções simples. Entregar uma motosserra a uma pessoa descompensada e mandá-la limpar uma floresta não é política social. É sadismo burocrático. É vingança de frustrados sentados no sofá.

É a direita a atirar pobres contra pobres, cansados contra miseráveis, explorados contra excluídos, todos convencidos de que a culpa da sua vida difícil está em quem recebe 155 euros para não morrer de fome.

A Prestação Social Única até pode ser positiva: simplificar apoios, reduzir burocracia, facilitar o acesso e combater a pobreza.

Aliás, esta reforma nem sequer é uma invenção genial deste Governo. Foi inscrita no PRR por António Costa como reforma de simplificação da Segurança Social, com o objetivo de combater a pobreza e a exclusão social, consolidando prestações não contributivas, incluindo o RSI.

Mas como este Governo é fraco, atrasado e incompetente, chegou ao fim do prazo do PRR em pânico. E, em vez de apresentar isto como uma reforma de inclusão, decidiu embrulhar tudo em linguagem punitiva para agradar à plateia que precisa de sentir que alguém ainda mais pobre vai ser castigado.

No essencial, pouco mudou sobre obrigações de trabalho, formação e atividade socialmente útil. O antigo RSI já previa contrato de inserção, deveres, trabalho, formação e punições por recusa injustificada, incluindo 24 meses sem receber prestação em certos casos.O que mudou foi a propaganda à volta do tema.

Saiu o combate à pobreza. Entrou o espetáculo do castigo…só faltou a chuva falsa.

Saiu a integração. Entrou a performance do “vai trabalhar umas horitas”.

Saiu a ideia de devolver pessoas à sociedade. Entrou a palha para quem acha que a miséria é uma falha moral que deve ser punida.

O Estado adora mandar os pobres trabalhar. O problema começa quando chega a hora de o Estado trabalhar pelos pobres: tratar, acompanhar, formar, integrar, criar emprego real, garantir saúde, habitação e estabilidade.

Isso já dá trabalho. E um Estado que trabalha para os de baixo sai sempre caro aos de cima. Não é, Luís?

O Império da Desigualdade: pobreza extrema e a máquina de guerra americana

(Diogo Sousa, in Facebook, 20/05/2026)


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𝟏. 𝐀 𝐀𝐧𝐚𝐭𝐨𝐦𝐢𝐚 𝐝𝐨 𝐀𝐩𝐚𝐫𝐭𝐡𝐞𝐢𝐝 𝐄𝐜𝐨𝐧𝐨́𝐦𝐢𝐜𝐨

O fosso socioeconómico nos Estados Unidos da América atingiu uma gravidade obscena, onde a proliferação da miséria humana coabita com a opulência desmedida das elites financeiras. Enquanto milhões de cidadãos são atirados para a fome e para o desabrigo, a riqueza dos multimilionários regista recordes históricos e imorais. Este cenário de apartheid económico é financiado e agravado por escolhas políticas deliberadas, materializadas num orçamento de defesa hipertrofiado que drena os recursos públicos que deveriam garantir a sobrevivência e a dignidade da própria população.

𝟐. 𝐎 𝐑𝐞𝐭𝐫𝐚𝐭𝐨 𝐇𝐮𝐦𝐚𝐧𝐨 𝐝𝐨 𝐂𝐨𝐥𝐚𝐩𝐬𝐨 𝐒𝐨𝐜𝐢𝐚𝐥

A realidade social norte-americana é um retrato violento de privação sistémica, onde a indigência deixou de ser uma exceção para se tornar uma crise estrutural. Dados oficiais do U.S. Census Bureau expõem uma taxa de pobreza de 10,6%, condenando mais de 35 milhões de pessoas à exclusão económica, com uma em cada dezoito pessoas a subsistir no limiar da pobreza extrema.

Mais de 42 milhões de americanos dependem desesperadamente de senhas de alimentos federais para não passarem fome, enquanto as ruas das grandes metrópoles são tomadas por recordes sucessivos de sem-abrigo. Esta degradação é o resultado direto de salários cronicamente estagnados e de uma inflação punitiva sobre os bens de primeira necessidade, que esmaga as classes mais baixas, as minorias e as comunidades rurais abandonadas pelo Estado.

𝟑. 𝐂𝐚𝐩𝐢𝐭𝐚𝐥𝐢𝐬𝐦𝐨 𝐏𝐫𝐞𝐝𝐚𝐭𝐨́𝐫𝐢𝐨 𝐞 𝐚 𝐍𝐨𝐯𝐚 𝐀𝐫𝐢𝐬𝐭𝐨𝐜𝐫𝐚𝐜𝐢𝐚

Em contrapartida, as elites financeiras e corporativas acumulam capital a um ritmo predatório e totalmente desligado da economia real. Enquanto a classe trabalhadora empobrece, as famílias que auferem rendimentos acima dos 125 mil dólares anuais disparam os seus níveis de consumo de luxo, impulsionadas pela valorização artificial do mercado de capitais e por uma arquitetura fiscal desenhada para proteger lucros corporativos e heranças dinásticas.

O fosso entre a remuneração dos diretores executivos e a dos trabalhadores comuns atingiu níveis feudais, perpetuando um sistema onde mais de metade dos adultos americanos passará pelo menos um ano da sua vida na pobreza, devido à inexistência deliberada de uma rede de segurança social robusta.

𝟒. 𝐀 𝐈𝐧𝐝𝐮́𝐬𝐭𝐫𝐢𝐚 𝐝𝐚 𝐆𝐮𝐞𝐫𝐫𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐏𝐫𝐢𝐨𝐫𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐒𝐮𝐩𝐫𝐞𝐦𝐚 𝐝𝐨 𝐄𝐬𝐭𝐚𝐝𝐨

Esta transferência de riqueza pública para interesses privados atinge o seu auge no desvario orçamental do setor da Defesa. Os Estados Unidos ultrapassaram a barreira histórica de 1 bilião de dólares anuais em despesa militar, caminhando a passos largos para propostas governamentais que fixam o teto militar nuns astronómicos 1,5 biliões de dólares — o maior aumento na despesa militar desde a Segunda Guerra Mundial.

Estes fundos trilionários alimentam diretamente os lucros das empresas privadas do complexo industrial militar e financiam aventuras geopolíticas além-fronteiras. O custo de oportunidade desta máquina de guerra é devastador: a ONU estima que uma fração deste valor seria suficiente para erradicar a pobreza extrema global, mas o Congresso prefere subsidiar o armamento em detrimento do colapso dos sistemas de saúde e educação públicos.

𝟓. 𝐀 𝐏𝐨𝐛𝐫𝐞𝐳𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐏𝐫𝐨𝐣𝐞𝐭𝐨 𝐝𝐞 𝐄𝐬𝐭𝐚𝐝𝐨

Esta assimetria gritante desmascara uma escolha ideológica inequívoca do poder político em Washington. Ao priorizar obsessivamente a manutenção da hegemonia militar global e a blindagem das grandes fortunas, o Estado norte-americano abdica das suas funções sociais mais elementares.

O sacrifício do bem-estar da maioria em prol do lucro da indústria do armamento e da especulação financeira prova que a pobreza nos Estados Unidos não é uma falha de mercado, mas sim uma consequência direta e planeada do seu modelo político e económico.

Marias Cachuchas sem sorte

(João Gomes, in Facebook, 05/12/2025)


(Antes de mais quero dar os parabens ao autor deste texto. Pela qualidade literária, pela atualidade – devido ao recentemente badalado caso do bebé desaparecido de um hospital que o Estado se prepara para “subtrair” à mãe -, pela justeza ética dos valores que defende. Infelizmente, ainda que todas as mães sejam iguais, há sempre umas mais “iguais” que outras…

O autor, entretanto, criou uma Petição Pública para que as autoridades competentes reexaminem o caso, denominada “Pela revisão do caso da mãe de Gaia e pelo direito ao apoio social à família”, a qual pode ser assinada aqui

Estátua de Sal, 06-12-2025)


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Diz o povo, com aquele jeito fatalista que o tempo ensinou: “É do tempo da Maria Cachucha.” Querendo dizer velho, gasto, ultrapassado. Mas talvez o povo nunca tenha percebido que a verdadeira Maria Cachucha não era sinal de antiguidade – era sinal de resistência. Uma mulher que dançava para não sucumbir, que rodopiava nos adros como quem enfrenta o mundo com os pés descalços e o coração inteiro.

Hoje, a Maria Cachucha existe, mas já ninguém lhe conhece o nome. Perdeu-se nas vielas, nos prédios devolutos onde o vento entra melhor do que o sol, nas barracas que ainda sobrevivem por entre promessas políticas e fotografias de inaugurações. Não dança mais a cachucha – porque o tempo não lhe dá folga -, mas carrega nos braços o que o mundo insiste em lhe tirar: os filhos.

São as Marias Cachuchas sem sorte deste país. As que aprendem cedo que a pobreza é sempre suspeita, mesmo quando é honesta; que o amor não é suficiente para provar que se é mãe; que o Estado aparece mais depressa para levar uma criança do que para garantir que uma casa tenha teto, água quente ou paredes que não caiam à chuva.

Todas as mulheres que, como a jovem de Gaia, veem a maternidade tratada como um privilégio condicional – “podes ser mãe, mas só se tiveres condições”. Condições que ninguém lhes deu, que ninguém lhes quis dar, que ninguém se apressa a construir. Porque é mais simples retirar um bebé do que erguer uma casa; mais rápido assinar um despacho do que garantir um futuro.

E assim, neste país que se orgulha de ser “avançado”, onde os discursos falam de natalidade como quem fala de números e metas, continuam a existir crianças que nascem nos carros à porta das maternidades fechadas, mães que chegam sozinhas aos hospitais porque os transportes públicos não passam, famílias que vivem em quartos interiores onde a esperança mal cabe.

E quando uma mãe pobre segura o filho nos braços, o mundo olha para ela como se segurasse uma culpa.

As Marias Cachuchas de hoje não são dançarinas de praça. São mulheres de vinte anos com um bebé ao colo e o coração apertado. São avós que defendem filhas e netos com a força que têm e a que já não têm. São mães que, em vez de ensaiar passos de dança, ensaiam justificações perante assistentes sociais: “Sim, o quarto é pequeno… sim, o frigorífico está velho… mas eu amo o meu filho.” Como se o amor fosse prova insuficiente. Como se o amor tivesse de passar no crivo das autoridades. Como se existir fosse um teste permanente que a pobreza desclassifica à partida.

E, no entanto, estas mulheres, silenciosas e invisíveis, continuam a dançar – não com os pés, mas com a coragem. Dançam contra a burocracia, contra a humilhação, contra a estatística. Dançam para manter ao colo aquilo que o mundo lhes tenta arrancar. Dançam porque a maternidade pobre continua a ser vista como erro, quando devia ser vista como pedido de ajuda.

A verdadeira Maria Cachucha, se ainda existisse, teria largado a mantilha e posto as mãos na anca, olhando o país com aquela altivez antiga que a lenda lhe atribui. Teria dito, entre um passo e outro: “Não é nas mães que está o problema – é no país que as deixa cair.”

Hoje, no Natal que se aproxima com luzes caras e palavras doces, convém recordar que nem todas as crianças dormem em lares aquecidos. Convém lembrar que há mães que rezam, não por presentes, mas para que ninguém lhes leve os filhos. Convém não esquecer que, num país que não garante habitação digna, retirar uma criança por pobreza não é proteção – é punição.

E talvez, só talvez, seja tempo de devolver às Marias Cachuchas deste país algo mais do que a memória romântica de uma dançarina. Talvez seja tempo de lhes devolver futuro. E lhes dar condições de habitabilidade. E de lhes devolver os filhos.

Bom dia!