A Universidade Católica e as isenções de impostos

(Por Jovem Conservador de Direita, in Facebook, 14/02/2019)

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(Não há nada como um bom exercício de ironia para denunciar esta escandaleira do financiamento de favor, pouco transparente e injustificado à Católica, com o qual todos os governos tem pactuado. Haja coragem de acabar com esta mordomia. Mas parece que todos os nossos políticos tem medo das milhares de homilias de domingo que ocorrem por esse país fora. É que é difícil ganhar eleições contra o poder dos sermões.

Comentário da Estátua, 14/02/2019)  


Quero condenar todos os ataques catolicofóbicos que têm sido feitos à Universidade Católica desde que a TVI fez uma reportagem a denunciar que a Católica factura 65 milhões por ano e está isenta de impostos.

Se o Estado financia universidades públicas para todos, também deve poder financiar universidades para aqueles que não se importam de pagar propinas mais altas para não terem de se misturar com os outros. É positivo que o Estado financie a Universidade Católica para que esta possa cobrar dezenas de milhares de euros por MBAs para formar os nossos gestores acerca do perigo que é permitir que o Estado intervenha na economia.

É importante que o Dr. João César das Neves possa ter uma tetinha por onde mamar para ter energia para defender a importância da austeridade e criticar a falta de espírito de sacrifício daqueles que não têm a competência para serem professores catedráticos na Católica.

Seria muito difícil para ele fazer este argumento crucial de liberdade económica se tivesse fome. Temos de lhe pagar para que não se torne comunista. Falo em tetinha com todo o respeito. O Dr. João César das Neves é um pequeno bezerro frágil de sabedoria que precisa de ser mantido saudável para que nos possa deleitar com os seus ensinamentos.

A Universidade Católica tem os melhores cursos de gestão, não pela qualidade da educação que oferece, mas porque oferece aos seus alunos uma excelente oportunidade de networking. A triagem que faz à entrada através do preço das propinas permite que os estudantes que se inscrevem na católica têm a certeza de que vale a pena perder tempo a fazer networking com quase todos os seus colegas.

Pelo contrário, uma universidade pública aceita estudantes que não têm o mínimo para oferecer em termos de networking. Ninguém se devia sentir orgulhoso por ser a primeira pessoa da sua família a tirar uma licenciatura, porque está só a assumir que pertence a uma família que não vale a pena conhecer. Se tiver sorte e a sua empresa lhe pagar um MBA na Católica pode acabar por ser levado a sério. Até lá, mais vale esconder as suas origens para não afastar potenciais amigos importantes.

Nas universidades públicas entra quem tem melhor média. Na Católica o critério é muito mais exigente: entra quem pode pagar as propinas. Isto faz toda a diferença. Qualquer pessoa pode estudar e ter boas notas, mas poder pagar 10.000€ por ano em propinas garante um nível de qualidade incrível e é importante que o Estado financie isto.

Não é por acaso que os estudantes da católica são conhecidos por serem mais atraentes fisicamente. É natural. Estão mais bem alimentados, frequentam os melhores ginásios, vestem-se melhor e resultam do cruzamento dos melhores genes. Dr. Jesus até pode ter defendido que todas as pessoas eram iguais perante os olhos de Deus. Mas os melhores dos melhores exemplares estudam na Católica.

Todos os governos desde o Dr. Cavaco mantiveram esta isenção, que pode ser considerada inconstitucional. Felizmente, temos tido governos que têm a coragem de financiar uma instituição de ensino superior elitista e que garante a liberdade de escolha daqueles que não querem misturar-se com o ambiente esquerdalho de sexo, drogas e Chomsky das universidades públicas. Se queremos ter bons governantes e bons gestores temos de manter esta relação especial com a igreja.

Não se esqueçam que já saiu o novo episódio do meu podcast.

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A televisão e as questões de moral

(António Guerreiro, in Público, 08/02/2019)

Guerreiro

António Guerreiro

Tal como um  milhão e trezentos mil espectadores (segundo os dados audiométricos divulgados), vi os três episódios de estreia de um novo programa de informação da SIC chamado @A Rede.

Neste caso, contava-se a história de uma mulher que criou falsas identidades no facebook, deu-lhes verosimilhança através de contactos telefónicos e conseguiu manipular um grupo de pessoas, não para lhes extorquir dinheiro, mas para as tornar escravas de afectos e emoções extremos induzidos por uma demoníaca manipulação, concebida por uma perversa imaginação narrativa. O caso é certamente verdadeiro, nem podemos imaginar que a SIC estava a fazer com os seus espectadores o que aquele génio da manipulação que só aparece no último episódio, numa imagem desfocada para proteger a sua identidade, fez com as suas criaturas. Mas, na verdade, tudo tresandava a mentira, uma nauseabunda mentira. De tal modo que a partir de certa altura senti que se tinha quebrado o pacto que aquela narrativa estabelecia comigo, enquanto espectador, e passei a olhar as vítimas como vilões e, consequentemente, para o espectador que se ausenta da fraude, o protagonista desta vilania colectiva é aquele que acaba por exercer uma função de manipulação narrativa análoga àquela que o tinham manipulado a ele. Provavelmente, fê-lo de maneira inocente, sem perceber que estava a ser manipulado uma segunda vez para que a sua experiência, a realidade que viveu, resultasse numa ficção da realidade.

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Tudo começa pelo mágico princípio do jornalismo narrativo: “Temos aqui uma bela história, uma história fabulosa”. Tão fabulosa, que permite pôr em acção a estratégia de Xerazade: o espectador fica dependente de uma continuidade narrativa, de um encadeamento que é interrompido e só retomado no dia seguinte. Parece que se segue aqui uma ordem cronológica, natural. Mas não, a história é contada recorrendo aos usos instrumentais da narrativa. Antecipo já as objecções: mas então porque se haveria de evitar essa dimensão narrativa, se se trata de facto de uma história que, podemos até dizer, tem a estrutura da ficção? A narrativização é legítima e necessária. O problema é que, nesta reportagem, os processos técnicos e formais das convenções narrativas se tornam caricaturais. A certa altura, quando deixamos de aceitar o pacto, já só vemos a dimensão formal: a montagem, os enquadramentos, a cenarização, a direcção de “actores”, a representação. Isto é: as técnicas de storytelling. E aquilo que deveria ser um efeito de real torna-se um efeito de mentira e o espectador avisado passa a só ver o império dos artifícios. E isto não é apenas kitsch, com tudo o que o kitsch tem de mentira. É também uma questão de moral e de violência exercida sobre o espectador e sobre aqueles que certamente com a melhor das intenções se tornaram os joguetes de uma entidade que joga aos dados com as suas criaturas. O escritor americano Don DeLillo, depois dos atentados do 11 de Setembro, escreveu um artigo na Harper’s Magazine, onde dizia: “Hoje, a narrativa do mundo pertence de novo aos terroristas”. Esta formulação que pode parecer ambígua, dado o seu contexto, mas De Lillo não queria dizer que a narrativa dominante era a dos terroristas. Ele quis dizer que o próprio modo narrativo se tornou terrorista, Simultaneamente, inscreve-se num campo simbólico onde se confrontam as performances narrativas. A televisão, incluindo os programas de informação, é hoje um ramo, em estado de histeria, da indústria da mentira.

Lançando um veredicto sobre uma cena de um filme de 1960, de Gillo PontecorvoKapo, cuja história se passa num campo de concentração nazi, o realizador francês Jacques Rivette considerou que ela era “uma abjecção, resultado lógico do formalismo” e citou uma frase do crítico Luc Moullet: “A moral é uma questão de travellings”. Esta frase será mais tarde declinada por Godard desta maneira: “Os travellings são uma questão de moral”.

Há coisas que se podem diminuir, mas não se podem eliminar – como o racismo

(Por José Pacheco Pereira, in Jornal O_Público, 02/02/2019)

JPP

Pacheco Pereira

Se queremos encontrar um grande optimista, num meio intelectual em que essa atitude é uma excepção, temos que ler Steven Pinker. Tive o gosto de apresentar uma sua conferência no Porto, discutir e conversar com ele em público e em privado. Nessas discussões e conversas, eu referi-lhe a minha discordância genérica com a sua tese, por isso eu estava mais do lado da regra e ele da excepção. Não tanto porque ele não tivesse razão em quase tudo o que dizia, em particular na longa série de exemplos estatísticos de como o mundo estava melhor do que o que nós pensamos, mas naquilo que ele não incluía nas estatísticas, ou que as estatísticas não podem dizer. Pinker mostrava como a evolução cronológica no período contemporâneo, desde a Revolução Francesa, revelava significativas melhorias para o bem-estar da humanidade, em particular desde 1945.

As guerras hoje matavam muito menos gente, a pena de morte e a tortura tinham consistentemente recuado, os direitos das mulheres e das crianças melhoravam e o mesmo acontecia com as violências domésticas associadas, as pessoas tratavam melhor os animais, o bem-estar económico e social no mundo no seu conjunto tinha dado um salto (em particular nos muitos milhões de pessoas que viviam na miséria na China e na Índia), a ciência, e a medicina em particular, tinha conseguido avanços importantes no combate a muitas doenças, a esperança de vida aumentava, o analfabetismo diminuía, o trabalho infantil, as condições brutais de trabalho estavam a ficar reduzidos a meia dúzia de países, a escravatura quase desapareceu, o número de crimes violentos reduzia-se, etc., etc. De um modo geral, aquilo a que chamamos “direitos humanos”, mal ou bem, conheciam melhores práticas quando olhávamos para o mundo no seu conjunto. Esta evolução era muito significativa na Ásia, e apenas África conhecia um desenvolvimento mais lento. Eu concordava com isto tudo e penso ser salutar compreender estas melhorias, que muitas vezes são esquecidas em certos discursos esquerdistas, que, por exemplo, têm muita dificuldade em incluir a China nas suas análises globais.

Mas… mesmo assim tinha relutância em ir muito longe na afirmação dessa tendência, porque havia coisas que não encaixavam. Uma delas é a existência de armamento termonuclear desde a década de 1950, que mostra que a humanidade pode destruir-se a si própria, pela primeira vez desde que existe. É um salto qualitativo brutal, um ponto sem retorno, e é o seu risco que impede os cientistas que controlam o chamado “relógio do apocalipse” de deixar de colocar a humanidade a poucos minutos do fim. Aliás, o “relógio”, que chegou a estar a 15 minutos, hoje tem vindo a diminuir o tempo para o “apocalipse”, com a presidência Trump, para dois minutos.

Outra é do domínio histórico e cultural no sentido lato e tem a ver com grandes diferenças “civilizacionais” que, no conjunto da história moderna, pouco se esbateram, como a que separa o mundo ocidental do Islão, em matérias, por exemplo, como a emancipação e igualdade das mulheres. Contrariamente ao bem-avontadismo optimista, as “civilizações” dialogam muito pouco e permanecem núcleos duros de diferenças e conflitos em todas as fronteiras.

Outra é mais complicada de discutir, e tem a ver com a matéria das “guerras culturais”. Consiste em saber se um conjunto de atitudes violentas de pessoa a pessoa ou de grupo em grupo, como a xenofobia e o racismo, tendo diminuído sem dúvida, não permaneciam num resíduo, muitas vezes muito pouco resíduo, que não é possível eliminar com eficácia. Para quem estuda história, a humanidade e as suas sociedades não são uma coisa nem higiénica, nem higienizável em absoluto. Isso não significa que se aceite o status quo, e que o olhar desapiedado sobre os comportamentos humanos impeça a acção. Mas perfeição não há e o “homem novo” também não, é o mesmo de sempre e Deus fê-lo mal feito.

É também por isto – escandalizem-se pois! – que não é possível eliminar o racismo seja em que sociedade for. Pode-se diminuir significativamente pela melhoria económica e social, já menos pela educação, e menos ainda pela repressão, no caso de crimes, mas permanece sempre um resíduo, um reservatório, cuja tentativa de eliminação por políticas radicais não só é ineficaz como é contraproducente.

Esse reservatório aumenta e diminui conforme outros aspectos da conflitualidade social que lhe são adjacentes e, em particular, quando falha o melting pot para os imigrantes. É o que acontece nos EUA, em França, na Alemanha, com a crise dos refugiados e/ou as políticas anti-imigração à Trump, mas ainda não acontece em Portugal. Esta afirmação pode ser polémica, mas é sustentável nos factos. Há racismo às claras e racismo inscrito de forma menos visível em Portugal. Há. Mas já foram a França, à Alemanha, ou à Rússia, já para não dizer aos EUA?

Uma má solução é a de fazer proliferar uma legislação punitiva e proibitiva, que é inútil, mas que gera efeitos perversos na liberdade de expressão e no policiamento da linguagem. Ainda pior é acantonar o anti-racismo em discursos radicais que isolam uma parte das comunidades numa “guerra cultural” que, quase de certeza, vão perder. Nos EUA, muitos ajudaram a alterar a condição dos negros nos estados do Sul e a combater o racismo. Mas quem deu à luta contra o racismo uma dimensão nacional foi Martin Luther King, muitos pastores negros, muitos voluntários brancos que, nos piores anos, se dirigiram para o sul, alguns pagando com a vida a sua luta. Mas não foram os Black Panther, por muito atractiva que fosse a sua coreografia de casacos de couro e armas automáticas na mão, porque tinham também direito à protecção da Segunda Emenda.

Uma coisa é a intransigência absoluta com o racismo, outra a indústria política do anti-racismo.