O povo, esse empecilho

 

(António Guerreiro, in Público, 06/12/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

No seu uso actual e mais corrente, “populismo” é uma palavra-maná. Dizem os dicionários e enciclopédias que “maná” é um termo com origem na Polinésia. Passou a ser usado no vocabulário da Antropologia a partir do momento em que o grande antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950) a colocou no centro das suas elaborações teóricas sobre a magia e o xamanismo.

Na introdução a um livro de Mauss, Claude Lévi-Strauss, baseado na linguística, chamou “significante-flutuante” ao maná. O que é um significante-flutuante? É uma palavra desprovida de qualquer significação determinada, um significante que não encontrou um significado para formar um signo. E isto acontece porque em qualquer linguagem há sempre significantes a mais, isto é, um excesso na ordem dos significantes em relação à ordem dos significados, o que é, aliás, a condição necessária para que exista poesia, literatura. Na teoria política, tem havido nos últimos anos esse esforço de dar à palavra o rigor de um conceito, mas na linguagem do jornalismo e do discurso dos políticos continua a ser um maná.

Se Lincoln voltasse hoje à terra e proclamasse outra vez “the government of the people, by the people, for the people” seria considerado um perigoso populista. Algo profundamente negativo e perigoso existe hoje, de facto, que assombra a política e cujo nome próprio pode ser “populismo”. Mas esse nome tem um alcance tão alargado por usos indevidos que criou este paradoxo: há muitas vezes uma boa dose de demagogia na nomeação e a denúncia do populismo.

Há dias, neste jornal, São José Almeida, num trabalho sobre a fraca penetração do populismo nos partidos portugueses, citava uma investigadora do ICS, Susana Salgado, que dava este exemplo como sintoma de um populismo emergente: “Catarina Martins, na última Convenção [do Bloco] fez um grande uso técnico de se colocar do lado do povo: só nós damos resposta aos vossos anseios”. Presumo que Susana Salgado fará um trabalho sério e rigoroso sobre o populismo, no âmbito da sua investigação, mas estas declarações são demasiado simplificadoras (para responder aos “anseios” do discurso corrente sobre o populismo?): não é normal que um político se coloque do lado do povo e o invoque? Mais ainda: haverá democracia – ou mesmo política – sem esta invocação?

É verdade que existem muitos “povos”, e o de Catarina Martins não é o mesmo de Assunção Cristas, assim como o “povo soberano” da democracia não é o mesmo que o “povo trabalhador” dos partidos comunistas. No uso imoderado que hoje se faz da palavra “populismo”, revela-se uma figura que é o seu contrário ou a sua sombra, uma formação eminentemente ideológica que merece o nome de demofobia, isto é, a alergia a toda a política que faz apelo a uma figura do “povo”, por mais desfigurada que ela esteja, por mais que tenha desaparecido o medo de um “povo revolucionário”.

Na pior das hipóteses, como aconteceu agora em França, há um povo da revolta, mas a revolta não é o mesmo que revolução: a revolução implica um cálculo estratégico de longa duração e uma experiência do tempo da história que estão completamente ausentes da revolta, em que a experiência do tempo é a do quotidiano. A revolta não visa nenhuma transformação do tempo histórico, não quer instituir um novo calendário. Há uma deriva demofóbica que desafia todos os princípio da democracia e a aniquila a partir do seu interior.

A demofobia aparece à luz do dia quando as medidas dos governos, visando satisfazer reivindicações do “povo”, são imediatamente classificadas como “populistas”.

O que se tornou “natural” e altamente “responsável” é governar para exercer um castigo. Ao populismo, opõe-se uma ideia de rigor, disciplina e verdade que são profundamente ideológicos: trata-se do rigor e da verdade de uma “governamentalidade” que se apresenta como tendo uma justificação “científica”, subtraindo-se  a toda a justificação ideológica. É de demofobia que se trata, efectivamente, em muitos discursos que vêem em todo o lado emergências populistas.

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A esquerda? Quando?

(António Guerreiro, in Público, 30/11/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Vexata quaestio: o Governo que temos actualmente é de esquerda, como se diz no rótulo oficial? Introduzo esta pergunta não para fazer uma análise da acção governativa, mas com o fim preciso de interrogar a polaridade direita/esquerda (ou esquerda/direita?) considerada obsoleta ou, pelo menos, muito fluída e portanto pouco produtiva, desde que a política se inclinou para a “governança” exercida por experts que — é dito — trabalham para o bem de todos. Julgo que este Governo nos deixa quase sempre à beira do indecidível e, por isso, nos convida muito mais a resolver a vexata quaestio recorrendo à pergunta: “Quando é que há esquerda?”, do que formulando a questão clássica: “O que é a esquerda?”.

Esta passagem de uma definição essencialista da esquerda para uma definição pragmática e circunstancial segue a lição do filósofo americano Nelson Goodman (1906-1998)que, perante os desafios lançados pela arte abstracta e pela arte conceptual, disse que a verdadeira questão é esta: “When is art?”.

Consideremos um caso recente: perante a greve dos estivadores do porto de Setúbal, onde o conflito é tão tipificado que atrai espontaneamente o uso da linguagem marxista, o Governo esforça-se nitidamente por enfraquecer — ou diluir — a noção de conflito. Assumi-lo, implicaria não se curvar à linguagem eufemística que faz a gestão enganadora de uma luta laboral e recalca a natureza conflituosa das relações sociais.

Podemos dizer que há esquerda quando há uma assumpção do conflito. Ora, por este critério nunca há esquerda neste governo, o conflito é para ele uma coisa a evitar ou inconcebível. Na linguagem da psicanálise, podemos dizer que ele pratica, por sistema e por estratégia, a forclusão do conflito: o conflito entre o trabalho e o capital (esta linguagem funciona muito bem como descrição e análise do que se passa no porto de Setúbal), ente artistas e filisteus, entre aficionados dos touros e abolicionistas da tortura taurina, entre os que querem sangue e os que querem a coisa servida sem dor. E assim por diante.

Submetido à forclusão ou, na melhor das hipóteses, desviado para uma versão mole e degradada da “ética da discussão”, o conflito vai sendo apagado pela eufemização da linguagem. Um governo vive o seu “estado de graça” enquanto consegue convencer os cidadãos de que tem uma linguagem dotada de algum potencial de significação, de que as suas palavras não consistem numa expropriação da nossa linguagem. Os actos até podem não condizer, mas as palavras vão à frente, abrem um espaço respirável. O “estado de graça” chega ao fim (e devemos reparar que esse ciclo é actualmente muito curto) quando os cidadãos começam a reagir com uma interjeição: “Já não os posso ouvir!”. O que é que se torna penoso ouvir? Na circunstância actual, torna-se penoso ouvir este discurso da forclusão do conflito, que é apenas um dos aspectos da metamorfose eufemística, do esvaziamento de toda a linguagem.

Se não fosse exagerado e até de algum mau gosto, por evocar coisas infinitamente mais terríveis, talvez lhe pudéssemos chamar LTR, Lingua Tertii Republicae. A logorreia económico-empresarial do discurso político, em que ele se dá ares de coisa séria, inscreve-se nesta tagarelice. Mas não tem nada de inócuo: permite pintar o económico, o social e até as próprias ideias nas cores que as tornam aceitáveis e, às vezes, incontestáveis.

Ainda mais eficaz a realizar esta tarefa é o discurso da cultura. A cultura é uma espécie de detergente que lava as manchas conflituosas, ou um óleo que evita o atrito. Por isso, quanto mais ela é extensiva, melhor. Quando há esquerda? Quando se suprime este cinismo cultural. E porque é que não é necessário transpor a questão para o outro lado e perguntar: “Quando há direita?”. Porque a direita é, por tradição e definição, essencialista, pode sempre ser apreendida através da formulação: “A direita é…”.

COMO PODE (dgie)? Ou O SÍNDROME DE ESTOCOLMO (revisitado)!

(Joaquim Vassalo Abreu, 07/11/2018)

juizo

Já uma vez aqui escrevi acerca deste síndrome, mas em contexto claramente diferente, como poderão (ver aqui), mas desta vez num âmbito um pouco diferente, mas tendo como base a essência do célebre síndrome: o que leva um preso, cadastrado ou um privado da sua Liberdade a acabar por se relacionar com o o seu carrasco ou, neste caso, um votante votar em quem sempre o oprimiu e oprime…como se a sua memória, ou a memória colectiva, não existissem?

Ou, de outro modo, quem tendo sido escorraçado da sua Pátria por quem lhe tirou ou sugou todo o seu suor, a ela volte, ou não, mas continue a votar, nunca saberei em nome de quê, e mesmo que o saiba nem acredito que o sei ( uma questão quase clubistica?), naqueles mesmos que os escorraçaram…é algo que, como justificação ou razão, apenas poderei reportar para o célebre síndrome…porque para o racional entendimento  nunca poderei reportar…

Mas um síndrome de que nunca padeceram os velhos resistentes, aqueles que durante anos e anos foram mortificados nas cadeias, nas cadeias para onde os mandaram privando-os da Liberdade e da Vida ( para além da Família…), apenas por lutarem pelos seus, pelos mais fracos, por aqueles que, mesmo tendo vontade, ainda tinham um conhecimento da “politica” e da relação de Classes ainda sofrível, mas tinham um sentimento e um conhecimento enormes das Injustiças!

E sinto pena, muita pena, que muitos povos de muitos países, o nosso inclusive, a quem pelos vistos não lhes foi ensinada a História, a História do seu País e do Mundo, e ainda das suas Famílias, perante um problema actual, um problema em que toda a sua cultura Humanista, Histórica, e de abraço com a Verdade deveria ser dirigida para a sua elevação, dirija os seus votos a favor dos carrascos dos seus avós, dos seus pais e de muitos dos seus parentes, em nome de uma simples coisa: do seu ocasional egoísmo!

Mas que, de imediato, se verifica, e eles próprios logo verificaram, ter sido o seu acto apenas dirigido pelo ódio…A quem? A quem sempre os defendeu mas que, em determinado momento histórico, os desiludiu! Com toda a razão o pensaram mas sem qualquer razão esse ódio executaram. Porquê? Porque o seu ódio circunstancial obviou o retorno ao poder de quem sempre os renegou e baniu… E que, de imediato, os informou de que, pese o seu voto, os continuaria a banir…

Pois é… e aqui estamos! Lindo serviço fizeram os eleitores da emergente Classe Média Brasileira que agora resta como réstia da esperança de alguma vez lá entrar…Os que desejando paz nos bairros e nas Favelas votou numa arma em cada casa e na militarização dos seus bairros…Os que desejando uma Escola Pública decente e progressiva, acabaram por votar num espécime chamado Frota que, instado pelo seu mestre, proclama uma arma em cada escola e o abandono de tudo o que sejam culturas humanísticas, isto é, Marxistas, segundo eles!

Ora tudo isto demonstra uma tremenda incultura política, uma tremenda iliteracia acerca de tudo o que seja Social e, acima de tudo, um conservadorismo tão profundo, tão arreigado e tão antiquado que, mesmo observando a actualização das pessoas com os aspectos mais fúteis dos tempos, nada lhes conseguimos ver nem quanto à Cultura, nem quanto aos Costumes, nem quanto ao viver em Sociedade, que implica o dar e o receber, o aceitar e o promover, o reclamar e o propor, o perceber e o instar, o exigir e o condescender, em suma tudo isso o que faz a Democracia e o que nos faz sentir parte integrante da mesma…

Mas saber-se que se vai votar e, de imediato, se vai arrepender, simplesmente por um desejo punitivo que, também de imediato, se sabe se vai virar contra si próprio; saber-se que, no fundo, se está a entrar num terreno deveras perigoso e, mesmo assim, se resolve experimentá-lo, com o imediato arrependimento, já se sabe e de quem já o sabia…além de triste é doentio!

Mas, pior ainda, votar-se sem saber de nada; votar-se sem nunca ter ouvido nada; votar-se sem nunca ter escutado alguém que alguma vez lhe tivesse ensinado fosse o que fosse; votar quem na vida só sabe o que é obedecer e quem, pior ainda, na vida só anseia ser como o rico, como o patrão…e vota nele?

Perdão para todos eles…não sabem o que fazem, mesmo fazendo mal, muito mal…até a si próprios! Como pode?

Mas pode…


Fonte aqui