Mal Cheiro no Reino

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 18/12/2025, Revisão da Estátua)


Não me surpreende o Ministro da ADEGA (AD-Chega) – o acrónimo é do Tiago Franco – dizer que as residências universitárias devem entrar no mercado livre e quem pagar mais fica com o quarto. Faz parte do bebedeira de lucros cuja gestão está neste Governo agora. Mas há duas coisas mais interessantes.

A primeira é a ideia de que os ricos cheiram bem. Nascida eu em Cascais, e residindo sempre na Linha, de vez em quando passaram pela minha existência os ricos. Poucas vezes, porque os meus pais de esquerda, os meus avós do campo, e a escola pública pós 25 de Abril – que me deixou fazer amigos em que no mesmo dia, sem exageros, eu ia brincar na casa do bairro de barracas da AP e à tarde na piscina da C. – me livraram do ambiente estranho dos ricos da Linha, que passei a achar brutalmente aborrecido. Reconheço-os em segundos – quando alguém começa uma frase a dizer de que linhagem vem, quem conheceu, é amiga de tal, digo logo que tenho que ir à casa de banho. Onde não há trabalho real não há cultura e eu acho fascinante um padeiro, um médico, um operário, e morro de tédio ao lado de alguém que gere trabalho ou investimentos. Ou espera, fazendo compotas e compras, a herança dos pais, que Deus os leve o mais cedo possível para começar a divisão de bens.

Mesmo assim, ainda assisti a alguns filhos de ricos, a pilharem a casa dos pais, roubarem cartões de crédito, e, no único ano em que estudei em Lisboa, no Maria Amália, circulavam pelas casas de 12 assoalhadas da Artilharia 1, drogas e roubo de jóias feitas pelos filhos aos pais, em festas da qual saí discretamente depois de vomitada metade da casa e partida a outra metade. Recordo também uns que tinham roubado um carro da polícia, se fossem pretos tinham talvez sido executados, assim ficaram na porta da esquadra à espera do advogado do papá, que largou a correr a amante e culpa a mãe que protege o Chiquinho demais. Recentemente fiquei a conhecer de perto um caso em que a malta de Cascais bem cheirosa arrendou uma casa por 4 mil euros nos arrabaldes de Setúbal e nem à piscina foram porque acabou tudo em doses de cetamina e cocaína, e portas partidas; ou do filho católico expulso do colégio da Opus Dei depois de ter partido, com amigos, um hotel, tudo pago pelo pai, e claro, terminado na Universidade privada, onde se reza a Deus e aos pobrezinhos. Nada disto acabou em Tribunal, foi resolvido antes com um cheque. Esta gente estuda três tipos de cursos: Direito, vai para o Parlamento ou fazer leis de contratação pública que garantem os negócios privados; Comunicação, acabam em assessores ou comentadores; ou Gestão, onde se tornam psicopatas. Bem cheirosos. Não me interpretem mal. Há muitas acções erradas em todas as classes, e raramente algo se resolve numa esquadra ou tribunal, não sou moralista, mas o facto é que a sociologia dos ricos está envolvida num manto de glamour. Aprenderam, depois da revolução russa, a esconder-se.

A segunda, mais importante, é que o Ministro falou de…? Professores convidados precários que alimentam o sistema científico, sempre ameaçados de despedimento? A tristeza das aulas pós Bolonha, vazias de paixão e saber, e a meu ver uma das grandes causa da desistência dos alunos? O dinheiro que vai das Universidades para as Big Tech em plataformas e “modernização digital”? O assédio dos directores e afins, tudo regado com denúncias e bufos, e a ameaça de facto à liberdade de cátedra? A aldrabice do ChatGPT e afins que normalizou o plágio e a mentira? O super poder de reitores e directores não eleitos? Os concursos públicos todos marcados e humilhantes? A progressão gestionária – para criar um lastro de lambe-botas que espera ficar sob as graças do director e passar no concurso “interno”? O aluno-cliente sem vida cultural e universitária e amizades? A guerra, o que andamos a ensinar em física, matemática, sociologia que alimenta o aparelho produtivo da guerra? Os centros de investigação financiados por empresas, ou pela NATO?

Não, o Ministro falou da necessidade de colocar as residências universitárias no mercado de arrendamento e até disse – como se aprende nos cursos de comunicação – que era tudo em nome da igualdade. O tipo parecia o Olof Palme depois do Maio de 68.

Nem toda a gente percebeu que o filme “Feios, Porcos e Maus” não era sobre os pobres que viviam nas barracas, era sobre os ricos. Era sobre os que foram andar de foguetão na pandemia, os que no telejornal, de fatos de 4 mil euros, e banho tomado, aspergem sorrisos a defender a morte de jovens na guerra como “segurança da Europa”, as que, como a aristocrata Von Der Leyen ou a chefe charmosa do Banco Central, de lenço de seda Hermès, e sapatos italianos, 1 ano de salário mínimo só nos sapatos, anunciam o fim da Universidade – sim, o capitalismo está a acabar com a Universidade com a digitalização – e lhe chamam “modernidade”.
Esta gente, parafraseando o meu amigo Toino Caranguejo, o bêbado da Zambujeira, que cheirava muito mal e por isso eu conversava com ele a uns metros, os ricos “não cheiram a leite, cheiram a sangue”.

A cidade que resta

(António Guerreiro, in Público, 01/08/2025)

António Guerreiro

Uma cidade feita de hotéis e arrendamentos a curto prazo (no centro histórico de Lisboa, metade das casas está por conta do Airbnb) transforma-se num deserto cultural.


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Em pouco mais de um mês, Lisboa foi contemplada com dois artigos no jornal britânico The Guardian por motivos de que não se pode orgulhar.

O primeiro, publicado em 25 de Junho, assinado por Agustín Cocola-Gant (um investigador do IGOT, Instituto de Geografia da Universidade de Lisboa) inseria-se numa série de reportagens que o jornal está a publicar sobre a crise da habitação na Europa. O artigo consiste na descrição dos factores bem conhecidos que transformaram radicalmente a cidade na última década, de tal modo que ela passou de uma das mais acessíveis capitais europeias a uma das mais inacessíveis, sobretudo (mas não exclusivamente) por causa do preço da habitação.

Quanto ao segundo artigo, publicado no dia 27 de Julho, trata-se de um relato na primeira pessoa, de uma “nómada digital” inglesa, que veio de Londres para Lisboa em 2019. Agora, perante a acentuada gentrificação, notando o crescimento de tensões que eclodem no racismo e na xenofobia, sentindo um certo mal-estar na sua condição de estrangeira que beneficia de regalias que não são concedidas aos portugueses, olhando à sua volta e vendo que a cidade, em todos os aspectos da vida urbana, ficou conformada à lógica do turismo e dos residentes temporários estrangeiros, esta inglesa, chamada Alex Holder, faz a si própria esta pergunta: “Chegou a hora de os nómadas digitais como eu saírem de Lisboa?” Quem conhece alguns, sabe que esta questão começa a ser recorrente.

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Evidentemente, nenhum destes diagnósticos e descrições traz dados novos ao que todos conhecemos. Mas dito por estrangeiros e publicado num jornal britânico tem mais peso, na medida em que nos faz perceber que a incomodidade cresce mesmo entre aqueles que julgamos serem os felizes beneficiários da transformação da cidade. A queda do prestígio alastra e está a tornar-se pública para além das fronteiras. Ninguém gosta de viver numa cidade Potemkin.

Um estabelecimento de alojamento local em Lisboa.

Esta situação, que as administrações políticas de Lisboa acolheram e promoveram com grande entusiasmo, atingiu a máxima intensidade quando outras cidades já estavam a tentar restringir as causas que provocam a catástrofe urbana do nosso tempo. Não faltam as reflexões sobre os devastadores efeitos urbanísticos, sociais e económicos sofridos por cidades como Lisboa. Mas já é mais raro encontrarmos análises do empobrecimento cultural que daí advém. Uma cidade feita de hotéis e de apartamentos com licenças de arrendamento a curto prazo (no centro histórico de Lisboa, metade das casas está por conta do Airbnb, escreve Agustín Cocola-Gant no seu artigo), uma cidade que expulsou os seus habitantes, transforma-se num deserto cultural.

É verdade que não podemos pensar, desde há mais de meio século, numa cidade com os seus espaços criativos onde germinam a arte, a literatura, a ciência. Os ateliers dos artistas, tão importantes para as vanguardas, não têm, há muito tempo, espaço na cidade. Quanto às tecnologias digitais, o espaço é indiferente porque elas são ubíquas.

A primeira “cidade criativa”, onde se deu um vínculo essencial entre o artista e a cidade, foi Florença, no Renascimento. Na cidade moderna, na grande metrópole, a relação entre o artista (num sentido lato, que compreende também o poeta e o escritor) e a cidade não tem nada de harmonioso, pode mesmo ser uma relação esquizofrénica. Mas é, ainda assim, um lugar cheio de estímulos criativos. Sem Paris do Segundo Império, a capital moderna por excelência, não teria havido um Baudelaire.

A cidade como uma incubadora cultural é uma imagem poderosa que teve o seu tempo, que pode ter ainda, algures, algumas manifestações. Mas não em Lisboa, que é um exemplo dramático de cidade culturalmente estéril. Como pode sobreviver uma “cidade criativa” se às suas portas se estende um território habitado por uma população privada de casa e de segurança, se o seu centro foi colonizado pela cultura do entretenimento para a ocupação dos tempos livres dos novos “criativos” e dos seus residentes de passagem? A imagem emblemática desta nova funcionalidade urbana da cidade Potemkin a que Lisboa se conformou é a do Cinema Ideal, em plena Rua do Loreto, tão cheia de evocações, a 30 metros do Largo Camões, que desafia discretamente (discreto à porta, mas menos discreto na sala onde passam os filmes) o fluxo torrencial de turistas. Aquela sala de cinema sobrevive como um vestígio, um resto (a par de outros restos) para o qual já não há contexto. À sua volta, até as livrarias são um testemunho do crescimento do deserto.


Europa, ao som da valsa

(António Guerreiro, in Público, 04/07/2025)


António Costa é o homem com qualidades para um cargo que é um conjunto de qualidades, mesmo que sem homem.


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Desde que saiu da província política portuguesa e, eleito presidente do Conselho Europeu, foi viver para a metrópole da União Europeia (a “cidade-mãe”, que é o significado de “metrópole” em grego), António Costa sofreu algumas transformações no seu aspecto e submeteu a deixis corporal a um controlo estético codificado pelo “monstro afável” de Bruxelas.

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“Sofreu”, neste contexto, não quer dizer que ele tenha sido o objecto passivo de uma acção violenta, não há sinais de que lhe tenham infligido sevícias para lhe tatuarem na pele as regras do bom europeu. Não, foi ele que voluntariamente e com sucesso exerceu uma disciplina do corpo e fez uma rápida aprendizagem do ethos (isto é, dos hábitos, dos comportamentos) que lhe corresponde: está mais elegante e os seus cabelos brancos parecem agora de uma alvura imaculada, sem pecado, entregues aos cuidados diários de um cabeleireiro escultor que, podemos imaginar, faz de conselheiro espiritual por método capilar; os fatos assentam-lhe no corpo como num manequim (graças certamente a um virtuoso costureiro, contratado para formatar o corpo europeu padrão) e até a cor da pele parece mais um bronzeado adquirido numas férias passadas numa ilha grega, ou num solarium de luxo, do que a pigmentação das origens. O seu inglês aprimorou-se e responde com grande competência às regras da eloquência treinadas pelos falantes do esperanto europeu.

Em suma, António Costa é o homem com qualidades para um cargo que é um conjunto de qualidades, mesmo que sem homem.

Esta é a imagem da Europa. Não é o Costa na imagem mas podia bem ser. Não lhe falta jeito para a vassalagem…

Não é necessário acumular mais provas, nem sequer mencionar que ele chegou ao posto cumprindo discretamente (outros o fizeram antes com muito menos pudor) um preceito com forte tradição, o do trânsfuga, para concluirmos que ele é o nosso homem em Bruxelas. Deixemo-nos pois, por agora, de subtilezas sobre os artifícios da grande construção burocrática que é a cabeça de uma União macrocéfala e de alma minguada, construída como um edifício “qui se tient par lui-même” (que se mantém, que se aguenta, por si mesmo), como dizia Flaubert, numa célebre carta a Louise Colet, do livro que desejava escrever: um livro sobre nada.

A alusão a Flaubert e à sua mais elevada aspiração a um livro sobre nada não deve servir para pensarmos que o nada para onde tende a União Europeia é um projecto grandioso à altura do programa literário de um Flaubert. O nada de Flaubert era uma forma eminentemente moderna da (i)legibilidade do mundo; o nada da União Europeia é a queda num puro vazio, no abismo da nulidade treinada em regras vestimentárias e em estilos de eloquência codificados.

Em boa verdade, em matéria de códigos e regras, a União Europeia está muito além desta sucinta descrição. E se no início deste texto há uma referência ao “monstro afável” foi porque achámos pertinente citar o título da tradução portuguesa, editada pela Relógio D’Água, de um livro do grande poeta ensaísta alemão, Hans Magnus Enzensberger, falecido em 2022, cujo título alemão é Sanftes Monster Brüssel (2011).

Aí, Enzensberger engendrou uma gentil metáfora para descrever com muita ironia e alguma comicidade toda a imaginação burocrática que se apoderou das várias instituições administrativas da União Europeia. O gentil monstrinho, entretanto, ganhou pose de anão sem grandes gentilezas e da sua grande cabeça não sai um pensamento que se veja. O seu destino fatídico ou, para dar um tom metafísico à coisa, a sua última destinação, é a burocracia, o seguidismo cego e a subserviência. E, a juntar a tudo isto, desenvolveu o complexo de fortaleza e de parque temático para proteger a velhice e a decadência e para oferecer visitas de férias e estadias aos ricos do novo mundo que adoram fazer viagens ao continente dos arquétipos.

“A União Europeia é um buraco negro? Uma zona na qual a matéria implodiu, provocando a concentração de uma enorme massa num espaço incrivelmente pequeno?”. Esta pergunta incómoda foi formulada por Robert Menasse, um escritor austríaco (muito espírito crítico e radical produziu a Áustria, desde há mais de um século, a par de outras coisas menos boas) que se tornou uma espécie de consciência crítica da União Europeia. Às vezes, ao domingo, ela cria o aparato de potência superior. Mas, escreve Menasse, “no resto da semana, na vida política quotidiana, não é senão o nome de uma ameaça perante a qual os chefes de Estado e dos governos enchem os peitorais e asseguram: ‘Não nos deixaremos devorar!’”. O monstro devorador tem um nome de código: “Bruxelas”, o buraco negro.

Ainda bem que nada disto se pode apreender na subtil metamorfose de António Costa, assim como em muitas outras metamorfoses precedentes. O nosso homem em Bruxelas arranjou-se para ir dançar a valsa nos salões de uma “Felix Europa” a que alguns têm direito.