UM PRIMEIRO-MINISTRO COM SORTE

(In Blog O Jumento, 12/06/2018)
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Há quem diga, com alguma ou mesmo muita razão, que António Costa poderá ter nascido com o rabinho virado para a lua, já que tudo parece correr-lhe bem. Na verdade, talvez não seja assim: em três anos de governo o país já enfrentou duas desgraças naturais, os incêndios e a seca extrema, não esquecendo a situação que financeira que o país atravessa.
Mas, que mais poderia desejar um primeiro-ministro do que ver o país a discutir de forma tão animada se o Bruno sai ou não, se o Marta Soares é o futuro do Sporting ou qual o próximo jogador a mandar uma carta de amor ao presidente do Conselho Diretivo do clube?
Desde que o Bruno de Carvalho escreveu no Facebook, a partir de Madrid, que se antecipou a Silly Season, até é pouco provável que alguém vá aos comícios da rentrée, já que em finais de agosto o tema que preocupará o país será saber com que equipa vai jogar o SCP na Liga.
Já ninguém se lembra de que 2019 será um ano de muitas eleições; a dúvida não será saber se a Ana Gomes continua como deputada Europeia ou se vai partir a loiça em Lisboa, se o Assis continuará a representar a maioria dos eleitores do PS ou se o Costa terá a maioria absoluta. O grande problema de 2019 será o SCP.
Por esta altura, no ano passado, o país chorava os mortos de Pedrógão, Passos Coelho inventava mais mortos por suicídio segredados pelo senhor da Santa Casa local. Há um ano discutia-se incêndios, o assalto a Tancos e receavam-se mais incêndios por causa da seca extrema. Este ano chove em junho, as barragens estão cheias, Tancos tem trancas à porta e nada sucede que anime a oposição.
O pobre do Rui Rio quase desapareceu e se alguém perguntar como se chama o novo secretário-geral do PSD ninguém se lembra do seu nome. Pelo meio temos as intervenções do Negrão que, como se sabe, são de tão grande nível intelectual que ninguém as entende.
O Verão quente, que muitos desejaram, acabou por ser bem diferente daquilo que seria o resultado das rezas da oposição. Temos um verão quente em Alvalade mas, como já não existe Copcon, ou o MP prende alguém ou teremos de esperar pelos tribunais, o que significa que este verão quente veio para ficar.
Entretanto parece que o nosso verão é tão bom que até o inverno veio cá passar férias. Que mais poderia desejar António Costa? E por falar em Verão, será que a Assunção Cristas já foi de férias? Tal como o deputado Helder Amaral, até parece que desapareceu.
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É bem feita, António Costa

(Por Estátua de Sal, 10/05/2018)

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Caro António Costa, depois do monumental tiro no pé que foi esqueceres-te da tua máxima “À justiça o que é da justiça, à política o que é da política” – que geriste de forma exemplar desde 2014 -, tendo admitido a hipótese de Sócrates ser culpado dos crimes de que é acusado devendo, nesse caso, ser condenado – o que é uma verdade de La Palisse -, nesse dia a Direita abriu o champanhe e rejubilou. Julgavas tu que te safavas e que os ias calar. Nada mais errado. Nunca julguei que fosses tão canhestro na gestão da agenda política.

A direita recebeu de bandeja o argumento que lhe faltava para usar todos os incidentes “mediático-políticos” do passado para te atacar e ao teu Governo. No momento em que admites que Sócrates pode ser culpado, seja lá do que for – já que nada está provado no plano criminal -, estás a assumir que, vários dos teus ministros, tu próprio, no mínimo, pactuaram com as falhas de Sócrates e com a sua alegada venalidade. Foi esse o grande trunfo que deste à Direita.

E eles não tardaram em corresponder à oferta que lhes foi dada de mão beijada. Na Assembleia da República o Negrão tentou encostar-te às cordas. A SIC mandou vir a Moura Guedes para desfiar o rosário das “malfeitorias” do tempo de Sócrates e pede investigação do MP ao Pinto Monteiro, Procurador Geral da República, à época. A Sábado avança que três dos ministros de Sócrates vão ser constituídos arguidos, devido a hipotética danosa negociação das PPP rodoviárias. O Pinho recebia do BES uma mesada opípara. Hoje a SIC ataca de novo, desenterrando a velharia da licenciatura de Sócrates. E, provavelmente, a procissão ainda vai no adro e haverá ainda mais episódios do mesmo folhetim.

No momento em que assumiste que Sócrates pode ser culpado, ficaste impedido de vir defender o PS destes ataques concertados que lhe estão a ser feitos. Tens que engolir em seco, e não vejo como podes minimizar os danos, mas só a ti próprio e ao teu séquito mais próximo podes assacar as culpas do que está a passar-se. Pelo que, o PS que não se queixe. Como bem disse e avisou Manuel Alegre: “Abriu-se a caixa de Pandora”.

É que, deste à Direita o trunfo da “corrupção por osmose”. Ou seja, como admitiste como plausível que Sócrates tenha sido corrupto, deste à Direita o trunfo de poder vir a dizer que todos, ou uma parte, dos que o cercavam também o seriam, logo uma fracção significativa do teu actual Governo. Dirás que este argumento é totalitário, não colhe na opinião pública, e que se virará contra quem o usa.

Eu não estaria tão certo. A campanha de intoxicação está a rolar, a comunicação social, em conluio íntimo com a justiça, está a roer-te os calcanhares e a desenterrar do baú dos trapos todas as pontas soltas, intrigas, e histórias mais ou menos mal contadas do tempo dos governos de Sócrates.  É a insídia servida diariamente em colheres de xarope e, pela cara que fizeste na Assembleia da República, no debate quinzenal, quando o Negrão te confrontou, o xarope deve ter um sabor mesmo amargo, um efeito indigesto.

E, se foi por um tacticismo simplista que agiste da forma que agiste, querendo separar o PS do mais leve indício de corrupção – almejando uma gloriosa maioria absoluta nas próximas eleições, e descartando a Geringonça para canto -, está hoje claro que se virou o feitiço contra o feiticeiro.

Até porque não está provado que, eleitoralmente, os portugueses punam de forma incisiva aqueles cujo tom de pele tenha um odor a venalidade, como bem prova a última eleição de Isaltino Morais para presidir à Câmara de Oeiras, eleito e levado em ombros.

Se calhar os portugueses mais depressa condenam aqueles cujo carácter revela que, assustados e – pior ainda -, de forma não frontal, deixam cair os amigos e companheiros, porque sentem e intuem que estes estão na mó de baixo, sendo por isso tidos como companhia indesejável.

Desonra, Vergonha e Traição

(Valdemar Cruz, in Expresso Diário, 04/05/2018)

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(O PS entrou na via do harakiri, suicídio por esventramento à japonesa. Costa, por tacticismo e/ou pusilanimidade, entregou Sócrates ao festim báquico que a Direita acolitada na comunicação social e nas magistraturas vai degustando. Parece que só ele é que ainda não percebeu que não é cabeça de Pinho, nem de Sócrates, que eles querem: é pura e simplesmente a dele. E com tanta cedência e falta de coragem para denunciar a manobra, acredito que vão tê-la mesmo. Confesso que esperava mais do homem.

Comentário da Estátua de Sal, 04/05/2018)


 

Gloriosos dias estes vividos com Shakespeare a inspirar o vocabulário político português. José Sócrates bate com a porta, escreve um artigo de opinião no JN, e entrega o cartão de militante do PS, António Costa fala no Canadá de “desonra para a democracia”, Carlos César ou João Galamba lançam palavras tão agudas como punhais e quem fala é MacbethCoriolano, ou Hamlet.

Ou, se não eles, o espetro do seu imaginário traduzido em vocábulos ou sentimentos tão pesados como traição, desonra, vergonha ou até vingança. Ontem, na SIC Notícias, Adolfo Mesquita Nunes, do CDS, perguntava o que se terá passado para de repente o PS ter mudado o discurso em relação a Sócrates. A resposta está aí e ainda não seria conhecida de Manuel Alegre quando dizia, citado pelo Público, que o PS “abriu a caixa de Pandora” ao trazer agora, de “uma forma avulsa”, o nome de José Sócrates para o debate político.

Os próximos tempos não serão exatamente os dos Glory Days cantados por Bruce Springsteen, com o PS a ter de agarrar pelos cornos uma discussão que tentou olhar apenas de esguelha. Serão mais de ajuste de contas e não deixarão de evocar “A Tempestade”, a última peça do bardo inglês, com as suas maquinações, conspirações, juras de amor e atos de oportunismo. Sócrates não suportou a viragem de agulha e esta “espécie de condenação sem julgamento”. Por isso, escreve, “é chegado o momento de pôr fim a este embaraço mútuo”. Logo se verá de quem é maior o embaraço.

E Manuel Pinho? Vai agora passar por entre os pingos da chuva, face ao estrondo do bater de porta de Sócrates? Não se ouve Manuel Pinho, mas escutam-se os clamores pelo seu silêncio face às acusações de se manter como assalariado do BES enquanto Ministro de Sócrates. E, então, tudo se cruza. Lê-se a carta de despedida do antigo Primeiro-ministro, acompanha-se a sua defesa da honra de Pinho e, salvaguardadas as distâncias, o discurso de Marco António na defesa de César.

Neste emaranhado de máscaras não podia faltar Macbeth com o seu imponderável cruzamento entre aparência e substância. Sendo que a aparência é resumir a indignação ao choque face às alegadas avenças e promessas de reformas milionárias de Ricardo Salgado a Pinho a partir dos 55 anos. Apesar de ser Ministro? Ou para ser Ministro, já que por ser Ministro – na verdadeira aceção da palavra – não seria?

A substância será perceber e tentar descodificar o contexto político em que sucedem estes casos. Então, Pinho poderá ser apenas uma peça de algo muito mais vasto, num ambiente de promiscuidade entre poder político e poder económico, com a utilização do Estado em benefício de interesses privados. E aí pode ser crucial o âmbito da Comissão de Inquérito já proposta pelo Bloco de Esquerda, para se perceber, ao longo dos anos, a dimensão do despautério e conhecer as múltiplas responsabilidades em toda a sua dimensão.

Se Macbeth, condicionado pela fraqueza da sua condição humana, navegava num destino cujo desfecho só poderia ser materializado em tragédia, os Pinhos desta vida não passam, afinal de personagens tolhidas pela fraqueza de quem naufraga num arrivismo de perniciosas ambições.

E aí está Shakespeare de novo, agora com o seu Soneto 129, na tradução da poeta Ana Luísa Amaral para a “Relógio d’Água”:

“Desperdiçar o espírito ao esbanjar a vergonha

É luxúria em ação; até lá, a luxúria

É perjura, culpada, assassina, cruel,

Excessiva, selvagem, desleal, traiçoeira…”