Que início de ano, por tutatis!

(Por oxisdaquestao, in Blog oxisdaquestao, 04/01/2023)

Costa, como druida, a cozinhar a poção mágica da cee, a famosa bazuca da vonder lier. Marcelo, como Asterix a vigiar o que se passa com os fundos europeus e Mira Amaral a correr atrás dos javalis feito Obelix. A capa do i é sugestiva mas mal produzida ao nível da caricatura: foi da autoria de um desajeitado para o desenho. Na verdade só o amarelo se safa!


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Os lindos olhos de Costa não seguraram o MidCat

(Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 21/10/2022)

(O Costa continua a cantar vitórias onde só há derrotas ou vitórias de terceiros. A política nacional, enquanto telenovela, nem sequer chega a ser rasca: é mais para o deprimente e para o ridículo. Piores episódios que este só quando o Cavaco sai da toca dos mortos-vivos, ou quando o Marcelo descobre que o país ainda aguarda que o Passos regresse, qual D. Sebastião numa manhã de nevoeiro.

Estátua de Sal, 22/10/2022)


Cara leitora, caro leitor:

Portugal, Espanha e Alemanha tentam, há séculos, convencer a França a construir um gasoduto para deixar passar gás natural através dos Pirenéus. Chama-se “projecto MidCat” e a França opõe-se – e isto dura há anos – porque Paris quer vender o nuclear que produz.

Mas a guerra da Ucrânia tornou a questão da passagem do gás natural para os países europeus mais dependentes da Rússia uma emergência europeia. Até o Parlamento Europeu aprovou há pouco tempo – com o voto contra dos deputados franceses – a construção da infraestrutura, porque ontem já era tarde. Esqueçam: esta semana o MidCat foi finalmente enterrado com pompa, circunstância e sorrisos (e também a anunciada satisfação de todos os líderes, incluindo o chanceler alemão, Olaf Scholz, grande entusiasta do MidCat) para dar lugar a um BarMar que ninguém ainda sabe ao certo o que é, que vai começar a ser estudado do zero e que só “transitoriamente” deixará passar gás natural, focando-se nas renováveis.

Citemos as palavras do primeiro-ministro português: “Este acordo permitirá complementar a interconexão entre Portugal e Espanha, entre Celorico da Beira e Zamora, e também fazer uma ligação entre Espanha e o resto da Europa, ligando Barcelona a Marselha por via marítima. É um gasoduto vocacionado para o hidrogénio verde e outros gases renováveis e que, transitoriamente, poderá ser utilizado também para o transporte de gás natural até uma certa proporção”. Ou seja: como a França continua a querer vender o seu nuclear, se Portugal quer ser um entreposto de gás natural para poder fornecer os países europeus mais dependentes do gás russo, tem que despachar-se a concluir o transshipment, que o secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Tiago Antunes, disse que poderia estar concluído nos próximos meses.

Nunca o MidCat estaria pronto a tempo do duro Inverno que espera o Leste da Europa: a infraestrutura demoraria, no mínimo dos mínimos, “oito ou nove meses”, como em Agosto a ministra espanhola Teresa Ribero dizia e certamente com excesso de optimismo. O que sabemos do novo projecto é que vai ser discutido melhor em Dezembro em Alicante.

Esta semana, no Parlamento, o PSD perguntou a António Costa se era “com os seus lindos olhos” que tencionava convencer Macron a aceitar o MidCat. Costa respondeu: “A minha confiança não é nos meus lindos olhos, mas no princípio da razão. O mercado único [de energia] gera vantagens para todos.”

A verdade é que não haverá gasoduto em Sines a exportar gás natural americano à tripa-forra para a Europa Central, como Olaf Scholz defendeu ainda não há muito tempo e o Governo português desejava. Haverá um “corredor verde” que ainda não sabemos muito bem o que é.

Jorge Moreira da Silva, antigo ministro do Ambiente do Governo Passos Coelho e candidato derrotado à liderança do PSD, escreveu nas redes sociais que o acordo alcançado é “um embaraço para Portugal e Espanha”: “Como não há memória apresenta-se como vitória histórica aquilo que é um embaraço”. E junta o comunicado da cimeira de Madrid de 2015, em que os mesmos países, com outros governantes, se comprometeram a pôr a funcionar as interconexões necessárias com vista ao mercado único de energia, “que constitui uma dimensão fundamental para construir a União Energética Europeia”.

Mas a história das cimeiras europeias é feita disto, de vitórias históricas ou de decisões em que todos ganham e todos perdem ao mesmo tempo, ninguém perde para ninguém ganhar e saem sempre abraçados. É da natureza da coisa.

Tenha um óptimo fim-de-semana.


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A temível marxista Ursula von der Leyen e o PS dividido como nunca

(Ana Sá Lopes, in Público, 11/09/2022)

César tem razão quando adverte para o “sinal político”. Nos fóruns europeus já se discute como a crise suscitada pela guerra da Ucrânia pode fazer ressurgir os populismos na Europa e a dar uma inesperada meia-vitória a Putin.


O PS raramente se divide em público: houve há uns tempos a questão das touradas e as eleições presidenciais, com alguns a defenderem o apoio a Ana Gomes (Pedro Nuno Santos, Francisco Assis) e outro grupo, maioritário, a defender o apoio a Marcelo Rebelo de Sousa – onde se incluía o actual Presidente da Assembleia da República Augusto Santos Silva.

Mas, habitualmente, a linha da espécie de Comité Central socialista que começa e acaba em António Costa é seguida sem ondas. As excepções costumam ser o deputado Sérgio Sousa Pinto, a antiga candidata presidencial Ana Gomes e o presidente do Conselho Económico e Social Francisco Assis. Era assim no cavaquismo: quando queríamos ouvir qualquer opinião dissonante de Cavaco Silva himself íamos falar com Álvaro Barreto ou Ângelo Correia.

Agora, estamos num novo patamar. A veemência com que o presidente do PS, Carlos César (que nunca foi um farol da esquerda do partido e sempre foi apoiante de Jaime Gama, da ala direita) defendeu a criação da taxa sobre lucros extraordinários que o Governo rejeita mostra que o partido está dividido ao mais alto nível.

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Carlos César já tinha defendido a taxa sobre lucros extraordinários numa publicação no Facebook no meio de Agosto. Agora fê-lo num lugar mais solene: a Academia do PS, que marca a rentrée do partido. No mesmo dia – a última quarta-feira – a outrora ministra da Defesa de Angela Merkel, militante da CDU alemã, do Partido Popular Europeu (a direita europeia) veio defender exactamente o mesmo. “As companhias petrolíferas e de gás também estão a arrecadar lucros maciços, pelo que vamos propor que paguem uma contribuição solidária para ajudar a enfrentar esta crise”, disse Ursula Von der Leyen.

Subitamente, a líder da Comissão Europeia transformou-se numa perigosa marxista para o Governo socialista português que resiste até ao limite a taxar os lucros extraordinários. O ministro das Finanças e o primeiro-ministro não estão impressionados com a presidente da Comissão Europeia nem com o presidente do PS. As palavras de Carlos César esta semana foram duras: “Temos de convocar a responsabilidade social, a contribuição e a ajuda das empresas que têm beneficiado com este processo inflacionário. Não é justo que fora desse contexto possam existir empresas que lucram fabulosamente com a desgraça e a insatisfação dos outros”. César enfatizou “não só a arrecadação correspondente, mas o sinal político” de uma medida destas.

Fernando Medina respondeu, tal como já antes tinha feito António Costa, que já havia taxas a mais. “No sector energético já existe um imposto especial”, disse Medina. O eurodeputado socialista Pedro Marques veio ontem reforçar o apelo à taxa sobre os lucros extraordinários.

O Governo está preocupado com as “contas certas”, um slogan que lhe permitiu a consolidação no poder por oposição àquilo que a direita chamava o “despesismo” de José Sócrates (ignorando que foi a própria Comissão Europeia que consensualizou que o “despesismo”, ou seja, o investimento público, como primeira resposta à crise financeira de 2008 – e depois virou o bico ao prego).

Agora, César tem razão quando adverte para o “sinal político”. Nos fóruns europeus já se discute como a crise suscitada pela guerra da Ucrânia pode fazer ressurgir os populismos na Europa e a dar uma inesperada meia vitória a Putin, mesmo que venha a perder – como os sinais de ontem apontam – a guerra da Ucrânia. O governo da troika PSD/CDS fez a direita perder os votos dos pensionistas e dos funcionários públicos. Agora, começam a ser criadas condições para a situação se inverter.

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