Costa: medíocre, desleixado e perfeito

(Por Valupi, in Aspirina B, 13/03/2021)

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António Costa não escolheu ser primeiro-ministro em pandemia, e se pudesse alterar o passado essa surgiria como uma experiência que iria manter fora das suas memórias. Não por causa do eventual desaire eleitoral nas próximas legislativas que os adversários e inimigos se babam a dar como certo em consequência da crise económica já presente e em agravamento imparável, antes por ser um dos mais ingratos papéis aquele que um primeiro-ministro tem de assumir neste tipo de crise de saúde pública – o dele e o de todos os colegas no Executivo, especialmente o da ministra da Saúde (cujo protagonismo estóico e heróico deve ser repartido com Graça Freitas que não pertence ao Governo). Aliás, o papel destas pessoas é muito mais difícil e penoso do que a semântica de “ingrato” comporta, elas estão a passar por uma vivência traumática em tudo equivalente a ficarem retidas num cenário de guerra.

António Costa também não imaginou ao longo da sua vida, até chegar às eleições de 2015 como secretário-geral do PS, que viria a ser o co-autor (mas primeiro subscritor) de uma revolução no sistema partidário português ao conseguir destruir o bloqueio à esquerda que vinha da práxis e herança de Cunhal e que se estendia a Louçã. Concorreram para tal variadas e desvairadas circunstâncias, como sempre no caldo aleatório dos acontecimentos, embora a menor das quais não terá sido a consequência trágica dos idos de Março de 2011. Foi dele, contudo, o mérito de ter aproveitado, para criar um melhor futuro para todos em Portugal, as oportunidades desse presente imprevisto que levaram ao primeiro Governo formado sem o partido com mais deputados – oportunidades que continuam a revelar-se, infelizmente, tão insólitas que parecem irrepetíveis dado o sectarismo endógeno no PCP (menos, graças a Jerónimo e aos ventos da História) e no BE (muito mais, por causa de todos lá dentro e à sua volta).

António Costa é primeiro-ministro e secretário-geral do partido mais votado numa altura em que a direita portuguesa há muito que bateu no fundo e só agora começa a suspeitar que está na altura de parar de escavar. O contraste entre a qualidade política dos quadros do PSD, CDS e IL com os do PS, PCP e Bloco é tão alto que nem dá vontade de gozar. E se enfiarmos o Chega no retrato, ao pasmo junta-se o nojo. Esta diferença de talento nos recursos humanos em cada lado do espectro não é de agora, pois há três décadas que os filhos-família, a elite da oligarquia financeira-económica, faz a sua vida fora de Portugal ou com visceral repulsa pela existência pobretana e chungosa dos políticos que queimam pestanas a legislar e sujam as mãos e a camisa no circuito da carne assada. Enquanto na esquerda o talento implica sempre uma matriz ideológica que enche motivações e agrega vontades, na direita o cinismo e o individualismo antropológicos apenas são eficientes na gestão do poder mas não conseguem ter produção intelectual por falta de alimento e vocação. O resultado é a baixa política, a chicana tribunícia, o golpismo como estímulo máximo da adrenalina e testosterona, a pulsão incontrolável para a violação do Estado de direito como prerrogativa de classe, e o erotismo do ódio político nascido do usufruto do privilégio e da ferocidade da desigualdade.

Este António Costa não tem uma Cofina que lhe persiga adversários políticos, não tem um grupo Impresa que seja arma de manipulação e arremesso ao serviço do militante nº1 do PS, não tem jornalistas altamente influentes na RTP a comportarem-se como editorialistas fanáticos para o ajudar, não tem um único órgão de comunicação que trabalhe para a sua agenda, é exactamente ao contrário.

E, no entanto, consegue comunicar com a comunidade a partir dos seus defeitos e fragilidades, gerando simpatia, empatia e confiança.

Liderando sondagens quando os carolas, meses antes, davam como fatal a sua queda. O fenómeno talvez esteja relacionado com uma genuína ausência de ambição pelo cargo, pelo topo da pirâmide, supostamente revelada in illo tempore em conversa com Vicente Jorge Silva. A sua mediocridade (que quer dizer normalidade, que suscita proximidade), o seu desleixo (não se importando de ser visto como friamente pragmático ou até cobarde no trato de questões de substância idealista) acabam, nesta lógica, por compor um líder perfeito para o Portugal que somos. O País que olha para a sua direita, olha para a sua esquerda, e só encontra projectos de tiranetes e ante-projectos de fantasistas.


A política Nem-Nem

(António Guerreiro, in Público, 13/03/2021)

António Guerreiro
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Numa entrevista ao PÚBLICO, publicada no dia 4 de Março, António Costa teve o seu momento Nem-Nem amplamente citado e comentado. Foi quando disse: “Nem André Ventura nem Mamadou Ba representam aquilo que é o sentimento da generalidade do país”. O Nem-Nem é, aqui, a marca linguística da ponderação. “Ponderar”, do latim ponderare, significa “pesar”. É o que faz o nosso primeiro-ministro, numa operação de retórica balanceada, isto é, ponderada: coloca pesos e contra-pesos nos dois pratos e, com a exactidão do fiel da balança, arbitra sobre o que ele entende ser o maléfico equilíbrio dos extremos. Em nome do “sentimento da generalidade do país”, procede a uma dupla exclusão. É esse o gesto justo, isto é, ponderado, de um grande equilibrista Nem-Nem.

O seu a seu dono: devo esta categoria a Roland Barthes, que numa das “mitologias”, define uma crítica “Ni-Ni” como uma “doutrina” que encerra sempre um juízo moral e revela um “traço pequeno-burguês”. Escusado é dizer que tal designação, “pequeno-burguês”, já só a encontramos no baú das velharias. Sempre que a desenterramos, enchemo-nos de pó, mas ao mesmo tempo experimentamos uma satisfação que deve ser semelhante ao espanto dos arqueólogos.

Em vez de “pequeno-burguês”, que evoca ideias e figuras que já não fazem parte do mundo em que vivemos, por muito que gostássemos de restaurar ao menos o traço semântico do tédio que lhe estava associado, podemos talvez dizer “homem médio”. Sai Roland Barthes, entra Pasolini. Só muito parcialmente, porque não é exactamente o homem médio execrado por Pasolini que podemos reconhecer no Nem-Nem de António Costa. Colocando-se no centro de gravidade da nação, o primeiro-ministro sentiu-se no poder de resumir todas as forças vivas do corpo nacional (“o sentimento da generalidade do país”), tal como o centro de gravidade é capaz de concentrar num ponto todos os pesos diferentes. Este homem de pesos e medidas que indicam o grande equilíbrio Nem-Nem não é uma figura da mitologia pequeno-burguesa (demasiado anacrónica), mas também seria exagerado vê-lo como um agente do apocalipse, à maneira daquelas visões tremendas que Pasolini tinha da sua época e do papel central que nela desempenhava o “homem médio”. Não, se quisermos perceber o homem médio de feição costiana, o homem que, medindo o peso de uma embaraçosa dicotomia opta pela moral do terceiro e diz que aí reside o centro de gravidade do país, devemos remontar a uma teoria do homem médio, tal como ela foi formulada por um matemático, especialista de estatística, astrónomo e sociólogo, o belga Lambert Adolphe Quételet (1796-1784; Quételet ficaria fora do meu alcance, e não pretendo exibir uma erudição que não tenho, se não o tivesse encontrado referido no livro de um matemático e ensaísta francês, Vivre et penser comme des porcs, que tinha horror à mediania e à conformidade, chamado Gilles Châtelet). Para Quételet, homem da estatística e não das balanças, há uma excelência da média enquanto tal, seja ela da ordem do Bom ou do Belo. Na formulação de António Costa, a média diz-se de outra maneira; é o “sentimento geral do país”.

O pequeno-burguês entediante e modesto de Roland Barthes é um estereótipo de certas representações políticas e sociológicas de uma época que já não é a nossa; e o homem médio cretino e responsável pelo fim do mundo (ou, pelo menos, do fim de um mundo) de Pasolini também já não corresponde ao imaginário actual dos fins. Por isso, temos de ver no homem médio de Costa, um ideal implícito no seu expediente retórico do Nem-Nem, uma outra espécie de homem médio, muito mais próximo da concepção estatística de um “sentimento” nacional.

O homem médio em que Costa se revê e que lhe inspira a operação retórica do Nem-Nem fornece um ponto de apoio para buscar o consenso conservador, para eliminar qualquer posição crítica radical (e é preciso acrescentar que radical não é mesmo que extremo, apesar de encontrarmos hoje, em muitos discursos, essa equivalência), para deixar que o pragmatismo siga o seu curso, sem obstáculos. E assim nos vamos todos entediando, com o Nem-Nem de políticos fatigados e ponderosos, realizando a grande missão de equilibristas.


Costa determinou o segundo mandato de Marcelo, oferecendo-lhe todo o poder sobre o Governo

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 10/03/2021)

Daniel Oliveira

A maior condicionante ao comportamento de Marcelo numa crise incerta é a desproporção de força entre o Governo e o Presidente. E ela resulta de escolhas de Costa. Não quis uma solução de maioria e apoiou informalmente Marcelo. O Presidente tem 60% dos votos para redefinir os seus poderes. Já começou. Fá-lo em proteção de um governo frágil, fá-lo-á para limitar todas as suas opções. As opções táticas de Costa definiram o segundo mandato de Marcelo. O seu protetor poderá vir a ser o seu carrasco.


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Marcelo Rebelo de Sousa tomou posse para o seu segundo mandato. Definiu as suas prioridades. Mas vivemos um tempo de tal incerteza que as suas prioridades não podem ser determinadas por ele. Não sabemos quanto tempo durará esta pandemia e até onde nos levará a crise sanitária. Não sabemos, por isso mesmo, a profundidade do impacto social, económico e até político da crise. Nem sequer sabemos que Europa sairá desta pandemia. Serão as prioridades que determinarão Marcelo, não o oposto.

Há, no entanto, condições prévias que já definem e continuarão a definir o comportamento do Presidente da República. E foram quase todas determinadas por decisões táticas de António Costa. A maior condicionante política ao comportamento de Marcelo numa crise de dimensões e duração incerta é a desproporção de força entre o Governo e o Presidente.

Quando António Costa optou por não ter uma solução de maioria parlamentar, não negociando com o Bloco de Esquerda essa possibilidade (bem aliviado deve estar o BE, neste momento), com a desculpa esfarrapada de que essa solução teria de incluir um PCP que recusava acordos escritos, pensou que teria quatro anos de prosperidade económica e folga orçamental. Que poderia gerir alianças de geometria variável e chantagens em cada crise. Se há coisa que um político deve saber é que a previsão é uma arte estranha ao seu ofício. A importância de estar prevenido para o pior é a única certeza que pode ter. Hoje, no meio de uma crise pandémica, Costa depende da continuação da crise da direita para sobreviver.

Estando numa situação de fragilidade política, António Costa decidiu apoiar informalmente a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. Mário Soares foi reeleito com 70% no mandado de um governo de maioria absoluta do PSD. Por isso, o Cavaco deu-se ao luxo de apoiar a sua reeleição. Soares nada podia fazer, a não ser dar alento, como deu, a uma esquerda há seis anos na oposição. Costa deu-se ao luxo de apoiar informalmente a reeleição de um Presidente de direita quando governa em minoria.

Julgava estar, com este apoio, a comprar um escudo. A não ser que seja o único político português que acredita na lealdade de Marcelo (Marcelo não acredita na de Costa, seguramente), saberá que esse escudo durará enquanto a direita não se reorganizar e enquanto interessar ao Presidente manter Costa em São Bento. E, mesmo até lá, será um escudo pesado. É evidente que Marcelo venceria as eleições sem o apoio de Costa. Até é provável que o vencesse à primeira, com menos votos da esquerda e mais da direita. Mas dificilmente teria a votação que teve. O que quer dizer que dificilmente teria a força que tem.

Quer a larguíssima votação que deu ao Presidente um poder reforçado, quer a fragilidade da solução governativa resultam de decisões de Costa. E têm origem no mesmo problema: um olhar que é sempre de curto ou médio prazo.

Enquanto a direita não conseguir arrumar a sua casa, não é provável que Marcelo tenha choques com o Governo. E não é provável, porque não precisa de o fazer. Perante uma crise pandémica, social e económica, com um governo minoritário e que tenderá a desgastar-se depois da fase pandémica, o Presidente tem 60% dos votos para redefinir os seus poderes. E já o começou a fazer.

Quando Marcelo anuncia datas e critérios para o desconfinamento, que são poderes executivos, até pode estar a ajudar o Governo, preparando o caminho para uma solução faseada e muito cautelosa. Mas está a alargar a sua influência, como não acontecia desde o tempo de Ramalho Eanes, quando eram outros os poderes. Fá-lo em proteção de um governo frágil, fá-lo-á para limitar todas as escolhas desse governo frágil, quando isso for do seu interesse. Quando Costa fez todas as opções táticas que o tornaram totalmente dependente do Presidente da República, definiu o que será o segundo mandato de Marcelo. O seu protetor poderá vir a ser o seu carrasco.

Nota: não tenho qualquer razão para acreditar na desculpa sem conteúdo dada pelo gabinete de Cavaco Silva para não ter ido à sessão de cumprimentos do seu sucessor. Foi mais uma de muitas demonstrações de desrespeito e deselegância institucional, comuns no ex-Presidente. Mas não deixei de me divertir com a afirmação, dias antes, de que vivemos numa “democracia amordaçada”. Para quem se lembra como as cargas policiais eram a forma banal de lidar com manifestações, fosse de polícias, de estudantes ou de utentes da ponte sobre Tejo, ouvir isto de Cavaco Silva é hilariante.