Guerra cognitiva e controle de informação

(Por Eduardo Lucas in blog osbarbarosnet.blogspot.com, 20/10/2024)


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“O poder gera realidade. E enquanto você estuda essa realidade… nós criamos outra”. Esta ideia resume a essência da guerra cognitiva: aqueles que controlam a narrativa controlam a própria realidade.

A crise ucraniana, o conflito no Extremo Oriente e o genocídio palestiniano anunciam, para o mundo ocidental “baseado em regras”, o prólogo de uma crise social de proporções épicas. O capitalismo neoliberal enfrenta uma das suas maiores crises existenciais. O mundo transita de uma ordem unipolar para uma ordem multipolar, evidenciando o declínio do império norte-americano.

Neste contexto, as elites dominantes e a burguesia transnacional estão a implementar formas de controlo social sem precedentes. Os grandes conglomerados financeiros, confrontados com a ameaça de perder a sua hegemonia, optaram por restringir as liberdades públicas. Por outro lado, promovem movimentos de carácter messiânico, o revisionismo histórico, passando por debates de falsa identidade ou ambientalismo reacionário. Para garantir o uso do poder, financiam partidos e movimentos de extrema-direita que por vezes se apresentam sob a máscara de “europeístas” e, noutras ocasiões, como populistas de direita ou de esquerda, dependendo das circunstâncias. Estas forças políticas cuidadosamente moldadas permitem que os grupos financeiros mantenham a sua influência política, ao mesmo tempo que neutralizam a resistência popular. Neste contexto de restrição de liberdades e manipulação política, as tecnologias de vigilância e censura em massa assumem um papel central.

Em agosto de 2024, o Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional (ODNI) dos EUA apresentou um documento que, camuflado como apenas mais um procedimento burocrático, representa na verdade uma mudança profunda na forma como a vigilância é realizada em todo o mundo. Sob o nome “Intelligence Community Data Co-op” (ICDC), o projeto propõe a criação de uma plataforma centralizada para coletar e analisar enormes quantidades de informações de qualquer indivíduo em todo o mundo. A imagem do irmão mais velho de Orwell dá um enorme salto em frente. Este sistema coleta dados de fontes comerciais e públicas: desde histórico de compras e geolocalização até atividades nas redes sociais e registros de saúde.

O preocupante é que o projeto permite que as agências de inteligência dos EUA “evitem restrições legais” comprando dados de empresas privadas, sem ter que passar por processos judiciais que poderiam atrasar as investigações. Esta nova arquitectura de vigilância faz do ICDC um pilar central da Guerra Cognitiva, pois oferece uma vantagem estratégica às agências de inteligência, permitindo mesmo a manipulação preventiva do comportamento através do controlo sobre ideias dominantes, tendências de voto… Descobertas na psicologia social sobre identidades partilhadas abrem novas caminhos para a projeção de líderes emocionais. A chamada psicologia das emoções aliada aos bancos de dados amplia o horizonte para a criação de lideranças sociais formatadas pelo próprio sistema.

Neste contexto, polvos tecnológicos como a Apple e a Microsoft têm sido atores-chave na facilitação da vigilância em massa[1] e, a partir dela, na criação ou recriação de futuros líderes sociais. Soma-se a isso o fato de a Microsoft coletar, há anos, grandes quantidades de informações dos usuários do Windows 10 e 11, como o texto que digitam em seus teclados, sua localização geográfica e até imagens capturadas por câmeras web, sem que os usuários estejam cientes disso. Estas ações geraram uma desconfiança crescente em relação às grandes empresas tecnológicas ocidentais.

Os ataques terroristas do regime israelita no Líbano em 2024 revelaram a extrema vulnerabilidade das infra-estruturas tecnológicas globais e como estas podem rapidamente tornar-se armas de guerra. As bombas em smartphones, pagers e instalações atacadas revelaram que, apesar dos avanços na segurança informática, as infra-estruturas tecnológicas globais são altamente susceptíveis a ataques cibernéticos ou a actos terroristas coordenados.

Este clima de incerteza e vulnerabilidade favoreceu paradoxalmente a ascensão da China como uma alternativa tecnológica mais fiável, especialmente nos mercados emergentes. A ascensão de empresas chinesas como a Huawei e a Xiaomi, as principais beneficiárias, deve-se em parte ao medo gerado pela fragilidade das infra-estruturas tecnológicas ocidentais. Os ataques no Líbano e os atuais problemas de cibersegurança no Ocidente aceleraram esta mudança de perceção, levando a um aumento significativo nas vendas de produtos chineses, especialmente nas regiões em desenvolvimento. Pequim aproveitará estas circunstâncias para consolidar a sua posição como líder em tecnologia segura, fora da interferência ocidental.

Guerra cognitiva: definição e estratégias

A guerra cognitiva é um conceito desenvolvido pela NATO para descrever a manipulação da percepção e do pensamento colectivos, a fim de influenciar o comportamento humano. Ao contrário da guerra convencional, onde os objectivos são territórios ou recursos, a guerra cognitiva procura dominar a mente, moldar opiniões e controlar narrativas. Este tipo de controle não se limita apenas a censurar pontos de vista opostos, mas também busca antecipar, evitando que ideias opostas à narrativa oficial se formem na opinião pública. Para isso, é essencial a censura sistemática de meios de comunicação como Telegram, RT, Sputnik e muitos outros no Ocidente. Na sequência do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, as plataformas tecnológicas ocidentais e os governos bloquearam o acesso a estes meios de comunicação para impedir a disseminação das suas narrativas ao público na Europa e na América.

Estas medidas, em muitos casos, não resultam de decisões judiciais, mas sim de ordens administrativas que procuram limitar o acesso a pontos de vista divergentes e controlar o fluxo de informações. Nesse sentido, é fundamental reconhecer a célebre frase atribuída a um assessor do ex-presidente George W. Bush: “O poder gera a realidade. E enquanto você estuda essa realidade… nós criamos outra.”

Esta ideia resume a essência da guerra cognitiva: aqueles que controlam a narrativa controlam a própria realidade. O poder reside não apenas em influenciar os factos, mas em moldar a percepção desses factos antes que outros possam questioná-los. Na mesma linha, Michel Foucault, em sua obra “História da Sexualidade: A Vontade de Saber” (Foucault, 1976), afirmou que, em última análise, quem tem controle sobre a narrativa tem controle sobre como a realidade é percebida.

Expansão dos smartphones e uso de algoritmos preditivos

A expansão do uso de smartphones, que agora chegam até às mãos de meninos e meninas, abriu uma nova fronteira no controle da informação e na manipulação social. Ao utilizar “algoritmos preditivos”, as grandes empresas tecnológicas e as oligarquias globais podem recolher e analisar grandes quantidades de dados pessoais desde tenra idade. Isto permite definir as inclinações, tendências e comportamentos dos usuários, oferecendo uma visão precisa do futuro imediato, que pode ser manipulada e controlada de acordo com os interesses das empresas transnacionais. O acesso a dados sensíveis como as preferências dos consumidores, os padrões de interação social e o comportamento online desde muito cedo fornece às oligarquias as ferramentas necessárias para moldar as perceções e decisões das gerações futuras.

Neste contexto, os algoritmos não apenas prevêem o que uma pessoa fará, mas influenciam ativamente a forma como ela verá o mundo e tomará decisões. Esta monitorização contínua e manipulação subtil do comportamento através de tecnologias de vigilância digital fazem dos smartphones uma das ferramentas mais poderosas para garantir que as elites possam manter o seu controlo sobre a ordem social e económica para as gerações vindouras.

O comportamento da casta dominante está repleto desta ideia: muitos dos filhos das elites crescem educados em ambientes onde o acesso aos dispositivos digitais é restrito, conscientes dos perigos que estas ferramentas podem representar em termos de controlo, manipulação e vigilância. Como aponta Manfred Spitzer em seu livro Demência Digital, o uso intenso da tela pode ter efeitos devastadores no desenvolvimento cognitivo das crianças, o que explica por que as “crianças ricas” muitas vezes “não olham para as telas”, sendo afastadas do alcance delas as mesmas tecnologias que as elites promovem para a população em geral.

Rumo a uma sociedade monitorada

À medida que o controlo da informação e a vigilância em massa se expandem, figuras políticas de alto nível começaram a defender cortes nas liberdades civis em nome da “Segurança Nacional” e do combate à “desinformação”. Tanto o ex-secretário de Estado John Kerry como a ex-candidata presidencial Hillary Clinton têm sido vozes proeminentes nesta discussão, sugerindo que certos direitos, como os protegidos pela “Primeira Emenda da Constituição Americana”, devem ser revistos para se adaptarem aos tempos actuais. Em declarações recentes, John Kerry argumentou que a liberdade de expressão não deve ser um “cheque em branco” que permite aos cidadãos espalhar desinformação ou desafiar as narrativas oficiais sobre questões de segurança.

Kerry observou que, num mundo onde as “notícias falsas” e a desinformação podem desestabilizar as sociedades, é necessário “limitar certas formas de discurso” para proteger a coesão social e a estabilidade política. Na sua opinião, uma sociedade mais “monitorada e controlada” seria menos vulnerável a influências externas maliciosas. Por sua vez, Hillary Clinton tem defendido abertamente a necessidade de “combater a desinformação” e sugeriu que o governo deveria ter mais poder para regular e monitorizar o que é publicado nas redes sociais.

Clinton argumenta que embora a Primeira Emenda seja um pilar fundamental da democracia americana, a sua interpretação deve adaptar-se aos desafios do século XXI. Para Clinton, a “liberdade de imprensa” e a “liberdade de expressão” devem ser compatíveis com um sistema de “vigilância e controlo” que garanta que apenas informação “responsável” seja divulgada.

Por trás deste discurso, porém, está a influência dos “grandes grupos de poder”. A classe política, obedecendo aos interesses destas elites, abre debates sociais sobre as liberdades em abstrato, mas esconde o seu verdadeiro objetivo: a “restrição progressiva das liberdades públicas” sob o pretexto da segurança e da estabilidade social. Este processo, por enquanto, é realizado sob o manto de uma “subdemocracia”, onde os cidadãos são chamados a votar de tempos em tempos, enquanto a casta política toma decisões fora da vontade popular, concentrando o poder nas mãos de poucos. Além disso, esta restrição de liberdades é justificada pelo medo do terrorismo, pelas preocupações com as alterações climáticas, que orientam o consumo social em direcções que favorecem determinados interesses, e pelas epidemias, que alimentam a solidão social. Esse isolamento reforça o controle, pois quando os laços entre os indivíduos são rompidos, o tecido social fica enfraquecido, dificultando a resistência organizada.

Perseguição de dissidência e censura global

A guerra cognitiva não é travada apenas no mundo digital. Aqueles que tentam desafiar o controlo da informação e oferecer narrativas alternativas, sejam jornalistas, activistas ou académicos, enfrentam perseguição e censura. Exemplos recentes (para não mencionar Assange e Snowden) incluem os ataques aos escritórios de Jurgen Elsasser, editor-chefe da revista Compact na Alemanha, e a perseguição do antigo inspector de armas da ONU Scott Ritter nos EUA, ambos acusados ​​de ter ligações com a Rússia pelas suas críticas às políticas ocidentais.

Estas ações fazem parte de uma estratégia mais ampla para silenciar as vozes críticas e garantir que a narrativa dominante prevaleça sem concorrência. Em muitos casos, as acusações de desinformação ou de “interferência estrangeira” são utilizadas como pretexto para justificar a censura, quando na realidade o objectivo é suprimir quaisquer opiniões críticas que possam desafiar o status quo.

Conclusão

Em suma, o controlo da informação, os ataques terroristas no Líbano e a guerra cognitiva estão profundamente interligados. Através de programas de vigilância em massa como o ICDC e da estreita colaboração com empresas tecnológicas, as agências de inteligência procuram dominar o fluxo de informação global. Contudo, este controlo não se limita apenas à recolha de dados; Vai mais longe, no sentido da manipulação direta do pensamento e das percepções coletivas. A vulnerabilidade dos sistemas informáticos, exposta pelos ataques no Líbano, mostra como as infra-estruturas tecnológicas globais são susceptíveis de exploração, facilitando a guerra cognitiva.

Ao mesmo tempo, a China aproveitou as fraquezas dos sistemas ocidentais para se estabelecer como o novo vencedor na competição tecnológica global, aumentando a sua influência e o seu poder brando. A guerra cognitiva representa um desafio sem precedentes para as sociedades modernas.

Ao integrar tecnologia, espionagem em massa e manipulação de informação, as elites globais procuram não só controlar o que sabemos, mas também a forma como pensamos. Como cidadãos, é crucial estarmos conscientes destas estratégias e defendermos ativamente os direitos fundamentais que estão em risco nesta nova era de controlo e vigilância.

Referências:

1. Ameaças estrangeiras às eleições federais dos EUA em 2020, Avril Haines, 10 de março de 2021.

2. Mídia financiada pelo Kremlin: RT e o papel do Sputnik no ecossistema de desinformação e propaganda da Rússia, Centro de Engajamento Global, janeiro de 2022.

3. “Campanha da OTAN contra a liberdade de expressão”, por Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 5 de dezembro de 2016.

4. “O Ocidente renunciou à liberdade de expressão?”, por Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 8 de novembro de 2022.

5. Guerra Cognitiva, François du Cluzel, Comando Aliado para a Transformação da NATO, Novembro de 2020.

6. “O poder gera realidade.” Atribuído a Karl Rove, conselheiro de George W. Bush【46†fonte】

7. Michel Foucault, História da sexualidade: A vontade de saber, Madrid: Siglo XXI, 1976.

8. Manfred Spitzer, Demência Digital , Barcelona: Edições B, 2012.

Nota: [1] Em 2023, o Serviço Federal de Segurança (FSB) da Rússia relatou que os dispositivos Apple foram infiltrados por software malicioso que permitiu que a inteligência dos EUA espionasse diplomatas e cidadãos estrangeiros na Rússia

Fonte aqui.


A ditosa pátria (farsa em três actos e uma cena triste)

(Fernando Campos, in O Sitio dos Desenhos, 10/07/2024)


Um tal estado de civilização faz gemer a moral – Stendhal


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Um golpe palaciano derruba um primeiro-ministro eleito com maioria absoluta. Logo a seguir é-lhe oferecida de bandeja uma sinecura no estrangeiro. Ninguém se espanta nem melindra: nem os que o haviam sufragado há menos de dois anos e com o mesmo entusiasmo aclamam agora o seu adversário, nem o próprio, contentinho e convencido, o desinfeliz, de que terá caído para cima.

O golpe, um pouco subtil parágrafo final num comunicado, foi desferido a partir do palácio Palmela, pla mão de uma abadessa pesada e ríspida que, em seis anos de actividade nunca foi questionada por nenhum orgão de comunicação social – o que, se diz algo da inefável senhora procuradora, diz tudo da comunicação social portuguesa, corroborando aliás a constatação do alarve Cavaco de que “temos uma imprensa muito suave”. Quando finalmente se decide magnânima, a conceder uma entrevista, a matrona, imperturbada, dita a sentença do fundo da sua altivez inapelável: tudo está bem assim e não podia ser de outra maneira.

Entretanto, nas redes sociais, o povo baixo (como se lhe refere Ana Gomes, outra matrona inflexível, mas do entretenimentoo povo baixo, dizia eu, comove-se, arrepiadinho de fervor patriótico, com o capitão de equipa de futebol, um marmanjo quarentão e milionário que chora baba e ranho por tudo, por nada e porque falhou um penalty.

Em fundo, ouve-se um coro frouxo a marchar contra os canhões enquanto a bandeira verde-rubra esvoaça os seus simbolozinhos medievais.

Fonte aqui

Não foi para isto que extinguimos a PIDE

(Daniel Oliveira, in Expresso, 19/06/2024)

Daniel Oliveira

A conversa entre Costa e Galamba sobre o despedimento da CEO da TAP nada tem a ver com qualquer processo em investigação. Há regimes em que o Estado pode escutar todos os atores políticos e usar as suas conversas para os destruir: a RDA tinha a Stasi. E há democracias em que os cidadãos perderam o apego à sua liberdade. É tragicamente irónico que magistrados e jornalistas estejam na primeira linha contra as liberdades e garantias. Não foi para isto que fizemos o 25 de Abril.


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Não podia estar mais à vontade no tema. Desde o primeiro minuto que considero que o despedimento de Christine Ourmières-Widener, uma CEO com resultados, teve como único objetivo resolver problemas políticos a António Costa, na sua demanda contra o seu putativo sucessor e de se livrar de todos os problemas, mesmo com prejuízo para o país. A ex-CEO tem tudo para vencer o processo contra o Estado português.

Não preciso, ninguém precisa, de qualquer escuta para escrever isto. Nem quero tê-las ao meu dispor. Por uma questão de proporcionalidade: o julgamento político de decisões políticas não recorre a meios extremos, garantidos pelo Estado. Isso é o que fazem as ditaduras contra os seus opositores. E, no processo de decadência das nossas democracias, em que ao jornalismo totalmente comercializado participa ativamente, está cada vez mais difícil explicar o que era óbvio para todos os democratas e amantes da liberdade.

Os limites para a utilização de um meio extremo de intrusão do Estado na vida privada dos cidadãos estão claros na lei. Eles impediriam as escutas por arrastão que o Ministério Público organizou contra João Galamba – hoje fica clara a função que lhe pretendiam dar. A justiça não escuta para descobrir crimes, escuta para recolher prova de crimes que sabe terem existido. Mesmo se ignorarmos a ilegitimidade (para não dizer ilegalidade, independentemente da autorização de um juiz) desta forma de investigar, o problema começa quando o próprio Ministério Público decide transcrever a conversa entre o primeiro-ministro e o ministro das Infraestruturas, mantendo-a nas suas mãos. A transcrição estava enquadrada em que processo? Neste caso, não há como atirar responsabilidades para outros atores judiciais: a própria transcrição daquela conversa é abusiva.

A resposta foi dada na segunda-feira, com a divulgação mediática da conversa entre Costa e Galamba, a propósito do despedimento de Ourmières-Widener. A libertação destas transcrições no momento em que o nome de António Costa está a ser negociado para a presidência do Conselho Europeu e o seu envolvimento no processo Influencer é uma pedra no sapato deixada por mais um momento de irresponsabilidade do Ministério Público indicia gestão política da violação do segredo de justiça.

Também já não tenho muita paciência para o discurso de jornalistas que acham que, tendo uma notícia nas mãos, o seu único dever é divulgá-la. Não é assim com nenhuma atividade, também não é com o jornalismo. Todas têm limites éticos e deontológicos. A utilização de escutas judiciais para revelar informações políticas sem qualquer relação com os processos que supostamente estariam a ser investigados recorre a uma forma de recolha de informação que atenta contra os mais básicos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. E um jornalismo que desrespeita a liberdade não pode cumprir a sua função cívica.

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A utilização destes meios ilegítimos nada tem a ver com jornalismo. As escutas foram usadas por um canal de informação por cabo no dia em que um concorrente nascia. É pura guerra comercial. Aquilo a que assistimos é à substituição do saudável pluralismo pela feroz concorrência comercial. Nela, os limites são apenas os da lei e como vemos, nem esses são cumpridos. Para o jornalismo os limites são maiores do que a lei porque a sua função é, antes de tudo, social.

Só Estados totalitários negam aos cidadãos direito a um núcleo de privacidade. Isto inclui os políticos e até inclui decisões políticas. Sem essa privacidade, a política é, aliás, impossível de se fazer. Estão os magistrados do Ministério Público disponíveis para ver todas as suas conversas profissionais na imprensa? Estão os jornalistas disponíveis para ver publicadas as suas conversas profissionais, incluindo com fontes? Por mim, não quero temer que um artigo como este ou outros que escrevi venha a resultar na divulgação públicas de conversas telefónicas privadas para me prejudicar. Não quero viver num país onde cidadãos cumpridores da lei falam através de meios de comunicação encriptados, temendo que agentes do Estado divulguem as suas conversas.

Há regimes em que o Estado pode escutar todos os atores políticos e usar as suas conversas privadas para os destruir politicamente: a RDA tinha Stasi. E há democracias em que os cidadãos perderam o apego à sua liberdade e aceitam viver num país onde o que dizem em privado pode ser usado contra si, mesmo que não estejam a cometer um crime.

É tragicamente irónico que magistrados e jornalistas estejam na primeira linha contra as liberdades e garantias dos cidadãos que deviam defender. Não foi para isto que fizemos o 25 de abril e extinguimos a PIDE.