Quem controla a informação em Portugal

(Ricardo Graça, Advogado, in Facebook, 26/10/2026, Revisão da Estátua.)


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Todos os dias, milhões de portugueses ligam a televisão, abrem o telemóvel ou folheiam um jornal a pensar que estão a ser informados. Mas não estão! Estão a receber uma versão da realidade escolhida por um punhado de pessoas que a maioria nunca ouviu falar.

Em Portugal, quase toda a informação que chega ao cidadão passa por três ou quatro grupos privados. A Impresa, de Francisco Pinto Balsemão, detém a SIC e o Expresso. A Media Capital, controlada pelo empresário Mário Ferreira, dono da Douro Azul, detém a TVI e a CNN Portugal. A Medialivre, antigo grupo Cofina, detém o Correio da Manhã, a CMTV, o Jornal de Negócios e a Record. A Global Media, detém o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias e a TSF. E depois há a RTP, que é pública, financiada com dinheiro dos contribuintes, e que muda de direcção cada vez que muda o Governo.

E a concentração não pára. Pelo contrário, acelera. A Cofina tentou comprar a Media Capital. A família Berlusconi negociou a compra da Impresa. Os grupos compram-se, fundem-se, absorvem-se. Cada fusão significa menos vozes. Cada aquisição significa menos pluralidade. E cada despedimento numa redacção significa menos olhos a vigiar quem precisa de ser vigiado.

Toda a informação que o país consome é filtrada por meia dúzia de grupos, controlados por meia dúzia de pessoas, com meia dúzia de interesses. Não é teoria. É facto. Está publicado e basta uma simples pesquisa na internet.

Agora pergunte-se: quando um empresário que tem interesses na construção, no turismo, nos navios de cruzeiro e nos negócios internacionais é dono de uma televisão, acha que essa televisão vai noticiar livremente contra os interesses dele? Quando o dono de um jornal tem dívidas a bancos, acha que esse jornal vai investigar esses bancos? Quando um grupo de Comunicação Social depende de publicidade institucional do Estado, acha que vai fazer jornalismo a sério sobre a incompetência do Governo? A resposta é óbvia. E toda a gente a sabe. Mas ninguém a diz em horário nobre. Mas o problema não é só quem é dono. É como funciona a máquina.

A maior parte das notícias que aparecem nos jornais e nas televisões não nascem de investigação jornalística. Nascem de comunicados de imprensa, de notas de assessores de comunicação, de agências de relações públicas que fabricam histórias e as servem prontas à redacção. O jornalista recebe, edita e publica. Às vezes nem edita. E o leitor consome aquilo como se fosse jornalismo quando, na verdade, é publicidade disfarçada.

Há empresas inteiras dedicadas a isto. Chamam-lhes agências de comunicação. O trabalho delas é garantir que certas notícias aparecem e que outras desaparecem. Que certos nomes são protegidos e que outros são destruídos. Que certos problemas nunca chegam ao público e que outros são amplificados até à exaustão. Tudo isto é feito de forma profissional, organizada e bem paga. E o cidadão comum nunca sabe que está a ser manipulado.

E já agora: repare nas notícias que nunca aparecem. Já viu um telejornal investigar a fundo os contratos entre o Estado e as grandes construtoras? Já viu uma reportagem séria sobre os lucros da banca enquanto as famílias pagam juros que não conseguem suportar? Já viu uma peça sobre os benefícios fiscais que as multinacionais recebem em Portugal enquanto o cidadão comum paga IRS até ao último cêntimo? Estas notícias existem, estes factos são públicos. Porque as empresas que beneficiam desses contratos, desses lucros e desses benefícios são as mesmas que compram publicidade nos jornais e nas televisões. E ninguém morde a mão que o alimenta.

Depois há a propaganda do medo.

Ligue a televisão num dia qualquer. O que encontra? Assaltos, violência, crises, catástrofes, doenças, ameaças. Tudo urgente. Tudo dramático. Tudo desenhado para manter as pessoas com medo, coladas ao ecrã, a consumir publicidade entre dois blocos de pânico.

O medo vende. O medo gera audiências. O medo faz com que as pessoas não pensem, não questionem, não se revoltem. Uma população com medo é uma população obediente. E uma população obediente é fácil de governar.

Já reparou que as boas notícias quase nunca passam? Que as soluções que funcionam noutros países nunca são noticiadas? Que os movimentos de cidadãos que se organizam e resolvem problemas nunca têm cobertura? Não é por acaso. O cidadão informado e confiante não serve os interesses de quem precisa que ele tenha medo.

E quando alguém levanta estas questões, sabe o que acontece? É chamado de “teórico da conspiração”. Como se questionar quem controla a informação fosse loucura. Como se perguntar a quem serve uma notícia fosse delírio. Como se exigir transparência sobre quem decide o que é notícia e o que não é fosse paranóia.

O rótulo “teoria da conspiração” é uma das ferramentas mais eficaz de censura dos nossos tempos. Não é preciso proibir ninguém de falar. Basta descredibilizar quem fala. E o sistema faz isso com uma eficiência impressionante. Quem questiona é maluco. Quem duvida é radical. Quem investiga é perigoso. E quem aceita tudo sem questionar é cidadão responsável e bem informado.

Eu não estou a dizer que existe um comité secreto que decide as notícias. Não precisa de existir. O sistema funciona sozinho. Quando os donos da Comunicação Social têm interesses económicos e políticos, quando as redacções dependem de publicidade para sobreviver, quando os jornalistas trabalham em condições precárias e sem tempo para investigar, quando as agências de comunicação fornecem notícias prontas a publicar, o resultado é sempre o mesmo: uma informação filtrada, enviesada e ao serviço de quem paga. E quem paga nunca é o cidadão.

Há outro truque que o cidadão comum não vê: o conteúdo patrocinado. Os grandes grupos de Comunicação Social vendem espaço nos seus jornais e nos seus sites a empresas que querem parecer notícia sem o ser. Chamam-lhe “branded content”, “conteúdo de marca” ou “publicidade nativa”. Na prática, é uma peça escrita para parecer jornalismo, publicada ao lado de notícias reais, com um aviso tão discreto que a maioria das pessoas não repara. O leitor lê aquilo a pensar que é informação. É publicidade. E o jornal cobra por isso.

Os próprios grupos de Comunicação Social  já têm divisões inteiras dedicadas a produzir este conteúdo. Não são as redacções. São departamentos comerciais com outro nome. Mas o produto aparece no mesmo jornal, no mesmo site, na mesma aplicação. E o cidadão, que confia no nome do jornal, consome sem questionar.

E repare nos “especialistas”. Quantas vezes ouviu os mesmos comentadores, os mesmos analistas, as mesmas caras a dizer as mesmas coisas em canais diferentes? São sempre os mesmos. Rodam entre estúdios como actores de telenovela. Estão na SIC de manhã, na TVI à tarde e na CNN à noite. Dizem o que se espera que digam. Confirmam a narrativa do dia. E criam no cidadão a ilusão de que ouviu várias opiniões quando, na verdade, ouviu a mesma três vezes com gravatas diferentes.

Falemos agora de quem faz as notícias. Dos jornalistas. A maioria dos jornalistas em Portugal trabalha em condições que ninguém aceita em 2026. Contratos precários, salários baixos, horários impossíveis e redacções cada vez mais pequenas. Um jornalista que há dez anos cobria um tema e tinha tempo para investigar, hoje cobre três temas ao mesmo tempo e tem de publicar antes do almoço para alimentar o site. Não tem tempo para confirmar, para cruzar fontes, para ir ao terreno. Tem tempo para reescrever o comunicado que lhe chegou e pôr um título que gere cliques.

Isto não é culpa dos jornalistas. É culpa de um modelo de negócio que substituiu a qualidade pela velocidade e a investigação pelo volume. Os bons jornalistas existem. Muitos deles sabem exactamente o que está mal. Mas estão presos num sistema que os obriga a produzir em quantidade o que devia ser produzido com rigor. E quando tentam investigar a sério, muitas vezes são travados. Não por censura formal. Por falta de meios, por pressão editorial, por medo de perder anunciantes. A auto censura é a forma mais eficiente de controlo: o jornalista aprende sozinho o que pode e o que não pode dizer.

E depois há a informação que já não passa sequer pelos jornais. Passa pelos algoritmos. Hoje, a maioria das pessoas não vai ao site de um jornal procurar notícias. Recebe-as no telemóvel, escolhidas por um algoritmo que não sabe o que é verdade, sabe o que gera reacção. O algoritmo não distingue jornalismo de propaganda. Não distingue factos de opinião. Não distingue informação de manipulação. Mostra-lhe o que o mantém mais tempo a olhar para o ecrã. E o que mantém as pessoas a olhar é, quase sempre, o que as assusta, o que as indigna ou o que confirma o que já acreditavam.

Há ainda outro fenómeno que merece atenção: a porta giratória entre a política e a Comunicação Social. Quantos antigos políticos, assessores e secretários de Estado passaram para direcções de comunicação de grandes empresas, para agências de lobbying ou para cargos na Comunicação Social? E quantos jornalistas foram para gabinetes ministeriais e voltaram como se nada fosse? Esta circulação cria uma rede de cumplicidades em que quem informa e quem é informado se confundem. O jornalista que amanhã quer ser assessor não vai incomodar hoje o ministro que lhe pode dar o lugar. E o antigo assessor que agora é comentador vai proteger quem o pôs onde está.

Em Portugal, temos a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, a ERC. Deveria ser uma entidade reguladora da informação livre. Mas na prática, é um organismo que emite pareceres, publica relatórios e assiste a tudo sem poder real de intervenção. Quando a concentração da propriedade dos media ameaça a pluralidade, a ERC opina. Quando um órgão de comunicação viola regras deontológicas, a ERC lamenta. Quando os interesses económicos dos donos contaminam a informação, a ERC analisa. E o cidadão continua a ser tratado como espectador de uma peça de teatro onde o guião já foi escrito.

A Constituição garante a liberdade de imprensa. Artigo 38.º. Garante que o Estado não pode censurar. A censura moderna não vem do Estado. Vem do mercado. Vem de quem é dono. Vem de quem paga. Vem de quem decide o que é notícia e o que não é.

A censura de hoje não proíbe. Ignora. Não apaga. Abafa. Não prende jornalistas. Despede-os.

O cidadão que quer ser informado em Portugal tem de fazer um esforço activo. Tem de ler várias fontes. Tem de comparar versões. Tem de procurar quem escreve e para quem. Tem de perceber que a notícia que lhe aparece no telemóvel não é um acto de serviço público, é um produto. E como todo o produto, serve quem o produz, não quem o consome.

A pergunta que fica é simples: num país onde meia dúzia de empresários controla quase toda a informação, onde as redacções vivem de publicidade e comunicados, onde o medo é modelo de negócio e onde questionar tudo isto dá direito ao rótulo de teórico da conspiração, pode dizer-se que existe liberdade de informação?

A resposta, essa, nunca vai passar no telejornal. Tal como as verdades que não servem os interesses de quem o paga.

A Europa

(Joseph Praetorius, in Facebook, 16/03/2025, Revisão da Estátua)

Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Está cortado o acesso à informação sobre a China – ninguém tem a menor ideia do que ali ocorre; é necessário ir lá para se perceber alguma coisa – está também cortada a informação sobre o Irão, como a informação sobre a Palestina, está cortada a informação sobre a Rússia…

Mesmo na Guerra Fria a censura não existia na Europa Ocidental. Os jornais soviéticos, por exemplo, estavam nas bancas dos países europeus (talvez não nas portuguesas ou espanholas, mas da França em diante, seguramente).

Esta escumalha saída das penumbras do funcionalismo financeiro, da mediocridade do funcionalismo dos partidos, porventura, mesmo, da sordidez dos funcionalismos das seitas papistas, como a Opus Dei e outras, infetou e neutralizou a vitalidade intelectual das universidades, neutralizou a vitalidade da vida editorial e, globalmente, matou a liberdade de expressão e chacinou a liberdade de imprensa (que em Portugal nunca foram completamente concretizadas, de resto, e agora não o serão facilmente)

Esta escumalha mudou a face da Europa, tornando-a irreconhecível.

É já inútil ir a Paris, a Madrid, ou a Roma, comprar livros como se fazia pela inexistência de livrarias aqui (agora em extinção material maciça por terem perdido há muito a sua função intelectual).

Esta escumalha nivelou a Europa, matando o que a distinguia, o que a projetava, o que lhe dava importância – a vida das ideias, a importância da reflexão e vitalidade do debate intelectual. Escumalha execranda. Cessem as preocupações com a defesa, porque, enquanto as coisas assim forem, não há nada para defender.

De resto, nem se entende o que defenderiam os “exércitos profissionais”, pequenas corjas saídas das academias, cheias em tempo de paz, e sem qualquer ponto de contacto com os povos que lhes sustentam as nocivas existências. Defenderia o quê, esta gente? Onde? Contra quem? Contra inimigos inventados pelos – radicalmente idióticos – serviços de inteligência, que eram instrumentos de compreensão ao serviço da política do estado, mas agora são corjas de conduta disparatada, perfeitos alfaiates do Panamá, a conduzir os ceguinhos de poço em poço, de ravina em ravina, onde se dissipam e dissiparão os poucos meios que ainda existem e já ninguém percebe para que servem…

Entre nós, a “guerra espetáculo” (una aflição dentro de outra) mostrou à opinião pública um belo mosaico de imbecis de alta patente e intermináveis leques de especialistas em coisa nenhuma blaterando incessantemente. É a mesma coisa em todo o lado…

Estamos finalmente a par dos outros, muito embora, aqui, tenhamos as originalidades do bom Rei D. Manuel I a expulsar os judeus naquelas bocarras, mais o “pacto Molotov-Ribentroff”, com o “estado da Bavaria” e um major-general a exibir a sua completa incapacidade de ler um mapa. Não se perde assim o pitoresco local.

O veneno tem aqui o efeito da erva sardónica. Nós rimos enquanto nos matam.

23 Fevereiro de 1981 — Madrid

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 23/02/2025, Revisão da Estátua)


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Há quarenta e um anos ocorreu em Espanha uma tentativa de golpe de estado para repor o regime de privilégios da elite espanhola que se assenhoreara de Espanha após a guerra civil, sob o comando de Franco. O golpe tinha por objetivo inverter o processo político que conduziria a Espanha a um regime político compatível com os instaurados na Europa após a Segunda Guerra.

O extrato do artigo do El País, de José Maria Barreda, de 21 de Fevereiro de 2025 (Ver aqui), a propósito do golpe de 23 de fevereiro de 1981, de que me socorro, afirma que o ataque do 23-F foi tão grave e evidente — Tejero de pistola no Congresso, tanques nas ruas de Valencia -, que os políticos e os cidadãos sentiram uma clara percepção que o golpe de Estado pretendia acabar com a incipiente democracia espanhola e vieram para a rua defendê-la.

Hoje vemos essa data longínqua como sendo de repetição improvável. Conhecemos o essencial da anatomia daquele instante, mas devemos refletir a propósito de como se desenvolvem agora os ataques à democracia porque estamos a acostumar-nos a eles. Podemos aplicar a fábula da rã e da água a ferver. A rá salta imediatamente se a deitarmos em água a ferver, mas se ela se encontra previamente dentro da panela e a água vai aquecendo lentamente, a rã manter-se-á tranquila até que, imperceptivelmente morre cozida. O ensinamento da fábula consiste em advertir para o perigo de aguentar situações limite durante demasiado tempo..

Em «Como morrem as democracias» , dois investigadores de Harvard escrevem: «Sabemos que as democracias já não terminam com um golpe militar ou uma revolução, mas sim com um leve queixume, um lento e progressivo enfraquecimento das instituições essenciais, como o sistema jurídico, a imprensa, o parlamento, os partidos políticos… »

Hoje (como temos visto no parlamento português) a democracia agride-se dentro dela, é utilizada para a desprestigiar. Os autores expuseram a sua tese em 2018, antecipando-se aos acontecimentos nos Estados Unidos com a eleição de Trump e com o crescimento exponencial de movimentos nazis na Europa.

Perante o “novo mundo” da digitalização e das redes, a maioria dos cidadãos continua prisioneira de outra época, presa a uma conceção do mundo, incapaz de oferecer respostas intelectuais e materiais aos novos problemas.

Um dos sintomas atuais, “sintomas mórbidos” que afetam a democracia liberal e o que se entende por social-democracia, são as ideias reacionárias segundo as quais seria possível e desejável a liberdade sem democracia. (Esta é a tese dos necons).

Para os neoliberais, a democracia, a lei, é um estorvo à sua interpretação de do laissez faire, laissez passer e afirmam sem ambiguidades que a liberdade tem democracia a mais. Esta afirmação está cada vez mais difundida e observamos como ideias políticas que eram tabu, completamente inaceitáveis, podem acabar como assumidas e aceitáveis. As plataformas digitais, as redes sociais, controladas pelos grandes magnatas aliados de Donald Trump, realizam o seu trabalho, de modo a conseguir que sejam aceitáveis ideias e propostas inconcebíveis até à pouco, destruindo o Estado de Direito.

O populismo é a «aluminosis» da democracia. Aluminosis, ou febre do formigueiro, é uma degradação que se manifesta especialmente nas vigas dos edifícios que perdem as suas propriedades, ficando sem resistência e colocando em perigo a estabilidade do edifício.

O populismo debilita as instituições e corrói o sistema democrático. Combatê-lo implica cumprir algumas normas básicas: respeitar as regras da democracia e deixar claro que nenhuma eleição deve ser a última, respeitar os direitos dos adversários e ser inflexível com a liberdade dos meios de comunicação. E este último ponto — assegurar a liberdade e a responsabilidade dos meios de comunicação — deve constituir a linha principal de defesa da democracia.

As democracias não caem às mãos de ridículos guardas civis de chapéu de lata na cabeça ou até de generais de capacete e óculos escuros, mas às mãos de manipuladores de informação boné de beisebol como Musk.