O manual de instruções – ou réquiem para uma arquitetura

(José Pendão, in Facebook, 12/05/2026, Revisão da Estátua)


A Estátua não resiste em sublinhar a qualidade deste texto, no seu propósito de revisitar e nos facultar pistas de leitura interpretativa do mundo atual. Sim, citando Gramsci: “O mundo velho está a morrer e o novo ainda não pode nascer; neste interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”.

Os meus parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 12/05/2026)


Chamemos as coisas pelo nome, que é o mínimo que se deve a um cadáver: a ordem do pós-guerra morreu. Não foi assassinada — isso implicaria um ato, um momento, um culpado com as mãos ensanguentadas e a decência de fugir. Não. A ordem do pós-guerra foi abandonada. Deixada numa cadeira de rodas num corredor de hospital, com os documentos todos em dia e ninguém para a reclamar. Morreu da morte mais obscena que as civilizações conhecem: morreu porque deixou de ser útil a quem tinha a obrigação de a manter viva.

E o mais notável — o mais cirurgicamente notável — é que o guião dessa morte já tinha sido escrito. Várias vezes. Por pessoas diferentes. Em livros que toda a gente leu, ou diz ter lido, ou pelo menos reconhece a capa quando aparece na lista dos 100 livros que mudaram o mundo. Nenhum deles mudou nada, evidentemente. Mas voltaremos a esse ponto.

Comecemos pela arquitetura. Não a de betão — a outra. A de papel, de tratados, de instituições com siglas que durante décadas soaram a tédio burocrático e que, por isso mesmo, funcionavam. A ONU. O FMI. O Banco Mundial. A NATO. A União Europeia. O GATT e o seu rebento, a OMC. Os Acordos de Helsínquia. A Convenção de Genebra. O Tribunal Penal Internacional. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos — redigida, como se sabe, em 1948, por pessoas que ainda tinham nos olhos as imagens de Auschwitz e de Hiroxima e que, precisamente por isso, acreditavam que era possível (e sobretudo necessário) construir um sistema que impedisse a repetição do impensável.

Esse sistema não era bonito. Não era eficiente. Era lento, contraditório, hipócrita em muitas das suas aplicações, e frequentemente impotente. Mas existia. Tinha paredes. Tinha regras. Tinha, no mínimo, a força simbólica de dizer: Há coisas que não se fazem. E essa força simbólica — que os cínicos sempre desprezaram e os pragmáticos sempre subestimaram — era o que separava a ordem, do caos. Não uma muralha. Uma convenção. Um acordo tácito entre adultos de que o regresso à barbárie era demasiado caro.

Pois bem. A muralha está de pé. As paredes continuam visíveis. Os edifícios continuam em Genebra, em Nova Iorque, em Bruxelas, em Haia. Continuam a ter funcionários, orçamentos, logótipos, comunicados de imprensa e cafetarias com preços escandalosos. Mas, por dentro — por dentro — foram esvaziados com a meticulosidade de um ladrão que rouba um museu substituindo cada quadro pelo seu poster.

O Conselho de Segurança da ONU é um teatro onde dois dos cinco atores principais (que detêm o poder de veto, convém lembrar — e esse poder é absoluto, como o dos reis que a democracia supostamente aboliu) são, respetivamente, uma autocracia que invade países vizinhos e uma autocracia que constrói ilhas artificiais para reclamar mares. Os outros três — Estados Unidos, França, Reino Unido — oscilam entre a impotência, a hipocrisia e a amnésia seletiva que permite bombardear a Líbia em nome dos direitos humanos e ignorar o Iémen em nome do comércio de armas. A ONU não falhou. A ONU foi neutralizada por design, por dentro, pelos seus próprios fundadores, que desenharam o veto como uma válvula de segurança e criaram, na prática, uma máquina incapaz de agir contra os poderosos. Só contra os fracos. Sempre contra os fracos.

A OMC é um tribunal sem polícia. A Convenção de Genebra é uma carta de princípios que ninguém lê antes de disparar. O Tribunal Penal Internacional é uma jurisdição à qual os Estados Unidos nunca aderiram — e aprovaram, em 2002, uma lei (o chamado Hague Invasion Act, que não é paródia, embora mereça ser) que autoriza o uso de força militar para libertar qualquer cidadão americano detido pelo tribunal. Sim, leram bem. O país que se apresenta como farol da ordem internacional legislou o direito de invadir Haia.

E a União Europeia — ah, a União Europeia. O projeto mais ambicioso de cooperação supranacional da história da humanidade, nascido dos escombros de duas guerras e construído com a paciência beneditina de juristas, economistas e burocratas que acreditavam que a prosperidade partilhada era o melhor antídoto contra o nacionalismo. Transformada, sessenta anos depois, num mecanismo de gestão de crises que responde a cada crise tarde, mal, e com o entusiasmo de quem preenche formulários num serviço de finanças. Brexit. A crise migratória. A pandemia. A guerra na Ucrânia. De cada vez a mesma coreografia: surpresa, reunião de emergência, comunicado, divisão, compromisso diluído, comunicado sobre o comunicado. Bruxelas como Sísifo de fato e gravata — a empurrar a pedra encosta acima, de agenda em agenda, sabendo que volta a cair.

Isto seria apenas triste — o tipo de tristeza administrativa que gera editoriais sensatos e livros de quinhentas páginas com títulos como O Declínio da Ordem Liberal — se não fosse uma outra coisa: previsto. Inteiramente, meticulosamente, e por vezes assombrosamente previsto. Abramos os manuais.

1 George Orwell publicou 1984 em 1949 — um ano depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A coincidência cronológica é quase obscena. Enquanto Eleanor Roosevelt redigia o artigo 19.º (liberdade de opinião e expressão), Orwell descrevia a Novilíngua: um sistema em que as palavras são esvaziadas de significado até que “guerra” signifique “paz,” “liberdade” signifique “escravidão,” e o Ministério da Verdade se encarregue de reescrever o passado para que o presente nunca possa ser questionado.

Setenta e sete anos depois, a liberdade de expressão existe. Está consagrada em dezenas de constituições. É invocada diariamente — sobretudo por quem a usa como escudo para mentir sem consequências. O problema nunca foi a censura clássica, o corte, a proibição. Orwell percebeu isso: o problema é o excesso. O ruído. A multiplicação infinita de versões até que nenhuma seja verificável. Não é preciso proibir a verdade. Basta afogá-la em alternativas. O Ministério da Verdade não usa carimbos vermelhos — usa algoritmos. E funciona melhor do que Orwell imaginou, porque as pessoas colaboram voluntariamente. O Big Brother não precisa de vigiar: nós publicamos.

(E se isto parece exagero, perguntem-se: quando foi a última vez que leram uma notícia — uma — e tiveram a certeza de que era inteiramente verdadeira? Não “provavelmente verdadeira.” Não “verdadeira segundo fontes.” Certeza. A resposta, para a maioria, é que já não se lembram. A dúvida tornou-se o estado natural. E esse é, precisamente, o objetivo.)

2 Aldous Huxley publicou Admirável Mundo Novo em 1932, antes da guerra, antes dos campos, antes da bomba. O seu aviso era diferente do de Orwell, e por isso mais difícil de ouvir. Orwell temia os que proíbem livros. Huxley temia que não houvesse razão para os proibir, porque ninguém os quereria ler. A tirania de Huxley não oprime — entretém. Não castiga — seduz. O soma, a droga universal que elimina a ansiedade, a angústia e qualquer impulso de revolta, não é imposto. É desejado. Procurado. Consumido com entusiasmo.

Chamem-lhe soma. Chamem-lhe feed. Chamem-lhe scroll infinito, séries em catadupa, notificações que interrompem o pensamento exatamente no momento em que ele ameaçava tornar-se perigoso. A arquitetura da distração não foi construída por tiranos. Foi construída por engenheiros de Silicon Valley com licenciaturas em psicologia comportamental e stock options generosas, e funciona com uma eficácia que Huxley, que morreu em 1963, teria achado inverosímil. Não precisamos de ser obrigados a não pensar. Pagamos para não pensar. Pagamos subscrições mensais para não pensar. E quando, por acidente, pensamos, a próxima notificação chega em sete segundos. (Pausa para verificar o telemóvel. Sim, vocês também).

3 Ray Bradbury publicou Fahrenheit 451 em 1953. O título é a temperatura a que o papel arde. Os bombeiros, no romance, não apagam fogos — queimam livros. Mas Bradbury, numa entrevista tardia que merecia ser obrigatória, disse que o livro não era sobre censura governamental. Era sobre a sociedade que deixa de querer saber. Sobre a erosão lenta, confortável, democrática, do interesse pelo complexo. Sobre a substituição do argumento pelo slogan, da análise pelo soundbite, do debate pela performance. Os livros não ardem porque alguém os queima. Ardem porque ninguém os abre.

4 E George Miller — que ninguém confunde com um intelectual, porque usava carros e explosões em vez de palavras, e a academia tem estes preconceitos — filmou em Mad Max um mundo em que o contrato social se dissolveu e os recursos (água, gasolina, comida) são controlados por tiranos grotescos que os distribuem com conta-gotas para manter a dependência. A violência não é aberração: é sistema. A escassez não é acidente: é instrumento. E a estrada — interminável, árida, sem destino — é a única instituição que sobrevive.

Olhem agora para os preços da energia em qualquer país europeu. Olhem para o mercado da água na Califórnia. Olhem para as cadeias alimentares controladas por quatro ou cinco conglomerados que decidem o que comemos, quanto pagamos, e que agricultores sobrevivem. Miller não precisava de ter feito um documentário. Fez um.

— * —

O padrão, para quem ainda resista à evidência, é este: cada distopia foi lida pelas pessoas certas — e usada pelas erradas. Os que deviam ter protegido a verdade leram Orwell e perceberam que a desinformação é mais eficiente do que a censura: não é preciso destruir factos, basta fabricar dúvida. Os que deviam ter protegido a cultura leram Huxley e perceberam que o entretenimento é o controlo social mais barato que existe: não é preciso reprimir, basta saturar. Os que deviam ter protegido o conhecimento leram Bradbury e perceberam que a ignorância é autossustentável: não é preciso queimar livros, basta torná-los irrelevantes. Os que deviam ter protegido os recursos leram Miller e perceberam que a escassez é uma vantagem competitiva: não é preciso partilhar, basta controlar o acesso.

E todos — absolutamente todos — olharam para as instituições do pós-guerra e fizeram o mesmo cálculo: estas paredes ainda estão de pé, mas já ninguém as vigia. Podem ser esvaziadas por dentro. Lentamente. Respeitavelmente. Com comunicados e conferências de imprensa.

É o que Cícero, se fosse menos elegante, chamaria o roubo perfeito: não destruir a República, mas ocupá-la. Não demolir o Senado, mas torná-lo irrelevante. Deixar a fachada intacta, mudar as fechaduras.

A negociação — essa arte lenta, inglória, exasperante, que durante décadas impediu que desacordos entre potências nucleares se transformassem em cogumelos atómicos — foi substituída pela retórica do mais forte. Não porque a retórica seja mais eficaz. É-o menos. Mas é mais rápida. Dá melhores soundbites. E, sobretudo, não exige a humildade de reconhecer que o outro lado existe.

A subsidiariedade — essa ideia incómoda de que os que mais têm devem algo aos que nada têm, não por caridade mas por cálculo civilizacional, porque sociedades demasiado desiguais implodem — foi substituída pela mística da extração. Extrair valor. Extrair dados. Extrair trabalho. Extrair atenção. Extrair até não haver mais nada para extrair, e depois vender o relatório que documenta a extração como “caso de estudo em eficiência.”

A compaixão — e peço desculpa pela palavra, que parece de outro século, e talvez seja — foi reclassificada como fraqueza. A solidariedade como ingenuidade. O bem comum como conceito vago, bom para discursos inaugurais e nada mais.

— * —

Saramago, em O Ensaio sobre a Cegueira, escreveu que o pior não é a cegueira em si — é a cegueira de quem, podendo ver, escolhe não ver. Nesse romance, uma epidemia inexplicável cega toda uma cidade. A ordem dissolve-se. As instituições colapsam. A violência instala-se. E os que ainda vêem — que existem, que estão ali, que testemunham tudo — são demasiado poucos para impedir o que quer que seja.

Nas distopias, porém, há sempre um rebelde. Winston Smith. O Selvagem de Huxley. Montag, o bombeiro que começa a ler. Max, no deserto. Alguém que resiste. Alguém que vê. Alguém que, mesmo derrotado (e quase todos são derrotados — os autores de distopias são honestos quanto a isso), pelo menos encarna a possibilidade de que a resistência exista.

Na realidade — nesta realidade, a nossa, a que não tem créditos finais — o rebelde existe. Tem um podcast. Vende suplementos alimentares. Tem cinquenta e três teorias sobre o que realmente se passa, todas mutuamente incompatíveis, e o único ponto em que se distingue do sistema que diz combater é que ainda não tem orçamento suficiente para o replicar.

E aqui reside o veneno final. O mais lento. O mais eficaz.

A resistência — a verdadeira, a que os autores de distopias imaginaram como último reduto da dignidade — foi absorvida pelo próprio sistema que devia combater. Transformada em produto. Em nicho de mercado. Em estética. Usamos a palavra “resistência” como se fosse um hashtag (e, de facto, é — verifiquem). Lemos Orwell e partilhamos citações no Instagram. Citamos Huxley em threads do X entre dois anúncios de cripto moedas. A própria denúncia do sistema tornou-se conteúdo. E o conteúdo, como sabemos, precisa de engagement. E o engagement precisa de plataformas. E as plataformas pertencem — ironia magistral, ironia que os deuses gregos apreciariam com o seu humor cruel — exatamente às pessoas contra quem a resistência devia ser dirigida.

Orwell avisou. Huxley avisou. Bradbury avisou. Miller filmou. Saramago narrou. Cada um deles ofereceu, à sua maneira, uma planta do edifício em chamas. Um mapa do desastre. Um diagnóstico. Nós lemos o diagnóstico, concordámos com a gravidade, partilhámos nas redes, e voltámos a sentar-nos.

As instituições do pós-guerra estão de pé. Ocas, esvaziadas, habitadas por fantasmas que ainda emitem comunicados. Os manuais de instruções estão todos escritos — lidos, sublinhados, citados. E o edifício arde. Sem pressa. Sem drama. Com a lentidão de quem sabe que ninguém vai chamar os bombeiros. Até porque os bombeiros, como Bradbury nos explicou, estão ocupados. A queimar livros.

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2 pensamentos sobre “O manual de instruções – ou réquiem para uma arquitetura

  1. QUE TEXTO EXTRAORDINÁRIO!
    Ainda temos liberdade!
    Obrigado ao autor e à Estátua de Sal.
    Maravilha para ler e reler!

  2. Pois, China e Rússia são autocracias e os outros três são só uns coitadinhos, impotentes e com um pouco de amnesia que os leva as vezes a fazer coisas como bombardear a Líbia.
    Para governo do Pendao o Iémen também foi bombardeado pelos Estados Unidos. Causando muita destruição.
    O que não foi possível foi despejar lá jihadistas travestidos de oposição local que acabassem a conquistar o país fornecendo as necessárias botas no terreno que permitiram o linchamento de Kadhafi e de pelo menos metade da sua família, para além dos pelo menos 50 mil cidadãos libios mortos em seis meses de bombardeamentos que varreram praticamente todas as cidades do país.
    De resto temos um país que invadiu outro para sequestrar o seu presidente e o enfiar numa prisão infernal. Que impotência, que amnésia, até esta noite nem viu dormir com pena deles.
    O Pendao também faz de conta que não sabe que a Rússia não anda por aí a invadir vizinhos porque lhe apetece mas para evitar que esses pacificos vizinhos façam as suas populações o que os judeus fizeram as de Gaza.
    Foi assim na Georgia e esta a ser assim na Ucrania.
    E também faz de conta que não sabe que a China está a ser alvo de uma tentativa de cerco por parte dos Estados Unidos, com o apoio de Japao, Coreia do Sul e Filipinas.
    Rodrigo Duterte foi bater com as costas em Gaia, onde provavelmente morrera, não pelos mortos na sua guerra as drogas mas por críticar o embarque do seu país numa loucura que se acontecer fará esses mortos parecem uma anedota sinistra.
    De qualquer forma estes impotentes sempre fizeram tudo o que puderam como bem sabe o povo do Vietname que teve três milhões dos seus habitantes massacrados pelos estadounidenses.
    E não houve coisas que não se faziam. Ali houve destruição de milhares de aldeias, violação em massa e tudo quanto foi arma de destruição em massa de pessoas e ate vegetação, com napalm e desfolhantes.
    Sem contar os inumeros crimes cometidos no “quintal das traseiras” da América Latina.
    Essa tal ordem do pós guerra nunca aconteceu.
    Em resumo, o Pendao e que parece estar a viver numa realidade distópica como as que descreve.
    Vá ver se o mar da choco que pode ser que isso passe.

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