O terrorismo visto da varanda do Império

(Luís Rocha, in Facebook, 01/09/2026, Revisão da Estátua)


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A propósito de uma organização que luta pela libertação da Palestina ter sido convidada para estar na Festa do Avante e da algazarra que isso provocou na imprensa, com os accionistas da extrema-direita a descobrirem subitamente os horrores do terrorismo, resolvi juntar estas letrinhas em forma de catarse. Não sou comunista, nunca fui nem julgo que alguma vez venha a ser, e muito menos o Partido Comunista Português me encomendou o sermão, mas há coisas que ultrapassam as ideologias e entram directamente no território do bom senso.

A FPLP é considerada uma organização terrorista pela União Europeia. Tem um historial de atentados, sequestros e violência contra civis. Não tenho qualquer problema em reconhecer isso. Terrorismo é terrorismo, seja praticado por palestinos, israelitas, americanos, portugueses, russos ou marcianos. O problema começa quando se transforma a palavra numa espécie de detergente histórico destinado a lavar a ocupação, o colonialismo e a violência de quem tem o exército, a polícia e o poder para escrever a legenda.

Porque esta história não começou com a FPLP.

Na Índia, organizações revolucionárias como a Anushilan Samiti e a Jugantar foram perseguidas pelos britânicos como organizações terroristas. No Quénia, os Mau Mau foram apresentados pelo Império Britânico como terroristas e criminosos, enquanto Londres conduzia uma brutal campanha de repressão colonial.

No Chipre, a EOKA combateu o domínio britânico e foi tratada como organização terrorista. Na Irlanda, o IRA foi considerado terrorista pelo Reino Unido. Na Argélia, a FLN era terrorista para a França.

E depois aconteceu uma coisa verdadeiramente inconveniente para os donos da História. Alguns desses terroristas ganharam.

A Argélia tornou-se independente. O Quénia tornou-se independente. O Chipre tornou-se independente. A Irlanda deixou de ser aquilo que o Império Britânico queria que fosse.

Mas o caso português é ainda mais patusco.

Em Angola, o MPLA e a FNLA/UPA eram apresentados pelo Estado Novo como organizações terroristas. Na Guiné-Bissau, o PAIGC era terrorista. Em Moçambique, a FRELIMO e RENAMO eram terroristas. A propaganda colonial portuguesa tinha até a delicadeza de chamar “terroristas” aos homens que combatiam para que Portugal deixasse de mandar nos países deles. A documentação histórica portuguesa confirma que a FRELIMO nasceu com o objectivo explícito de liquidar a dominação colonial portuguesa e conquistar a independência de Moçambique.

Depois chegou Abril.

E, curiosamente, os terroristas continuaram em África.

Só que agora governavam os seus países.

Na Namíbia, a SWAPO foi perseguida pela África do Sul do apartheid ao abrigo de legislação antiterrorista. Na África do Sul, o ANC e o seu braço armado, Umkhonto we Sizwe, foram igualmente tratados como terroristas. O próprio conceito de terrorismo foi utilizado pelo regime para perseguir movimentos de libertação nacional.

E aqui aparece Nelson Mandela, esse perigosíssimo terrorista que acabou por ganhar o Prémio Nobel da Paz e tornar-se presidente da África do Sul.

Uma carreira profissional bastante curiosa.

Começou terrorista e acabou estadista.

Na Palestina então, a ironia é ainda maior.

Durante o Mandato Britânico, organizações sionistas armadas como o Irgun e o Lehi foram classificadas pelas autoridades britânicas como organizações terroristas. A documentação das Nações Unidas regista explicitamente atentados, assassinatos e o ataque ao Hotel King David.

Não, isto não significa que o Estado de Israel fosse um “Estado terrorista”. Essa formulação seria historicamente imprecisa.

Significa algo mais interessante. Movimentos armados que participaram na luta que conduziu à criação de Israel foram considerados terroristas pelo poder colonial que então administrava o território.

E depois ganharam.

E a coisa fica ainda mais engraçada porque os terroristas de ontem transformam-se nos pais fundadores de amanhã.

E os palestinianos que hoje continuam a lutar contra aquilo que consideram ocupação e colonização israelita são agora apresentados como se tivessem inventado o terrorismo na semana passada.

Hamas, Jihad Islâmica, FPLP, DFLP, PFLP-GC, Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa e outras organizações palestinas foram classificadas como terroristas por diferentes Estados. Algumas praticaram deliberadamente ataques contra civis. Isso deve ser dito sem rodeios.

Mas também deve ser dito que as Nações Unidas descrevem a Palestina como submetida a uma longa história de conflito, ocupação e colonização, e que a questão palestiniana não nasceu no dia em que apareceu o Hamas. O próprio arquivo histórico da ONU descreve o Mandato Britânico, a revolta palestiniana, a violência sionista e a violência árabe como partes de um conflito que antecede a criação de Israel.

E há ainda o Vietname, onde o Viet Cong foi apresentado pelos Estados Unidos e pelo governo sul-vietnamita como uma força terrorista e insurgente.

E o Sri Lanka, onde os Tigres Tamil foram classificados como terroristas enquanto lutavam pela criação de um Estado Tamil.

E o Afeganistão, onde várias organizações combateram a ocupação soviética e foram descritas pelas autoridades soviéticas e pelo governo afegão aliado como bandidos, terroristas ou insurgentes.

A lista poderia continuar.

E é precisamente essa lista que deveria fazer alguns especialistas instantâneos em terrorismo engolirem em seco.

Porque a conclusão não é que todo o resistente é herói.

Isso seria tão intelectualmente infantil como dizer que todo o soldado é assassino.

A conclusão é outra.

A palavra “terrorista” não explica sozinha um conflito.

É preciso perguntar quem ocupa, quem coloniza, quem resiste, contra quem é utilizada a violência, quem são os alvos, quem controla o território e quem tem o poder de escrever a versão oficial.

Porque há uma regra histórica que se repete com uma regularidade quase cómica. O colonizador chama terrorista ao colonizado. O ocupante chama terrorista ao ocupado. O império chama terrorista ao rebelde.

É por isso que a indignação selectiva perante a FPLP me parece tão intelectualmente pobre.

Não é preciso gostar da FPLP.

Não é preciso defender a FPLP.

Não é preciso sequer simpatizar com a FPLP.

É apenas preciso não sofrer de amnésia histórica.

Porque se vamos fazer julgamentos sobre terrorismo, façamo-los todos.

Sem exceções.

Sem bandeiras protegidas.

Sem exércitos que ficam magicamente invisíveis quando o relatório começa.

E sobretudo sem a extraordinária estupidez de imaginar que o terrorismo nasce sempre do lado ocupado e colonizado.

A História demonstra exatamente o contrário.

O terrorista de ontem pode ser o estadista de hoje.

E, quando isso acontece, ninguém apaga a fotografia.

Só se muda a legenda…

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas

https://www.un.org/unispal/history

https://www.un.org/unispal/document/auto-insert-206581

https://www.un.org/unispal/document/auto-insert-199840

https://www.un.org/unispal/document/auto-insert-185776

https://www.un.org/unispal/document/auto-insert-201057

https://digitallibrary.un.org/…/855721/files/A_9801-EN.pdf

https://www.defesa.gov.pt/…/edicoes/ano1/n12021/movlibert

https://sahistory.org.za/…/1967-terrorism-act-no-83-1967

https://2021-2025.state.gov/foreign-terrorist-organizations

https://www.tandfonline.com/…/10…/17539153.2024.2327727

Guerra inacabada

(Pedro Pezarat Correia, in A Viagem dos Argonautas, 01/06/2026)

Stone map showing continents with blue and red glowing tectonic plate boundaries
Imagem gerada por IA

Quando se admitia que a Guerra Fria se encerrara com o fim do sistema bipolar pela implosão da URSS e do Pacto de Varsóvia, perfilou-se uma era unipolar, o “império global” norte-americano.


No passado dia 29 de maio o major-general Carlos Branco lançou, em Lisboa, no Hotel PortoBay Liberdade, o seu último livro, Ucrânia, variações de uma guerra inacabada (Colibri). A afluência de tanta gente, ávida de o ouvir e ao apresentador Miguel Szymanski, que superlotou a sala e anexos e não deu por perdido o seu tempo, foi a eloquente demonstração de quanto sentem a sua ausência das estações televisivas como competente comentador da conflitualidade internacional que preenche o nosso quotidiano, agora apenas esporadicamente interrompida.

Carlos Branco, militar intelectualmente honesto, culto, informado, sabedor, experiente, com outras poucas e honrosas exceções distingue-se da mediocridade generalizada dos “comentaristas”, em que se incluem alguns militares, preocupados em alinhar com o “politicamente correto”, que, intencionalmente ou não, chocam pela gritante ignorância das teorias das relações internacionais, dos sistemas políticos, da polemologia (paz, guerra, origens, causas e natureza dos conflitos). Que carecem de bagagem académica e experiência curricular para saberem que estratégia é negação e implica compreender e respeitar o outro (Jean-Paul Charnay), para interpretarem o dilema da segurança e da sua duplicidade (Joseph Nye Jr.), para se preocuparem com a lógica da escalada. Para distinguirem os limites da legítima defesa e da agressão, para não confundirem ação preventiva com ação preemptiva, para perceberem que uma coisa é iniciar uma guerra outra é torná-la inevitável, para entenderem que contra-proliferação nada tem a ver com não-proliferação, que dissuasão é recusa de emprego e não o seu adiamento.

Ressurgem os fazedores de opinião que recuperam o culto do caduco aforismo romano “se queres a paz prepara a guerra”, condenado pela História como marcha inevitável para a guerra. E regressam as filosofias escatológicas e cataclísmicas da guerra que Clausewitz, com a filosofia política da guerra, havia enterrado. E ignoram o essencial do pensamento deste último e de Bouthoul, a guerra enquanto fenómeno social, instrumento racional de política nacional.

Conheço o pensamento de Carlos Branco, sei que não embarca nesse primarismo belicista e acompanho-o nas lúcidas e fundamentadas advertências para o que significará, hoje, uma guerra generalizada entre superpotências nucleares para a qual estão a querer empurrar a humanidade.

Ainda não li este seu livro, o que vou fazer. Mas já me sinto capaz de me pronunciar sobre o seu título – Uma guerra inacabada.

Inacabadas têm sido todas as guerras que derivaram do fim da Guerra Fria. Nos Balcãs, no Afeganistão, no Iraque, na Síria, na Líbia, no Sudão, na África Subsariana, na Geórgia, na Ucrânia, na Palestina, no Líbano, no Irão. Inacabadas porque inacabado foi o conflito que as gerou, a Guerra Fria.

Quando se admitia que a Guerra Fria se encerrara com o fim do sistema bipolar pela implosão da URSS e do Pacto de Varsóvia, perfilou-se uma era unipolar, o “império global” norte-americano. Porém, da desastrosa gestão que Washington fez da sua hegemonia na globalização, resultou uma nova multipolaridade, um sistema difuso, instável. Emerge uma nova superpotência e o mundo regressa a uma bipolaridade tendencial, mas sem a rigidez da anterior: Ocidente Alargado versus Sul Global; OTAN e UE versus BRICS. Blocos menos coesos: EUA e UE; China, Rússia, Índia e Irão. Polos menos assumidos: EUA à deriva no Ocidente Alargado; China líder geoeconómico e Rússia líder geoestratégico nos BRICS. No Ocidente Alargado um denominador comum anuncia maus presságios: o avanço de um populismo revanchista dominado por lideranças de ínfima estatura política e cultural e carentes de credibilidade para enfrentarem as tempestades que se perfilam no horizonte.

Em conclusão, afinal a Guerra Fria não acabara. A História adiara o seu fim e apenas virara mais uma página. O estertor da unipolaridade norte-americana deixou feridas, foram e são as guerras inacabadas que se seguiram. Todas com a marca de uma hegemonia falhada, mas que ainda tenta resistir e tarda a reconhecer o advento de uma nova realidade.

Certamente voltarei ao tema depois de ler este oportuno livro do Carlos Branco.

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Uma Declaração à Consciência da Humanidade

(In A Viagem dos Argonautas, 12/04/2026)

Desert forked trail with signs for Storm Path and Sunrise Trail, one side stormy with lightning, other side sunset with hiker walking
Imagem gerada por IA

Seis condições inegociáveis apresentadas por académicos internacionais e ex-funcionários de 30 países para pôr fim à guerra dos EUA contra o Irão, face à ameaça de crimes de guerra por parte de Trump.


A consciência da humanidade resiste ao lema «tudo para nós, nada para os outros», o credo do império predatório erguido sobre os cadáveres das nações. A rapacidade e a insolência descaradas atingiram o seu apogeu, e as ameaças de Trump ilustram o espírito depravado de uma civilização em decadência. Não devemos ser testemunhas passivas, mas arquitectos activos de um novo mundo onde a arrogância desmorona e a justiça prevalece.

Um vasto grupo transnacional de vozes proeminentes — incluindo ex-funcionários da ONU, diplomatas de carreira aposentados, ex-ministros, académicos e intelectuais, figuras políticas e ex-parlamentares, profissionais militares e de segurança, artistas, advogados, bem como jornalistas, activistas e líderes antiguerra, de 30 países — divulgou uma carta aberta criticando duramente o papel global dos Estados Unidos e apelando a uma nova ordem internacional centrada na soberania e na resistência ao que descrevem como domínio ocidental.

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