Nenhum destes criminosos enfrentará a justiça enquanto o Império americano existir

(Caitlin Johnstone, 17/01/2025, Trad. Estátua de Sal)


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Dois jornalistas foram expulsos ontem de uma conferência de imprensa do Departamento de Estado por terem feito perguntas incómodas sobre Gaza. Um deles, Sam Husseini, foi levado à força pelos seguranças enquanto exigia saber porque é que o Secretário de Estado Antony Blinken não é julgado em Haia pelos seus crimes de guerra. (Ver vídeo abaixo).

Max Blumenthal, do The Grayzone, também foi obrigado a sair enquanto perguntava a Blinken porque é que ele permitiu que centenas de jornalistas fossem assassinados em Gaza, dizendo ao porta-voz do Departamento de Estado, Matt Miller, que ele “sorriu durante um genocídio”.

Husseini foi depois retirado à força por ter feito perguntas sobre Gaza e sobre o programa nuclear de Israel e a diretiva Hannibal. Blinken disse a Husseini para “respeitar o processo”, ao que Husseini respondeu: “Respeitar o processo? Respeitar o processo? Enquanto toda a gente, desde a Amnistia Internacional até ao TIJ, diz que Israel está a cometer genocídio e extermínio, e você diz-me para respeitar o processo? Criminoso! Porque é que não está a ser julgado em Haia? (Ver vídeo abaixo).

Ora, a classe político-mediática ocidental está a manifestar indignação com o incidente, não pelo facto de os jornalistas terem sido maltratados por fazerem perguntas críticas ao seu governo, mas porque esses jornalistas fizeram perguntas críticas!

As cabeças de cartaz da CNN descreveram as ações dos jornalistas que interrogavam os funcionários do governo como “uma provocação digna de ser feita por ativistas”, expressando inicialmente a sua perplexidade sobre como esses “ativistas” poderiam ter entrado numa sala de imprensa destinada a jornalistas acreditados (tanto Blumenthal como Husseini são, de facto, membros da imprensa que assistem frequentemente às conferências de imprensa do Departamento de Estado).

Aaron David Miller, um monstro de longa data do pântano do Departamento de Estado, tweetou sobre a troca de palavras: “Em 27 anos no Departamento de Estado, nunca vi uma situação em que um Secretário de Estado – um homem compassivo e atencioso – fosse importunado no seu próprio edifício por um importunador que gritava ‘Porque é que não está em Haia’. Um novo record nos mínimos da falta de civismo no discurso”.

Isto é o liberalismo ocidental em poucas palavras. O problema não é o genocídio, o problema é as pessoas não serem suficientemente educadas em relação ao genocídio. Os funcionários ocidentais sentirem-se incomodados e insultados é uma preocupação maior do que crianças a serem retalhadas e queimadas por explosivos militares americanos. (Ver vídeo abaixo).

A pergunta de Husseini é interessante. Porque é que Blinken não está em Haia? Porque é que ainda não enfrentou a justiça por ter facilitado a fome, a doença e os massacres diários que tem ajudado Israel a infligir aos civis em Gaza nos últimos 15 meses? E, mais importante ainda, porque é que parece ser seguro assumir que tal nunca acontecerá?

Afinal de contas, esta é a “ordem internacional baseada em regras”, não é? Certamente que quando temos organizações de direitos humanos a afirmar que estão a ser cometidas atrocidades genocidas com a facilitação do governo que pretende defender essa ordem, algumas repercussões legais devem ser vistas como, pelo menos, dentro do reino das possibilidades, não é?

E, no entanto, todos sabemos que isso não vai acontecer num futuro previsível. Todos sabemos que, enquanto o império dos EUA existir da forma como existe, Tony Blinken e Matt Miller gozarão de vidas livres e prósperas depois do seu tempo na administração Biden chegar ao fim.

Isto porque o “direito internacional” só existe na medida em que puder ser aplicado. Se uma superpotência não quiser que os seus lacaios sejam levados ao tribunal de Haia por crimes de guerra, eles não serão levados, porque, no estado atual das coisas, ninguém vai entrar em guerra com o império americano para pôr Tony Blinken atrás das grades. Ou George W Bush, Dick Cheney, Barack Obama ou Hillary Clinton, já agora.

Enquanto o império americano existir, nenhum destes monstros enfrentará a justiça pelos seus actos. Passarão do seu tempo no governo para carreiras lucrativas em grupos de reflexão ou a trabalhar como lobistas até que outra administração democrata volte a solicitar os seus serviços – ou, no caso de Biden, gozarão de uma reforma confortável, até terem uma morte tranquila rodeados de familiares no meio do luxo.

Enquanto o Império não for desmantelado, o mundo nunca conhecerá a justiça. Estas criaturas do pântano poderão andar de um lado para o outro através da porta giratória entre o governo oficial de Washington e o seu governo não oficial, enquanto assassinam, deslocam e atormentam tantos inocentes quantos quiserem, com total impunidade.

De uma forma ou de outra, o massacre em Gaza acabará por terminar. Mas enquanto a estrutura de poder centralizado dos EUA continuar a dominar o nosso mundo, não haverá consequências significativas para o que ocorreu. Será arquivado nos livros de história e os propagandistas levar-nos-ão ao próximo espetáculo de horror imperial. Haverá mais Gazas no futuro, talvez supervisionadas por diferentes Tony Blinkens ou talvez pelos mesmos, e continuarão a acontecer enquanto este Império assassino se mantiver de pé.

Este mundo poderá ter justiça quando encontrar uma forma de acabar com o Império dos EUA. Até lá, o mundo será governado por tiranos que fazem exatamente o que lhes apetece, e qualquer pessoa que os questione será retirada da sala, qualquer que seja a força necessária para o fazer.

Fonte aqui.


Do capitão Almeida ao mercado dos repetidores

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 26/10/2024)

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Escrevi o primeiro artigo de jornal em novembro de 1973. Estudante liceal em Setúbal, 15 anos. Primeiro artigo, primeiro choque com a censura do Estado Novo. O jornal que acolheu a minha peça, criticando o derrube violento por Pinochet do Governo de Salvador Allende – no altar sacrificial da doutrina Monroe -, era dirigido por um médico notável. O dr. Mário Moura, quase centenário, continua a ser, para mim, uma referência de integridade e coragem moral. De facto, foi ele quem me defendeu de problemas maiores com o censor local, o capitão Almeida. Este último tinha deixado publicar o texto, mas os superiores de Lisboa puxaram-lhe as orelhas pela desatenção.

Face ao que estamos a viver no Ocidente, em matéria mediática, a estória do capitão Almeida é enternecedora. Até poderia ser contada aos netos, antes de dormir. Há um conjunto complexo de razões para isso, onde sobressai a mudança de paradigma na censura. Esta já não limita o discurso através dos meios repressivos do aparelho de Estado, mas oferece estímulos de mercado para mobilizar colaboradores na construção de mantras convenientes, propostos por uma espécie de Ministério da Verdade (em versão neoliberal). É claro que o pluralismo real dos meios de comunicação, uma realidade apenas há 30-40 anos, parece hoje uma máscara virtual, tentando ocultar a crescente concentração monopolista dos media.

Com o recuo do poder e influência dos EUA, a situação descarrilou. Há inúmeros exemplos da colaboração de media como a Sky News ou a CNN, com Washington e Bruxelas no confundir da natureza de Gaza: um campo de extermínio apresentado como um campo de batalha.

O Ocidente afogou a bandeira dos Direitos Humanos na cumplicidade com um genocídio, onde a fome e a doença, mantida pelas armas do IDF, matam mais do que as bombas. 

Sobre a recente Cimeira dos BRICS, o insulto substituiu-se à análise no Bild, no NYT e na própria BBC. A censura no Ocidente não gera consenso, mas sim conformismo, esculpido a golpes de mercado, combinando a cenoura e o chicote.

Pergunto aos leitores se sabem o que é a lei HR 1157 aprovada pela Câmara dos Representantes (EUA) por 351 contra 36, em 10 de setembro? Trata-se de um fundo quinquenal, dotado de 1,5 mil milhões de dólares, para financiar, pelo mundo fora, “os media e a sociedade civil”, na promoção da sinofobia, apresentada como combate à “influência maligna” da China. Trata-se de uma lei que transforma o jornalismo – esse instrumento de liberdade intelectual e procura da verdade – numa propaganda venal. Entre os repetidores, pululando hoje nos media, muitos o farão convictamente. Para não desperdiçar as oportunidades que o mercado oferece.

Me(r)diologia

(Por José Gabriel, in Facebook, 08/10/2024)

Montenegro quer os jornalistas e os utilizadores das redes sociais, cegos, surdos e mudos.

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A propósito da conferência “O Futuro dos Media”, em que Montenegro botou discurso, gostaria de deixar aqui duas ou três notas.

1 – Notei que nenhum jornalista abandonou a sala, como deveria fazer quem ainda tem a coluna vertebral no lugar – eu sei, a dependência, o patrão, o medo, a vidinha. Quando não, a cumplicidade.

2 – Montenegro sonha montar uma limitação de liberdade de expressão – a começar pelas redes sociais -, onde há, acha ele, abuso de opinião que é preciso controlar. Salazar não diria melhor.

3 – O 1º ministro quer meter no bolso o que resta – que não é muito – da autonomia da RTP, retirando-lhe a publicidade o que, parecendo uma medida virtuosa, deixa a estação na total dependência do governo. Isto só poderia ser feito aprovando uma rigorosa legislação cautelar que protegesse a independência da RTP. Não vejo sinais de que tal possa acontecer.

4 – O tom severo-paternal usado chegou à repreensão pelos auriculares dos jornalistas, acusados de sopro alio-auditivo, momento cómico da tarde.

5 – Montenegro deixa escapar sinais uma cultura (?) autocrática – isto é um eufemismo – cujas sintomas parecem ser, ao próprio, opacos.

6 – A conferência do 1º ministro proporcionou a André Ventura a espantosa oportunidade de lhe fazer uma crítica pela esquerda!

7 – A sensação de irrealidade que estes eventos nos provocam, nem sequer tem o mérito de nos fazer flutuar numa elegante e imaginativa cena surrealista; apenas, na sua mediocridade, nos dá a ideia de que, em vez de água, chove merda.