A desmontar os “comentadeiros” – Episódio 148 – O mundo é uma Trumplandia?

(Nuno Ramos de Almeida, e Pedro Tadeu, in Youtube, 26/04/2026)

(Já em tempos publiquei estes vídeos. Os autores tentam ser minimamente equilibrados. As aldrabices e o coro de vozes dos “comentadeiros” sincronizados pela cartilha dos departamentos de comunicação da inteligência ocidental, já enojam qualquer mortal com dois dedos de testa. Divirtam-se. É uma lufada de ar fresco.

Pedro Duarte alerta que a divulgação dos doadores dos partidos pode levar a represálias. Ricardo Paes Mamede defende a presença do Estado, em empresas estratégicas, em tempos de tempestades. Agostinho Costa diz que os EUA estão a perder a guerra e a paz no Irão.
São os comentadores com Nuno Ramos de Almeida, Paula Cardoso e Pedro Tadeu. E ainda vamos ter tempo de falar de Trump e os nomes geográficos.

Estátua de Sal, 28/04/2026)


A BBC e as demissões – a ponta do iceberg?

(João Gomes, in Facebook,10/11/2025)


As demissões do diretor-geral da BBC, Tim Davie, e da chefe de notícias, Deborah Turness, não são um mero episódio administrativo. São o reflexo visível – a ponta do iceberg – de uma crise muito mais profunda no jornalismo ocidental contemporâneo.

O pretexto imediato foi a manipulação de um discurso de Trump, proferido a 6 de janeiro de 2021, durante o cerco ao Capitólio. O programa Panorama editou passagens distintas do discurso, sugerindo que o então presidente incitara os seus apoiantes a “lutar como demónios” e marchar com ele até ao Congresso. A frase original, contudo, tinha outro contexto e outro propósito. A distorção foi suficiente para acender o rastilho de uma crise que vinha fermentando há anos dentro da BBC.

Trump foi, portanto, o ponto-chave – o gatilho que tornou público um problema sistémico: anos de decisões editoriais marcadas por enviesamento, omissões e falta de pluralismo.

Um histórico de erros e tendenciosidades

As investigações internas e externas revelaram uma sucessão de falhas desde 2019. Durante o Brexit, a BBC foi acusada de parcialidade; na pandemia, de complacência com o poder político; na cobertura da guerra da Ucrânia, de reproduzir a retórica oficial de Kiev e da NATO; e, mais recentemente, de reportar o conflito em Gaza, com omissões graves. Paralelamente, surgiram denúncias de autocensura e militância disfarçada de neutralidade nas matérias sobre identidade de género, onde a pressão ideológica dentro das redações suplantava o rigor informativo.

Tudo isto configurou um padrão: não uma sucessão de falsidades absolutas, mas uma erosão progressiva da imparcialidade, substituída por narrativas moralmente confortáveis e politicamente convenientes.

O espelho de um problema maior

Seria ingénuo pensar que esta crise é exclusiva da BBC. Na realidade, ela reflete um fenómeno mais vasto, que atravessa praticamente todo o jornalismo ocidental. CNN, NPR, The New York Times, Le Monde, Der Spiegel – todos enfrentam o mesmo dilema: a transformação do jornalismo em instrumento de virtude, onde a “causa certa” substitui a busca pela verdade, e o contraditório se torna um incómodo.

As redações, cada vez mais homogéneas do ponto de vista cultural e ideológico, criaram uma bolha onde se confunde consciência moral com objetividade. As narrativas geopolíticas alinham-se com os centros de poder ocidentais; as causas sociais são tratadas como dogmas inquestionáveis; e o jornalismo perde, aos poucos, o seu caráter de mediação plural.

O resultado é uma erosão dramática de confiança: apenas 47% dos britânicos dizem confiar hoje na BBC – menos de metade do que há dez anos.

Entre a informação e a convicção

A imprensa parece ter esquecido a diferença essencial entre informar e convencer. Informar é expor os factos, ainda que desconfortáveis. Convencer é conduzir o público a uma conclusão pré-fabricada. Quando a notícia se torna instrumento de moralismo ou de poder, o jornalismo deixa de cumprir a sua função democrática e converte-se num púlpito ideológico.

A BBC, símbolo de credibilidade durante décadas, cai agora no descrédito por ter confundido imparcialidade com conveniência. Mas talvez o seu colapso seja útil: serve de alerta para todo o ecossistema mediático que insiste em ignorar os sinais de fadiga ética e intelectual.

O iceberg que emerge

A ponta do iceberg a emergir – o caso Trump -, apenas revelou o que já estava submerso: anos de jornalismo moldado por agendas, de redações isoladas da sociedade que pretendem representar, e de uma elite mediática que perdeu o contacto com o público comum.

O que se vê hoje na BBC pode ser o prenúncio de uma transformação mais ampla – ou, se nada mudar, o prenúncio do fim de uma era em que os meios de comunicação se julgavam guardiões exclusivos da verdade.

Porque quando o jornalismo deixa de ser espelho e se torna filtro, o público acaba por procurar a verdade noutro lugar.

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Putin abre as zonas cercadas aos jornalistas ocidentais

(João Gomes, in Facebook, 30/10/2025)


Numa reunião recente com militares russos, o presidente Vladimir Putin surpreendeu ao propor o acesso de jornalistas – incluindo repórteres internacionais e ucranianos – às zonas de combate onde, se encontram unidades ucranianas cercadas. A declaração, transmitida pela televisão estatal russa, surgiu acompanhada de uma oferta insólita: a suspensão temporária das hostilidades por “duas, três ou seis horas” para permitir a entrada controlada da imprensa nas áreas de encirclement.

Putin afirmou estar disposto a garantir a segurança dos jornalistas durante a visita, desde que, segundo as suas palavras, “não haja provocações do lado ucraniano”. A proposta, feita em tom informal mas público, evocou o precedente de Azovstal – a siderurgia de Mariupol onde, em 2022, soldados ucranianos resistiram semanas antes de se renderem. O presidente russo sugeriu que uma exposição mediática direta poderia influenciar “a liderança política da Ucrânia” na decisão sobre o destino das tropas atualmente cercadas.

A intervenção incluiu também referências técnicas e simbólicas: o ensaio bem-sucedido do torpedo nuclear “Poseidon” e o agradecimento pessoal de Putin a soldados que, segundo disse, lhe enviaram ícones religiosos como presente de aniversário. O ambiente da reunião combinou, assim, elementos de ação militar com gestos de humanização e apelo à narrativa de transparência.

Até ao momento, não há confirmação de que o Moscovo tenha formalizado convites a organizações de imprensa estrangeiras, nem de que o cessar-fogo temporário tenha sido implementado. No entanto, o simples facto de a proposta ter sido feita publicamente – e amplamente difundida pelos meios estatais russos – representa uma abertura retórica pouco comum.

Num conflito marcado pela censura, pela propaganda ocidental e pelo controlo rígido da informação, o convite de Putin, ainda que condicionado, pode ser lido como um sinal de autoconfiança e de tentativa de legitimação política perante a opinião pública internacional. Ao declarar-se disposto a receber jornalistas ocidentais nas zonas mais sensíveis do conflito, o Kremlin procura transmitir a imagem de que não tem nada a esconder – e de que domina militar e moralmente a situação no terreno.

Se essa promessa se concretizar, poderá constituir um dos raros momentos de contacto direto entre a imprensa internacional e as realidades da frente leste, quebrando o cerco informativo que tem marcado a guerra.

Até lá, o gesto permanece simbólico – mas, ainda assim, significativo como expressão de uma Rússia que tenta demonstrar força e, ao mesmo tempo, abertura política.

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