O “VOYERISMO” e os “BITAITES”!

(Por Joaquim Vassalo Abreu, 23/06/2017)

bitaites

Enfim, no meu retorno à escrita, não pensava falar de coisas destas, tão arredias da minha forma de ser e pensar elas são. Mas, dadas as circunstâncias, apetece-me sobre elas algo dissertar, precisamente porque, não coincidindo com a minha maneira de ser e estar, elas, pelos vistos, têm de tal modo vindo a ganhar protagonismo no “mainstream”, redes sociais e comunicação social, que talvez valha a pena algum tempo com elas dispensar. E algumas palavras dizer!

Primeiramente, e por uma questão de verdade e sanidade, é preciso reconhecer que todos nós temos, bem no fundo da nossa essência, algo de “voyeristas”! E quem disser o contrário…isso mesmo! E todos temos também tendência para mandar “bitaites”! É da natureza humana!

Só que uns fazem um esforço, mesmo ocasionalmente cedendo, para disso não terem amarras, e outros cedem e fazem disso coisa de vida normal…Também é da natureza humana. Mas mal…

A questão pode-se colocar em várias vertentes, diria até que variadíssimas, mas vou-me ater apenas a uma ou duas.

Comecemos pela imprensa escrita. Eu todos os dias apenas leio, antes de me deitar, as capas dos jornais. Mas cedo a lê-las todas, inclusive as do Correio da Manhã e do “I”. Pelas do Desporto já só passo mesmo de soslaio. Mas, ao mesmo tempo, quando estou em casa, e tenho estado pouco, e nesse tempo em que não tenho estado nada tenho visto ou ouvido, cedo sempre à tentação de fazer o tal de “zapping”. Só que, e esta é a minha verdade, aí não cedo a ficar na TVI 24 quando passa a noite a falar de casos de polícia e ultrapasso a correr todos os restantes canais até chegar à Sportv. E, se aí nada de interessante ocorrer, desligo mesmo a TV. É assim, quer acreditem ou não!

Como me mantenho informado? Simples: tal como escrevi no meu Facebook, a melhor maneira de estar informado é nada ver ou ouvir e ler apenas coisas de pessoas que pensam e são independentes, inteligentes e formadas…Se assim estou informado? Totalmente! Como o que quero e, francamente, não gosto de “palha”! Esse alimento é para outros…

Há dias, numa reunião familiar a tocar o completo, relembrando a minha e nossa Graciete, em conversa amena sobre estes temas, diante de pessoas da Família , uns Professores de Direito, outros gente da Economia e outros formados na Vida, eu declarei, alto e bom som: “ Eu não sei se sou o único, mas devo ser dos poucos que se podem orgulhar de nunca ter cedido à tentação de ter ouvido qualquer escuta ou ter sequer lido quaisquer transcrições (ilegais) de todos esses processos mediáticos que, de há anos a esta parte, tanto têm sido propalados em toda a comunicação social. Uns mais privilegiadamente que outros, sem dúvida, mas todos. Nunca cedi a ouvir nem ler nada. Seja do “Apito Dourado”, seja da “Operação Marquês”, seja da do “ Ferro Velho”, seja dos “Emais”, seja do raio que o parta…disso nada sei e continuo sem saber! “

Todos algo já tinham lido ou ouvido! E quase todos formaram uma pequena opinião que fosse…nem que tal fosse ditado pela tal inércia…O que nunca me impediu de ter a “minha “ opinião!

Eu posso orgulhar-me que, nesse aspecto, nunca cedi. E porquê? Porque tudo aquilo foi obtido, cedido, entregue, adquirido, ou seja lá como tenha sido, de forma ILEGAL! E nisso nunca transigi!

Pecador? Sou com certeza e logo no início o admiti. Mas há limites. Como os há ou deveria haver no chamado “Jornalismo”.

Por exemplo: eu, que já vou fazer 64 anos no próximo mês, sou do tempo em que, não existindo ainda “redes sociais”, escolhíamos o Jornal para ler pela sua qualidade. Pela qualidade dos seus jornalistas, dos seus comentadores, dos seus colaboradores e pela qualidade literária que apresentavam. E tínhamos a Capital, o Diário de Lisboa, o Jornal do Fundão etc, e neles colaboravam todos os que de melhor havia nas Letras e nas Artes. A qualidade era a bitola!

E hoje? O que sucede hoje? Precisamente o contrário: a bitola, tanto nos jornais como, infelizmente, nas TV´s, é precisamente o contrário: quanto mais sórdido melhor. Quanto mais “vouyerista” melhor. E ultrapassa-se tudo em nome da concorrência e das audiências…e vale tudo… Até ceder na sua própria dignidade…Enfim…

Não, não vale tudo! Pelo menos para mim, e espero que para a maioria dos meus Amigos, não vale tudo.

A nossa Dignidade, a nossa Lucidez e a nossa Clarividência como Homens livres e conscientes do nosso dever enquanto tal, a isso não se podem permitir…

Pecadores, sim, agora agentes do retrocesso civilizacional? NUNCA!

E não falei de “incêndios”, essa coisa tão nova e recente…


Fonte aqui

Anúncios

Síndrome do sobrevivente – A culpa de continuar a existir

(Por José Gabriel, in Facebook, 21/06/2017)

tvi1

Alguns amigos discordam do tom cáustico que muitos de nós têm usado na crítica à cobertura televisiva da tragédia de Pedrogão Grande. Por mim, admito que algumas das abordagens que aqui tenho feito têm sido algo duras, já que considero esta questão fundamental, e de um alcance que está longe de se limitar a estes eventos.

Nesse sentido, julgo, até, ter sido contido. Para além de a maioria dos repórteres fazer um trabalho de manipulação das consciências na mais grosseira linha tablóide – enquanto nos estúdios se trata das tarefas de manipulação mais tecnicamente política – quase todos jogam um jogo muito perigoso ao insistir em remexer nas emoções e feridas emocionais das vítimas com, por vezes, o entusiasmo de um torturador.

Os sinais de dificuldade em assumir a própria sobrevivência e o sentimento de culpa que se vai instalando no espírito de muitas destas pessoas pode ter consequências a longo prazo gravíssimas. O chamado “síndroma do sobrevivente”, amplamente estudado, sobretudo no pós-guerra e a propósito dos sintomas psíquicos apresentados por muitos dos sobreviventes – o caso das vítimas do Holocausto é o mais notório -, pode gerar nos que sobrevivem a uma calamidade, uma guerra ou, até, um despedimento colectivo a que se escapa, um quadro que leva à auto-culpabilização, com sintomas físicos, psíquicos, comportamentais cujas consequências podem ser funestas.

Não aceito nem acredito que os repórteres não saibam disso. Por isso, não há perdão para muitas das técnicas de interrogatório – meço as palavras – que utilizam quando cercam as vítimas, de microfone em riste. O título que chegou a figurar na capa do Público a propósito de uma tragédia familiar de um homem que perdeu a mulher e duas filhas mas salvou-se e salvou outros familiares num outro carro – “Mário mandou mulher e filhas para a morte” – penso dar a medida do que estou a tentar transmitir e explica porque, apesar de tudo, considero, como muitos dos meus amigos, ter sido contido e sóbrio nos termos usados.

É que a desorientação, a inconsciência, a boçalidade que têm perpassado por muitos dos trabalhos de reportagem – designadamente a repetição até à náusea de entrevistas às vítimas mais desesperadas – , não são só tendenciosos e profissionalmente indigentes. São perigosos. Muito perigosos.

Jornalistas da SIC e da TVI

(In Blog O Jumento, 18/06/2017)

fogo2

Pedrógão Grande foi vítima de uma tempestade de fogo, a combinação entre ventos fortes e de múltiplas direções em conjunto com uma trovoada desencadeou um incêndio de grandes dimensões. Um pouco mais tarde e com dimensões muito menores o fenómeno registou-se em Lisboa, onde por volta das seis da tarde se registou uma trovoada seca acompanhada de rajadas de vento.

Mas o que preocupa muitos dos jornalistas deslocados para o local não foi dar notícia do que sucedeu ou do que estava sucedendo, ávidos de morte e de sofrimento os jornalistas procuraram imagens que chocassem, que atraíssem espetadores, a TVI24 foi a vencedora, logo de manhã encontrou mortos na estrada e apesar das insistências da GNR para se afastarem insistiam em filmar.

Depois, desrespeitaram um familiar das vítimas que se encontrava no local, aproveitaram-se de alguém que passava por um momento difícil para expor o seu sofrimento em direto.

A SIC Notícias encontrou um possível motivo para culpas e quando ouviram que o sistema de comunicações Sirene tinha tido uma falha não se cansaram de procurar quem lhes dissesse que havia relação entre essa pequena falha e a tragédia. Já não era o que sucedia que devia ser notícia, o importante era beliscar as autoridades para agradar ao dono da estação de televisão, tantos mortos vinham mesmo a calhar.

Explora-se o sentimento de quem sofre, a impaciência de quem quer chegar a casa, incendeia-se o ambiente sugerindo que a GNR se atrasou a fechar estradas, chegam onde o INEM ainda não chegou e acendem o rastilho da revolta. Depois da trovoada seca chegaram a Pedrógão Grande estes jornalistas incendiários. às vezes tenho vergonha dos nossos jornalistas, uma classe que no passado granjeou grande prestígio mas que nos dias de hoje há muitos profissionais que não dignificam a sua própria classe.

Na busca de encontrar culpados para crucificar ainda antes de os incêncdios estarem controlados a SIC ainda entrevistou um senhor zero da associação “Zero”. É sabido que os ambientalistas são uns produtores de culpados e este zero á esquerda não desiludiu, não fez a mais pequena referência às consequências ambientais, disse as banalidades sobre pinheiros e eucaliptos, logo ali e sem qualquer base falou em descoordenação de meios. Enfim, um nojo.