Acerca da manipulação triunfalista

(Daniel Vaz de Carvalho, in Resistir, 29/04/2022)

O jornalismo no dito ocidente alinha num contexto que só se entende numa guerra entre a Rússia e a NATO. A orientação é dada a partir de Washington, sem sequer tentar manter as aparências.

Factos inverosímeis são dados como certos, as evidências rejeitadas, a paixão suprimiu a lógica. As centrais de desinformação produzem noticias à medida das estratégias EUA/NATO e os “comentadores” palram sobre a realidade virtual que lhes é dada sem preocupação de ter ou confirmar provas. Passaram de especialistas em economia, em climatologia, em virologia, a especialistas militares em estratégia e planeamento tático. O mais espantoso é que recusam ouvir os verdadeiros especialistas destas matérias e, quando não pode deixar de ser, remetem evidências e considerações cientificas para a categoria de “opiniões”…


Continuar a ler no link abaixo:

Acerca da manipulação triunfalista


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Comunicação amarela

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 08/04/2022)

Nos casos aqui referidos, a atribuição de culpas ocorre rapidamente após um sumaríssimo processo de apuramento dos factos, uma vez pretender-se obter um efeito político. Mesmo que se venha a comprovar o contrário, o resultado pretendido já foi atingido.


A expressão “jornalismo amarelo” surgiu nos finais do século XIX, nos Estados Unidos. Tratava-se de uma forma de jornalismo que privilegiava o sensacionalismo sobre os factos. Contribuiu decisivamente para mobilizar a opinião pública norte-americana a abraçar a causa da guerra hispano-americana, em Cuba e nas Filipinas, acontecimento que marcou o início da expansão americana overseas.

O catalisador específico dessa guerra foi o afundamento do Maine, um navio da marinha de guerra norte-americana, que se encontrava fundeado no porto de Havana. Os promotores da designada imprensa amarela, que atribuíram a culpa à Espanha, desencadearam uma feroz campanha mediática responsável por criar as emoções propícias à aceitação da guerra. Hoje, conhecem-se as causas do afundamento do Maine, que não têm nada a ver com a versão na altura aceite. O afundamento tornou-se num conveniente pretexto instrumental para desencadear a guerra.

A História está repleta de casos semelhantes. Foram vários no Teatro de Operações da antiga Jugoslávia: o bombardeamento do mercado de Sarajevo, em agosto de 1995; o massacre de 45 alegados aldeãos albaneses kosovares, na aldeia de Račak, em janeiro de 1999. Ambos contribuíram para moldar psicologicamente a opinião pública internacional para aceitar, no primeiro caso, o bombardeamento dos bósnios sérvios e, no segundo, da Jugoslávia.

Ainda hoje subsistem muitas dúvidas quanto aos autores dos massacres. No caso de Sarajevo, é tremendamente questionável atribuir aos sérvios a autoria dos disparos, dado o ângulo com que os projéteis atingiram o solo. Apesar da pressão do quartel-general, em Nova Iorque, para garantir que não se estavam a cometer erros de avaliação, a responsabilidade foi atribuída ainda sem certezas quanto aos autores da desgraça.

No caso de Račak, William Walker, chefe da Kosovo Verification Mission, da OSCE, decidiu logo no local onde foram encontrados os corpos que tinham sido os sérvios os autores das mortes, algo imediatamente por eles contestado, acusando as vítimas de serem membros do Exército de Libertação do Kosovo, e, portanto, combatentes e não civis inocentes. Na análise forense verificou-se que os corpos tinham pólvora nos dedos indicadores, o que indiciava serem combatentes.

Em todos estes casos, a atribuição de culpas ocorre rapidamente após um sumaríssimo processo de apuramento dos factos, uma vez pretender-se obter um efeito político. Mesmo que se venha a comprovar o contrário, o resultado pretendido já foi atingido. Por isso, nalguns casos, por perceberem que podiam obter vantagens políticas, as fações não se inibiam de alvejar as próprias populações. Para tal, contaram com o trabalho de empresas de relações públicas e spin doctors encartados. Fui simultaneamente testemunha e alvo de casos destes. Algo impensável para cidadãos que nunca participaram nestas ‘andanças’.

O massacre em Bucha, um subúrbio de Kiev, fustigado pelos combates entre russos e ucranianos, não está isento de dúvidas, que urge esclarecer com celeridade. Como nas situações anteriormente mencionadas, mesmo que se faça uma investigação, ela será sempre tardia porque o acusado já foi identificado, para lá de qualquer dúvida razoável.

Afinal temos aprendido muito pouco. Continuamos a sobrepor as emoções à razão, e a ver o mundo a preto e branco. As nossas mentes continuam a ser moldadas de modo a aceitarmos visões simplicistas de realidades complexas. Perceções maniqueístas dão-nos mais conforto por confirmarem os nossos preconceitos e as nossas “certezas”. Bons e imaculados de um lado, maus e intragáveis do outro. Os bons nunca cometeriam crimes de guerra ou contra a humanidade, apenas porque são bons. O fact checking encontra-se missing in action..


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

O jornalismo e a propaganda de guerra

(Carmo Afonso, in Público, 04/04/2022)

É difícil distinguir a informação que as máquinas de propaganda russas e ucraniana põem a circular da que nos chega através do verdadeiro trabalho jornalístico. Há outras máquinas de propaganda a trabalhar e estão todas ao rubro. É um facto.

Poderia pensar-se que ninguém aceita ser informado pela propaganda de guerra mas é um erro. Algumas pessoas querem precisamente receber informação que corrobore na íntegra a sua interpretação da guerra. Aplaudem quem noticia factos que deem razão ao que têm vindo a dizer. Têm pouca, ou nenhuma, margem para dar atenção ao que contradiz, ou que julgam contradizer, essa interpretação.

Em tempos de guerra o jornalismo é especialmente preciso, mas nem todos o querem. A mediação entre o acontecimento e as pessoas, como meio adequado ao exercício do espírito crítico por parte destas, deixa de ser uma necessidade coletiva. As pessoas preferem as evidências que deem razão ao seu acantonamento. Chamam bom jornalismo àquele que as ajuda nesse processo.

O perigo é enorme. Passa a chamar-se propaganda ao que não lhes dá razão e jornalismo apenas ao que vem de encontro a esta. Grandes profissionais aos que defendem as suas visões do mundo e embustes a todos os outros. Mata-se o jornalismo, mata-se o pensamento. Acaba o escrutínio. A dialética da discussão pública fica inquinada e ainda mais estéril do que já é habitual.

Só que mesmo quem prefere a propaganda ao jornalismo precisa dele. Não se conseguiu ainda pensar numa forma de preservar as democracias ocidentais sem defender o jornalismo. O jornalismo fora destas democracias tem a vida dificultada mas estas democracias sem jornalismo não existem. Deverá então cuidar-se de o valorizar.

Assine já

Valorizar o jornalismo implica atacá-lo, na parte em que aceita difundir propósitos de propaganda, na parte em que se abstiver de procurar saber a verdade, de relatar os factos com rigor e sem cuidar avaliar a quem agrada ou desagrada.

O grande crítico do jornalismo foi Karl Kraus, o homem que lhe dedicou a sua vida como um sacerdócio. Escreveu durante 37 anos – desde 1899 e até à sua morte – na revista Die Fackel e acabou a fazer a publicação sozinho. Parte do seu trabalho jornalístico era a própria crítica jornalística. Deveriam recuperar-se os seus ensinamentos puros e radicais. Kraus criticava a manipulação da opinião pública por parte do jornalismo; dizia que, mais do que manipular a opinião dos leitores, inquinava a possibilidade de fazerem uma análise própria.

Foi Kraus que disse que o jornalismo se deveria sentar no banco dos réus por ter responsabilidade na disseminação da violência que levou à 1ª Guerra Mundial. Não aconteceu nem metaforicamente. O jornalismo nunca se destacou pela autocrítica.

Na verdade, a lógica do banco dos réus leva quase sempre a que todos se sentem lá. Nos processos colectivos poucos estão isentos: as pessoas que não querem jornalismo mas sim propaganda; o jornalismo que lhes faz a vontade; quem assiste e nada diz. Quando o que queremos defender tem falhas, tem de se começar por expurgá-las. E não se pode fazê-lo sem as apontar.

Esse banco deveria ter um lugar guardado para a União Europeia. Errou quando censurou o canal russo RT e a agência de notícias Sputnik. Foi uma decisão ao nível do que se critica, e bem, em Putin, que fez o mesmo com a BBC e a Deutsche Welle. Quem se sentiu agradado com essas decisões é fraco defensor dos valores democráticos.

Não estamos em guerra mas estamos muito perto de uma. Uma guerra que já fez muitas vítimas. Não se deve permitir que faça mais uma: a verdade. Nesta fase, só o jornalismo a poderá evitar.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.