O populismo jornalístico

(António Guerreiro, in Público, 28/09/208)

Guerreiro

António Guerreiro

São demasiado optimistas as manifestações públicas de regozijo por Portugal permanecer até agora impermeável ao populismo. Há um ambiente populista na nossa sociedade, alimentado e amplificado pelos actuais dispositivos desenvolvidos pelos media televisivos, radiofónicos e, cada vez mais, também pela imprensa escrita (um populismo onde os políticos se sentem investidos na condição de jornalistas e os jornalistas assumem a condição de políticos).

Há um clima deletério que os media atiçam sempre que há uma ocasião favorável, recorrendo à teatralização e à dramatização que solicitam os afectos e criam clivagens irracionais, pessoalizações passionais, dilatações demagógicas. O último pico de calor neste ambiente de populismo difuso foi a substituição da Procuradora Geral de República, Joana Marques Vidal.

Como pudemos verificar, o resultado do processo, como é próprio do populismo, acaba por ser a despolitização — a despolitização generalizada da matéria política. Quem tomar atenção aos pequenos e grande sinais, com olhar de analista, descobre facilmente que a escrita jornalística, mesmo nos jornais que gostam de se reclamar como “de referência” (algo hoje tão inexistente como o unicórnio), se inclina cada vez mais — num gesto que se vai naturalizando e tornando-se mimético — perante este ambiente, induzindo uma audiência e afastando progressivamente o público mais exigente.

Experimentemos olhar para três títulos de artigos recentes: “Oh Joana, pensar que estivemos tão perto” (Pedro Candeias, Expresso), “Aprende, Joana: em Portugal quem manda é o PS” (João Miguel Tavares, PÚBLICO), “Joana e Lucília” (editorial do PÚBLICO, por Ana Sá Lopes,).

Quem é esta Joana, nomeada com a mesma familiaridade (pelo menos nos dois primeiros artigos, o de Ana Sá Lopes é, quanto a este aspecto, de mais baixa intensidade) com que se nomeia a colega de turma? É a PGR. De repente, passa-se da função-PGR para a pessoa que a exerce, na sua identidade civil. Ou seja, passa-se da entidade pública para a pessoa privada. O jornalista expõe a pessoa enquanto tal, na sua nudez, como se tivesse a prerrogativa da objectivação e do tu cá, tu lá, criando uma proximidade artificial e arrogante que, na sua lógica extrema, vai dar ao “oh palhaço!” da invectiva popular.

Se verificarmos com atenção, este tipo de títulos está hoje disseminado na nossa imprensa, mesmo quando depois nem correspondem ao tom mais sóbrio dos artigos. Mas não são apenas os títulos “sexy” que caracterizam este regime populista da escrita jornalística. Para fazer subir a temperatura populista, esta escrita jornalística recorre ao artifício da teatralidade, da tirada lúdica ou humorística: o jornalista ocupa o lugar da “vox doxa”, faz falar uma improvável “sociedade civil”.

Tudo isto é servido por uma linguagem simples, por um vocabulário e uma sintaxe que são a forma necessária e consubstancial dos conteúdos simples, das ideias elementares. O editorialismo difuso e primário deste “building journalism”, que é um jornalismo sentado (aquele a que pertence hoje toda oligarquia instalada nos jornais), contaminou a escrita jornalística.

E é fácil perceber que esta escrita se empenha, consciente ou inconscientemente, em imitar o modelo retórico e teatral das redes. Não se trata, aqui, de demonizar as redes. Mas a escrita jornalística (compreendo, com esta designação, também as secções de opinião) deveria ser outra coisa diferente. Não deveria, sobretudo, contribuir para as ondas de gritaria, tagarelice e teatralização enfática que emergem constantemente no espaço público. Essa escrita está destinada a falar apenas para o público que ela cria. É suicidária.

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Sarjeta

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 28/08/2018)

LOUCA3

(O Sol, capitaneado pelo arquitecto Saraiva, essa sumidade que um dia achou iria ganhar o Prémio Nobel da Literatura, mas que o melhor que conseguiu foi escrever uma cusquice literária de devassa dos segredos de alcova de muita gente da política, está a tentar ultrapassar o Correio da Manhã, pela direita alta… 

Intriga, calúnia, e suspense, são os ingredientes recorrentes. 

Mais um pasquim a dar à costa na sarjeta a céu aberto em que se está a tornar a comunicação social em Portugal.

Comentário da Estátua, 28/08/2018)


A exuberante manchete do “Sol” na semana passada (“O mistério da casa de férias do deputado João Galamba”) é um exemplo de escola sobre o que é o jornalismo de sarjeta. Conta o jornal que uma casa de férias alugada pela mãe de Galamba ainda não teria sido devolvida ao proprietário, o Estado, depois de a locatária ter morrido precocemente há semanas. Para apimentar a coisa, sugere que o deputado e a irmã estariam a passar alegremente férias nessa casa (“desde 2012”).

Não sei o que é mais lamentável na notícia, se o editor ter escolhido um escrito sem notícia para destacar na capa, se o jornal soprar que, perante a morte tão recente, a família devia priorizar este acerto de contas, se ignorar que o prazo para a comunicação ao proprietário ainda está longe de se ter esgotado ou que o viúvo tem direito à continuidade legal do arrendamento até ao fim do seu prazo legal. Talvez o mais sinistro seja mesmo a insensibilidade de fazer política com esta morte. Tudo isso é rasca. Bem lida a notícia, só nos podemos perguntar por que raio é que alguém quis escrever esta peça. Mas a falta de vergonha é uma condecoração neste jornalismo.

Segundo a Lei de Trump, não importa que seja mentira, o que importa é que os fanáticos se fanatizem com estas coisas, que as repitam incessantemente e que façam delas uma religião nas redes sociais

É, aliás, um sistema. Suponho que o entusiasmo do diretor pela escolha da manchete pode ter vagamente a justificação das audiências, pensando que possam ser puxadas pelo odor de escândalo, num jornal que arruinou meticulosamente a sua reputação e as suas vendas. Já seguiu a mesma estratégia no caso Casa Pia e, na verdade, em qualquer oportunidade de demonstrar que se pode fazer jornalismo desta estirpe. A regra é, quanto pior melhor.

Ora, o problema é que isto serve, não há dúvida. É aliás por isso que alguém arrisca na operação a reputação do jornal, logo forçado a desmentidos sucessivos, quando não os consegue evitar ou esconder. O que neste campeonato conta é o efeito, a multiplicação de posts e tweets e boatos e maledicência.

Segundo a Lei de Trump, não importa que seja mentira, o que importa é que os fanáticos se fanatizem com estas coisas, que as repitam incessantemente e que façam delas uma religião nas redes sociais. Já o escrevi e repito com este caso: esta manchete do “Sol” é um exemplo de como a direita, que sabe que perde as próximas eleições, vai fazer política. Feia, porca e má. E mentira, antes de mais.

Mais um marco a caminho da ignorância atrevida e do deficit cívico

(José Pacheco Pereira, in Público, 30/06/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Em 1864, o primeiro editorial do Diário de Notícias era um documento notável e absolutamente moderno. Repare-se nesta frase-programa: “registar com a possível verdade todos os acontecimentos, deixando ao leitor, quaisquer que sejam os seus princípios e opiniões, o comenta-los ao seu sabor.

Eu compreendo que os jornalistas que sobram no novo projecto a que se vai dar o nome de Diário de Notícias reafirmem que para eles o que se diz no velho editorial continua válido. Podem ter essa impressão subjectiva, mas não é verdade. Já não era verdade há muito para uma parte dominante do jornalismo português, incluindo o Diário de Notícias, e é-o muito menos agora. Isto porque a crise do jornalismo português antecede estas passagens ao online de publicações falidas em papel.

Não é modernização, é redução drástica de custos com a mudança do produto, beneficiando do valor residual de uma marca de prestígio. O que vai surgir não é um novo Diário de Notícias, é outra coisa, é um site de notícias sem dinheiro que chegue para pagar jornalismo de qualidade, investigação, opinião a sério, com um semanário em papel acoplado. Com tempo irá embora o semanário e o resto se verá. Desculpem a crueldade, mas é mesmo assim. Desejava e muito que não o fosse.

O “único fim” que o editorial de 1864 enunciava era este: “interessar a todas as classes, ser acessível a todas as bolsas e compreensível a todas as inteligências”. Repare-se na lista dos temas propostos para o novo jornal: política, ciência, artes, literatura, comércio, indústria, agricultura, crime e estatísticas. E se o critério for, como deve ser, ter notícias, esprema-se este primeiro número do Diário de Notícias e saem muitas notícias. Hoje, em muitos jornais, espreme-se e sai ar e vazio, ar muito parecido com o do jornal do lado. Mesmo saber que “Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes” era o equivalente da exigência actual de conhecer o estado de saúde dos governantes.

Os jornais portugueses, uns mais do que outros, deixaram há muito de querer “interessar a todas as classes”, deixando de fora das suas páginas uma parte maioritária dos portugueses, cujos problemas no trabalho, na escola, na casa, na vida quotidiana, de segurança, de violência e crime, não chegam aos jornais em contraponto com uma qualquer performance “artística” que ocupa duas páginas ou com as encomendas das agências de comunicação, cuja origem é ocultada aos leitores. Falta cobertura independente e isenta dos negócios, das empresas, em particular das grandes empresas e dos centros de poder fáctico, como os grandes escritórios de advocacia de negócios. Não é por acaso que todos têm agências de comunicação. A arte e a cultura, tantas vezes medíocre, mas urbana e trendy, tem uma cobertura particularmente acrítica, mas com lugar nobre. O que falta? Um exemplo: em plena luta dos professores, o que é que sabemos da condição de se ser professor hoje, numa escola comum, com alunos comuns, mas reais, os que existem, os que lá estão? Quase nada, muito pouco. Não é glamoroso, eu sei.

PÚBLICO -

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Outra preocupação do editorial era o “estilo fácil” e “conciso”, “compreensível a todas as inteligências”, hoje diríamos a diferentes graus de cultura e literacias, preocupação que há muito deixou de existir. Era possível fazer uma compilação do tamanho deste jornal de frases rebuscadas e incompreensíveis, muitas vezes apenas por pedantice ou ignorância em notícias e reportagens, mostrando a debilidade da edição, um dos grandes problemas do jornalismo actual e da fragilização das redacções. Mas a recomendação seguinte é ainda mais actual: “nele são vedados” “absolutamente” a “exposição dos actos da vida particular dos cidadãos”, e será “escrito em linguagem decente e urbana”. A hipocrisia de aceitar os comentários não moderados, ou, pior ainda, moderá-los no jornal e depois permitir o Facebook sem regras, mostra como o valor da “linguagem decente e urbana” é puramente retórico. É que esses comentários grosseiros e sem nenhum valor informativo fazem parte do jornal e, com a passagem ao online, ainda vão ser mais centrais devido à economia dos cliques.

O editorial define uma fronteira – “eliminando o artigo de fundo, não discute política, nem sustenta polémica” –? que o Diário de Notícias nunca cumpriu, em particular na direcção de Augusto de Castro. Foi um típico jornal de interesses e de regime, ligado à moagem e ao Estado Novo, até ao 25 de Abril. Depois foi também um típico jornal do PREC, com Saramago a fazer os estragos que esses anos trouxeram à vida pública portuguesa, de qualquer modo infinitamente menores do que os 48 anos de ditadura.

Eu não tenho nenhuma nostalgia do papel, embora saiba que há aí coisas que não emigram para o online e que são vitais para se fazer jornalismo e opinião numa sociedade democrática e livre. Mergulhar no online tem o risco de aproximar o jornal do implodir subjectivista e egoísta das redes sociais, uma das fontes do populismo e do afastamento da vida cívica democrática. Vamos ver como será, mas à partida não é brilhante. Seja bem-vindo o novo site de notícias e o semanário que usa o nome do Diário de Notícias. Boa sorte!