Reflexões sobre a guerra com o Irão

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 25/04/2026, Revisão da Estátua)

Earth showing tectonic plate boundaries glowing with lava cracks engulfing the planet
Imagem gerada por IA

Fazendo uma análise estratégica e política da guerra com o Irão, focando menos nos combates e mais nas implicações geopolíticas e nos erros de cálculo envolvidos, podemos salientar os seguintes aspetos:

1. Matar líderes não resolve o conflito

A ideia de eliminar figuras-chave (no caso, os líderes iranianos) não enfraqueceu necessariamente o regime. Pelo contrário, tendeu a radicalizar a liderança restante, a fragmentar o poder em grupos ainda mais difíceis de controlar e a prolongar o conflito.

2. O fim desta guerra é mais importante que o seu início

A questão central não é “quem ganha”, mas sim como a guerra termina. Vejamos, os seguintes possíveis cenários: uma vitória declarada sem resolver o problema (o conflito continua); um acordo negociado (muito difícil dada a falta de confiança mútua); uma guerra de desgaste muito longa (talvez o mais provável).

Ou seja, podemos deduzir que as guerras modernas raramente terminam com um completo esclarecimento.

3. Uma escalada imprevisível (ex: Estreito de Ormuz)

Esta guerra mostra que algumas “linhas vermelhas” podem ser ultrapassadas.

Um exemplo é o bloqueio do Estreito de Hormuz – algo antes considerado improvável –  e que levou ao aumento do preço do petróleo e à perturbação do comércio global.

4. Um impacto económico global imediato

Mesmo países distantes acabaram por sofrer efeitos diretos deste confronto, como por exemplo, a energia mais cara, as cadeias logísticas bastante afetadas e a inviabilização de muitos projetos económicos.

Esta guerra regional alastrou rapidamente acabando por se tornar num problema global.

5. O regime iraniano pode sobreviver

Apesar de todos os ataques e da morte de alguns líderes, não houve colapso pois os regimes autoritários tendem a resistir sob pressão e até porque uma eventual queda deste regime poderá gerar um caos ainda pior (ex: Iraque, Líbia)

6. A ordem mundial está em transformação

De facto, esta guerra está a contribuir para acelerar mudanças bem maiores, enfraquecendo a influência dos EUA, dando mais importância e visibilidade para a China e a Rússia e, também, aumentando a relevância dos atores não estatais (ex: proxies, milícias).

7. Esta guerra é sintoma de um sistema global frágil

Este conflito está a revelar algo mais profundo:  Que as instituições internacionais são incapazes de evitar guerras; que muitas decisões estratégicas se basearam em perceções erradas e que a actual interdependência global amplifica as crises

A ideia que fica: Esta guerra com o Irão não é um conflito “limitado”, mas sim um evento que está a expor erros estratégicos, riscos de escalada e a fragilidade da atual ordem internacional.

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E os vencedores da guerra do Irão são… Wall Street, a indústria das armas, a IA e as renováveis

(Notícias Zap in Zap.aeiou, 18/04/2026)

Manifestação “Liberdade para o Irão” de iranianos exilados em frente às Portas de Brandemburgo, em Berlim

A banca está a resistir bem à incerteza — principalmente porque Trump acaba sempre por se acobardar. A indústria de defesa vive o seu melhor momento em anos, a IA está em alta, e as ameaças ao fornecimento de petróleo derem um empurrão às renováveis. Nem toda a gente saiu a perder com a Guerra do Irão.


A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão e o encerramento do Estreito de Ormuz ensombraram a economia mundial, levando o FMI a reduzir a previsão de crescimento para 2026 de 3,3 para 3,1%.

No pior cenário, o de um conflito prolongado, o FMI avisa que o crescimento poderá cair para 2,5%, com os países em desenvolvimento a suportarem o maior peso da escalada dos preços das matérias-primas e da energia.

Ainda assim, no meio da turbulência, algumas indústrias não estão apenas a sobreviver — estão, na verdade, a prosperar, nota a Al Jazeera.

É o caso dos mercados de Wall Street, que estão a lucrar com o caos. A volatilidade provocada pela guerra e pelas decisões imprevisíveis do presidente norte-americano Donald Trump acabou por provocar na verdade um aumento de atividade nas transações bolsistas.

Recentemente, os operadores de mercado cunharam o termo “TACO trade“, ou “doutrina TACO”, para descrever o efeito chicote dos ultimatos presidenciais seguidos de volte-faces, que explicam por que motivo as bolsas resistiram à incerteza após cada nova ameaça do presidente. A expressão é um acrónimo de “Trump Always Chickens Out”: Trump acaba sempre por se acobardar.

Para os bancos de investimento, esta febre traduz-se em maiores comissões e maiores margens de negociação.

Os resultados do primeiro trimestre de 2026 falam por si: o Morgan Stanley registou lucros de 5,57 mil milhões de dólares, uma subida de 29% em termos homólogos; o Goldman Sachs reportou 5,63 mil milhões, mais 19 %; e o JP Morgan Chase obteve 16,49 mil milhões, um aumento de 13%.

Os três bancos apontaram o elevado volume de transações e o forte envolvimento dos clientes como principais fatores. No entanto, os analistas alertam que a bonança poderá não durar: uma incerteza prolongada poderá acabar por tornar os investidores demasiado cautelosos para continuarem a negociar a este ritmo.

Os mercados de previsões estão em expansão a par de Wall Street. A plataforma Polymarket, assente em criptomoedas, tem vindo a faturar mais de um milhão de dólares por dia desde o início de abril, ao permitir que os utilizadores façam apostas sobre tudo e mais não sei quê — desde eleições à própria guerra do Irão.

Após rever a sua estrutura de comissões a 30 de março, a plataforma arrecadou mais de 21 milhões de dólares só na primeira quinzena de abril, ofuscando os 6,23 milhões de todo o mês de fevereiro. Se a tendência se mantiver, a Polymarket poderá gerar 342 milhões de dólares em comissões este ano.

Os ganhos, contudo, concentram-se no topo: segundo um relatório do analista de criptomercados Andrey Sergeenkov, que analisou 70 milhões de transações, os 1% de utilizadores com melhores resultados ficaram com 84% de todos os lucros.

A indústria de defesa vive o seu melhor momento em anos. Segundo o FMI, com os grandes conflitos em curso na Ucrânia, no Irão, em Gaza, no Sudão e no Líbano, quase metade dos países do mundo aumentaram os orçamentos militares nos últimos cinco anos.

Sem surpresa, a procura de armamento está a disparar, sobretudo na Europa, onde os membros da NATO se comprometeram a elevar a despesa com defesa para 5% do PIB até 2035.

Também a Inteligência Artificial continua a desafiar a conjuntura adversa. O organismo das Nações Unidas para o comércio projetava que o sector da IA crescesse de 189 mil milhões de dólares em 2023 para 4,8 biliões de dólares em 2033, e até agora a guerra pouco alterou essa trajetória.

Taiwan, a potência mundial dos semicondutores, registou exportações recorde de 80,2 mil milhões de dólares em março, uma subida de 61,8% em termos homólogos, lideradas por um salto de 124% nas expedições para os EUA.

TSMC, o principal fabricante de semicondutores da ilha, apresentou um resultado líquido de 18,1 mil milhões de dólares no primeiro trimestre, um aumento de 58%. A confiança no sector mantém-se elevada, com os líderes da IA, Anthropic e OpenAI, a planearem ofertas públicas iniciais ainda este ano.

Finalmente, as energias renováveis poderão ser o beneficiário mais relevante da guerra. O conflito representa o terceiro grande choque energético desta década, depois da pandemia e da invasão russa da Ucrânia, e veio intensificar o impulso global para o abandono dos combustíveis fósseis.

Os países asiáticos que dependem do petróleo do Golfo, que transita obrigatoriamente pelo Estreito de Ormuz, que foi finalmente nesta sexta-feira reaberto ao trânsito internacional, foram obrigados a adotar medidas de emergência — do racionamento de combustível novos projetos de produção de energia a partir de fontes renováveis.

Segundo um relatório recente da Agência Internacional de Energia, 150 países têm atualmente políticas ativas de promoção das renováveis.

Os mercados reagiram em conformidade: o índice S&P Global Clean Energy Transition, que acompanha 100 empresas de energias renováveis em todo o mundo, acumula uma valorização de 70,92% em termos homólogos.

As consequências económicas da guerra estão longe de terminar, mas para estes cinco sectores, a crise significou, pelo menos por agora, uma oportunidade de crescimento. A guerra não está a correr mal para todos.

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Pequim para Telavive e Washington: “Israel deixará de existir no momento em que usar uma arma nuclear!”

(Dimitris Konstantakopoulos, in Defend Drmocracy Press, 20/03/2026, Trad. Estátua)


No presente artigo, apresentaremos as razões pelas quais uma guerra nuclear no Médio Oriente é agora bastante possível, a intervenção dissuasora da China que interrompeu um período de perigosa tolerância a Israel por parte das grandes potências, e a relação entre o que está acontecendo no Médio Oriente e o que está a acontecer na Ucrânia e no continente americano, particularmente em Cuba.


Da invasão do Iraque (2003) ao ataque ao Irão (2026)

Temos alertado desde 2006  para a quase inevitabilidade do uso de armas nucleares contra o Irão, caso Estados e movimentos poderosos não o impeçam.

Essa inevitabilidade decorria da necessidade de concluir o programa neoconservador, concebido sob a orientação, o apoio e o financiamento de Netanyahu, um programa que visava à completa dominação regional de Israel (“Grande Israel”) no Médio Oriente, por meio da destruição, fragmentação e desintegração caótica de todos os Estados da região, inclusive os pró-ocidentais, e também à dominação global de Israel e dos EUA. Esse programa precisava de ser concluído com a conquista do Irão (se não também da Coreia do Norte). Contudo, tal feito parecia impossível com armas convencionais, especialmente com base na experiência da invasão do Iraque e, como as coisas estão, permanece inatingível com forças convencionais.

Desde então, temos argumentado que, para evitar chegar a esse ponto, seria necessária uma resistência decisiva dos povos e dos Estados a esses planos. De facto, houve alguma reação por parte de Obama, que assinou um acordo com Teerão (que Trump anulou) e evitou invadir a Síria após a provocação com o suposto ataque com armas químicas. No entanto, embora tenha reagido a essas questões, ele cedeu ao lobby sionista em várias outras, como a aceitação de políticos controlados pelo lobby (como Hillary Clinton e Nuland) no seu governo, o ataque à Líbia e a permissão para que a profundamente sionista e neoconservadora Victoria Nuland, juntamente com o então diretor da CIA, organizassem o golpe de Maidan na Ucrânia. A sua oposição parcial aos planos de Israel e do lobby para o Irão e a Síria não foi suficiente para erradicar permanentemente esses planos, nem certamente a influência do lobby. Então veio o Sr. Trump, uma construção e um instrumento de Benjamin Netanyahu, um dos maiores embustes políticos de todos os tempos, alegando ser contra “guerras intermináveis” e insinuando ser amigável com a Rússia. Já durante o seu primeiro mandato, Trump, “pró-Rússia” e “pró-paz”, anulou o acordo com o Irão, tentou iniciar uma guerra com o Irão assassinando o General Soleimani e armou a Ucrânia até aos dentes (uma Ucrânia à qual Obama se recusara a fornecer “armas letais”). Veja: Trump pode ser uma solução?

Assim, Trump lançou as bases para o seu segundo mandato, durante o qual já testemunhámos uma orgia de desmantelamento do direito internacional, a negação do humanismo e da civilização elementar, o lançamento de ameaças, operações de gangster, intimidações contra uma série de países, e finalmente a guerra que estamos a presenciar contra o Irão. Já está claro que Netanyahu e Trump estão a tentar impor uma nova ordem internacional que não difere substancialmente daquela idealizada por Adolf Hitler. Eles também se aproveitaram do envolvimento da Rússia na Ucrânia para fazer tudo isso, bem como das escandalosas mentiras que espalharam sobre seus verdadeiros planos e intenções.

Uma das razões pelas quais Trump (e essencialmente Netanyahu, por trás dele) agiu tão rapidamente contra tantos alvos simultaneamente é provavelmente a crença do núcleo imperialista de que não haverá uma reação significativa da Rússia enquanto as negociações sobre a Ucrânia continuarem, e da China enquanto um acordo comercial estiver pendente.

A ameaça nuclear torna-se concreta. Os modelos “Dresden” e “Hiroshima”

Voltando agora ao Irão, desde o início da guerra atual, tanto nós quanto outros observadores internacionais de renome temos apontado o risco de que o regime sionista e/ou os EUA – que, afinal, são controlados pelo primeiro – possam usar as armas nucleares que possuem para destruir o Irão. Ver os seguintes textos:

  1. Questão Nuclear | James K. Galbraith 
  2. Israel e/ou os Estados Unidos usarão armas nucleares?
  3. Quebrando o Tabu Nuclear
  4. Fórum do  Instituto Schiller alerta para guerra nuclear global e defende nova arquitetura de segurança
  5. Jeffrey Sachs: Israel poderia usar armas nucleares contra o Irão

Além disso, o próprio Netanyahu, refutando as acusações de genocídio contra os palestinianos, lembrou aos ocidentais Hiroshima e Nagasaki, mas também os bombardeamentos convencionais dos Aliados contra cidades alemãs no final da Segunda Guerra Mundial, que tiveram consequências semelhantes às de ataques nucleares. Essencialmente, ele disse: “já que vocês tiveram o direito de destruir Hiroshima e arrasar Dresden, eu também tenho esse direito”. Ele disse isso e fez isso em Gaza com meios convencionais, enquanto um dos seus ministros ameaçou fazer o mesmo com armas nucleares.

Além disso, em junho passado, já tínhamos ultrapassado o limiar nuclear com os ataques às instalações nucleares iranianas, que inevitavelmente libertam radiação.

Anteontem, Israel utilizou a “fórmula de Dresden” ao atacar instalações energéticas do Irão, provocando a resposta previsível e inevitável dos iranianos – que haviam avisado sobre ataques em todo o Médio Oriente -, enquanto simultaneamente devastavam o Líbano e buscavam incitar jihadistas sírios a envolverem-se militarmente contra o Hezbollah. Isso já causou enormes danos à economia global e imenso prejuízo ao clima e ao meio ambiente. Mesmo que a guerra termine amanhã, teremos que esperar pelo menos até 2027 para ter esperança de uma reversão das consequências económicas, caso uma grande crise económica não tenha sido já desencadeada. Estima-se que a vida de dez milhões de indianos já esteja diretamente ameaçada devido à crise do petróleo. É duvidoso que os impactos sobre o clima e o meio ambiente possam ser revertidos, e eles correm o risco de acelerar a trajetória do planeta rumo a um holocausto ecológico.

Além disso, o assassinato dos líderes mais importantes, influentes e experientes do Irão por Israel e pelos EUA complica qualquer esforço para uma resolução pacífica.

Contudo, a utilidade do modelo de Dresden tem um limite, como ficou evidente desde o início. Israel corre o risco de perdas muito elevadas (inaceitáveis ​​na terminologia da estratégia nuclear), enquanto a destruição completa do Médio Oriente é agora uma possibilidade concreta, testando os limites dos Estados Unidos, da Europa, da Índia e de muitos outros países. E é isso que torna o cenário de “Hiroshima”, o próximo elo na cadeia fatal de escalada, relevante neste momento.

E não sou só eu ou alguns analistas que dizem isso. É o próprio “czar” do presidente Trump para inteligência artificial e cripto moedas, David Sachs, o homem que organizou o Vale do Silício para Trump. Sachs argumentou que existe um risco real de Israel usar armas nucleares para destruir o Irão, já que não conseguiria de outra forma. Sachs pediu ao presidente que evitasse as recomendações e pressões – existentes, como ele revela – para uma invasão terrestre e mudança de regime, que declarasse vitória e que saísse da guerra.

O alerta de Sacks surgiu um dia após a renúncia do chefe da agência antiterrorista, que afirmou que Israel empurrou os EUA para uma guerra no seu próprio interesse, e não no interesse dos EUA.

China emite alerta

Essas declarações, e muito provavelmente as informações que o país possui, provocaram uma declaração não oficial, mas muito dura, de Pequim. Esta é a primeira vez que uma grande potência interrompe a tolerância sem precedentes de que Israel e seus aliados desfrutavam, uma tolerância que agora levou a humanidade para a beira do abismo.

Especificamente, Victor Gao, vice-presidente do Instituto Chinês para a China e a Globalização, quando questionado sobre o que as duas potências nucleares, Rússia e China, fariam caso Israel utilizasse armas nucleares, declarou ao site americano The Cradle que “no momento em que Israel usar uma ogiva nuclear contra qualquer país, será considerado o inimigo número um da Humanidade; será o fim de Israel como Estado, como regime, como país”. Ele também advertiu o primeiro-ministro Netanyahu, o governo de Israel e as suas forças armadas de que serão considerados inimigos da Humanidade e responsabilizados por quaisquer consequências, numa referência indireta, porém clara, aos julgamentos de Nuremberga que condenaram os líderes nazis. Gao deixou claro que as suas palavras não se tratavam de declarações condenatórias, mas sim de um aviso prévio de ações. Ele deu os parabéns a Trump pela sua declaração de que Israel não usará armas nucleares e expressou o desejo de que ele aja de forma efetiva nesse sentido.

O Sr. Gao acrescenta que qualquer uso de armas nucleares por Israel levará a uma proliferação explosiva de armas nucleares no Médio Oriente e que o seu uso resultaria em centenas de milhões de mortes e na transformação de toda a região em uma zona inabitável.

O Sr. Gao também faz referência aos arquivos de Epstein.

O alerta chinês foi formulado de uma maneira… tipicamente chinesa. O Sr. Gao é o líder de um pequeno partido aliado ao Partido Comunista Chinês e não ocupa nenhum cargo no governo, portanto, a responsabilidade pelas suas declarações não pode ser atribuída diretamente à liderança chinesa ou ao PCC. No entanto, não há dúvida de que se trata de uma expressão não oficial, mas com autoridade, da posição chinesa sobre o assunto. E para não deixar dúvidas, a Academia Chinesa de Ciências divulgou este trecho específico da declaração de Gao sob o título característico: “O que a China faria se Israel lançasse uma arma nuclear?” .

Parem Israel!

Esperamos que o aviso e a ameaça de Pequim (sejam feitos ou não em coordenação com Moscovo, não sabemos) não cheguem tarde demais para deter a marcha rumo ao abismo.

É claro que os EUA (o presidente e o poder legislativo) parecem agora estar controlados de diversas maneiras por Israel e pelos lobbies sionistas.

Mas não teríamos chegado ao ponto em que estamos agora, nem estaríamos a correr tais riscos, se a Europa, a Rússia, a China, a Índia e todos os outros não tivessem tolerado ou mesmo apoiado Israel no genocídio dos palestinianos, o que encorajou a liderança de Netanyahu. Eles toleraram ou apoiaram o derrube de Assad por jihadistas com o apoio da Turquia, de Israel e dos EUA. A queda da Síria abriu o caminho de Israel para Teerão e para o Líbano.

Eles toleraram ou apoiaram o sequestro do presidente Maduro, o que permitiu aos EUA controlar o petróleo da Venezuela, algo que Israel considerou necessário antes da guerra contra o Irão, uma guerra que inevitavelmente levaria ao fecho do Estreito de Ormuz, como já havia sido previsto. A Venezuela abriu caminho para o Irão.

A forma como as principais potências mundiais lidaram até agora com a “dupla neofascista”, Netanyahu e Trump, lembra muito a maneira como todas as potências europeias, sem exceção, lidaram com Adolf Hitler na década de 1930, permitindo-lhe ocupar toda a Europa continental antes de surpreender a URSS, com a Wehrmacht a avançar até aos arredores de Moscovo.

No passado, uma política desse tipo conduziu à Segunda Guerra Mundial. Será que Israel terá hoje permissão para desencadear a Terceira e última Guerra Mundial? Esperemos que a reação dos Estados e das sociedades impeça a marcha rumo a um holocausto nuclear e ecológico.

Nota 1: Mencionámos Cuba. A sua potencial queda significaria um triunfo sem precedentes do imperialismo americano, com enormes consequências políticas globais. Também legitimaria o desmantelamento de toda noção de Direito Internacional e Civilização. Mas também removeria um elemento crucial do equilíbrio nuclear entre a Rússia e os EUA, que remonta à Crise dos Mísseis de Cuba. Sessenta anos depois, os Estados Unidos estão efetivamente renegando a sua promessa a Moscovo de não atacar Cuba. Esta é também uma razão fundamental pela qual Trump está agora prosseguindo com essa política agressiva em Cuba, e provavelmente também a razão pela qual ele reivindica a Groenlândia, que é uma localização privilegiada para a implantação de um escudo antibalístico. Ele também demonstrou interesse em controlar a Islândia, e vale lembrar que a linha Groenlândia-Islândia-Grã-Bretanha controla a entrada de submarinos russos no Atlântico. Para que os Estados Unidos possam lançar um primeiro ataque nuclear contra a Rússia e/ou a China, eles precisam possuir uma defesa antibalística adequada para intercetar o ataque retaliatório.

Nota 2: Com base no exposto, poderíamos concluir que Israel é responsável por todos os problemas do mundo. Na realidade, o Estado sionista e os seus diversos e poderosos lobbies ao redor do mundo, uma espécie de Internacional Sionista, atuam como o componente mais determinado e extremista do Capital Financeiro global, do Capitalismo global. O seu poder deriva, em parte, do facto de ainda não existir, hoje, uma alternativa de esquerda ao sistema. Embora a “globalização” tenha fracassado como ferramenta para a imposição global do Ocidente e do Capitalismo, do poder do Dinheiro sobre a Humanidade, chegamos, portanto, como no período de 1914 a 1945, à era das grandes guerras e do fascismo, mesmo que, nas condições atuais, isso implique um risco maior de destruição, de uma forma ou de outra, da Humanidade.

* O autor: Ex-conselheiro do primeiro-ministro grego Andreas Papandreou para o controle de armamentos e relações Leste-Oeste, ex-correspondente em Moscovo.

Fonte aqui.


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