Qual o objetivo da modernização acelerada do PLA?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 28/07/2026)


Não parece que a China se prepare ou tenha a intenção de iniciar um conflito militar em larga escala, mas indica que os dirigentes chineses consideram esse conflito muito provável e talvez inevitável, algures no final da década de 2020/início da década de 2030.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Por ocasião da celebração dos 99 anos da fundação do Exército Popular de Libertação (PLA) da China (1 de agosto) importa perceber o motivo por detrás da sua acelerada modernização. Não falamos do processo que o fez passar de uma força de guerrilha constituída primordialmente por camponeses para uma das forças militares mais sofisticadas e tecnologicamente mais evoluídas do mundo, mas sim do modo acelerado e do ritmo sem precedentes como isso se desenrolou a partir de meados da última década.

Neste texto dedicado apenas ao PLA – as Forças Armadas chinesas não se resumem ao PLA e aos seus Ramos: Exército, Marinha e Força Aérea, incluem ainda a Polícia Armada Popular (PAP) e as milícias –, procuraremos compreender a sua evolução fundamentalmente com base nos Livros Brancos publicados por Pequim e como ela se insere nos preparativos discretos para um conflito com os EUA, que não se limita às Forças Armadas, mas envolve a sociedade chinesa na sua totalidade, tema que não desenvolveremos neste artigo, mas que se reveste de uma importância capital, e está na origem da modernização acelerada do PLA, acompanhando os desenvolvimentos em curso na China.

A curiosidade sobre o PLA surgiu-me em 2012, durante a primeira visita de uma delegação militar da NATO a Pequim, em que participei e em que estive envolvido na preparação. Essa visita inseria-se nas rondas de conversações entre o Estado-Maior Militar da NATO e o PLA (em março de 2026 teve lugar a 9.ª ronda). O diálogo militar anual (staff-to-staff) entre o Estado-Maior Militar da NATO e a China tem-se mantido de uma forma regular desde 2010, com reuniões anuais, quando uma delegação militar chinesa visitou a sede da NATO, apesar de algumas interrupções, como ocorreu durante a Covid.

Duas notas sobre esse encontro que me despertaram a atenção, entre muitas outras: já nessa altura as carreiras de tiro chinesas estavam equipadas com um LCD em cada posição de tiro para permitir aos atiradores verificarem de imediato a localização dos impactos no alvo; e a forma jocosa como os oficiais chineses se referiam ao embargo da venda de armamento da União Europeia à China, em vigor desde junho de 1989, o qual incluía tecnologia de uso exclusivamente militar. Não deixa de ser desconcertante serem os países europeus a comprarem à China, nos dias de hoje, os componentes dos drones que enviam para a Ucrânia, apesar de o embargo se encontrar ainda em vigor.

As reformas de 2015

Em 16 de abril de 2013, o Governo chinês publicou o primeiro Livro Branco dedicado às Forças Armadas («A Utilização Diversificada das Forças Armadas da China»), cinco meses apenas após Xi Jinping se ter tornado o líder máximo do Partido Comunista da China (PCC), não incorporando ainda o seu pensamento.

As grandes mudanças nas Forças Armadas chinesas, em particular no PLA, iniciaram-se em 2015, com o objetivo de as preparar para os novos desafios que se avizinham. Algo a que não se assistia desde as reestruturações dos anos 1950. Falamos de um esforço de modernização acelerada, do aumento do controlo do PCC sobre as forças armadas, da melhoria das suas capacidades para realizarem operações conjuntas (envolvendo todos os Ramos das Forças Armadas), e da preparação para guerras com recurso intensivo a tecnologias da informação.

Como principais mudanças identificamos a significativa redução de pessoal (300 mil militares, passando os efetivos de 2,3 milhões para 2 milhões) com um maior impacto no Exército de Terra (redução de oficiais e desmantelamento de unidades obsoletas); a reestruturação da liderança central (os antigos 4 grandes Departamentos Gerais (estado-maior, política, logística e armamento) foram dissolvidos e substituídos por 15 departamentos/agências diretamente subordinados à Comissão Militar Central; a criação de novas forças e comandos, em particular o Comando Geral do Exército de Terra, dotado pela primeira vez de um quartel-general próprio (anteriormente era dominado pelos departamentos gerais).

Esta restruturação incluiu ainda a criação da Força de Misseis elevando assim o estatuto e a importância da antiga “Segunda Artilharia” responsável tanto pelos mísseis nucleares como pelos convencionais; da Força de Apoio Estratégico, uma nova força dedicada à guerra espacial, cibernética, eletromagnética e apoio informacional; uma mudança dos comandos regionais (as antigas 7 Regiões Militares foram substituídas por 5 Comandos de Teatro (Leste, Sul, Oeste, Norte e Centro) orientados para operações conjuntas e ameaças específicas (por exemplo, o Comando Leste para Taiwan).

Um dos aspetos particularmente importante desta reforma foi a melhoria na integração entre os diferentes Ramos do PLA (Exército, Marinha e Força Aérea). Isto significou a transição de uma força iminentemente terrestre para uma força conjunta moderna, capaz de projetar poder e realizar operações longe das suas fronteiras, e de combater em cenários de alta intensidade (Taiwan, Mar do Sul da China, etc.). Em vez de Divisões, a estrutura de forças passou a centrar-se em brigadas (mais flexíveis e modulares). A maioria destas reformas estruturais foi implementada entre 2016 e 2018, com ajustes até 2020.

O Livro Branco de 2019

Em julho de 2019, Pequim publicou um novo Livro Branco com um título bastante sugestivo: «A Defesa Nacional da China na Nova Era», que atualizava e aprofundava os desenvolvimentos de 2013 e de 2015. O documento baseava-se no enfoque do Livro Branco de 2013 no emprego diversificado das forças armadas em tempo de paz, integrando-o em objetivos mais amplos de «forças armadas fortes» sob a liderança do PCC: defesa tradicional, outras operações militares sem serem guerra (ajuda em caso de catástrofes nacionais, estabilidade, etc.), proteção dos interesses nacionais no estrangeiro (por exemplo, missões de escolta, evacuação de não combatentes, etc.) e os designados bens públicos globais (missões de manutenção da paz da ONU, ajuda humanitária e resposta a catástrofes, combate ao terrorismo).

O documento apresentava as reformas já efetuadas como um dos pilares da modernização na “Nova Era”, mas expunha-as segundo um racional defensivo, pacífico e benéfico para a segurança global, sem deixar de ter sempre como pano de fundo o aumento das tensões com os EUA, as disputas no Mar do Sul da China, e as preocupações com Taiwan.

A linguagem utilizada era mais assertiva no que respeitava aos interesses fundamentais (especialmente Taiwan) do que a utilizada no documento de 2013, «A China deve ser e será reunificada», sem Pequim prometer renunciar ao uso da força; «O Exército Popular de Libertação derrotará resolutamente quem tente separar Taiwan da China e salvaguardará a unidade nacional a todo o custo.» E adota o conceito de “defesa ativa” («não atacaremos a menos que sejamos atacados, mas contra-atacaremos certamente se formos atacados») e estabelece uma estratégia baseada no equilíbrio entre a defesa e a ofensiva operacional/tática.

O documento identificava como objetivos principais das forças armadas chinesas: dissuadir a agressão e salvaguardar a soberania da China (incluindo Taiwan, o Mar da China Meridional e as Ilhas Diaoyu), opor-se ao separatismo (independência de Taiwan, do Tibete e do Uiguristão), proteger os interesses nacionais no estrangeiro e apoiar o desenvolvimento sustentável nacional.

O documento rejeitava a hegemonia, a expansão ou as esferas de influência: «A China nunca seguirá o caminho já trilhado pelas grandes potências que procuram a hegemonia.» Define também prazos para a modernização no que respeita à mecanização e aos desenvolvimento no domínio da informatização das forças até cerca de 2020, criando condições para a modernização da defesa nacional e das forças armadas até 2035, dando uma atenção particular à fusão civil-militar, cabendo aqui estabelecer uma diferença que adiante esclareceremos, à «inteligentização» e às reformas na estrutura, no pessoal e no equipamento, tornando a transformação num processo permanente.

Os EUA estimam que as Forças Armadas chinesas venham a dispor até 2030 de mais de 1000 ogivas nucleares operacionais, e constituam uma sólida tríade nuclear (mísseis terrestres, submarinos, bombardeiros). A marinha do PLA já é a maior marinha do mundo em número de navios.

Possui 3 porta-aviões operacionais, submarinos nucleares e mísseis antinavio. A Força Aérea possui aviões de 5.ª geração (J-20 e a família de caças J-35/J-35A) e tem projetos avançados de aviões de 6.ª geração (J-36), drones e uma significativa capacidade de projeção. A Força de misseis teve uma expansão enorme no campo dos mísseis balísticos e de cruzeiro convencionais (mais de mil mísseis capazes de atingir Taiwan e bases americanas na região), tendo efetuado avanços significativos nos chamados “Novos Domínios” (cyber, espaço e guerra eletrónica), ao que se acrescenta a liderança na criação de unidades constituídas por robôs humanoides com inteligência artificial.

Esta modernização sem precedentes do PLA em tempo de paz tem como pano de fundo a competição com os EUA e visa desenvolver capacidades que permitam dissuadir ou mesmo derrotar os EUA numa eventual guerra regional no Indo-Pacífico. A China dispõe de capacidades para derrotar uma possível intervenção militar americana em Taiwan, embora uma invasão anfíbia da ilha possa constituir ainda um desafio complexo.

O aumento de capacidades não indica necessariamente vontade para entrar efetivamente em combate. Não parece que a China se prepare ou tenha a intenção de iniciar um conflito militar em larga escala, mas indica que os dirigentes chineses consideram esse conflito muito provável e talvez inevitável, algures no final da década de 2020/início da década de 2030, nas proximidades dos seu território, preparando-se ativa e discretamente para a eventualidade de um conflito com os EUA.

A modernização rápida do PLA insere-se na construção acelerada de um sistema de resiliência nacional abrangente nos mais diversos setores da sociedade capaz de resistir a sanções, bloqueios, colapso da cadeia de abastecimento, catástrofes naturais e, potencialmente, a uma guerra de grande envergadura. O qual vai desde a relocalização da indústria estratégica para o interior do país, a grandes projetos de defesa civil e de resiliência das infraestruturas urbanas, bem como medidas para reforçar a resiliência do sistema energético nacional. Trata-se, portanto, de uma preparação para enfrentar os piores cenários. Por isso, faz todo o sentido que os decisores em Washington e em Bruxelas considerem estes desenvolvimentos nos seus cálculos estratégicos e os ponderem antes de embarcarem em aventuras militares no Indo-Pacífico.

A China e as operações de paz

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 30/06/2026)


A política externa chinesa combina o multilateralismo com a ação bilateral, especialmente em África, onde se concentra uma parte significativa dos seus interesses económicos e de segurança.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Apesar das operações de paz da ONU terem diminuído em cerca de 40% na última década, vítimas das fortes tensões entre as grandes potências, e terem de viver com orçamentos cada vez mais reduzidos, em grande parte responsabilidade da Administração Donald Trump, a China continua a dedicar-lhes uma grande atenção mantendo a política iniciada nos anos 1990, cujos fundamentos políticos e estratégicos importa perceber.

De um papel marginal, Pequim passou a ser o principal contribuinte para as operações de paz da ONU, combinando a presença militar com o apoio financeiro e logístico. Ao contrário dos EUA, que se limitam a financiar as operações da Organização, a China financia-as e contribui com tropas e polícias. Esta diferente abordagem reflete doutrinas e objetivos estratégicos que não podem ser dissociados das iniciativas políticas de Pequim para consolidar o seu estatuto de grande potência, projetar uma imagem de “responsabilidade internacional” e promover os seus interesses estratégicos, no quadro multilateral, matéria relativamente à qual os EUA têm mostrado ceticismo e afastamento.

A política externa chinesa combina o multilateralismo com a ação bilateral, especialmente em África, onde se concentra uma parte significativa dos seus interesses económicos e de segurança. A cooperação multilateral no quadro da ONU através das operações de paz proporciona e potencia a cooperação bilateral fora do quadro da Organização, em que Pequim também participa, mas de forma diferente, focando-se principalmente no apoio financeiro, diplomático e na capacitação de forças, mas não com tropas. Vão longe os tempos em que a política externa chinesa se resumia a apoiar os movimentos de libertação nacional em África.

No quadro da ONU

A participação chinesa em operações de paz teve início em 1990, quando Pequim enviou observadores militares para a UNTSO (Israel). Em 1992, essa participação aumentou com o envio de uma unidade de engenharia militar, com cerca de 400 militares, para a UNTAC (Camboja). Desde então, a China tem vindo a expandir a sua contribuição, passando de contingentes de 100 militares, em 2000, para mais de 1.600 capacetes azuis, em 2026 (MNE da RPC, março), destacados em oito missões (Líbano, Sudão do Sul, Abiei (região rica em petróleo de 10.546 km² na fronteira entre o Sudão e o Sudão do Sul) e República Democrática do Congo), além de um pequeno número de oficiais de estado-maior em funções no quartel-general da ONU, em Nova Iorque, e observadores militares contribuindo para estas operações com mais tropas do que os restantes membros permanentes do Conselho de Segurança juntos.

A China mantém ainda em permanente estado de prontidão uma força para operações de paz com oito mil efetivos, composta por 28 unidades profissionais de 10 tipos, incluindo infantaria, equipas médicas, unidades de reação rápida, helicópteros e engenheiros, prontas para serem rapidamente enviadas para zonas de operações de paz, no estrangeiro.

No total, mais de 50 mil capacetes azuis chineses já participaram em 29 operações de paz da ONU. A China encontra-se no 8.º lugar (30ABR2026) entre os países contribuintes com tropas (e pessoal uniformizado) para as operações de paz da ONU, e é o seu segundo maior financiador. Em 2026, Os EUA contribuíram com cerca de duas dúzias de pessoas, ficando fora do top 80 dos países contribuintes com forças.

Tradicionalmente, os países em desenvolvimento fornecem a maioria das boots on the ground, enquanto os países desenvolvidos preferem pagar os custos das operações. A China faz as duas coisas, aumentando o seu soft power combinando envio de tropas com financiamento.

No ciclo 2024–2025, Pequim contribuiu com 18,7% (cerca de $1,04 mil milhões) do orçamento da ONU dedicado às operações de paz, apenas atrás dos EUA, com cerca de 27%, longe dos 6-10%, do ciclo 2016-2018. No ciclo 2025–2026, essa contribuição dilatou para 23,7% (cerca de 1,5 mil milhões), sendo em ambos os ciclos a segunda maior contribuição. Pequim tem honrado integralmente as suas contribuições para as operações de paz, sem dívidas de longo prazo pendentes, o que contrasta com os EUA que têm uma contribuição mais elevada, mas mantêm uma dívida de cerca de 2,4 mil milhões de dólares há vários anos.

Pequim tem participado nestas operações com unidades de infantaria, engenharia, desminagem, equipas médicas, unidades de helicópteros, unidades de reação rápida, observadores militares e oficiais de estado-maior, principalmente em África, onde nalguns períodos chegou a concentrar mais de 80% dos seus capacetes azuis: na UNMISS (Sudão do Sul) com um batalhão de infantaria (cerca de mil soldados); na MONUSCO (República Democrática do Congo), na MINUSMA (Mali), e no Darfur (Sudão), entre outras. Além da segurança, as tropas chinesas têm estado envolvidas na criação de infraestruturas, na assistência médica, no apoio humanitário e na ajuda ao desenvolvimento local.

Fora do quadro da ONU

Pequim tem evitado participar em operações de paz fora do quadro da ONU, mas quando o faz a sua ação centra-se no treino e na capacitação de forças africanas focando-se principalmente em missões de estabilização alinhadas com os seus interesses económicos em África e com a sua iniciativa “Uma Faixa uma Rota”; usando essas operações de paz para ganhar legitimidade internacional e influência no Sul Global.

Pequim tem desenvolvido uma cooperação significativa e multifacetada com a União Africana (UA) e com as organizações africanas sub-regionais, especialmente desde o início dos anos 2000, com ênfase no apoio institucional, económico, infraestrutural e, em menor grau, de segurança. Por exemplo, apoiou financeiramente a missão da UA, no Darfur, a missão na Somália e apoiou a designada Arquitetura Africana de Paz e Segurança (APSA), envolvendo-se no treino e na capacitação de forças de paz africanas, assim como no seu apoio logístico/equipamento, atividades alinhadas com a iniciativa “Cooperação China-África em Segurança”.

Para a UA, a China é um parceiro chave que preenche lacunas de financiamento e de infraestruturas, alinhada com a visão de uma “África integrada, próspera e pacífica”. Pequim financiou integralmente (com cerca de $200 milhões) a construção da sede da UA, em Adis Abeba (2012), abriu uma missão permanente junto da UA (2005) e esta reciprocou com uma missão permanente na China, mantendo assim um diálogo estratégico constante. Para a China, a UA serve como multiplicador de influência continental, complementando as abordagens bilaterais.

Pequim alinhou explicitamente os seus projetos com os objetivos da “Agenda 2063” e com o “Programa para o Desenvolvimento de Infraestruturas em África” (PIDA – transportes, energia, tecnologias da informação e comunicação e água transfronteiriça) da UA. Muitos planos de ação do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), uma plataforma de cooperação crucial nas relações entre a China e os países africanos, como o de 2025-2027, enfatizam esta sinergia. A China é o maior parceiro comercial e investidor de África. Esta cooperação alarga-se a bolsas de estudo, centros de pesquisa conjuntos, cooperação em ciência e tecnologia. Em janeiro de 2026, teve lugar o 9.º Diálogo Estratégico China-UA, em Adis Abeba, reforçado através do FOCAC.

Ainda no âmbito da paz e segurança foi lançada, em 2012, a Iniciativa “China-África Parceria para a Paz e Segurança”, um  quadro de cooperação lançado pela China com os países africanos e a UA para fortalecer a colaboração nos domínios da paz, segurança, estabilização e prevenção de conflitos, a qual inclui quatro componentes principais: o “Fundo China-África para Paz e Segurança”, que financia operações de manutenção da paz, formação e apoio a operações; o “Fórum China-África de Paz e Segurança”, que envolve a participação de ministros da defesa, militares e especialistas para discutir assuntos de segurança; o apoio à APSA, que inclui o apoio à força africana de resposta rápida, às operações de paz da UA e às designadas soluções “africanas para problemas africanos”; e a “Assistência militar e formação” com o treino de militares e polícias africanos, doação de equipamentos, realização de exercícios conjuntos e apoio logístico.

Enquanto os EUA, céticos em relação à eficácia de algumas operações de paz da ONU, têm preferido intervenções multilaterais ad hoc ou bilaterais, como no Afeganistão ou no Iraque, a atuação da China fora do quadro da ONU, como no caso da UA, tem sido predominantemente de apoio material e alinhamento estratégico, concentrada no desenvolvimento, com uma presença crescente nos domínios da governação e da segurança, reforçando as suas posições no Sul Global e alimentando uma relação que tem vindo a evoluir para uma coordenação institucional cada vez mais intensa.

O entendimento dos fundamentos estratégicos da importância atribuída por Pequim às operações de paz, na sua maioria em África, insere-se numa ação política de maior envergadura e abrangência, inserida na “Parceria Estratégica e Cooperativa Abrangente” (Joanesburgo, 2015), que marcou uma nova fase na interação com África: maior coordenação política, apoio mútuo em fóruns internacionais, criar sinergias entre a “Agenda 2063” africana e as iniciativas chinesas (como a “uma faixa, uma rota”), e a cooperação em paz e segurança.

Esse envolvimento reflete um pensamento radicalmente diferente do norte-americano. A China e os EUA têm desempenhado papéis muito distintos no que respeita às operações de paz, tanto no quadro como fora do quadro da ONU. O projeto chinês aposta numa parceria estratégica com África assumindo um compromisso com o multilateralismo africano e a integração continental. As operações de paz, independentemente do quadro em que se realizem, são utilizadas por Pequim para abrir as portas para uma cooperação mais intensa e abrangente em múltiplos domínios, servindo a segurança apenas como o catalisador específico dessas relações.

Washington descobre que um míssil Tomahawk não nasce nas árvores

(BPartisans, In Fórum da Escolha, in Facebook, 27/05/2026, Revisão da Estátua)


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Durante décadas, Washington vendeu ao mundo uma mitologia industrial: a de uma superpotência capaz de travar várias guerras em simultâneo, bombardear todo o planeta antes do pequeno-almoço e, depois, dar palestras sobre “resiliência estratégica” ao jantar. Mas agora, um pormenor embaraçoso entrou em cena no Pentágono: sem tungsténio, não há Tomahawks. Sem tungsténio, não há Patriots. Sem tungsténio, a máquina imperial assemelha-se, de repente, a um Ferrari sem motor — demasiado caro, demasiado arrogante, mas imóvel.

A ironia é quase poética. O país que dá palestras ao mundo sobre “cadeias de abastecimento seguras” depende de um metal amplamente dominado pela… China. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), Pequim controla a grande maioria da produção global de tungsténio refinado e é o ator dominante no mercado mundial, enquanto os Estados Unidos importam este mineral crítico em grande escala. O próprio Departamento de Energia dos EUA classifica o tungsténio como um material estratégico com elevado risco de interrupção do fornecimento.

E, no entanto, Washington age como um bilionário que queima os seus móveis para aquecer a sala de estar. A guerra de 2026 contra o Irão, uma dispendiosa montra para o complexo militar-industrial, teria revelado um problema mais grave do que um simples estouro orçamental: o consumo de mísseis excede em muito a capacidade de produção anual. Mais de 1.000 mísseis Tomahawk foram disparados e mais de 1.200 intercetores Patriot foram implantados, de acordo com várias estimativas dos meios de comunicação social, enquanto a produção industrial já luta para satisfazer as necessidades da Ucrânia, do Médio Oriente e da região Indo-Pacífica.

O aspecto mais delicioso desta farsa estratégica continua a ser o contraste entre a retórica e a realidade. Washington exige que os seus aliados “reduzam os riscos” nos seus laços com Pequim, mas não consegue produzir alguns dos seus sistemas mais sofisticados sem minerais chineses. Isto revela a verdade por detrás das conferências do Pentágono em tempo de guerra: o poderio militar americano depende do fornecedor que considera a sua ameaça existencial.

A Casa Branca pode até aumentar os orçamentos militares — mais de 880 mil milhões de dólares anuais para o Pentágono, segundo o Congresso norte-americano —, mas ainda precisa dos metais para transformar esses milhares de milhões em mísseis. Pois a superpotência pode ter-se esquecido de uma regra básica da guerra industrial: os slogans não substituem a matéria-prima.

O “exército mais poderoso do mundo” está, por isso, a descobrir uma verdade humilhante: as guerras não se ganham com apresentações em PowerPoint, bandeiras e comunicados triunfantes. O tungsténio também é necessário. E agora, fala mandarim.