A verdadeira “ruptura” em Davos

(Pepe Escobar, in Resistir, 24/01/2026)


Independentemente do que os bárbaros possam estar a fazer, o facto que importa é que a China já está na fase seguinte, em que se espera que substitua os Estados Unidos como o principal mercado consumidor do mundo.


O velho mundo está a morrer, e o novo mundo luta para nascer:   agora é o tempo dos monstros.

Antonio Gramsci


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Davos 2026 foi um caleidoscópio demente. A única maneira possível de chafurdar no lamaçal era pôr os auscultadores e recorrer à Band of Gypsys, esmagando as barreiras sónicas e afogando uma série de acontecimentos francamente terrificantes, incluindo uma ligação Palantir-BlackRock, o encontro entre a Big Tech e a Big Finance; o “Plano Diretor” para Gaza; e a aguda desorientação na arenga do neo-Calígula, aqui na versão de 3 minutos.

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As fantasias da cimeira União Europeia-União Africana. Enquanto o Ocidente discursa, a China faz obra

(Fórum da Escolha, in Facebook, 24/11/2025, Revisão da Estátua)


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Costuma dizer-se que Pequim avança em silêncio. Isso é falso. Avança tão ruidosamente que até os relatórios oficiais dos EUA gritam pânico — mas, como o Ocidente está demasiado ocupado a olhar para si próprio, não ouve nada.

No seu mais recente relatório, a Comissão de Revisão Económica e de Segurança EUA-China brada que a China representa “a ameaça mais séria à segurança nacional dos EUA”.

Tradução: eles estão a ganhar tudo enquanto nós organizamos mesas redondas. Enquanto Washington dramatiza, Bruxelas moraliza e Paris organiza uma comissão para criar uma comissão, Pequim implementa a sua estratégia africana como um rolo compressor.

📌 70% do 5G africano? Huawei.

📌 200.000 km de fibra ótica? Pequim.

📌 Data Centers? China.

📌 Segurança digital? China outra vez.

Onde o Ocidente promete, Pequim liga. Onde o Ocidente adverte, Pequim instala. Onde o Ocidente ameaça, Pequim cobra.

Mas, o mais corrosivo é que a China não está apenas a vender cabos: está a vender o sistema operativo político que os acompanha. A própria ONU observa, com resignação, que Pequim está a “moldar os padrões digitais africanos”. Em linguagem diplomática: o continente escolheu o seu fornecedor — e não somos nós.

Enquanto Bruxelas se encanta com o seu “Portal Global”, um magnífico projeto que nado-morto, soterrado pela burocracia e autossatisfação europeia, a China está a transformar África numa extensão tecnológica de Shenzhen.

A UE promete “uma alternativa democrática”. É lindo. Poético. Quase sol. Mas falta um pormenor: infraestruturas. Não se pode substituir a Huawei por comunicados de imprensa. Não se pode competir com a fibra ótica chinesa com um PDF de 146 páginas aprovado em trílogo. Não se pode contrabalançar um império digital com uma apresentação animada em PowerPoint.

Quanto aos Estados Unidos, abriram a carteira: 350 milhões de dólares para a tecnologia digital africana. Só que a Huawei gasta isso a levar a sua equipa para almoçar.

E depois África olha para o Ocidente. E vê:

  • Sermões.
  • Condicionalidades.
  • Conferências.
  • Ideologia numa caixa.

Depois olha para a China. E vê:

  • Cabos.
  • Portos.
  • Estradas.
  • Servidores.
  • Concreto.
  • Zero demoralidade.

A escolha não é difícil.

Enquanto o Ocidente gasta as suas energias a “defender a democracia” na Ucrânia, “contendo a China” em Taiwan e a “estabilizar” um Médio Oriente que tem vindo a destabilizar há 30 anos, Pequim está a construir o futuro do continente que dominará o século XXI.

Washington e Bruxelas estão a jogar Risk. Pequim está a jogar SimCity. E adivinha quem está a ganhar? A questão já não é: “África tornar-se-á digital?” Isso já está decidido desde 2018. A verdadeira questão é: “Preferimos uma África ligada à Huawei… ou uma África ligada a nada?” Porque, ao ritmo a que o Ocidente caminha, é o segundo cenário que se aproxima: uma África sem Ocidente.

Um Ocidente sem influência. E uma China que liga o planeta como quem liga um aspirador à tomada. A tomada já está ligada. Só falta ligar o interruptor. E não será o Ocidente que o ativará.

(@BPartisanss

A União Europeia dá mais um tiro no pé

(Ricardo Nuno Costa, in X/Twitter, 25/10/2025, Revisão da Estátua)

O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Johann Wadephul,

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Isto é o que sucede quando, em bom português, se “misturam alhos com bugalhos”.

A Autoeuropa poderá vir a parar a sua produção porque muito provavelmente vão faltar os semicondutores para o fabrico dos carros da Volkswagen em Palmela. A fábrica tem material para garantir a produção por mais uma semana.

E porque vão faltar os microchips? Porque eles vinham da Nexperia, nos Países Baixos. Mas o governo holandês no início deste mês nacionalizou a empresa, que é uma filial da chinesa Wingtech Technology, alegando “preocupações de segurança” da UE.

As pressões vieram dos “aliados“ EUA e Reino Unido, este último cada vez mais influente nas decisões europeias desde o famoso Brexit (!). Washington já havia colocado a Wingtech na sua “Entity List”, uma espécie de lista negra do Departamento de Indústria e Segurança, que deve ser seguida pelos seus súbditos europeus.

No Reino Unido, a Nexperia também foi forçada a vender uma fábrica de microchips devido a preocupações com a “segurança nacional”. Note-se o jogo de palavras fabricado pela inteligência britânica, exímia em criar narrativas e mudar a perceção dos grandes públicos (veja-se a história do Instituto Tavistock).

Os europeus, uma vez mais caem numa armadilha montada pelos seus aliados anglo-saxões, em especial pelos EUA, que na sua longa guerra contra a indústria europeia, vão garantir mais uma serie de investimentos e uma mais que provável fuga de empresas para a sua economia falida – mas com um plano claro de reindustrialização, transversal às administrações de Biden e Trump 2.

E quem esperava que a China ia ficar de braços cruzados? É obvio que imediatamente deu ordens para a empresa cortar as exportações para a UE. A isto devem acrescentar-se as restrições à exportação de terras raras, necessárias a várias indústrias.

As implicações para tudo isto, a curto-prazo, são claras: as indústrias automóvel, de satélites, militar, eletrónica e outras, estão agora literalmente a lutar por novos fornecedores, que aparecerão, mas quando e a que preço?

A Alemanha é a mais afetada e já protestou: A indústria alemã “depende desses chips!”, queixou-se hoje a sua ministra da Economia, de viagem em Kiev.

Tal como no tema da energia – que após a explosão dos Nord Stream fica totalmente nas mãos do GNL caro dos EUA -, a Alemanha vê a sua indústria a levar mais uma marretada, agora no sector dos semicondutores, para os quais não tem produção própria nem alternativas imediatas.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, queria viajar hoje até Pequim para debater este tema urgente com o seu maior parceiro comercial, e também para insistir com o tema da Ucrânia. Pensava que iria ser recebido pelo ministro do Comércio e pelo primeiro-ministro! Pobre inocência. Pequim terá delegado um funcionário menor para uma curta audiência e Wadephul desistiu da viagem à última da hora, para evitar a humilhação.

A resposta da China não podia ser mais significativa:

Vocês é que precisam de nós, a vossa indústria automóvel sem o nosso mercado tem os dias contados; vocês continuam a meter-se nos nossos assuntos internos; vocês querem que cortemos relações comerciais com o nosso parceiro estratégico, a Rússia; vocês são signatários da política de uma só China e vendem armas aos rebeldes de Taipé; vocês impõem-nos sanções unilaterais (ilegais); vocês restringem o livre comércio internacional… Vocês não são de confiança!

Numa tal situação, os fanfarrões dos norte-americanos, fantásticos jogadores de poker, gritariam “America is back!“, mas os chineses na sua longa partida de Go, jogo do qual são mestres, começam a mostrar os seus trunfos e a dizer que a sua civilização de 5000 anos está aí e o seu poder global vai-se começar a fazer sentir de forma subtil, mas consistente e avassaladora.