O presidente dos EUA, Donald Trump, parece ter mudado de estratégia para impedir que a Rússia crie novos factos no terreno na Ucrânia. As forças russas têm vantagem ao longo dos 1250 km da linha de frente ucraniana, esticando as defesas e os recursos de Kiev, o que nenhuma ajuda militar ocidental poderá reverter num futuro previsível. Trump está a obrigar a Rússia a buscar uma vitória militar na Ucrânia.
Isto é o que sucede quando, em bom português, se “misturam alhos com bugalhos”.
A Autoeuropa poderá vir a parar a sua produção porque muito provavelmente vão faltar os semicondutores para o fabrico dos carros da Volkswagen em Palmela. A fábrica tem material para garantir a produção por mais uma semana.
E porque vão faltar os microchips? Porque eles vinham da Nexperia, nos Países Baixos. Mas o governo holandês no início deste mês nacionalizou a empresa, que é uma filial da chinesa Wingtech Technology, alegando “preocupações de segurança” da UE.
As pressões vieram dos “aliados“ EUA e Reino Unido, este último cada vez mais influente nas decisões europeias desde o famoso Brexit (!). Washington já havia colocado a Wingtech na sua “Entity List”, uma espécie de lista negra do Departamento de Indústria e Segurança, que deve ser seguida pelos seus súbditos europeus.
No Reino Unido, a Nexperia também foi forçada a vender uma fábrica de microchips devido a preocupações com a “segurança nacional”. Note-se o jogo de palavras fabricado pela inteligência britânica, exímia em criar narrativas e mudar a perceção dos grandes públicos (veja-se a história do Instituto Tavistock).
Os europeus, uma vez mais caem numa armadilha montada pelos seus aliados anglo-saxões, em especial pelos EUA, que na sua longa guerra contra a indústria europeia, vão garantir mais uma serie de investimentos e uma mais que provável fuga de empresas para a sua economia falida – mas com um plano claro de reindustrialização, transversal às administrações de Biden e Trump 2.
E quem esperava que a China ia ficar de braços cruzados? É obvio que imediatamente deu ordens para a empresa cortar as exportações para a UE. A isto devem acrescentar-se as restrições à exportação de terras raras, necessárias a várias indústrias.
As implicações para tudo isto, a curto-prazo, são claras: as indústrias automóvel, de satélites, militar, eletrónica e outras, estão agora literalmente a lutar por novos fornecedores, que aparecerão, mas quando e a que preço?
A Alemanha é a mais afetada e já protestou: A indústria alemã “depende desses chips!”, queixou-se hoje a sua ministra da Economia, de viagem em Kiev.
Tal como no tema da energia – que após a explosão dos Nord Stream fica totalmente nas mãos do GNL caro dos EUA -, a Alemanha vê a sua indústria a levar mais uma marretada, agora no sector dos semicondutores, para os quais não tem produção própria nem alternativas imediatas.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, queria viajar hoje até Pequim para debater este tema urgente com o seu maior parceiro comercial, e também para insistir com o tema da Ucrânia. Pensava que iria ser recebido pelo ministro do Comércio e pelo primeiro-ministro! Pobre inocência. Pequim terá delegado um funcionário menor para uma curta audiência e Wadephul desistiu da viagem à última da hora, para evitar a humilhação.
A resposta da China não podia ser mais significativa:
Vocês é que precisam de nós, a vossa indústria automóvel sem o nosso mercado tem os dias contados; vocês continuam a meter-se nos nossos assuntos internos; vocês querem que cortemos relações comerciais com o nosso parceiro estratégico, a Rússia; vocês são signatários da política de uma só China e vendem armas aos rebeldes de Taipé; vocês impõem-nos sanções unilaterais (ilegais); vocês restringem o livre comércio internacional… Vocês não são de confiança!
Numa tal situação, os fanfarrões dos norte-americanos, fantásticos jogadores de poker, gritariam “America is back!“, mas os chineses na sua longa partida de Go, jogo do qual são mestres, começam a mostrar os seus trunfos e a dizer que a sua civilização de 5000 anos está aí e o seu poder global vai-se começar a fazer sentir de forma subtil, mas consistente e avassaladora.
A polêmica sobre os produtos agrícolas ucranianos continua. Itens alimentares ucranianos simplesmente invadiram o mercado europeu e estão levando milhares de fazendeiros à falência. Em que pesem os protestos e a pressão política, nenhum decisor da UE parece interessado em mudar este cenário trágico. Contudo, a crise parece ter dimensões ainda mais profundas, podendo ser uma verdadeira bomba relógio para toda a sociedade europeia.
Recentemente, o governo búlgaro pediu à Comissão Europeia aprovação de uma resolução banindo a importação de ovos de galinha ucranianos. Segundo as autoridades búlgaras, a grande quantidade de ovos ucranianos baratos no mercado europeu está prejudicando os produtores búlgaros – que têm na venda de ovos parte vital de suas atividades comerciais. Milhares de fazendeiros búlgaros estão indo à falência e a crise só é esperada de piorar mais e mais no futuro próximo.
O problema não se limita aos ovos nem à Bulgária. Vender grãos, carne, laticínios e tudo que seja produzido no campo parece não ser mais um negócio interessante na Europa. Desde 2022, há protestos por mudanças em todas as partes do continente europeu. Da Polônia à França, nenhum fazendeiro europeu está satisfeito em ver seus produtos sendo substituídos no mercado por quantidades massivas de itens agrícolas ucranianos a preços baratos.
Isso decorre da irracional atitude dos decisores europeus de banir todas as tarifas de importação para produtos alimentares ucranianos. A medida é alegadamente intencionada em impulsionar a economia ucraniana durante o momento de crise gerado pelo conflito com a Rússia – que ironicamente é patrocinado pelo próprio Ocidente. No mercado europeu atual é mais barato importar alimentos ucranianos do que revender os produtos nativos, o que obviamente está levando milhares de fazendeiros a abandonarem seus negócios.
Como bem sabido, a maior parte da Europa não tem um setor agropecuário muito forte, sendo os fazendeiros locais dependentes da ajuda do governo para se manterem ativos no mercado. Sem essa ajuda e com a invasão dos produtos ucranianos, simplesmente já não é mais lucrativo fazer parte do agronegócio europeu, razão pela qual milhares de pessoas tendem a parar de trabalhar no campo e entrar na crescente classe do “precariado” europeu.
A princípio, alguns analistas podem ver este cenário como uma mera mudança de mercado, substituindo a produção europeia pela ucraniana. Contudo, esta análise é limitada. Embora tenha um dos solos mais férteis do mundo, a Ucrânia atualmente é alvo dos predadores financeiros ocidentais, que exigem a entrega de terra arável como meio de pagamento pelos pacotes bilionários de ajuda da OTAN. Organizações como a Blackrock e outros fundos em breve serão donos de quase tudo o que restar da “terra negra” ucraniana. E então a produção rural ucraniana dependerá da boa vontade dos “tubarões financeiros” em alimentar os europeus.
É certo que a ausência de autossuficiência alimentar nos países europeus não é um problema novo. Importações já são um mecanismo vital para toda a Europa ocidental. Mas em paralelo à dependência de importações há ainda a política irracional de sanções e medidas coercitivas contra diversos países emergentes produtores de alimentos. A Federação Russa, por exemplo, está impedida de vender qualquer coisa aos europeus, mas o problema é ainda maior. A UE tem cogitado há anos impor sanções severas ao Brasil, por exemplo, alegando “irregularidades ambientais”. Chegará ao ponto de as exigências “humanitárias e ambientais” da UE impedirem os europeus de comprarem qualquer coisa de qualquer país.
Se perguntarmos a quem interessa todo este cenário, a resposta parecerá mais uma vez clara. Há um único país incentivando a Europa a impor cada vez mais sanções, comprar cada vez mais grãos ucranianos e enviar cada vez mais armas a Kiev sob termos de pagamento regulados pela Blackrock. Naturalmente, este é o mesmo país que boicotou a cooperação energética russo-europeia e cometeu o atentado terrorista contra o Nord Stream.
E certamente este é também o único estado interessado em manter o status quo geopolítico e impedir a criação de um mundo multipolar, onde os europeus teriam liberdade de alinhamento e poderiam escolher pragmaticamente os seus parceiros.
A aliança entre EUA e UE é uma verdadeira bomba-relógio e no longo prazo levará a Europa à fome. Já em processo de desindustrialização, crise energética e destruindo toda a sua arquitetura de segurança alimentar, a Europa espera um dos futuros mais sombrios da história humana. E todos os decisores europeus parecem felizes com este cenário.