(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 16/06/2026, Revisão da Estátua)

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A canção Alto Cutelo, de Ildo Lobo (ouvir aqui), é um hino que fala das mulheres e homens que partiram de Cabo Verde à procura de uma vida melhor em Portugal. Aqui, encontraram miséria e exploração. Construíram hospitais privados onde não conseguem entrar, universidades onde não conseguem estudar e prédios onde não conseguem viver.
Eu cresci com os filhos desses operários na Amadora. Por isso, falar de Odair Moniz é falar da minha cidade. Já contei várias vezes que cresci num prédio em que havia um sapateiro, uma costureira, um mecânico, um padeiro, um pedreiro, um operário fabril e várias mulheres que trabalhavam em casa a cuidar da casa e das crianças. A minha cidade era um formigueiro de trabalhadores que tinham orgulho em ser trabalhadores. A maioria não era dali. Vieram do Alentejo, de Trás-os-Montes, da Beira Alta, de Cabo Verde, da ex-União Soviética ou de Angola.
Nesta manta de retalhos, os primeiros a viver em barracas ou a construir as primeiras casas clandestinamente foram os portugueses. Se ninguém se atreve a pedir a demolição da Brandoa, que chegou a ser o maior bairro clandestino da Europa, é tão simplesmente porque é habitada maioritariamente por brancos. A Cova da Moura tem as mesmas características e é alvo das campanhas mais miseráveis tão somente porque a maioria da sua população é negra.
Por isso, falar de Odair Moniz é falar da minha cidade. É lembrar-me de todos os jovens que foram assassinados pela polícia na Amadora, alguns deles ainda crianças à queima-roupa. Ou de como espancaram Cláudia Simões apenas porque se indignou porque a filha se tinha esquecido do passe em casa. Ou de como levaram vários amigos meus para a esquadra de Alfragide e os torturaram durante dias dizendo que eram macacos e que deviam estar em África.
Também me lembro de como a polícia carregou sobre os operários da Sorefame e da MB Pereira da Costa quando lutavam pelos seus postos de trabalho. Podia andar mais para trás e recordar como a PIDE perseguiu e torturou comunistas e antifascistas que se escondiam na Amadora.
Ou seja, infelizmente, a polícia tem cumprido o seu papel histórico: defender os interesses dos mais fortes. Muitos chegam à minha cidade vindos de regiões remotas sem nunca terem tido contacto com uma realidade parecida. Geralmente, os piores classificados dos concursos da PSP vêm parar à Amadora.
É aqui que crescem os ‘rambos’ alimentados a esteroides e cocaína com vontade de replicar a violência policial que veem nas séries americanas contra a população local.
Não há dúvida de que todos queremos viver em paz, mas tenho uma má notícia. A criminalidade não acaba com mais polícia. Acaba com mais acesso a educação, cultura, melhores salários, saúde e políticas públicas que promovam a interação social e comunitária.
A polícia devia estar onde se cometem os crimes mais graves: nos gabinetes dos administradores dos grandes grupos económicos e financeiros, nas sedes dos partidos que se deixam comprar pelos interesses dos mais ricos e nos órgãos de comunicação social que promovem o racismo e a discriminação de classe.
Bom, a sentença é muito discutível, à saída do Tribunal estava o advogado da família do Odair Moniz muito mais insatisfeito que o próprio advogado de defesa do agente da PSP homicida, que ainda estava a ponderar se iria recorrer ou se contentava com a leveza da condenação.
Ao mesmo tempo vão-se sabendo pormenores das torturas na esquadra da PSP do Largo do Rato, com entrevistas a algumas das vítimas dos métodos de agressão e tortura policial.
Pergunto qual será a atenuante destes “Heróis de AVentura”, se também agiram em legítima defesa apesar de forma inapropriada, e se a sua intenção era promover a lei e a ordem nos espaços policiais.
Outra notícia era que o Movimento Armilar lusitano, também composto por elementos da Extrema-Direita golpista, queria atentar com granadas e outros métodos explosivos o Montenegro Spinumvivas, o Marcelo das Selfies, e o António deu à Costa, e até tinha um polícia que treinava e preparava especificamente os militantes para estarem aptos para o cumprimento das missões. Também já se sabia que havia militares a dar treino a membros de milícias para-militares fascizóides e nazionistas.
É o mundo que temos, e parece que muitos juízes, quiçá bem lembrados do que aconteceu a Ivo Rosa, com a perseguição e devassa da sua vida privada sem quaisquer limites jurídico-legais pelo MP e da PGR, ainda não estão preparados para condenar e punir devidamente, de forma a erradicar tais comportamentos desviantes e criminosos.
Resta saber se o Quarto Pastorinho e seus acólitos Pedro Pinto, Marisa Matias, etc serão chamados a explicar e a arcar com as consequências de se terem colocado ao lado dos homicidas e agressores, e condenado as vítimas da violência policial.
Estas carolas direitolas farsolas javardolas não páram…
Excelente comentário! Parabéns estátua de sal!
Cresci na Margem Sul do Tejo.
Conheci de perto a violência e a impunidade policial.
E também aquela era um caldeirão onde havia gente de todo o lado.
Jovens eram levados para a esquadra por coisas como não ter o bilhete de identidade ou ter um aspecto mais desleixado que levava os agentes a fazer um diagnóstico de toxicodependência.
E, claro, o melhor remédio para esses drogados era uma boa sova de murro e cassetete. Não raro saia se da esquadra com a cara feita num bolo, com braços, pernas ou costelas partidos.
Ninguém se atrevia a queixar se. Sabiam que se o fizessem ainda teriam o bofia a acusa los de agressão.
Um dos vizinhos do meu prédio era polícia. Gabava se de “quando se viram a gente e até cansar”.
O que não diziam era o que faziam para alguém se passar, desde xingarem lhes a mãe de puta, a chamarem macaco se fosse negro ou pardo, ou até nazi se fosse filho de emigrante e tivesse nascido na Alemanha havia de tudo.
Um jovem era levado e passava uma noite naquilo, sem comida, sem água, claro que acabava por nem que fosse chamar lhes uns nomes. Muitas vezes claro que o desgraçado não tinha tentado agredir vários homens armados.
Mas também conheci um que se gabava que quando era preciso batia com a cara no lavatório da casa de banho para dizer que tinha sido agredido quando alguém se queixava.
As agressoes eram cruéis, brutais.
O tal meu vizinho nem para as filhas era bom, mandou uma filha de 15 anos para o hospital com uma hemorragia abdominal por lhe aplicar uma sova de cassetete por a ter visto a falar com um colega de escola a porta do prédio.
O animal pode contar nesse caso com a mesma impunidade que tinha quando agredia gente na esquadra.
E com essa impunidade que eles contam.
Os juízes concluiam sempre que os pobres policias tinham mesmo sido agredidos. E com isso muitas vezes ainda era o agredido a ser condenado a uma qualquer multa como se não lhe chegasse ter ficado feito num molhinho.
Foi o que aconteceu no caso de Odair Moniz com aqueles camelos a dizer que isso tinha servido de atenuante para o facto de um dos agentes ter disparado uma arma contra um homem desarmado.
A sentença mete nojo.
Desde quando um suposto arrependimento e atenuante?
Se fosse ao contrário alguém daria atenuantes por arrependimento ou ainda acusariam o desgraçado se estar a ser cínico?
Aquele polícia mentiu com as letras todas dizendo que o assassinado tinha puxado uma faca contra ele, mentiu com quantos dentes tinha na boca e agora estava arrependido?
Ainda por cima a criatura pode voltar as ruas porque a sentença determinou que cabe a PSP decidir o seu regresso ao serviço.
Uma sentença destas vai reforçar o sentido de impunidade dessa gente. Para quando o próximo assassinado?
Na Mouche!
E, apesar de toda a repressão e racismo, acontece que se trata de gente que o país não pode dispensar, pois o seu trabalho é indispensável para fazer funcionar a economia, para preencher os postos de trabalho que só eles estão para aturar, poraqu não tem alternativa, que asseguram que a Segurança Social ainda funcione, que limita a queda abrupta dos nascimentos, etc, etc. ;
Mereciam melhor tratamento; eles e os muitos nativos que pouco melhor estão, ou que estão no mesmo barco.