Do G7 de “segurança e guerra”, à cimeira em Kazan sobre o futuro económico

(João Gomes, in Facebook, 17/06/2026)


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Enquanto os líderes das maiores nações industrializadas se reúnem para discutir conflitos, sanções, segurança internacional e contenção estratégica, uma outra reunião decorre longe dos holofotes mediáticos ocidentais.

Em Kazan, na Rússia, dirigentes políticos e económicos da ASEAN e da Federação Russa debatem um tema diferente: o futuro das ligações económicas, comerciais e logísticas numa ordem internacional em transformação.

A coincidência temporal entre os dois encontros dificilmente passa despercebida. De um lado, o G7 procura responder aos desafios imediatos da guerra na Ucrânia, da “segurança europeia”, das tensões no Médio Oriente e da crescente rivalidade entre as grandes potências. Do outro, em Kazan, discute-se sobretudo comércio, investimento, transportes, energia, tecnologia, conectividade e novos corredores económicos entre a Europa, a Ásia e o mundo emergente.

Mais do que uma simples diferença de agenda, os dois eventos parecem representar duas visões distintas sobre as prioridades do século XXI.

Quem participa na reunião de Kazan? A cimeira assinala os 35 anos de relações entre a Rússia e a ASEAN, organização que reúne dez países do Sudeste Asiático: Indonésia, Malásia, Singapura, Tailândia, Vietname, Filipinas, Brunei, Laos, Myanmar, Camboja. Em conjunto, estes países representam mais de 680 milhões de habitantes e uma das regiões económicas mais dinâmicas do planeta. Embora não constituam um “bloco político” comparável à União Europeia, possuem uma importância crescente nas cadeias de produção globais, no comércio marítimo e na indústria tecnológica.

Porque foi escolhido este momento? A resposta é simultaneamente económica e geopolítica. Desde o início do conflito na Ucrânia, a Rússia tem procurado demonstrar que as sanções ocidentais não equivalem a isolamento internacional. A estratégia russa passou por acelerar a aproximação aos mercados asiáticos, africanos e do Médio Oriente, apostando numa diversificação das suas relações económicas. Kazan surge assim como uma montra dessa política.

A mensagem enviada por Moscovo é clara: enquanto o Ocidente continua a discutir mecanismos de contenção, a Rússia procura construir novas pontes económicas com algumas das regiões mais dinâmicas do mundo. A verdadeira batalha são os futuros “corredores económicos”. O tema central da reunião não é apenas comércio. O que está em causa é o controlo dos futuros corredores económicos globais.

Durante décadas, a economia mundial esteve fortemente dependente das rotas marítimas tradicionais controladas ou protegidas pelas grandes potências ocidentais. Hoje, diversos países procuram desenvolver alternativas.

A Rússia promove o chamado Corredor Internacional Norte-Sul, ligando o Báltico ao Golfo Pérsico através da Rússia, do Cáspio, do Irão e da Índia. A China continua a expandir a sua Iniciativa Faixa e Rota. Os países da ASEAN procuram integrar-se nessas redes sem ficarem excessivamente dependentes de uma única potência. Por trás das declarações diplomáticas existe uma disputa pelo desenho das futuras artérias do comércio mundial.

O contraste com o G7

O contraste entre os dois encontros é particularmente revelador. No G7 dominam temas como: Ucrânia; Segurança europeia; Sanções; Defesa; Inteligência artificial e segurança tecnológica; Contenção de riscos geopolíticos.

Em Kazan dominam temas como: Infraestruturas; Corredores de transporte; Investimento; Energia; Comércio; Integração económica regional.

Naturalmente, seria simplista afirmar que um encontro fala apenas de guerra e outro apenas de economia. A realidade é mais complexa. A economia tornou-se um instrumento geopolítico e a geopolítica influencia diretamente a economia. Mas a diferença de enfoque é evidente. Enquanto o G7 discute sobretudo como gerir as crises do presente, a reunião de Kazan procura posicionar-se como um fórum de reflexão sobre as oportunidades do futuro.

Um mundo em mudança

O significado mais profundo desta cimeira talvez não esteja nos acordos que venham a ser assinados, mas na tendência que representa. Durante décadas, os grandes fóruns internacionais eram quase exclusivamente dominados pelas economias ocidentais. Hoje surgem novos centros de poder económico, novos mercados consumidores e novas plataformas diplomáticas.

A existência destes fóruns demonstra que a influência internacional está a tornar-se mais distribuída. Kazan é, nesse sentido, mais do que uma simples cidade anfitriã. É um símbolo de uma transformação gradual da geografia do poder mundial. Talvez a imagem mais adequada para compreender o momento atual seja a de dois mundos que coexistem. Num deles, os líderes discutem conflitos, ameaças e estabilidade estratégica. No outro, discutem mercados, corredores comerciais e crescimento económico.

Mas a simultaneidade entre o G7 e a cimeira de Kazan revela uma realidade cada vez mais evidente: o centro da economia mundial está a deslocar-se progressivamente para a Ásia, e os países emergentes pretendem participar na definição das regras da próxima era económica.

A questão que permanece em aberto não é se essa mudança ocorrerá. A verdadeira questão é saber com que rapidez ocorrerá e quem estará melhor preparado para ocupar os lugares de destaque na nova arquitetura económica global.

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