A revolução, afinal, começa na praia?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 12/06/2026)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Antes de o capitalismo se desenvolver plenamente, foi necessário separar os produtores diretos dos seus meios de produção. Camponeses que tinham acesso à terra, a baldios, a instrumentos de trabalho ou a formas comunitárias de sobrevivência foram desapossados. Sem terra, nem recursos próprios, passaram a depender do salário. Ao mesmo tempo, a propriedade fundiária, o dinheiro e os instrumentos produtivos concentraram-se nas mãos de proprietários e capitalistas.

É a partir desta base que Karl Marx cunha a expressão “acumulação primitiva”, exemplificando o processo com o levantamento, inicialmente ilegal, de cercas em terras comunais de Inglaterra, que antecedeu a expropriação e expulsão de camponeses. Depois, alarga essa lógica à colonização, à pilhagem colonial, à escravatura, ao tráfico atlântico, ao saque de metais preciosos e à violência do Estado.

Em Portugal levantam-se agora múltiplas vozes, várias delas insuspeitas de simpatias marxistas, contra a família Mirpuri, proprietária da Herdade da Comenda, por tentar, como os que roubaram terras aos camponeses europeus a partir do século XV, ficar dona de cinco praias contíguas ao projeto turístico e imobiliário que promove na Arrábida.

O jornalista Miguel Sousa Tavares classifica a operação como “roubo” e admite a hipótese de revolta popular. “Eu aconselharia alguma cautela: o povo é sereno, mas tem limites”, escreve.

O cronista Miguel Esteves Cardoso acha que os Mirpuri não têm hipóteses de vencer a batalha jurídica, mas garante que, se isso acontecesse, se inscreveria “imediatamente no Bloco de Esquerda”.

José Eduardo Martins, comentador e antigo secretário de Estado do Ambiente do Governo de Durão Barroso, intitulou um artigo com a frase A Praia dos Ricos e denunciou: “Aqueles que pagam a espreguiçadeira a peso de ouro querem sentir-se nas Maldivas, já que são as Maldivas que pagam, e anseiam por afastar da vista os chapéus foleiros e as sungas do povo.”

É a luta de classes à beira-mar, caramba!

Também Pedro Adão e Silva, ministro da Cultura do Governo de António Costa, atira: “A cultura de praia, a fruição dos areais e dos banhos de mar e a possibilidade de nos espraiarmos com poucos limites é uma conquista civilizacional.”

Na Comporta e em Tróia, várias praias estão, na prática e há já bastante tempo, sem acesso livre, perante a inação de diversas entidades públicas. Os Mirpuri, que procuram agora que os tribunais validem a “privatização” de cinco praias, tentam fazê-lo desde 2019. Isso levou Viriato Soromenho Marques a citar, em 2022, aqui no DN, o filósofo Benjamin Constant, que há 200 anos escreveu: “Nos nossos dias, os particulares são mais fortes do que os poderes políticos; a riqueza é uma potência mais rapidamente disponível, mais aplicável para todos os interesses e, consequentemente, mais real e mais bem obedecida.”

Tenho a dizer que estes campeões da abolição das classes sociais nas praias portuguesas, estes combatentes contra a privatização dos areais costeiros, estes frentistas da justiça social do chapéu-de-sol, têm toda a razão. Apoiado! Bravo!

Porém, talvez por ter a idiossincrasia de não gostar de praia, de não pôr lá o pezinho há mais de 30 anos e, ainda por cima, de padecer do defeito de ser um bocado comunista, lamento muito que esta indignação contra os ricos que querem a praia só para eles se esvazie, sistematicamente, num aplauso subserviente sempre que os mesmos ricos exploram para si todo o resto do planeta.

5 pensamentos sobre “A revolução, afinal, começa na praia?

  1. És tão explicadinha, querida Helga Project! Tão pedagógica, tão exaustiva! Mas em verdade te digo que, numa guerra a sério, me sentiria muito mais confortável e, principalmente, mais seguro com o Escravo Forrado na trincheira oposta, de arma apontada à minha cabeça, do que aturar a tua guinchadeira permanente na minha, alternando revolucionarices e purezas ortodoxas de aviário com choraminguices derrotistas sobre o poder imparável e avassalador do inimigo e o futuro negro que inevitavelmente nos espera. Como quando nos garantias a vitória inexorável do 4° pastorinho nas presidenciais, meu doce. O mal não está em seres quilométrica, querida Helga Project. Há outros/as que o são por vezes, como o Albarda-mos ou eu próprio. O problema é seres quilometricamente repetitiva, cansativa e enjoativa!

  2. Ninguém está a hostilizar ninguém.
    Trata se simplesmente de lembrar que o facto de muita gente se indignar, e bem, por se quererem expulsar os remediados das praias não vai fazer esses remediados indignar se com a tentativa de roubar os recursos da Rússia por via da guerra destruindo os seus direitos para apoiar o nazismo.
    Não os vai fazer indignar se por o Banco Central Europeu voltar a subir as taxas de juro aumentando os lucros dos bancos e fazendo nos dar ainda mais voltas a vida.
    Não os vai fazer indignar ante um pacote laboral nefasto que vai fazer quem trabalha para esses ricos ter ainda menos direitos.
    Não os vai fazer indignar perante a sentença que diz que um polícia que abateu a tiro um homem desarmado agiu simplesmente em legítima defesa. Ficamos a saber ontem que matar um homem desarmado a tiro e só “excesso de meios”.
    Já agora, também não os vai fazer indignar com o “excesso de meios” usado por Israel para destruir vidas e bens em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano e em todos os países que teem a desdita de estar perto daquele cancro.
    Se essa gente que se revolta e bem contra o roubo das suas praias se revoltar também contra isto tudo e não repetir o discurso chegano contra pobres e imigrantes vale a pena dizer lhes bem vindos ao clube.
    A não ser assim e simplesmente desejar que vençam essa batalha quanto mais não seja para provar ais ricos que não podem ter tudo.
    Agora não vou dizer bem vindo ao clube a quem está muito indignado com a sua praia mas se calhar também quer cortar a cabeça aos imigrantes, acha muito normal o apoio a Ucrânia e não foi capaz de se indignar com a presidencial bojarda do “somos todos israelitas”. Só para citar alguns exemplos.

  3. Perante este texto e a posiçao do articulista , sinto-me um pouco perplexa. Se alguns que, tanto quanto sabemos – e se calhar nao sabemos tudo -, nao têm simpatias marxistas, mas começam a denunciar o assalto a bens comuns, para mim, a unica atitude correta e inteligente é dizer-lhes: bem vindos ao clube! Para quê hostilizá-los quando ate defendem posiçoes que tambem defendemos. Todos somos poucos, se queremos construir um mundo melhor, e cada um pode dar à sua maneira um contributo.

  4. Se és mesmo professor universitário es burro que nem um cepo e não sei como raios tiraste o curso. Foi numa privada daquelas que faz exames ao domingo de certeza.
    O texto é irónico e repete algumas perplexidades. Porque e que adeptos de futebol se revoltam quando o seu clube perde a pontos de enfrentarem tudo e todos mas depois aceitam trabalhar quase sem salarios e sem direitos nenhuns e ainda chamam comuna ou acusam de não querer trabalhar quem não se submete a tal aleivosia?
    O autor sabe que quem agora se revolta porque lhe querem tirar a praia se calhar também acha normal os ataques aos pobres e os mais de 250 milhões de euros indevidamente pagos aos nazistas ucranianos.
    Era bom que se revoltassem contra tudo o resto como se revoltam agora contra o roubo de uma praia.
    Mas isso não vai acontecer e todos sabemos disso.
    Mas e bom que pelo menos por uma vez quem acha que isto e o melhor dos mundos possíveis finalmente também se sinta roubado.
    Da gozo meu querido cepo.

  5. Que texto espetacular.
    “Ai vocês vêm agora reclamar? Caramba meus grandes camaradas, sejam bem vindos!! ahaha”

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.