Foram-se as asas

(Miguel Szymanski in Facebook, 15/10/2026, Revisão da Estátua)


A Alemanha fica, para já, com a TAP.

Há 15 anos Berlim quis a EDP, mas a elétrica foi para a China, que ficou também a controlar a Fidelidade e o BCP – BCP esse que tinha ficado com o BPA. Os outros bancos passaram para mãos espanholas, enquanto o Novo Banco foi para os EUA, acabando em França, tal como a velha Portugal Telecom (agora nas mãos dum empresário franco-israelita-marroquino).

É olhar para Portugal e ver como esta estratégia foi avançando com uma liga de políticos privatizadores desde Cavaco Silva, passando por Durão Barroso (começou na Comissão Europeia e acabou num banco dos EUA) até Maria Luís Albuquerque (passou por um fundo de investimento dos EUA e acabou na Comissão Europeia), incluindo ainda dezenas de outros ministros, de todos os partidos do arco da governação, que, após prestados os serviços, foram para cargos de topo das empresas anteriormente públicas, vendidas ao desbarato, pelo mundo fora, de Angola à Alemanha.

A soberania financeira foi para Frankfurt, a estratégia política/militar para Bruxelas, Comissão Europeia/NATO, as casas e palacetes, o centro de Lisboa, para os ‘vistos gold’ e para fundos imobiliários.

A seguir virão atrás das terras e minérios que ainda sobram. Finalmente, tentarão privatizar as praias e a água.

Isto não é ser de esquerda, de direita ou do centro. É ser contra um país em saldo que há um quarto de século teve de sacrificar a sua indústria têxtil para a Alemanha poder vender mais carros à China.

Não têm sido bem, ‘vendas’ ou ‘privatizações’. Tem sido um misto de burla, assalto e mutilação. Levaram-nos a camisa, venderam-nos os anéis, paralisaram-nos as mãos e as pernas. Agora levam-nos as asas.

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A privatização das praias

(Andreia Pinto Ferreira, in Facebook, 24/09/2026, Revisão da Estátua)


Já vendemos os anéis. Estamos agora a vender os dedos.


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Figuras como os Duques de Sussex, George Clooney ou Cindy Crawford são os Ed Sheerans e as Pinks do imobiliário de luxo em Portugal, são a fachada glamorosa que valida um ecossistema predatório.

Para compreender o tamanho da hipocrisia, é preciso rasgar o véu do “investimento estrangeiro” e nomear com rigor a origem do dinheiro que está a soterrar a costa alentejana. O betão que bloqueia o acesso dos portugueses ao mar é financiado por impérios erguidos sobre exploração humana, opacidade fiscal e destruição ambiental noutras partes do globo:

Sandra Ortega, dona do projeto Na Praia em Troia, herdou a sua fortuna do império Inditex (Zara). Trata-se de uma indústria historicamente associada à pegada de carbono massiva, ao desperdício têxtil global e a denúncias crónicas de condições de trabalho precárias em países em desenvolvimento. Esse mesmo capital, gerado na engrenagem do consumo descartável, é agora reinvestido para privatizar dunas protegidas em Portugal;

Claude Berda, a força por detrás da Vanguard Properties, construiu o seu império multimilionário no setor dos média e do imobiliário, na Suíça e na França. Especializou-se em captar capitais voláteis através de esquemas de otimização fiscal e na transformação de solo natural em ativos financeiros de alto rendimento para a elite global;

O projeto Costa Terra Golf & Ocean Club, em Melides, controlado pela tecnológica imobiliária americana Discovery Land Company, conta com o envolvimento de fortunas mexicanas sob escrutínio. São capitais que muitas vezes operam através de paraísos fiscais e fundos de investimento cuja origem real das mais-valias permanece oculta por engenharia financeira, longe dos olhos dos reguladores ambientais portugueses.

No xadrez do marketing do ultra luxo, a presença de um príncipe Harry, de uma Meghan Markle ou de um George Clooney vale muito mais do que o valor nominal de um lote de terreno. Por isso é altamente provável que muitas destas celebridades não tenham pago um único cêntimo pelas suas propriedades. Estes famosos não são clientes, eles são o produto.

O modelo de negócio assenta em contratos de endosso disfarçados: O promotor imobiliário oferece a moradia (ou vende-a por um valor simbólico) em troca do compromisso implícito de a celebridade ser fotografada na zona. Quando a notícia “Harry e Meghan compram casa em Melides” corre o mundo, o valor de todos os outros lotes ao redor duplica instantaneamente. O milionário anónimo de Wall Street ou de Frankfurt pagará alegremente 10 ou 15 milhões de euros por uma casa, apenas pelo privilégio de ser vizinho de um membro da realeza.

Ao aceitarem esta borla dourada, os famosos tornam-se cúmplices e escudos éticos. Se o resort estivesse apenas associado ao magnata mexicano ou à herdeira da Zara, o público veria ali apenas especulação mas, com Clooney ou Crawford na fotografia, a destruição das dunas passa a ser “um estilo de vida aspiracional“.

Mas esta máquina de esquecimento não opera sozinha. Para que o crime ambiental e social funcione sem revolta popular, é necessário um exército de relações públicas: os promotores imobiliários, a imprensa cor-de-rosa, os programas de crónica social e as “Cristinas Ferreiras” deste país. Ao bajularem as ditas figuras públicas e ao tentarem, elas próprias, fazer parte desse mesmo círculo social elitista, as figuras da televisão nacional normalizam o bloqueio dos acessos públicos às praias, criando uma narrativa onde criticar o resort é visto como “inveja“, porque, afinal, “as estrelas precisam de privacidade“.

O paralelismo com o mundo da música é total. Assim como criticamos os artistas que vendem os seus valores ao melhor licitante, torna-se urgente apontar o dedo às celebridades que aceitam ser testa-de-ferro da privatização da costa atlântica.

Enquanto a Passadeira Vermelha aplaude o luxo silencioso, o país perde a sua terra, o seu mar e a sua dignidade ao sabor da tradicional passividade portuguesa.

O assalto à Arrábida e o silêncio do Chega

(In RiseUp Portugal, in Facebook, 23/06/2026, Revisão da Estátua)


Sabia que o clã empresarial que quer roubar cinco praias públicas aos portugueses se sentou à mesa com André Ventura para discutir o financiamento do partido? Deixaram um buraco de milhões de euros no Fisco e na Segurança Social com a Air Luxor e agora avançam em tribunal para privatizar as praias da Arrábida.


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O areal de Albarquel, a pacatez da Maria Esguelha, as águas límpidas da Rainha, da Comenda e do Rasca. Para gerações de setubalenses e portugueses, estas cinco praias cravadas no coração do Parque Natural da Arrábida são sinónimo de memória, identidade e pertença. São, acima de tudo, bens públicos. Mas, no Portugal contemporâneo, a ganância de uma elite financeira sem escrúpulos e a hipocrisia de forças políticas que se dizem “antissistema” ameaçam transformar o património de todos no quintal privado de alguns.

Recentemente, a população de Setúbal saiu à rua. O eco da “Grândola, Vila Morena” voltou a fazer-se ouvir contra a privatização das praias. O protesto popular não é apenas uma reação a um processo jurídico; é um grito de revolta contra uma realidade cada vez mais asfixiante: a perceção de que os super-ricos, movidos pela impunidade do capital, se sentem genuinamente donos de tudo — até do mar e da terra que pertencem ao povo.

Quem é a família Mirpuri? O Império por detrás da sombra

Para compreender o assalto à Herdade da Comenda, comprada em 2019 por 16 milhões de euros, é preciso levantar o véu da empresa que assina a escritura: a Seven Properties. Por trás desta fachada imobiliária e do seu testamenteiro jurídico, Fernando Manuel das Neves Gomes, move-se uma das mais influentes e controversas dinastias luso-indianas do país: a família Mirpuri.

Radicada em Lisboa desde 1975, a fortuna do clã expandiu-se a partir de negócios em Angola e fixou-se no radar público através do setor da aviação comercial, liderado pelos irmãos Paulo, Carlos e Marianela Mirpuri. Primeiro, com a Air Luxor, uma companhia que colapsou em meados dos anos 2000 deixando um rasto de insolvências e complexas disputas financeiras. Depois, com a Hi Fly, gigante do aluguer de aviões de grande porte.

A falência da Air Luxor deixou prejuízos diretos para os contribuintes portugueses, além de um rasto considerável de dívidas a fornecedores privados, trabalhadores e passageiros. Quando a companhia aérea colapsou e avançou para a insolvência definitiva, o relatório oficial do administrador de insolvência contabilizou uma dívida acumulada superior a 86 milhões de euros.

Desse bolo total que ficou por pagar, o impacto nos cofres públicos (e, consequentemente, no bolso dos contribuintes) traduziu-se nos seguintes valores assumidos pela própria empresa antes do fecho: Dívida à Direção-Geral de Finanças (Fisco): Cerca de 4,6 milhões de euros em impostos que nunca entraram nos cofres do Estado. Dívida à Segurança Social: Cerca de 3,7 milhões de euros em contribuições por liquidar.

O desaparecimento de bens e a fuga ao fisco

A comissão de credores e o administrador judicial da falência denunciaram publicamente que, aquando da liquidação, grande parte do património e dos bens móveis da Air Luxor tinha simplesmente “desaparecido” do imobilizado da empresa. No aeroporto de Lisboa, restavam apenas materiais de escritório, um veículo ligeiro e um aparelho antigo de puxar aviões, inviabilizando qualquer recuperação de dinheiro para o Estado através da venda de ativos.

A tática jurídica contra o Estado

Para tentar sacudir a responsabilidade das dívidas fiscais e laborais, os gestores da empresa — e mais tarde os novos donos da marca (Grupo Longstock) — alegaram em tribunal que era o Estado que devia dinheiro à Air Luxor. Reclamaram mais de 105 milhões de euros ao Supremo Tribunal Administrativo devido a um concurso público anulado para as rotas dos Açores. Esta litigância serviu, durante anos, para arrastar o processo de falência e camuflar o buraco financeiro deixado na Segurança Social e nas Finanças.

Há um profundo paradoxo — para não dizer uma gritante hipocrisia — na atuação desta dinastia. Através da sua face institucional, a Mirpuri Foundation, o clã promove-se internacionalmente com vistosas campanhas de “filantropia”, “conservação dos oceanos” e sustentabilidade ecológica. Contudo, longe dos holofotes do greenwashing internacional, a sua imobiliária avança nos tribunais de Setúbal com uma ação agressiva para vedar acessos e arrancar cinco praias públicas das mãos dos cidadãos. Para a alta finança, o ambiente defende-se nos painéis de conferências, mas privatiza-se no terreno.

A conexão com o Chega: O jantar da Quinta do Barruncho

É neste cenário de privilégio que a política e o grande capital se cruzam de forma obscura. Diante de um ataque inédito ao domínio público na Arrábida, seria de esperar que os partidos que clamam defender “o povo de bem” contra as elites fossem os primeiros a erguer a voz. Mas, em Setúbal, as estruturas locais do Chega remeteram-se a um silêncio sepulcral e a uma gritante apatia.

Este silêncio deixa de ser um mistério quando se recua a junho de 2020. Uma histórica investigação da revista Visão revelou os bastidores de um almoço secreto na Quinta do Barruncho, nos arredores de Lisboa. À mesa, com o líder do Chega, André Ventura, sentou-se um grupo restrito de milionários e barões da alta finança com o objetivo de discutir o financiamento e as bases de apoio ao partido. Entre esses poderosos nomes estava, precisamente, Paulo Mirpuri, o então líder do grupo familiar.

A engrenagem do populismo de direita fica, assim, a descoberto. O Chega, que construiu a sua narrativa política prometendo combater os meandros do poder e proteger o cidadão comum, revela a sua verdadeira matriz quando o dinheiro fala mais alto. Quando é preciso escolher entre os direitos da população de Setúbal e os interesses imobiliários dos milionários que se sentam à mesa com a liderança do partido, a extrema-direita escolhe sempre os segundos.

O Povo Contra os “Donos de Tudo”

O caso da Herdade da Comenda não é um incidente isolado; é o espelho de um país onde o território e a soberania pública estão à venda ao melhor licitante. O Ministério Público e a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) continuam a contestar a ação em tribunal, defendendo o estatuto público dos areais. Mas a verdadeira linha de defesa está na mobilização popular.

O artigo que a história de Setúbal está a escrever nas ruas deixa um aviso claro a oligarcas e a políticos de conveniência: a Arrábida não tem donos, o mar não tem preço e o silêncio cúmplice dos eleitos do Chega não será esquecido. Contra o poder do capital que julga poder comprar tudo, a força coletiva do povo unido continua a ser a maior ameaça aos privilégios dos poderosos.