Liberais no lucro, socialistas no prejuízo

(Tiago Franco, in Facebook, 14/02/2026, Revisão da Estátua)


Raramente me sento em frente à televisão mas a esta hora, a preguiça ainda bate, o café não desceu e a lenha pode esperar. De modo que estou há uma hora a fazer zapping e a ouvir pessoas desesperadas, privados, autarcas e empresários, que pedem ajuda estatal para cobrir prejuízos e restabelecer a normalidade.

Não tenho qualquer dúvida do papel do Estado numa crise até porque, lá está, eu faço parte do grupo minoritário que defende uma sociedade onde a coesão social e a solidariedade se fazem a partir da gestão de dinheiros públicos, mais conhecidos como impostos. Se, em Portugal, os impostos revertem na ordem de grandeza necessária para as populações, isso é que é todo um debate mais interessante e que, por razões de agenda, não vamos ter aqui hoje. Fica para o próximo texto.

O que me traz aqui é uma dúvida legítima e uma pergunta não retórica. “Para que servem os seguros?” Confesso que não sei mesmo a resposta.

Depois de ter que lidar com bots que me julgavam um profundo avençado do PS, espero agora não ter que aturar outros que me imaginem um acionista da Spinumviva (se bem que seria um PPR interessante, admito).

Voaram telhados de fábricas, partiram-se telhas de habitações, racharam-se estradas, caíram antenas de telecomunicações e destruíram-se redes de eletricidade.

Todos somos obrigados a ter seguro nas casas que compramos (com empréstimo, camaradas, calma agentes de seguros em fúria). Querendo ou não, há uma imposição legal que temos que cumprir e um custo que carregamos para a vida.

As fábricas, imagino, não operam sem seguros.

As autoestradas, são dadas para exploração de empresas privadas com os utilizadores a serem extorquidos diariamente nas portagens. E sim, extorquir é o verbo adequado, tal o preço das portagens portuguesas. E em alguns casos, o governo ainda paga uma multa se o número de carros nas portagens não atingir um mínimo, contratualmente estabelecido.

A rede elétrica é explorada por uma empresa privada e paga, pelos utilizadores, a um dos preços mais altos da Europa.

As comunicações também são exploradas por privados, a preços afastados da realidade nacional e com regras de fidelização absurdas que nos prendem, mesmo quando não queremos.

Contudo, quando algo falha e quando é preciso usar lucros para cobrir gastos não esperados, lá tem que aparecer o Estado a pagar a “ocorrência extrema”.

Os seguros baldam-se porque não podem ser ativados em eventos climáticos. As parcerias público-privadas (PPPs) puxam do contrato que, resumido, diz que o lucro é privado e o prejuízo é público e os privados que controlam os monopólios da energia e das comunicações, metem os CEOs, antigos ministros, a puxar pelos apoios.

Se um seguro não serve para momentos destes porque é que nos obrigam a pagar aquela merda todos os meses? Em 25 anos acho que só paguei seguros e nunca os usei.

Cumprimos regras e mais regras quando compramos casas ou iniciamos atividades empresariais. Pagamos impostos até rebentar. Assistimos à venda a retalho do país, de todos os seus sectores estratégicos, aos privados. Neste caso, convém dar o mérito aos governos do PSD que adoram privatizar tudo o que mexe.

Mas quando dá merda, quando alguma coisa rebenta, quando um telhado voa, quando uma antena cai…toca de pedir ajuda aos impostos.

Para que serve um seguro que é obrigatório?

Para que serve uma PPP se contribuímos para o lucro e pagamos os prejuízos?

Para que servem os absurdos impostos enfiados na fatura da EDP ou as fidelizações idiotas das operadoras?

Tenho genuína curiosidade para saber quem vai pagar o arranjo da A1.

Até a Mariana Leitão me aparece aqui, de quispo no meio do zapping, a pedir ajuda ao governo para arranjar telhados, estradas e geradores.

Meus amigos, sou todo a favor de um estado social, impostos altos, distribuição justa da riqueza gerada e segurança para as populações. Agora, isto de sermos liberais para o lucro e socialistas para o prejuízo, é coisa para aborrecer.

Devo ser por isto que não vejo muita televisão, a não ser que o Pavlidis me apareça bem vestido.

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P.S. – Há sempre um post scriptum nestes textos, não é? Malta das seguradoras…calma. Respirem. Relaxem. Vocês são apenas funcionários, os lucros das “então e não leu aquela alínea?” vão para os acionistas e não para o vosso subsídio de natal. É só um emprego, não precisam de rasgar as vestes.

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A ventania de socialismo

(Tiago Franco, in Facebook, 31/01/2026, Revisão da Estátua)

Uma frota de ministros bem “montados”. Imagem roubada ao processado servidor público, Volksvargas

Se há coisa que António José Seguro (AJS) teve mérito, nesta campanha presidencial, foi o de trazer a palavra “socialismo” para o debate. Para a extrema-direita essa palavra está associada a pobreza e corrupção. Para a esquerda, em princípio, era palavra que não fazia parte do programa do PS há muito tempo.

Depois de um ano aflitivo para o PS, o António acabou por ser o Trubin do Largo do Rato. As voltas que a vida dá e, é por isso, que ela não deixa de ser bela. Maravilhosa ironia.

Não há socialismo em Portugal desde que as linhas ideológicas do PS e do PSD se fundiram, com ligeiras diferenças nas parcerias público-privadas (PPPs). Mas, no essencial, são iguais. E é por isso um enorme favor à esquerda, e ao PS, quando estes são associados com o socialismo. Os estrategas do Ventura, também eles, deviam ganhar um prémio da FIFA, ou algo do género.

Desde que a direita assumiu o controlo do Parlamento que somos bombardeados, diariamente, com ataques ao estado social. Venha pelo lado da imigração ou pelos utentes do SNS. Seja pela tributação fiscal ou pelas obrigações dos grandes grupos empresariais. Seja pelo pacote laboral ou pela descativação de serviços públicos.

Todos os dias. Todo o santo dia, nos martelam com a necessidade de entregar a saúde a privados e fazermos mais “medicares”. Ou de reduzir a carga fiscal das empresas para que estas paguem melhor (sem qualquer certeza). Ou garantir que o Estado sai do mercado da habitação (como se lá estivesse a fazer algo) para que se construam cidades sem fim. Ou que não podemos meter dinheiro na escola pública porque temos que comprar armas e fazer o que a Nato manda. Ou que precisamos de reduzir a função pública, cortar serviços, ser mais eficientes. “Eficiente” é sempre a palavra que um político, sem currículo e com um bom salário, usa quando quer justificar cortes cegos.

Quem vive, e é faustosamente pago pelo erário público, enche diariamente os estúdios de televisão, as bancadas do Parlamento ou as redes sociais, para te avisar que é preciso acabar com o socialismo. Mesmo que não te expliquem o que é o socialismo, ou que tu saibas que muitas das tuas regalias, que hoje usas sem saber como, foram conseguidas por lutas de sociedades solidárias, organizadas e socialistas.

Depois, acontecem os azares. Um cabo parte-se num elétrico, as labaredas que invadem a aldeia, umas rajadas que levantam uns telhados, a chuva que não dá tréguas por uns dias, a intempérie que leva umas árvores ou carros ou tapumes de obras. E aí tu percebes que vives num país de Terceiro Mundo, gritas e ninguém aparece. Nessa altura queres resposta pronta, serviços públicos e proteção civil. Os tais que nos custam impostos e que nos dias de sol estão a mamar. Ora isso é uma parte do tal Socialismo que te dizem ser mau.

O que tens, na realidade, é um país pouco preparado para tudo o que requer planeamento. Ninguém pode evitar o vento (talvez os gajos do ADN que acham o clima uma invenção dos jornais), mas pode-se ter sistemas de apoio às populações e, já agora, as próprias populações com noções básicas do que fazer. A forma como se organiza a sociedade começa na escola, a tal escola de que governo algum quer saber há décadas.

E é por isso que, com alguma certeza, verás os teus governantes a reagirem sempre tarde, meio perdidos, e mais preocupados com vídeos de autopromoção do que propriamente com o trabalho real.

Quem vota, repetidamente, em gente como o CEO da Spinumviva para liderar a Nação, não pode esperar grande coisa. Alguém que defende a inenarrável ministra da saúde ou dá espaço a um subserviente, que nos envergonha diariamente, como Paulo Rangel, não pode saber o que fazer num momento de crise. Alguém que se rodeia de um inútil como Nuno Melo ou que permite que Leitão Amaro seja, na prática, o porta-voz para a imigração do Chega no governo, não percebe sequer a velocidade do vento ou porque se entopem as ruas.

Se quem lidera o país tem a curta visão que as suas próprias limitações impõem e, em simultâneo, defende interesses que não se cruzam com os da população, como é que alguém pode imaginar que, em caso de necessidade, o país pode contar com esta trupe de incompetentes?

Um país que resolveu entregar sectores estratégicos a multinacionais estrangeiras, numa altura de crise, sem comunicações ou eletricidade, agarra-se a quê? Eu sei, vocês também sabem. Mantenhamos o nível, pois. Na melhor das hipóteses arranjam-se uns vídeos de ministros de mangas arregaçadas e unhas roídas e, quiçá, uma chegada em força, numa longa frota de BMWs para ver como está a plebe.

Por mais que te convençam que o socialismo é um bicho papão e, por pior que seja o governante em cada momento, quando as lágrimas te escorrem pela cara e o teu momento de aflição chega, tudo o que queres é alguém, por perto, com meios para ajudar, não é? É como Deus para mim. Não sou grande fã mas quando a turbulência bate naquelas asas, a 11 km do chão, até ao Buda vou.

Pensa nisso, então, da próxima vez que te venderem a lei da selva, as liberdades individuais e todas as metáforas de merda que significam, no fundo, que terás o que conseguires pagar. Não há como uma boa ventania para que percebas que o socialismo verdadeiro, das sociedades organizadas e solidárias, não só funciona como é realmente preciso. Especialmente quando o telhado que voa, é o teu.

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Ir ao pote

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 13/08/2024)


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Ir ao pote. O meu reino por um pote. Blair e Passos Coelho são políticos guiados pela mesma luz: ir ao pote. Tony Blair, o rosto da terceira via do socialismo, levou o Partido Trabalhista do Reino Unido ao governo e venceu mais duas eleições com a promessa de continuar a política da liberal Thatcher. A Terceira Via tinha apenas um objetivo: chegar ao governo, que corresponde ao ir ao pote na frase de Passos Coelho na entrevista à RTP de 17 de Fevereiro de 2011, quando desencadeou a crise da recusa à última hora do PEC IV, que o levaria ao governo.

Tony Blair escreveu há dias um dramático artigo no jornal The Guardian, a espojar-se em público, pedindo aos militantes do Labour para não votarem no velho militante da ala esquerda, Jeremy Corbyn, que, ó céus, tem a ousadia de se afirmar defensor do socialismo! O t’arrenego de Blair é nojento, próprio de um verme, mas elucidativo: ” Se Jeremy Corbyn for líder, não será uma derrota como a de 1983 ou de 2015 nas próximas eleições. Isso significará uma enorme derrota, possivelmente a aniquilação. (…) A eleição para a liderança do partido transformou-se em algo muito mais importante do que a escolha do próximo líder. A decisão agora é sobre se o ‘Labour’ continua a ser um partido de Governo”.

Como se vê, para Blair, o caixeiro-viajante de Bush na guerra do Iraque, a questão não é de um partido, neste caso o Partido Trabalhista que ele pôs a “render” em proveito próprio, ter uma proposta política, uma visão do presente e um projeto para o futuro da sociedade, mas sim do grupo dirigente ir ao pote, de ter a possibilidade de continuar a ir ao pote, de ser governo para uns tantos se governarem.

É, em versão local, exatamente o programa de Passos Coelho e do seu grupo do PAF: fazemos tudo, vendemos tudo, prometemos tudo, não temos princípios, mas deixem-nos continuar com a mão no pote, a ser governo por mais quatro anos. É o grau zero da política, mas também da moral, da ética e, para os seus defensores, o grau zero do carácter.

É sobre esta forma de fazer política, de ter um Blair caseiro, que tratam as próximas eleições.