CNN – Algumas notas sobre o «Prime Time»

(Carlos Esperança, in Facebook, 15/08/2026, Revisão da Estátua)


Não é um programa particularmente estimulante ou equilibrado, mas é um barómetro político do estado a que a política portuguesa chegou. Por isso, é útil acompanhá-lo.

De um lado está Bernardino Soares, sólido, coerente, incisivo, a representar o PCP. Do outro estão Adalberto Fernandes, liberal moderado e urbano, rotulado de esquerda e do PS, Miguel Relvas, do PSD, empresário equidistante do PSD e do Chega, e Pedro Frazão, beato, reacionário, difamador e alheio à verdade, lídimo militante do Chega.

O mais interessante dos quatro é Miguel Relvas, aguerrido, com excelente currículo político e ascendente sobre Adalberto Fernandes. É um ex-licenciado relicenciado, padrinho e ministro do governo de Passos Coelho de que saiu avisando que o fazia de motu próprio.

No programa referido é um rolo compressor da esquerda, especialmente demolidor para o PS, defensor do neoliberalismo, da unidade das direitas, e do governo, até há semanas.

É aqui que o ex e de novo Dr., Miguel Relvas, merece especial atenção. Sendo arriscado defender o governo de um PM ferido na ética e na capacidade, que soçobrou na Saúde e nas contas públicas, fracassou no cumprimento de promessas eleitorais e foi temerário e opaco em compras militares que hipotecam o futuro do País, virou-se contra o Governo.

As investigações ao MAI e acusações judiciais a despachos do ex-vereador, Pinto Luz, ora ministro das Infraestruturas, pela venda de terrenos municipais de Cascais a preços de amigo e a licença de construção em zonas proibidas ao Hotel Hilton, viraram casos de polícia. Os danos dos exames agastaram pais, alunos e professores perante a inépcia ministerial e o fiasco da digitalização de provas foi celebrado como reforma estrutural.

Depois de ter deixado de acreditar na sobrevivência de Montenegro e do seu governo, Miguel Relvas tem a alternativa desejada, Passos Coelho, ora catedrático, cujo regresso vai preparando em apresentações de livros que não lê e bicadas ao ex-líder parlamentar do PSD, agora PM, que defendeu o seu medíocre governo.

O regresso de Passos Coelho, cuja geometria eleitoral o favorece, é uma probabilidade forte. A desilusão popular com este governo, a amnésia coletiva e o apetite de antigos cúmplices e do próprio abrem-lhe caminho para o regresso.

Miguel Relvas é um conspirador experiente e perigoso. Urge prestar-lhe atenção quando o PM já não pode insistir em eleições para branquear nas urnas o comportamento ético dos seus ministros que têm como fasquia a sua própria bitola.

O cinquentenário da Festa do Pontal, em Quarteira, que terá como momento principal o discurso do líder e primeiro-ministro, Luís Montenegro pode ser a última festa do líder que Marcelo levou ao poder e Seguro será incapaz de segurar no governo que se desfaz.

Miguel Relvas voltará a ser regente do que restar da desafinada orquestra do PSD e a ter uma palavra na constituição do Governo Passos Coelho bis.

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Passos Coelho e o mito sebastiânico

(Carlos Esperança, in Facebook, 27/05/2026, Revisão da Estátua)

Por mais inexplicável que seja a sedução sebastiânica, não há dúvida de que o fanatismo e o comportamento severo do rei, que tinha aversão ao casamento e obsessão demencial pela dilatação da fé católica, se impregnaram no inconsciente português.

Surpreende ver em Passos Coelho um salvador da Pátria, mais capaz de se precipitar em qualquer Alcácer Quibir onde desbarate o resto do património que não pôde privatizar do que ter uma única ideia sobre os desafios económicos, políticos e ambientais que nos esperam.

Ontem, o medíocre cidadão e péssimo governante saído da madraça da JSD, produto de Miguel Relvas e Marco António, emergiu de Massamá e do mundo académico para apresentar um livro, onde se encontrou com a mais mediática das suas crias, o inefável André Ventura.

Os média foram ouvi-lo com a ansiedade e desvelo com que outrora as meninas de Vila Real, por entre suspiros, anunciavam o presidente da JSD, está cá o Pedro!

Do livro e da exegese do conteúdo não há notícias, apenas o fino recorte da linguagem do apresentador e a ansiedade pelo regresso ao poder em parcas palavras para os média.

Quando o Professor Passos Coelho se referiu aos «políticos postiços que ficam como prostitutos» quem o ouvia julgou que se referia a André Ventura, e quem viu com quem estava acompanhado, ficou sem dúvidas de que chamou prostituto a Luís Montenegro.

Ora, sendo o Luís, o líder parlamentar do PSD que defendeu as decisões trágicas do seu governo, o Pedro designou retroativamente como bordel o antigo grupo parlamentar e confessou que foi ele o proxeneta que lançou o Luís na prostituição e o manteve até que Cavaco foi coagido a retirar-lhe o alvará, impotente face à imposição da geringonça.

Prostitutos sem carácter! Estamos perante um empate a três.

E quanto a populistas postiços (Luís) e populistas naturais (André), o Pedro prefere o segundo. Quanto ao carácter dos três, venha o Diabo e escolha.

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Ir ao pote

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 13/08/2024)


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Ir ao pote. O meu reino por um pote. Blair e Passos Coelho são políticos guiados pela mesma luz: ir ao pote. Tony Blair, o rosto da terceira via do socialismo, levou o Partido Trabalhista do Reino Unido ao governo e venceu mais duas eleições com a promessa de continuar a política da liberal Thatcher. A Terceira Via tinha apenas um objetivo: chegar ao governo, que corresponde ao ir ao pote na frase de Passos Coelho na entrevista à RTP de 17 de Fevereiro de 2011, quando desencadeou a crise da recusa à última hora do PEC IV, que o levaria ao governo.

Tony Blair escreveu há dias um dramático artigo no jornal The Guardian, a espojar-se em público, pedindo aos militantes do Labour para não votarem no velho militante da ala esquerda, Jeremy Corbyn, que, ó céus, tem a ousadia de se afirmar defensor do socialismo! O t’arrenego de Blair é nojento, próprio de um verme, mas elucidativo: ” Se Jeremy Corbyn for líder, não será uma derrota como a de 1983 ou de 2015 nas próximas eleições. Isso significará uma enorme derrota, possivelmente a aniquilação. (…) A eleição para a liderança do partido transformou-se em algo muito mais importante do que a escolha do próximo líder. A decisão agora é sobre se o ‘Labour’ continua a ser um partido de Governo”.

Como se vê, para Blair, o caixeiro-viajante de Bush na guerra do Iraque, a questão não é de um partido, neste caso o Partido Trabalhista que ele pôs a “render” em proveito próprio, ter uma proposta política, uma visão do presente e um projeto para o futuro da sociedade, mas sim do grupo dirigente ir ao pote, de ter a possibilidade de continuar a ir ao pote, de ser governo para uns tantos se governarem.

É, em versão local, exatamente o programa de Passos Coelho e do seu grupo do PAF: fazemos tudo, vendemos tudo, prometemos tudo, não temos princípios, mas deixem-nos continuar com a mão no pote, a ser governo por mais quatro anos. É o grau zero da política, mas também da moral, da ética e, para os seus defensores, o grau zero do carácter.

É sobre esta forma de fazer política, de ter um Blair caseiro, que tratam as próximas eleições.