O significado da convulsão passista

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 22/12/2020)

A curiosa coincidência entre a bombástica entrevista de Cavaco Silva ao bem sincronizado Observador e o discurso de Passos Coelho numa homenagem a Alfredo da Silva, o industrial que era um “rufião pitoresco”, no dizer do então embaixador inglês, é reveladora de uma fraqueza e de uma ameaça – e, se a fraqueza foi ignorada pela direita, em contrapartida a ameaça empolgou-a, revelando aliás outra fraqueza mais funda.

Por partes, começo pela primeira fraqueza: é que pouca gente tomou as palavras de Cavaco Silva como mais do que uma recordação longínqua ou um oráculo de convocações misteriosas. O problema é que essas invocações só reverberaram quando foram milimetricamente relançadas dois dias depois pelo ex-primeiro ministro.

Percebe-se a diferença entre dois discursos iguais. Passos Coelho tem uma patine que falta a Cavaco Silva: é que o ex-presidente tenta anunciar que ainda está, mesmo que já não esteja, e o ex-primeiro ministro lembra que esteve, mas quer voltar. Foi essa ameaça que empolgou os saudosistas. Um afinado coro passista veio logo incensar o herói, anunciando que a esquerda fica “em pânico” mal a voz cava do amado líder, a abrir o seu discurso profético, anuncia um “boa noite” cheio de mensagem, ou que os dias de Rui Rio e António Costa estão contados, ou que agora é que o grande entendimento histórico com o Chega se torna possível, ora porque Ventura será recambiado para Loures, ora porque um PSD tonintruante reunificará todas as direitas. Mas tanto entusiasmo é uma fraqueza, porque se baseia numa cândida ilusão, a de que o país aspira por austeridade.

Pior ainda, que seja o negócio da TAP que desencadeia tanto tumulto, já diz muito sobre os terrenos movediços em que se movem estes embaixadores políticos, que prometeram muito a algumas empresas e que agora as querem compensar. O PSD com a TAP, como em 2015 o CDS com a concessão dos transportes suburbanos de Lisboa, agenciam interesses poderosos mas vulneráveis a esta coisa incomodativa que são as eleições e as pressões da opinião pública. Por isso, ao ameaçar voltar mas não voltando, diz que é mais ano, menos ano, o herói da direita saudosa tenta erguer-se a um patamar sebastiânico que dispense a pergunta sobre o que conseguiu em Alcácer Quibir e que diabo pretende fazer depois de calamidade tão nutrida.

Agora, que Passos Coelho “regressará”, é uma evidência escrita nas estrelas. Em política, há duas certezas que se aplicam a (quase) toda a gente: (quase) todos se vingam e (quase) todos querem regressar. E o ex-primeiro ministro, como tantos outros, fervilha com o pressentimento de que o país precisa dele, seja em S.Bento, seja em Belém, e que a sua peregrinação pelo poder é um dever.

Cedo sentiu esse chamamento, quando em menino e moço soube passar da JCP para a JSD e seguir carreira pela juventude partidária, que é, como noutros partidos, um alfobre de grandes valores na aprendizagem do trepadorismo. Assim, chegou onde chegou, não por um caminho de afirmação profissional ou por ideias luminosas, mas pela carreira mais tradicional no partido, e isso ensina o que só se aprende ali: que quem não se vê não existe, quem não está não manda.

A fraqueza mais funda da direita revela-se nesta busca de quimeras salvíficas, quando lhe falta projeto e país. Concluo, portanto, que a ameaça de Passos Coelho é uma excelente notícia: mostra tudo o que a direita quer mas não faz, deseja mas não consegue. E, quando se aproximar desse seu futuro, encontrará demasiado passado. Convenhamos que não é entusiasmante.


A sebastianização de Passos Coelho?

(Domingos Lopes, in Público, 22/11/2019)

O tempo aceleradíssimo que vivemos faz esquecer muita coisa, mas não se podem apagar as palavras nem sobretudo as obras. Após a queda de SócratesPassos antes do ato eleitoral que o catapultou a primeiro-ministro, prometeu que melhoraria o nível de vida dos portugueses e mal chegou a São Bento desencadeou uma política de confessado empobrecimento.

Eis o fantástico mundo real contra o qual batem os que defendem que Passos enfrentou os DDT (Donos Disto Tudo) – ver artigo de João Miguel Tavares de 16/11/2019.

Passos capitaneou em Portugal o monumental embuste de que a crise resultava dos portugueses viverem acima das possibilidades, escondendo que tinha sido o sistema financeiro quem com a sua ganância desmedida tinha provocado a crise.

De cima do seu mando e de chicote na mão fustigou económica, social e moralmente a população trabalhadora de Portugal. Nunca se lhe ouviu uma única palavra de crítica aos DDT. Armou-se em seu capataz. Foi o que foi, sendo os DDT, em geral, os donos dos meios de comunicação social, onde está o enfrentamento? Só no fantástico mundo da imaginação para desculpabilizar Passos e sebastianizar o seu regresso privatizador e austeritário para se vingar dos desmandos da geringonça.

Passos e Paula Teixeira da Cruz são ainda responsáveis por uma das medidas mais cruéis que atingiram a Justiça – o encerramento de vinte tribunais e de vinte e sete outros que passaram a secções de proximidade contribuindo para um maior abandono das populações do interior. Ordenaram a passagem das ações de família e menores e todas as ações de valor acima de 50.000 euros para as sedes das comarcas e a deslocalização das ações executivas para um tribunal de cada comarca.

Ainda hoje em certos distritos as sedes distam de alguns municípios dezenas e dezenas de quilómetros (setenta a cem quilómetros em muitos casos), o que impede a quem se deslocar de transportes públicos de o poder fazer no mesmo dia. A Justiça não chega aos que vivem afastados do litoral.

Com Passos Coelho os que eram pobres ficaram mais pobres. Muitos dos remediados ficaram pobres. A classe média encolheu. Uma minoria ínfima ficou mais rica. Este povo desgraçado que acreditou nas promessas de Passos recebeu vergastadas a castigá-lo pelos desmandos dos DDT.

Passos sangrou o PSD de alguns restos de centrismo político tingidos de social-democracia para o lançar na direita neoliberal, rivalizando com o CDS nessa área. Empurrou o partido para a direita destemperada, abrindo espaço ao PS ao centro com o qual engordou.

Porventura o que faz alguns recordarem nostalgicamente Passos Coelho é a sua obstinação ideológica em querer destruir o Estado social e deixar meia dúzia de serviços públicos à míngua destinados aos “intocáveis” e entregar as riquezas ainda sobejantes aos DDT e fazer dos seus amigos novos ricos chegados ao tal clube dos DDT como o inenarrável Relvas e C.ª…

Ressuscitá-lo como um político que enfrentou os DDT e a comunicação social ronda o cómico. O legado de Passos foi pobreza a rodos, servida com a veemência de alguém que se desumanizou. Foi o que foi, sem apelo e sem agravo. Quem o quer de volta não pode vender gato por lebre.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico


O Xarabaneco

(In Blog O Jumento, 11/11/2019)

Quem estivesse distraído e ligasse a televisão neste fim de semana pensaria que estava a festejar-se uma espécie de Halloween político dedicado ao governo de Passos Coelho. Primeiro foi o morto vivo dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, a aparecer a dar uma entrevista, uma forma de tornar público que acabava de ressuscitar. No domingo abriram as portas do cemitério do governo de Passos Coelho e foi o que se viu na apresentação do Monte de negro, só lá faltava o Cavaco Silva.

Nunca a apresentação de um candidato à liderança do PSD foi tão clara quanto às ideias, propostas e gente para governar, aliás, tudo aquilo foi perda de tempo e de dinheiro, o candidato não passa de um xarabaneco. Tudo aquilo não passou de uma peça de um teatro de xarabanecos e até lá estava o próprio Passos Coelho, mas como era ele a manipular os xarabanecos não era visível, por estar atrás da cortina.

Estava lá o xarabaneco do grupo parlamentar, a xarabaneca das finanças e vários outros xarabanecos do governo de Coelhos, defuntos da nossa vida política ressente, que ganharam vida neste Halloween fora de época, graças a esta encenação de xarabanecos.

Mas se tudo aquilo foi ridículo não deixa de ter alguma utilidade: os portugueses sabem agora que há um PSD que quer acabar a obra inacabada de Passos Coelho, quer voltar a cortar nas pensões, voltar a cortar nos vencimentos do Estado e aplicar o mesmo corte aos trabalhadores do privado. Voltou a ladainha das duas legislaturas e só não disseram o que defendem porque todos os sabemos.

Este regresso de Passos Coelho escondido atrás do xarabaneco que era líder parlamentar tem muito de positivo e se Rui Rio for derrotado o governo de António Costa tem muito a ganhar. Desde logo porque o PCP e o BE percebem que ainda não é tempo de derrubar um governo do PS e que o cenário do passado se repete: se o derrubarem terão de enfrentar a política de Passos Coelho. E o Presidente da República dificilmente sonhará com a hipótese de usar o segundo mandato para ajudar o PSD a regressar ao poder.


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